“ Que imenso descanso, não dar nome às coisas! Que infinito espanto, olhar para um mundo sem nome

Paulo Borges


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O Budismo no Oriente

(...)

Transferência da Consciência e Grande Libertação pela Escuta


      Quando os sinais ocorrem indicando que a morte se aproxima devemos prepararmo-nos para a transferência da consciência e refletirmos sobre os ensinamentos da Libertação pela Escuta nos Estados Intermediários.

      Quanto à transferência da consciência há um exercício que deve ser treinado:
Devemos tapar todos os orifícios começando pelo reto, da procriação, umbigo, boca, narinas, olhos e ouvidos. No cimo da cabeça devemos visualizar a fontanela, depois visualizar também o canal central, no meio do corpo, direito e ereto – na sua extremidade inferior, abaixo do umbigo devemos visualizar um ponto seminal branco e brilhante, o qual constitui a essência da consciência desperta, pulsando continuamente e à beira de ascender. A força vital vai movê-lo ascensionalmente, até ao umbigo, depois coração, depois garganta, depois o espaço entre as sobrancelhas e, por fim, vai até à fontanela, após o que devemos visualizar que ele gira de novo para baixo e vem repousar abaixo do umbigo como uma difusão branca. Há que permanecer neste estado durante algum tempo.

      Diz-se que obteremos a libertação se a consciência sair pela fontanela da coroa. Os lugares mais importantes do corpo para uma transferência da consciência depois da fontanela são os olhos e a narina esquerda.

      Quanto à Grande Libertação pela Escuta, quando uma pessoa se aproxima da morte é habitual procurar-se um lama qualificado que deve iniciar as recitações de introdução ao estado intermediário.

      Após a respiração haver cessado, a energia vital é absorvida no canal da sabedoria primordial e a consciência emerge como uma radiância interior. O defunto pode ouvir tudo o que se passa à sua volta, mas os outros não o podem ver. Assim, ele pode ir-se embora. Neste momento surgem três fenómenos: sons, luzes e raios de luz, o que pode provocar medo ou pasmo. Assim, durante este período deve ser lida a Grande Introdução ao Estado Intermediário da Realidade.

      Terminaremos com um pequeno excerto da leitura a ser realizada:
“Ó Filho da Natureza de Buda, quando a tua mente e corpo se separarem, surgirão as puras (e luminosas) aparições da própria realidade: subtis e claras, radiantes e deslumbrantes, naturalmente brilhantes e terríveis, tremeluzindo como uma miragem numa planície no Verão. Não as temas! Não fiques horrorizado! Não estejas aterrado! Elas são as luminosidades naturais da tua própria realidade verdadeira. Reconhece-as portanto.” (O Livro Tibetano dos Mortos: 311) O corpo agora que tens chama-se um “corpo mental”. Tu, agora, estás para além da morte. Isto é o estado intermediário. Se não reconheceres os sons, as luzes e os raios de luz, continuarás a vaguear dentro dos ciclos da existência.

Luís Santos
(in, O Budismo no Oriente, Estudo Geral (Ensaios), setembro/2017, AQUI)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XXV) Graffitar a Literatura





Graffitis fotografados por Luís Souta, 2017.
Alcácer do Sal, Rua Comandante João Bico (antiga EN5)


«Empiricamente, o povo português é um povo trabalhador e foi durante séculos um povo literalmente morto de trabalho. Mas a classe historicamente privilegiada é herdeira de uma tradição guerreira de não trabalho e parasitária dessa atroz e maciça ‘morte de trabalho’ dos outros.»
(Eduardo Lourenço, O labirinto da saudade, 1988: 130)


