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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Do mar, da floresta, da pedra, do ritmo e do infinito


Risoleta Conceição Pinto Pedro

(Foto: Café Central, Sesimbra, 1990. Rafael Monteiro, António Reis marques, AntónioTelmo)

Num texto intitulado "Teixeira de Pascoaes" inserido nas suas Páginas Autobiográficas, António Telmo conta que, quando «era moço, pelos meus vinte anos, enviei a Pascoaes um soneto que tinha como tema a magia poética da Lua Plena». O poeta não lhe respondeu e ele confessa: «envergonhado, não contei nada aos amigos».

Quem eram esses amigos? Nesta idade, eram amigos de Sesimbra, que, diz ele, andavam «todos então pelos arredores da filosofia portuguesa». Por aquilo que vamos lendo e ouvindo aos raros que podem hoje testemunhar, porque lá estiveram, como é o caso de António Reis Marques, e o próprio Telmo conta, liam «Teixeira de Pascoaes uns aos outros, ansiando ser em espírito levados nas ondulações dos misteriosos versos», a lembrar, e agora é da minha responsabilidade, Camões n’Os Lusíadas: «estava-se co as ondas ondeando». Segundo diz o organizador das Obras Completas de António Telmo, Pedro Martins, em nota de rodapé, faziam também parte deste grupo, para além de António Reis Marques, Rafael Monteiro, José Preto e Gilberto Pinhal.

Acrescenta Telmo que Pessoa dizia dos versos de Pascoaes que «eram extraordinários, mas que uma vez lido um estavam lidos todos». Por sua vez, numa carta a Pascoaes, o espanhol Unamuno «aconselhava Teixeira de Pascoaes a encurtá-los, pois cansavam pela melancolia».

E Telmo, certeiro, comenta que «um e outro não eram decerto capazes de passar horas a olhar o mar, a vê-lo onda após onda desfazerem-se na praia, procurando observar a diferença qualitativa de cada rebentação, o tom de verde e azul na espuma branca.»

Não lembra a ninguém criticar o autor d’Os Lusíadas por ter feito a epopeia demasiado grande, acusar o criador de ter feito o mar demasiado extenso ou o ritmo das ondas demasiado igual. Até porque, como refere Telmo, a rebentação não é toda igual nem o é o tom das cores na espuma. Mas assim são os comportamentos da humanidade, não digo a natureza humana, porque, como diz Agostinho, já recebemos tantas influências que é difícil saber hoje o que é a natureza humana. Mas sabemos como são alguns comportamentos humanos. Em muitos existe um polícia a criticar nos outros aquilo de que não gosta, e isto verifica-se até ao nível dos criadores. Poemas demasiado longos, poemas demasiado melancólicos… deviam ser encurtados. O ser humano comporta-se como um bebé que chora, sempre que o mundo não corresponde às suas expectativas. O problema é que frequentemente as expectativas são baixas e quantas vezes aqueles que estavam acima das expectativas exigidas não tiveram de ser eles a “encurtar-se”, a diminuir-se. Para alguns, não se pode ser grande, neste mundo.

Telmo via mais alto. Ele sabia que os longos poemas de Pascoaes, como os do próprio Pessoa através do seu heterónimo Campos, como os versos do poema de Deus chamado “Mar” em rebentação na praia de Sesimbra, não são mais que uma tentativa e uma oportunidade para quem cria e para quem desfruta, de aprender e em suma, de apreender o infinito.

No entanto, para podermos aperceber-nos dessas diferenças que imprimem as ondas no seu original rebentar, precisamos saber parar, rendermo-nos ao ritmo só aparentemente monótono.

A vida é ritmo. Por isso a poesia, esse lugar do ritmo, nos é tão essencial. Vida é alternância. Daí à noite seguir-se o dia; à lua plena com que o jovem Telmo construiu o malogrado soneto, o quarto minguante; a uma estação outra diferente, e assim sucessivamente. Porque se é ritmo, nunca é igual. Aliás, é precisamente por ser ritmo que nunca é igual, e a condição para a emoção da diferença é entregarmo-nos à disciplina da observação da repetição na alternância. Pessoa e Pascoaes são dois enormes autores com que a grande poesia universal cria, ela própria, um grande ritmo, na alternância dos estilos. E não tão divergentes como possam parecer, nos seus azuis-rio, nos seus verdes-serra.

