"Amar o próximo como se de si próprio se tratasse - uma ideia de paz"
Luís Santos


sábado, 28 de fevereiro de 2015


Contempla tudo o que percepcionas sem lhe conferires as identidades habituais em que o concebes e encerras, os mil e um rótulos colados pela cultura que te mantém ignorante. Vê assim todas as formas, cores e volumes. Escuta assim todos os sons. Vivencia assim todos os fenómenos mentais. Acolhe todos os seres como pura energia com forma, cor e movimento. Acolhe todas as palavras como pura vibração sonora, sem lhes conferires qualquer significado. Acolhe todos os pensamentos e emoções como bolas de sabão insubstanciais e efémeras que se formam, transformam e dissipam no espaço aberto e vazio da consciência. Algo morrerá em ti, mas renascerás infinitamente pujante e vivo num estranho mundo, bem mais íntimo, deslumbrante e real do que esse sonho alucinado em que habituado, esquecido e alienado te arrastas e sucumbes.

Paulo Borges
Círculo do Entre-Ser




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Os manezinhos da ilha


Foto: Santo Antonio de Lisboa ( Florianópolis). Arquivo pessoal da autora.*

Uns dos primeiros colonos europeus a deitar raízes e marcar terreno no solo deste imenso país foram os açorianos. A principio individual e esparsamente, e mais tarde em levas migratórias colonizadoras, planeadas pelo reino, que se espalharam desde o norte (Maranhão, Amazonas) ao sul do país, mais notadamente no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde a presença açoriana foi mais numerosa e evidente.

 O colonos começaram a chegar a Santa Catarina a partir do ano de 1748. Eram grupos de casais e aparentados fugidos de desastres naturais ( em geral erupções vulcânicas) e da superpopulação que lhes traziam nas ilhas dos Açores crises de subsistência. As viagens e primeiras acomodações eram patrocinadas pelo Estado Português que precisava, por sua vez, ocupar o território e defender suas fronteiras americanas dos espanhóis. As promessas governamentais (D. João V) de lhes dar apoio financeiro, parcelas de terra, apetrechos agrícolas, umas poucas vacas e um asno, choupanas para abrigo e assistência no primeiro ano de Brasil, nem sempre foram cumpridas. Ao chegarem numa terra estranha, idealizada pelas quiméricas histórias de fartura e riqueza, de luxuriante beleza, mas ocupada por florestas cerradas e índios hostis, sem condições de habitação decente, seus ânimos, já abatidos pela crueza e insalubridade da viagem, arrefeciam. Ingênuos, rudes, crédulos, no entanto pressentiam que era uma viagem sem volta. Teriam pela frente uma nova epopéia, a da sobrevivência.

 Saíram dos Açores para Santa Catarina de 1748 a 1752 cerca de 6000 pessoas. Entre as viagens e as iniciais dificuldades na Terra, supõem-se que perto da metade tenha perecido. Esses primeiros colonos sobreviventes foram distribuídos no Desterro (antiga capital de Santa Catarina), Lagoa da Conceição, na enseada do Brito, São José e Laguna. Em Porto Alegre ( Porto de Dornelas) até 1752 estabeleceram-se 60 casais . Aí a terra foi favorável ao cultivo do trigo,feijão, milho, cevada, vinha, cânhamo,etc. Construíram moinhos e azenhas.  Criaram gado, miscigenaram-se, formaram estâncias, fizeram-se tropeiros, abriram caminhos para  outros lugares.

 Em Santa Catarina, a terra arenosa não favoreceu ao cultivo do trigo, aprenderam então com o índio a consumir a mandioca (mansa) no lugar desse cereal. Novas técnicas de artesanato, pesca e cultivo adquiriram. A vinha, o algodão, o linho tiveram algum sucesso apesar dos recrutamentos militares periódicos que desviavam os homens das atividades agrícolas. As lutas pela sobrevivência foram longas e intensas. Tiveram que se adaptar, superar dificuldades e deficiências, distâncias, faltas e doenças. Mesmo assim, quase esquecidos, colocaram em ação a tecnologia que trouxeram consigo. Construíram embarcações, engenhos e teares, abriram clareiras na mata, plantaram a vinha e os alimentos para subsistência. Levantaram casas, fabricaram louça, cestos e panos. Introduziram a renda de bilro, caçaram a onça que comia seu rebanho, tendo seus cães como fiéis companheiros ( daí a grande quantidade de cães que ainda vagueia pela ilha de Santa Catarina), e a baleia para produzir óleo usado nas construções e como combustível. Enfim, fundaram vilas, projetaram fronteiras, fizeram revoluções, quiseram até ser um outro país!

 Apesar do analfabetismo que nos primórdios medrava entre eles, passaram sua cultura, costumes e crenças , religiosidade, gastronomia e identidade para seus filhos. Apegados à família, ciumentos de suas mulheres, mesmo na pobreza e com as limitações que a terra e a política lhes impuseram, fizeram-se felizes e hospitaleiros.

