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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Termina assim a publicação deste romance que nos acompanhou desde o princípio de Junho de dois mil e doze. É mais que merecido pois, o descanso que se lhe seguirá. A todos os que leram e comentaram ao longo destas duas dezenas de meses, aqui deixo os meus mais sentidos agradecimentos. 
“A Comunidade do Vale da Esperança – Uma Crónica” materializa a minha passagem pelo romance épico, algo que, atendendo às tradições literárias em que, a partir de Sebastião Sorumenho, tenho conduzido o principal da minha obra de ficção, eu teria sempre de vir a fazer. Nesse sentido, é pois a minha homenagem a todos os realismos que se desenvolveram ao longo do século vinte e que em denominador comum tiveram a reflexão sobre as contingências das vidas humanas tendo por pressupostos básicos as ideias da dignidade e da justiça. Antiga e volumosa é a continuidade de exemplares dessa espécie em que podemos agrupar obras intemporais como, por exemplo, “Por Quem Os Sinos Dobram”, de Hemingway ou, com outro timbre, “A Guerra dos Mundos”, de um Llosa. É então na sequência e dessa história cultural e literária que eu quis experimentar a pena em tal quadrante romanesco e com isso construir uma história em que o herói é a própria comunidade e aquilo que se conta é, fundamentalmente, a epopeia em que esta se edificou e solidificou e tantos frutos veio a dar. É assim o meu romance épico que hoje aqui encerra a sua primeira publicação neste formato da blogosfera e sempre neste simpático espaço de liberdade que escolhi para lhes apresentar uma amostra da obra que tenho vindo a lavrar neste universo maravilhoso da Literatura. 
 Possa ter sido a leitura agradável, é o meu maior desejo. Se em ela leram a alegoria que sobre o mundo contém, perante vós me curvo e apenas acrescentarei que terão sido atingidos todos os propósitos que tive em mente ao escrever esta peça que tanto divertimento e alegria me transmitiu, enquanto a elaborei. 
Resta-me desejar-lhes Paz e saúde e manifestar a gratidão pela paciência que possam manifestar para continuarem a ler-me, no futuro que não regressará antes da Primavera. Até lá, continuem com o Estudo Geral que, diariamente, continua merecedor de todo o vosso interesse.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Há muito que eu decidi que se vivesse até aqui seria este o dia em que daria estes cadernos por terminados. Ele anda ao rubro uma discussão, para mim de lana caprina, sobre se este é o primeiro dia do novo século ou apenas o do último ano da centúria de vinte. Como não percebo patavina destes assuntos e não sei avaliar o argumentário de um e do outro lado da polémica e como me sinto cansada e desiludida com um mundo que gira sem norte definido e ainda mais resignado ao que acontece ao sabor das circunstâncias, decidi que seja lá como for, pelo menos quanto a mim e para o caso a minha opinião é o que me basta, este é o primeiro dia do novo milénio e com ele encerro estas páginas a que dei início na sequência da excitação das primeiras noites em que aqui dormi ou da primeira noite em que aqui o fiz sob um tecto verdadeiro. Consola-me a luz de esperança que é ver os passos, aqui e ali titubeantes mas na generalidade consistentes e certeiros que esta nova geração está a dar na cooperativa e pelos quais já valeu a pena limpar a tabuleta que indica o Vale da Esperança e o jardim da praça central onde o monumento ao nosso sonho voltou a ter realce. E fico com a certeza, tal como canta o José Mário Branco e estou segura que ele não se incomodará por aqui o citar, um mundo melhor será possível quando toda a gente assim quiser. Agora sei que morrerei em paz por saber que esse ideal persiste algures, aqui, no Vale da Esperança. 


 Alhos Vedros, Porto, Portel, Mindelo, Bragança e Alhos Vedros, entre fins de Outubro de 2009 e 12 de Agosto de 2010

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA


      
Ai estou tão contente, tão contente que até sinto dificuldade em coordenar as ideias e os factos que quero registar. Sinceramente, voltei a passar pela mesma euforia que antecedeu o dia em que aqui chegámos há cinquenta e sete anos e que se prolongou por aqueles árduos e longos meses em que pusemos de pé as casas que vieram a ser as nossas e que depois se transformou na alegria que permaneceu ao longo da vida e que apesar das dificuldades e revezes, das aflições e angústias que atravessamos e as dores e tristezas que sofremos, só veio a ser decepada quando o ardil das boas intenções de ganâncias disfarçadas pôs termo à experiência que a comunidade do Vale da Esperança representou e desta vez não foi só a euforia, tive direito ao bónus de não ter agarrada a estranha mistura da angústia que então me deixava na dúbia hesitação do receio que tudo viesse a correr mal, muito pior do que o nosso esperançoso optimismo nos consentiria antever. Há um bom semestre que a ideia caiu à fala e foi germinando e alastrando, ganhando forma e consistência nas conversas que um pequeno círculo de sangue novo foi mantendo entre si, muitas delas à mesa dos meus jantares que, desde a primeira hora, me fizeram partilhar o segredo da possibilidade de um relançamento da cooperativa e do estilo de vida que aqui se viveu e de que eu fui narradora até à exaustão da minha provecta idade, mas também com o gozo de reviver momentos gloriosos e de perceber estar a ser bebida por uma plateia interessada em aprender referências de comparação para os seus próprios planos. Nem me quis antecipar para não transformar a esperança em falsas esperanças, embora cedo me tenha parecido que as intenções eram sólidas e as vontades determinadas, não tanto em fugir do mundo, como disse o João Alan, neto do José Pedro e que de uma maneira ou de outra queria lançar-se na actividade agrícola, antes por se recusarem a acreditar que não há qualquer alternativa à sociedade de consumo e à escravidão perante a lógica dos saldos imediatos que tomou conta de tudo, quase se diria até das próprias relações familiares que se medem pela facilidade com que estalam divórcios porque afinal, o dia a dia do lar não era o doce que se pensava. Sim, simplesmente respirar acima do totalitarismo dos relógios e da felicidade que se esgota naquilo que se tem. Eu via-os sorridentes e compenetrados nas opiniões e anseios em troca e ia compreendendo que aqueles jovens estavam prontos e prestes a darem os mesmos passos dos avós, convictos de pretenderem existir e não apenas estar vivos, partilhando esforços e preocupações de modo a ficarem libertos da tirania de terem que prover ao sustento no mercado de trabalho e depois, como é tão frequente, terem que produzir gastos e obrigações que implicam o aumento do trabalho no inverso do cada vez menos espaço para os afectos e o mero usufruir da frescura de uma brisa no rosto. No entanto contive-me e quis esperar pelas decisões que foram tomadas e pelos braços que se atiraram ao muito que há para erguer. É como disse com um sorriso maroto o Manuel, o meu querido neto mais velho que se resignou a ser médico como o pai e o seu bisavô e agora quer seguir o papel de um clínico de família que, ao mesmo tempo, se ocupará de assuntos de lavoura, é um enorme desperdício que uma piscina daquelas seja um buraco sujo onde os lixos dos ventos e das chuvas se acumulam. E agora que os filhos do Adão aceitaram continuar e unir esforços para que voltemos a ter uma cooperativa activa, posso finalmente escrever que este sinal de esperança não se ficou pelo caminho e acabou por dar fruto. O Amos e a Sofia que já não escondem o desejo de vivierem juntos, como ele continua a soletrar com o ar mais sério deste mundo, mas como ambos dizem ser preferível ao casamento, juntaram-se-lhes e a verdade é que projectos não faltam e bom senso para lhes dar forma progressiva e ponderada, sem as precipitações dos castelos que de areia se edificam, também não. Mas dá gosto vê-los falar da recuperação das vinhas e da produção de vinhos de qualidade, assim como do aproveitamento de parte das casas do antigo bairro operário para turismo rural que esta imensa propriedade pode oferecer e que na área que sempre permaneceu selvagem tem o acréscimo da observação da fauna e até da flora e que na piscina que outrora foi da associação, uma vez recuperada, tem já um equipamento de apoio usualmente apelativo neste género de empreendimentos e a que um museu sobre a própria comunidade do Vale da Esperança conferirá uma mais-valia de interesse e, porque não, de receita. E se há materiais para o fazer e bom. E a proposta em torno das energias renováveis e de produção de tecnologias para o aproveitamento da água que o Amos, com o seus servicios e os tu que digo, sem esquecer o pequeno primo Matilde que de vez em quando telefona à Sofia, a dizer que também quer vir para aqui com o namorado, pretende pôr em prática, também me pareceu exequível e cheio de potencialidades. Que o ânimo está alto e robusto e as forças em alta, dá conta todo o trabalho de limpeza e arranjos que já conseguiram nos campos ou a recuperação dos armazéns que depois foram garagens no sopé da colina do depósito de água e ver que é assim deixa-me tão, tão contente. 
