segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (386)


Museu Coleção Berardo
Tom Wesselmann, Great American Nude, 1963
Acrílico, tecido e papel impresso sobre contraplacado
152.3 x 121.9 x 4 cm


Nascimento a 23 de Fevereiro de 1931, Cincinnati
Morte a 17 de Dezembro de 2004, Nova Iorque

Nesta pintura de Tom Wesselmann, o lençol branco em baixo, sobre o qual se estende o nu, é um tecido colado (diz o pintor que prefere utilizar estes materiais, pois sente-se incapaz de os pintar). As duas personagens segurando cocktails resultam da ampliação de uma fotografia colada na tela. Não são identificadas, mas refletem a imagem transmitida pela sociedade americana. A homenagem a Henri Matisse expressa-se não só na odalisca, o grande nu, mas também na reprodução do quadro no canto superior esquerdo. Trata-se da pintura intitulada Deux jeunes filles, robe écossaise robe jaune [Duas jovens, vestido escocês vestido amarelo] de 1941 (Musée Matisse, Le Cateau-Cambrésis) no qual figuram também os dois retratos de cada lado do grupo central. À direita, um cortinado vermelho bordado de branco deixa entrever a paisagem de um parque emprestada de um quadro antigo. Percebe-se aí o detalhe de um Claude Monet no início de carreira, de um Frédéric Bazille ou de um impressionista americano como William Merritt Chase, mas não foi possível identificar a obra. A mesinha ao fundo, a mesa negra atrás do nu, a poltrona, o vaso de flores ou os frutos tratados de um modo liso, impessoal, participam na ambiguidade da cena. O pintor explica, a propósito da sua série Great American Nudes, ter «renunciado desde o início a dar-lhes um rosto […]. Quis, de facto, que uma espécie de movimento fluísse através do quadro e certas coisas, por exemplo, excesso de detalhes poderiam refrear esse movimento». Cada quadro comporta uma referência aos Estados Unidos da América, como retratos de George Washington, de Abraham Lincoln ou fragmentos da bandeira nacional, neste caso as estrelas à direita.
AC

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Dar Voz ao Silêncio




Dar Voz ao Silêncio 
(Música de Palavras / Libreto) 

Uma viagem através da criação poética, feita entre um Carnaval e um Domingo de Páscoa, com Quaresma e Semana Santa pelo meio, ano de 2018. Entre a farra e a alegria da festividade humana, pagã, e o dia da ressurreição, cristã. 

Antes de mais dizer que um libreto, segundo a Wikipedia, do italiano libretto, é o texto usado numa peça musical do tipo ópera, opereta, musical, oratório e cantata e, cujo plural, libretti significa literalmente livrinho. Ele inclui tanto as palavras das partes cantadas quanto das faladas.

Este livrinho é dedicado ao nosso planeta Terra, o planeta azul, que nos dias que correm anda demasiado cheio de lixos e fumos vários, embora seja grande a sua autocapacidade de regeneração para lá das manias antropocêntricas de alguns. 

Fazendo minhas as palavras do meu amigo José Batista, "Gaia", a Terra mãe, de onde nós humanidade "saímos" de um parto recente, após um desenvolvimento de 3.800 milhões de anos. A biosfera é uma finíssima "película" superficial. Cuidemos dela em vez de a delapidar e contaminar. Em grande parte a preservação da Natureza depende da nossa ação quotidiana. Boa Viagem. Bons ventos de navegar. É esta a hora.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

AMANHÃ REGRESSA A MATILDE

Livros Escolares da Matilde, IV O livro do Estudo do Meio da autoria de (1) 



E a Matoldas chega amanhã com a tia Fátima, o Quim e o Daniel que estão de férias e vêm passar estes dias connosco. 



A Luísa sugere que visitemos as festas de Campo Maior, no fim-de-semana. 



Mas eu estou cheio de saudades do pardalito. 


 Alhos Vedros 
  24/08/2004


NOTA

(1) O manuscrito ficou assim mesmo; por qualquer motivo esta ficha do livro de Estudo do Meio ficou por fazer.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL ... (385)



 Ilustrador Curt Swan

Nascimento: 17 de fevereiro de 1920, Minneapolis, Minnesota, EUA
Falecimento: 17 de junho de 1996, Wilton, Connecticut, EUA

Curt Swan foi um desenhista de história em quadrinhos norte-americano, mais conhecido por seu trabalho nas revistas do Superman. Convocado pelo Exército dos Estados Unidos em 1940, ele passou a Segunda Guerra Mundial trabalhando na publicação Stars and Stripes.

Prêmios: Will Eisner Award Hall of Fame, Inkpot Award

in Wikipédia

Selecção de António Tapadinhas

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Relembrando os 114 anos do nascimento do Professor Agostinho da Silva




QUADRAS SELECIONADAS DE AGOSTINHO DA SILVA

Do que vos dou bem duvido
de que seja a conta certa
se faltar é só dizer
se sobrar é mesmo oferta

De sermos tudo o que somos
quanta gente aí se acanha
mas se fizemos Brasil
foi por ciência e por manha

Mais que tudo quero ter
pé bem firme em leve dança
com todo o saber de adulto
todo o brincar de criança

Nunca voltemos atrás
tudo passou se passou
livres amemos o tempo
que ainda não começou

Dará Portugal ao mundo
em céu de amor e de espanto
seu Império do Divino
divino Espírito Santo

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

A BATALHA #287 - jan-fev. 2020

  • Capa de Gonçalo Duarte
     
  • A rasgar: A política identitária portuguesa afinal não gosta assim tanto dela própria (ou: em defesa dos empata-fodas)
    [António da Cruz]
     
  • Mixing & Jana [episódio 69]
     
  • Em Peruíbe cultiva-se a resistência
    [Mário Rui]
     
  • Populismo
    [Zé Povinho + Matilde Feitor]
     
  • Este mundo é uma distopia
    [P.]
     