 Os mais aventureiros partiram para o sudeste e centro-oeste onde o ouro e as pedras preciosas, atrativas,  reluziam. Muitos sucumbiram nas picadas e nas contendas, pela vida e pela fortuna, em busca do El-dourado. Os bem sucedidos enriqueceram, transformaram-se em grandes fazendeiros, latifundiários, chamaram amigos e parentes, daqui e /ou de além-mar, e com  aventureiros de outras plagas, fizeram no interior brasileiro uma nova casta de gente que por largo tempo dominou a política das terras sertanejas.

 Os que ficaram no Desterro agruparam-se, formaram famílias que se dispersaram em pequenos sítios e áreas. Isolados, agregados por natureza, as uniões entre essas famílias cada vez mais aparentadas deixavam a cada geração mais seqüelas. A consangüinidade determinava nascimentos de crianças com maior número de deficiências físicas e mentais.
Mas os tempos rolaram, os séculos se sucederam, as contendas apaziguaram. Os caminhos melhoraram, por terra e por mar o espaço foi cada vez mais conhecido e pelo estrangeiro nacional (paulista, rio-grandense do sul e mineiro,...) e internacional visitado, (inglês, uruguaio, argentino,...). Santa Catarina viu os colonos imigrantes italianos, alemães, polacos, russos, chegarem e fazerem das suas terras focos de beleza e prosperidade.

Hoje, os descendentes dos primeiros colonizadores açorianos, os manezinhos da ilha, podem ainda ser encontrados nas pequenas comunidades de Florianópolis e algumas regiões costeiras de Santa Catarina. Porém, essa pequena população de “nativos” já se encontra em vias de extinção pelas miscigenações genéticas e culturais atuais, e pela voraz expansão imobiliária que, apesar das leis ambientais, nem sempre respeitadas, vem desde 1960 assolando a capital do estado, expulsando o nativo de seu resguardado habitat, degradando impunemente a natureza e ocupando áreas que deveriam ser de preservação ambiental.  Resultado da conhecida má política que só vê os ganhos pecuniários imediatos para um pequeno grupo de fortes proprietários, e que despreza o futuro de qualidade para o restante da comunidade ilhoa.
Morros desbastados da sua natural cobertura verde, ocupados perigosamente por construções levantadas em áreas de risco, com a complacência irresponsável da autoridade pública, vias congestionadas por gente deseducada que joga lixo nas praias e estradas, poluindo o visual e o meio ambiente, violência urbana crescente, cada vez mais incontrolável, é o panorama que se vislumbra em Florianópolis atualmente. Urge que haja políticas inteligentes e políticos eficientes que promovam o desenvolvimento seguro e sustentável desse rico patrimônio da natureza. “Enquanto houver algum recanto paradisíaco guardado por um “manezinho” risonho e pescador, enquanto ainda sobrarem locais intocados pelo homem “civilizado” e” empreendedor” a Ilha de Santa Catarina merece ser apreciada.

Maria Eduarda Fagundes

Tupaciguara, 14/02/2015

Tirei essa foto numa das minhas freqüentes viagens a Florianópolis. Santo Antonio de Lisboa é um sítio (beira-mar) da Ilha de Santa Catarina (Norte da ilha), fica bem perto de Sambaqui. Foi um dos lugares escolhidos pelos primeiros açorianos quando lá chegaram.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Os Correios do Brasil e o estúpido


por Francisco Gomes Amorim

Já um dia contei uma triste história: os medicamentos no Brasil custam entre 3 e 5 vezes mais o que custam em Portugal, na Argentina e maior ainda a diferença para os EUA.
Aos velhos, aliás os de idade mais avançada, é recomendável tomar uns comprimidos que, dizem, retardam a evolução da artrite, e artrite na minha idade tem-se até no pensamento. Uma droga que acredito não sirva para nada mas... chama-se Glucosamina – Condoitrina. Dou até ao nosso cão. Jogar dinheiro fora.

Pela Internet encontrei um fornecedor que me cobrou, por um pacote que dá para cinco meses o mesmo que o brasileiro de trinta dias. Encomendei, e da primeira vez com um bônus – leve dois pague um – o que me deu para dez meses. Depois voltei a encomendar, tudo foi chegando, até que este último ficou retido na Alfândega.

Veio um telegrama duplo dos Correios:
Por interesse da fiscalização sanitária exercida pela ANVISA*, neste recinto alfandegado da ECT (Empresa dos Correios) fica o interessado NOTIFICADO a apresentar no prazo de 30 (trinta) dias ... a seguinte documentação:
a) Apresentar prescrição do profissional...etc.
Endereço: Todos Ponta do Galeão, s/n 1° andar – Galeão – Rio de Janeiro.

Passa o Carnaval e o estúpido, este que se assina, depois de ter pesquisado em vários programas da Internet o dito Todos Ponta do Galeão, o que todos ignoraram, como eu, sai de casa cedo, temendo confusão para encontrar o Todos..., lá vai a caminho de um endereço que nem o Papa sabe onde fica. Mas como dizia Galeão, objetivo Aeroporto.

Uma festa. Começa pela Polícia que diz para ir aos Correios, logo ali, ó... Não. Não era ali, nem eles sabiam onde seria. Mas tem outra loja dos Correios no 1° andar.
Bingo, bem diz o telegrama que é no 1° andar. Não era. Nem eles sabiam onde ficava, nem o que significava o GEARA/CTCI-RJ (Gerência da Atividades de Recinto Alfandegado – Centro de Tratamento dos Correios Internacional).

