“Hoje dá o melhor de ti em cada ação que tenhas, por mais simples que seja!”

António do Carmo Alfacinha


sábado, 11 de março de 2017

Poemas com Jazz


Canto Cupido

Na boca que te leva a dizer que me amas
Dorme um desejo profundo, que a mim,
Gesticula mudo um sinal de apocalipse
E a terra treme.

No fim os teus cabelos ascenderam os céus
E toda a casa que partilhamos endividará o senhorio.
Nossa ausência, o perfume que deixas,
O gato que morre de fome, os relógios que eu deixo,
Toda nossa louça bordalo pinheiro que nos une aos dois
E teremos de deixar.

Tu prometias quando dançavas com o olhar
Na direção dos meus olhos,
Fitava-los prometendo e prometendo
E continuando a prometer até a íris que te contorna a alma
Derramar em silêncio sobre as pálpebras a emoção contida
Que te escorria ao longo da face.

Lembras-te disso?
E lembras-te quando ouvíamos a música das galáxias por cima de nós?
Nessa noite em que a lua nos disse que o sol nunca deixaria brilhar.
Pois foi nessa mesma noite que o sol pediu a noite em casamento.
A lua, essa mesma lua que ocultava o sol
Para que eu te dissesse baixinho a palavra "Amo-te".

Na nossa casa brilhavam luzes cintilantes
Mas ficou tudo tão escuro.
Será que apaguei o gás? Lembro lá de tal coisa.
Ou foste tu? Consegues lembrar-te?
Impossível, ainda ontem tomaste um banho quente
Enquanto eu fui comprar um tabaco.

Científicos estudos teus detectaram o buraco negro
Em que oráculos meus pressentiram o apocalipse,
O declínio do nosso império deu-se e a terra tremeu.
O teu corpo flutua agora e o meu caminha
Só a memória nos une em direcção ao sol.

Consigo ver os teus olhos na escuridão
Consigo sentir o odor do teu corpo e as fragancias em te banhavas.
Consigo escrever em pormenor todos teus sonhos
Quando declaravas que Copérnico e Galileu estavam errados
E que o nosso amor era o centro do Universo.

E os dois corações estremeciam de repente quando
O carteiro batia á porta dizendo ser correio
E e nos tranquilizávamos
Porque pensava-mos que nos vinham penhorar os sonhos,
Daquilo que cada um de nós sentia e nunca foi capaz de ao outro.

Pois dentro de nossos peitos havia uma guerra humana
Tremenda, insegura, trágica, sanguinária,
Sim, porque a consciência é como um teatro de guerra
Onde se move a artilharia do corpo fazendo recuar infantaria da alma
E em havendo um cessar fogo final tudo volta ao mesmo,
Deixando desnudas as nações que nos unem,
Os pássaros voltam a cantar, o rio a correr, o sol a brilhar e crianças a nascer.

Tu tinhas em teus frágeis dedos o cristal
Daquele serviço de copos que compramos na Boémia.
Ficavam bem na mesa da sala não achas?
Eu ria-me para ti como uma criança enquanto bebia vinho,
Pegava-te nos dedos finos e do teu olhar reprovador
Nascia um sorriso terno e a seguir chamavas me tonto.

Fomos tudo e nada
Onde o tudo e o nada se juntam para que haja vida.
Ao menos um rasto de vida, alguma coisa que justifique
Que o amor entre duas pessoas é necessário para uma vida completa.

Agora já sei, o destino disse me ao ouvido,
Já me provou, só me resta rir e ser alegre.
Um pássaro voa, o vento levante ergue-se e o sol põe-se,
Retribuo te todos os meus sorrisos, a vida flutua,
E o mundo não dá por nada.

Málaga 2017

P.S.: Para jazz clique no nome do autor

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