  • Melhor os mortos do que uma mudança
    [Centro Studi Libertari / Archivio G. Pinelli + Gianluca Costantini]
     
  • Retratos à la minuta. Eugène Delacroix, La Barque de Dante
    [Emanuel Cameira]
     
  • "A partir de agora, é uma questão de facto. O mundo está prestes a transformar-se num único e enorme supermercado"
    [Russo]
     
  • Aos olhos da amnésia
    [Nuno Martins]
     
  • Vienet
    [Manuel Figueiredo]
     
  • Entrevista inédita a Emídio Santana
    [Manuel Henrique Figueira e Maria Teresa Figueiredo]
     
  • O movimento revolucionário de 18 de Janeiro de 1934 em Leiria
    [Hermínio de Freitas Nunes]
     
  • O Estandarte e A Batalha
    [Téofilo Braga]
     
  • O Partido Comunista do Brasil de 1919: uma iniciativa libertária
    [Alexandre Samis]
     
  • O fim do capitalismo
    [Estrela Decadente]
     
  • Mulheres anarquistas na "transição espanhola"
    [Laura Vicente + João Carola]
     
  • À lupa
    [recensões a 4-track solo demos (1995-1999); ABC d'une Bête; BTTM FDRS; Cat in a Bag; Em Açúcar de Melancia; Fogueteiro Azeitão; Mundo Real Poético; O Hábito faz o Monstro #18; Passe Social; Pull; QorosQorus; Selva!!!; They just sit about; Trente Ans de Cavale, ma vie de punk; Ventos Borrascosos]
     
  • Lobsang Rampa
    [Walt Thisney + 40 Ladrões]
     
  • Centro Anarquista Português de Artes Modestas
    [Marcos Farrajota]
A Batalha está à venda na Tortuga, Letra Livre, A Banca 31, Barata, Frenesi Livros (Anchieta ao sábado de manhã), Distopia, Leituria, Linha de Sombra, Papelaria Sampaio, Papelaria da Estação do Rossio, RDA69, Sirigaita, Snob, Tigre de Papel, Zaratan - Arte Contemporânea, ZDB, nos quiosques junto ao Largo do Rato, na Rua Alexandre Herculano, na Calçada do Combro, na Rua Camilo Castelo Branco e no Largo do Chiado (Lisboa), no Centro de Cultura Libertária (Almada), no Gato Vadio, na Utopia e na UNICEPE (Porto), na Uni Verso (Setúbal), na Fonte de Letras (Évora), na Centésima Página (Braga), na Traga-Mundos (Vila Real) e no quiosque da Estação de Camionagem (Bragança).


As condições de assinatura de A Batalha são as seguintes: 
Portugal: 6 nºs: 9,00€ / 12 nºs: 17,00€
Europa: 6 nºs: 16,00€ / 12 nºs: 31,00€
Extra-Europa: 6 nºs: 17,00€ / 12 nºs: 33,00€
O pagamento poderá ser efectuado para o NIB do CEL:
0033 0000 0001 0595 5845 9.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Fim-de-semana de repouso, com jornais e Llosa, tal e qual estava a precisar para me recompor do esforço laboral que ainda tenho por necessário nos próximos dias. 
Não terei dormido tanto quanto desejava, uma vez que cedo nos erguemos da cama para gozarmos a praia de Sesimbra. Mas é o que eu chamo o mistério do mar, para o qual basta-me olhar e deixar que o espírito aí se perca, para sentir um renovar de energias no corpo e na alma que nesta ocasião me serão úteis para as refregas que aí vêm. 


E hoje à tarde deixei-me ficar na companhia da maratona feminina com os King Crimson como som de fundo. 

Impressionante foi a prova da maratonista japonesa que chegou em primeiro lugar que, por volta do vigésimo quinto quilómetro, impôs um andamento a que ninguém resistiu e que depois soube dosear sozinha a consagração da entrada no antigo estádio olímpico – em que já dei uma volta completa à pista, em passeio, é bom de ver – e vencer a corrida com todo o brilhantismo da alegria sobrepondo-se à máscara do esforço no momento de cortar a meta de braços abertos. 

Igualmente a queniana que ficou em segundo lugar protagonizou uma prova espectacular, com uma recuperação empolgante que deixou a concorrência para trás e lhe permitiu assegurar a medalha de prata. 

Lamento não ter fixado o nome destas atletas mas ambas as prestações me entusiasmaram. O recorde olímpico da maratona masculina pertence a Carlos Lopes, com duas horas, nove minutos e vinte e um segundos, desde as olimpíadas de Los Angeles em oitenta e quatro do século passado. 

Se resistir a estes jogos, ultrapassará assim as duas décadas. 

Até ao momento, este é ainda o maior feito do desporto nacional. 


E é o que põe a nu a ditadura que o mundo da bola exerce sobre a sociedade portuguesa. 


Quando os defensores do euro dois mil e quatro apresentaram todas as suas razões que nada tinham a ver com os aspectos desportivos, propriamente ditos e chegaram à demagogia extrema que, para mim, se confundiu com a vigarice, de alegarem que o evento teria potencialidades para polarizar a retoma económica – isto não é uma anedota – estavam precisamente a esconder o facto de o universo que orbita em torno do futebol sugar ao erário público muito mais do que devia e até do que é moralmente aceitável. 

