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sábado, 22 de abril de 2017

CIRCO EM EQUILÍBRIO



Uma coisa que creio como homem que sou, é que o mundo se equilibra pela imaginação humana. Creio nisto como um dado equilibrista desliza em pleno no arame no topo da tenda de circo. Creio também ser isso a matéria necessária para que a vida ganhe cor na cor que no mundo existe.
  Há, na percepção que tenho da vida, o amor que floresce nas mais ínfimas esquinas e encruzilhadas que habitam cada ser, sem este ter a percepção, claro está, que só ele pode existir em plenitude e ligar toda a vida entre si.

Na arte existe um cordão que umbilica amor e imaginação dando á luz o génio, que habita o coração dos homens, liga-os mutuamente, expondo-os numa verdade absoluta e inteira para que a consciência torne possível a compreensão de tudo.
  Assim os ecos de vida harmonizam-se com todo o espaço/tempo e o homem compreende que o sol e a lua foram feitos de propósito para nos iluminar


P.S.: Se clicar no nome do autor verá o pequeno vídeo circense - "esse toro enamorado de la luna" - que inspirou estas palavras.

sábado, 11 de março de 2017

Poemas com Jazz


Canto Cupido

Na boca que te leva a dizer que me amas
Dorme um desejo profundo, que a mim,
Gesticula mudo um sinal de apocalipse
E a terra treme.

No fim os teus cabelos ascenderam os céus
E toda a casa que partilhamos endividará o senhorio.
Nossa ausência, o perfume que deixas,
O gato que morre de fome, os relógios que eu deixo,
Toda nossa louça bordalo pinheiro que nos une aos dois
E teremos de deixar.

Tu prometias quando dançavas com o olhar
Na direção dos meus olhos,
Fitava-los prometendo e prometendo
E continuando a prometer até a íris que te contorna a alma
Derramar em silêncio sobre as pálpebras a emoção contida
Que te escorria ao longo da face.

Lembras-te disso?
E lembras-te quando ouvíamos a música das galáxias por cima de nós?
Nessa noite em que a lua nos disse que o sol nunca deixaria brilhar.
Pois foi nessa mesma noite que o sol pediu a noite em casamento.
A lua, essa mesma lua que ocultava o sol
Para que eu te dissesse baixinho a palavra "Amo-te".

Na nossa casa brilhavam luzes cintilantes
Mas ficou tudo tão escuro.
Será que apaguei o gás? Lembro lá de tal coisa.
Ou foste tu? Consegues lembrar-te?
Impossível, ainda ontem tomaste um banho quente
Enquanto eu fui comprar um tabaco.

Científicos estudos teus detectaram o buraco negro
Em que oráculos meus pressentiram o apocalipse,
O declínio do nosso império deu-se e a terra tremeu.
O teu corpo flutua agora e o meu caminha
Só a memória nos une em direcção ao sol.

Consigo ver os teus olhos na escuridão
Consigo sentir o odor do teu corpo e as fragancias em te banhavas.
Consigo escrever em pormenor todos teus sonhos
Quando declaravas que Copérnico e Galileu estavam errados
E que o nosso amor era o centro do Universo.

E os dois corações estremeciam de repente quando
O carteiro batia á porta dizendo ser correio
E e nos tranquilizávamos
Porque pensava-mos que nos vinham penhorar os sonhos,
Daquilo que cada um de nós sentia e nunca foi capaz de ao outro.

Pois dentro de nossos peitos havia uma guerra humana
Tremenda, insegura, trágica, sanguinária,
Sim, porque a consciência é como um teatro de guerra
Onde se move a artilharia do corpo fazendo recuar infantaria da alma
E em havendo um cessar fogo final tudo volta ao mesmo,
Deixando desnudas as nações que nos unem,
Os pássaros voltam a cantar, o rio a correr, o sol a brilhar e crianças a nascer.

Tu tinhas em teus frágeis dedos o cristal
Daquele serviço de copos que compramos na Boémia.
Ficavam bem na mesa da sala não achas?
Eu ria-me para ti como uma criança enquanto bebia vinho,
Pegava-te nos dedos finos e do teu olhar reprovador
Nascia um sorriso terno e a seguir chamavas me tonto.

