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sexta-feira, 13 de julho de 2018

Loureiro



Envio mais uma croniqueta botânica e informo que vou entrar de férias. As aulas de fitoterapia já terminaram, quer na Escola Comunitária de Alcochete, quer na Universidade Intergeracional de Benfica (UNISBEN).
Este texto que submeto à vossa apreciação para que critiquem e proponham eventuais alterações tendentes à sua melhoria, irá protagonizar a primeira lição a seguir às férias.
Obrigado pela vossa atenção e condescendência.

Miguel Boieiro

É lendária a fama do louro que continua a adubar histórias adoráveis. Desde muito jovem leio avidamente as séries de banda desenhada de “Astérix, o Gaulês”. Dá-me mais gozo lê-las na língua original (francês) mas elas estão traduzidas em muitos idiomas e há mesmo, pelo menos uma das aventuras, redigida em esperanto. No “Les lauriers de César”, o nosso herói ficou encarregado de ir a Roma surripiar a coroa de louros do imperador para perfumar um “ragoût”, ou seja, um atrativo guisado, confecionado na aldeia dos irredutíveis gauleses. Chega! Não é agora o momento de contar as peripécias da saborosa história.

O Laurus nobilis, arbusto (ou árvore) perene da família das Lauraceae é típico da região mediterrânica, mas chegou a povoar densas florestas em todo o continente europeu antes do arrefecimento global que se verificou há umas dezenas de milhares de anos. Os loureiros de crescimento espontâneo que ocorrem na cordilheira da Arrábida constituem uma relíquia desses tempos primitivos.

O fascínio pelo loureiro remonta a recuadas eras. Envolvida em mistérios, superstições e premonições esta laurácea tem acentuado relevo nos livros “Plantas Mágicas e Botânica Oculta” de Sédir e de Paracelso. Na Grécia, a árvore era consagrada a Apolo e integrava uma curiosa forma de magia adivinhatória chamada dafnomancia, a qual tinha a ver com a mastigação de folhas tenras praticada pelas pitonisas e sibilas e também pela interpretação do crepitar e da fumaça ocasionados no cerimonial da queima das ramagens. O volumoso “Diccionario de Plantas Curativas de la Península Ibérica” de Enric Balasch e Yolanda Ruíz dedica todo um capítulo à botânica oculta e à mitologia clássica do “laurel común”.

Sendo uma planta ornamental de folhas brilhantes enraizou-se o costume de coroar os heróis vencedores das batalhas ou das pugnas desportivas com folhas de louro. Esta tradição que se iniciou na antiga Grécia, transitou depois para o império romano e daí para todo o mundo significando sucesso. Várias línguas neolatinas incluíram no seu vocabulário corrente palavras como laureado ou bacharel (do latim baccalaureatus).

A planta é dióica, o que significa que as flores masculinas e as femininas estão em pés separados. Propaga-se com facilidade, quer por semente, quer por estacaria, dá-se bem em quaisquer solos, suporta razoavelmente as podas e só não gosta de geadas As suas folhas são glabras, coriáceas, brilhantes, aromáticas, alternas e lanceoladas. As flores são amareladas com cerca de 1 cm de diâmetro. Depois de polinizadas geram uma baga que, quando madura, é negra e reluzente, semelhante às azeitonas pelo tamanho e pela cor. O tronco é direito, tem casca acinzentada, formando com as ramagens uma copa densa.

As folhas do louro contêm provitamina A, vitaminas C, D e do complexo B, ferro, cálcio, potássio, magnésio, fósforo, tanino, óleo essencial mas também alguns alcaloides que, em excesso, podem ser tóxicos. São conhecidas as suas propriedades como antissépticas, anti-inflamatórias, estimulantes, antibacterianas, sedativas e sudoríficas. Os frutos possuem até 30% de ácidos gordos.
Plínio, o Velho, já indicava o louro para paralisia, espasmos, ciática, dores de cabeça, catarros, infeções do aparelho auditivo e reumatismo.

Investigações modernas referem os seus benéficos efeitos em diabetes tipo 2 e colesterol, já que reduz os níveis da glicose e diminui os triglicéridos do sangue e ainda em artrites, problemas respiratórios, doenças cardiovasculares, envelhecimento precoce e cancro porque restringe o crescimento das células cancerígenas.

A “Science Alert”, via internet, recomenda o seguinte “chá”: Deitar uma chávena de água fervente sobre 3 g de folhas de louro. Deixar em repouso de 10 a 15 minutos. Beber em jejum diariamente mas interromper por uma semana ao fim de 20 dias.

O óleo extraído das bagas negras que em pasta se chama “manteiga de loureiro” abranda, através de fricções, as dores musculares de pessoas e animais. Entra também em formulações dermatológicas para debelar micoses, psoríase e pediculose.

Na cozinha dos países mediterrânicos as folhas de louro são omnipresentes na aromatização de guisados e refogados. Essa prática condimentar alastrou já à gastronomia de todo o mundo e há mesmo quem seque e pulverize as folhas para as integrar nos cozinhados. Consta-se que os beduínos do norte de África utilizam as mesmas folhas para reforçar o paladar do café.

O loureiro é muito adequado para a topiária, ou seja a arte de fazer esculturas vegetais. É também ideal para a formação de sebes na divisão de propriedades com a vantagem do seu odor repelir os insetos predadores.

A madeira do loureiro é duríssima e pode ser utilizada nos trabalhos de entalhar em marcenaria.
O famoso sabão de Alepo (cidade síria totalmente destroçada pela infame guerra) era tradicionalmente fabricado com óleo das “azeitonas” do loureiro.

Há ainda que aludir aos grelhados madeirenses em pau de louro que, dizem os entendidos, dá um gosto especial à carne. Todavia, esses paus de louro provêm duma variedade afim, o Laurus azorica, endémica da região macaronésica (Açores, Madeira e Canárias).

Devo igualmente referenciar outras espécies abundantes em Portugal, como o loureiro-rosa (Nerium oleander) e o loureiro-cerejo (Prunus laurocerasus), altamente venenosas. É preciso não as confundir porque as folhas são parecidas com as do Laurus nobilis, mas o odor que emanam é bem diferente. Cuidado pois!

Finalmente, acentuo que as folhas de louro devem ser usadas com moderação, a sua ingestão em quantidade é tóxica e podem causar dermatites de contacto em pessoas mais sensíveis.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Cacaueiro


"Se entre pedras pode haver uma flor, porque é que entre nós não pode haver amor?" Surripiei esta romântica frase  de uma ervanária de Viana do Castelo aquando da estada no Hotel da Fábrica do Chocolate e visita ao respetivo museu.
O cacaueiro vai ser o protagonista da próxima lição de fitoterapia.