Com efeito, se pretendíamos projectar a imagem do país no estrangeiro, como não tenho dúvida alguma em aceitar que se conseguiu com o europeu de futebol, mas se o desiderato era esse teríamos tido muito mais retorno se tivéssemos concentrado os recursos para uma organização olímpica que poderia ter sido planeada de maneira a dotar o país com infra-estruturas desportivas – e não só de um tipo de desporto, em particular – que posteriormente poderiam ser aproveitadas para funcionarem como polos de desenvolvimento neste âmbito específico das actividades humanas, nomeadamente e em primeiríssimo lugar no referente ao desporto escolar que não existe entre nós. Como facilmente é entendível, um tal evento tem uma audiência televisiva e uma cobertura mediática muito maior que o euro dois mil e quatro jamais poderia aspirar a conseguir. 
E depois um estádio olímpico seria muito mais fácil de manter e animar de modo lucrativo do que os dez que o estado pagou, o mesmo é dizer que os nossos dinheirinhos de cidadãos contribuintes pagaram para, a permanecerem as coisas como estão, ficarem às moscas e a reclamarem mais apoios públicos para que não se degradem com uma rapidez que, de todo, seria desaconselhável. 

Mas a verdade é que no meio de todo o generoso pacote que o país pagou, ninguém repara que ao Futebol Clube do Porto foi oferecido um centro de estágio pela Câmara de Gaia e todo um complexo desportivo nas Antas, onde fizeram o estádio do dragão e todas as acessibilidades, para além das negociatas dos terrenos e construção em que até o amigo Pôncios Monteiro aparece como empresário promotor. 


Enfim, é isto o mais triste exemplo do planeamento estratégico para o desenvolvimento desta triste sociedade. 



A Margarida começa a acusar o nervosismo pelo aproximar do começo do novo ano lectivo e a mudança de escola. 
Ultimamente tem feito perguntas sobre os horários e a turma e as indicações quanto ao primeiro dia de aulas que revelam uma agitação própria de quem se sente inquieta com o recomeço do ano escolar e o início de um novo ciclo. 


Vamos estar atentos nos próximos dias. 



E agora o sono, mas ainda antes lerei uma página de Llosa dos primeiros tempos cheios de exuberância. 


 Alhos Vedros 
 22/08/2004

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (384)


The Kiss, Francesco Hayez, 1859
Óleo sobre Tela, 112 x 88 cm

Nasceu em Veneza a 10 de Fevereiro de 1791 e faleceu em Milão a 12 de fevereiro de 1882. Foi um pintor italiano, considerado o máximo expoente do romanticismo histórico.  Originário de uma família humilde, o pai, Giovanni, era de origem francesa, enquanto a sua mãe, Chiara Torcella, era natural de Murano.

Já de pequeno mostrou predisposição pelo desenho, por isso seu tio confiou a um restaurador para que lhe ensinasse o ofício. Posteriormente foi discípulo do pintor Francisco Magiotto, com quem permaneceu durante três anos. Fez o seu primeiro curso de nu artístico em 1803 e em 1806 foi admitido nos cursos de pintura da Nova Academia de Belas Artes, onde foi discípulo de Theodore Matteini.

Em 1809 ganhou um concurso da Academia de Veneza para ser aluno da Academia de San Luca próxima de Roma. Por isso, mudou-se para a capital italiana onde passou a ser discípulo de Canova que foi seu guia e protector durante os anos que passou em Roma.

Em 1850 foi designado para director da Academia di Brera.


in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Breves Apontamentos sobre o Budismo


Luís Santos

 O BUDISMO

Depois de atingir o despertar Siddartha Gautama, o Buda, foi exortado pelos deuses a transmitir aos outros a sua sabedoria. Os seus primeiros interlocutores foram 5 ascetas errantes, samanas da floresta, seus companheiros de vida nos primeiros tempos que se seguiram ao abandono do palácio real e da companhia dos seus familiares e súbditos. Esse célebre primeiro discurso ficou conhecido pelo “Sermão de Benares” e iniciou os ciclos de ensinamentos budistas.

Quando se fala em Buda, a palavra mais que uma pessoa designa um estado de consciência. Etimologicamente, a palavra Buda significa:
Bu (realizado) - purificação de todos os obscurecimentos, conceptuais e emocionais;
Da (liberto) - libertação ao nível cognitivo e afetivo, depois de ultrapassados os obscurecimentos.

O atingir de um estado de omnisciência absoluta e relativa, quer dizer, que vê a realidade como ela é, a verdadeira natureza das coisas, tal como as limitações das mentes não libertas.

 AS 4 NOBRES VERDADES

As 4 nobres verdades do Budismo podem resumir-se nos seguintes passos:
1. Constatação do sofrimento
2. O sofrimento provém do desejo, da avidez
3. É possível cessar o sofrimento
4. Há um caminho para cessar o sofrimento

O sofrimento é o ponto de partida do budismo.
A causa de todo o tipo de sofrimento é a ignorância, por não se conseguir apreender a verdadeira realidade das coisas.

Há um desejo, uma avidez, que nos guinda constantemente a uma necessidade de saciamento (por natureza insaciável) e que está em relação com a nossa herança kármica. É esta inquietação fundamental que mesmo em silêncio nos pressiona. É o desejo de continuar a ser, de preservar uma identidade, que nos guinda a sucessivas existências…

A cura é não só possível, como desejável. As causas são internas e é possível removê-las. Há um caminho. Alguma coisa que está livre de tudo isto e que nos permite a libertação.

 O MÉTODO DO “ZAZEN”

“Zazen”, etimologicamente decompõe-se em “za” que significa “sentar-se” e em “zen” que significa “pôr o espírito em repouso, concentrar o espírito e a mente”.