A arte de rua, enquanto processo de requalificação urbana, chegou também à zona rural do distrito de Setúbal. Aqui damos conta de dois ‘quadros’ de um extenso mural pintado em Julho, em Alcácer do Sal (antiga EN5), pelo prestigiado Sérgio Odeith (natural da Damaia, 1976).
Este tema – as mondinas do arroz – remeteu-nos, de imediato, para Gaibéus, o primeiro romance de Alves Redol, publicado em 1939 (edição de autor, com capa do seu amigo Antero Ferreira e distribuído pela Livraria Portugália). Desta obra, que «viria a ser também o primeiro romance neo-realista português» (como o constata o escritor), o jornal Público, em Abril de 2014, fez uma edição fac-simile, integrada na sua colecção ‘Livros Proibidos’ (abre com o relatório do censor; cf. texto de Carina Infante do Carmo “Gaibéus: o censor gostou…”, Público, 09/04/14, p. 47). No artigo, a autora releva a «linha porosa entre a ficção e o documental» enquanto marca distintiva da obra. Afinal, traço identitário do processo de escrita de Alves Redol (1911-1969), realçado pelo próprio na longa ‘nota de abertura’, datada de Maio de 1965, aquando da reescrita do livro (desafio o leitor a uma análise comparativa destas duas versões literárias). Aí nos dá conta de duas histórias, a sua e a do livro Gaibéus. Redol refere uma das várias conversas que teve, na administração do jornal O Diabo, com um crítico literário da América do Sul, de seu nome Carlos: «Na sua voz quente e repousada, achou que sim, que a etnografia era importante [viria a publicar Glória. Uma aldeia do Ribatejo, em 1938], mas que eu deveria começar a escrever um romance.» Foi este o ‘empurrão’ que abalançou o escritor de Vila Franca de Xira à realização do seu primeiro romance; mas antes, fizera o obrigatório ‘trabalho de campo’: «eu aproveitara as férias de Setembro para viver com os ranchos [Do Alto Ribatejo e da Beira Baixa, eles descem às lezírias pelas mondas e ceifas. Gaibéus lhes chamam] do lavrador Henrique Honorato, nas suas lavras de arroz na casa Branca, junto ao Tejo, em Azambuja.»
Das comemorações do centenário do seu nascimento, destacamos o Colóquio Internacional que decorreu entre 7 e 10 de Novembro de 2012 – “Alves Redol e as Ciências Sociais. A literatura e o real, os processos e os agentes”. A Academia não só resgatava Redol de um certo esquecimento literário como lhe atribuía agora o papel de ‘fonte’ imprescindível de conhecimento para as diversas ciências sociais.
Alguns extractos do segundo capítulo «Arroz à foice» [uso aqui a edição de 1971, a dos Livros de Bolso Europa-América, nº 11, 177 p.]:
«Há mulheres que põem canos nas pernas para que o frio da água não lhes fira a carne.
O olhar dos homens ferra-se nelas, a inventar intimidades ou à espreita de algum descuido que lhes mostre as coxas.
Na boca das mulheres brincam sorrisos de troça; algumas fingem-se distraídas e dão-lhes o jeito.
Há gente que vem ainda a sair da poisada, a bocejar, em movimentos lentos de mândria. (pp. 27-8)
(…) À porta do aposento, a puxar à frente as pontas da jaqueta e a mirar o rancho, o patrão aparece com a empáfia de quem manobra tutela.
Logo os capatazes deitam mãos aos relógios e dão ordem para se ir à faina.
– Eh, gente!… São horas, vá de andar!
– Eh, cachopos!
E todos se erguem, de foices na mão, marchando em grupos pelo carril que leva ao arrozal. (p. 28)
(…) Os capatazes vêm à frente, de marmeleiros na mão, como guias do rebanho que levanta uma gaze de poeira no caminho. Deitam rabos de olhos para trás, se as gargalhadas estalam, “não vão aqueles dianhos fazer alguma coisa a despreceito que amofine o patrão”. (p. 29)
(…) A faina começa.
Partidos pelos rins, quebram-se em ângulo de cabeças pendidas como as panículas do arroz que se ouvem no marulhar brando da aragem da manhã.
Com a mão canha, os ceifeiros jungem as canas dos pés e lançam a foice com a direita, cortando-as à força, de pulso, sem pancada, não vão os bagos saltar.
Voltam-se para trás e depõem as espigas em gavelas, com movimentos bruscos, como se andassem de empreitada.
O terreno está fofo, empapado das águas, onde os pés descalços se atascam na lama e esfriam.
A cada corte, as nuvens de mosquitos elevam-se e envolvem os ceifeiros; pousam-lhes no rosto e nas mãos, penetram-lhes na boca aberta pelo arfar ou nas ventas.» (p. 30) 
Excerto do antepenúltimo capítulo «Malária» (doença que Redol conhecia bem os seus efeitos, também ele uma vítima, nos quatro anos em que trabalhara por terras de Angola):
«Nunca, como naquela colheita, as sezões derrubaram tantos alugados. Nenhum escapara ao seu frio, que tolhia os corpos, roubando-lhes alentos. Caíam uns pela manhã e outros depois do almoço. E mal podiam erguer-se, logo tomavam rumo à seara para ganhar algum quartel. Emagreciam, mas as pernas e os braços pesavam mais, como se cadeias de ferro os tolhessem.
Os capatazes falavam em quinino – cada roda custava um quartel de trabalho – e eles tinham vindo para guardar alguma coisa de comer para o Inverno.
Nessa altura, as receitas não faltavam: rabo de bacalhau em aguardente, aguardente com canela, chá de jaribão…
Melhoravam quase sempre.» (p. 134)
A total mecanização do processo produtivo do arroz varreu, por completo, os ranchos deste quadro social que Redol nos deu testemunho etno-literário em Gaibéus. Hoje, nos extensos e verdes arrozais do Ribatejo e de Alcácer só se vêm máquinas… e cegonhas. 

Luís Souta

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

QUANDO O CANSAÇO É GRANDE

Bolas, há muito que não chegava tão cansado ao fim-de-semana que espero venha a ser reparador. 
Mas depois da festa do anterior, é o que se vê. 



Hoje os alunos deram uma nova palavra, dado, a respeito da qual fizeram exercícios e fichas. 
“-Já demos o dá, dé, di, dó, du.” 
E ontem houve teatro, Romeu e Julieta em gatos, segundo disseram em coro as minhas filhas. 