Por milagre, surge, abrindo uma porta, um funcionário que sabia onde era!
O senhor volta tudo para trás, passa junto ao aeroporto militar, vira à direita e entra na segunda rua à direita.

Lá vai o estúpido. A segunda rua à direita era de sentido proibido. Anda mais um pouco, pára mais duas vezes, inquire, alguém explica onde ficam os Correios, e... finalmente, aparece um edifício dos ditos Correios.

No portão, fechado com dupla segurança, explico ao que vou.
É no edifício aqui ao lado mas só abre ao meio dia.
Só ao meio-dia???????????? !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Eram 10:30. Um calorzinho razoável.

Meio dia?
Sim. Abre ao meio dia e fecha às nove da noite.

Mas isso deve ser caso único no país inteiro.
O que é que o senhor quer? Eu sou só o segurança.

Eu sei que você não culpa alguma, mas isto é uma sacanagem! Não vou esperar. Mas faça-me um favor: quando vir alguém que trabalhe lá dentro diga-lhe que esteve aqui um velho, que saiu cedo de casa, andou cinquenta quilómetros, pagou estacionamento no aeroporto, e duas vezes o pedágio, e não quis sofrer o vexame de ficar aqui uma hora e meia a assar neste sol. Ele que metam o frasco com o meu medicamento no... você imagina onde, né?

Ele riu, assentiu com a cabeça, dizendo que sabia onde eles deviam meter o frasco, e eu bati em retirada.

Para variar, aquilo no middle of no where, cheio de ruas e caminhos para desviar da Linha Vermelha, mas tabuletas indicando qual direção a seguir... NADA. NADINHA. À brasileira.

Pergunta mais uma vez a um motorista, que, à boa moda carnavalesca, mas simpático, explicou exatamente, muito amável, o caminho mas na direção oposta! Ele também estava meio perdido.
Mais 16 quilómetros para só depois encontrar onde fazer o retorno.
119 quilómetros rodados.
R$ 14,00 de estacionamento
2 x R$ 5,90 de pedágio.
Remédio... nada.

Os Correios do Brasil já foram um lixo há uns 50 anos. Depois, organizados, eram os melhores do mundo. Uma carta para a Europa e de lá para cá, demorava uns 3 dias. Hoje demora 3 SEMANAS... quando chega, porque algumas ficam pelo caminho perdidas. Incrível.

Há mais de um mês aguardo a chega de um DVD que a minha filha mandou de Londres. Penso que eles devem estar a fazer sessões lá nos Correios para distrair o pessoal.
Mas não há crise. Vou deixar a artrite descansar por uns tempos. Tempo, de qualquer modo é o que agora tenho de menos.


*ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – com quem já há uns anos, a propósito do preço dos medicamentos troquei uns e-mails absolutamente hilários. Devia ser, também, no tempo do Carnaval.

20/02/2015

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


Existência, essência


Existência,
Essência
Vem até nós
Através dos
Céus mais negros,
Mais solitários
Ou solidários.
Existência,
Essência
Eleva
O âmago dos meus sentidos,
Provoca o meu ser
Seguindo o ritmo
Do violino ou da bateria,
Seguindo o ritmo
De uma guitarra eléctrica
Ou seguindo o ritmo
De toda uma orquestra!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (120)

Gitano, Nonell, 1901
Óleo sobre Tela, 73x61cm
O MUDO

Nascera cedo demais para ser noite mas já muito tarde para ser ainda de dia. Contaram-lhe que as primeiras palavras da sua mãe tinham sido: «Era capaz de ter já outro» e isso tanto poderia ser bom como mau sinal. Ainda miúdo, escaparam-se-lhe as palavras todas com um susto que apanhou por causa de um cão que, na verdade, não lhe chegou a fazer mal, mas que era enorme e negro e lhe aparecera de repente e sem aviso. 

Já homem, muitas vezes, era apenas o “Mudo” e, com o tempo, tinha encontrado uma forma astuciosa de usar a seu favor a pena das pessoas que lamentavam muito mais do que ele próprio o facto de não conseguir falar. 
Era mudo, mas não era surdo. Desenrascava-se bem com os gestos e sabia perfeitamente como chegar onde queria. O tempo que seria de falar, usava-o para pensar e observar outras vidas e assim fora desenhando a sua, de forma irrepreensível. Tudo estava perfeitamente alinhado e medido para cada um dos seus dias. 
Naquela manhã, ainda cedo, ia ver o lixo e procurar uma qualquer coisa de valor no contentor verde, perto do cemitério do bairro. Mais difícil do que permanecer pendurado de forma perfeita entre a parte de dentro e a parte de fora do contentor, era conseguir encontrar alguma coisa que valesse o esforço. O valor das coisas, ele achava-o conforme o uso que lhes atribuía e de tal forma tinha aprimorado as suas recolhas que nem o mais pequeno músculo de seu corpo se moveu quando, saída a direito do contentor verde, a sua mão lhe mostrou um saco cheio de notas. Sorriu ligeiramente e colocou-o de parte, como fazia sempre. Chegaram-lhe às mãos outras coisas que foi ignorando, entre as quais um relógio de parede, uma boneca de pano, um bebé e um chapéu de senhora.
O “Mudo” olhou o tempo e cumpriu-o, respeitando o costume de ali passar trinta minutos todas as segundas feiras. Passado esse tempo, recolheu o saco das notas e saiu. Passou a porta do cemitério, virou à direita, depois à esquerda e chegou a uma casa amarela. Empurrou a porta, entrou e dirigiu-se devagar ao cofre grande que dava por mobília junto a um colchão atirado a um canto de uma vida passada fora dali. Abriu-o e colocou lá o saco das notas. Atribuiu-lhe um número e deixou-o à espera. Sorriu ligeiramente, como fazia sempre.

