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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (98)

Procissão Senhor Jesus da Chagas, António Tapadinhas,
Ano 2008, Óleo sobre Tela, 80x70cm

Procissão
Recebi a chamada de uma amiga que me pediu para colaborar na angariação de fundos, para a Misericórdia do Barreiro. A sua ideia era organizar, com quadros doados por um vasto leque de artistas, uma exposição de pintura com uma característica especial: Todos os quadros teriam o mesmo preço, independentemente do seu valor comercial, ou da notoriedade do pintor. Concordei com o pedido e acertei a data da entrega.
Seleccionar uma obra para doação é menos complicado do que avaliar professores...
Quando percorri mentalmente as que tinha em casa e que eu considerava concluídas, lembrei-me, quase de imediato, da solução perfeita para o problema: Tinha recentemente dado por acabado um trabalho que tomou conta de mim, seguindo um caminho que eu nunca tinha imaginado. Passo a contar:
Num belo Domingo de Abril, acho que foi a 16, data do meu casamento, fui com a família às tradicionais festas de Sesimbra.
Era dia de procissão e quando passou o andor com a imagem do Senhor Jesus das Chagas, fiquei impressionado: A imagem do Senhor, de alguma maneira falou comigo. Não era minha intenção mas acompanhei durante algum tempo a procissão, para tirar fotografias. 
Quando finalmente tive as fotos em meu poder, o maior problema foi seleccionar aquela que seria melhor para a tela que tinha projectado. Depois de um sem número de esboços acabei por me decidir por uma que cumpria algumas das premissas que tinha imposto: Cristo não podia olhar de frente, porque os olhos das imagens não têm beleza, mas tinha de estar em primeiro plano. Queria dar nota do envolvimento da multidão de devotos e das forças vivas que acompanham estas cerimónias. Feita a escolha, pus mãos à obra.
Não tive qualquer espécie de problema com o esboço que fiz. Tinha na minha memória, nítidas, as cores que queria plasmar na tela. Mas... as cores do Cristo na imagem, ficavam mortas, como as dos bonecos de barro, e eu não gostava do que via... A pouco e pouco, fui trazendo vida à imagem com as cores da carne palpitante e do
“sangue a gorgolejar das artérias abertas
pressuroso e vivo
como vermelhas minhocas despertas...”
Tanto realismo colocou Jesus de castigo no meu estúdio: Na minha casa todos ficavam impressionados com o Cristo sofredor e cabisbaixo... – Outra vez – pensei. Esta imagem, do século XVI, segundo a lenda, foi lançada ao mar pela mulher de Henrique VIII, quando da revolta dos anglicanos contra o papado, e recuperada perto do Cabo Espichel. Obra sobre um tema religioso, que não tinha grande futuro na minha casa. 
Solução perfeita para uma oferta à Misericórdia, não acham?
No dia da inauguração da exposição, quando comecei a dar a volta para ver os quadros expostos, ao chegar ao meu, já tinha o sinal de vendido. Durante o beberete, a minha amiga apresentou-me a senhora que comprara a obra e que queria falar comigo. Depois das banalidades sociais da ocasião, a senhora disse-me:
– Quando entrei, vi imediatamente o Senhor Jesus das Chagas, de que sou muito devota. A expressão que lhe deu, apesar da sua situação, não revela sofrimento e traz-me muita paz e conforto. É por isso que o quero na minha casa – disse-me, com os olhos a brilhar. 
A tristeza e o sofrimento do Senhor Jesus das Chagas, no meu lar, transformou-se, por milagre, em paz e conforto, na casa da devota senhora.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (91)

Decalcomania, Magritte, 1966


A DANÇA DE UM LOUCO

Todos os dias, um homem sério e responsável, de emprego estável, família perfeita, casa grande e carro novo, se levantava cedo. Fazia trinta minutos de passadeira, seguidos de um banho rápido, um copo de água natural e um prato composto de modo exemplar por cereais e fruta fresca.
Todos os dias os seus pais estavam ainda vivos e moravam perto. De caminho para o emprego, a pé, parava e dava um beijo à sua mãe antes de cumprimentar educadamente o dono da papelaria onde comprava o jornal. Aí, olhava com interesse a prateleira dos cigarros e quase hesitava um sorriso por se ter conseguido livrar finalmente daquele vício.
Todos os dias sorria serenamente enquanto continuava o seu caminho até chegar a uma porta onde se lia «HOSPITAL PSIQUIÁTRICO»

Todos os dias um homem completamente louco dançava com um cisne.

Lá fora, a vida fazia-se outra vez enquanto um líquido transparente lhe percorria as veias e lhe fechava os dias num quarto que partilhava com outros doentes. No hospital, uma pena completamente branca era recolhida, já sem surpresa, pelo enfermeiro de serviço e ele adormecia serenamente. 
Todos os dias.



Maria Teresa Bondoso

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (63)

The Last Feed, Paula Rego, 2012
Pastel sobre Papel, 159,7x120,2


Na exposição da Galeria Marlborough Fine Art, que decorreu entre Janeiro e Março de 2013, Paula Rego apresentou este quadro, em que se reconhece a figura de Aníbal Cavaco Silva, a mamar nos seios de uma adorável velhinha.

Não concordo com o título do quadro, “Última mamada”, porque é arriscado dizer “desta água nunca mamarei!”

António Tapadinhas

segunda-feira, 17 de junho de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (33)

Hyde Park, André Derain, 1906Óleo sobre Tela, 66x99cm
DOIS LADOS

Ele olhava-a carinhosamente.
Sentia-se feliz por estar ali, e as suas mãos, aquecidas pelo sol – ou talvez pelo amor – afagavam levemente a toalha.
Amava profundamente aquela mulher
As nuvens desenhavam flores no céu e a areia da praia brilhava como quem brinca às cidades de luz. A espuma branca do mar tocava as mãos da mulher e sussurrava segredos de amantes. O vento acariciava-lhe o rosto e, pelo calor das palavras contidas, pintava nas faces um rubor encantado.
Amava-a profundamente.
O banco de madeira recortava a paisagem e deixava marcada por dentro dos olhos uma imagem de corpos entregues ao cansaço delicioso do amor já feito. A pele macia tocava-lhe – apenas – as mãos e deixava a eternidade naquele instante de tempo.
Sentados lado a lado, adivinhava-se o amor.

Ela olhava-o com impaciência.
O calor estava a tornar-se insuportável e ele não parava de mexer na porcaria da toalha.
Que homem detestável e desinteressante.
Para piorar a situação, parecia estar prestes a cair uma daquelas chuvadas…
Gelava-lhe o vento as mãos cansadas de evitarem o toque da espuma cinzenta e suja trazida pelo mar revolto da tarde.
Perto dali, via-se um banco de madeira velho, feio e sujo. Nele, sentado, estava um homem completamente bêbado que vomitava uma mistela vermelha cujo mau cheiro apenas se assemelhava ao do homem que a acompanhava naquela tarde de azar.
O seu corpo reagiu instintivamente ao cheiro pestilento dos dois homens e afastou-se, sem, no entanto, conseguir evitar um ligeiro toque entre os dois corpos – o dela e o daquele homem detestável e desinteressante a quem um dia tinha jurado amor eterno.
Um arrepio de nojo tingiu-lhe de vermelho a cara e a alma.