Miguel Boieiro


Depois de ter andado por várias roças de cacaueiros na ilha de São Tomé, visitei na Tasmânia (Austrália) a fábrica de chocolates da Cadbury e, mais tarde, o magnífico Museu do Chocolate da cidade de Colónia (Alemanha). Modéstia à parte, este era já um currículo chocolateiro invejável, mas faltava ainda conhecer a Rota do Chocolate organizada pelo Cacau Clube de Portugal, cujo itinerário abrange Aveiro, Porto e Viana do Castelo. Esta persistente “cacaufilia” foi estimulada pela tertúlia “Do Cacau para o Chocolate”, realizada em março na Associação de Cozinheiros Profissionais de Portugal, brilhantemente dirigida pelo professor gastrónomo Virgílio Gomes e pela leitura da obra, que vivamente recomendo, “Um Ano de Chocolate”, de Odete Estêvão.

Na Rota do Chocolate há a destacar a visita à “Feitoria do Cacao” em Aveiro, a pernoita no Hotel Fábrica do Chocolate, integrando a visita ao respetivo museu interativo na antiga fábrica de chocolates vianense, em Viana do Castelo e finalmente o passeio pelas tradicionais chocolatarias do Porto: “Equador”, “Maria Chocolate” e “Chocolataria das Flores”. Não é possível mencionar neste singelo escrito os riquíssimos pormenores, sentires, saberes e sabores que o cronista fruiu, mas deu para refletir e aprender. Condensa-se, a seguir, numa síntese imperfeita, de formulação obviamente discutível, algo do muito que foi apreendido.

O cacaueiro, ou seja, o Theobroma cacao é uma pequena árvore que geralmente não excede os 6 metros de altura, existente apenas nas regiões tropicais, mais propriamente numa faixa que raramente ultrapassa a latitude de 20 graus acima e 20 graus abaixo da linha do equador. Desenvolve-se em solos férteis com pluviosidade elevada, temperaturas que variam entre os 18 e os 32 graus centígrados e à sombra de árvores de maior porte.

Os botânicos incluíram o cacaueiro na família das Malvaceae. A planta é perene, estando em flor e frutificando durante todo o ano. É uma espécie caudiflora, ou seja, as flores e os frutos surgem ao longo do tronco principal e nos ramos adjacentes. As folhas são grandes, pecioladas, elípticas ou oblongas e alternas. As flores surgem aos cachos, muito pequenas, esbranquiçadas, em forma de estrela. Os frutos são carnosos e oblongos, cuja cor que, contudo, não indica o estado de maturação, vai do amarelo ao vermelho e quando secos passam a castanho-escuro. No seu interior, as sementes de cacau (30 a 40 por fruto) encontram-se encapsuladas numa polpa branca agridoce que serve para preparar uma excelente bebida refrescante, como a que nos foi dada a provar à chegada ao Hotel Fábrica do Chocolate.

As civilizações pré-colombianas desde há 1500 anos a.C. já utilizavam uma bebida amarga confecionada com as sementes do cacau, a que chamavam tchocolat, considerada estimulante e afrodisíaca. Diz-se que o imperador azteca Montezuma bebia, por dia, 50 malgas dessa bebida para aumentar o seu vigor. Acrescente-se que Theobroma se decompõe em theo (deus) e broma (alimento), logo, “alimento dos deuses”. O seu valor era tal que chegavam a utilizar as sementes como moeda de troca.

Os espanhóis trouxeram para a Europa essa bebida divina a que se adicionou açúcar, frutas e especiarias como a baunilha, entre outras. A massa do cacau originou a tablete de chocolate. A junção de leite em pó foi uma invenção de Henri Nestlé que teve enorme sucesso e o chocolate, finalmente, universalizou-se.

A maturação dos frutos demora, em regra, 5 a 6 meses. A colheita é feita manualmente e os frutos são esventrados para retirar as sementes, grãos, castanhas, ou favas, como também são chamadas. Dá-se depois a fermentação e a secagem. Nas respetivas fábricas do chocolate procede-se à torrefação, à retirada da casca, à moagem para obter a pasta de cacau que contém cerca de 50% de gordura (manteiga de cacau), ao envelhecimento, à conchagem, à temperagem e à moldagem. Bem, o processo é complexo e este escriba não dispõe de conhecimentos suficientes para detalhá-lo. Quem quiser saber mais visite, por favor, a Feitoria em Aveiro e o Museu em Viana.

O cacau proporciona um sem número de especialidades gastronómicas bem mencionadas no admirável livro de Odete Estêvão. A manteiga de cacau que derrete à temperatura do corpo humano (36 graus centígrados) é usada em medicina e em cosmética. O cacau serve para confecionar batons, champôs, velas, sabonetes, cervejas, sorvetes, geleias …

Ninguém é alérgico ao cacau, pelo contrário. As alergias que porventura poderão surgir são devidas, ou ao leite, ou à lecitina de soja, ou ao açúcar ou a outras incorporações adicionadas nos chocolates.
O cacau é muito rico em antioxidantes e contém centenas de compostos úteis para a saúde, entre os quais, teobromina, cafeína, cálcio, cobre, ferro, magnésio, manganês, potássio, zinco, vitaminas B, C, E e provitamina A. O chocolate negro (com mais de 70% de cacau e sem açúcar) é um superalimento com as seguintes propriedades no que respeita à saúde: antidepressivo, estimulante da serotonina/cérebro, preventivo das doenças degenerativas, diminui o risco de enfarte, melhora a circulação, combate as doenças intestinais, aumenta a sensibilidade à insulina, baixa o colesterol, possui ação anti-inflamatória, fornece energia e desperta o humor e a boa disposição.

Chega?

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Erva-de-são-roberto



Está no tempo propício para colher a erva-de-são-roberto!

por Miguel Boieiro

Quem fervilha nos meios urbanos, em atividade intensa e desgastante, precisa regularmente de visitar a natureza para a conhecer e desfrutar das suas benesses. Ir ao campo ou à praia, para além de constituir um passeio desintoxicante, se soubermos evitar os arreliadores “engarrafamentos”, é uma ocasião soberana para descansar a mente e apurar os nossos dotes inatos de observação. É também uma boa oportunidade para se receber uma admirável lição de lógica – a lógica da natureza, onde tudo se encadeia harmoniosamente.

Vem isto, a propósito, dos milhares e milhares de citadinos que, durante todo ano, frequentam o extenso areal que vai da Costa da Caparica à Fonte da Telha. Cremos que toda a gente se dá conta do imenso acacial que antecede a duna primária, mas quantos reparam na complexa sociologia vegetal que se desenvolve por debaixo dos arbustos? Quantos conhecem essa utilíssima planta que dá pelo nome de erva-de-são-roberto? E, no entanto, essa planta medicinal medra aí, na semi-penumbra, em doses industriais que quase daria para abastecer o mundo. O facto é de que muitas pessoas usam o “chá”, comprando a erva seca nas ervanárias, mas desconhecem que a respetiva planta vegeta à nossa volta com o seu odor inconfundível e aparência muito própria que não escapa ao bom observador.

Vamos então detalhar o Geranium robertianum L, da família das Geraniáceas, uma das minhas plantinhas preferidas.