Fomos tudo e nada
Onde o tudo e o nada se juntam para que haja vida.
Ao menos um rasto de vida, alguma coisa que justifique
Que o amor entre duas pessoas é necessário para uma vida completa.

Agora já sei, o destino disse me ao ouvido,
Já me provou, só me resta rir e ser alegre.
Um pássaro voa, o vento levante ergue-se e o sol põe-se,
Retribuo te todos os meus sorrisos, a vida flutua,
E o mundo não dá por nada.

Málaga 2017

P.S.: Para jazz clique no nome do autor

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Poemas com Jazz


DRAMA TROPICAL

A voz do vulcão que declamava
Á boca de cena da ilha.
Ali, a praia escutava sinfonias de araras e fagotes,
E eu, humano de todos os fracassos e vitórias,
Sentado na plateia de bilhete na mão bebendo água de côco.

Um papagaio gritava para que o mundo não parasse de girar
Ou melhor, que nunca parasse de girar, 
Que o infinito fosse o culminar de todo o talento artístico natural,
Para lá ainda de um outro infinito na apoteose prefeita de tudo o que nasce e morre.

E eu, sentado de chapéu na cabeça e camisa havaiana colada ao corpo,
Eu, suado pelo calor tropical da consciência humana,
Eu, de óculos escuros lúcido e cego ao mesmo tempo
Daquilo que olhava e não via,
Daquilo que ouvia e não escutava,
E que era nem mais o drama exótico de toda a minha alegria.

Um camaleão entra em cena,
Mudou de cor, que bonito
Mudou as cores do céu na noite e a peça decorre,
Eu que chorava e ria, descruzo agora perna tombando pelo sono
Naquele espectáculo em que o mundo e os homens se unem  
Estando tão longe de terminar.


Nota Importante: Se clicar em cima do nome do autor tem direito a música!


sábado, 3 de setembro de 2016

Poemas com Jazz


UM LUGAR

Lá na morada onde me mora o medo
Aceno um "Óla", acendo um cigarro e passo.

Discreto, sem que o coração me ajude ou a razão me processe,
Sem que um demónio ou um anjo intervenham na minha existência 
E me perguntem se quero fumar um charro ou simplesmente olhar o céu.

A última lembrança que tenho quando passei aqui
Foi um artifício de fogos descodificando flores murchas.
Velhas casas a oeste com as lamparinas ainda acesas 
E velhas cantando cânticos religiosos de um lado ao outro 
Da morada onde me mora o medo

Entro num café com um cigarro na boca,
A cinza cai e eu avanço sereno e a alma banhada em rosas,
Um homem sentado a uma mesa ri-se,
Ofereço-lhe um licor, sento-me e rio também 

Um piano toca e o sol doira lá fora,
Borboletas poisam e as flores saúdam-lhes,
O canto dos pássaros estende-se ao comprido nos galhos,
O mundo repousa sereno e estar vivo é um luxo.


NOTA: Clique no nome do autor para ouvir a música escolhida para este mês!!!

sábado, 2 de julho de 2016

Poemas com Jazz


Atlas da harmonia biológica

Avistei com olhar de primavera 
Um animal que dançava subtil,
Uma planta em frente de onde eu vivo,
Vive para que todos os dias eu a festeje existindo.

Animais, vegetais em coligação com o homem,
O mais belo registo da enciclopédia universal,
Saber lê-la é descodificar emoções pensantes,
É elevar a linguagem ao extremo dos nossos corações.




Nota muito importante: O nome do autor do poema tem música. Basta clicar.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Poema com Jazz


A clínica que alimentava pombos

A velha que da janela do dentista 
Alimentava pombos.

A meus olhos chegavam ruídos
Cromáticos da publicidade clínica.
E de entrada na sala de espera
A televisão movia os segredos 
Mais básicos da condição humana.

O rabo da velha a olhar para mim
Debruçada á janela com o pão duro ao lado.