Eu é que fiquei cheio de orgulho ao ouvir a Margarida explicar as diferenças quanto aos finais do original e da peça que eles viram. 
“-Ali o fim foi diferente, eles não morreram, ficaram felizes para sempre,” 
A fonte de informação foi um qualquer livro ilustrado da Beatriz que o piolhito lera antes de ver a representação. 



Estou a ler um livro engraçado a respeito da corrupção no futebol. 
Ali se explica ou para escrever com mais clareza, por ali se compreende como é que o polvo tomou conta da organização profissional daquele desporto. 
É leitura de enfiada. 



Mas agora fico por aqui. 
Estou tão fatigado que só mesmo uma leitura leve como esta me retemperará as forças para o dia de amanhã. 

  Alhos Vedros 
   12/02/2004

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (273)

Título: 25 de Setembro, Malangatana, 1968
Óleo sobre Unitex, 122x160,5 cm

Malangatana foi um célebre artista plástico e poeta, que nasceu a 6 de junho de 1936, em Moçambique, e morreu em Matosinhos, Portugal, a 5 de janeiro de 2011. A expressão da sua arte fez-se de diversas formas, através do desenho, da pintura, da escultura, cerâmica, murais, poesia e música.
Malangatana tinha 25 anos quando apresenta a primeira exposição individual, em 1965, no Banco Nacional Ultramarino. Dois anos depois, publica alguns poemas, até que é indiciado como membro Frelimo: é preso, mas acaba absolvido.
Voltou a ser detido por motivos políticos, em 1971, em virtude da sua obra ‘25 de Setembro’, numa altura em que assegurara uma bolsa na Fundação Gulbenkian para estudar cerâmica.
Ao longo da sua vida, Malangatana arrecadou diversos prémios, dos quais se destaca a medalha Nachingwea, pela contribuição para a cultura moçambicana, e investidura, a 16 de fevereiro de 1995, como Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Em 1997, a UNESCO nomeou-o ‘Artista pela Paz’ e foi-lhe entregue o prémio Príncipe Claus.
Recebeu o título de ‘Doutor Honoris Causa’ pela Universidade de Évora em 2010 e foi condecorado pelo governo francês como ‘Comendador das Artes e Letras’. Malangatana foi também um dos poucos estrangeiros a ser nomeado membro honorário da Academia de Artes da República Democrática Alemã. Morre a 5 de Janeiro de 2011, no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Um Poema, Manuel (D'Angola) de Sousa


“De Dedo Universalmente Apontado À Ponta Divina Do Nariz Celestial”

Nem rabos de palha ou de lobo deixo de fora
Exponho tao somente o nariz pontiagudo
Há quem o veja discretamente com binóculos
Retiro-o às pressas das vistas curiosas malignas
Escondo-o no resto da cor camuflada da cara

Dedico-me a cultivar plantas de edifícios
Construo sem mexer na massa ou na colher
Vejo pelos desejos as paredes crescerem
Semeio o futuro projectando a realidade
Busco no sonho e no pensamento o advir

Nado quase ansioso num marasmo sem ondas
Fujo dos conflitos de olhos e faces assombradas
Rumo a oriente esperançado com os raios-de-sol
Exponho-me à radiância atómica dos prismas
Deito-me nu nas encostas piramidais enérgicas

Alimento-me de comida feita de palavras
Colho por vezes escolhos de tempestades
Protejo-me de iras más com chapéu-de-chuva
Recolho os pés para não ser picado nos dedos
Mordo tudo o que me aparece no prato

Desloco as retinas e as iris para o centro do olho
Desvio-me com céleres reflexos de maus-olhados
Junto-me ao conjunto de vozes que canta à glória
Sorvo o sal e a pimenta dos condimentos extras
Sopro os venenos fatais em pó para longe dali…

Destaco-me do resto com um único dedo no ar apontado ao centro do Universo…

Escrito em Luanda, Angola, a 4 de Setembro de 2017, por Manuel (D’Angola) de Sousa, em Alusão aos Dia Mundial da Saúde Sexual e ao importantíssimo Dia da Lei Eusébio de Queirós, proibindo o Tráfego de Escravos (1850), e ainda, em termos religiosos, Dia de Moisés, Profeta Bíblico do Antigo Testamento e Líder da Libertação do Povo Hebraico da Escravatura do Egipto…

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Une orquidée n'est qu'une orquidée







Fotomontagem

Kity Amaral

Setembro/2017


Notinha: Como diz o meu amigo Jorge, "Algumas vezes ser amigo é falar dar um abraço e falar eu estou contigo para o que der e vier...". Pois bem, aquele abraço!


terça-feira, 19 de setembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

E o prémio de jornalismo, manchete do ano, vai para: 
“-O “Público!” 
Por conseguir fazer da promoção imobiliária uma capa de jornal. (1) 
Para um diário de referência, melhor é impossível. 