Trata-se de uma delicada erva selvagem que pode atingir 40 cm de altura. Possui caules parcialmente avermelhados e algo peludos, e folhas alternas, pentagonais muito recortadas, de pecíolo longo, cuja forma e tamanho fazem lembrar a salsa. As flores possuem tons rosa-violáceos. As sementes formam cinco carpelos com extremidades ponteagudas que lembram o bico de um grou. Por isso, no Brasil, também é conhecida por “bico-de-grou”. Os caules, muito frágeis, são mais avermelhados junto à raiz e possuem intumescências nos nós.

A erva-de-são-roberto tem o seu habitat nos terrenos húmidos e baldios, em lugares sombrios, por todo o país. É muito frequente nas matas, onde alastra em grandes extensões.

A planta deve ser colhida logo que se encontra em flor. Deve-se evitar apanhá-la quando existe humidade, dada à sua textura muito tenra que ocasiona rápida deterioração. Pela mesma razão, a secagem deve fazer-se, com cuidado, ao abrigo do sol e em lugares secos.

Finalmente, para que serve a erva-de-são-roberto? Pois, para um nunca mais acabar de moléstias: doenças intestinais, como colites, prisão do ventre e outras, úlceras de estômago e do aparelho digestivo em geral, dores de dentes, feridas, doenças da pele, anginas, diabetes, edemas, hemorragias, infeções oculares, e nefrites. Há até quem a recomende para o tratamento de doenças cancerosas.

Contém princípios ativos à base de tanino, óleo essencial, substância amarga, ácidos orgânicos e vitamina C.

Principais propriedades: adstringente, anti-espasmódica, diurética, hemostática, tónica, vulnerária, etc.

Utiliza-se tradicionalmente a infusão, bastando 15 gramas por litro de água, dispensando-se a fervura demorada. O reputado Dr. Indiveri Colucci costumava receitar a erva fresca finamente cortada e misturada com gema de ovo, tomando o doente esta mistura em jejum. No caso de não se conseguir a planta em verde, deve seguir-se o mesmo método com a planta seca pulverizada.

Podemos também utilizá-la sob a forma de compressas, lavagens exteriores, bochechos, em pó e em essência.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Arroz



por Miguel Boieiro

Observo sempre com muita curiosidade a vegetação das terras por onde deambulo nas minhas viagens. Depois escolho uma das plantas encontradas, por uma questão de mera simpatia ou por a julgar mais significativa, para ser o alvo das minhas investigações botânicas.

Ora, estando mais de um mês no sul da China (ilha Hainan), qual foi a planta que aí encontrei mais abundante e representativa? Já calculam! Foi a do arroz, cereal que é a base da alimentação de 1400 milhões de chineses e de mais de metade da população mundial.

 O arroz sempre me apaixonou e tenho para com ele um carinho e uma afinidade que vêm dos tempos de menino. O meu pai, embora analfabeto, concentrava um conjunto de saberes ancestrais e misteriosos que recebeu oralmente dos antepassados. Um dia, já perto do Natal, que para ele nada tinha a ver com o consumismo da festa da cristandade, trouxe da Barroca d’Alva umas sementinhas castanhas que colocou num pires com alguma água. Curioso, como sempre fui, todos os dias ia ver as sementes e acompanhei radiante a sua rápida germinação. Nasceu uma pequena seara de um verde tão bonito e mimoso, como jamais vira. E aí logo me dei conta de que estava perante algo imensamente mais sagrado do que os “meninos-jesuses” de todo o mundo, uma vez que “pais-natais” ainda não havia naqueles idos (que me desculpem os crentes mais radicais).

A sensação do arroz como planta sagrada, tive-a, de novo, na China profunda, ao ver as searas amorosamente cuidadas e enquanto ia comendo arroz três vezes por dia durante um largo mês. Definitivamente, fiquei fã do arroz.

Há meia dúzia de anos comprei um livro que descrevia, tim-tim por tim-tim, este afamado comestível, terminando com dezenas de receitas. Emprestei-o a alguém e não voltei a reavê-lo. Paciência! Que a esse alguém lhe faça bom proveito, são os meus votos sinceros. Recordo, no entanto, que lá se referia o nosso país como o maior consumidor europeu do precioso cereal: 17 kg por ano, per capita. A seguir vinha a Espanha com 9 kg e muito atrás, todos os outros. Num almoço ocasional com o embaixador da Coreia do Norte perguntei-lhe, qual seria o consumo médio por pessoa na RPD da Coreia. Fez umas contas rápidas e de imediato me respondeu: 150 kg!

Existem cerca de 8 mil variedades de arroz, mas basicamente elas integram sete espécies, sendo a mais conhecida a Oryza sativa (arroz asiático). Cada vez mais apreciadas são as variedades perfumadas, como o basmati, o jasmim, o vermelho e o dourado, este, manipulado geneticamente. Entre nós, as mais conhecidas são o carolino e o agulha.

Como se sabe, o arroz é uma gramínea de origem asiática. Julga-se que é usado como alimento há perto de 7 mil anos, fazendo parte do quotidiano dos países orientais que são, de longe, os seus principais produtores e consumidores.

A planta tem um cultivo anual em terras alagadas, mas pode sobreviver por vários anos nas regiões tropicais.

O arroz é um dos alimentos mais equilibrados que se conhece. Contém hidratos de carbono, proteínas, vitaminas B1, B2, B3, cálcio, magnésio, manganés, fosforo, zinco, ferro, proteínas, pouca gordura e nenhum glúten. No que respeita às proteínas, é certo que não possui a totalidade dos aminoácidos essenciais, mas combina muito bem com todas as outras fontes proteicas.

O arroz integral, ou seja o arroz em que apenas se retira a casca exterior (celulose), ficando com uma película fina acastanhada, é o melhor para uma nutrição saudável. Essa película contém fibra e maior quantidade de proteína e de gordura, alimentando muito mais. Se bem mastigado, é de fácil digestão, combatendo o colesterol, a arteriosclerose, a diabetes, a prisão do ventre e outras disfunções do aparelho digestivo. Além disso, contém selénio que é um antioxidante natural que beneficia o sistema imunológico. Quem consome apenas arroz normal, leva algum tempo a habituar-se ao integral, mas depois acaba por o achar mais saboroso que o chamado arroz branco.

Quanto às formas de cozinhar, elas variam muito, de país para país e de região para região. Na China o arroz é cozido a vapor o que, de entre outras vantagens, fica mais a jeito para ser comido com os tradicionais pauzinhos, como aliás, sempre assim fiz.