 É tão bom, tão bom ver este lugar voltar a ganhar vida.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



São engraçados os laços que se estabelecem entre as pessoas que, para além daqueles que decorrem naturalmente da filiação ou, se quisermos, da consanguinidade e dos envolvimentos colaterais que lhes estão associados e mesmo com esses isso acontece, são sempre relações de sociabilidade, de convivência que se estabelecem e, consentidas ou não, têm como ponto de partida a vontade dos envolvidos. A amizade é um deles e quando ela é profunda, isto é, quando é sinceramente assumida pelas partes que une e se alicerça numa comunhão que aceita o outro com o carácter que as suas qualidades lhe conferem e se traduz para cada um no prazer que se tira do convívio, seja ou não físico e em primeiro grau, é uma dessas pontes com que nos ligamos às outras ilhas que todos somos e uma das quais resiste ao acumular das sucessões entre os verdumes que brotam e os secos acastanhados que se estatelam ao sabor do vento. Por muito prolongada que seja uma ausência, nunca nos esquecemos da memória que temos do rosto e o que sucede depois é que as palavras se reatam como se nunca tivessem sido interrompidas. E agora fiquei a saber que ela até resiste à morte que lhe coloca, como a tudo, um ponto final, é certo, mas não a apaga no que foi e até, como é o caso, deixa que se manifeste com a mesma robustez das horas vivas. O Artur que agora repousa no cemitério em que os muros surgiram para demarcarem a área onde sepultámos os nossos mortos e mesmo ele que chegou a ter as cores e os odores de um jardim de recato, está agora ao descuido de não haver quem dele cuide, o Artur cumpriu e não cumpriu o que planeou executar nesta vintena de anos que viveu depois do trabalho e que tão plenamente foram preenchidos com a sua paixão de sempre, a música e os seus estudos sobre as tradições portuguesas neste campo e as suas recolhas de letras e versos, cantigas e acordes que paulatinamente foi executando sem jamais abdicar dos propósitos de aperfeiçoamento. Nessa dimensão terá cumprido plenamente o que almejou e também no referente à procura do Félix ele não faltou à palavra, tendo chegado a estabelecer contactos através da embaixada israelita e conseguido falar com um ou outro sujeito que por este ou aquele motivo conheceram aquele nosso velho amigo. Contudo não o encontrou, a ele ou à Éster e com isso deixou por cumprir o intento de o pôr a par de tudo o que continuara no trabalho que ambos haviam iniciado e muito menos de lhe oferecer os materiais resultantes de tão zeloso empenhamento. E acabou por ser o Félix a encontrá-lo ou melhor, um neto do Félix, o Amos que fala um português gramaticalmente trapalhão e com alguns géneros trocados que regularmente induzem o riso, a quem o pai encarregou da missão de entregar ao Artur o espólio que o seu pai lhe legara com o pedido expresso de dar conta daquela entrega a um companheiro que não mais vira. Segundo o rapaz que cumpriu o serviço militar e não sabe muito bem o que fazer com o seu curso e aptidões no âmbito da engenharia hidráulica, pois às funções que facilmente encontrará no seu país somam-se propostas de laboração no Sul de Espanha, em Múrcia e talvez por isso aqui tem permanecido nestes últimos meses, o avô dizia que aquelas caixas continham a parcela que lhe cabia do que resultou das investigações que em conjunto tinham efectuado pelo que ao Artur competiriam, pois só ele poderia saber o que melhor fazer com elas. Infelizmente este já estava enterrado há uma semana quando o mensageiro aqui chegou e como afinal tudo aquilo é agora pertença de ninguém, tem sido ele que dias a fio se tem perdido naqueles conteúdos e talvez a propósito disso, tanta curiosidade tem revelado por saber desta aventura tão invulgar de que os seus avós paternos foram uns dos intérpretes. Tem sido a minha companhia em muitos dos jantares que, só, eu não comeria e uma fonte de convivências para a Sofia que acabou por passar aqui todo o Verão. Lamento é que em vez de ver, até participar, ele tenha apenas para ouvir a memória da única sobrevivente do grupo fundador. Mas não é por isso que se mostra menos interessado e deixa de fazer perguntas e mais perguntas que já atiraram alguns serões pela madrugada fora, a ponto de a minha neta, carinhosamente, ter uma ou outra vez afagado a avozinha que, estando cansada, mais precisava de dormir. Que pena que eu tenho que ele não possa testemunhar como foi bonita a realidade do sonho que o seu avô contribuiu para materializar. Agora que até algumas das fábricas que foram divididas e subtraídas à cooperativa já fecharam e na aldeia resistem três ou quatro casas em que habitam os velhos que aqui ficaram por não terem para onde ir e a associação mais não é que uma espécie de café sem nada que vender onde os desterrados se encontram, para admirar estão só os edifícios desolados e as ruas desertas de um mundo parado, esmagado pela partida de todos os que alegremente se vão divertindo e iludindo pelas peripécias do crédito barato. É este afinal o tal enriquecimento prometido pela ideologia dos mercados livres que, em nome dos equilíbrios orçamentais e da racionalidade, sob a capa das reformas para diminuir o peso do estado na economia e na sociedade, se prepara em toda a parte para pôr em causa o chamado modelo social europeu que os portugueses mal chegaram a conhecer. Mas é para isso que aponta a auto-denominada terceira via dos trabalhistas britânicos que recentemente se separaram das suas raízes operárias e sindicais. Ora nós já estamos habituados a levar com estas modas em segunda mão e os socialistas que regressaram ao poder afirmam pelo mesmo diapasão. Só me espanta que ninguém pare para pensar no que se diz e sustenta e deixe passar em branco a pergunta mais comezinha de todas, apesar de tudo vir embrulhado nos mais doutos pareceres acerca da falta de sustentabilidade económica que um envelhecimento populacional, como é o que se verifica nos países desenvolvidos, acarreta; e a pergunta é muito simplesmente qual é a alternativa? A privatização do estado, como no limite acaba por se antever no que algumas luminárias propalam? Espanta-me como de repente se esquece que o desenvolvimento, em termos práticos, significou e é a redistribuição da riqueza e foi esta que permitiu o ambiente de justiça social que se tem vivido. É com isso que querem terminar? Mas será isso a que porão fim se insistirem nesta lógica de tudo querer submeter às regras do mercado e ao modo de funcionamento da economia e sociedade que a isso estará inerente. Espanta-me como ninguém contrapõe a estes senhores que na maioria dos casos foram os que tiveram responsabilidades dirigentes nos organismos públicos que agora nos vêm dizer que estes não têm vocação para gerir que essa é património exclusivo da iniciativa privada, como se não tivesse sido gente, precisamente eles, os responsáveis por esses maus resultados. E falam tanto em liberdade, mas deve ser a dos filhos deles escolherem, pois, se desmantelarem o estado social, qual será a liberdade dos filhos dos pobres? Não é a liberdade a possibilidade de escolher uma vida, um caminho na vida? Ou será apenas retórica para ficar bem no retrato da teoria? Como é que o filho de um desempregado, de um trabalhador mal pago e com emprego precário, sem o recurso a uma boa rede pública de escolas e bibliotecas, a bons serviços que lhes garantam uma boa saúde, como é que os filhos dessas pessoas poderão ser livres, isto é, escolherem um caminho na vida? Livres de perpetuarem a pobreza e sem possibilidades de escolha, será isso a liberdade de que falam? Certo e sabido é que será para o aumento dessa precariedade de vida que um mundo deixado pura e simplesmente às leis do mercado conduzirá. Tempos difíceis os que vivemos em que, após a queda do bloco comunista, não há quem na esquerda – poderia ser na direita? – tenha uma proposta diferente deste pensamento único que se impõe de uma forma avassaladora. Quando o que conta é o lucro e nada para além dele e a rentabilidade, estaremos inevitavelmente perante a decisão que se toma apenas com base nos números, sequer entendendo que escondem rostos e vidas na sua frieza.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



A ordem esperada das coisas cumpriu-se e, pelo movimento natural da demografia, chegou a minha vez de ser designada Presidente da cooperativa. Designação é o termo apropriado para descrever o sucedido pois, pela força das circunstâncias, sendo eu a pessoa mais nova dos três sobreviventes da fundação e a única com saúde e, por isso, com uma agilidade que me confere toda a autonomia como pessoa, o Artur, depois de uma série de tromboses, está acamado num lar – o que aqui chegámos a ter encerrou ou, por outra, foi encerrado há dois anos, por falta de verba e dolosa má gerência que, dito a frio, se limitou a formular e pôr em prática um plano de falência, uma vez que a tutela da unidade pertencia à cooperativa que não teve braços para substituir os directores que, estando envolvidos no desmantelamento e divisão das nossas actividades económicas, não só não quiseram preocupações com os encargos de administrar e gerir, como também aí viram mais uma área com hipóteses de vir a gerar mais um negócio privado – e a Teresa, com os seus oitenta anos já não teria paciência para desempenhar o cargo, a menos que não houvesse alternativa e como para além de nós apenas restam como cooperantes o Adão e um filho e uma filha da Mariana, fiquei assim encarregue de presidir aos destinos da cooperativa ou ao que dela resta, se tiver em conta a dolorosa lembrança que praticamente nos sobra a gestão dos pagamentos das reformas que permanecem afectas às extracções de cortiça que continuamos a assegurar, para além da apanha e venda da azeitona e da lenha que ainda garantimos. De resto, tudo o que foi actividade agrícola desapareceu há mais ou menos uma década, com os imensos hectares destas terras que tantas alegrias nos deram, tanto pão e dignidade levaram aos pais e aos filhos, votados ao maior dos abandonos. E como em dez anos o mato tomou conta do que outrora foi solo viçoso e generoso. É a tristeza que vemos nas ruas poeirentas e descuidadas de um local que se fez ermo, como o era quando aqui chegámos, onde as lojas há muito fecharam, os jardins secaram e cristalizaram em ruína e as casas desabitadas se trancaram de tijoleira crua à prova de vagabundos. Pessoalmente lá tenho contado com as visitas que a minha neta Sofia, a filha do Carlos, me tem feito amiúde, desde que decidiu fazer estudos de língua e literatura portuguesa em Lisboa e eleger a minha casa como o retiro das suas meditações e hesitações sobre a vida, pelo que me vai confessando, a respeito da qual está muito longe de saber o que quer. É a minha companhia de passeios vespertinos que tanto me alegram o coração que, para além disso, aqui, neste que já foi um pedacinho do céu onde fui tão feliz, apenas as memórias aquecem.