Tomou banho, vestiu-se e saiu. 

Era um homem bonito e, às vezes, muito bem vestido. Chamava-se Nuno. Ouvia perfeitamente, embora não falasse. E tinha encontrado uma forma astuciosa de usar a seu favor a pena das pessoas que lamentavam muito mais do que ele próprio o facto de não conseguir falar.


Maria Teresa Bondoso

domingo, 22 de fevereiro de 2015

 
 
MIRADOURO 08 / 2015





Cabeção. Dois dias de trabalho, com os meus Irmãos, nas velhas vinhas herdadas de avós e pais. Podar as cepas, limpar as oliveiras e queimar ramas e vides. Soube bem. Amassou o corpo mas deu para limpar a cabeça, relativizar contradições, pacificar emoções que de vez em quando descambam em stress. Como prémio adicional o facto de, apesar de os trazer sempre comigo, me sentir muito próximo dos meus progenitores. Quase sentia, na entrega àqueles trabalhos, que os homenageava em cada gota de suor.
Alterou-se a paisagem rural da minha terra. As tradicionais culturas têm vindo a perder espaço para outras que exigem menos desvelos e dispensam o acompanhamento permanente.
Os frutos secos (pinheiro manso) têm vindo a ocupar terra outrora consignada a vinhas e olivais. Ainda me lembro quando, aqui há uns anos atrás, os senhores da CEE atribuíam subsídios para arrancar oliveiras. O meu Pai ficou incrédulo “agora pagam-nos para não trabalhar?” foi o comentário desconfiado. Não arrancou nenhuma. Para além do mais por uma questão afectiva. Aquelas árvores tinham sido plantadas pelo seu Pai e meu Avô. Creio que, como era hábito nele, tomou a decisão mais certa.

Depois de financiarem o desinvestimento na Agricultura, Pescas e Indústria a troco de subsídios e empréstimos chorudos os senhores da CEE puseram-nos ondes nos queriam.
Ou seja, numa posição de dependência total mesmo em áreas em que tal não era necessário ou se justificasse. Claro que contaram com a colaboração de políticos nacionais vendidos a interesses que não os dos povos mas que decerto acautelaram os seus interesses próprios, incluindo-se aqui os da sua tribo mais chegada.
Quem assim nos colocou sabia ao que vinha, jogava um jogo com várias etapas. Quando nos viram assim vulneráveis e indefesos puseram em prática a usura e agiotagem. O resto é o que se sabe. Perda de soberania e de direitos sociais. O pacto social, construído ao longo de décadas ou séculos entre estados e cidadãos, atraiçoado e destruído em poucos anos. Os donos da Europa instrumentalizaram políticos sem valores, projectos, ideias ou dignidades em serventuários de projectos que não nos servem nem permitem crescer. E quando perante tanta subserviência rastejante alguém se ergue em defesa dos mais desfavorecidos e desprotegidos, amplificam a voz do dono bradando a plenos pulmões que há que esmagar a sublevação.
Não sou grego nem pertenço ao Syriza, não conheço sequer em pormenor qual o seu programa político, mas congratulo-me com a voz que tem levantado em nome do respeito pela dignidade humana. O mesmo poderei dizer em relação ao Podemos aqui na vizinha Espanha.
Os tempos estão difíceis, a luta é deveras desigual e não sei como tudo acabará mas há atitudes que nos resgatam a esperança e avivam a chama de um orgulho que transportamos em nós: Somos humanos. Sentimos, pensamos, podemos escolher. Podemos dizer sim ou não. E é a consciência disso que nos torna a alma maior.
 
Manuel João Croca

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sabia que a burka é proibida no Algarve desde MDCCCXCII?


Biocos.jpg (102891 bytes)


A nossa costela árabe a funcionar... 
Uso da burka ou do chador proibido no Algarve:

«Faço saber que pelo regulamento policial d’este Governo Civil, de 6 do corrente mês, com execução permanente, aprovado pelo governo, determino o seguinte:

Artigo 32º – É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito o uso dos chamados rebuços ou biôcos de que as mulheres se servem escondendo o rosto.

Artigo 33º – As mulheres que, nesta cidade, forem encontradas transgredindo o disposto no precedente artigo serão, pelas vezes primeira e segunda, conduzidas ao comissário de polícia ou posto policial mais próximo, e nas outras povoações à presença das respectivas autoridades administrativas ou aonde estas designarem, a fim de serem reconhecidas; o que nunca terá lugar nas ruas ou fora dos locais determinados; e pela terceira ou mais vezes serão detidas e entregues ao poder judicial, por desobediência.