Para mim, que gosto dele bem cozido mas não empapado, a melhor maneira é usar o forno solar: uma parte de arroz para três de água, um pouco de azeite e uma pitada de sal, sol que baste e passadas 2 horas, está pronto. Vantagens: não esturra, não pega, não endurece e é claro, não se despende energia elétrica nem gás, o que, em tempos de aguda crise, não é de somenos.


sábado, 27 de janeiro de 2018

Hortelã-pimenta




por Miguel Boieiro

Em cada estação do ano a vetusta Sociedade Portuguesa de Naturalogia, considerada uma das mais antigas associações ambientais existentes no nosso País, organiza um almoço de convívio para os seus sócios e amigos. Na elaboração das ementas vegetarianas a SPN procura inovar e introduzir novidades gastronómicas para atrair os comensais e divulgar bons princípios da alimentação saudável. A bebida que acompanha as refeições é geralmente o suco de cenoura que os participantes sedentos, sobretudo no almoço de verão, esgotam num ápice. Para obviar aos inconvenientes, alguém teve a peregrina ideia de servir antes do sumo da cenoura, água aromatizada com folhas de hortelã-pimenta. A iniciativa foi excelente e resultou com agrado geral. Assim nasceu mais uma útil aplicação para esta versátil erva aromática.

A Menta x piperita é uma Lamiácea híbrida que resulta do cruzamento entre a Menta aquatica (hortelã-mourisca) e a Menta spicata (hortelã-vulgar). Todavia, para complicar, alguns botânicos referem que a hibridação é tripla, juntando-lhe também a Menta suaveolens, conhecida popularmente como mentrasto ou hortelã-de-burro. De resto, sublinhe-se que existem inúmeros cruzamentos entre as diferentes mentas, o que dificulta a sua rigorosa identificação. O sinal de multiplicação “X” foi a regra escolhida pelos cientistas da nomenclatura botânica para indicar que a planta é híbrida e que, consequentemente, a sua reprodução não se efetua por semente mas sim por via vegetativa (rebentos subterrâneos).

O que interessa verdadeiramente é que todas as subespécies de hortelã-pimenta, das cerca de três dezenas que se encontram caracterizadas, têm sensivelmente as mesmas propriedades aromáticas, medicinais, condimentares e ornamentais.

Trata-se de uma herbácea perene com raízes subterrâneas ramificadas. As folhas são opostas, peninérveas, lanceoladas ou ovadas, pecioladas e ligeiramente dentadas. Os caules, de cor arroxeada, apresentam-se canelados e podem atingir 60 cm de altura, culminando em flores violetas agrupadas em espiga. Os frutos (tetraquénios), com sementes estéreis, raramente aparecem.

A maior parte dos livros de fitoterapia mencionam a hortelã-pimenta. Veja-se, por exemplo, o que diz o antigo Manual de Medicina Doméstica do Dr. Samuel Maia que a designa de Mentha officinalis: “ dela se extrai o mentol, de largo uso e muito apreciado como antisséptico do nariz, faringe, laringe, etc.. Internamente usa-se como aperitivo. Aproveitam-se as sumidades floridas com as folhas próximas que se cortam de agosto a setembro e a seguir se secam em tabuleiros de asseio rigoroso”. Eis o infuso recomendado: “10 g de sumidades secas num litro de água fervente. Infusa meia hora. Serve para gargarejos, inalações, lavagens das fossas nasais, corisas, rinites, faringites, rouquidão, ozena, sinusites”.

Análises químicas revelam que a hortelã-pimenta possui taninos, flavonóides, algumas substâncias amargas e sobretudo muitos óleos essências em que se sobrepõe o mentol.

Como propriedades medicinais são apontadas as seguintes: digestiva, carminativa, colerética, antissética, afrodisíaca, tonificante, analgésica, excitante, colagoga, estomáquica, vasodilatadora, descongestionadora nasal, etc.

Com tantas propriedades não admira a sua recomendação para múltiplos transtornos: falta de apetite, aerofagias, diarreias, cãibras, cefaleias, catarros, infeções bocais, herpes, cólon irritável, refluxo gastro esofágico, gastrite, vómitos, doença de crohn, pé-de-atleta, …

Pessoalmente, prefiro utilizar as folhas e as sumidades da planta fresca porque tenho a possibilidades de as colher nos sítios e épocas certas. Para quem não dispõe dessa possibilidade aconselha-se especiais cuidados: colher as folhas que não tenham ferrugem e submetê-las a uma corrente de ar quente e seco que não exceda a temperatura de 25 graus, guardando-as, depois de secas, em frascos escuros ao abrigo do ar e da luz.

Há imensas preparações fitoterapêuticas. Citemos apenas algumas:
- Infuso da planta fresca (30 g num litro de água – bebida tónica e refrescante).
- Licor (macerar durante 2 semanas 30 g das folhas num litro de álcool a 60º, coar, dissolver 250 g de açúcar de preferência mascavado).
- Pedilúvio (banho de pés em infusão da planta – muito aconselhável para quem sofre de pé-de-atleta).
- “Chá” (deitar duas colherinhas da planta seca numa chávena de água a ferver e deixar macerar durante 10 minutos).
- Álcool mentolado (dissolver a essência em álcool para fricções – para aliviar nevralgias, dores musculares e reumáticas).
- Mastigação de folhas frescas para eliminar a halitose.
- Compressas a fim de aliviar as dores de cabeça e as cãibras.

Para terminar, refira-se ainda que a hortelã-pimenta é também utilizada no fabrico de detergentes, cosméticos e pastas dentífricas.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Erva-formigueira


Amigos,

Um destes dias fui à Herdade do Alto do Pina (Poceirão) apanhar espargos silvestres para os incorporar no Almoço de Natal da Sociedade Portuguesa de Naturalogia, a realizar no próximo dia 16 de dezembro. Colhi uma quantidade razoável! Aproveitei também para apanhar saramagos para um delicioso esparregado. O almoço vai ter, de novo, uma componente importante de ervas comestíveis para suscitar curiosidades e educar os paladares dos comensais habituados às artificialidades que o marketing coloca nos supermercados. De repente, vejo uma ramalhuda erva-formigueira (atenção que esta não é para comer) e logo pensei, ela vai ser a protagonista da próxima lição de fitoterapia.
Abraços!

Miguel Boieiro


Numa pequena propriedade meio abandonada brotou, em interstício do empedrado, uma erva-formigueira. Passados alguns meses, quando lá voltei, a pequena erva tinha-se transformado numa enorme moita, reproduzindo-se vigorosamente por vários locais. Podemos assim, desde logo, deduzir uma das características desta planta mexicana: a produção de milhares de sementes o que origina a sua rápida proliferação como espécie infestante. Outro atributo marcante é o seu odor indefinido, mas inconfundível. Há quem diga que cheira a formigas esmagadas e daí o nome que se dá à planta. Outros mencionam que deita um aroma que parece uma mistura de petróleo, menta, cânfora, segurelha e limão. De qualquer forma, a fragrância é muito intensa e original.