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Não consigo deixar de pensar que esta gente está completamente doida, embora sequer me passe pela cabeça pôr em causa a decisão tomada que, na devida consciência de cada um, resultou de uma vontade que se mostrou largamente maioritária. Mas até por isso, precisamente por estar perante uma onda avassaladora que em tão pouco tempo volveu a mente de tantas pessoas, tal como num livro de Bulgakov que li num dos meus retiros parisienses, até parece que um qualquer manto invisível de magia passou pelo mundo e alterou as consciências dos homens que se deixaram deslumbrar pelo brilho metálico que aquele teve por rasto diante dos olhos de todos. É que só pode ser por pura doidice que de repente se abandonou um caminho que era seguro e onde se colheram e naturalmente continuariam a colher bons frutos, pelos cantos de sereia de outros em que o que se avista são certezas postiças de um enriquecimento individual de promessa, quase se diria sem esforço e isso é nada mais que lirismo, de modo algum podendo confundir-se com um sonho de sonhadores como um dia nos chamaram, antes se reduzindo à simples ilusão de pensar que os desejos e a realidade são a mesma coisa, ainda que pouco tenhamos feito por isso. E a verdade é que a ninguém ocorre perguntar se no mundo que criámos não viemos a obter esse mesmo enriquecimento que agora se coloca no altar de todas as adorações? Isto para nem chegar a espantar-me por sequer haver quem pare para pensar, o mesmo é dizer para efectuar uma avaliação do que conseguimos, o balanço entre o que de bom alcançamos e redistribuímos e aquilo que tenha gerado maus resultados que em prejuízo de todos se firmaram. Como é que em juízo perfeito, em função de um novo paradigma – bem lá no fundo tão velho como o capitalismo – se pode pura e simplesmente apagar toda uma obra que tanto custou a pôr de pé e em que os mais pobres encontraram um caminho consistente para deixar de o ser e sobretudo para não legarem aos filhos nada mais que a pobreza com que os trouxeram ao mundo? Como é possível que ninguém dê valor a isto ou, para ser mais exacta, como é possível que haja alguém que não dê valor a isto, uma vez que o apreço já implica uma posição de princípio? Ora é aí que o sopro das sereias lança o pó da magia que tem envolvido os espíritos, agora todos parecem rendidos ao poder e, pasme-se, à bondade dos mercados e de tal maneira ou com um tal ímpeto que, ao defender-se que estes se regulam entre si, se está a sacralizá-los como se uma leitura de Dyckens não fosse suficiente para sabermos que não é assim que, livres de amarras, completamente livres do controlo por parte dos estados e das leis e das barreiras que o primado da justiça social lhes possam colocar, aqueles tendem a gerar riqueza, é certo, podem até gerar muita riqueza e assim tem sido, mas não a repartem e aquilo que se observou foi que aquela sempre foi acumulada pelos mesmos em número reduzido, traduzindo-se em cada vez mais miséria para os que restam que em larga maioria vão empobrecendo. Contudo é este o sinal dos tempos e aqueles que fundaram esta comunidade são agora uma pequena minoria entre aqueles que decidem e não podem contar com a força dos outros companheiros que em grande número já deixaram de estar entre nós. Foi com enorme desgosto que o José Pedro viu as produções industriais de azeite, arroz e tomate serem divididas, bem como as fábricas de cortiça e a de produção de pano, sequer escapando as oficinas e o próprio posto médico que assim passou a clínica privada e foi com justiça que fez todos os seus herdeiros pessoais, dois dos quais, um dos seus filhos e um neto, envolvidos nesta mudança de rumo, assinar um documento em que se comprometeram a respeitar o usufruto de todas as terras pela cooperativa enquanto esta existir. Para já, há uns quantos que ufanam de contentes e quem os ouve expressar esse optimismo, tem a nítida sensação de escutar um conto de fadas. Vamos a ver ao que irá conduzir esta ambição desmedida que se esconde por entre as loas dos festejos.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Há algo de verdade naquela sabedoria antiga do Oriente que encara a vida segundo aquilo a que eu vou chamar de teoria do pêndulo, segundo a qual a vida se comporta como esse instrumento, ora pendendo para um lado para depois tomar a direcção e a demanda do pólo oposto, ora acabando por encontrar o equilíbrio entre eles e, com isso, o ponto e o rumo certo que a mesma deve seguir num determinado momento. Não é que isto tenha necessariamente por consequência aquilo que vou dizer, mas ressalta para mim que isso nos chama a atenção para o facto de em inúmeros casos e situações, nós podermos encontrar sempre um aspecto positivo, pelo menos um, em coisas que até nos podem ser dolorosas e difíceis de superar. Escusado será dizer que não me parece que isto implica única e obrigatoriamente a resignação perante as agruras, de modo algum, apenas nos desperta para um dos meios que temos para enfrentar o desespero, na medida em que nos permite compreender que na proporção exacta do nem tudo o que luz é ouro, também nem todas as tempestades apenas têm as borrascas maléficas que nos oprimem e visam – salvo seja o animismo que o verbo pressupõe – destruir. Se estivermos atentos e não nos deixarmos cegar pelas circunstâncias, o que admito não seja fácil de fazer, quase sempre seremos capazes de encontrar uma vertente, uma consequência, da qual possamos extrair algo benéfico para nós; mais não seja, está ao nosso alcance a aprendizagem com o erro ou os erros cometidos. Salva-se pois a conclusão que me indica ser uma pessoa de sorte por ao longo da minha existência ter assistido a mudanças sociais revolucionárias, antecipadas pelas respectivas alterações de paradigma que geralmente desembocam em novas formas de organização social e económica que é, justamente, o que estamos uma vez mais a viver em Portugal como consequência da nossa entrada na Comunidade Económica Europeia e, pelo conteúdo do discurso dominante, as perspectivas que isso abre e as exigências que acarreta. Eu tinha cinquenta e seis anos quando aconteceu o vinte e cinco de Abril e com essa idade assisti à queda de um mundo e ao surgimento de um outro que depois de toda a ebulição revolucionária que se seguiu adquiriu contornos e matizes socializantes que, por via das partidas e contra-partidas dos diversos actores que para isso concorreram, exibiu os aspectos dúbios que decorreram de em uma economia praticamente toda estatizada se pretender evoluir no âmbito das lógicas da iniciativa privada e das regras dos mercados. Se considerar que houve na verdade uma tentativa para impor um regime de moldes soviéticos entre nós, como a historiografia e os discursos políticos decorrentes da facção que venceu em Novembro de setenta e cinco e colocou um ponto final a esse mesmo movimento pretendem, então poderei dizer que fui criada num e para um mundo em que vivi a maior parte dos meus dias e ruiu, presenciei o avanço de outro que abortou e estou agora finalmente a testemunhar a implementação de um outro em que precisamente se apontam os mercados e a economia de mercado, como hoje em dia se diz, como o paradigma a que devemos aderir e a meta que importa almejar e o sistema de referência a partir do qual se impõe, para os mais impacientes e por isso mais apressados, urge, suster e organizar toda a sociedade e maneira de viver. O discurso corrente na sequência da euforia em torno da primeira maioria absoluta de um só partido desde que voltámos a ter eleições livres entre nós e, não sejamos hipócritas, em boa quantidade da massa em que essa avalanche se faz ouvir, na perspectiva e mira dos rios de dinheiro anunciados no contexto dos apoios comunitários ao desenvolvimento dos membros mais recentes da Comunidade Económica, o discurso comum que agora parece querer abafar todos os outros é exactamente esse, o que defende ser apenas possível desenvolver o país no domínio de uma economia de mercado em que a prioridade máxima deve, em conformidade, ser dada à privatização do aparelho produtivo e à abertura do sector financeiro à iniciativa privada. Para aqueles que defendem a repartição da riqueza que se produz, está na moda opor a ideia que todos poderemos enriquecer e o mais espantoso é como, independentemente de aquilatarmos do quanto isso possa ou não ter de sentido, a comunicação social cria uma bolha de ilusão que faz parecer que a larga maioria das pessoas acredita piamente nisso. Vamos a ver onde é que isto vai parar, mas seja onde for, o que me incomoda é que também entre nós, avaliando pelas vozes que se fazem ouvir, esta visão dá mostras de ter ganho adeptos, quer dizer, a onda chegou até nós e tudo aponta para que nos traga os inerentes efeitos de choque. Provavelmente, eu não voltaria a escrever nestes cadernos não fosse a gravidade do que se está exigindo por aqui. É verdade que nem tudo tem corrido da melhor maneira e, especialmente nos primeiros anos desta década, enfrentámos dificuldades no escoamento dos produtos no mercado interno que, por exemplo, nos levaram a reduzir pessoal em praticamente todas as actividades e, no caso daquilo que foi o empreendimento emblemático das mulheres, os produtos alimentares transformados e liofilizados, vimo-nos mesmo forçados a encerrar a linha produtiva e todo o circuito comercial daí derivado. Contudo, isso nada tem a ver com o que actualmente se pretende que é a separação das unidades e a venda das mesmas a quem queira assumir o compromisso de as manter segundo o figurino de um negócio particular; para tanto vai uma distância que no meu entendimento – deverei escrever modesto entendimento? – importaria que não percorrêssemos. Eu não me inquietaria se tudo se tratasse de um fenómeno restringido ao cenário de uma discussão teórica. Acontece que estamos num plano mais avançado e logo mais perigoso, pois a pressão que se faz sentir para que se dê esse passo tem sido de tal maneira potente e constante que, neste momento, já escutei análises quanto ao modo como proceder a tais privatizações se é que este termo tem aqui alguma validade. Aquilo que vejo é que há uma grande maioria de cabeças a pensar desse jeito e, por mais incrível que seja, dir-se-ia que aquela operação afinal se trata, não digo ainda um acto, digo, no entanto, de uma decisão consumada. Sinceramente, a menos que me façam ver claramente o contrário, estou convencida que este pessoal pura e simplesmente perdeu a cabeça e está a deixar-se enevoar para não escrever cegar, por uma miragem de fortuna com que a óptica mercantilista tanto em voga vai acenando. 
 Tenho receio que estejamos perante o toque de finados desta comunidade que nos consumiu os melhores anos das nossas vidas e, feitas bem as contas, tão enriquecedora foi para todos e, no que aos ângulos em apreço diz respeito, tão bons resultados gerou em sede de justiça social. Contava com uma velhice diferente, seguramente mais descansada do que as nuvens ameaçadoras deixam antever no horizonte.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Estou desesperada, é como se tivesse morrido e não soubesse que estava morta. Sinto-me confusa e perdida e sinto que é insuportável permanecer nesta casa, onde é tão estranho dormir só, comer só, estar só, esperando de desesperança que finalmente o Manuel regresse e me conte o que viu na sua ausência. Certa é a certeza de ter perdido metade de mim, pois é dessa forma que me sinto, amputada da outra parte da minha alma. Nem sei se sofro que sofrimento não me parece ser o que por mim vai passando, antes me escovo na apatia dos olhos que deixaram de olhar. E foi tão rápida a revelação do mal e tão curto o mês em que o indizível se consumou e aquele maldito cancro no estômago derrotou o meu amor que, perante a besta fulminante, mal teve tempo para lutar. E eu aqui sem vontade, sem ânimo, sem vontade de ter vontade, sem qualquer ânimo para ter ânimo, eu aqui apenas com consciência de que continuo a amar-te, como te amei quando apaixonados nos entregamos um ao outro na promessa de enfrentarmos a vida de mãos dadas, como te amei quando apaixonados, melados nos entregámos um ao outro na busca dos segredos mais íntimos e na ânsia de os desvendar para o êxtase dos corpos, continuo a amar-te como quando decidimos embarcar na aventura mais desconcertante que o bom senso dos mais velhos desaconselhava e como quando te via e admirava na tua capacidade para te adaptares àquilo para que não foras feito, continuo a amar-te como te amei quando os nossos filhos nasceram de mim e quando me embevecia por te ver carinhoso e tão paciente no amparo que lhes foste proporcionando para que as asas deles voassem, como te amei em todos os momentos em que me amaste, em que nos amámos sempre com o ardor de quem descobre amar cada vez mais.
Manuel do meu coração, Manuel da minha alma que levaste metade de mim contigo e que só partirás quando, com a tua outra metade, também eu partir.