Ou seja, em síntese, o zazen, é uma técnica meditativa que se faz sentado. Mas, então, como se sentar? Podemos sentar-se na posição de lótus, ou mais fácil para iniciados, na postura do meio lótus, perna esquerda no chão, pé direito sobre a coxa esquerda. Os joelhos devem tocar o solo. A coluna vertebral estará bem direita a partir da curvatura da região lombar. Os ombros caem naturalmente e o ventre estará completamente descontraído. A mão esquerda palma para cima repousa na mão direita e os polegares têm um contacto entre si nas extremidades. As mãos devem tocar o ventre. Olhos abertos. Olhar pousado a um metro do local onde estamos sentados. Inspiração viva profunda, expiração lenta, profunda, poderosa. Esta uma das formas possíveis de praticar a meditação.

A prática do zazen é, simplesmente, o regresso a nós mesmos, a junção com o Eu absoluto. O zen é a própria realidade. Se o nosso espírito está vazio, então surge a verdadeira intuição que está para além da negação e da afirmação. Pelo zazen podemos voltar ao espírito puro. Mas atenção, zazen não é um estado passivo, uma paragem do cérebro, pelo contrário, é uma outra forma de atividade. Do mesmo modo se pode dizer da ideia budista de vacuidade que não é um sentido do nada, mas uma totalidade, uma liberdade universal.

 REENCARNAÇÃO

É um dos ensinamentos fundamentais do budismo. O espírito humano pode elevar-se até a um “espírito subtil” ou “consciência subtil”. Esta consciência existe independente do corpo e do cérebro. É o espírito subtil que reencarna. Seguindo o Dalai Lama, a reencarnação (que é uma escolha) está ligada a um certo nível da vida do espírito. Se este espírito for desenvolvido pode escolher o seu próprio destino. É então um passo para a libertação, para uma possível melhora. Sem esta escolha o renascimento é uma queda no samsara. A reencarnação pode ocorrer num outro planeta, numa outra galáxia. Os estados nobres do espírito podem estender-se até ao infinito.

 TRANSFERÊNCIA DA CONSCIÊNCIA E GRANDE LIBERTAÇÃO PELA ESCUTA

Quando os sinais ocorrem indicando que a morte se aproxima devemos prepararmo-nos para a transferência da consciência e refletirmos sobre os ensinamentos da Libertação pela Escuta nos Estados Intermediários.

Quanto à transferência da consciência há um exercício que deve ser treinado:
Devemos tapar todos os orifícios começando pelo reto, da procriação, umbigo, boca, narinas, olhos e ouvidos. No cimo da cabeça devemos visualizar a fontanela, depois visualizar também o canal central, no meio do corpo, direito e ereto – na sua extremidade inferior, abaixo do umbigo devemos visualizar um ponto seminal branco e brilhante, o qual constitui a essência da consciência desperta, pulsando continuamente e à beira de ascender. A força vital vai movê-lo ascensionalmente, até ao umbigo, depois coração, depois garganta, depois o espaço entre as sobrancelhas e, por fim, vai até à fontanela, após o que devemos visualizar que ele gira de novo para baixo e vem repousar abaixo do umbigo como uma difusão branca. Há que permanecer neste estado durante algum tempo.

Diz-se que obteremos a libertação se a consciência sair pela fontanela da coroa. Os lugares mais importantes do corpo para uma transferência da consciência depois da fontanela são os olhos e a narina esquerda.

Quanto à Grande Libertação pela Escuta, quando uma pessoa se aproxima da morte é habitual procurar-se um lama qualificado que deve iniciar as recitações de introdução ao estado intermediário.

Após a respiração haver cessado, a energia vital é absorvida no canal da sabedoria primordial e a consciência emerge como uma radiância interior. O defunto pode ouvir tudo o que se passa à sua volta, mas os outros não o podem ver. Assim, ele pode ir-se embora. Neste momento surgem três fenómenos: sons, luzes e raios de luz, o que pode provocar medo ou pasmo. Assim, durante este período deve ser lida a Grande Introdução ao Estado Intermediário da Realidade.

Terminaremos com um pequeno excerto da leitura a ser realizada:
“Ó Filho da Natureza de Buda, quando a tua mente e corpo se separarem, surgirão as puras (e luminosas) aparições da própria realidade: subtis e claras, radiantes e deslumbrantes, naturalmente brilhantes e terríveis, tremeluzindo como uma miragem numa planície no Verão. Não as temas! Não fiques horrorizado! Não estejas aterrado! Elas são as luminosidades naturais da tua própria realidade verdadeira. Reconhece-as portanto.” O corpo agora que tens chama-se um “corpo mental”. Tu, agora, estás para além da morte. Isto é o estado intermediário. Se não reconheceres os sons, as luzes e os raios de luz, continuarás a vaguear dentro dos ciclos da existência.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Mais Um Poema...


“Egocêntrica Energia Espirito Da Eterna Vida Fluida Advinda Dos Confins Cósmicos”

A energia espirito trouxe-me consigo dos confins do Universo
Implantou-me no gérmen das imortais sementes da Vida
Semeou-me ao acaso por todo o lado no fecundo ocaso

Transformou-me em imensa panóplia de animais e plantas
Insuflou em mim o fluido sequencial da essência Cósmica
Fez de mim uma mera parábola de reencarnações sem fim

Há muito sou uma sequência de transmutações transmórficas
Transformo-me em vento e água e em terra em perfeita simbiose
Em momento algum deixo a sucessão evolutiva do passar do tempo

Alimento-me sempre de sonhos e ilusões materializadas fantásticos
Imagino-me dentro e fora do corpo e de outros aspectos físicos
Embarco e desembarco constantemente em Mundos díspares

Passo de oito a oitenta em um nada que mal se sente ou vê
Decaio em decadência célere à velocidade do som e da luz
Mexo-me e remexo-me quase à vontade no seio da Inteligência