Para que não haja confusões, uma vez que o termo popular “erva-formigueira” aparece atribuído a diferentes plantas, em várias regiões do mundo, esclareço que me estou a referir à Chenopodium ambrosioides L., planta da família das Quenopodiaceae, nativa da América tropical, que se aclimatou com facilidade em todas as regiões subtropicais e temperadas. Sendo bastante utilizada pelos ameríndios como planta medicinal, foi trazida para a Europa pelos espanhóis no século XVI e logo tomou várias designações: epazote, chá-do-méxico, chá-dos-jesuítas, erva-de-santa-maria, erva-vomiqueira, formigueira, lombrigueira, mentruz, quenopódio, ambrósia, etc.

Crê-se que a reputação desta planta provém do facto de afugentar ou eliminar parasitas, outrora muito comuns nas habitações e povoados: pulgas, piolhos, percevejos, carrapatos, moscas …

Em traços largos, podemos descrevê-la como herbácea anual ou perene, de raízes brancas, compridas e oblongas. Os seus caules são vigorosos, angulosos e ramosos, possuindo sulcos longitudinais pouco profundos, podendo atingir um metro de altura. As folhas são ascendentes, oblongo-lanceoladas, irregularmente dentadas e agudas com pecíolo curto. As flores aglomeram-se em espigas terminais e são brancas ou levemente esverdeadas e pequenas (1 mm de diâmetro). Os frutos, também muito pequenos, são aquénios ovóides achatados, completamente envoltos nos respetivos cálices, dando sementes pretas, brilhantes e lisas. Com bom desenvolvimento vegetativo, um só pé pode produzir dez mil sementes. Toda a planta, sendo intensamente verde, avermelha um pouco, quando as sementes amadurecem.

Os seus principais constituintes químicos são saponinas, taninos, sucos amargos e um óleo essencial, cujo componente determinante se chama ascaridol. É ele o principal responsável pelas propriedades anti-helmínticas da erva-formigueira (capacidade de eliminar os parasitas intestinais). O óleo, amarelado e de aroma penetrante, serve de base a muitos medicamentos e aplicações veterinárias.

Para além da propriedade antes citada, a planta é carminativa, tónica estomacal, emenagoga, antiespasmódica, vermífuga, diurética, cicatrizante, analgésica, antirreumática e antiasmática.

Outrora abusava-se em demasia, quer da erva, quer da sua essência, ocorrendo frequentes intoxicações devido ao ascaridol. Hoje em dia continua a consumir-se a erva-formigueira mas com os devidos cuidados e não ultrapassando as doses prescritas pelos especialistas.

Algumas receitas clássicas:

Para eliminar vermes intestinais, melhorar as funções digestivas, aliviar a asma e as perturbações nervosas – tomar três chávenas por dia de uma infusão de 20 g da planta verde num litro de água.

Para pernas inchadas, varizes, afeções da pele e picadas de insetos – aplicar cataplasmas das folhas cozidas com sal marinho.

Tendo sempre presente, as contra-indicações provocadas por doses elevadas, lembra-se que a infusão da erva-formigueira era, noutros tempos, tomada com regularidade como sucedâneo do verdadeiro chá.

Atualmente estuda-se, com acuidade, o seu efeito inseticida contra melgas e mosquitos e a aplicação em agricultura biológica para combater determinadas pragas.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Beringela




por Miguel Boieiro

Na viagem realizada em fins de agosto pelo sul da Itália, tive o prazer de conhecer a “melanzana rossa”. Foi em Matera, cidade mística e mítica que em 2019 irá ser a Cidade Europeia da Cultura. Entre tantas surpresas agradáveis proporcionadas pela participação no 84º Congresso Italiano de Esperanto, com realce para as excursões efetuadas na região da Basilicata onde visitámos palácios, museus e igrejas, destacámos a que foi feita à cidade pétrea, dotada de cavernas ancestrais. Recordar tudo o que aí se viu é sumamente difícil, mas recordo que mesmo no fim da digressão, entrámos numa loja “gourmet” onde um fruto vermelho e arredondado passou de mão em mão, sem ninguém adivinhar o que seria. Parecia uma maçã ou um tomate mas era simplesmente uma beringela, que dá pelo nome vernáculo de Solanum aethiopicum, especialidade daquela região.
Esta foi uma das maneiras de iniciar a presente croniqueta. Outra poderia ser a relativa à experiência que tive quando fiz os “Berberes do Toubkal”, integrado numa caravana de caminheiros que, em 8 dias, percorreu 140 quilómetros nas montanhas do Atlas. O jovem guia era berbere mas expressava-se em bom francês. Ao comentar os ingredientes do almoço esqueci-me do termo “aubergine” e escapou-me “beringela”. Não houve problema pois o guia de imediato entendeu. Afinal a palavra portuguesa era igual à do seu idioma. Mas chega de conversa fiada! 
A beringela, cujo nome científico é Solanum melongena, pertence à família das Solanaceae e ao contrário de outras solanáceas conhecidas, como o tomate, a batata e o pimento, não proveio das américas. É originária da Índia e entrou na Europa trazida pelos árabes no século XIII. Os europeus, a princípio, olharam-na com desconfiança. Como se sabe, todas as solanáceas possuem elementos tóxicos e algumas são mesmo mortais. Os italianos chamaram-lhe “melanzana” que significa maçã malquista, mas pouco a pouco, após muitas hibridações, das centenas de variedades espontâneas, logrou-se alcançar espécies comestíveis com baixo teor em solanina e solasonina (as tais substâncias tóxicas) e o consumo da beringela como alimento, popularizou-se. 
A planta possui caule ereto, ramificado e peludo podendo atingir 1 metro de altura. As folhas, oblongas ou ovadas, são ásperas. As flores, hermafroditas, com cinco pétalas brancas ou violáceas, apresentam-se solitárias. Mas o que mais nos interessa são os frutos. Eles são grandes com pele lisa e brilhante podendo ter várias configurações, se bem que as mais frequentes sejam as ovoides ou piriformes. A sua cor pode ser roxa, negra, amarela, branca (nos EUA chamam-lhe “eggplant”) ou até vermelha, como a que vimos na Itália. A polpa tem textura esponjosa. 
Os maiores produtores mundiais são a China e a Índia com 85% das quantidades obtidas em todo o mundo. Na Europa, com exceção da Itália e da Espanha, a sua produção e consumo são ainda incipientes. Em Portugal era praticamente desconhecida há meio século. Ainda me lembro bem quando vi beringelas pela primeira vez.
A beringela gosta de calor e luminosidade mas detesta regas abundantes quando está a florir. Possui vitamina C, vitaminas do complexo B, cálcio, ferro, potássio, magnésio e selénio. É rica em fibras solúveis e integra alguns alcaloides.
Embora ainda não suficientemente estudada no tocante aos seus poderes medicinais, atribuem-lhe virtudes como a de ser digestiva, nutritiva, laxante e antioxidante. Reduz as taxas do colesterol e atua nos problemas de artrite, gota, reumatismo e diabetes. Externamente, em cataplasma, atenua os efeitos das queimaduras solares.
No entanto, é na gastronomia que a beringela atinge maior projeção. O seu sabor em refogados, “ratatouilles”, lasanhas, frita, panada ou assada às rodelas, é único, contribuindo para dilatar a paleta de paladares dos vários pratos cozinhados. O “caviar” de beringelas, confecionado com as ditas assadas, tomate, cebola e ervas aromáticas forma uma pasta muito apreciada que substitui com vantagens económicas, e não só, as ovas de esturjão.
A terminar, adverte-se que jamais se deve consumi-la crua, porque o seu gosto é amargo e retém maior índice de alcaloides.