Amo-te tanto, tanto.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA




Tudo leva a crer que a refrega revolucionária passou e o país dá mostras de estar a entrar na normalidade da democracia, aparentemente, tendo atravessado a borrasca sem se desintegrar, ainda que o sobressalto tenha sido uma mudança de sociedade. Certo é que em Abril passado se realizaram as eleições para uma assembleia legislativa da qual emanou o primeiro governo constitucional que, por muitas que sejam as dificuldades, lá vai tomando conta dos assuntos públicos e das medidas que se impõem para que Portugal possa aceder ao patamar do mundo desenvolvido e, paralelamente, conseguindo com isso construir os mecanismos imprescindíveis a uma realidade baseada nos princípios da justiça social. Pelos vistos, a nossa comunidade, também ela, bolinou mais ou menos incólume em toda essa agitação e até foi capaz de dar conta da parte que lhe poderia caber no que toca a acolher os milhares de portugueses que a guerra civil em Angola e as independências forçaram a abandonar as antigas colónias e, por escassez de alternativas, a demandarem a metrópole em busca da reconstrução das vidas que, ao que se ouve dizer, na grande maioria dos casos, dramaticamente perderam. Demos trabalho a três famílias que para já se instalaram em casas pré-fabricadas que, no entanto, estão sendo substituídas por lares a sério numa ponta de terreno por detrás do bairro dos trabalhadores a que ficarão ligadas por uma rua entre o espaço devoluto e ajardinado que separa duas moradias da ala correspondente e onde, há muito, estavam edificadas as duas moradias que têm as vistas na direcção da estrada. Apesar deste movimento populacional repentino e massivo que, de uma maneira ou de outra, o tecido económico nacional terá que albergar e sustentar, há uma calmaria que se vai instalando ao tomar o lugar das marés vivas que invadiram as ruas e não sei porquê, estou confiante que daqui a uma dúzia de anos viveremos dias melhores e mais justos. Por isso penso que é melhor assim, em lado algum se viveu uma revolução permanente e ao mesmo tempo se criaram os meios que permitem redistribuir a riqueza gerada e as oportunidades para que os filhos dos mais pobres possam escolher o que acharem que é o melhor caminho para as suas vidas. Não sei muito bem o que possa ser o socialismo pois, pelo que se vai apurando, a verdade é que, pelo menos nestes últimos anos, com o movimento dos não alinhados, temos assistido à afirmação de vias alternativas, seja como for, pelo menos existem dois discursos distintos, um em torno do que podemos designar pela óptica comunista dos países socialistas, em crescendo de número no panorama mundial e o outro girando à volta dos partidos social-democratas e socialistas dos países da Europa Ocidental e do Norte, sendo ambos muitíssimo diferentes e correspondendo mesmo a modelos de sociedades antagónicas entre si. Com efeito, enquanto o primeiro se consolida numa economia estatizada e planificada onde a iniciativa privada e a propriedade foram praticamente banidas, depois de decretadas abolidas, o segundo, pelo contrário, conferindo especial atenção a estas que as leis protegem, alicerça-se plenamente na organização capitalista das actividades económicas que dessa maneira funcionam fora da alçada dos poderes políticos, à partida regulando-se pelas regras específicas dos mercados e apenas competindo ao estado agir no sentido de assegurar que tais entidades, particularmente as mais poderosas, não violem direitos daqueles que trabalham e simultaneamente controlar e gerir a repartição dos rendimentos globais que melhore a qualidade de vida em geral. Fico pois sem saber ao certo o que possa ser o socialismo uma vez que, mesmo descontando as perguntas de um lado e do outro, ao que parece, ambos têm atingido esse almejado nível de igualdade. Contudo, seja o que for, estou absolutamente convencida que o resultado do mesmo só pode ser medido, por um lado por uma situação de ausência de pobreza tal qual a conhecemos e da forma como se manifesta entre nós, portugueses e, por outro lado, pelo facto de os que por qualquer motivo não consigam abandonar o fundo da escala, terem, ainda assim, a possibilidade de verem os seus descendentes com acesso às mesmas chances que os outros, mais afortunados, para melhorarem as suas vidas. Fora disto não vejo que se possa falar de socialismo pois, pela simples acção da inércia, as desigualdades tendem inapelavelmente a impedir que os mais fracos possam ter e usufruir das oportunidades propícias à escolha livre de uma vida. Ora nós que por agora temos os principais sectores económicos nacionalizados, temos todas as condições para podermos organizar as coisas de maneira a alcançarmos tais objectivos. É então este o Portugal que a partir de amanhã abandonaremos para darmos início a uma viagem pelos diversos países europeus, com o propósito de visitarmos todos os pontos que, de acordo com os nossos interesses em geral, consideramos essenciais. Por causa disso, acabámos por ficar aqui até ao início deste novo ano; de acordo com a experiência que tivemos de visitar cidades a partir de Paris, para tanto utilizando a ferrovia, concluímos que teremos maior mobilidade, dado dispormos de todo o tempo que for preciso, se formos no nosso próprio meio de transporte. Matutámos e decidimo-nos por adquirir um furgão Volkswagen que nestes últimos meses, com a ajuda do Chico Sequeira que, apesar de há muito ter passado da sua posição de mecânico a dono de uma oficina e stand de peso e nomeada no ramo e na região, gosta destas coisas e ali deixou tamanho empenho e entusiasmo quanto o do meu amor que readaptou todo o interior como se de uma pequena roulotte se tratasse e pelo conforto e comodidades acrescentadas, do rádio ao leitor de cassetes para que tenhamos música, ao pequeno frigorífico e depósito de água para que tenhamos autonomia alimentar, sem esquecer a chauffagem para os dias frios, apesar de pouco entender destas coisas de automóveis, diria que fez ou melhor, diria que fizeram um bom trabalho.
O Vale da Esperança está mais lindo que nunca. Dá gosto ver as ruas limpinhas e todos os ajardinamentos tratados e decorados com flores que por ainda não ser Primavera permanecem em grande parte na latência das sementes e que tanto realce e perfume dão às fachadas das casas sempre arranjadinhas no que, aqui, na praça central, sobressai o casarão com os seus janelames e portadas antigas que o arvoredo que enverdece a colina e vai envolvendo a escadinha das nossas residências de piso térreo, embala ao sabor do vento. Da mesma maneira que é um encanto ruar pelo bairro dos trabalhadores onde os letreiros decorados dos serviços e uma ou outra loja que por ali abriram combinam tão bem com os vasos de flores que pintam as muradas baixas dos quintais. É tão fácil para as crianças seguirem até à escola que, nas traseiras do casarão, fica de frente para o centro médico com o seu espaço intercalar ordenado num parque de estacionamento a que os pinheiros mansos, ali plantados desde a primeira pedra, já vão conferindo sombra. Assim como é fácil seguir a pé ou de bicicleta para o trabalho. É tão bonito comprar o jornal da manhã e ter que dizer bom dia a rostos que se cruzam numa e noutra direcção, entrando por aqui e ali nas portas comerciais que estão abertas e a que um banco juntou um balcão e os correios um pequeno posto. E as actividades estão firmes, quer no domínio agrícola, quer no da agro-indústria que desenvolvemos quanto ao azeite e o tomate, ou o arroz e outros produtos alimentares, assim como nas cortiças expandimos as produções e abrimos outras unidades complementares e de suporte.
Sinto orgulho por ter contribuído para isto, sobretudo por isso me fazer sentir que a minha vida jamais terá sido em vão.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA




Definitivamente posso afirmar que me sinto como uma espécie de macaquinho que os miúdos tanto gostam de espreitar em Sete Rios. Vá lá que é mais do género da aldeia que, ainda que muitas vezes seja preferível mantermo-nos atrás das portas e postigos, a sensação das grades, apesar de tudo, não é a que mais avassala. Desde o princípio do ano passado que temos sido mais assiduamente visitados pelos mais variados tipos de gentes que aqui vêm, de uma maneira geral, para verem aquilo que lhes parece que é um mundo com uma maneira de viver diferente. Impressiona-me como é tão vulgar que se veja aquilo que se quer ver, como é tão natural que se observe e se interprete com os pressupostos e preconceitos que levamos connosco quando comunicamos com o que nos envolve e de tal maneira que, nos casos mais agudos, chegamos a olhar a realidade com quadros de modelos que construímos à anteriori e nem reparamos que os acabamos por confundir com aquela. Porque será isto tão corriqueiro entre o comum dos mortais? Pouco importa para o caso, a verdade é que temos visitas regulares de simples turistas da cidade que sentem curiosidade para ver como se pode viver no campo e ficam mais ou menos admirados e um tanto frustrados por não verem o que devem imaginar o que são casas medievais onde uns quantos rústicos continuassem a viver num misto de idade média e paraíso igualitário, mais ou menos colorido e aligeirado nos costumes consoante as idades dos forasteiros, isto, é bom de ver, para lá de toda a sorte de romarias que as mais variadas militâncias aqui descarregam aos fins-de-semana e que de vez em quando nos solicitam encontros de trabalho que, nesse capítulo por sempre partirem de entidades determinadas que se instalaram no tecido social e na economia do país, numa boa mão cheia de situações nos levaram a contactar tais interessados nesta nossa comunidade. Mesmo entre os mais esclarecidos me deparo com frequência com esse tal defeito de observação com a configuração da lente do que previamente pensamos a respeito delas. E só por isso apenas me cruzei pessoalmente com jovens idealistas ou arregimentados e portadores de um discurso mais que de uma vontade de ver e ouvir. Só tive um momento de dificuldade, quando uma jovem, vestida como se fosse uma velha dos campos, me quis convencer que nós temos a honra de representar aquilo que indubitavelmente, o advérbio foi ela que o aplicou, representa um verdadeiro exemplo de sucesso de uma experiência socialista. E para além de ser alegre e sorridentemente tratada por camarada, fiquei a saber que significo o futuro da Humanidade. Mas não é isso que diminui e muito menos inibe de me sentir um macaquinho de zoo e ainda mais perante o atípico antropólogo inglês que decidiu permanecer entre nós, pelo menos, ainda um outro ano mais. Num destes dias pediu que o recebesse e lhe concedesse uma entrevista para falar das minhas impressões a respeito dos primeiros anos desta aventura e as motivações que me levaram a juntar-me aos outros e para combinarmos novas conversas para apresentar os meus pontos de vista acerca da organização e evolução do sistema escolar que aqui instalámos. E não é que esse observador me surpreendeu quando depois de tergiversar em teorizações do que chamou de antropologia marxista, me confessou que tem em mente uma monografia que fará de nós uma espécie de aldeia comunitária dos tempos modernos e, com isso, nos apresentará como uma ilustração do que pode ser uma forma de economia e modo de vida alternativo ao capitalismo e à sociedade capitalista? E não tenho a certeza que ele tenha entendido o que lhe disse sobre a importância da ética num projecto destes. É que esta só pode ser entendida enquanto a consideração do discurso do outro –não porque tenham igual importância, a meu ver- no sentido em que devemos atender às diversas perspectivas que se estabeleçam em torno de um determinado problema. Sem isso jamais seremos capazes de escolher e ter um comportamento ético que é aquele que respeita o semelhante e procura estabelecer pontes que nos possam unir e permitir coexistir em paz e a capacidade de identificar e prosseguir objectivos comuns. A não ser assim, não teremos como obter o auto-consentimento sem o qual uma experiência destas só pode ser imposta e para que tenha sucesso, como a nossa vivência me autoriza a defender, depende da vontade de todos os envolvidos para que seja assim. Mas vamos a ver o que vai sair naquela monografia.