Mostrar mensagens com a etiqueta Questões de Género. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Questões de Género. Mostrar todas as mensagens

sábado, 2 de março de 2019

Cromossoma XX


As fases da vida da mulher, de Gustav Klimt

por Ana Camarra

Pronto um cromossoma é uma coisa pequena, mas faz toda a diferença, neste caso duplo X
determina o género feminino.

Designado depois de muitas datas diferentes em alguns países, a ONU estabeleceu o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher.

Haverá quem seja indiferente à data, quem a veja como mais uma data “comercial” onde é suposto oferecer algo às mulheres, quem a use como pretexto para um convívio entre amigas e até quem ache que nem sequer faz sentido.

Sobre a origem da data há várias justificações: uma grande manifestação sufragista em Nova
Iorque em 1908, onde as mulheres reclamavam direito a voto; a primeira Conferência Internacional de Mulheres em Copenhaga em 1910, onde Clara Zetkin propôs a criação do dia ou o brutal incendio numa fábrica têxtil, também em Nova Iorque, em 1911, onde as operárias levavam a cabo uma greve onde revindicavam redução de horário de trabalho, o incêndio terá tido origem num acto criminoso que pretendia que as grevistas desocupassem as instalações, morreram 146 trabalhadores, 125 eram mulheres.

Seja como for a verdade é que as mulheres, metade da humanidade (isto sem ligar aos números) continuam a ser descriminadas por terem nascido com o cromossoma XX, exemplos não faltam.

Mesmo no século XXI, mesmo no “mundo ocidental”, as mulheres continuam a ganhar menos do que os homens, só na União Europeia essa diferença é de 33%. As mulheres apesar de terem cada vez mais habilitações, continuam a ocupar menos cargos de chefia, de direção ou de governação, a serem mais atingidas pela precariedade laboral, a correrem maior risco de pobreza, a assumir o “grosso” das tarefas domésticas, a serem mais alvo de assédio sexual e de violência doméstica e caramba…isto cansa.

Mas isto é “por cá”, porque em muitas partes do globo as mulheres são encaradas social e até legalmente como seres inferiores, sem direito a decidir a sua vida, sem acesso a educação, à propriedade, a escolher o parceiro limitando-se a passar de pai para marido em acordos onde não lhes é dada opção.

Há zonas onde ainda a transição para a idade adulta é assinalada por uma excisão, uma mutilação que as vai impedir de ter prazer sexual, claro que feita sem condições sanitárias e que podem morrer em consequência disso.

Mas ainda há mais: são as maiores vítimas de trafico humano, são também duplamente vítimas em cenários de guerra onde para além de todo o trauma, muitas vezes são violadas.

E olhando para o passado não muito distante e apenas por cá, Portugal, até ao 25 de Abril de 1974 para além da separação das escolas por géneros, de uma mulher não obter passaporte, tirar a carta, abrir uma conta bancária sem autorização de pai ou marido, houve mais umas coisas, o estigma da mãe solteira ou a proibição de casamento para enfermeiras e professoras.

Tudo isto já chegava para que existisse uma data a assinalar esta coisa de nascermos com dois cromossomas X.

Tudo o que mudou ainda não é por todo o lado e muito pior que tudo aguarda a mudança de mentalidades, porque hoje as mulheres continuam socialmente a ser julgadas por…serem mulheres!

Num padrão “moderno e ocidental” espera-se quase tudo das mulheres: que tenham sucesso profissional, que sejam independentes, que sejam excelentes mães, fadas do lar, boas cozinheiras, boas gestoras domésticas, mantenham a forma física a elegância e já agora que sejam sexualmente activas… mas em exclusivo e já agora não tanto assim que envergonhem o parceiro!

Às meninas continuam-se a dar bonecas, se uma mulher não se cuida provavelmente é lésbica, se é infiel é uma cabra, se é promíscua é um palavrão dos grossos, se é homossexual é porque nunca teve um homem como deve de ser.

Recentemente assistimos a sentenças judiciais que arrepiam, a da mulher que foi assassinada de forma planeada pelo ex-marido e ex-amante, o da mulher que foi à discoteca bebeu demais e caiu inconsciente e fui violada, não uma mas várias vezes, não por um, mas por dois homens, considerou-se que não era grave por ser “tentador” (não consigo imaginar coisa tão pouco tentadora como um homem inconsciente caído num chão de uma casa de banho de local público), a do agressor a quem é retirada a pulseira electrónica porque rebentar um tímpano à pancada não é grave e…tantas, demais!

Só me ocorre outra sentença que me indignou, no final do séc XX, duas turistas que pediam boleia, jovens, de calções, foram violadas, fizeram queixa, recorreram e o colectivo de juízes no acórdão final diz qualquer coisa como ser expectável a agressão que sofreram dado andarem naquela figura na “coutada do macho ibérico”.

Por macho ibérico imagino algo como um javali, mais feio, que os javalis são giros, baboso e
façanhudo.

È claro que há mulheres muito más, e homens vitimas de violência doméstica, mas a verdade é que persistem estas coisas, não é difícil a desconfiança face a uma mulher bonita que ascende no trabalho, solta-se logo o boato que conseguiu trocando favores sexuais, também não é difícil encontrar uma mulher que não tenha tido um episódio desagradável de assédio sexual ou tentativa de violação.

Mas nem santas nem putas.