Parágrafo único – Esta última disposição será sempre aplicável a qualquer indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com vestes próprias do outro sexo e como este cobrindo o rosto.

Artigo 34º – O estabelecido nos dois precedentes artigos não terá lugar para com pessoas mascaradas durante a época do Carnaval, que deverá contar-se de 20 de Janeiro ao Entrudo; subsistirão, porém, as mesmas disposições durante a referida época, em relação às pessoas que não trouxerem máscara usando biôco ou rebuço.

Artigo 41º – O presente regulamento começa a vigorar, conforme o disposto no 
Artigo 403º do código administrativo, três dias depois da sua publicação por editais – Governo Civil de Faro, 28 de Setembro de 1892. – Júlio Lourenço Pinto.»

Raul Brandão escreve a propósito do biôco (ou biuco) algarvio, no seu livro "Os Pescadores", em 1922:

"Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.

É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho.

É uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?... Fitou-nos, sumiu-se, e ainda - perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque..."

Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”

Oficialmente a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX em que foram vistos os últimos biocos.


  Margarida Castro

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Quaresma


Acabou o carnaval, uma parte bela da vida dedicada mais ao exterior, para se seguir uma outra parte, também bela, que é a vida interior. Com a quarta-feira de cinzas começa a quaresma (quarenta dias antes da Páscoa) em que cristãos e muitos não cristãos procuram dedicar espaço também para o jejum e abstinência. Quaresma é, para os cristãos, um tempo de purificação em que se participa na entrega e sofrimento da vida de Jesus, para preparar em si mesmo a realização da Páscoa. Trata-se de superar a rotina da vida para possibilitar a experiência da vida interior. Com o jejum adquire-se maior sensibilidade e maior presença de espírito nas relações humanas e espirituais.

Segundo a tradição, o jejum e abstinência implicam uma tríade: jejuar, rezar e dar esmolas. Tudo isso deve acontecer no silêncio e discrição para se não alimentar a ambição nem o narcisismo; isto tem como finalidade purificar a pessoa de maneira que se torne mais aberta e sensível para o próximo e para Deus, para o corpo e para a alma.

Há várias formas de jejum, entre elas, renúncia a tabaco, álcool, dispensa de doces, jejum do Telemóvel, do querer levar a sua avante, etc. Deste modo fortifica-se também a vontade e ajuda-se a suportar a frustração. As satisfações exteriores diminuem-se um pouco para beneficiar as interiores. Tem-se o benefício de se sentir um tempo, uma pausa do habitual aparentemente inútil e sem um objectivo concreto. Isto possibilita a vivência de experiências diferentes das habituais e dá oportunidade à criatividade e à intuição.


António da Cunha Duarte Justo


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Ideias Políticas


Foto de Lucas Rosa


O Tempo Livre


Empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia. 
(Agostinho da Silva, Considerações,"Por um fim de batalha", Textos e Ensaios Filosóficos I, Âncora Editores, p.117)

A propósito das propostas de regulamentação do serviço profissional que têm vindo a ser implementadas nos últimos tempos por novas tendências políticas, tem-se vindo a propor generalizadamente que o número semanal de horas de trabalho deva ser, pelo menos, de 40 horas. Alguns setores profissionais, sobretudo entre o funcionalismo público, vêm-se batendo pela preservação das 35 horas, como uma conquista libertária a que se chegou, antes da pressuposta crise económica que atravessamos.

Ao que parece, a par das políticas de austeridade que se instalaram no nosso país, tornou-se moda de mau gosto, grosso modo, o aumento do número de horas de trabalho e a diminuição dos salários, o corte de alguns feriados e a redução do número de dias de férias, entre outras medidas económicas igualmente neo-depressivas. É que nem ao Carnaval nos queriam deixar brincar.

Considerando nós que mais tempo de trabalho constitui uma medida repressiva que corresponde a uma perca de liberdade, já que menos tempo passamos a ter disponível para livre usofruto da Vida, não podemos deixar de achar que esta "modinha" liberal nos está a pôr a pata em cima e a carregar com força.

Ora, pelo contrário, num país em que o desemprego muito aumentou devido a estas novas políticas, em vez de carregar alguns com mais horas de trabalho, antes se devia de o reduzir e distribuir o excedente do serviço por quem não o tem. Como há muita gente que precisa de trabalhar, assim se "matavam dois coelhos com uma só cajadada", quer dizer, ocupavam-se os mais necessitados e libertavam-se os mais sobrecarregados. Pois não é a liberdade o grande chavão da democracia?

É a partir deste tipo de leveza, apostando numa melhor organização política da Vida, que acabará por se trocar depressões coletivas pelo beneficio de todos. Palavra de ordem interessante aquela dos tais mosqueteiros em que eram pela capicua literária de "Um por todos e todos por Um", em vez da voragem insaciável da indústria dos números.