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Pelas piores razões, vimo-nos forçados a interromper a nossa estada em Paris, onde alugámos um pequeno estúdio mesmo no prédio ao lado daquele onde mora o meu filho mais novo, justamente para que deles estivéssemos perto e deles pudéssemos partilhar o calor e o afecto de uma família maravilhosamente tranquila e feliz e, naturalmente, estarmos assim em posição de acompanhar os rebentos que estão cada vez mais crescidos e tanto gosto dá ver desabrochar como pessoas que se fazem de bem e com saúde e inteligência que é o que se pode concluir da compostura e delicadeza daquelas crianças que por isso não deixam de ser vivas e brincalhonas como todos os petizes devem ser. Pensávamos regressar depois do Verão, altura em que terei que tratar dos trâmites finais da minha aposentação e até lá contávamos fazer mais algumas surtidas a outras cidades estrangeiras – relativamente aos franceses, como é bom de entender – e para que, ao mesmo tempo que a proximidade nos presenteia e apaparica com os miminhos dos netos, não incomodássemos o quotidiano das suas vidas com a sobrelotação do espaço, aproveitámos a feliz oportunidade de arrendar aquilo que logo nos pareceu um ninho digno de enamorados e do qual fizemos o porto de abrigo das nossas andanças por outras paragens naquela região da Europa. Vá lá que estávamos em casa quando recebemos primeiro o telegrama e depois o telefonema da Mariana, dando a notícia do violento ataque cardíaco que o pai sofrera na noite anterior e que o lançara para um coma profundo do qual, os médicos, desde o primeiro momento disseram que dificilmente sairia. De outra forma muito provavelmente não teríamos como chegar aqui a tempo de o acompanharmos até a sua última morada. Pelas peripécias de marcar e obter um voo para Lisboa num repente de urgência, não me parece que o tivéssemos conseguido. Seja como for, viemos assim que pudemos e infelizmente chegamos na manhã em que aquele ente querido faleceu. Pelos piores motivos, portanto, tivemos que suspender a nossa licença parisiense para podermos estar presentes no funeral do amigo que para todo o sempre partiu. Escrevo ente querido e amigo pois é exactamente disso que se trata; sempre que penso nesta última palavra, é dele um dos rostos que me aflora ao cérebro. O senhor Abel era um ser humano fantástico que jamais se deixou abater e sempre conseguiu encarar a vida com a perspectiva de nunca deixar de procurar os lados ou os aspectos de que pudesse obter algo de positivo mesmo nas situações mais árduas e dolorosas. Era um homem de paz, ainda que fosse capaz de erguer o braço e lutar com fulgor e tenacidade e era alguém que procurava que aquilo que pudesse unir uns aos outros se sobrepusesse ao que divide e separa a menos que no essencial não fosse encontrável qualquer espaço para que se lançassem os alicerces das pontes em que tal acontece ou pode acontecer. E sabia ouvir e respeitar as opiniões alheias, jamais deixando de aceitar a democracia de uma decisão com que não concordasse. Nesse aspecto, aqui na comunidade e nestes últimos anos na associação, onde levou até ao fim a sua organização de passeios culturais e didácticos, como ele por fim dizia, era um verdadeiro exemplo de cidadania e apesar de se considerar comunista e de ter gosto em afirmar-se inscrito como simpatizante – ele era da opinião que não tinha autoridade e competência para se dizer militante – do partido, comportava-se como um democrata que punha a um canto muito boa figura desse bando de oportunistas que andam por aí a tratar da vidinha, das suas vidinhas particulares. Era também um ser humano bastante inteligente que aprendeu inglês e alemão bem perto dos cinquenta e, apesar de não ter grandes ocasiões para se desempoeirar em tais domínios, chegou a ler alguns textos no original. Era a sua faceta auto-didacta que o levou a estudar Física nas horas vagas com o mesmo intuito, como ele dizia, sempre com um sorriso, de tentar compreender o Universo e ver onde é que nós nos podíamos situar nessa infinitude. Já tenho saudades dos seus pensamentos e do seu humor sibilino e simultaneamente tão humano, tão profundamente humano. O senhor Abel era sapateiro quando chegámos aqui, ofício que aprendera para que pudesse fazer frente às imperiosidades de ganhar o sustento e o agasalho, primeiro para si e depois para si e as mulheres do seu coração e tinha um sorriso franco e que amiúde lhe brotava nos lábios a propósito de qualquer acontecimento do dia a dia, sequer dele se esquecendo quando eram abalos e borrascas aquilo por que estava a passar, pois, desde a mais tenra idade que sabia, tal como ele uma vez explicou, para lá do pensamento e como expressão deste, a única coisa que resta ao pobre e ninguém lha pode tirar era e é e sempre foi, precisamente, a capacidade de se rir de tudo e todos os que de alguma maneira concorrem para esse estado de pobreza em que aquele vive. Ainda bem que chegamos a tempo de assistirmos à sua última viagem, muito embora eu não tenha querido ver o cadáver. Prefiro guardar-lhe a memória das feições enquanto vivo.
Parece que o estou a ver com olhos de miúdo brilhando quando lhe surgiu a ideia para o nome que poderia substituir aquele que propusera e fora rejeitado pelo peso provocatório que, à época, consistiria para as autoridades. “-Já sei, vamos chamar Vale da Esperança.” –E foi assim que ele acabou por encontrar o nome para a comunidade em que vivemos e agora abandonou para o seu último sono.
Paz à sua alma.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA




4º. CADERNO

Assim passaram todos estes anos desde que nos estabelecemos aqui e, dentro deles, muitos outros a partir do dia em que me vim a descobrir docente por via das circunstâncias que as nossas vontades e persistência foram gerando. Há sempre nostalgia quando encerramos um ciclo na nossa vida, tal qual eu estou fazendo agora que sei ter dado a minha última lição mas, sem qualquer toque de vaidade, sinto que há igualmente a alegria da consciência do dever cumprido e, embora mais leve, sendo nós simples humanos, também a antecipação da satisfação por muito simplesmente podermos dormir até tarde e não termos que nos deitar antes do que temos em mão esteja resolvido. E mentiria se escondesse a sensação de que estas se sobrepõem àquela. Não tenho pois a tristeza de abandonar o que de mim fez parte por tanto tempo e posso dizer que parto com alegria para esta nova fase que se abre cheia de visões de realização de pequenos sonhos que permanecem por concretizar. Teoricamente ainda teria que leccionar ao longo do próximo ano lectivo o que poderia muito bem ser essa a minha derradeira experiência enquanto professora. No entanto nunca antes usufruíra da possibilidade da minha licença sabática a que, de acordo com as regras da casa, poderia ter acesso e de que abdiquei mesmo enquanto preparei o doutoramento e na medida em que a minha aposentação em nada põe em risco a continuidade da disciplina em que já estou devidamente substituída, decidi apresentar perante o Conselho Escolar a possibilidade de transformar essa concessão que, como é lógico, só se justifica para qualquer outro trabalho de especial relevo e importância, seja para o conhecimento, seja para alguma mais-valia de interesse para a comunidade ou a sociedade, em geral, numa forma de aliviar em uma anuidade a entrada na situação da reforma e como, uma vez apreciada, a minha pretensão veio deferida, apesar de tecnicamente ainda estar no activo, estou assim na condição de quem, na prática, pode agir como alguém que deixou de necessitar de trabalhar para viver. No fim de setenta e seis perfarei trinta e cinco anos de serviço continuado e como tal, com uma penalização de vinte por cento em relação ao meu último salário, pois faço-o antes dos sessenta e cinco anos, poderei reformar-me por limite de idade. Ora como as nossas poupanças e bens acumulados seriam suficientes para vivermos tranquilos o resto dos nossos dias, seria uma teimosia continuar a ocupar um lugar em que seguramente o sangue novo pode colocar outra vitalidade. Bem sei que a sabedoria se avoluma no decurso da existência e que só por isso um mestre mais velho pode ser uma reserva inestimável de saberes e pensamentos, mas há toda uma energia física que o palco de uma aula requer e essa vai ao invés daqueles aspectos e seria uma palermice pretender que a partir de uma certa altura mantemos a mesma vivacidade de outros ontens e não ser capaz de reconhecer quando os outros podem conseguir melhor que nós e é chegada a ocasião para nos retirarmos. E depois fica sempre em aberto a eventualidade de uma colaboração ou de colaborações pontuais a que não me subtrairei se realmente valerem a pena e isto sem prejuízo de preferir repousar, pelo menos nos meses mais próximos. Com toda a sinceridade, penso ser inteiramente merecido que uma pessoa depois de uma larga fatia da sua passagem por este mundo ser levada com as agruras e preocupações da labuta diária, possa gozar por um bom número de primaveras esse esplendor com que a lezíria se pinta em Abril e Maio. Havendo saúde, é esse o primeiro prémio que a sociedade lhe oferece para que possa usar esses dias com os encantos do quotidiano que antes não tinha possibilidades para apreciar. Amanhã partiremos para Paris, onde o Carlos Manuel nos esperará em Orly, para aí passarmos uma temporada na sua companhia e na dos netos e nora e, a partir de onde contamos viajar de comboio por uns quantos países e cidades da Europa Central que, tanto eu como o Manuel, temos muita curiosidade em visitar. Finalmente vamos poder estar com vagar e tranquilidade e com toda a liberdade para palmilharmos e esgravatarmos os cantinhos culturais que a capital de França tem à disposição dos interessados; a verdade é que só contamos regressar na próxima Primavera ou até depois disso. Quero ir a Heidelberga e Bona, na Alemanha Federal e a Lovaina na Bélgica, neste caso para recordar dias intensos e felizes e ardo de paixão por o Manuel me sussurrar ao ouvido que quer namorar comigo na terra de Mozart.
Faz-se tarde e teremos que estar no aeroporto a meio da manhã. Sinto o frenesim das vésperas das viagens em que o paizinho e a mãezinha me levavam até à quinta dos avós para que aí passasse o Verão.
Estou a perceber que a reforma também é isto, um tempo mais leve para amar.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



“-Meus amigos!