Há quem diga que sou Divino e que todos somos somente um Sêr
Não tenho quaisquer dúvidas por dissipar ou questões a pôr
Coloco-me de frente para o Sol a receber seus raios luminosos

Evaporo-me em ciclos eternos e pingo por toda a Aurora existencial
Formo-me num imenso arco-íris pejado de mil côres espectaculares
O Juízo e a Consciência cobrem e tingem-me de pigmentos a pele natural…

Torno-me desapercebido e abstracto ao facto de ser uma egocêntrica máquina…

Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 3 de Fevereiro de 2020, em Homenagem aos Místicos, aos Espiritualistas, Filosóficos, Teosóficos e a todos os que buscam a Razão da Vida Existencial e da Fonte de sua Origem, Criação e Disseminação, por todos o quadrantes do Universo Astral Cósmico material e físico e ainda, etérico e espiritual…

“Aos Rosacruzes e à Incomensurável E Infinita Alma Cósmica, Inteligente e Criadora Essência da Vida Existencial Universal…”

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A canícula faz da madrugada
o palco de uma ópera grilada

até onde os ouvidos alcançam.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (383)

Auto-retrato Triplo

Norman Rockwell nasceu 3 de Fevereiro de 1894 e morreu a 8 de Novembro de 1978.

Em 1960, Norman Rockwell produziu um dos auto-retratos mais famosos da arte americana. Um homem naturalmente modesto, ele claramente tinha algumas reservas sobre tornar-se sujeito de uma capa. Ele já se havia escondido antes, mas geralmente apenas como uma participação especial, nunca como a figura central.
Ao descrever esse trabalho, Rockwell explicou por que seus óculos parecem opacos. “Eu tive que mostrar que meus óculos estavam embaciados e que na verdade não conseguia ver como eu era - um sujeito caseiro e magro - e, portanto, consegui esticar a verdade um pouco e me pintar com uma aparência mais suave e afável do que na verdade sou.

in The Saturday Evening Post

Selecção de António Tapadinhas





in The Saturday Evening Post

sábado, 1 de fevereiro de 2020

EG #120


ESTUDO GERAL
Jan/fev       2020           Nº120
  
Iluminação é quando uma onda percebe que é o oceano.
Thich Nhat Hanh
  
Sumário
Parabéns
Fotografia
Um poema
Graffitar a Literatura
Conto inédito
Real…Irreal…Surreal
Diarística
Estórias

---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Graffitar a Literatura (V)


“Dona Genciana em Cascais”


«o mundo é do tamanho do meu quarto»
(A Paisagem da Janela, Branquinho da Fonseca)


Dona Genciana era a personagem central de uma novela de José Rodrigues Miguéis que a descrevia deste modo:

«Assim era Dona Genciana: feita para reinar na moldura do serralho ou do lar. Visse-a você ali à janela, na bata de folhos engomados, o cabelo preto todo frisado a papelotes, cotovelos no peitoril, os seios fartos aninhados como pombos nos braços roliços, – e não resistiria a admirá-la como todos nós, os do tempo. Sugeria frescuras, grandes lavagens, bochechos de água de Botot, conchegos tépidos, colchões macios, noites regaladas. Vista de perto, não era nova, nem bela, nem elegante. Tinha mesmo o nariz avermelhado e grosso. Mas os seus olhos eram negros e rasgados, a pela alva e fresca, o cabelo abundante. E tinha essa fartura de carnes que, com o ardor dos olhos e as rendas e folhos, faz o nosso encanto: “Mulher asseada!” ou “Bom colchão!
(…)
Devia andar na casa dos quarenta e era viúva. Ainda hoje pergunto se ela seria, como diziam, ‘brasileira’, ou melhor, portuguesa de torna-viagem.
(…)
Alguma coisa ela devia ter de seu, para levar a vida assim à janela, a criar calos nos cotovelos, sem mexer uma palha. Mas dinheiro, se o tinha, nunca ninguém lho viu: dívidas tinha, e muitas.» (pp. 12-3) 
Imaginei-a um século depois e, em vez da pensão na (então nova) Avenida Almirante Reis, em Lisboa, estaria agora numa casa em Cascais, na Rua Nova da Alfarrobeira, 16A, onde Mário Belém concebeu um grande mural (cobre toda a lateral e a frontaria de um prédio de dois pisos), de que aqui se destacam apenas as suas janelas. Neste  seu novo contexto, seria possível ouvi-la, quando pela manhã, na abertura rotineira da janela, se apercebesse como aquela parede exterior estava renovada, animada de coloração e fantasia:
– Isto só pode ser obra de alguém que muito me ama. Como posso resistir a esta declaração de amor, em forma de graffiti?
Escancaro a minha janela e deslumbro-me com todo este mar de cores! A fachada branca ‘hospitalar’ do velho prédio (carcomido pelo tempo e pelo desleixo do senhorio) ganhou, de repente, a alegria explosiva das cores que nos enche a alma. Que moldura esta! Agora, ainda mais me regalo a vir à janela. 
Ao meu graffiter (tímido, suponho, mas ‘esbanjador’ de tinta) dou, naturalmente, um «sim» convicto. Confesso, tocou-me a sua arte e o meu coração está, de novo, pronto para novas e deleitosas ‘pinceladas’.
 Esta obra de José Rodrigues Miguéis (Saudades para a Dona Genciana. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1956; um «caderno» de 32 p. com desenho de Carlos Botelho) foi adaptado ao cinema por Eduardo Geada (1983), tendo recebido os Prémios do IPC aos Melhores Argumento (Eduardo Geada. Hélder Costa, Machado da Luz), Fotografia (Manuel Costa e Silva) e Actriz (Maria do Céu Guerra); o filme viria a estrear-se em 1985, no 1º Festival de Cinema de Tróia.
 Rodrigues Miguéis foi «escritor excepcional (…) o maior de todos nós», como o definia José Gomes Ferreira (A Memória das Palavras1965: 272). Autor de uma vasta obra que se desdobrou pelo romance (O milagre segundo Salomé, 1975, adaptada ao cinema por Mário Barroso, 2004), novela (Páscoa Feliz, 1932, Prémio Casa da Imprensa), conto (Léah e Outras Histórias, 1959, Prémio Camilo Castelo Branco), crónica (O Espelho Poliédrico, 1973), teatro (O Passageiro do Expresso, 1960), tradução (Coração Solitário Caçador de Carson McCullers, Estúdios Cor, 1958)…
 José Rodrigues Miguéis nasceu, em 1901, em Lisboa. Aí, se licenciou pela Faculdade de Direito (1924); fez também a licenciatura de Ciências Pedagógicas na Universidade de Bruxelas, na Bélgica (1933), como bolseiro da Junta de Educação Nacional. Foi professor provisório de História e Geografia no liceu de Gil Vicente (1929) e docente universitário nos EUA, para onde emigrara em 1935; viria a morrer em Nova Iorque, em 1980.
No nosso pequeno universo literário pejado, no entanto, de prémios literários, não existe, curiosamente, nenhum com o nome do autor de A Escola do Paraíso.
Post scriptum: Mas eis que um dia, um (mais que provável) writer, em processo de aprendizagem não tutelado, não encontrou melhor ‘tela’ (para a sua prática de spray can) que aquela deslumbrante fachada concebida pelo criativo Belém, durante o Muraliza 2014. O jovem artista  (nascido nos finais dos anos 70) deve ter ficado bem abespinhado (mesmo sabendo que no seu ofício, a arte é sempre marcada pelo sentido do efémero). Mas, caramba, que esses riscos estejam associados ao desgaste do tempo, e não às mãos de gente que pretende vir a integrar a mesma ‘tribo’ – a dos Street ArtistsPor sua vez, Dona Genciana, perante esta vandalização do seu edifício, fechou a janela e recolheu-se a penates… com lágrimas rebeldes (de indignação) que de modo algum queria públicas.
Luís Souta
(texto e fotos) 

