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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Paulo Borges*


Não te foques no negativo. A realidade é infinitamente mais vasta que a tua percepção. Há muito mais seres no cosmos, desde sempre felizes e livres de sofrimento ou que se tornaram para sempre felizes e livres de sofrimento, do que os sete mil milhões de humanos e o número imenso de animais que parecem estar sempre ou muitas vezes a sofrer neste minúsculo grão de pó da realidade universal chamado Terra. E a grande notícia é que, quando um ser desperta e se livra para sempre d...o sofrimento, isso é irreversível e há mais uma fonte de energia positiva para o mundo, que vai acelerar a libertação universal. Isto significa que mais tarde ou mais cedo todos os seres despertarão e se libertarão. Vê as coisas assim e tem confiança. Mas desenvolve compaixão por quem sofre, a começar por ti mesmo, e pratica com todo o empenho uma via espiritual para que tu e todos o mais rapidamente se libertem. Não te atrases, pois és o universo e atrasares-te atrasa a libertação universal. Ao avançares, todos avançam. Ao libertares-te, todos se libertam. No fundo sem fundo de ti e de todos os seres já há desde sempre uma liberdade, uma paz e uma felicidade infinitas. Por isso todos as procuram. Trata-se apenas de as descobrir aqui-agora e não mais as buscar no exterior. Cultiva esta visão e deixa para trás a tristeza, a depressão, a raiva e a doença. Foca-te no bem que há em tudo. Mesmo no que parece ser o mal e a dor, pois é isso que nos incita a praticar pela libertação de todos. Cultiva uma visão pura acerca de tudo. Descobre o sentido bom, profundo e positivo de tudo o que acontece. Pois isso é despertares e despertares é seres a luz do mundo.

in, https://www.facebook.com/pauloaeborges , 14/10/2017

Professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 
Autor de uma vasta obra, dedica-se à escrita, à tradução, ao estudo, prática e instrução da experiência meditativa, ao estudo da filosofia e cultura portuguesa e das grandes tradições espirituais, ao diálogo inter-cultural e inter-religioso.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

CARTA ABERTA A RENÉ DESCARTES

“ Penso, logo existo“. Será?
Caro amigo René,
Desculpa vir incomodar-te, mas gostaria de saber, se essa tua frase que se tornou famosa, ainda a afirmarias nos dias de hoje. Escrevo-te quando estamos no ano de 2015, em que estão a surgir grandes mudanças em todos os setores incluindo o da expressão, da investigação e da observação neste belo planeta onde tu deixaste obras muito importantes na área da Filosofia,da Física e da Matemática.
Permite-me dizer que hoje eu discordo dessa frase, o que provavelmente não seria a minha opinião no século XVII, data desse teu “ Discurso do Método “.
Quando afirmas “penso” logo queres dizer “eu”penso. Este eu é fruto da mente, que pensa. Logo dizes que existes porque tens mente. Então,quando eu durmo não penso, a mente não está presente, e será que eu não existo? Quem mantém este corpo vivo com todas as funções vitais energizadas?
Esse eu a que te referes é o temporal, é a tua personalidade, o corpo a quem deram um nome e com o qual tu te identificaste. É a imagem distorcida do teu verdadeiro Eu. Convido-te a fazeres uma experiência.
Faz o silêncio em ti, exterior e interior, quando a tua mente intrigada com esse teu estado te começar a en viar pensamentos e imagens não os negues e não te identifiques com eles, entrarás assim no estado de observador. Sem fazeres quaisquer esforço mantém-te
e verás que surgirá em ti alguém ou algo que observa o observador. Quem é? Vivências aí o estado de Consciência, o Eu, sem forma, pensamento ou sentimento, atemporal, sem nunca ter nascido, O que sempre foi, é e será. Nesse estado em que não pensas tu És, Existes.
Assim caro amigo René, não será que a frase atualizada será “ EU SOU,logo Existo “?
Esperando uma tua resposta,
O amigo e admirador,
António Alfacinha