O mundo clínico acaba quando
O dente morto for absorvido 
Pelo mundo exterior a mim
Dissolvendo definitivamente a dor.

A velha da janela da clínica
Alimentando pombos
Com o saco quase vazio,
Em frente ao sol que embatia de fronte,
E onde á porta da clínica um cinzeiro 
Pairando tímido anunciava:

"Local de fumadores"



Nota Muito Importante: O nome do autor tem jazz, basta clicar em cima!!!


sábado, 30 de abril de 2016

Poemas com Jazz


O Volvo de D. Quixote

D. Quixote ao volante de seu volvo
Pela mata que se avistava ao longe.

De longe louco pela noite,
Ela, a noite sonhando a aurora,
Lutando e amando o náufrago silêncio 
Da terra que move os astros.

Loucura da noite na noite assim,
Um escudo brilha no céu e não é gigante
Sem de todo ser moinho num vento de utopia real.

Fiel escudo em cima do escudeiro céu,
Confidente da noite por trás dos oráculos,
Cavalgam pela madrugada em volta
A quem à Aurora declamam versos.

Quixote ressona pelo fio de saliva queixo a baixo
Sentado ao volante de seu volvo á beira da estrada.
A mata escuta o iPhone que o desperta,
E o gigante sol, tão real que da chave na ingnição
Desfila Quixote pela lança que lança ao volante cavalo.


 Diogo Correia

Pelos 400 anos da morte de Miguel de Cervantes a 22 de Abril de 1616

(CLICAR AQUI)

quarta-feira, 9 de março de 2016

Poema com Jazz


Tela negra de cromatismos nupciais

O vinho escorria da montanha e a mesa estava posta.
O pintor acariciava a tela diante de uma mulher nua,
E uma gota de suor escorria-lhe na face.

O quadro negro da janela com a noite por trás,
Reclamou o seu silêncio por uma coruja que passava perto
Em direção á montanha, guinchando.
A mesa estava posta com a noite a reclamar o seu silêncio,
E pintor sentia o mundo diante da mulher nua.

O eco com que a noite reclamava o silêncio
No coração do homem que o pintava,
Era o mesmo silêncio que a mulher nua via.

E na janela uma luz que se apaga a anos-luz,
Com tempo de sobra para que o homem
E a natureza sejam eternos,
Com tempo de sobra para que o pintor
E a mulher nua sejam uma e uma só tela.

No tempo em que o pincel da história
Se entretia com pajem e príncipes,
Já a janela era o perfeito quardro dos homens.
E e que o pintor pensava o mundo
Antes de qualquer quadro.

E a mesa posta na mulher que a reclamava
E a mesa posta no homem que a reclamava
E ambos viam a mesma coisa,
Tal como a noite e a janela viam de coruja pendurada ao ventre.

Diogo Correia


Nota Importante: Ao clicar no nome do autor, o poema dá jazz!


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Até Jazz...



Fruta de peça


O frasco de tomate que da popa deu fruta.
O futuro também passa por ser fruta com caroço
E o balanço que o mundo faz do que passou
Irrompe pelo banquete em que os deuses se folgam.

A fruta mais que certo é fresca
O banquete mais que certo é eterno.

Ou não: a fruta não é eterna nem o banquete é fresco.
É só a força de razão humana guiando um povo de deuses.
É só a máquina humanamente possível de imaginar atmosferas
Terrestres que no solo semeado crescem árvores que dão fruta.

O frasco claro, pois certo... O frasco...
Ainda o frasco não tinha nascido já as frutas eram jóias ao pescoço das árvores.




Nota: Clicando no nome do autor, o poema dá jazz!!!


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Vai um cafezinho?





Quem, senão nós?
Quando, senão agora?
Onde, senão aqui?


Foto de Lucas Rosa


(Na foto, Diogo Correia, poeta, músico, artista de variedades.)

domingo, 6 de setembro de 2015



Doninha do encanto

  
                                         Amo santo canto
                                         Não se sei se não me espanto
                                         Amor não levantes por mim encanto
                                         Dançando, levanto teus pés entretanto.