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A Margarida passou hoje o dia no escritório, com o pai. 

E não é que a pequenita ajudou-me numas quantas tarefas relativas ao arquivo de documentos? Mas também abriu e despachou o meu correio electrónico, eliminando o lixo circulante e imprimindo aquilo que me interessava. 

“-Hoje sou eu que levo as coisas para o meu pai.” –Disse ela à Mónica segurando numa série de papelada que eu tinha pedido à outra. 



Portugal anda mal. 

Esta palhaçada das cassetes gravadas pelo jornalista do Correio da Manhã já provocou a demissão do Director da Judiciária e de uma assessora de imprensa da Procuradoria-Geral que, supostamente, terá prestado informações indevidas por sequer serem passíveis de terem chegado ao seu conhecimento e além disso sujeitas ao segredo de justiça. 

A pergunta fatal não há quem a faça: quem ganha com isto? 

O jornalismo de encomenda que temos logo tratou de fazer eco das vozes da área do PS e, pasme-se, do Bloco de Esquerda, que vieram a público exigir a demissão do Procurador-Geral. 


É de bradar aos céus, digo eu. O que é que esta gente pretende? 


O caso Casa Pia está assim a ser reduzido, ao nível da opinião pública, a um processo que de violação em violação do segredo da justiça acabará por ser apresentado como uma guerra entre estes e aqueles no contexto da qual os crimes de que saíram acusações mais não são que peças inventadas dessas mesmas vinganças. 

Passarão gerações até que o estado de direito recupere, em Portugal, de toda esta calamidade por que o estão a fazer passar. 

Os maus venceram nesta pátria maldita. 

Até parece que nunca houveram vítimas nem o sofrimento indizível daqueles que viram a sua intimidade violada e a vida despedaçada por um bando de criminosos. 



Em Najaf joga-se mais um episódio da guerra mundial que o terrorismo apocalíptico, naturalmente em aliança com o fanatismo religioso, declarou ao mundo livre que parece teimar em seguir o princípio da avestruz. 

Paira o espectro do totalitarismo sobre o planeta. 


 Alhos Vedros 
  20/08/2004

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (382)


A Cow Lodge with a Mossy Roof, Samuel Palmer, 1829
"Watercolor and gouache with pen and black ink on medium, cream, slightly textured wove paper", 438 mm x 597 mm 


Samuel Palmer nasceu em Londres, a 27 de Janeiro de 1805 e faleceu em Redhill, a 24 de Maio de 1881.
Foi um pintor paisagístico inglês, que também utilizava técnicas de Água-forte e impressão. Ele também foi um escritor prolífico.
Palmer foi uma figura chave no romantismo britânico e produziu pinturas visionárias pastorais.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Um conto inédito


O GÉNIO

Dores Nascimento

Isaías andava desanimado com os últimos acontecimentos. Do palheiro, nada sobrara depois de dominado o fogo, pelo menos acima das lajes que lhe tinham servido de chão. Com restos de uma vassoura, Isaías revolvia as cinzas, procurando nada ou qualquer coisa, nem ele sabia o quê. Conformado com a inutilidade da busca, começou a varrer a lixarada negra, com exasperada energia, enquanto o suor lhe escorria pelo rosto, traçando riscas mais claras na fuligem que o cobria. Deu por concluída a tarefa quando todas as lajes ficaram completamente a nú. Sacudiu as mãos uma na outra, puxou de uma garrafa de água que tinha num dos vários bolsos do colete, tomou um gole e sentou-se numa pedra a olhar para tudo e para coisa nenhuma. Amanhã ou depois ou quando lhe apetecesse, se lhe chegasse a apetecer, começaria a juntar materiais para a reconstrução.

