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sábado, 22 de novembro de 2025

Paulo Landeck

 

À DERIVA

Há quanto tempo

                      e o tempo

                          hoje está de chuva

páro para pensar em me abrigar

Há quanto tempo

                               o vento

                                        fortemente embriagado                         

sopra consigo um rasto do verbo ao mar

Há quanto tempo

                              Invento

o cinzento em tons de azul

O céu de todas as cores

e assim o Amor

fardo encontrado                            à deriva

Como um achado que protege derrotas e sucessos

ancorado à plenitude

Será sempre o mar maior por reencontrar.

Sempre enamorado, entre o Lis e o Lena.


Dia Nacional do Mar, 16 de Novembro de 2025.

sábado, 3 de maio de 2025

Paulo Landeck, um poema


 POLARIZAÇÕES


Um pássaro sem rumo

procura na asa exaurir seu destino

Desafia-vos desnorteado

pela provável inversão dos magnéticos polos terrestres

Como se todas as leis fossem ditadas pelos homens

e os seus estudos

capazes de apontar ambivalentes polos geográficos terrestres

e de forma profunda imaginar eixos

para navegar toda e qualquer inclinação ao raio solar.

 

Só sei que lá fora o céu está pesado

e ainda assim

muitas são as aves que apreciam chuvas e poças

Ainda a rua nos pareça um recorte de vida deserta.


sábado, 17 de agosto de 2024

Crónicas de Paulo Landeck


EM ÓRBITA

Desejou ter barba de raspar fósforos, e guardar no bolso universal uma pedra de isqueiro para desconsertar improvisado céu em noite escura, quando fugisse novamente de casa para viver nas dunas à beira mar.

Nessa altura, em que tudo se podia e quase nada era ainda permitido pelos pais, - nem mesmo fugir de casa, - sonhou desentortar um dos olhos com o garfo e cuspi-lo até à lua! 

Com um pouco de sorte, deixaria a sua marca em solo lunar. 

Mas...tinha uma dúvida, só uma dúvida: 

não saberia como piscar o olho mais tarde, ciente de que perderia o globo e a dúvida surgiria.

Tinha só esse problema com o olho, o seu olho, uma dúvida, sem o resto do corpo em redor para o chatear...imaginem se fossem duas, problemas a dobrar!

Lá bem ao alto, a singular dúvida persistiria, na direção do berlinde terrestre que reflectia vivo azul e deflectia algo que talvez nem sequer pudesse um dia voltar a vislumbrar; por seu deleite, e por todos os oceanos que o seu olho jamais derramaria, seguro no garfo ou longe de si, admitiu o fracasso da ideia.

Procurou renovar sofrimentos, queria agora polir o fosco iluminado pelo farol. 

Se esquerdo ou direito, não sabia precisar...e ao centro, sobejava o nariz.  

Das três, uma certa, libertou-se da armação devido à condicionada ilusão.

Tanto sonhou e sonhou para não deixar de quebrar óculos...e assim, possíveis fragmentos de janelas e mais janelas perdidas no espaço!

Ainda como consequência, o lume jamais se apagou das páginas bruxuleantes dos muitos livros lidos fora de horas. - Palavra de narrador. - Estava mais do que certo, destinado para toda a vida a sonhar acordado. - E talvez depois da morte fosse uma espécie de sonho ao contrário, quem sabe, livre de pesadelos. Não sei...sonhos e pesadelos sempre andaram de mão dada, pelo menos, na vida real de quem sonha acordado. - 

De nada lhe valeria fugir de casa...ainda que encontrasse seguramente conforto nas dunas de verão à beira-mar.

Naquele tempo, dificilmente existiria céu igual. 

Despertou. 

Pensou então em aprimorar nova técnica de olho posto na ambição. Quem sabe o que dali resultaria, se resolvesse explorar uma outra órbita à procura de familiar globo ocular, desta feita, de faca e garfo. - Nada como a boa educação, nunca sabemos quem pode estar à espreita numa qualquer janela indiscreta. -

Deu por si abraçado a um enorme sobreiro despido, inequivocamente envergonhado. 

Seria por causa do coração da menina gravado à navalhada pelo futuro marinheiro!? 

Faltava-lhe o garfo, afinal. 

Não sabia ainda, se o coração dela palpitaria sequer por tão notável entrega e delicadeza. 

Desconhecidas as contas, não passava de um sonhador preso no espaço, ansioso por regressar à Terra, tremendamente nervoso por avaliar todas as possibilidades de regresso. - 

Tinha visto uma vez em vários documentários, como as impressionantes expedições às florestas virginais, podiam bem começar nos despenteados vasos das varandas, algures pela vizinhança. 

