Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves


sábado, 13 de junho de 2020

Uma disponibilidade para o Tudo


A "Ilha dos Amores" e o “Quinto Império”: entre Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva

Luís Carlos dos Santos


O Padre António Vieira, o Imperador da Língua Portuguesa, como Pessoa o designa no seu livro “Mensagem”, exemplo vivo do homem total e do universalismo português, uma das personalidades mais distintas e originais da nossa cultura, é herdeiro da teoria joaquimita das “Três Idades” que são constituídas, como já se disse, pelas eras do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que têm correspondência na Terra a três grandes períodos históricos, o primeiro, desde a Criação anunciada no Evangelho até à conversão de Constantino, imperador Romano, ao cristianismo; o segundo, até à expansão da mensagem cristã ao mundo com os Descobrimentos Portugueses; o terceiro, com a consumação até ao final dos tempos do V Império, ou seja, da consolidação do Reino de Deus na Terra, com a descida do Paráclito, na unificação de todas as nações do mundo numa comunidade eclesial conforme a profecia bíblica.
Mas Vieira há-de demarcar-se de Joaquim de Flora, pois que para si são Cristo e a Igreja, e não o Espírito Santo, os consumadores do Reino Divino na Terra. Como nos diz Paulo Borges, “…uma igreja composta de santos e abrangente de toda a humanidade.”[1] Depois da queda a libertação será em Cristo. A progressiva apropriação de todos os homens em Cristo, pela universalização da Igreja e da santidade. Ou seja, do “fim dos tempos” em que Deus será tudo naqueles que nele transfigurados, já não serão muitos mas Um só, suponha o necessário esforço humano de uma remoção dos impedimentos à manifestação de tal Unidade.[2]
Seguindo Paulo Borges, “Mais do que uma realidade histórica, determinada por contraste com tudo quanto a antecede, a real Jerusalém Celeste é o “estado” de uma plenitude não compartimentada, em todos transparecente e toda de todos para todos fluente, na integral comunhão amorosa: “…porque todos perpetuamente se vêem a si mesmos, todos vêem a todos, e todos vêem tudo. Nada se esconde ali, porque lá não há vício; nada se encobre, porque tudo é para ver; nada se recata, ou dificulta, porque tudo agrada; e porque tudo é amor, tudo se comunica.”[3]
Em Vieira, a ideia de Santo Agostinho sobre a existência das “duas cidades”, “cidade dos homens” e “cidade de Deus”, correspondem à existência de Quatro Impérios já historicamente verificados, assírio, persa, grego e romano, e ao “Quinto Império” que estaria por vir, por construir, e que seria português.
Vieira vai relacionar a missão de Portugal na construção do “Quinto Império” com o que ele “encontra prefigurado no sonho de Nabucodonosor, interpretado pelo profeta Daniel: a pedra que, sem intervenção de mão alguma, embate violentamente nos pés de ferro e argila da terrível estátua antropomórfica, com cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze, pulverizando-a e convertendo-se numa “grande montanha” que enche a terra inteira (Daniel, 2, 31-45). Abatendo o gigantesco ídolo de pés de barro – símbolo dos quatro impérios e dos poderes mundanos (…) e da própria história enquanto exílio do Paraíso original -, a pedra, figura do Messias, do Cristo, ou da consciência desperta e livre, converte-se na montanha cósmica, símbolo da totalidade e do eixo que une céu e terra, espírito e matéria, transcendência e imanência.”[4]
É a missão da consolidação do Reino de Deus na Terra em que Vieira vê Portugal como o seu mais elevado representante, desde a aparição e profecia de Cristo a D. Afonso Henriques, antes da Batalha de Ourique quando lhe diz: “Vai e funda o meu Reino.” Cristo faz de Portugal a vanguarda do seu crescimento terreno, compreendendo-se que na consumação do império português a própria “potência” divina resulte “sublimada.”[5]
A Missão de Portugal é, pois, a de fundação de um Reino de Deus na Terra, fundado não para fins políticos como acontece com outras nações, mas com um fim apostólico que lhe é particular. É esse também o objetivo primordial dos Descobrimentos Portugueses.[6]
Como refere Agostinho da Silva, “O Vieira falava do mundo redimido, do mundo restituído plenamente ao Cristo (…) Afinal o povo português tinha o ideal de cumprir Cristo! (…) e que esse mundo perfeito tinha que ser fabricado por portugueses e por espanhóis.”[7]