Hoje os alunos deram o número oito que segundo o pardalito não apresentou dificuldades. 
Não trouxeram trabalhos caseiros e amanhã terão um dia cultural; vão a Lisboa para assistirem a uma peça do grupo de teatro, “O Bando”. 
É um dia de descompressão para os alunos mais empenhados e de aprendizagem para todos. É de pequenino que se torce o pepino. 



Ontem à noite li “As 7 Bolas de Cristal” e ao fim de mais ou menos trinta e cinco anos fiquei finalmente a saber os pormenores que antecederam a presença de Tintim no Perú, onde se viu envolvido naquela que, para mim, foi a melhor aventura que li dele. 
É claro que irei reler a continuação da partida à procura do Professor Tornesol. 



Agora apareceram vozes secundárias pedindo a demissão do Procurador-Geral da República. Estranha combinação que reúne figuras do bloco central do espectro partidário a que se juntou o chefe do MRPP/PCTP, o Dr. Garcia Pereira. 
Esta gente anda de cabeça perdida. 

Em Portugal, o estado de direito deixou de ser uma figura de estilo. De tanto achincalhamento, arrisca passar a número de circo. 



Hoje, ao fim da tarde, quando eu entrei em Alhos Vedros, o espelho da caldeira reflectia a última luz rosada que fazia do reflexo do branco sujo do moinho e do verde carregado das salgadeiras uma crepitante combinação com as nuvens do céu. 

E eu cheguei a casa mais alegre. 


 Alhos Vedros 
  10/02/2004 


NOTA 

(1) Sob a responsabilidade da redacção, NORMAN FROST PROJECTA UMA PRAÇA DE SÃO MARCOS EM LISBOA, (Manchete da notícia), p. 1 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Hergé, AS 7 BOLAS DE CRISTAL, Público, Lisboa, 2004
Sob a responsabilidade da redacção, NORMAN FROST PROJECTA PRAÇA DE SÃO MARCOS EM LISBOA, (Manchete da notícia), In “Público”, nº. 5071, de 10/02/2004

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (272)


Lisboa, Carlos Botelho, 1936
Óleo sobre contraplacado, 105 x 100 cm

Carlos António Teixeira Bastos Nunes Botelho (Lisboa, 18 de Setembro de 1899 — Lisboa, 18 de Agosto de 1982), foi um pintor, ilustrador e caricaturista português.

Ganhou diversos prémios, dos quais destaco e o 1º Prémio na Exposição Internacional de Arte Contemporânea, em 1939, S. Francisco, EUA, o que lhe permitiu comprar o terreno e, mais tarde, construir a casa/ateliê no Buzano, Parede.Denominado pela crítica como “pintor de Lisboa”, Carlos Botelho é autor de uma das mais importantes colecções de Arte Moderna Portuguesa.

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Desenterrando a história Antiga, atual e... futura do  BRASIL


Francisco Gomes de Amorim


Antiga:

Vamos à chegada do D. João, com a controversa e horrível Carlota Joaquina, filhinhos e mamãe louca.

Com eles veio muita gente, entre tantos, alguém que parece ter sido votado ao ostracismo, nesta terra a quem tanto deu. Chamou-se esse homem, António de Araujo de Azevedo, mais tarde Conde da Barca.

Ainda em Portugal desempenhou cargos da maior confiança.  Foi ministro e embaixador extraordinário junto a Corte de Haia em 1787, embaixador em São Petersburgo, onde se mantém por três anos. Logo em seguida, torna-se ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, encarregando-se também, do Ministério do Reino. Sempre se dedicou à ciência, às matemáticas e história, e foi possuidor de uma importante biblioteca e até de uma tipografia.

Foi um dos conselheiros que mais incentivou a vinda da família Real para o Brasil o que lhe valeu o ódio de grande parte da população em Portugal, e teve que embarcar de noite carregando as preciosidades que tinha em casa.

Desembarcou no Rio de Janeiro em 6 de Março, véspera da chegada do Príncipe Regente, trazendo consigo toda a magnífica livraria, legada posteriormente à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a sua riquíssima colecção mineralógica e a tipografia completa que tinha em casa, e instalou-se num palacete na rua do Passeio, frente para o Passeio Público, de que já falámos.

Em sua casa, monta um jardim onde cultiva mais de 1.500 espécies botânicas indígenas e exóticas, que catalogou com o nome de Hortus Araujensis.

Propagou a cultura do chá no Jardim Botânico para o que mandou vir chineses para cuidarem do seu plantio e cultura, portugueses e madeirenses para ensaiarem a cultura da vinha e outras frutas, e sempre ensaiando produtos como a extração de óleo do urucu.

Em 1814 retorna à política, sendo nomeado Ministro da Marinha. No mesmo ano, instala em seu Laboratório Químico-Prático um alambique de sistema escocês, com melhoramentos feitos no Rio de Janeiro. Com este alambique, dedica-se à fermentação de bebidas e daí supor-se que a principal fonte de renda do Laboratório tenha sido a venda de licores e aguardente.