Avencas e fetos até o ajudavam a pensar, mas ali, na zona nascente da serra, só tinha um enorme sobreiro corado, e uma navalha de algibeira para cortar os cotos no lugar das côdeas...-

sem um pé-terra sequer para afogar ansiedade em sumo; e quando assim é, o melhor é aguardar que chova. -

Procurou então novos sinais, de pés bem assentes na terra...para dar com marca pintada cor da neve. Quedou-se incrédulo: próximo encontro marcado com a desgraçada que lhe dera a volta ao miolo, só dali a nove anos!

Como pôde ser tão cruel...não podia ser...

Tinha quase a certeza de estar bem perto das nove da noite, por issso, resolveu esperar mais um pouco.

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Paulo Landeck







A CÉU ABERTO

 

Se indulgência ou ocaso no cerrar cortinas, o homem arrasta formalidades há muito implantadas; por vezes, procura genuína bondade para desculpar o importunamente censurável, condenando significância em troca da agradável natureza das coisas.

Creio, ser tremendamente poderosa a tarde despida das terríveis nuvens vigilantes! Ainda que persistam ocultos, laboriosos enredos, cerzidos por desmesura e remissão.

Creio que o Ser deve prosternar-se diante da Força sem medo nem humilhação, elevado a outro patamar.

Talvez acto de amor, Supremo; olhar nos olhos Imensidão, consciente arbítrio, muito para além do abraço temerário.

- Nem todo o beijo é um beijo. -

Retomemos esse acto.

Dois mundos, expansão ou subducção; - elixir e pedra, espagíria espiritual, - como água do mar nas fissuras da crosta oceânica quando reemerge tocada pelo magma.

Rendem-se corpos, cancela-se a carne putrefacta, pela natureza do espírito ciente da morte como panaceia universal.
Dois mundos, uma só alma, - parte e dispersa, como ademais a plateia, ao cair do pano.

Vida a céu aberto, matéria transformada.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Paulo Landeck



ACANTO 

 

Anoitecem no limbo

por rega desmedida

esquecem as vivas matizes

dos seus veios 

 

Na moldura saliente

alma singular

tombada aos vermes 

 

Alimentam humificação das estações

derramado sangue e poesia

corpo a corpo

Perenemente injustiçado

como se 

piores castigos

do suplício ao ofício

horas trocadas a granel

Amarelecem sorrisos

no que resta dos escombros

da cidade

Urdida e vencida na teia

renovada

Algodão e marfim dos novos tempos

borracha queimada

Reverbera esplendorosamente a decadência

Só os eletrões são livres

indiferentes

à clorofila dos dias

asfixiantes. 

 

(3/10/20213)

Auto-retrato, a pensar no 5 de Outubro - Poema em Construção


sexta-feira, 17 de março de 2023

Cavalos de Pedra

Paulo Landeck



Fogem do peito,

Infindáveis cavalos de potência!

Sim, incomensuráveis,

na transmudação de íntimas memórias.

Garranos à solta.

Negras são as rochas,

dizem os fangueiros;

Pois eu digo:

Galopam no escuro em reflexos de azul!

(Sacudidas as grávidas nuvens,

por cósmica poeira

Verdejante.)

Como mar revolto

espreito costa.

Visceral cavalo emerge das profundezas, 

para sulcar vagas.

Não serei náufrago,

de variações pronominais

- por valor Indicativo de relações existentes -.

Aparelho minhas forças ao indomável Oceano.

Debaixo de nobilíssima coudelaria

abundam estratos de outras dimensões,

vidas de barro.

De Alter

Ego,

ao perfeito ocaso,

fulgurante espelho líquido

da vitalidade.

Alma

e lezíria.

Sabe que a pureza do sangue 

não vem da raça,

quem cavalga universos e destinos, 

em liberdade! -

Não obstante, 

petrificados cavalos acorreram ao 

mar,

cumpridos desafios. -

Indomáveis

vagas.

A vida é sempre repto

para os mustangs

em campo aberto.

Assim também no campo-santo

do Atlântico,

onde correm livremente cavalos selvagens.  - Sonho ser Ilha de Sable.

-

Omnipotente, 

apenas o céu,

rasgado por Deus,

como se

Domador

de silêncios.

Domar a dor,

como quem aplaina e cerca ímpetos selvagens

onde terra e céu se confundem,

sem jamais se tocar.