                                         Minha promessa, astro pensando
                                         Minha doninha de amor suando
                                         Suando saudades doninha entretanto
                                         Dormindo comigo doninha te amo.

 
                                                   Diogo Correia

domingo, 2 de agosto de 2015



Maresia
Encosto-me vendo o mar
Na orla marítima estendo-me para lá do céu
O Sol permanece inerte
À constante mudança do mundo.
 
 
O que sou??
 
Inconsciente, o traço que separa
A Terra do Universo
Lança a questão ao espírito que me pertence.
O infinito é do tamanho do céu que sustento
Sentado nesta cadeira.
Para que serve pensar??
 
Um barco vai a passar ao largo da costa
E uma luz piscando ao longe
Faz parecer que o dia nasceu
Para que nos amemos uns aos outros.
A maresia que do outro lado do mundo
Traz nostalgia e saudade, e eu:
Quem sou??
O rasto da noite que passou
Fez com que este dia chegasse
Para me abraçar,
Esta luz que pelo mar vem estonteante
Segreda-me as minhas dúvidas de mansinho
Tão de mansinho que só de as ouvir
Vale a pena existir para duvidar.
Diogo Correia
 

domingo, 5 de abril de 2015


A mulher do aposentado Velho Artur


O banco do jardim sentava semi-confortavel Artur, o velho pensionista, de olhos fitos no eucalipto que avistava  ao longe.
  Os dias que este colhia e a idade amassava, corroendo-lhe o corpo ao longo dos anos, eram para si nada mais nada menos que um pacto feliz que fizera com a morte. Dir-se-ia mesmo que estavam unidos por união de factos tanto através do silêncio com que encarava a árvore como pelo negro dos dias que se iam multiplicando no seu corpo, que apesar de negros não lhe prestavam dor física alguma.
  Por isto Artur, o velho pensionista era feliz com a sua morte, que lhe trabalhava a alma e a carne sem dor alguma. Sentia mesmo que estava unido a ela pelas melhores razões pensando de quando em quando: “Chegaste, ai estás perfeita de ti em mim sem dor alguma na tua foice”.
 
Houve um breve movimento de cabeça que o fez fixar a visão num formigueiro do outro lado do passeio á sua frente, deu um toque com a  bengala no chão enquanto observava as formigas devorando um escaravelho de estrutura grande para a sua classe. De barriga para cima esperneava-se em rápidos movimentos enquanto as formigas lhe trespassavam o crustáceo do corpo num último adeus á vida.
  O velho observava sereno, o bicho de mãos dadas com a sua morte. “ Sim havia dor naquele corpo” pensava.
Levantou a bengala e com um suspiro e um lento fechar e abrir de olhos bateu com a bengala no chão. Pensava no sol, na lua, no tempo e na pensão salarial que de há trinta anos até àquele dia nunca havia falhado.
 Avistou num canteiro próximo, deitada entre meio das folhagens, uma cadelinha de rua com cinco cachorrinhos mamando euforicamente nas tetinhas da mãe. “Quando se nasce a morte vem a reboque, quando nascemos estamos para morrer” pensou o Velho.

A generosa relação que ele tinha com sua morte fazia-o viver uma vida que o levava a crer que estava morto, de certo modo achava-se morto com a vida que tinha, mas não sentia qualquer remorso com isso nem tão pouco sentia a dor predominante da morte.
  Mas isto que Artur pensava, começou-o a pensar a partir do momento em que se reformou, “Depois da reforma cai nos braços da bela foice ela que faça de mim o que quiser, será sempre bela enquanto não me beijar a dor”.

Bocejou, e pegou na bengala semi-estendida no banco e bateu com ela no chão quatro vezes, mais quatro, e mais quatro, começou a assobiar ao som da bengala, pegou no chapéu, levantou-se e começou a andar e tropeçou num ferro junto ao caminho com uns chinelos que mal lhe protegiam os pés. Resmungando agarrado ao pé disse para si: “Porra, já te disse que não me beijes assim”

                                                                                                  Diogo Correia

    04-04-2015

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Poema Construído (3)



Amor e guerra no Império das Copas

(A seta de Cupido)


Foi num dia 4 de Julho
lado de dentro do espelho
Isabel comeu o coelho
e nem fez muito barulho,
disse a Rainha de Copas
que nem gostava de rosas brancas
tocava perfeita a orquestra
"- mais um ovo-estrelado, por favor."