Portanto ainda não somos iguais nesta balança da humanidade, ainda faz sentido assinalar este dia.

Pensem por um momento em todas as mulheres da vossa vida, a mãe, a avó, as tias, irmãs, mulheres, amigas, filhas, a que lhes serve o café, a enfermeira do hospital, a que varre a rua, a que ensina, a que limpa as escadas, a casa ou o escritório, as que estiveram sempre e as que passaram e imaginem o mundo sem elas, sem nós, mulheres.

sábado, 11 de janeiro de 2014

UMA MULHER ÁRABE COM ROSTO PRÓPRIO - MAJAM MAHMUD


Urge uma Revolução provocada pela Mulher

Majam Mahmud, que antes preferia ser rapaz porque como mulher não via futuro digno, está orgulhosa do seu género. É uma rapper egípcia de 18 anos e de lenço na cabeça que não tem papas na língua quando fala. Não lhe interessa a política mas a discriminação. Na sua música lematiza temas tabu de uma sociedade medieval. Chama as coisas pelo nome sem os rodeios do oportuno. Enfrenta os problemas da nação; fala sem medo da discriminação da mulher e do assédio sexual na sociedade egípcia. O Ocidente mais interessado na guerra económica do que na justiça individual e social fecha os olhos da guerra dos homens contra as mulheres especialmente nas sociedades da Índia e da África.

Para quando a revolução da Mulher?

Segundo uma pesquisa das Nações Unidas 99,3% das mulheres egípcias indicam terem sido sexualmente molestadas.

Para Majam Mahmud o problema da discriminação sexual no Egipto é intocável porque é declarado tabu e como tal não precisa de leis que condenem o assédio sexual. Quem sofre as consequências cometidas pelos agressores não são os infratores mas as mulheres que depois têm de assumir o desprezo social. Os homens querem que as mulheres sejam graciosas e atractivas mas sem chamar a atenção. A solidariedade masculina não quer ser questionada, nem quer sofrer a concorrência entre homens e por isso a mulher terá de ser a eterna vítima, a culpada do desejo masculino. Este é lei e por isso não se pode questionar a si mesmo. Neste contexto, ser mulher livre é uma provocação. As mulheres calam-se e nas sombras do seu silêncio continua a fermentar a arrogância e a violência masculina. O problema é que o sistema não se muda, quem se muda são as pessoas e só quando estas se mudam, só então se muda o sistema.
 
Numa altura em que ideias revolucionárias já germinam debaixo de cabeças com lenço, há mais motivos de esperança do que qualquer pretensa primavera árabe na sociedade norte-africana.

Majam Mahmud pergunta numa entrevista com o Speigel: “Que se pode esperar de uma sociedade onde o maior objectivo para uma mulher é casar?” Logo a seguir desabafa “Eu realmente acredito que a próxima revolução será uma revolução da mulher.” O problema da sociedade muçulmana mais que um problema religioso é um problema de homens e de cultura árabe cimentada no Corão e na sharia.

A verdadeira revolução está na transformação do espírito. O mundo árabe cairá um dia num caos se não se mudar, mas a mudança só as mulheres a podem fazer através de uma revolução doce ou também agressiva, à maneira de homem. Majam Mahmud é um exemplo muito necessário, uma luz a brilhar e mais que um grito de emancipação é uma voz modelo que grita por libertação do chauvinismo masculino com a sua consequente violação. A música é um dos melhores instrumentos para se transmitir uma revolução.

Deveria haver direito a asilo mais liberal para as mulheres perseguidas por razões de cultura ou religião. Se observamos as mulheres vítimas do exílio político observa-se, porém, que trazendo os homens consigo não há possibilidade de libertação individual.
É um facto sociológico que, de uma maneira geral, os homens não querem mudar-se preferindo continuar a viver ao abrigo das leis naturais que perpetuam o domínio do mais forte. A cultura árabe, fruto de uma geografia agreste, continua na elaborar as suas leis positivas com base na cópia da lei natural. (De não descurar que a cultura ocidental tem outras formas de discriminação, muito embora mais suave).

Aqui temos a ver com uma cultura misógina bárbara onde, sob a capa do islão, se dá continuidade à discriminação das antigas sociedades de clãs primitivos. (Temos porém que estar atentos na avaliação porque muito do que acontece sob a capa das religiões são costumes ancestrais nómadas da cultura árabe.)

Se se pretende um desenvolvimento são e sadio a discussão terá de ser feita em termos de sociologia e de antropologia. De facto a velha cultura egípcia tem elementos muito mais desenvolvidos do que lhes foi posteriormente imposto com a hegemonia da cultura bérbere árabe. Uma discussão fora destes moldes corre perigo de, sem notar, levar a água ao próprio moinho! O que está aqui em causa é a relação e a integração da feminilidade e da masculinidade na pessoa independentemente do ser homem ou mulher!

Há quem critique Majam Mahmud por trazer lenço na cabeça, um símbolo da repressão; estes esquecem porém que ela pode assim alcançar melhor um público conservador de mulheres que de outro modo não atingiria. Também há que estar-se atento na luta da emancipação para se não cair em movimentos emancipatórios baseados em princípios masculinos, como por vezes acontece no ocidente.

Uma sociedade patriarcalista que segue unilateralmente os vestígios de Abraão só poderá ser mudada com a mutação progressiva da mulher e só esta poderá constituir a base de uma verdadeira revolução.


António da Cunha Duarte Justo