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015


Acabo de ouvir a ministra das Finanças na televisão a dizer que já não se importa tanto de perder tempo nas filas de trânsito porque haver mais veículos na estrada é sinal de retoma económica... Triste cegueira de quem só pensa em termos de crescimento económico e não vê o impacto irreversível e destrutivo deste modelo de economia no planeta... Uma verdadeira aula em directo de deseducação ambiental. Os governantes não lêem os relatórios científicos sobre o estado crítico da relação do ser humano com a Terra e sobre o tremendo impacto poluente e de efeito de estufa do dióxido de carbono emitido pelos meios de transporte e do metano emitido sobretudo pelas vacas, industrializadas e exploradas para nosso consumo? Somos governados pela ignorância, activa ou passiva, e o pior é muita gente ser cúmplice disto. O antropocentrismo a destruir a humanidade, destruindo a vida.

Paulo Borges

sábado, 27 de dezembro de 2014

O Homem da Caverna do Século XX


O Homem das Cavernas é o menino de rua das metrópoles atuais. Assim como aquele; vemos hoje em dia pessoas vivendo como no tempo das cavernas, isto é, inconscientes do mundo que as cerca com toda a riqueza e tecnologia atual, vivendo verdadeiras famílias exclusivamente da predação, catando lixo, restos de comida e jornais velhos para alimentação, aquecimento e aquisição de algum bem necessário. Garimpando restos de caixotes velhos, Elas acendem o fogo que vai aquecê-las nas noites de inverno e preparar algum alimento cru retirado do lixo das Feiras Livres. Banhando-se no Chafariz da Praça, lavando ali suas maltrapilhas roupas, latas que utilizam como utensílios domésticos, vivem num abismo primitivo dos viadutos e marquises atuais, vivendo da prima matéria como nossos antepassados moradores das cavernas que pescavam nos rios e lagos seu sustento, assim, o menino de rua de nossos dias, “pesca” na rua através de pequenos furtos e trabalhos informais a sua sobrevivência.

Com latas de azeite e garrafas de vinho encontradas no lixo, fazem seu banquete. Água morna? Nem pensar! Geladeira? Gela mais rapidamente a água completamente fria do Chafariz! Não há um verdadeiro repouso, tudo é apenas aparência. A quietude aparente desses nossos “meninos” é causada pela fome ou pelo frio absoluto do inverno. O tempo é o verdadeiro despenseiro e depositário de suas vidas, e os socorre quando lhe é confiado por um lapso considerável, aquele maltrapilho, protegendo-o, defendendo-o de toda força externa, só se manifestando em ajuda interior, de vez que a ajuda externa está interrompida.

“Pai que está no Céu”; Essência do Cósmico, Mestre Interior, projeta-se para a Terra; Eu exterior, faça o homem estabelecer a comunicação entre os dois; “O Pão nosso de cada dia” (processo de nutrição psíquica, simbolizado no pão) é-nos dado hoje para a necessidade do hoje, no aqui e agora; o pão de amanhã nos será dado amanhã”!

E o pão desses meninos? País da Igreja Católica, neoplatônicos e hermetistas, onde estão vocês?

Como o conceito de Deus não pode ser imposto, não se pode impor a caridade, ambos devem brotar da vivência e da meditação de cada um. É vã a tentativa do homem de compreender a Deus em sua infinidade, em comparação com as coisas finitas deste mundo.

Os chamados pagãos tentam expressar o Deus infinito de maneira finita, disto decorrem seus grosseiros ídolos, ou estátuas. Pela complexidade da ideia, muitos preferem relacionar-se com Deus através de um mediador, alguém mais próximo da experiência humana, um anjo, um mestre ou o próprio Cristo. Outros preferem pensar numa Mente Cósmica, ou no Espírito Santo, contatando diretamente com sua mente subconsciente. Por que então não tentar compreender Deus através da infinidade de suas criações e entre elas o Ser Humano!