sábado, 19 de agosto de 2017

Inula Marítima



Revestiu-se de grande sucesso o 1º Festisal, certame organizado pela Fundação das Salinas do Samouco no passado mês de julho. Participaram entusiasticamente cerca de seis centenas de pessoas de todas as idades. A iniciativa, plenamente integrada na filosofia eco ambiental, visou, entre outros objetivos, sensibilizar a população para o potencial educativo, científico e lúdico contido num espaço de quase 400 hectares que ficou denominado Salinas do Samouco, embora mais de 80% do território se situe na freguesia de Alcochete. A Festisal englobou um leque diversificado de atividades: rapação de sal, recriações históricas, artesanato, venda de produtos regionais, observação de aves, gastronomia, fornos solares, projeção de filmes, exposições, palestras temáticas, etc.
Neste âmbito, despertou enorme interesse o “showcooking” dirigido pelo “Chef” António Sequeira com demonstrações culinárias e respetivas degustações (talvez o mais cativante para quem busca experiências de novos sabores) efetuadas com plantas halófitas das salinas. A este escriba foi solicitado que, na véspera, colhesse folhas de salgadeiras, salicórnias, sarcocórnias, gramatas e inulas, o que foi efetuado com prazer para que tudo corresse a contento. Refira-se que as citadas plantas são todas elas edíveis, embora ainda não estejam integradas na gastronomia portuguesa tradicional. Apenas a salicórnia começa agora a ser popularizada como produto “gourmet” (Ver alusão no meu livro “Plantas para Curar e para Comer”).
Aproveitamos a ocasião para investigar sobre as propriedades gustativas da inula com que o “Chef” preparou um acepipe de camarinhas (pequenos camarões). A inula marítima, para além de ser uma planta salgada, tem sabor forte e característico o que confere identidade própria a qualquer prato.
Há várias plantas designadas por inula, mas falo-vos da Inula crithmoides, de seu nome científico, espécie da aristocrática família das compostas ou Asteraceae. Trata-se de uma planta perene, simples, glabra, ramosa e ascendente que pode atingir 8 dm de altura. As suas folhas são carnudas, estreitas, quase lineares, sésseis e alternas. Os caules são lenhosos e um pouco torcidos na base. As flores, agrupadas em capítulos, apresentam-se de amarelo dourado com pétalas estreitas e brácteas imbricadas em várias filas. São hermafroditas e surgem de maio a setembro. As sementes, de 2 a 3 mm, formam aquénios angulosos hirsutos e pubescentes.
A inula não suporta a sombra, adorando o calor. Prefere solos ligeiramente ácidos, formando tufos e pode ser encontrada em orlas de sapais, muros de salinas, esteiros e mesmo em esporões rochosos e arribas litorais, como recentemente vimos em Peniche, a caminho do Cabo Carvoeiro. 
Dos compêndios consultados apenas encontrámos menção da Inula crithmoides em “Elementos da Flora Aromática” de Aloísio Fernandes Costa, edição de 1975 da Junta de Investigações Científicas do Ultramar, referindo que “por destilação das folhas se separa uma essência da qual predominam, particularmente, hidrocarbonetos”. A mesma obra regista ainda outras duas inulas com essências, nomeadamente a viscosa e a graveolens.
No entanto, a inula mais consagrada como planta medicinal, descrita em variados livros de fitoterapia, é a Inula helenium de que se aproveita a raiz. Trata-se de uma erva de folha larga, bem mais alta do que a crithmoides e tem aplicações no tratamento de bronquites, tosses e problemas estomacais.
Quanto à nossa inula marítima há a destacar, para além das suas essências ainda não devidamente estudadas, o teor em cloreto de sódio e quiçá em cloreto de potássio, sendo portanto ideal para temperos em substituição do sal-das-cozinhas e, desta forma, aconselhada para quem sofre de hipertensão. As folhas jovens podem ser consumidas cruas, cozidas, em picles e como condimento.
Avançando nas minhas experimentações, procedi à secagem da planta em forno solar e pulverizei as respetivas folhas que casam bem com saladas e cozinhados. E eis assim como se pode aproveitar mais um recurso disponível e gratuito (por enquanto) no nosso País, cuja utilização enriquece os preparados culinários e beneficia a nossa saúde.