Para o nosso autor, a profecia de Vieira está concretizada até à parte em que Portugal se autonomizou das colónias que administrava, acabando assim também por se libertar a si próprio, “O nosso ideal é que cada homem seja um universo nele próprio. O nosso ideal é que cada comunidade seja um universo nela própria. (…) Portugal está autónomo. Os outros bocados do que era Portugal autónomos estão. Mas isso não impede que haja entre eles relações de franqueza, não de política, e de atenção ao que neles há de comum para que se ressuscite um conjunto de comunidades capazes de partirem para um projecto que todos aceitem.”[8]
A obrigação hoje de cada português é a de pensar o mundo inteiro em paz com plena liberdade de pensamento em cada um. Claro que a paz e a liberdade devem ser construídos por todos, e não será obra exclusiva de portugueses. Mas, diz Agostinho, “o que acontece é que eu nasci em Portugal! O que acontece é que eu me fiz num país, o Brasil, que fala português, que tenho conhecimento de outras terras que falam português, pelo menos oficialmente, e que a minha primeira atenção vai para esses. A minha primeira atenção vai para os que estão mais perto de mim.”[9] E, por outro lado, cada vez que Portugal seguiu mais outros países que não o seu próprio íntimo, Portugal falhou. “ Então eu realmente quero pensar o problema, desejo pensar o problema quanto possível no âmbito possível dos povos que falam português ou espanhol. Depois veremos os outros. Por enquanto, eu não quero implicar os outros nesta história, porque de cada vez que eles entraram na vida portuguesa e na vida espanhola atrapalharam muito a outra que estava correndo bastante bem. É o problema que se põe agora com a CEE.”[10]
Voltando ao nosso Padre, Vieira tal como Camões ambos sustentaram que no tal mundo divinizado corpo e espírito ambos se conservam em liberdade. Em Camões isso aparece de forma muito mais ampla que em Vieira, eventualmente, pela influência que poderá ter recebido da filosofia oriental. Não se sabe. De qualquer forma, “um homem superior acaba por ser ao mesmo tempo do Ocidente e do Oriente. (…) E é a isso que devemos rumar.”[11]
Pessoa tem uma ideia diferente de Vieira sobre Quinto Império. Em Vieira o princípio dinâmico é mais político, em Pessoa mais unipessoal. “É que ao passo que o caso de Vieira é um caso político, o caso do Quinto Império do Pessoa é um império em que cada homem e cada mulher se soltem, um império que eles próprios exercem sobre si mesmos. Que cada homem e cada mulher possa atingir um ponto em que tenha a absoluta liberdade.”[12]
Mas Vieira também não seria contra essa conquista de liberdade, simplesmente, o caminho para lá chegar é diferente, o que é normal porque Vieira e Pessoa são personalidades históricas muito diferenciadas… “O próprio Camões o tinha pensado assim na Ilha dos Amores. Ali não há nenhum aspecto de limite à liberdade, está-se fora do tempo e fora do espaço, até disso se soltaram os homens. (…) Ao passo que o Vieira é, digamos, o político do colectivo, o Fernando Pessoa aparece como político do individual.”[13]
Seguindo as palavras de Agostinho, “O Vieira tem por último ideal, porque não podia ter outro, que o império que ele deseja construído por portugueses seja um império sem imperador, um império que os homens vivam numa fraternidade humana e numa compreensão divina, sem que nenhum homem mande em outros homens, sem que nenhuma nação mande em outra nação. Quando ele diz que o Quinto Império é instaurado por Portugal, não quer dizer que Portugal continue como imperador.”[14] O Vieira “era um homem de Brasil e Portugal, ele pensava fundamentalmente como é que vamos unir essas duas coisas, problema que ainda hoje anda por aí. Para já não falar das outras colónias ou províncias ultramarinas mais recentes. O Fernando Pessoa talvez tivesse achado que o grande caminho para isso não era a política que fez o Vieira e que ele perdeu… O Pessoa, já que ele não se sentia com capacidade de acção junto dos outros, talvez ele tivesse achado que o importante dele era aprofundar-se e soltar-se a si mesmo antes de soltar os outros. E quem sabe se não é esse realmente o caminho mais certo?”[15]
Mas Agostinho não deixando de reconhecer a importância dos dois pensadores portugueses e que, no fundo, embora as diferenças sejam substanciais, como diferentes são as épocas em que ambos viveram, não deixa de relevar o objetivo comum que os une, o que o leva a afirmar que “talvez o melhor seja juntar os dois e chamar-lhes Fernando Vieira…”[16]