Luís Santos

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

OS AMIGOS DO QUINTAL


O GATO PLIMPLIM


O gato Plimplim
Gosta muito de brincar!
Atirou a bola ao ar
E ouviu tlimtlim.
O que foi?
Um prato que acabou de quebrar!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (119)

Máscara, Autor António Tapadinhas, 2002
Acrílico sobre papel Canson 400g, 32x24cm

Em 2002 fiz um cruzeiro nas Bahamas. Saí de Miami no luxuoso paquete “Majesty of the Seas”, direito a Nassau, onde bebi rum no “Nassau´s Pirate Pub”, passei um dia numa ilha minúscula com o nome de ”CocoCay”, concessionada para uso exclusivo dos participantes no cruzeiro, onde nos vinham servir as bebidas enquanto nadávamos nas suas águas cálidas. E nem digo quem e como nos serviam as bebidas…
Depois desta viagem de sonho, ao contrário do que seria de esperar, escrevi um conto de terror, que tem o seu início em Nassau. 
Este meu trabalho, que serviu para ilustrar o conto, é inspirado nas máscaras nativas que estão presentes em quase todas as lojas para turistas. 

António Tapadinhas

domingo, 15 de fevereiro de 2015



MIRADOURO 07 / 2015

ESBOÇOS, DIVAGAÇÕES

Quando às vezes nos sentimos mais à deriva e vulneráveis somos assaltados pelo medo de naufragar. É um medo legítimo porque se trata de reacção perante perigos eminentes.
Nessas situações, invariavelmente, procuramos âncoras.
Âncoras.
Pais, Filhos, Família, Amigos;
Princípios, Valores, Cultura.
A cada um é permitido ou mesmo recomendável invocá-los, convocá-los, elegê-los.
Importa é que o sejam de facto, e que aí não se verifiquem demissões.
Nossas ou alheias.
Quando se trata de resistir, a solidez e confiança são condições indispensáveis.
Estancar o(s) medo(s).
Resistir, Conceber, Projectar, Construir.
A construção do futuro aconselha-o.
Um desfecho positivo exige-o.

Manuel João Croca




Foto: Edgar Cantante

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Dueto


a casca e a noz

escrevo para o Rio enquanto escreves lugares
trago a rocinha e o Vidigal na memória foi o
meu principio de menino do rio, voas para o
rio de Janeiro na época do carnaval  no mesmo
caminha de Drumond e que eu fiz Itabira Rio
Ipanema, o que tu vais fazer daqui a pouco por
24h um caminho que une poemas vamos escrever
versos sobre a distância mais querida zona sul do
corpo desejado nas ruas da praia e das minhas,

José Gil 



DIA DOS NAMORADOS
Um poema declamado que vos deixo muito a propósito para este dia romântico.

Poderá ver e ouvir no link abaixo e, celebre em apoteose o dia de S. Valentim.



Euclides Cavaco



O Paradigma da Liberdade em Agostinho da Silva


por Maurícia Teles da Silva
Presidente da Associação Agostinho da Silva


A ideia de liberdade é transversal à vida e obra de Agostinho da Silva, que foi em si mesmo, em pensamento e acção, o paradigma de ser libertário no sentido de que o homem se soltasse de todas as cadeias que o oprimem interior e exteriormente. “Tudo o que limite a liberdade é desordem, não ordem”- escreveu no seu Caderno de Lembranças.
São as suas palavras que melhor evocam o exemplo a seguir: “É certamente admirável o homem que se opõe a todas as espécies de opressão, [...] os espíritos nasceram para ser livres e a liberdade se confunde, na sua forma mais perfeita, com a razão e a justiça, com o bem” (Considerações, 1ªed.,1944). O perfil traçado para Temístio, pode caracterizar perfeitamente a sua própria índole – “um esforço de indivíduo que reconheceu o caminho a seguir e que deliberadamente por ele marcha sem que o esmoreçam obstáculos ou o intimide a ameaça”.
Agostinho da Silva, pelo pensamento e acção, sempre recusou tudo aquilo que acorrenta o indivíduo e o torna egoísta, teve como objectivo a livre procura do verdadeiro, na superação do supérfluo.
"A primeira condição para libertar os outros é libertar-se a si próprio" (Considerações e outros textos, Lisboa, Assírio e Alvim, 1989, p.62). Esta foi a acção que empreendeu, preconizando um novo tempo em que "o voto fundamental da pessoa deve ser, de facto, o voto à liberdade", bem o concretizou nas múltiplas circunstâncias da vida. (...)


(in, folhas à solta, boletim da Associação Agostinho da Silva, Jan./Fev 2015, Nº 58)

Nota: Hoje, dia 13 de Fevereiro, assinalam-se os 109 anos do nascimento de Agostinho da Silva

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Etnografar a Arte de Rua (VI)


Graffitar a Literatura


Graffitis fotografado por Luís Souta, 2015-2016,
Rua Frederico Arouca, Cascais / Pai do Vento (sul), Alcabideche.


«Our soul is a spray can» (hip hop graffiter dixit).

Ao escritor a caneta, ao pintor o pincel, ao escultor o martelo e o cinzel, ao graffiter a ‘spray can’. Cada um destes artistas, escreve, desenha, pinta, esculpe o que lhe vai na “alma”. Então a “soul” são os instrumentos – a ‘spray can’, a caneta, o pincel, o martelo e o cinzel – ou os produtos que deles emanam  – o romance, o quadro, a escultura, o graffiti?

graffiter (não confundir com os que se “expressam” pelo bombing) é um artista plástico que desenha e pinta na rua (paredes de casas, muros, pontes, viadutos e outros “não-lugares). Ao darem-nos as suas obras, deliciam-nos a custo zero. Ao tornarem a arte (a sua “soul”) pública, prestam também um valioso contributo na recuperação dos espaços urbanos degradados. E só por isso, as câmaras municipais deviam considerá-los “artistas residentes” e aboná-los em conformidade.