Para que do galope reste ilusão,

nuvem de partículas, 

por assentar.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

CARTAS A GRAFITE


Acende umas páginas por mim.

Deixa que sinta
O calor, sim,
Rouba esse grandioso Universo das cartas perdidas.

Não aguardes mais cinzas.
Ateia!
Ilumina trevas
Porventura destilado alcatrão da hulha
Escolheram para mim.

Nesta noite mais escura
desinflama,
ou faz das palavras acendalhas
por fogueira...                                                                     há muito
perdida. 

Cerzido peito respita, assim como nódoa dissolvida na sombra,
liberta.

Às dez inflama!
Acende etérea volátil e dilacerante insta-habilidade,
mas não esqueças intensa e momentânea luz.

Sem o gravame da idade
deixa que arda!
E devolve penumbra ao sentimento,
por todas as palavras
jamais escritas,
jamias fotografadas,
(a)meia luz.


Paulo Landeck, 29-12-2022. Itinerâncias.
A todos, um melhor ano!

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Um Poema de Paulo Landeck


Gotículas e Centelhas

Abrigada na chuva,
dança entre a multidão
ao método de Orff.
Gota
de lágrima vestida.
Atenta,
pois maravilhosamente se desprende
da tormenta ao vibrante xilofone.
Resguarda
palpável criação,
sede de todas as sedes.
E se,
sorvida de um trago
no cálice da rosa,
enquanto eflúvios reportam inocente transparência
perdida em dias cinzentos,
lembra-te,
perfumes tardios
guardarás.
Lava o dilúvio -
terra,
e delicada pétala, -
música diluída
que embala todas as cores,
ao sabor de tenebrosos pesadelos
e tangíveis sonhos.
Por isso
Dança,
Dança ao método de Orff,
Dança
pura flama!
Como velha madeira naufragada
em mágica fogueira crepitante, dança!
E guarda de mim,
apenas uma brisa marítima.

Alhos Vedros, 10-11-2022

Paulo Landeck



quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Regina Correia lê «Desadormecer», de Paulo Landeck


Regina Correia lê "Desadormecer", de Paulo Landeck. Aventureiro de terra e mar, tendo viajado pelos oceanos e pelas sete partidas, estudando as aves e os macacos nus que, segundo Desmond Morris, nós somos, Paulo Landeck parece fazer jus ao nome, ou não lembrará terra aquele "Land..." e o convés de um navio aquele "...Deck"?

Há momentos de partir, há momentos de pensar em partir, há momentos de observar. Abre-se a janela do mundo para se ver o mundo numa rua. Mas está frio, e o coração arrefece, ali, no Everest glacial. Há tanto para fazer, tanto que desadormecer. Até o carro hesita em partir, engasgado, aquecendo com esforço para se fazer ao frio que lhe pede para ficar. Depois, finalmente, desaparece, e leva o mundo inteiro consigo, atirando no fumo do escape a pertinácia da solidão.

João Nuno Azambuja

Ver Aqui: https://fb.watch/e_4mFlGtMC/ (pode aceder na coluna direita do blogue)


sábado, 23 de abril de 2022

Paulo Landeck, ao Dia da Terra

FLOR DAS MARÉS

Semeada ao vento
Foge a linda caligrafia
do bloco de notas.
Afasto-me,
assim que vislumbro
fórmula da equação,
como quem conta sílabas poéticas;
Porque alto voam patos-bravos,
e no solo ao longe pastam cavalos,
nas primaveris relvas miudinhas
junto ao canavial.
O poeta procura corrente nos esteiros,
que trazem alfaces e bodelhas;
esgueira-se por entre salicórnias e gramatas,
e destaca halófila escrita na paisagem,
pois das marés dependem
plantas marginais...
mesmo as que choram excessivo sal,
de oceano em flor.
No prado molhado de ásteres e bastardas madorneiras
reinam as cores da lavanda-do-mar.
Estevas e murtas aguardam noutro patamar.
Na cara, sinto a suavidade de um não.
Não fogem à sorte dos trevos
copiosas gramíneas,
há ovelhas que ruminam ao passar.
Fecho olhos e peço desejos.
Algo parece crepitar
na renovada verdura,
ao passo que folhas de zinco arrombam sonoridades
e velhas portas de madeira
ao barracão abandonado.
Pressagiada dor: plástico no caminho
Fere quem olha ao sentimento.
Queimo incensos e penduro ramos à proa,
para melhor sorte o mundo navegar.
Ao volver a casa
das margens salgadas
dançam papoilas…
em sangue vivo,
de poesia!
(Estuário do Tejo, Dia da Terra de 2022)