Estamos aqui com o mais elevado sentido de serviço cívico e com todo o orgulho de quem sabe estar a cumprir, ainda que numa pequena parte, numa pequeníssima e modestíssima parte, e também estamos aqui, dizia, a cumprir a nobre missão de velarmos para que este dia seja um exemplo do quanto os portugueses estão gratos pela democracia e aptos para em ela e de acordo com ela viverem e aquilo que se vai passar, a expressão da vontade que os nossos concidadãos vão ditar pelo voto, tenha a garantia de que tudo decorrerá de forma pacífica e necessariamente educada, dentro das regras da sã convivência e da natural concorrência entre as partes em disputa e dos requisitos que permitam a todos e a qualquer um, na solidão e completo recato da sua escolha individual a que só a sua consciência preside, indicar qual é a sua preferência para o representar na assembleia que terá como propósito a feitura e aprovação de uma constituição que moldará o género de sociedade que pretendemos ou venhamos a pretender para Portugal. É bom ter presente que é a primeira vez que, em muitas décadas, nos é dada a oportunidade de livremente elegermos aqueles que achamos melhores para os palcos das decisões. Apesar de toda a agitação e algazarra que tem ocupado as ruas e os mais diversos locais, incluindo os lares e os postos de trabalho, apesar da confusão que uma miríade de partidos e movimentos políticos só por si inevitavelmente gera, apesar de tudo isto, a campanha eleitoral decorreu em paz e a nenhum dos concorrentes foi diminuída ou de alguma forma constrangida a possibilidade de apresentar os seus pontos de vista e propostas e com isso fazerem os seus apelos ao voto e de conseguirem o máximo de representatividade que, depois, ao povo lhe pareça conveniente atribuir. Por palavras mais simples e concisas, podemos com satisfação afirmar que tudo decorreu em plena liberdade e chegou ao dia de hoje com alegria e o saldo de algo cumprido a preceito. Provavelmente, se aprofundarmos com rigor as páginas da nossa História, foi a primeira vez que isso sucedeu entre nós, pois é a primeira vez que homens e mulheres, qualquer cidadão maior de idade, vai poder pronunciar-se sem receio nem qualquer condicionalismo sobre o que querem para os destinos políticos do país. E ninguém entre os que aqui estão, tendo conhecido apenas o Estado Novo, tinha antes assistido a uma coisa destas. Não tenhamos qualquer dúvida, muito menos temamos que nos acusem de vaidade ou nacionalismo retrógrado por o dizer, é uma grande lição que nós, portugueses, damos ao mundo. Mas é igualmente e se calhar com maior grau de importância, uma enorme fonte de ensinamentos que devemos tirar para nós, mais não fosse, pela prova que faz de como também nós somos capazes de compreender e assimilar as normas democráticas e de viver em conformidade com elas. É pois uma enorme honra para todos os que aqui estão hoje, com o papel de zelarem para que a afluência às urnas que vão abrir daqui a pouco, aconteça com toda a civilidade, com a garantia de que todos possam escolher sem o mais leve estorvo e a mínima interferência de quem ou o que quer que seja. Ora essa honra que nos distingue implica igual e obrigatoriamente a grande responsabilidade de nada fazer para que tais objectivos sofram a mais insignificante das beliscaduras. Assim, ao mesmo tempo que desde já lhes quero agradecer a disponibilidade e o empenho para estarem aqui e de lhes mostrar ainda a minha gratidão pelo facto de me terem escolhido para presidir a estas mesas eleitorais em que os habitantes do Vale da Esperança vão depositar os seus votos, ao mesmo tempo que lhes transmito esses agradecimentos, exorto-os a cumprirem este vosso acto histórico com todo o brio e competência de que sejam capazes, não permitindo que a indispensável imparcialidade seja ofuscada pelos gostos e as preferências pessoais. Lá fora, como todos pudemos testemunhar, há bichas à entrada do edifício da escola e dentro de momentos vamos abrir as portas para que o escrutínio comece. Todos têm conhecimento da sua função individual e ontem aferimos e ensaiámos o que cada um tem a fazer. Façamos pois desta data histórica um exemplo de democracia para que um dia mais tarde, possamos sentir o júbilo de quem deu o seu contributo efectivo para aquela e, em vez de o fazer pela força, o levou a efeito em paz e sob a forma de festa.
Vamos então dar início a este que será um dia singularíssimo que haveremos de recordar para todo o resto das nossas vidas e que os mais novos, entre os presentes, haverão de contar como heróis aos seus queridos netos.”
Foi este o discurso que na última sexta-feira, vinte e cinco de Abril, antes de abrir as mesas eleitorais, fiz para todos aqueles que comigo colaboraram para que a votação tivesse lugar aqui, na comunidade. É uma sorte que o Centro de Estudos de História Local que funciona a partir de uma parceria entre a escola e a associação cultural, tenha querido registar este acontecimento – na verdade é de um facto histórico que se trata – e ainda maior sorte temos por dispormos de tecnologias que em muito facilitam tais registos, pois só assim me foi possível recuperar as palavras que, de improviso, alinhavei e de outro modo se teriam perdido, não fosse o terem ficado gravadas em cassete, da mesma maneira que um número a todos os títulos significativo de imagens foram recolhidas em filme, no formato super oito, não só com depoimentos a respeito de como foi organizado todo o processo, como ainda com múltiplas e diversificadas entrevistas a diversos populares que em massa votaram e que em grande número de casos, se sentiram distinguidos por puderem deixar os seus testemunhos e opiniões sobre o evento mais relevante para o país desde o dia em que os militares derrubaram a ditadura. Aqui, no Vale da Esperança, com a excepção de um senhor que faleceu depois de se ter inscrito nos cadernos eleitorais e, por motivos óbvios, ali não foi, por enquanto, abatido, dos restantes eleitores não houve quem tenha faltado à chamada e, apesar de alguns votos em branco, todos se pronunciaram e disseram de sua justiça no mais completo sigilo das câmaras de voto. Pelo que se viu no telejornal, o resto do país acorreu à votação com um índice de participação que esmagou totalmente os prognósticos mais optimistas. Vestida de Domingo festivo, a população portuguesa afirmou peremptoriamente o apego pelas liberdades democráticas, como, no outro coelho da mesma cajadada, deixou bem claro perante todo e qualquer revanchismo que o regresso ao fascismo é para nunca mais. Lindo de se ver, maravilhoso de se viver, por nós e por todos aqueles que deram as suas vidas para que agora o possamos gozar.
Quanto aos resultados é que, como não poderia deixar de ser, há uns mais contentes que outros. Compreendo, por um lado o lamento e, por outro, o desalento do senhor Abel quanto à fraca expressão que os comunistas conseguiram nos boletins de voto. Esperava uma contabilidade mais significativa e a avaliar pela presença e visibilidade que têm nos órgãos de comunicação social, dir-se-ia que tudo apontaria para que assim sucedesse. Mas quanto a mim não espanta, se tivermos em consideração que a maioria do país é rural e católico, para além de as pessoas terem intuitivamente a noção de quão fundamental é a ordem – que não deriva necessariamente do autoritarismo ou, ao contrário, não implica obrigatoriamente aquele – e a segurança e de as propostas de uma alteração radical dos pilares básicos da sociedade lhes parecerem demasiado arriscadas. É pois natural que as suas escolhas recaiam naqueles que lhes parecem mais moderados. Quanto a mim, só fico admirada é como a extrema-esquerda conseguiu meter um deputado. Seja como for, no dia vinte e cinco, mais uma vez no dia vinte e cinco de Abril, ganhou a democracia, ganharam os portugueses.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



O trabalho é a fonte da riqueza, sustentam os economistas e do ponto de vista da moral pode ser encarado como um dos olhos de água de que brota a dignidade dos homens, pois é dele que retiram o sustento e, com ele, a possibilidade de cuidarem de si e dos seus e de prevenirem o que importa para que num balanço final possam dizer que por eles nenhum mal ou fardo vieram ao mundo que será o mínimo que sempre caracteriza cada uma destas nossas passagens pela existência que não tenham sido em vão. É por isso que se trata de uma autêntica desgraça todo e qualquer cenário em que, pelo uso daquela força, mais não resulta que a miséria, a permanência na pobreza de ter e haver, em que regularmente se propaga a do ser que se lhe junta, como se nem a todos fosse merecido esse direito natural à dignidade que só o próprio poderá estiolar pelas consequências do seu comportamento. Assim justificando que o reconhecimento do seu valor e importância seja matéria dos contornos em que se desenha a justiça social e com isso, sem que se sacralize esse factor tão decisivo para a Humanidade, se coloque o mesmo como o vértice primordial das relações económicas, o que é dizer que seja a partir da adequada valoração daquele que deverá ser pensada e organizada a actividade económica. Em linguagem simplificada, estamos no domínio da mais rasteira justiça social quando defendemos que aqueles que trabalham – é óbvio que estou a colocar o assunto em termos genéricos e que por isso salvaguardo para juízo de avaliação aqueles que são mandriões e dolosamente displicentes e desastrados, como amiúde aparece na qualidade de objecção nas conversetas que se vão tendo à mesa do café – merecem uma remuneração que lhes permita viver com dignidade, diria até com toda a dignidade. Ah que saudades que eu tenho do paizinho e da mãezinha que muitas vezes comungavam horas de diálogos em torno destes temas em que o meu querido pai gostava tanto de reflectir, nas horas de refúgio dos seus doentes e das preocupações que lhe davam e que depois, como quem põe ordem ao pensamento, adorava expor à atenção e argúcia da mãezinha que, por sua vez, se encontrava no seu papel de examinador e balança da robustez daquelas ideias que apesar de todo o comedimento de uma vida de recato, eu tenho a certeza que também a ela empolgavam. Como eles gostariam de testemunhar este laboratório de sociedades em que estamos verdadeiramente a viver, perante o que seguramente ele reforçaria as suas opiniões a respeito da indignidade da miséria forçada e a imoralidade de quem para tanto contribui. Era o paizinho que dizia que ao assimilarmos o trabalho ao ponto central e fulcral da actividade económica, estamos a colocá-lo no cerne do problema, estamos a afirmar que ele está antes daquela e que é para o dignificar que aquela deve ser organizada e a isso chamava ele as bases de um mundo justo. Como julgar então as ocupações de terras que um pouco por todo o Sul têm decorrido nestas últimas semanas? Como explicar àqueles que nos contam histórias de fome e impotência que há outras maneiras de alcançarem essa tal dignificação que, de geração em geração, lhes tem sido negada? Não por acaso, aqui não houve a mais leve tentativa de apropriação da mais pequena parcela de terreno agrícola ou, tão só, qualquer forma de repartição daquela pelos trabalhadores rurais que aqui laboram todo o ano, nem naqueles mais ou menos trinta hectares que sempre deixámos selvagens lá para os lados dos penedos do rio e onde quem reina são os bichos que põem e dispõem da floresta brava que lhes é dada. Está certo que essas propriedades tenham sido objecto da reivindicação da terra a quem trabalha? Não, não está, apesar de tudo existe a noção de propriedade privada e, por muito que se diga, eram aquelas pertença de alguém. Em face das leis vigentes, nem há como escapar a que estamos perante actos ilícitos, actos meramente ilegais e, como tal, passíveis de procedimento judicial. Para que a partilha da terra possa ser feita com um mínimo de justiça, se bem que não seja isso que resulta dos processos de colectivização que estamos a presenciar pois, o que vemos, o que se vislumbra é a formação de cooperativas, há quem fale de unidades colectivas de produção, coisa que não sei o que seja, contudo, para que em tudo isso haja algum sentido de justiça, alguma outra forma deveria ser encontrada para que se não tivesse que reparar uma injustiça com outra injustiça. Temos pois assim duas injustiças em conflito e não me parece que o caminho mais aconselhável seja optar por uma delas ou, se quisermos, resignar-nos a termos que apenas escolher entre uma e outra, mesmo que seja aquela que nos pareça menor. Mas do ponto de vista de uma condenação moral, como estigmatizar aqueles que bem lá no fundo tão só estão a lutar por um pouco mais de pão? Poderá alguém apontar-lhes o dedo e chamar-lhes nada mais que criminosos? Sem estar a desculpabilizar o erro, esta é uma das situações em que é relevante ter os condicionalismos em conta e por fim não há como pormos um pensamento ético de parte.