A Rainha de Copas é uma finória

pensou o empregado de copa
que já servira um cherne e agora esta garopa
cheia de salamaleques e de pose ilusória,
deixa estar que tu tens a mania mas vou-te tramar
despiu a farda e calçou os sapatos de pisar e esmagar
aproximou-se ao som da orquestra que continuava a tocar
e sussurrou à Rainha de Copas: a seguir ao estrelado vamos dançar?


A rainha deu a sua aquiescência
mas como é seu hábito fez muito mal
porque o empregado tem defeitos
e é bruto como uma porta fardada
pediram ao maestro na sua sapiência
que tocasse uma música sensual
para se despirem de preconceitos
- ele em pelota e a rainha pelada

estendendo a mão à rainha que se levanta

o empregado seduz a fêmea de porte imperial,
nu era o esquema da valsa entre os dois reinantes do salão.
NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA
irrompe um pajem pelo salão adentro:
IMPÉRIO DE COPAS EM CHEQUE
o rei de espadas acabou de montar um cerco a oriente
enquanto a ocidente a cidade de Copália cai nas chamas do seu exército

E assim ficou aquela

verdadeira queca real,
como uma flor à janela
à espera do roseiral.
"-Às armas!", gritou ela,
pondo fim ao gozeiral
e tudo por um barco à vela
e uma guerra imperial



Luís Santos
Manuel João Croca
António Tapadinhas
Diogo Correia
Luís Gomes



P.S.: Podem aceder aos poemas 1 e 2 clicando em "Poema em Construção" .

sábado, 28 de junho de 2014

Poema Construído




Prato à Pequim


Chegou à vida um pato que saiu do forno 

pensando-se a Fénix por causa disso,


assado e cozido, em repasto familiar renascido


as laranjas descascaram-se em espiral para acompanhar

Um pato saudável nunca está só: tem sempre duas patas



Os talheres foram postos em mesa aprumada

"-Para mim", pensou a fénix, olhando a cabeceira,

degolada e decepada, com laranja decorada

mesa posta a rigor já com pato e tudo quem será que vem jantar

Um Coelho que traz Aguiar Branco, Poiares Maduro e Mateus Rosé.



À roda, a mesa coloria de frutas, e cantava-se Alegrias

e o pato que se julgava a fénix lá se ergueu, olhou o coelho e disse:

"-Quem diria Coelho, renascidos os dois na mesma mesa."

O Coelho sorriu, pensando: pois, mas eu venho para comer e tu para ser comido

E, se bem pensou, melhor o fez: comeu a Fénix, com cinzas e tudo!



Diogo Correia
Luís Gomes
Luís Santos
Manuel João Croca
António Tapadinhas


terça-feira, 1 de abril de 2014

Editorial


por Diogo Correia


Embalo de Abril


Os campos e as terras húmidas e Abril entrando no mundo pelo tempo, seu mestre amigo.
Uma borboleta pousa dourada as finas patas pelo rasgo de sol numa flor. O orvalho cintilando pérolas em constantes gotículas de água escorrendo ao ritmo primaveril pela folha de uma rosa.
  Naturalmente Abril tem mais sabor quando a primavera trás um pouco de sol consigo ainda que a chuva dê aquela fragância perfumada a terra molhada fazendo cantar os pássaros, incentivando os insetos depois da nuvem passar e dar lugar ao sol.
 
Manhãs ternas de airosos montes, os malmequeres vislumbram o céu pleno em segredo, o beija-flor amanhece com o dia ainda prematuro. “ São tão joviais estas gerbérias” - diz a abelha de namoro assente.
 Abril repara à sua volta as tardes, frescas, simples, românticas de olhos que se espalham nos canteiros. No pico de seu dia as árvores saúdam o vento em danças de cortesia e a lagarta que sobe a árvore pela vida que tem, carrega em paz  a ponta de uma folha que encontrou no chão.
  O crepúsculo lá longe, de onde a primavera apareceu, chegou ao fim. As folhas vão rompendo dos ramos pela noite que as embala até o dia nascer. De vez em quando a coruja do telheiro ruge ouvindo as estrelas que lhe fazem voar de asas largas num abraço á noite.