Luís Souta


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

FANTASIANA E OUTROS LUGARES

PENSAVERSANDO


NUMA SALA DE AULA
Aqui,
sentada,
numa sala de aula,
revejo-me
               do outro lado.
Revejo-me nas mãos que escrevem,
afogueadas,
revejo-me num olhar,
num suspiro:
“Ai tanta coisa para fazer!”,
“O que será isto?”
“Terei tempo?”

Revejo-me
no som da caneta que percorre a folha,
a folha que revira no ar,
um olhar que se perde no tecto, na janela...
(lá fora está tão lindo, tão quentinho... quem me dera não estar aqui, agora, entre
quatro paredes!)

Revejo-me
num gesto que segura a testa (não fujam as ideias!), 
ou apalpa a bochecha bem vermelhinha...

Revejo-me...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (118)

Reflections on the Water, André Derain, 1906
Óleo sobre Tela, 80x99cm

Amor do meu olhar
(indecifrável, inconfessado, irrevelado)
Encontramos no silêncio
A linha eterna do tempo
Amor indecifrável do olhar
Onde navegamos sem amarras
Ondulando no espaço aberto
Unindo margens navegáveis
De velhos desertos ancorados
Nos passos incertos marginados
Percorremos as brumas densas
Maduras de vidas milenares
Amor inconfessado do olhar
Onde mitigamos cores sonhadas
No brilho das estrelas iniciais
Permitidas nas noites siderais
De velhas planícies revisitadas
Na luz certa das madrugadas
Navegamos sem destino
Sabendo certo o rumo do sul
Amor irrevelado do olhar
Onde crescem memórias acesas
No lume da era primordial
Perene e inerte aos sinais
De velhos templos sagrados
Nos momentos certos iniciados

© Cristina Fernandes

domingo, 8 de fevereiro de 2015




MIRADOURO 06 /2015


M E D I T E R R Â N E O



Mediterrâneo,
mar interior, navegações de dentro.
Barriga de três continentes: Europa, África, Ásia.
Ponte de culturas, berço de civilizações.
Rotas que aproximam,
caminhos de encontro ao outro e a nós.
Anais, deserto, oásis.
Azeite, pão e vinho.
Mediterrâneo,

as vogais igualam as consoantes.

                                  MJC


sábado, 7 de fevereiro de 2015

Alecrim




por Miguel Boieiro

A serra da Arrábida é famosa pelas suas paisagens deslumbrantes e pela flora endémica com características específicas do clima mediterrânico e da Macaronésia (regiões insulares do Atlântico-Norte).
No entanto, se quisermos simbolizar numa só planta, toda a pujança florística da serra, cremos que a espécie mais representativa é a Rosmarinus officinalis, vulgarmente conhecida por alecrim.
De facto, o alecrim é espontâneo e profuso na serra da Arrábida, desde o sopé até ao Alto do Formosinho (seu ponto mais elevado). E como se trata de um arbusto perene e aromático, florido em praticamente todo o ano, a sua presença dominadora avassala o visitante.
O alecrim é conhecido e estimado desde os tempos mais remotos. A sua fama entrou nos domínios da lenda. Conta-se que no século XIV, a rainha Isabel da Hungria conseguiu, aos 72 anos, graças a uma mezinha à base de alecrim, fazer-se apaixonar loucamente pelo rei da Polónia.
O cancioneiro popular português coloca a planta num pedestal e até o grande Chico Buarque da Holanda não desdenha “um cheirinho de alecrim” de teor revolucionário, numa das suas cantigas.

Mas vamos à descrição:
O Rosmarinus officinalis é um arbusto da família das Labiadas, com caules lenhosos, ramos flexíveis e folhas pequenas, opostas, lineares, coriáceas e persistentes, cuja face superior é verde e a inferior, branco acinzentado. Chega a atingir dois metros de altura, sobretudo nas zonas mais abrigadas, como é, por exemplo, a vertente sul da Arrábida.
As pequenas flores são azuis claras, algo esbranquiçadas, tomando, por vezes, uma coloração violácea. Possui, como se sabe, um cheiro intenso a cânfora e incenso e um sabor fortemente aromático.
A planta dá-se lindamente em terrenos alcalinos, pedregosos, secos e soalheiros, mas não se importa se lhe derem um solo de horta cheio de húmus, onde cresce facilmente e adquire um verde mais carregado.

Anote-se que a constituição química do alecrim tem muito a ver com a natureza dos solos onde se desenvolve. Basicamente contém de 1,5 a 2,5% de óleo essencial, ácidos orgânicos, cânfora, vitaminas do complexo B, cálcio, magnésio, potássio, ferro, saponósidos e outros compostos.