Nós aqui é que parecemos ter sido elevados a um caso de estudo por causa de tudo isso. Sinceramente não gosto de muitos dos que têm por aí aparecido para verem e aprenderem com o nosso exemplo, donos de uma arrogância de meter o nariz em tudo o que é sítio e cheios de esquemas de perguntas em que a sensação com que ficamos é a de estarmos a ser avaliados pelos cânones de uma cartilha em que depois se verá se somos bons ou maus, se estamos ou não em conformidade com o que deve ou deverá ser o socialismo nos campos. São, no dizer do Manuel, os comissários políticos que mais do que aprender o que quer que seja, por aqui aparecem em busca das suas próprias certezas ou daquilo que as possa pôr em dúvida para que em resposta, em caso de dúvida, possam exterminar um tal abcesso reaccionário. Seja como for, também com eles aqui temos recebido os rostos simples e as mãos grosseiras que os acompanham e que nos olham de espanto quando confirmamos que aqui vivemos há trinta e quatro anos e tudo aquilo que veem foi construído pela obra e engenho de todos, colectivamente organizados, como dizem os ideólogos e sem zaragatas porque um quer uma parte maior do que a dos outros, como me fez precisar uma mulher a quem acima de tudo, esbugalhou que o Manuel se tenha levantado da mesa e arrumado a cozinha, enquanto eu a iria acompanhar para que fizesse uma visita guiada à escola de adultos que, hoje em dia, por já só ser necessária para uma mão cheia de retardatários da alfabetização, apenas funciona no âmbito da associação cultural. Mas também aparecem curiosos que nos olham com um misto da ternura de quem está num jardim zoológico e da veneração de quem visita algo sagrado. E para que a sensação de macaquinho se agigante, até temos por aí um antropólogo inglês que nos escolheu para estudar um exemplo daquilo a que chamou uma aldeia colectiva. É o que a revolução está a fazer de nós, mesmo contra a vontade de todos.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Nem sei por onde comece, se por aqui, pelo debate que de repente surgiu na comunidade e que espero tenha ficado resolvido pelas meras decorrências do bom senso, como só dessa forma poderia ser resolvido, se comece por ali, isto é, pelo que se passou nestas últimas semanas no país que entrou definitivamente numa ebulição que ninguém imagina como irá arrefecer e muito menos o que daí venha a resultar de bom ou mau para todos nós. Para já há quem cante vitória, na sequência da qual se ouve falar como nunca no socialismo que me parece ser visto das diversas maneiras que as diferentes e variadas correntes que dele se reclamam o definem e que para os militares, especialmente ao nível das mais altas patentes que têm responsabilidades dirigentes, se trata do socialismo à portuguesa, uma espécie de trilho algures entre aquilo que um tanto depreciativamente há quem chame de social-democracia sueca e o socialismo de estado e de partido único do modelo soviético e que os mais esquerdistas ou como tal ditos, querem antes ver mais próximo dos moldes chineses, da mesma maneira que o é para os partidos, com os socialistas reclamando para a originalidade lusitana uma mistura de economia privada ou assente na iniciativa privada e uma forte posição do estado no tecido económico nacional, naturalmente com uma sociedade de contornos pluralistas e os comunistas parecendo mais apostados em conseguir antes uma economia planificada baseada na propriedade e controlo estatal, também ela com as garantias das liberdades e das escolhas de governação por processos eleitorais, não ficando no entanto claros os limites de a quem é aberta uma tal possibilidade, no que os mais radicais conseguem maior precisão ao definirem muito prosaicamente que aqueles que se oponham abertamente a esses caminhos sejam pura e simplesmente silenciados. Num destes dias, ouvi a um jovem comunista que aqui vive e trabalha, a expressão modo de produção socialista para descrever o que, na sua maneira de ver, está, neste momento, a construir-se em Portugal. Seja como for, há cânticos de vitória no ar, pelo menos por enquanto, mas tenho a impressão que a tempestade é bem mais negra e efectiva do que pretendem as ilusões que a negam ou nem a consideram enquanto tal e temo que das respostas a toda esta alegria de afirmação política ou de uma dada opção política venha a derivar um clima de violência que possa descambar numa qualquer espécie de guerra civil. A verdade é que estamos assistindo a um extremar de posições que não é líquido que a aprendizagem da democracia que temos feito até aqui seja capaz de resolver fora do estado de conflito. Vamos ver, a intuição diz-me que isso dependerá em grande medida do cumprimento da palavra dos militares que agora se organizaram em Conselho da Revolução, de permitirem a realização de eleições para uma assembleia constituinte. Esperemos pois que as coisas se encaminhem no bom sentido e que os meus maiores receios sejam de todo infundados ainda que, em consciência, não seja capaz de dizer do acerto das propostas que por ora estão a ser postas em prática. Razão tinha eu em duvidar da bondade do abraço do General Spínola às regras da democracia e se não será rigoroso dizer que o que se passou em seguida foi uma resposta à sua acção muito duvidosa, até por esta, por sua vez, ser ela própria uma reacção ao crescente de ascendência que as facções socialistas, digamos assim, têm gozado nestes últimos meses, até um tanto à boleia do que muitos militares têm afirmado quanto às suas preferências por aquele quadrante, não será errado de todo sustentar que o comportamento da velha raposa e particularmente a tentativa de golpe pela força que capitaneou, espoletaram ou precipitaram aqueles outros acontecimentos. Certo e sabido é que no dia onze, Spínola chefiou um ataque aéreo a um quartel de Lisboa que vitimou mortalmente um soldado e que em defesa do regime de Abril ou em mero sinal de apoio, saíram à rua não só muitos militares e muitas unidades, como milhares e milhares de civis que mais uma vez barricaram estradas e se colocaram em locais estratégicos, no que houve actos de violência e outras mortes, com excessos evitáveis de algumas pilhagens – será este o termo? – a sedes de partidos apontados como fascistas e que provavelmente, em muitos casos, nada tiveram que ver com a sublevação que me pareceu toda ela de contornos cesaristas, mais do que derivada de comandos de uma qualquer organização propriamente dita. Depois o General fugiu, acho que para Espanha e atrás dele muitos outros, assim como outros foram presos e o retorno foi a nacionalização da banca e dos seguros que milhentas de manifestações e palavras de ordem logo apoiaram, exigindo-se agora a confiscação dos grandes grupos económicos que se acusam de estarem por trás de boicotes económicos com o intuito de levar este poder a cair e se possa regressar ao antigamente. Sinceramente não sei se será esse o caminho mais acertado. Será que estaríamos preparados para, de um momento para o outro, o estado passar a dirigir as empresas e a organizar as relações e os circuitos económicos? Quer dizer, será que repentinamente vamos encontrar os recursos humanos que inúmeros teriam que necessariamente ser, para o levar a cabo? Não tenho qualquer maneira de responder a estas perguntas com um mínimo de segurança, mas é fácil de perceber que estas são questões cruciais. Ora sempre terá de haver quem dirija as operações, quem saiba o que é mais adequado numa determinada ocasião e quem domine os mecanismos das vendas e das encomendas dos bens que se produzem e será que é assim tão fácil de assegurar uma coisa dessas? Foi por isso que me pareceram uma verdadeira parvoíce as propostas de alguns trabalhadores para que, de certa forma, também aqui se procedesse a um género de colectivização das nossas actividades, concedendo a propriedade de tudo, em total igualdade de circunstâncias, a todos aqueles que aqui laboram. Bem, sem qualquer vergonha devo confessar que cheguei a temer cenas de confronto físico e, porque não, armado – há muita gente por aí com armas de caça, por exemplo – quando alguns mais renitentes fizeram finca-pé para que se discutisse e levasse a votos a decisão em causa, não sem que antes tivessem esquecido fazer uma campanha a favor da mesma. Contudo, é justamente o que me leva a ter sérias reservas quanto às nacionalizações que se reclamam e o pendor da economia que daí vem; será que é isso que as pessoas pretendem, sequer estão preparadas para pretender? É que das discussões que foram prolongadas e intensas foi o que se apurou, nem todos o querem assim e pela experiência que temos deste nosso projecto colectivo – e aí creio que temos essa autoridade que imediatamente decorre de o termos feito – estes só serão exequíveis quando todos aqueles que neles estão envolvidos assim o quiserem e este é um dos que a mim se apresentam como dos principais calcanhares de Aquiles dos países do bloco socialista. Mas isto seria matéria para uma outra conversa. Acabou por imperar o bom senso e, com efeito, a ideia foi rejeitada pela larguíssima maioria dos presentes para quem, a exploração de que possam ser objecto é devidamente temperada por toda a redistribuição da riqueza que, afinal, até temos conseguido neste nosso cantinho do paraíso. Será que poderei tomar isto como um pequeno sinal de esperança para este país?