Walter Babosa de Oliveira
(in, Jornal da Federação dos Procuradores de Autarquias
Federais do Rio de Janeiro, 16 de Dezembro, 1996)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O Coração da Vida




Paulo Borges
"Introdução", O Coração da Vida


"Escrevo e publico este livro com a convicção profunda de que pacificar a mente e despertar a consciência, levando-a ao pleno desenvolvimento de todas as suas ilimitadas potencialidades cognitivas e afectivas, deve tornar-se o centro das nossas preocupações e investimentos pessoais, sociais e políticos. Com serenidade, sabedoria, amor e compaixão, encontraremos as soluções mais adequadas para todos os problemas sociais, políticos, económicos e ambientais. Sem serenidade, sabedoria, amor e compaixão, todas as pretensas soluções sociais, políticas, económicas e ambientais jamais deixarão de se converter em novos e maiores problemas, como em geral tem acontecido. A humanidade paga muito caro a recusa da espiritualidade, que, insisto, não é religião, mas a expansão fraterna e activa da consciência. É isto que temos de mudar, se queremos realmente mudar alguma coisa. É a isto que chamo política da consciência, que começa pelo que se pode chamar a micropolítica da mudança de cada uma das nossas mentes e pela educação de cada um de nós e dos mais jovens para sermos mais conscientes da interconexão e interdependência de todas as formas de vida e dos ecossistemas, numa ética da responsabilidade e da solidariedade universal. A política da consciência é também a proposta de uma profunda mudança do paradigma dominante na política e, sendo transversal a todos os quadrantes ideológicos e partidários, transcende o espectáculo em geral triste e o horizonte estreito da política partidária e convencional, mediante uma visão de Bem Comum universal e integral que não desconsidera os seres não-humanos e os ecossistemas nem os factores internos, mentais e emocionais, da felicidade que todos procuramos, assumindo-os como parte das necessidades fundamentais de todo o ser humano. A política da consciência reúne contemplação e acção na acção integral, interna e externa, em prol de uma sociedade mais pacífica, solidária e desperta. Com efeito, como veremos, voltar a atenção para o interior e observar os movimentos da mente, deixá-los dissolver-se e repousar num estado calmo, claro e aberto, livre da fictícia separação entre eu e outro, pode revelar-se o fundamento indispensável de uma vida saudável e a acção interna que é a fonte de toda a acção externa justa e esclarecida, amorosa e compassiva. O estado do mundo e a tremenda violência contra a Terra e os seres, humanos e animais, são o espelho do contrário disto. Não há mudança de paradigma sem reunião da contemplação e da acção. Cremos ser este um dos desafios fundamentais do mundo contemporâneo, equidistante do extremo de uma contemplação sem acção externa e assim degradada numa experiência intelectual desprovida do calor e do dinamismo do amor e da compaixão, bem como do extremo oposto da obsessão do agir externo desprovido de visão e do mesmo dinamismo amoroso e compassivo e assim convertido numa agitação e activismo pouco esclarecidos e beligerantes que são parte de todos os problemas e de nenhuma solução"

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Da Integralidade na Realidade


Do nada, da inércia aparente, que não o é, iremos assistir a padrões de comportamento isentos de quaisquer competitividade ou agressividade. Na nudez cerebral surgirão implantes correspondentes a sementes de comportamentos já existentes em civilizações espalhadas pelo Cosmos, as quais aguardam com serenidade que este belo planeta azul recupere dos milhões de anos em que não foi identificado como um ser vivo, capaz de se manifestar e querer a sua integração numa Paz Cósmica.
O individuo de superfície terá que optar entre um alinhamento com esferas superiores ou será conduzido amorosamente a planos de existência compatíveis com a energia vibratória que emite aguardando na escala evolutiva mais uma oportunidade para exprimir comportamentos compatíveis com a Integralidade na Realidade.

A.A.

terça-feira, 15 de maio de 2012

A mercantilização das relações humanas na seara espírita

Dia após dia, convivo com isso e percebo o crescimento do fenômeno da mercantilização das relações do ser humano consigo mesmo e com as demais pessoas, de tal maneira que os trejeitos, os condicionamentos instaurados no mercado de trabalho, na contemporaneidade, adentram não só o solo frio das empresas privadas, mas também das organizações públicas e das instituições sociais – a família, a escola, os ambientes religiosos. 