António Telmo viveu em Sesimbra desde a sua adolescência e por isso cedo acostumou os olhos à subtileza das diferenças e à grandiosidade do mar, esse mestre da eternidade.

O facto de o poeta Pascoaes não ter reagido ao seu soneto, não o impediu de continuar a admirar a imponência do poeta da serra, pois nele via o ondular das florestas como ondas de um grande mar verde. Aqui em Sesimbra amadureceu o alfabeto poético na contemplação do mar e no contraste com a serra irmã tão próxima. Essa serra cuja presença e lembrança há-de acompanhá-lo até ao tempo em que o grupo da filosofia portuguesa se viria a reunir na Brasileira do Rossio, mais tarde transformada em estabelecimento bancário. Mas dessa altura guarda a «impressão de duas colunas de mármore castanho e brilhante da Arrábida numa casa comprida, escura e cheia do fumo dos cigarros. De um e de outro lado, espelhos paralelos multiplicavam as suas imagens até ao infinito». Como ondas que viessem rebentar uma em frente à outra. Porque tudo se encontra ligado. Como já estava ligado aos grupos das várias futuras tertúlias; na pertença ao inocente mas determinante grupo que se reunia no Café Central de Sesimbra. Como dito, mais tarde viria a integrar outras tertúlias de grandes nomes da filosofia portuguesa, mas foram os primeiros passos aqui dados com os seus companheiros, com o som do mar nos ouvidos e os olhos na serra, que lhe permitiram amar Pessoa sem trair Pascoaes e vice-versa, abrir o coração ao infinito mundo da poesia onde cabem todos os poetas e onde os poemas podem ser tão longos como tendo um único verso, aquele com que se criou o mundo pela divina «ambição primordial», como diria Pascoaes. E Telmo, esse grande e discreto ser, não deixaria de admirar.

Texto partilhado, com publicação no Jornal Raio de Luz, Maio 2020

quarta-feira, 13 de junho de 2018

«OS MEUS PREFÁCIOS». 15

Coordenação Pedro Martins

03-06-2018 11:54

Prefácio, com texto adicional na contracapa, a A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, de Rodrigo Sobral Cunha[1]

Neste livro, Rodrigo Cunha tirou uma história de outra história como quem tirasse uma pérola do seu engaste de ouro. Talvez nada mais esteja hoje ao nosso alcance do que tirar histórias de histórias. Porém, ao fazê-lo, se na primeira história há verdade e a soubermos ver, continuamos a engendrar segundo o espírito e poderemos, talvez, olhar o que está para além de nós. Não será este o caso de Rodrigo Cunha?
A História Verdadeira de Aladino, compreendida através do que seu autor nos diz dos liliputianos, anões e gigantes, à luz do raio, que lhe coube, da lâmpada maravilhosa, não virá convencer os incrédulos, desta, tão actual, impressionante profecia:

«Sobre os traços de Seth nascerá o último ser engendrado do género humano. Ele será portador dos seus segredos. Depois, não haverá mais filhos entre os humanos, porque ele é o Selo dos engendrados.
Com ele, nascerá uma irmã. Ela virá ao mundo antes dele, e ele depois dela, a sua cabeça junto aos seus pés.
O lugar desse nascimento será a China e a sua língua será a dos povos deste país.
Em seguida, a esterilidade espalhar-se-á entre os homens; as uniões sem progénie multiplicar-se-ão.
Chamará os homens para Deus, mas ninguém o ouvirá.
Quando Deus, o Altíssimo, o fizer morrer e Ele tenha feito morrer os crentes do seu tempo, aqueles que restarem serão como bestas, sem consideração pelo que é lícito e pelo que não o é. Agirão governados pela natureza, dominados por instintos que nem o Intelecto nem a Lei controlarão. É sobre eles que se levantará a Hora.»

Segundo estas palavras de Ibn’Arabî, o último descendente de Seth nascerá, como vem de ler-se, na China. O mágico negro foi lá que adivinhou Aladino e a sua lâmpada e veio de extremo a extremo da terra até ao Império do Meio, para, uma vez de posse da lâmpada, poder dominar o mundo, fazer dele o seu globo, uma farsa macaqueada do Quinto Império. No momento exacto em que estava prestes a consegui-lo, uma criança negou-lhe esse poder. Aladino não lhe entregou a lâmpada. Pouco foi preciso depois para que nesse mesmo mundo, que é o nosso, reinasse a Bondade e a Beleza.
E também a Verdade, porque tudo será um Milagre da Luz.
É essa mesma luz que perpassa, remota, nas páginas admiráveis em que Rodrigo pretende contar-nos a Verdadeira História de Aladino.