Fernando Pessoa decidiu pôr-se à disposição de tudo o que aparecesse, do imprevisível, e aqui coloca-se a questão do Espírito Santo como a entidade do imprevisível de tão grande importância para o nosso Professor. “ E quando o São João diz no Evangelho, pondo as palavras na boca de Cristo, que será o Espírito santo o verdadeiro consolador dos homens, ele está a tirar a ideia de que pode haver um consolador muito mais válido, muito mais amplo do que o próprio Cristo. Um consolador que não venha curar as feridas e consolar o desastre, mas um consolador que venha de dentro pondo o espírito criador em perfeita liberdade. A verdadeira libertação dos homens, a verdadeira revolução seria pôr em perfeita liberdade o criador, o poeta que provavelmente todos os homens são. Não é o político, o poeta!”[17]
Então se pensarmos num império universal, que sirva um e outro lado, tanto o Vieira como o Camões têm limitações, porque defendem o Deus ocidental, ou seja o Todo. Já em Pessoa encontramos pela primeira vez a ideia de um Deus que é tudo, mas tem ao mesmo tempo a ideia de um deus que é uma disponibilidade.
Então, para Fernando Pessoa, “um império instaurado por gente do tipo português, essa unidade do mundo, em lugar de império podemos chamar-lhe uma unidade do mundo, essa unidade do mundo teria como filosofia e como teologia uma que declarasse verdadeiros todos os seus aspectos: o aspecto de tudo e o aspecto do nada. E podia unir isso não como alguma coisa contraditória à maneira do zen, como alguma coisa que tivesse dois aspectos contrários na sua unidade, mas por exemplo como alguma coisa que nós pudéssemos representar pela palavra disponibilidade.”[18]
Portanto, Agostinho da Silva vê uma perfeita linha de continuidade entre Camões, Vieira e Pessoa, embora pesem os diferentes tempos em que viveram e a inevitabilidade de serem influenciados pelas ideias de seu tempo. No fundo, Camões, Vieira e Pessoa são heterónimos do desejo de que haja no Mundo alguma coisa que seja a realização plena do homem. Ou, concluindo com palavras suas, “entendendo que o homem não é apenas esta coisa que vive aí uns anos e morre, mas que é alguma coisa de eterno, como uma centelha de fogo. É a centelha que se apaga, mas é também o fogo que sempre existe no mundo, qualquer aspecto que tomemos! Então o Camões, Vieira, Pessoa são aspectos de várias épocas, de várias tonalidades, de vários temperamentos, com o mesmo ideal de que haja no mundo alguma coisa que seja a realização plena do homem. A ideia de que essa realização plena não existirá se nós escolhermos, se fizermos tal coisa e abdicarmos de tal outra! Mas que essa realização plena é a disponibilidade para tudo. Uma disponibilidade que é ao mesmo tempo quieta, sentada, passiva, e uma disponibilidade que tem um ideal. É a disponibilidade para o tudo, nos vários aspectos com que o tudo nos aparece.”[19]
Quando Camões fez, no regresso da viagem de Vasco da Gama à Índia, os nautas aportarem na Ilha dos Amores abriu um “rasgão” no tempo e no espaço. De facto, essa ilha não existe. Não há rota, ninguém sabe que caminho os navegantes percorreram. “Os fenómenos desaparecem. Isto é, o Camões declara afinal, de outra maneira, que, para chegar àquela verdade absoluta que é a divinização do homem sem perder o humano, tem que se ultrapassar todo o mundo dos fenómenos. Estamos ultrapassando? Estamos desde o Descartes.”[20]
“Então, agora trata-se de inventar uma política adequada ao regresso para tornar a partir. E tornar a partir não é evidentemente para ir a qualquer espécie de fenómeno, é para tornar a ir outra vez meter-se no rasgão do espaço e ir para além da ilha dos Amores (…) Dizer Ilha dos Amores ou Quinto Império, vamos a isso, é mais completo até! Então o que se trata de fazer agora de mais importante é uma arrumação interna de Portugal que está bastante desarrumado.”[21]
(SANTOS, Luís Carlos dos (2016) Agostinho da Silva: Filosofia e Espiritualidade, Educação e Pedagogia. Vila Nova de Gaia: Euedito, pp.134-140)


[1] Paulo Borges, A Pedra, a Estátua e a Montanha, o V Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália, 2008, p.65
[2] Cf., idem: 73
[3] Idem: 95, cf., Padre António Vieira, Sermoens, 2, pp.189-192.
[4] Idem: 21e 22
[5] Idem:129, cit. Padre António Vieira, Clavis Prophetarum, liv. 2º, cap. 13, XI, p.523
[6] Cf., idem: 130
[7] O Império acabou. E agora?, entrevista de Antónia de Sousa, Lisboa, Notícias, 2000, p. 103
[8] Idem: 110
[9] Idem: 110
[10] Idem: 110
[11] Idem: 108
[12] Idem: 115
[13] Idem: 115-116
[14] Idem: 115
[15] Idem: 116
[16] Idem: 116
[17] Idem: 117
[18] Idem: 120
[19] Idem: 123
[20] Idem: 126
[21] Idem: 127

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