Não tenho a pretensão de esgotar todos os temas acima assinalados, uma vez que este texto tem a finalidade de expor minhas reflexões sobre aspectos da convivência no movimento espírita que mais têm me gerado preocupação, no bojo da mercantilização das relações humanas.

No que toca ao ideal cristão, a casa espírita se reveste da finalidade de proporcionar ambiente de convivência fraterna, com o objetivo de fomentar o desenvolvimento do potencial humano para o bem, para o amor e a solidariedade, características da formação humana, tão importantes para a aquisição de virtudes, tais como o respeito ao próximo, a amizade autêntica, a afeição sincera, a empatia e a assistência real diante das necessidades. 

A despeito desse nobre propósito de que estão imbuídas as fraternidades espíritas, noto, nos dias atuais, a infiltração, na seara do movimento espírita, da competição desenfreada, da pouca consideração fraterna e incondicional, da patrulha ideológica, da disputa evolutiva, de variadas condutas que desembocam no mesmo resultado: exclusão e opressão.

O que chamo de competição desenfreada? A casa espírita, ao longo do tempo, como reflexo de seus integrantes, é uma caixa de ressonância das mudanças e transformações por que passa a humanidade, absorvendo padrões de comportamento tanto benfazejos quanto deletérios. Nessa segunda categoria, enquadra-se a concorrência velada entre parcela de confrades espíritas pelo título social do “mais virtuoso”, do “mais evoluído”, do “mais produtivo” em esvaziar o umbral, a vaidade inconfessa de se exibir na condição de humilde obreiro a quem foram repassadas as informações mais recentes ou bombásticas sobre os bastidores do plano espiritual e a disputa entre os seus pares pela posição de trabalhador espírita mais operoso em zelar pela pureza doutrinária e pela deferência aos dirigentes espíritas de maior influência política no centro ou na federação a que se filiam.

Os fenômenos de grande expressão no ambiente espírita, a exemplo da hierarquização por competências (dando-se primazia, em uma espécie de pirâmide hierárquica, aos médiuns considerados mais valorosos e aos dirigentes ditos mais preparados), somada ao grande volume de orientações espirituais e de outras formas de assistência extrafísica, conferem a algumas pessoas, no âmbito da militância espírita, o poder de mando e de persuasão que, embora pudesse ser meio de agregar valores e aprendizados coletivos, é desviado para a manutenção da exclusão de muitos confrades que não se enquadram no estereótipo de obreiros produtivos, alegres e dóceis.

Por vezes, no afã de serem notáveis artífices da libertação em massa de Espíritos aprisionados em masmorras das trevas onde colaboraram, de forma exemplar, com os preparativos para a transmigração planetária de obsessores que atuam em nível planetário, esquecem-se muitos trabalhadores espíritas de também voltarem seus olhos para companheiros de seara kardequiana, que, encarnados neste mundo de provas e expiações, estão à espera somente de um rastro de luz, isto é, de uma palavra fraterna, de pequenos gestos de empatia e compaixão, para que possam enfrentar, com coragem, os desafios da vida terrena. 

Nesse processo de deslumbramento com missões de salvamento de Espíritos desencarnados e com o enfrentamento das trevas na erraticidade, valorosos membros da comunidade espírita ignoram o sofrimento e a dor daqueles que estão em seu entorno, na esfera dos encarnados: infelizmente, ao invés de não deixarem a candeia embaixo do alqueire, muitos dos militantes espíritas se evadem de seus deveres morais em relação a seus irmãos encarnados e contribuem para o esvaecimento (verdadeiro “apagão”) da luz interior em muitos irmãos. 

Em uma comunidade, dentro da sociedade atual, todos, homens e mulheres, estão sujeitos a variadas vicissitudes, visto que fazem parte de um ecossistema ainda inserido em contexto de mundo de provas e expiações, extensivas a todos os seus componentes, tanto encarnados quanto desencarnados. 