Miguel Boieiro

quinta-feira, 6 de julho de 2017

AROUCA GEOPARK



Miguel Boieiro
Julho/2017

Por iniciativa do amigo Fernando Brioso que organizou e dirigiu excelentemente a digressão às terras de Arouca, foi-nos possível visitar calmamente uma das regiões mais fascinantes do nosso País, prenhe de encantos paisagísticos e curiosidades geológicas. Avisa-se, desde já, que não é intenção deste escriba apresentar um relato rigoroso e completo do que nos foi dado apreciar. Seria impossível, por inépcia, descrever todas as sensações obtidas nas visitas efetuadas à Casa das Pedras Parideiras, na aldeia da Castanheira, à Frecha da Mizarela, ao Pico do Gralheiro da Serra da Freita (Radar Meteorológico de Arouca) e aos Passadiços do Paiva e, já agora, também ao riquíssimo Mosteiro de Arouca. Ficam apenas meros lamirés de botânica do que fomos enxergando ao longo de dois dias, para aguçar apetites. Quem, porventura, quiser saber mais detalhes, que busque, pois há bastante documentação histórica e científica sobre a região, com exceção, talvez, no tocante à flora.
O que me leva a escrever é somente a vontade de registar determinados aspetos botânicos que, despreocupadamente, fui anotando no meu caderninho, enquanto caminhava. Não é, nem poderia ser, uma lista exaustiva de conteúdo científico. Ela deve ser entendida como algo de pessoal que sensibilizou o cronista no que à biologia vegetal diz respeito. O que se relata poderá despertar interesse nos leitores com motivação sobre o tema. Para outros, tal descrição será talvez enfadonha de mais. A esses peço desculpas pelo tempo que possam perder. Englobo também nessas desculpas os biólogos encartados pelo atrevimento deste sapateiro que pretende ir além da chinela e almeja tocar rabecão.
O primeiro panorama que se divisa recorda inapelavelmente os terríveis incêndios ocorridos no ano transato que devastaram muitos hectares de pinheiros e eucaliptos da Serra da Freita. Na negrura dos solos vêem-se agora os rebentos verde-azulados que brotam das touças dos eucaliptos queimados e o nascimento de acácias cujas sementes são pirófilas. Aqui e ali, apenas alguns sobreiros isolados com a cortiça enegrecida, a qual os protegeu do fogo. 
O cruzamento de terrenos xistosos com graníticos e as escorrências das águas que descem as montanhas proporcionam a existência de uma vegetação muito rica e diversificada, mormente nas margens do Paiva. Foi pena não termos detetado qualquer publicação editada pela Câmara Municipal ou pelo Geopark que abordasse exaustivamente as plantas interessantes que bordejam os Passadiços. Eis as que me saltaram à vista desarmada:
- Dedaleira (Digitalis lanata) – É uma espécie característica dos solos ácidos. Altamente venenosa contém, no entanto, valiosos princípios ativos para tratar doenças do coração.
- Fitolaca (Phytolacca decandra) – Proveniente da América do Norte. Esta planta surge por todo o lado no nosso País. Crê-se que são os pássaros que ingerem os frutos, expelindo as sementes que resistem ao trato intestinal sem se degradarem. Atenção: é venenosa para os humanos, apenas se pode usar externamente como planta medicinal!
- Espinheiro-alvar (Crataegus monogyna) – Arbusto encontrado em grande quantidade e também relevante para tratar doenças do coração.
- Murta (Myrtus communis) – Outra planta lindíssima, ornamental e medicinal. Alguns exemplares ainda se encontravam floridos, outros já apresentavam os frutinhos.
- Urze branca (Erica arborea)
- Queiró (Erica umbellata). As urzes são plantas melíferas muito apreciadas que aqui se mantêm alegremente floridas no início do verão.
- Carqueja (Pterospartum tridentatum). As carquejas possuem raízes muito vigorosas que lhes permitem resistir ao fogo. Aguentam bem a falta de água e encontram-se nas vertentes e cumes das montanhas. No Pico do Gralheiro praticamente só se veem carquejas a despontar do solo queimado.
- Maceróvia-pedunculata (Anarrhinum longipedicellatum). Estas graciosas plantas, um pouco raras, alegram o percurso dos Passadiços com as suas minúsculas flores azuis pediceladas.
- Arenária (Arenaria montana). As arenárias formam um manto florido com as suas pequenas flores brancas.
- Uva-de-gato (Sedum hirsutum)
- Arroz-dos-muros (Sedum brevifolium). O género Sedum, caracterizado por formar pequenos tapetes agarrados aos rochedos, possui valias medicinais.
- Hyacinthoides paivae. Trata-se de uma Asparagaceae endémica da região. Curiosamente a designação latinizada “paivae” não se refere ao rio Paiva, como logicamente poderíamos supor. O nome provém duma homenagem ao eminente botânico e professor da Universidade de Coimbra, Jorge Paiva.
- Lavatera (lavatera sps). Linda e delicada malvácea.
- Fel-da-terra (Centaurium sps). Planta medicinal muito amarga. Basta provar uma folhinha para o comprovarmos.
- Milfurada (Hypericum androsaemum). Outra valiosa planta medicinal.
- Saramago-das-rochas (Murbeckiella sousae). Eis mais uma planta endógena da família das Brassicacea. A sua flor é branca.
- Rúcula (Eruca sps). Foi a planta que mais me surpreendeu ao longo do percurso de 10 km pelos Passadiços do Paiva. Encontra-se em maior profusão na zona apelidada de Garganta do Paiva (a mais difícil de trepar). É uma interessante crucífera com folhas mais largas do que a Eruca sativa e com menos componentes sulfurados. Assim nos pareceu depois de a degustarmos.
Sem mais delongas, acrescento a seguir algumas árvores e arbustos mais conhecidos, encontrados no caminho:
- Loureiro (Laurus nobilis)
- Gilbardeira (Ruscus aculeatus)
- Lódão (Celtis australis)
- Amieiro (Alnus glutinosa)
- Freixo (Fraxinus angustifolia)
- Sabugueiro (Sambucus nigra)
- Castanheiro (Castanea sativa)
- Salgueiro (Salix alba)
- Pinheiro-bravo (Pinus pinaster)
- Carvalho-negral (Quercus pyrenaica)
- Carvalho-alvarinho (Quercus robur)
- Sobreiro (Quercus suber)
- Medronheiro (arbutus unedo)
Algo relevante foi também a complexa rede de fungos, líquenes e musgos cravados nos rochedos graníticos ou nos troncos das árvores mais robustas. Entre todos quero apenas destacar o feto-real (Osmunda regalis) e o avencão (Asplenium trichomanes).
Previne-se a terminar, que esta listagem de plantas observadas por um simples amador fascinado pela botânica, peca por ser deveras incompleta e conterá provavelmente alguns erros. Despertar curiosidades e estimular a observação da natureza constitui o fito principal desta singela croniqueta.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Espinafre-da-nova-zelândia