Mil águas vão de Abril em punho marchando sobre cravos vermelhos, os homens lavam a roupa suja pelos tanques da cidade, o dia que se levanta conhece as lendas que a noite deixou e as aves da manhã pairam no ar colorindo o céu.


sábado, 12 de outubro de 2013

Cantiga de uma paisagem


Começar novamente
O chilrear animal
Tenho a cabeça doente
E sobre o peito um avental

Correr sob escolta
O bosque noturno
As almas em volta
Da cama onde durmo

Criar fantasia
Prever o futuro
Ao longo do dia
Pensei como um burro

Comigo cantando
O sol que se pôs
A árvore nasceu
E deu fruto: a minha voz

Trago de mim
Um lenço dobrado
Desdobro-o assim
Abraço o meu escarro

Fito a paisagem
Lá longe o farol
Nas asas do mundo
Bebendo sumol

Sou toda a vida
Que me quer presente
Sonhar acordado
É ser consciente

Tudo o que sinto
É mera doença
Tudo o que penso
Dita juiz a sentença


 Diogo Correia


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Divino Palhaço Augusto


Palhaço, sonho de menino.

E tu palhaço que és
Poeta sensível, criador de sonhos
E sábio em dom de palavra.

És aquela criança que brinca e dorme
No berço ao lado de sua mãe.
E perdes na vida como eterno perdedor,
Que necessitas de sorrisos para te manteres vivo.
E é lá, é lá na pista que tu os encontras.

Por isso vai palhaço, vai.
Mostra ao mundo o que sentes em tons de ironia,
E quando atinges o auge começas a voar,
A voar, a voar transcendendo deuses e coros celestes,
Indo para lá da caixa de jóias, que sonhaste
Conter o universo inteiro, dentro de teu quarto.

Por isso vai, vai.
Voando sobre o espaço gozando o mistério,
Quebrando o gelo de neptuno,
Mergulhando nas lavas quentes do sol,
E com um sorriso, sobes as escadas que dão até á lua,
E abraças-a com aquele abraço de ternura de criança
Como só tu sabes dar.

E quando te encotras, voltas ao circo.
Após um espetáculo brilhante
Estás sozinho no camarim a chorar,
Um choro te corrói por dentro
Vendo o mundo ideal que julgavas no berço
E que nunca existiu.

Porque és diferente palhaço,
No dom que tens de fazer rir
Quando no fundo queres chorar,
E quando olhas para o sorriso de uma criança,
Ves-te nela como sendo tu a sorrir para o palhaço.

Olho para a lua e vejo teu rosto triste Augusto,
Secando os olhos de tanto choro e riso,
Levando sempre contigo o eco de mais uma gargalhada.



                                                                                     Diogo Correia


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Mordomo


                                                                      

Ao amigo Manuel João Croca



Habita por si próprio num corpo em efervescência,
 o desejo.
Existindo, para mim, tão único aquele em que a plenitude é:
  "servir".

Servir e servir com todas as ganas para lá das vontades.
Ser servo é ser uma árvore que dá vida, alimento, faz sombra
e ainda serve de consolo a poetas e artistas.

O serviço é o bem quando vem das profundezas
do que há para lá do cosmos, habitando
no homem que o contém luzindo em ouro dentro de si.

Abastecido de razão, e pela ausência de extração,
o projecto de prefuração mineira do espírito e da alma
é renegada pela engenharia mental teimando em não desenvolver.

É urgente voltar atrás, voltar às origens ancestrais,
Montar os puzzles da antiguidade para que o mundo avance.

Servir é conhecer o passado
e elevar o futuro à mais bela forma de plenitude,
para que ele estenda sempre sua passadeira vermelha
em aconchego ao almofadado pulsar
com que embala o coração.


 Diogo Correia