Em outras palavras, é importante conciliar o socorro aos irmãos e às irmãs no plano espiritual em condições enfermiças com o amparo a encarnados e a encarnadas partícipes do meio espírita que, igualmente, necessitam de cuidadosa assistência e, muitas vezes, são deixados em segundo plano.

Quantos, entre nós, não são encarnados enfermos a pedir socorro, no cotidiano, e, como vozes não visíveis, são negligenciados pela vaidade humana, que se ufana em priorizar o atendimento a irmãos que se encontram no outro plano existencial da vida?

Nas experiências cotidianas, embora atravessadas por inúmeras tarefas, que nos colocam como servidores de uma rotina humana na Terra, ainda assim somos convidados a refazer nosso modo de ser, inclusive a nossa postura em relação a nossos companheiros e companheiras (encarnados e desencarnados) de lida espírita e de outros segmentos da vida em sociedade.

Não acredito que todos os esforços estejam condenados à perdição da pessoa em si mesma. 

Acredito e tenho esperança na capacidade humana, porque sei que ainda somos aprendizes para o saber que nos contemplará como portadores de uma real humanidade. 

A formação de nossas capacidades, por meio do afeto e do desenrolar dessa afetividade, muito contribuirá para que o medo e a desconfiança cedam lugar às relações transformadoras e educativas. 

Que a formação de grupos afins sirva de ânimo para a continuidade do espírito cristão com que um dia fomos contagiados e que, como semente, pede luz, pede o alimento, para ter força e romper a terra dura de nossos corações. 

A casa espírita, respeitando a sua condição humana, tem grandes chances de não se tornar mais uma ruína arquitetônica da experiência religiosa em nossa plurissecular caminhada evolutiva. Basta que os seus arquitetos, os seus responsáveis, os seus frequentadores instalem em seu seio os fragmentos do cuidado entre si e com todos. 

Não fiquemos só preocupados com o resgate de irmãos que já se encontram em condições de desencarnados. 

Não deixemos à margem aqueles que lutaram para adentrar as portas da comunidade espírita e que precisam construir ou reconstruir a sua fé sólida, o seu afeto por si mesmos e pelo demais e que não encontram amparo em outras instituições humanas atuais. 

Que o poder seja o poder de direcionar a vaidade e o orgulho para a construção do acolhimento e da compreensão de que todos precisamos, sob a premissa de que todos estamos a trilhar o caminho da evolução em condições árduas, próprias do mundo de provas e expiações no qual habitamos. 

Não existe mediunidade melhor ou pior: existe mediunidade com Cristo e sem o Cristo. 

Não me recordo, na história do Mestre, de nenhum comportamento excludente por esse ou aquele motivo. Todos que o procuravam tinham a mesma atenção e respeito, recebiam aquilo de que necessitavam e Jesus sabia ouvir e compreender cada pedido. Que possamos desenvolver a capacidade de ouvir sem julgamentos, de exercitar a suspensão de juízos e valores na condução e assistência de todos os homens e mulheres. 

Ouvir é acolher! Ouvir é se colocar à disposição do outro sem subserviência nem dominação. Permita a si mesmo caminhar com os seus irmãos e crescer sempre. Não se esqueça de que a única verdadeira ameaça que pode surgir em seu percurso de vida é a ameaça que nasce dentro de você. Aprenda a se conhecer, saindo da própria concha existencial, abrindo-se à coexistência fraterna com todos, homens e mulheres, encarnados e desencarnados, quer tenham afinidade com seus ideais e visão de mundo, quer comunguem de ideologia e valores diversos, com os quais, inclusive, em razão da diversidade, podemos nos enriquecer como pessoa e nos desenvolver como Espíritos imortais.

  
FERNANDA LEITE BIÃO 
Belo Horizonte, Minas Gerais (Brasil) 

A autora é psicóloga e orientadora profissional em Belo Horizonte. Mestranda em Educação Tecnológica (CEFET-MG). 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A MÍSTICA

O pensamento místico, ou simplesmente, a mística, desenvolve-se no interior da tradição cristã, mas a sua origem remonta à cultura grega e deriva dos Mistérios Gregos. Os mais famosos são os Mistérios de Eleusis e quem lhes acedia passava por uma experiência iniciática (Mystés=Iniciados).