por Miguel Boieiro

Acabei de ler o excelente trabalho da minha amiga Maria-Manuel Valagão, ilustre Investigadora do Instituto Nacional de Recursos Biológicos, denominado “A sopa em Portugal e as sopas de plantas silvestres alimentares”. Trata-se de um tratado notável que relata, sobre múltiplas facetas, o percurso histórico, etnográfico e até mesmo filosófico de toda a elaboração culinária, resultado da ebulição em água, durante um certo tempo de vários componentes, e que geralmente se come à colher. O estudo, frisa a importância alimentar das sopas, caldos e papas e os seus benefícios para a saúde das populações, quer sejam abastadas, quer de fracos recursos.
Há naturalmente variadíssimas versões desde as leves sopas de vegetais, à canja (palavra que em concani, idioma falado em Goa, significa apenas sopa de arroz), ao caldo verde (com ou sem rodela de chouriço), até às famosas sopas da pedra, sopas caramelas e sopas de corno. Não cabe nesta croniqueta explicar como elas se fazem, mas sempre direi que as pedras e as pontas dos chavelhos têm de ser de boa qualidade para que as sopas resultem. Isto mesmo, dizem os gastrónomos entendidos. Por mim, aproveito para recordar minudências da minha infância em que o prato único que, todos os dias, tínhamos ao jantar era a sopa de feijão. Num dia adicionava-se arroz, no outro massa e no outro pão de dezassete esfarelado, acompanhado de hortaliças, abóbora porqueira, um naco de toucinho fresco e um pedacinho de chouriço só para dar o gosto.
Tudo isto vem a propósito de uma referência que encontrei no trabalho da Maria-Manuel sobre o uso de espinafres Tetragonia tetragonoides para confecionar sopas no Alentejo e, vai daí, lembrei-me de discorrer sobre essa plantinha.
Em Portugal ela é conhecida como espinafre-da-nova-zelândia, em alusão ao país donde se julga ser proveniente, mas encontra-se completamente naturalizada, sendo mesmo considerada nalgumas regiões uma planta invasora. O seu nome científico tem a ver com a configuração curiosa do fruto em forma de quadrilátero. Em França a planta é conhecida por tétragone, designação que considero mais feliz, dado que, botanicamente, pertence à família das aizoáceas e nada tem nada a ver com o espinafre - Spinacia oleracea - da família das amarantáceas.
Do aspeto do fruto, já estamos conversados. As folhas, a parte que nos interessa para preparar a sopa de legumes, são triangulares, carnudas, papilosas, pecioladas e de cor verde brilhante. A ramagem é prostrada, cobrindo o solo em razoável extensão, dado que com grande facilidade alastra por terrenos abertos. As flores são pequenas, discretas, solitárias nas axilas das folhas e de cor amarelo-esverdeado.  
O valor proteico da planta é fraco, mas em compensação, é rica em vitaminas do complexo B, vitamina C, provitamina A, potássio, cálcio, magnésio, fósforo e ferro. O único senão à utilização desregrada deste “falso espinafre” é a existência de ácidos oxálicos, sobretudo quando a planta já está envelhecida. Por isso, é conveniente rejeitá-la quando se encontra em frutificação.
O espinafre-da-nova-zelândia gosta do calor e da humidade, dando-se bem numa alargada faixa de climas temperados. Não é atreito a moléstias, resiste às investidas dos insetos predadores e possui características halófitas, ou seja desenvolve-se em terrenos medianamente salinos. Lembro-me de que a primeira vez que vi este vegetal em grande quantidade foi junto à praia do Baleal (Peniche), já lá vão umas quatro décadas. Aí, e nessa altura, a planta era espontânea, apresentando uma excelente reprodução. Tal também acontece no meu quintal, visto que a água que obtenho do furo sofre a influência da cunha salina proveniente do estuário do Tejo. Todos os anos tenho abundante produção sem fazer qualquer sementeira.
Quanto às virtudes terapêuticas do espinafre-da-nova-zelândia, aponta-se que o capitão Cook, famoso navegador dos mares austrais, a utilizou largamente para combater o escorbuto que atormentava a tripulação do navio Endeavour.
Contudo, é na gastronomia que este vegetal se mostra relevante. Consulte-se, por exemplo, a obra “Plantes potagères” da editora Gründ, onde o tétragone aparece com grande destaque. Na verdade, a sua primordial utilidade é na preparação de esparregados e de suculentas sopas de vegetais, misturada com outras hortaliças. Fica especialmente bem numa sopa ou estufado com grão-de-bico. Experimentem!

sábado, 13 de maio de 2017

Fel-da-terra




Miguel Boieiro

Fiquei encantado com as lindas flores do fel-da-terra que, este ano, surgiram mais cedo por causa da secura do mês de abril. Não resisti!

É apaixonante visitar o mesmo local da floresta, da charneca ou da campina inculta em diferentes épocas do ano. A vegetação silvestre vai-se manifestando de diversas maneiras, seduzindo os seus apreciadores. Varia também consoante as alterações meteorológicas. Como se sabe, a característica principal do nosso clima atlântico-mediterrânico é a da irregularidade. Isso é de tal maneira flagrante que chega a contrariar, em absoluto, os provérbios tradicionais. Veja-se aquele que estipula “em abril águas mil coadas por um funil”. Pois é, mas neste mês de abril da graça do senhor de 2017, só choveu, e muito ligeiramente, no dia 30. A secura inusitada do início de primavera forçou as plantas a apressar o seu ciclo de vida e a amadurecer mais cedo para transmitirem descendência e assim propagarem as espécies.

No princípio do mês fui, de propósito, ao Pinhal das Formas colher folhas de cardo-mariano e fiquei deslumbrado com a profusão de azuis proporcionados pelas ervas-das-sete-sangrias. Já em maio, as citadas flores tinham desaparecido e o que sobressaia eram as hastes floridas do fel-da-terra salpicando os campos de rosas e amarelos. Fiquei maravilhado porque as flores são lindas!

Antes de florir, ninguém vê o fel-da-terra porque a planta é minúscula. Depois ergue-se uma haste de 10 a 40 cm e surgem flores inconfundíveis com pétalas cor-de-rosa vivo e corolas amarelas. Há ainda outra maneira de o identificar: basta provar uma das folhinhas que é amarga como o fel, o que originou um dos seus nomes mais populares. Em muitas línguas europeias também é conhecido por centáurea, pequena centáurea, centáurea-menor, planta-da-febre ou erva-febrífuga.

Há várias designações científicas para o fel-da-terra: Centaurium erythraea, Centaurium minus, Centaurium umbellatum, Centaurium erytbraea, etc., sem contar com inúmeras subespécies que pouco divergem entre si.

É uma herbácea da família das Gencianáceas, quase sempre anual, com folhas basais em roseta, caule solitário, glabro, quadrangular, ramificado na extremidade e possuindo pequenas folhas sésseis, opostas e oblongas. As flores, de cinco pétalas, são rosadas e por vezes esbranquiçadas, dispondo-se nos ramos como se fossem lâmpadas de um candelabro. As sementes inserem-se numa cápsula alongada.

Empregada desde remotas eras para baixar a febre (antipirética), parece que serviu, como conta a lenda, para cicatrizar a ferida causada inadvertidamente num pé de Hércules, pelo centauro Quíron, ou vice-versa, já não sei bem.

Entre os principais componentes químicos do fel-da-terra, temos, em primeiro lugar, os glucósidos amargos e depois, as resinas, os flavonóides, o magnésio, os sais minerais, o óleo essencial e várias estirpes de ácidos.

Para além de ser antipirética e cicatrizante, a planta é tónica, estomacal, laxante, depurativa do sangue, estimulante da secreção gástrica, anti-inflamatória, anti-artrítica, analgésica, carminativa e vermífuga.

Combate úlceras, feridas e eczemas através de cataplasmas da planta inteira colocada em cima das partes doentes. Para uso interno pode ser extremamente útil nos casos de falta de apetite e anorexia, digestões pesadas, flatulências, insuficiência hepática, prisão do ventre, vermes intestinais, diabetes, etc.

É também muito utilizada em preparados homeopáticos.

Oliveira Feijão recomenda o infuso de 30 g de fel-da-terra num litro de água, a tintura (2 a 10 g por dia) e o “vinho” obtido da maceração, durante duas semanas, de 60 g das sumidades floridas num litro de vinho moscatel. Tomar no intervalo das refeições.

Jamais se deve adoçar o “chá” porque a bebida é tão amarga que o açúcar não a faz mais apetecível, pelo contrário, torna-a até deveras enjoativa.

Samuel Maia, no seu antiquíssimo “Manual de Medicina Doméstica”, indica-nos um laxante assaz curioso: 4 g de sumidades secas pulverizadas em miolo de pão ou hóstia.

Finalmente, uma precaução a ter em conta: o uso prolongado do fel-da-terra pode causar irritação das mucosas gastrointestinais. Como na maior parte dos tónicos amargos, devemos espaçar os tratamentos, descansando uma semana, após dez dias seguidos de uso.