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Ora aqui está o que pode ser apresentada como uma excelente reunião cívica pelo interessantíssimo debate que proporcionou e a fartura, não será exagerado dizê-lo, de ensinamentos que aí nos foi dada obter. Só isso salvou os incómodos de uma sala apertada para tanta gente que, pela combinação do calor e das nuvens de fumo que pelo ricochete no tecto se abatiam sobre a respiração dos presentes, por fim, nem pelo efeito de portas e janelas escancaradas, não deixou de parecer como uma qualquer espécie de forno fabril onde a permanência facilmente chega a ser dolorosa. Ontem, ao serão, na sala de espectáculos da associação, decorreu um encontro de moradores em que esteve em apreço a relação da comunidade com os animais domésticos, mormente os cães e os gatos que vieram a encontrar-se no centro do problema. Há algumas semanas que tinham surgido críticas e reparos em alguns artigos do jornal de parede, em que se punha em causa o comportamento dos donos que deixando os bichos à vontade pelas vias e espaços públicos do lugar, acabam por ser responsáveis pela conspurcação da higiene dos passeios e asfaltos, nem a isso escapando relvados e canteiros dos ajardinamentos, cheios dos medalhões que a fisiologia animal obrigatoriamente tem que depositar em algum lado e, no caso dos chamados seres irracionais, a menos que alguém o previna, inevitavelmente desaguam nos chãos por onde todos caminham. Pois foi isso que incomodou várias pessoas que acabaram por solicitar uma assembleia para discutir o assunto que a comissão de moradores tratou de realizar. De um lado estiveram esses que muito frontalmente questionaram o direito de termos bicharada de estimação se para isso não formos capazes de os tratar convenientemente e, por consequência disso, deixarmos que os mesmos sejam uma fonte de aborrecimentos e desagrados para os restantes vizinhos. É claro que do lado oposto estiveram aqueles que tomaram isso como um dos atributos da liberdade de cada um decidir ter ou não em casa um animal de companhia; e depois como alguns logo lembraram, importando ter em consideração o quanto aqueles são necessários, quer no caso dos cães, por funcionarem como elementos de alerta num local que, apesar de tudo, é ermo, quer no que diz respeito aos gatos, por serem a forma mais natural de se combaterem as expansões de indesejadas populações de roedores e até outras pragas de todo inconvenientes tanto para o aglomerado habitacional, como para os campos de cultivo adjacentes. Bem, como uma rapariga explicou com uma clareza e precisão que não deixaram margem para dúvidas, é mais que compatível a permanência de tais funcionalidades manifestamente positivas, com os cuidados para que os quadrúpedes se alimentem e resolvam as restantes necessidades inerentes às respectivas biologias, sem que daí advenham estragos e o emporcalhamento das calçadas públicas. Ainda mais aqui, como defendeu um outro senhor, onde todos têm quintal. Com efeito, são suficientes medidas tão simples como manter os canídeos encerrados ou presos naqueles logradouros e, quando os trazemos à rua, estarmos precavidos com a trela que os mantém sob o nosso próprio controlo ou, se a intenção é possibilitar-lhes os seus próprios momentos ao sabor da vontade de cada um deles, coisa que está ao alcance de qualquer um de nós, evitar que isso aconteça no povoado, procurando soltá-los por esses trilhos do matagal que nos envolve, onde o impacto daquelas vidas acaba por ser enquadrado e tratado pelos próprios ciclos da Natureza. Não é sem alguma vergonha que me vejo forçada a registar que nunca tinha considerado esta problemática a partir de uma óptica como esta e, pior, a nenhum de nós e aqui incluo os meus filhos que anos a fio deram o seu contributo negativo para esta situação, jamais ocorreu pensar ser esse um comportamento que, se quisermos ser frios e isentos no juízo e evitarmos eufemismos no dizer, poderemos classificar como anti-sociais. No entanto não custa muito perceber a pertinência daqueles pontos de vista, como igualmente é fácil de entender que os gatos, esses, até nem são muito ariscos de se habituarem a um determinado ponto particular para aí se desembaraçarem das excrescências do seu metabolismo. E foi sobre esses pormenores que principalmente se conversou e a conclusão final foi ao encontro dos reclamantes, ao ficar aceite e estabelecido que os maus tratos ao espaço comum nunca podem ser vistos como um direito de quem quer que seja, antes pelo contrário, sendo dever de todos zelarem para que das suas atitudes individuais não derivem beliscaduras naquele. E faz todo o sentido que assim seja. Teremos nós a liberdade para privarmos o outro da liberdade de andar de cabeça levantada pelos passeios, sem ter que se preocupar onde põe os pés para que não suje os sapatos? Poderá a liberdade ser essa vontade desenfreada de não atender às consequências dos actos? Não, não pode e não por essa vulgata que pretende que a minha liberdade acaba onde começa a do meu semelhante, coisa que apenas significa nada pois seria de conflito permanente e provavelmente sem tréguas um universo que desse modo se quisesse alicerçar. Antes por aquela se fundamentar no reconhecimento que os limites – porque ela não é, em circunstância alguma o poderia ser, ilimitada – se estabelecem e encontram na minha consciência individual que determinam que não posso prejudicar os outros pois, afinal, se na sua forma mais simples é aquela a possibilidade de que uma qualquer pessoa deve dispor para escolher um caminho, implica necessariamente a responsabilidade de o fazermos sem que para tanto tenhamos que espezinhar quem quer que seja, além do que, só por esse princípio de auto-controlo poderemos pacificamente regular a nossa vida em sociedade, pelo que devemos antes afirmar que a minha liberdade não finda onde começa a do vizinho, muito para cá disso, a minha liberdade, seja sob que pretexto for, sequer pode conter a possibilidade –usar a palavra direito, aqui, já é para mim uma desonestidade intelectual – de prejudicar qualquer outro ser humano e eu até me atrevo a defender que poderíamos muito bem acrescentar qualquer outro ser vivo em geral. Mas esta é perspectiva que, por ora, permanece no âmbito da controvérsia. Justifica-se então que eu tenha votado favoravelmente a proposta final que, depois de prever e lançar a preparação de toda a formação básica para que a ninguém seja dado alegar que não sabe ou não tem como saber lidar com o problema, prevê o agravamento das taxas de residência que financiarão a construção de alguns equipamentos sociais, para todos aqueles que prevariquem nestes domínios e isto sob a pena de verem as rendas aumentadas e, em última instância, despejados das casas onde vivem. Isto podem parecer atitudes e medidas draconianas, pelo menos foi dessa forma que um dos oponentes se expressou na sua declaração de voto vencido, contudo, como disse um dos presentes e nem mesmo foi em resposta àquela declaração de protesto, chamemos-lhe assim, quem não sabe viver com os outros que vá viver sozinho para o meio do mato.
“A liberdade está a passar por aqui.” Sérgio Godinho dixit.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



As revoluções devem ser assim e nós estamos a assistir a uma. Múltiplas razões que se debatem, todas elas cheias de razão ou da sua própria razão que, na prática, é o que na verdade se verifica e o caos da desordem que resulta de não haver quem ponha ordem em variados decisores que ditam isto e aquilo anulando ou inutilizando por vezes o que se acabou de propor ou, pior, o que estava e bem, como quem no descuido de uma qualquer euforia, justificada ou não, deita o bebé fora com a água do banho. Para atenuar inquietações, resta pensar que tudo isso será natural, da mesma maneira que a avalanche é inevitável quando se rebentam as paredes de uma barragem. E é isso que se passa neste cantinho ibérico em que, não sei se sonhadoramente, se começa a falar de um socialismo à portuguesa. Mas quem sou eu para falar de sonhos ou nas possibilidades de os concretizar ou ainda na exequibilidade dos mesmos? A sociedade portuguesa atravessa uma ebulição permanente, explodindo por toda a parte de reuniões e comissões disto e daquilo, estalando em manifestações a propósito de tudo e mais alguma coisa e sobretudo reclamando, exigindo e bem lá no fundo, tão simplesmente se quisermos ser apenas humanos e razoáveis, na vulgaridade dos casos com todos os motivos para o fazer que raramente ultrapassam o limite do que é justo. As greves decidem-se e fazem-se com a facilidade de um encontro de sócios num clube qualquer e daí que sejam como papoilas no pousio em que está a desaguar o tecido económico do país. Aqui, neste que permanece um pedaço de paraíso, até nem nos podemos queixar, pois as produções não sofreram, pelo menos até ao momento, qualquer quebra, em uma ou outra área aumentaram e a colocação, o escoamento daquelas tem sido assegurado sem percalços anormais, no que, e isto segundo os companheiros mais entendidos, até fomos ajudados por outros pequenos negócios que ao sabor desta liberdade têm surgido por aí. Nem mesmo quanto ao impacto dos aumentos dos salários podemos dizer que tenhamos sofrido nos dividendos finais, pois conseguimos obter ganhos de produtividade, quer dizer, fomos capazes de reestruturar processos produtivos e com isso alcançámos bons aumentos de produção por hora de trabalho. No entanto, a economia portuguesa parece encravada nesta maré de paralisações e plenários de urgência porque tudo está em causa e tudo importa e a ninguém deixa de dizer respeito. É precisamente esse o meu receio que o tecido produtivo nacional não esteja preparado e não venha a atingir esses saldos positivos de produtividade que permitam acompanhar os índices daquilo que se reivindica. E o estado não se pode alhear dessa economia clandestina que se vai fazendo um pouco por toda a parte e que, apesar de tudo, é ganha-pão para muitos; mas a redistribuição da riqueza faz-se pelos impostos e para isso há que cobrá-los. Não há é como dizer que um aumento que em muitos, eu diria em demasiados casos, mais não é para que se possa passar a ter o leite e o peixe e a carne regulares que perfazem uma alimentação recomendável, certo é que não há como dizer que tais exigências sejam irrealistas ou inadequadas, ou que o salário mínimo não é justo e acertado, para nem chegar a dizer exequível. Depois cabe sempre pensar como se pode pedir que espere a um homem que empobrece a trabalhar tal como é tão banal que suceda no Portugal que o salazarismo nos legou? E também não tenho qualquer fantasia sobre muitas motivações que, na procura de um pretenso igualitarismo, muito simplesmente escondam a baixeza da inveja. Provavelmente também isso fará parte do que é uma revolução, especialmente se, como esta que presenciamos, os rumos que se apontam sejam os do socialismo o que em linguagem simples se resume na ideia de uma sociedade mais justa e equilibrada. Contudo é o que me parece que deriva de muitos dos discursos que se gritam contra os ricos e a riqueza em que chega a parecer que o que mais importa é acabar com os primeiros e destruir a segunda. Nem dando conta que os filhos de qualquer um têm o mesmo direito que os de qualquer outro a usufruir da oportunidade de escolherem um caminho para as suas vidas e de preferência que no mesmo possam colher frutos melhores ou, no limite mínimo, tão bons, quanto aqueles que os trouxeram ao mundo recolheram, ainda que nesse patamar minimalista apenas estivéssemos a conseguir manter os níveis de pobreza de que estamos a partir. A riqueza é o resultado da actividade humana, só é perniciosa se nos deixarmos cegar por ela, se dela fizermos o objectivo primordial ou único da nossa existência, se a virmos como um mecanismo de vida, compreenderemos então que o mais importante será reparti-la, usá-la para que os que têm menos e de uma ou outra forma estão impedidos de a mais almejar, não vejam aos seus filhos, por causa disso, cerceadas as portas das tais possibilidades de singrarem na vida se para tanto tiverem capacidades pessoais. E não estou a pensar no simplismo do reparte comigo a casa que tens para viver ou o pedaço de queijo que tens à mesa, à semelhança do que na última noite se discutiu na comissão de moradores que levou a debate a proposta de uns quantos para que a nossa piscina fosse declarada de livre utilização para qualquer habitante do Vale da Esperança e que, após uma primeira fase em que esse ponto de vista pareceu vencedor, se regozijaram pelo fim dos privilégios burgueses. Prevaleceu o bom senso após uma reviravolta em que a cooperativa teria que construir uma outra piscina ao que o calor da discussão veio acrescentar um pavilhão gimno-desportivo para ficarem a cargo da associação e, por via disso, ao dispor de todos, acabando por se acertar que a comissão lançaria uma pequena mensalidade sobre todas as residências e estabelecimentos comerciais, a partir da qual e da oferta da mão-de-obra de todos, se comprarão os materiais e pagarão as máquinas para que se venha a construir aqueles equipamentos. É nesta redistribuição que estou a pensar, a que assenta no princípio de vou procurar conseguir ao invés do que se contenta que tu não consigas. E não é que já se fizeram contas e já se sabe como liquidar o empréstimo que permitirá realizar aquele empreendimento colectivo? É a prova que a vontade e o engenho dos homens tem muita força, às vezes, tristemente, até demasiada força o que, para nossa alegria, não é este o caso.