O infuso de alecrim dá uma bebida estimulante que deve ser evitada por quem tem insónias ou hipertensão. O óleo tem imensas aplicações, sendo utilizado em tratamentos de aromaterapia, produtos de beleza (lembrem-se da tal rainha da Hungria), “aftershaves”, saunas e outros banhos de vapor.
São conhecidas as suas propriedades como espécie expectorante, antibacteriana, digestiva, antisséptica, tónica e excitante.
É recomendado para fadiga, dor de cabeça, má digestão, gases, bronquite, sinusite, gastrite, reumatismo e fortalecimento da memória.
Para as inflamações da garganta deve deitar-se uma chávena de água a ferver sobre 4 gramas da planta, deixando repousar durante 10 minutos. Beber três chávenas por dia a seguir às refeições.
Para o reumatismo, deitar na água do banho um infuso concentrado de 50 gramas para um litro de água.

Resta acrescentar que o alecrim é também usado em culinária, na perfumaria e na topiária (jardins ornamentais). O mel proporcionado pelas flores de alecrim é altamente conceituado pelas suas superiores qualidades terapêuticas.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Livros d'África



 XAKOLO MONANGUMBA (Paulo C. J. Faria)

Nasceu na aldeia de Kahunga, província de Malanje, em 1973. Frequentou o Seminário Médio e Maior na Arquidiocese de Luanda. Pertenceu à Companhia de Jesus. Cursou Filosofia e Humanidades na Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Católica Portuguesa. É Doutor em Ciências Políticas e professor da Universidade Agostinho Neto em Luanda.

É do seu segundo livro que vamos falar um pouco. Intitula-se “MAKAS* DA BANDA”, foi publicado em 2001 pela “Campo das Letras”, e tem como inspiração a tradição oral angolana ensinada pelos mais-velhos porque, lá diz o ditado kimbundumudikanu diá muadikimi mubola mazué, ki mubole mbimbi, que é como quem diz,na boca do ancião apodrecem os dentes, não a palavra”.

Numa espécie de prólogo, começa por afirmar:(…) Por isso, esta escrita não é a escrita de Camilo, de Queirós, de Tolstoi, de Fédor, que magnetiza a inteligência do que lê, mas é o palpitar da literatura capaz de traduzir ansiedades, inquietude e problemas graves de um povo. Se o fizeram Neto, Troni, Viriato, Jacinto, Andrade, Vieira, porque não eu? Todos eles fizeram da literatura a expressão da sociedade.”

E continua fazendo uma chamada de atenção que acaba por ser a sua declaração de intenções:(…)Todavia desengane-se a artilharia dos académicos, exorcize-se o guardião da Língua, porque aqui, no Rocha Pinto*, não há academias, não existem oficinas das belas-artes. Chamai o que quiserdes a esta escrita: nua de erudição, vaporosa, bagagem de vento e piropo… chamai tudo!, mas crede que este modo de ordenar é sadio e insuflado pela sabedoria oral do povo. Entendestes agora por que ao Camões, o nosso grande Camões, não lhe chego à sombra dos calcanhares? Se sim, então, começa-se.

Como, então, vamos chamar a esta escrita? Deixo-vos um cheirinho para que possam ajuizar:
“(…) Rolava o dia 28 de Agosto de 1980, quando, pela hora nona, ouvi uma gritaria seca, lá no outro lado da rua, no sopé da vivenda, a única que havia no bairro Rocha Pinto. Pertencia ao dito cujo de que te falei atrás. Mas que importa ele ser ricaço, se até a sua roupa interior eu consertava? Vamos ao que interessa.
A meninada toda junta era um enxame de abelhas. Entoavam aos saltos a cantiga costumeira daquele dia:
“Ti Vinti i oito, vinti i oito de Agosto, paga só brinquedos, paga só brinquedos!”
O kamanguista* não punha resistência àquela gritaria e logo começava a atirar brinquedos por cima do muro. Cumpria sempre esse rito sem nunca se mostrar a ninguém; mesmo aos pequenos, aos queridos do Reino, não os deixava passar. Sempre que saía, fazia-o sob escolta. Mas se ele fugia da sua própria sombra, quanto mais da sua gente?!
Os brinquedos eram de formato belicoso. Nem bolas, nem bonecas havia. O insólito estava para acontecer. No final da oferta, ao invés de brinquedos, começou a cair uma centelha de resmas de papel caligrafado. Os kandengues amotinados, numa luta de puxa-puxa, tentavam apanhar o máximo de folhas que podiam e que, por ironia, voavam tão longe quanto mais lhes punham a mão. Rasgavam-nas uma por uma. Uns faziam papagaios, outros pequenos barquinhos e as meninas confeccionavam bonecos com uma perfeição quase divina. Só lhes faltava andar para ensinar aos mais velhos as veredas de paz e falar para rogar por um segundo dilúvio sobre esta terra de fogo e de pão amassado pelo rabo do canhão.”

Felicitações Xakolo Monangumba, irmão malanjino, e que o teu caminho prossiga livre de escolhos agora que se calaram os canhões.

Tomás Lima Coelho

* makas – discussões, problemas
*Rocha Pinto – nome de um dos musseques (bairros-de-lata) de Luanda.
*kamanguista – negociante de diamantes.
*kandengues – miúdos, garotos.