Além de atividades relacionadas com a instituição, constituição e aplicação da química no Brasil, tem-se notícia de que o Laboratório também teria como atividade o ensino da disciplina, com o objetivo principal de preparar aqueles que visavam prestar exames para boticários perante a Fisicatura–Mor.

Era comendador da grã-cruz da Ordem de Cristo, da Ordem Militar da Torre e Espada, da Ordem de Isabel a Católica, de Espanha e da Legião de Honra de França. Além disso, pertenceu também a Academia Real de Ciências de Lisboa. Foram notáveis seus entraves com a Cúria Romana entre 1814 e 1817. Tinha frequentemente o assentimento do Príncipe Regente. Exemplo disso é a negativa dada por ele à ordem do papa Pio VI para que fosse restabelecida em Portugal a Companhia de Jesus.

Diante dos clamores do povo da Madeira pela abolição do Tribunal da Santa Inquisição, sugeriu que D. João VI o abolisse nos seus domínios, a que este não se atreveu. O Governo do Rio de Janeiro solicita então a Roma a abolição do Santo Ofício, pedido negado por Pio VII.

No ano seguinte, intercede junto ao Príncipe Regente para a elevação do Brasil à categoria de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, facto que se realiza em 15 de Dezembro de 1815.

Era também colecionador de obras de arte. Foi o responsável pela fundação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, no Rio de Janeiro, para a qual mandou vir da França um competente quadro de professores. Tal quadro incluía nomes como: Le Breton, Debret, Nicolas-Antoine de Taunay e seu filho Felix de Taunay, Grandjean de Montigny e Charles Pradier. Encomendou o projeto do palácio da Academia a Grandjean de Montigny, mas não viveu o suficiente para vê-lo pronto, já que suas obras só terminaram em 1826.

Volta a ocupar o Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Guerra em 1816/1817 e foi convidado a assumir todas as pastas do governo. Contudo, com sua saúde já bastante debilitada, veio a falecer. Foi o único conde da Barca. Seu título foi lhe conferido em vida, pelo ainda príncipe regente, D. João VI, em 27 de Dezembro de 1815.

O destino do Laboratório Químico-Prático, inicialmente uma iniciativa particular do Conde da Barca, foi o de ser apropriado pelo Estado, passando a ser um órgão do Governo subordinado ao Ministério dos Negócios do Reino, e assim continuando com suas atividades sob a direção de João Caetano de Barros. A garantia do funcionamento do Laboratório foi endossada por decreto real do dia 27 de Outubro de 1819, criando um Laboratório Químico.

Mas, possivelmente o seu mais importante legado foi a tipografia, que aqui se instituiu, transformando-se logo, por decreto de 13 de Maio de 1808, em Imprensa Régia.
É voz corrente dizer que foi D. João que trouxe a primeira tipografia para o Brasil. Não foi. Mas sim este senhor António de Araujo de Azevedo, por sua conta.

Há um livro, História da Tipografia no Brasil, edição do Museu de Arte de São Paulo, de Março de 1979, a que pomposamente chamam a primeira “História da Tipografia no Brasil”, que se ficou a dever ao então secretário de cultura do Estado de São Paulo, um tal dr. Max Feffer, segundo o Prefácio escrito pelo mui justamente celebrado Pietro Maria Bardi.

Neste livro tem até algo que parece anedótico, mentira ou camuflagem. Hipolito da Costa no seu “Correio Brasiliense” escreveu: “Saiba o mundo, e a posteridade, que, no ano de 1808 da era cristã, mandou o governo português, no Brasil, buscar à Inglaterra uma impressão, com seus apendículos necessários, e a remessa que daqui se lhe fez importou em cem libras esterlinas. Contudo diz-se que aumentará este estabelecimento tanto mais necessário quanto o governo ali nem pode imprimir as suas ordens para lhes dar publicidade. Tarde, desgraçadamente tarde: mas, enfim, aparecem tipos no Brasil; e eu de todo o meu coração dou os parabéns aos meus compatriotas”.

António de Araújo de Azevedo faleceu em Junho de 1817, na sua casa na rua do Passeio.

Por ironia, mais tarde é para ali que volta a instalar-se a Impressão Régia!

Pelo que se expõe não parecem restar quaisquer dúvidas de que este senhor, foi um dos GRANDES homens do Brasil, e mais especificamente do Rio de Janeiro.

A triste verdade é que ninguém sabe nada dele, e nem sequer a cidade lhe dedicou, no mínimo, o nome de uma rua!

Merecia até um busto, frente à casa onde morou e se instalou a Impressão Régia.


Atual (mais ou menos):
Escrever alguma coisa sobre a história atual do Brasil, ninguém é capaz. É isso; parece impossível começar por dar uma ideia dessa triste, tristíssima história sem lembrar de De Gaulle.

Muita gente diz e com toda a razão que o Brasil …. “Le Brésil n’est pas un pays serieux” – “O Brasil não é um país sério” – frase atribuída a Charles de Gaulle.