Depois, desconsolado, desfocou a vista em horizontes distorcidos por fumos, e promessas de lágrimas rejeitadas com as costas da mão, quedando-se então a sua atenção, num desusado objeto, a meia dúzia de passos, que parecia uma lamparina de azeite. Levantou-se lentamente, ligeiramente espantado com o achado e tomou-o entre as mãos, cuidadosamente. Nos sítios onde a sujidade permitia, brilhava como ouro. Estava quente, bastante quente até. Isaías atribuíu, ainda que um pouco cético, o estranho calor ao recente incêndio, mas, se o rescaldo ocorrera há duas noites, o arrefecimento estaria mais justificado que o seu contrário, contudo, não relevou este dado e começou  a limpar o achado à fralda da camisa, para lhe perceber bem a natureza. Com a fricção, a temperatura deu em subir tão de repente, que fez com que  Isaías largasse o achado ou queimaria seriamente as mãos. Assustado, deu um passo para trás e não é que a lamparina, ao embater nas lajes, libertou uma enorme nuvem brilhante, que descerrou a figura de uma espécie de homem sem pernas, suspenso no ar, com um turbante na cabeça, os braços cruzados e um bigode farto e retorcido!?

Isaías por momentos considerou a possibilidade de estar no meio de um pesadelo, contudo a figura revelada nada tinha de hostil, portanto pesadelo não era, quando muito um espalhafatoso sonho, pelo menos à primeira vista.

-Uf, até que enfim, meu amigo. Isto de ser génio, já não é o que era. Nos tempos que correm, ninguém liga importância a lâmpadas esquecidas em palheiros.  

Isaías de idade avançada, mas ainda robusto, destemido e muitíssimo lúcido, procurava enfrentar o figurante sem dar parte de fraco e compreender o que se estava a passar; e antes que lhe perguntasse, já o génio lhe respondia em lufadas de palavras, o que não era para admirar. Há quanto tempo estaria ele enfiado naquela coisa, sem poder articular palavra ou alongar o corpo?

-Há muitos anos atrás, por razões que já nem recordo, mas que tenho uma vaga ideia que foi por castigo, fui parar dentro de uma lâmpada, onde permaneci uma eternidade. Depois um jovem chamado Aladino lá me encontrou. Satisfiz desejos a uns e a outros, mas depois, quando chegou o momento do último desejo dele, que era a minha liberdade, a namorada de nome Jasmim, levou um pequeno coice de um burrito e desmaiou e ele na aflição e sem pensar, gritou: Acorda-a, dá-lhe água, e leva-a  para casa, enquanto eu vou ver de quem é o burro. E zás. Três banais desejos esbanjados de uma assentada, quando só lhe restava um. Pois bem, não foi possível contornar um exagero daqueles. Se fosse só acorda-a, e leva-a, eu até podia assobiar para o lado e desconsiderar os pedidos como desejos, mas  a água é que estragou tudo, mal lhe estendi o púcaro, fui sugado para dentro da minha lâmpada para mais uma eternidade, que durou até hoje.

-Então, e não me leve a mal por perguntar, ainda lhe resta alguma reserva de desejos para satisfazer.
- Deixe ver aqui nos meus apontamentos, disse, consultando uma fita atada a um dos pulsos. Restam-me precisamente dois, confere inteiramente com o que me lembrava. O saldo disponível são dois, prémio por mais uma eternidade que passei aprisionado. O meu amigo tem alguma coisa importante a pedir? Não hesite, oportunidade como esta não se repetirá. Mas não se precipite. Escolha bem, e não se esqueça que eu também gostava muito de ser gente. Com o Aladino, que era uma excelente pessoa quase consegui, clamava o génio batendo com o punho direito na palma da mão esquerda.

Na casa de Isaías e de Palmira sua esposa, um pedaço de uma história paralela acontecia, narrada por Augusta.

-Procurei qualquer coisa com que escrever, para deixar um recado ao marido de Palmira, sobre os procedimentos para umas análises médicas, que Palmira tinha de fazer. É que a cabeça dela já não dava conta destas coisas. Padecia há uns anos da doença do esquecimento.

Abri umas das três gavetas do móvel da entrada, e deparei com muitos guardanapos dobrados, daqueles que saem de dispensadores que se encontram nas mesas dos cafés. Finos e translúcidos. Afastei-os para um dos lados, encontrei um marcador vermelho que servia o propósito da busca e aproveitei a abundância dos guardanapos, para escrever num deles. Reparei então que alguns tinham palavras e números escritos. Recolhi-os cuidadosamente do amarfanhamento a que os tinha sujeitado pela busca e sentei-me numa cadeira, com um pano sobre os joelhos, onde coloquei o curioso pecúlio, para decifrar o que lá estava escrito.

Vários tinham Benvindos a beirais, 14 h  , outros,  almoço batatas com bacalhau, almoço sopa e bacalhau assado, hoje futsal e hoje ben hur canal  memória.

D. Palmira, uma senhora idosa, a quem eu de vez em quando faço companhia e alguma lida de casa, tinha sido uma linda mulher, a olhar às fotografias que  pela casa se vêm. A vida de D. Palmira era agora como um livro a que se vão arrancando folhas, do fim para o princípio.  Os recados achados na gaveta, nos guardanapos de papel de café, foram escritos por ela e a ela destinados, no tempo em que a consciência do esquecimentos ainda era sentida, no tempo em que ela sabia que se esqueceria e tentava contrariar essa realidade. Fiz-lhe perguntas sobre os recados, confessou com um sorriso de inocência que parecia ser a sua letra, mas que não se lembrava de os ter escrito. Leu todos os recados com atenção, corrigindo a posição dos óculos para ver melhor e tornou a sorrir com a descoberta, mas com um sorriso diferente, um sorriso conformado, um pouco triste talvez. Conversámos e notei-lhe uma certa habilidade para rematar os assuntos, defendendo-se para não acusar a fragilidade da sua memória. Habilidade e inteligência.