Os que passavam por essas experiências não comentavam posteriormente com os profanos. Até porque as experiências não eram traduzíveis por palavras. A regra de ouro era o Silêncio (a boca, os olhos e os ouvidos fechados). Quando se suspende os sentidos e o intelecto fica-se com uma maior capacidade de presenciar Deus.

Os textos sagrados são passíveis de diferentes interpretações e que vão servindo a cada um conforme o seu estado evolutivo.

Segundo Juan Martin Velasco pode definir-se o fenómeno místico da seguinte maneira:

- Uma experiência totalizadora e integrante, diferente da consciência comum cuja forma de conhecimento fragmenta a realidade.

- Uma experiência recebida, inesperada. O sujeito, de forma passiva, é surpreendido pela experiência.

- Imediatez. Experiência intuitiva, sem mediadores.

- Experiência fruitiva. A grande beatitude, o grande gozo. A linguagem mística é equivalente à linguagem amorosa. Uma consciência de vida eterna, aqui e agora. Não vale a pena esperar nada, tudo é para já.

- Simplicidade. Singeleza. Uma experiência que não exige nada do sujeito senão a sua disponibilidade, simplicidade. Se não estamos a vivenciar sempre a experiência mística é porque estamos a substitui-la pelas nossas.

- É inefável. Após a experiência não se pode verbalizar. É uma luz muito mais intensa do que aquela que pode ser dada pelas palavras. É uma experiência não verbalizável e convida a um discurso mais poético, mais criativo.

- Uma experiência, por um lado, extremamente evidente, por outro, extremamente obscura. Junta os paradoxos lógicos. O inexplicável - “não sei o que é, mas é isso que eu quero”. O egocentrismo desaparece. Tudo está ligado. O serviço faz mais sentido.

Carlos Rodrigues

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os Caminhos do Espírito


“Os óculos são uma prova de que nós não fomos feitos para ler”. (Leonel Limão)

 A manifestação do Espírito em nós é pessoal e interior. Para a sua manifestação é preciso uma libertação de todas as vãs distrações, solicitações, a tudo o que nos prende. É necessária uma disponibilização absoluta.

A experiência com o Espírito é uma experiência de unificação. Deixa de haver separação alguma, por exemplo, entre corpo e alma. A experiência da plenitude é tudo o que o Homem mais deseja.

O Espírito é aquilo que nos abre para o ilimitado, para o absoluto, o infinito, a eternidade.

Sínteses de experiências místicas:
- O real é holístico;
- Tudo é simultâneo, tudo está aí. O espaço e o tempo, medidos, são separações feitas pelo Homem;
- A eternidade, a maravilha é aqui. Tudo está dado. É agora e é sempre agora. A evidência é que estar aqui é estar dentro do coração da totalidade.

As religiões são veículos para que a experiência da plenitude se possa concretizar.
Religião=relicare=religar: Aspiração humana à ligação com o divino.

Os exercícios espirituais têm como objetivo (re)trazer a consciência à não dispersão, ao centro, à perceção dessa realidade Una. A necessidade de recolhimento tende a evitar aquilo que mais nos prende: o prazer (desejo) e o medo. É necessária uma disponibilidade total.

Sentimento de compaixão, o devido sentimento de todos pela felicidade de todos, sem exceção.
Ascese, etimologicamente, exercício contínuo.
Mística, unificação com a divindade (o real absoluto).
O exercício contínuo visa tornar-nos melhores.

Eventualmente, não podemos sempre presenciar a experiência pura, mas temos a ideia de que ela existe.

Religioso ou ateu, em ambos pode haver lugar para a afirmação da alma, ou do espírito. Ambos são caminhos que podem permitir o desenvolvimento espiritual.

Em suma, a beatitude, a salvação, não são só para depois. Podem ser para já. E não é preciso ser religioso, pode ser ateu.

Carlos Rodrigues