E agora com a Lava Jato, com este dilúvio de escândalos, do Mensalão, do Petrolão, da Petrobras, do BNDS, do INSS, da Máfia das Sanguessugas, dos Transportes, Operação Navalha, etc. que somados atingem largos trilhões de rombo aos cofres públicos, ganha particular acuidade a frase, tanto mais que De Gaulle continua a ser considerado uma das figuras mais respeitadas da política no século XX. A verdade é que De Gaulle nunca disse que o Brasil não era um país sério. O autor da frase foi o diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil em França entre 1956 e 1964, quando surgiu um desaguisado entre o Brasil e França, conhecido como a Guerra da Lagosta, conflito “gravíssimo” onde não se disparou um único tiro! Tudo causado por embarcações francesas, que pescavam lagostas em águas territoriais brasileiras, cuja notícia chegou até ao Presidente João Goulart que mandou despachar para a região uma Esquadra Naval apoiada pela Força Aérea! De Gaulle ao saber desta teórica beligerância convocou o embaixador brasileiro para uma conversa no Palácio do Eliseu, sede do governo francês.

Detalhe: Na noite que seguiu a conversa com De Gaulle, o embaixador foi convidado para uma festa na casa do presidente da Assembléia Nacional. Afinal a guerra não era tão séria assim. Na recepção, o embaixador foi interpelado por outro convidado e, o embaixador que sempre achou o governo brasileiro inábil no trato da questão a nível diplomático, arrematou a conversa, como que em desabafo, com a famosa frase: “O Brasil não é um pais sério”.

O pior é que De Gaulle, ou não De Gaulle, alguém estava certíssimo!

Futura:
Falar de “História do futuro do Brasil” seria plagiar mal e porcamente o Padre António Vieira, que previu o Reino do Espírito Santo, da criança como imperador na sua inocência e de algo importantíssimo: a transparência!

Ou então voltar a citar Stephan Zweig que no seu delírio escreveu “Brasil, o país do futuro” e que acabou por se suicidar, deixando uma carta que começa por cantar: “Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida...”

É evidente que não podemos, ainda, começar a desenterrar o futuro. Mas hoje questiona-se se a “antevisão” do tal futuro teria sido um sincero grito de alma, ou a premonição que, se estava muito bem em 1926, ele pretendia “ver” esse futuro em termos de eternidade, onde, se o tempo não passa, porque tudo é presente, o futuro do Brasil seria a vergonha eterna, tal como a estamos a vivenciar?

Só no Rio de Janeiro, este ano, mais de 100 policiais assassinados, dezenas de áreas da cidade onde não se pode entrar porque lá impera a droga, o contrabando de armas, o crime, onde um juiz prende o ladrão e outro solta porque é amiguinho, outros ganham “de acordo com a lei que eles fazem”, oitenta a cento e cinquenta mil Euros, POR MÊS, onde um polícia atropela um ciclista, que morre, foge, não tem o carro licenciado e mais de 5000 mil multas de trânsito e não é preso, outro é apanhado com 35.000 balas de espingarda de guerra roubadas no seu quartel e nada lhe acontece, onde, todos os dias, todos os dias, as notícias se repetem: prefeito “tal”, governadores “tais”, juízes “tais”, deputados “tais”, senadores idem, ex-presidentes idem, todos condenados a anos de cadeia, e aí à solta gozando os trilhões roubados aos cofres públicos!

Bem desejo que a alma de Stephan Zweig descanse em paz. Mas, lá do alto, devia explicar melhor o que ele entende de FUTURO, porque nós, miseráveis terráqueos, só vemos um futuro: triste e sujo.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Cuidar da flora intestinal


O equilíbrio da Microbiota é fundamental para a manutenção da boa saúde e o fortalecimento do Sistema Imunitário.
Alguns conselhos úteis:

👉 consumir 7 legumes e 2 frutas por dia;
👉 não beber/evitar bebidas gaseificadas;
👉 evitar açúcar ao máximo;
👉 não consumir ou evitar o consumo de produtos refinados (pão branco, arroz e massas brancos, etc) e preferir os integrais;
👉 evitar leite e lacticínios a não ser que sejam fermentados (kephir, yogurte caseiro, etc)
👉 preferir vinho tinto ao vinho branco e não ultrapassar 1 copo por refeição;
👉 privilegiar cozinhados ligeiros  (a menos de 120º);
👉 evitar os crus, cozinhar os legumes (é mais digestivo);
👉 Em caso de viroses, é aconselhado o consumo de cogumelos como, por ex.,  Coriolus,  Maitaké Reishi, Shiitake, Cordyceps Oglossoides;
👉 tomar diariamente Probióticos, seja em suplemento, ou os naturais como: Kephir de leite, kephir de água, kombucha, yogurte caseiro, miso, pickles caseiros (vegetais fermentados), kimchi, tempeh, etc...

~~~Boa Saúde!~~~

~Paz&Luz~
Paula Soveral

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A FOLGA INESPERADA

Inesperadamente, a Matilde teve hoje um dia em cheio. 
Perante a falta da Professora lá deve ter convencido a mãe e em vez de regressar a casa, seguiu para Lisboa que o bom que tem este marasmo em que se vive são estas pequenas ternuras de poder levar um filho para o local de trabalho. 
Mas não chateou quem quer que fosse, disse a progenitora. 
Esteve sempre entretida com desenhos e pinturas e, estando o terreno livre, com jogos de computador também. 

“-Margarida! Hoje, eu e a mãe almoçamos pizza.” 

E também assim se faz a felicidade de uma família. 



Lá anda outra vez a educação sexual como se fosse a falta de uma disciplina com tal objecto a principal lacuna do ensino. 



E a desorientação em torno deste caso da pedofilia continua. 

Nos Açores já se fizeram as audições para memória futura. 
A diferença é manifesta. Lá, os arguidos não têm dinheiro para tirarem partido das garantias que os buracos na lei conferem se formos capazes de pagar os custos dos muitos requerimentos e esclarecimentos e impedimentos possíveis e que têm e muitas vezes conseguem a finalidade de protelar, protelar até que a justiça se apague e as vítimas se cansem. 

É uma vergonha o que se passa e o que tudo isto deixa a nu. 
A defesa de Carlos Cruz está de cabeça perdida e parece querer descontrolar-se na política do vale tudo. 
Os dois advogados que na semana passada, numa táctica digna daqueles compradores de feira que fazem da manha moeda para comprar o burro, fartaram-se de elogiar o Juiz de Instrução como estando a ter uma conduta de grande abertura e imparcialidade, acusam-no agora de ser injusto e cruel. E um daqueles causídicos propôs-se mesmo a solicitar autorização à ordem dos advogados para divulgar na praça pública as suas alegações e o acórdão do Juiz. 
O estado de direito, para esta gente, não passa de uma figura de retórica. 

Tem-se falado muito de uma república de juízes. 
Pois eu digo que é antes de temer uma república de advogados que é o que toda esta palhaçada deixa bem claro. 

A legislação portuguesa tem nuances e regulamenta procedimentos por onde os mais poderosos podem escapar às teias da justiça. 



Dia nevoento, excelente inimigo de um corpo castigado pela festa do fim-de-semana. 
Salva-nos uma alma que voa alto. 


 Alhos Vedros 
  09/02/2004

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (271)



Olhão, Autor António Tapadinhas 

Óleo sobre tela 100x100cm

A cidade de Olhão situada no coração do Algarve, tem um aspecto panorâmico único no País, na Europa e talvez no Mundo, devido à estrutura das suas casas com a forma de cubos sobrepostos, que se encaixam por entre ruas estreitas, fazendo lembrar uma Medina. Os terraços (soteias ou açoteias) substituem com vantagem os telhados tradicionais, pois podem ter diversas funções, das quais, uma das mais evidentes, será a sua utilização como um espaço privado para apanhar o fresco das noites de Verão. Não serve, contudo, para recolher as águas da chuva para cisternas, como se poderá julgar por comparação com Marrocos: o nome da cidade deriva de sítio do olhão, rico em poços de água doce. A riqueza da pesca permitiu aos seus habitantes, no final do século XVIII, transformar os casebres de madeira em casas cúbicas de pedra e cal branca, com as suas chaminés rendilhadas e as açoteias em vez de telhados. 
Sobre a execução da tela. Procurei tons de azul nas sombras para realçar a brancura das casas, com os mirantes, as torres e as chaminés tão características. Misturei areia à tinta de óleo para tornar natural a textura e os reflexos da luz. Criei a moldura com as mesmas tintas e textura da tela, para sugerir a continuidade do espaço da Cidade cubista antes de Picasso!

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

UM TEXTO ANTIGO SOBRE UM TEMA NÃO RESOLVIDO:


por Risoleta Pinto Pedro

Refiro-me aos abusos sofridos pelos animais. E à hipocrisia humana.
Todos conhecem as campanhas publicitárias da Benetton: chocantes, lúcidas, denunciadoras.
Poderia ser assim a próxima campanha:
A cena passa-se na Austrália. A lã é retirada às ovelhas pelo seguinte e ultra-moderno processo: arranca-se a lã aos animais juntamente com a pele (por esfolamento) a que vêm agarrados pedaços de carne. Os animais ali ficam em agonia até acabarem por ser mortos. O que é uma sorte. Esta lã é excelente, o processo é rápido e barato. Só vantagens.
Não sei se os cartazes indicarão que essa lã é adquirida pela Benetton para fabrico dos seus produtos.
