"Não defendo este partido, nem o outro; se ambos diferem à superfície e podem ararastar opiniões, aprofundemos nós um pouco mais e olhemos o substrato sobre que repousa a variedade; o mundo das formas levanta oposições que se desfazem à luz do entendimento (...)"
Agostinho da Silva, O Terceiro Caminho, Diário de Alcestes (1945), in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 216-217.

sábado, 11 de março de 2017

Poemas com Jazz


Canto Cupido

Na boca que te leva a dizer que me amas
Dorme um desejo profundo, que a mim,
Gesticula mudo um sinal de apocalipse
E a terra treme.

No fim os teus cabelos ascenderam os céus
E toda a casa que partilhamos endividará o senhorio.
Nossa ausência, o perfume que deixas,
O gato que morre de fome, os relógios que eu deixo,
Toda nossa louça bordalo pinheiro que nos une aos dois
E teremos de deixar.

Tu prometias quando dançavas com o olhar
Na direção dos meus olhos,
Fitava-los prometendo e prometendo
E continuando a prometer até a íris que te contorna a alma
Derramar em silêncio sobre as pálpebras a emoção contida
Que te escorria ao longo da face.

Lembras-te disso?
E lembras-te quando ouvíamos a música das galáxias por cima de nós?
Nessa noite em que a lua nos disse que o sol nunca deixaria brilhar.
Pois foi nessa mesma noite que o sol pediu a noite em casamento.
A lua, essa mesma lua que ocultava o sol
Para que eu te dissesse baixinho a palavra "Amo-te".

Na nossa casa brilhavam luzes cintilantes
Mas ficou tudo tão escuro.
Será que apaguei o gás? Lembro lá de tal coisa.
Ou foste tu? Consegues lembrar-te?
Impossível, ainda ontem tomaste um banho quente
Enquanto eu fui comprar um tabaco.

Científicos estudos teus detectaram o buraco negro
Em que oráculos meus pressentiram o apocalipse,
O declínio do nosso império deu-se e a terra tremeu.
O teu corpo flutua agora e o meu caminha
Só a memória nos une em direcção ao sol.

Consigo ver os teus olhos na escuridão
Consigo sentir o odor do teu corpo e as fragancias em te banhavas.
Consigo escrever em pormenor todos teus sonhos
Quando declaravas que Copérnico e Galileu estavam errados
E que o nosso amor era o centro do Universo.

E os dois corações estremeciam de repente quando
O carteiro batia á porta dizendo ser correio
E e nos tranquilizávamos
Porque pensava-mos que nos vinham penhorar os sonhos,
Daquilo que cada um de nós sentia e nunca foi capaz de ao outro.

Pois dentro de nossos peitos havia uma guerra humana
Tremenda, insegura, trágica, sanguinária,
Sim, porque a consciência é como um teatro de guerra
Onde se move a artilharia do corpo fazendo recuar infantaria da alma
E em havendo um cessar fogo final tudo volta ao mesmo,
Deixando desnudas as nações que nos unem,
Os pássaros voltam a cantar, o rio a correr, o sol a brilhar e crianças a nascer.

Tu tinhas em teus frágeis dedos o cristal
Daquele serviço de copos que compramos na Boémia.
Ficavam bem na mesa da sala não achas?
Eu ria-me para ti como uma criança enquanto bebia vinho,
Pegava-te nos dedos finos e do teu olhar reprovador
Nascia um sorriso terno e a seguir chamavas me tonto.

Fomos tudo e nada
Onde o tudo e o nada se juntam para que haja vida.
Ao menos um rasto de vida, alguma coisa que justifique
Que o amor entre duas pessoas é necessário para uma vida completa.

Agora já sei, o destino disse me ao ouvido,
Já me provou, só me resta rir e ser alegre.
Um pássaro voa, o vento levante ergue-se e o sol põe-se,
Retribuo te todos os meus sorrisos, a vida flutua,
E o mundo não dá por nada.

Málaga 2017

P.S.: Para jazz clique no nome do autor

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