Fascinada perguntei a Palmira pelo esposo. Respondeu que devia estar na fazenda. Mas não, tinha ido ver dos estragos do palheiro, sabia-o eu. Ainda há um par de anos passava grande parte do seu dia numa fazenda e essa memória encontra-se gravada nas referências de Palmira, das idas ao palheiro, já não. O incêndio que o destruíra há uns dias, muito menos. Observei-a com carinho, enquanto ela própria observava atentamente as próprias mãos, buscando insuficiências nas unhas como algo de prioritário e inadiável. Ajeitou o chapéu cinzento, adereço inseparável, tal como a chave pendurada ao pescoço com uma fita verde da junta de freguesia de sua terra natal, os óculos e um vistoso relógio de pulso com uma bracelete rosa vivo. Gosta de saber as horas e constantemente acerta os ponteiros, logo que suspeita atrasos ou adiantamentos de um ou dois minutos, apesar de não reconhecer horários para coisa nenhuma.

Perguntei-lhe pela família, disse me que tinha uma filha muito parecida com o pai, um genro muito amigo e um neto e que o neto tinha uma namorada.

Com um sorriso sonhador contou-me que fora modista e que fizera muitos vestidos de noiva. Contou-me que o marido fora preso político em Caxias e no Porto. Sobre a idade, disse ter mais de oitenta anos e que fazia anos em Agosto. Perguntei-lhe o que tinha almoçado, disso, não se lembrava. Sobre uma cama de ferro de um quartinho encontra-se um montinho de roupa dobrada. Separei a roupa para a guardar com a ajuda de Palmira, que me indicou as gavetas dos lençóis e da roupa interior. Disse-me que o pijama não era dela, que não era lá de casa, mas que a filha, que tratava da roupa o trazia sempre por engano. 

Sentámo-nos em duas cadeiras, à porta, a apanhar o fresco da tardinha e várias mulheres, homens e crianças que passavam, cumprimentaram-na pelo nome. Perguntei-lhe quem eram, respondeu que os conhecia a todos, mas que não recordava os seus nomes. Um ou outro paravam e trocavam com ela meia dúzia de frases, mas ela na defensiva, conseguia iludi-los com as suas desconcertantes respostas, -Estou bem, cá vamos andando, saúde para todos.

Então comuniquei-lhe que a médica de família lhe passara umas análises ao sangue e à urina. Análises de rotina.  No dia seguinte teria de fazer xi-xi para um frasquinho, em jejum. Concordou com um desinteressado aceno de cabeça.

Fui depois arranjar-lhe um copo de leite, que ela bebeu com satisfação até ao fim e tornei a falar-lhe das análises, que tornaram a ser novidade. Disse-lhe que escreveria um recado ao marido e que depois ele ou a filha, a ajudariam a lembrar-se na manhã seguinte. Pediu-me que escrevesse o recado num papel grande, e para o colar na porta da casa de banho.

Entrei em casa e procurei um papel maior que os guardanapos. Encontrei um envelope vazio e desmanchei-o. Peguei no marcador e escrevi “Fazer xi xi , e logo fui interrompida pela Palmira com a pergunta: O que é que quer dizer “fazer onze onze”, pois sim, Palmira, perdeu parte da memória, mas não esqueceu a numeração romana. Complicado o funcionamento da nossa cabeça.

Entretanto Elias regressa a casa com o mágico escondido, mas não prisioneiro.

-Palmira, hoje fiz um achado que pode mudar a nossa vida. Ela sorriu, ajeitou os óculos e perguntou: Então o que foi?

-Cruzei me com um génio, ou melhor com um mágico que pode satisfazer-nos desejos. Esfregou a lâmpada e o mágico surgiu em todo o seu esplendor, para gáudio de Palmira, que o achou muito simpático, poucos minutos volvidos.

Querida Palmira, é como se nos tivesse saído o euromilhões, melhor que isso até, porque há coisas que o dinheiro não compra, por exemplo a tua memória. O génio pode satisfazer dois desejos. Um deles é qualquer coisa boa para nós, o outro é a liberdade dele, para que passe a ser um homem livre e se liberte definitivamente da lâmpada de que se encontra refém.

Palmira não aparentava grande surpresa, e trivialmente disse ao marido: - Oh Isaías, tens a cara tão suja, o que é que andaste a fazer, por que não vais lavá-la? –Sabes, andei a limpar as cinzas do incêndio, está tudo negro e seco. Quem nos dera uma boa chuvada que limpasse os ares e vencesse esta seca por este país fora.

Palavras não eram ditas, e a chuva fez-se sentir em todo o território e lá se gastou um dos dois desejos. Isaías tapou a boca com uma mão e entre emoções, disse, - Gastei um desejo com a chuva e agora?

O Génio estava triste com a perspetiva que já vislumbrava: Mais uma eternidade na lâmpada. Mas, Palmira segurou a mão de Isaías e com uma lucidez perturbadora disse, -Isaías, meu velho, a chuva é uma coisa boa para nós, agora vamos gastar o segundo desejo noutra coisa ainda mais importante para nós desde sempre e para sempre, a liberdade. E pediu a liberdade para o génio.

Moral: a cura do alzheimer chegará de forma científica, e não através de génios de lâmpadas. Contudo, os princípios e os valores, bons ou maus, permanecem nas memórias dos portadores da doença, porque esses não se esquecem, fazem parte de cada um de nós para sempre.