Em 2005, num mundo dito civilizado. Não é no Iraque nem num sítio desses moralmente desvalorizado.
E continuamos sentados nas nossas cadeiras giratórias. Giram tanto, as nossas cadeiras, dão-nos uma visão tão ampla que deixamos de ver. E de saber. E de querer saber. É como se não víssemos nada. E a carne de ovelha dá um excelente ensopado. Com banda sonora: os fracos balidos dos animais torturados. Para quem desejar. Confortavelmente, elegantemente vestido com as cores da Benetton.
Será a mais chocante campanha publicitária de sempre. Ou talvez não. A crueldade começa a ser banal.
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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Divulgação Cultural


escritores.online passa a ser tutelado pelo CLEPUL

O site escritores.online, que pretende constituir-se como o maior e o mais completo motor de busca sobre escritores de língua portuguesa, apoiado institucionalmente por diferentes entidades nacionais (Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas; Sociedade Portuguesa de Autores, Associação Portuguesa de Escritores; Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, I.P.; Centro Nacional de Cultura; Rede de Bibliotecas Escolares, Plano Nacional de Leitura e Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), passará, a partir de 1 de Setembro, a ser tutelado pelo CLEPUL – Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
A plataforma escritores.online, que, com meses de existência, ultrapassou 1 milhão e 250 mil visitas, torna-se, assim, um projecto de uma das unidades de investigação portuguesas mais antigas dedicadas aos estudos literários. O Centro, fundado em 1975 por Jacinto do Prado Coelho, é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Com mais de 500 investigadores, integrando maioria de jovens investigadores, o CLEPUL assenta na interdisciplinaridade e na extensão à sociedade civil.
CLEPUL (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
Alameda da Universidade
1600-214 Lisboa - PORTUGAL
Telef.: 00351 21 792 00 44

______________________________________________
( Tel  | (+ 351) 21 397 18 99
6  Fax | (+ 351) 21 397 23 41
+ Morada | Rua de S. Domingos à Lapa, 17
                       1200-832 Lisboa, Portugal

(Este texto foi escrito sem as regras do novo Acordo Ortográfico)

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ECOLA

A PLACA DA VISITA

Fim-de-semana de passeio; encontrámo-nos com a Fátima, o Quim e o pequeno Daniel em Coimbra, onde dormimos ontem. 
Foi a prenda da madrinha para a afilhada, embora todos tenhamos gostado dos momentos que passámos juntos. 

É uma pena a cidade estar tão mal tratadinha. 
Fachadas cansadas de velhice e mamarrachos estragando a harmonia do branco casario que em meia-lua desce para o rio pela colina cumeada pelo complexo universitário e que a memória da minha infância guarda com o amarelo dos tróleis e dos eléctricos a realçar a bonita praça de entrada que fazia da então terceira cidade do país um modelo de urbe personalizada. 
E não deixa de ser triste que um burgo com tanta história tenha para oferecer ao visitante o Portugal dos Pequeninos e uma ou outra Igreja. 
Mas o ridículo não omitiu a presença. Num dos cantos do jardim infantil que separa a área das miniaturas arquitectónicas do novo pavilhão que acolhe uma exposição permanente de relógios de Sol, um modernismo de betão enquadrado num espaço que parece directamente saído de um estaleiro de obras, num dos vértices do quadrado onde os miúdos dispõem de baloiços e escorregas, lá está uma placa assinalando a visita do ministro Marçal Grilo em mil novecentos noventa e nove. 


Salvou-se a visita a Conímbriga, esta manhã, em que nos deparámos com um local arqueológico devidamente ordenado para merecer o interesse de uma caminhada e a atenção de quem procure documentar-se sobre o passado romano desta parcela ocidental da Península Ibérica. (1) 

Já a Figueira da Foz com uma longa marginal pintada de fresco, tem o lixo debaixo do tapete, o mesmo é dizer que os quarteirões de trás repetem o que se disse para a capital do distrito. 
E de Montemor-o-Velho, onde almoçamos e visitámos o castelo, fica a curiosidade de lá voltar. 


As minhas filhas andaram encantadas por brincarem com o primo Daniel e no regresso, tal não foi o cansaço, dormiram durante toda a viagem. 



E a máxima do dia vai para a Luísa.
Quando acabar o valor do trabalho numa sociedade, acaba tudo. 



E como já vem sendo habitual, a sexta-feira passada foi preenchida pelas lições de patinagem e de música. Com a Professora, a sós, os alunos passaram o tempo suficiente para receberem exercícios de trabalho para casa que a Matilde resolveu logo nessa tarde. 



Os campos enchem-se de cores mesclando o verde que as chuvas deixaram mais forte. 
E a planície do Mondego, cheia de espelhos de água com reflexos das árvores e das nuvens. 
Há cegonhas planando sobre o castelo de Montemor. 


 Alhos Vedros 
  08/02/2004 


NOTA 

(1) Correia, Virgílio Hipólito, CONIMBRIGA GUIA DAS RUÍNAS 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Correia, Virgílio Hipólito, CONIMBRIGA GUIA DAS RUÍNAS, Instituto Português dos Museus/Edições ASA (1ª. Edição), Porto 2003

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (270)



Onde a terra acaba e o mar começa... 

Autor: António Tapadinhas
Acrílico e óleo sobre tela colado sobre tela, 70x80cm



Selecção de António Tapadinhas


sexta-feira, 1 de setembro de 2017