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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O sol brota infatigavelmente


O sol brota infatigavelmente
Fazendo-se cumprir as vontades 
Estabelecidas pela soberana Tropical.

Uma plácida resplandecência 
Desperta a triste feliz alvorada;
Ao ritmo de cantoria dos tafuis[i]
É embelezado o constante prelúdio
Do divino quotidiano.

Lá no cume, Terra Mãe
Guardião-Mor [ii]respira...
Sob a valentia do Além[iii], dos Presentes.

O vento suspira exaustivamente
Ou,
Conjuga-se pelo bel-prazer do caminhar dos avós[iv];
Um clássico assobiar inquieto!
Cumprimentando, suavemente,
As colinas, as florestas
As montanhas e as donzelas bocas do mar[v],
Ao repousar,
Culmina-se sobre acidentados escamas do Avô[vi].
Entre os escamosos, 
Fluem as senhoras ribanceiras
Imperando ao timbre de babadok[vii].

Uma correria ao rubro!

Vibrando invictamente
Com destino a braços dos majestosos 
Tasi-Feto e Tasi-Mane[viii];

Lá vem o novembro...
Pelas ordens dos beialas[ix] 
Levanta-se atrevidamente o cheiro à terra
Em sintonia com o bailar dos pingos torrenciais.
Com ai-suak[x], 
O velho maubere
Apunhala o rosto do chão
Desencadeando, assim,
A primordial cerimónia do cultivar de esperança.

O março se avizinha...
A temporada do sequencial 
Meticuloso ritual de obrigadu wa´in[xi]
- Ao Além, aos Sagrados, ao Céu, à Terra!

Dito e feito,
Governa-se
O desenfeitiçar do sagrado impiedoso[xii]!

Ao inteirar o ciclo
Invoca-se a presença agressiva de agosto
Onde a brisa quente despe o verde chão
As poeiras se erguem vertiginosamente
Clamando na atmosfera mauberense[xiii],
O existir do meu Timor-Lorosa´e.

Fertinal Alves


[i] Tafuis: Galos selvagens, muito comun no sul da ásia (nome cientifico: Gallus lafayettii)
[ii] Guardiâo Mor: Ramelau (relevo mais alto de Timor), a crença nativa atribui ao monte de ramelau como o guardião da ilha, o elo da ligação entre os vivos e os mortos.
[iii] Alem: Antepassados, a crença nativa timorense assume culto aos antepassados
[iv] Caminhar dos avos: A cultura timorense considera o vento como uma entidade, o sopro do vento representa a presença dos antepassados
[v] Bocas do mar: Traduçao literal de Taci-ibun, praia, em português.
[vi] Acidentados escamas do avô: De acordo com a lenda tradicional, a ilha tem origem de um crocodilo, sendo então, acidentados escamas expressam as montanhas
[vii] Babadok: instrumento musical de Timor
[viii] Tasi-Feto e Tasi-Mane: Mar-Mulher e Mar-Homem, respetivamente. Em timor, o mar que banha o norte da ilha é chamado de Tasi-Feto, sul, Tasi-Mane.
[ix] Beialas: Antepassados, segundo à tradição nativa, no período que corresponde à transição da estação de seca para a de chuva, faz-se rituais que invocam à natureza e aos antepassados, com o obejetivo de os puderem liberar a chuva
[x] Ai-suak: um utensilio tradicional feito de ferro que permite cavar ligeiros buracos para cultivar o milho
[xi] Obrigadu Wa´in: Muito obrigado (tradução literal), no poema, tal representa o ritual de ação de graça
[xii] O desenfeitiçar do sagrado impiedoso: Na época de chuva, é proibido qualquer colheita antes do ritual de ação de graça, qualquer infração sujeita-se ao castigo divino, como por exemplo, ser atigido por um raio, devorado por um crocodilo, entre oitros.
[xiii] Mauberense: deriva de maubere, o termo que designa o povo timorense

sábado, 5 de junho de 2010

TIMOR - Pedido de Professora

Caros amigos,

Alguns sabem e outros nem por isso (e assim aqui vai a notícia) mas estou em Timor a dar aulas na UNTL (Universidade Nacional de Timor Leste) no âmbito de uma colaboração com a ESE do Porto.
Aquilo que vos venho pedir é o seguinte: livros. Não vou dar a grande conversa que é para montar uma biblioteca ou seja o que for, porque não é. O que se passa é o seguinte... não sei muito bem como funcionam as instituições, nem fui mandatada para angariar seja o que for, mas o que é certo é que sou (somos!) muitas vezes abordados na rua por pessoas que desejariam aprender português mas não possuem um livro
sequer e vão pedindo, o que é muito bom.
O que é certo é que a minha biblioteca pessoal não suportaria tanta pressão e nem eu, nos míseros 50 quilos a que tive direito na viagem,pude trazer grande coisa para além dos livros de trabalho de que necessito.

COMO MANDAR?
Basta dirigirem-se aos correios (CTT) e mandarem uma encomenda tarifa económica para Timor (insistam porque nem todos os funcionários conhecem este tarifário!) e mandam a coisa por 2,49 €. Claro que a encomenda não pode exceder os 2 quilos para poder ser enviada por este preço.
Devem enviar as encomendas em meu nome (Joana Alves dos Santos) para:

Embaixada de Portugal em Díli
Av. Presidente Nicolau Lobato
Edifício ACAIT
Díli - TIMOR LESTE

E O QUE MANDAR?
Mandem por favor livros de ficção, romances, novela, ensaio, livros infantis etc, etc. Evitem gramáticas e manuais escolares. Dicionários,mesmo que um pouquinho desatualizados são bem vindos. Este critério é meu e explico porquê. Alguns timorenses (estudantes e não só) são um bocado fixados em aprender gramática mas ainda não têm os "skills" básicos de comunicação. Parece-me melhor ideia que possam ler outras coisas, deixar-se apaixonar um bocadinho pelas histórias mesmo que não
entendam as palavras todas, do que andarem feitos tolinhos a marrar manuais e gramáticas. O caso dos dicionários é outro. Um aluno, por exemplo, usa um dicionário português-inglês para tentar adivinhar o significado das palavras. Como o inglês dele tb não é grande charuto imaginam como é a coisa.

Bom, espero ter vendido bem o peixe do povo timorense. Falam pouco e mal mas na sua grande maioria manifesta simpatia pela língua portuguesa. De qualquer forma isto não vai lá (muito sinceramente) com umas largas dezenas de professores portugueses por cá. É preciso ter a língua a circular em vários meios e suportes. Espero que respondam ao meu apelo!! Eu por cá andarei sempre com um livrito na carteira para
alguém que peça!