Texto publicado na contracapa do livro

«Pediu-me o autor de A Verdadeira História de Aladino que a fizesse preceder de umas palavras mágicas capazes de abrirem uma Introdução, isto é, uma Porta ou Janela para aqueles que não sejam capazes de entrar pelos telhados. A verdade é que, depois, a lermos a essa história tirada de outra história, sentimo-nos como Aladino nos jardins subterrâneos e o autor aparece-nos como o Mágico Africano, pois ao pôr no fecho dela a palavra exclamativa “Continua!” faz o equivalente ao que aquele fez ao colocar de novo a pedra para que o jovem jamais de lá pudesse sair. Mas as palavras do autor têm a qualidade de um ritmo superior e funcionam como o anel de poder e de guarda que o Mestre deu ao discípulo e assim abre-se em nós a perspectiva de continuar a história maravilhosa dentro da nossa alma, pois o “Continua!” é uma pedra que se abre, uma pedra que se levanta, fazendo com que nos sintamos impregnados do santo desejo de encontrarmos nos subterrâneos dessa alma a lâmpada maravilhosa.»

António Telmo


[1] Nota do Editor – Publicado originalmente em Rodrigo Sobral Cunha, A Verdadeira História de Aladino e a Lâmpada Maravilhosa, Sintra, Zéfiro, 2009, pp. 7-8.

Ler mais: https://www.antonio-telmo-vida-e-obra.pt/news/os-meus-prefacios-15/

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

CONVITE



Meus queridos amigos e amigas, aproveitando o presente correio para desejar sobre vós a benévola coroação de uma cornucópia dourada neste ano a abrir, venho convidar-vos para a apresentação do meu próximo livro, no dia 20 de Janeiro, sábado, pelas 15.00, na sala Araújo Ferreira da Escola de Medicina Tradicional Chinesa, na rua D. Estefânia, nº 173, em Lisboa. 
O livro, António Telmo, Literatura e Iniciação, editado pela Zéfiro na colecção Tomé Natanael, será apresentado por António Carlos Carvalho.
Nesta sessão, cuja abertura será feita pela  professora Deolinda Fernandes, directora da Escola, que com o filósofo privou, será também lançado o VIII volume das Obras Completas de António Telmo (Rui Lopo e Renato Epifânio), ocorrerá uma conferência sobre António Telmo pela escritora, poeta e ensaísta Maria Estela Guedes, bem como leituras de ambos os livros pelas escritoras/poetas Ana Paula Costa, Maria Azenha e Luísa Sousa Martins.
Com um caloroso abraço, antecipo o dia e a alegria do novo encontro em torno do iluminado e iluminador pensador da razão poética.

«António Telmo é uma espécie de semente de felicidade, algo que germina e germinará, pelo conhecimento, pela ética, pelo arrojo, pelo testemunho, pela Presença, pelo brilho elevado até na sombra. Se tentar descrever o que sinto desde sempre quando penso nos livros dele, é muito parecido com o sentimento que em criança (e recordo-me muito bem) dedicava aos brinquedos mais sonhados, mais desejados, como objectos mágicos. Algo assim: se tud...]o falhar existem estes livros, existe este pensamento. 
​[​...]
Fica arrumado que o sol pertence ao mundo das coisas sensíveis. E não nos ocupamos mais disso.
Mas quando António Telmo afirma: «Seja qualquer ser sensível, o sol, por exemplo», já é outra coisa. O sol já não é distante, já não provoca queimaduras, já não morreu, já não é uma estrela inalcançável. É um menino perdido no céu, solitário de tanto brilho, incompreendido de tanta distância, é antes a personagem dos poetas, o filho das mães, o pai dos filhos, o nosso rosto no universo, a máscara da nossa sombra, o cintilar das nossas lágrimas em arco-íris, o nosso coração de pedra em formato de luz. Enternece. Se pudéssemos pegar-lhe ao colo, falar-lhe-íamos como ao nosso amigo animal, como ao nosso boneco de dormir, como ao nosso filho quando bebé, como à criança que nós próprios fomos. É um ser sensível, o sol. Como nós somos e andámos a esconder de nós mesmos. Obrigada, António Telmo, hoje talvez escondido atrás do sol a rir deste meu delírio. Muito se aprende com a Gramática Secreta…» (do livro)

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