“Gosto imensamente destes grandes silêncios, porque então ouço-me a mim mesmo, e vivo mais em cinco minutos de solidão do que em vinte horas de bulício.” (Machado de Assis)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

ETNOGRAFAR a ARTE de RUA (XXIV) Graffitar a Literatura



Graffiti fotografado por Luís Souta, 2014
Travessa da Ressurreição, 11, Cascais.

«Eu julgava que nos distinguíamos dos animais por uma razão mais elevada, 
mas, afinal, o que nós temos mais do que eles é imaginação.»
(Terra de Nod, Judith Navarro, 1961:172)

As fábulas, que ouvi quando miúdo, eram o reino da imaginação, apesar de começarem, invariavelmente, assim: ‘No tempo em que os animais falavam…’ Então, eram também os animais pensantes que me davam belas lições de vida. E foi essa linha que retomei no meu mais recente livro Bichos à Solta (Lisboa: Edições Vírgula - Chancela do Sítio do Livro, 77 p., Dezembro 2016). Pus golfinhos, baleias, rãs, cavalos, hamsters, esquilos, cães, gatos, flamingos, cegonhas a ‘escrever’… postais à minha filha mais nova.

E deste modo «regressamos a uma das mais poderosas e intemporais intuições da humanidade, a de que os animais falam e comunicam com os humanos. Os mitos, tradições e lendas das mais diversas culturas falam-nos de um tempo em que as diferentes espécies de seres comungavam e comunicavam entre si, não estando ainda separadas e fechadas pelas barreiras do medo, da agressão, da estranheza e da indiferença. Essas narrativas evocam uma harmonia original do mundo e da criação que não deixa de suscitar uma irresistível saudade, por mais que o que nos dizem pareça hoje estranho a muitos dos nossos contemporâneos, filhos de uma civilização que se afasta cada vez mais da natureza e do convívio com as vozes e os afectos dos seres não-humanos.» (Prefácio, p. 13)

Bichos à Solta é um livro juvenil (ou talvez não) que conta, num registo epistolar, 25 estórias (todas ilustradas por Lionor Dupic e Constança Souta) que «constituem uma profunda lição de educação ambiental», nas palavras de Paulo Borges (FL-UL) que assina o prefácio.

O corvo marinho de faces brancas (ou cormorão), deste graffiti do Muraliza 2014 que Third, o autor (Nuno Palhas, nascido em Vila Nova de Gaia, em 1979) associou à fundação do município de Cascais - 1364), não foi incluído neste meu nono livro. Na terceira parte da obra, andam por lá outras aves, como a mais alta da fauna portuguesa –  o narcísico flamingo:

«E é por essas zonas mais sossegadas e protegidas que muitas aves migratórias, como nós, os flamingos, descansam na longa viagem entre o norte da Europa, frio, e a África, a sul, quente. Por ali nos “reservamos”, sempre em grupo, naqueles sapais das antigas salinas, nos esteiros da Moita, ou até na baía do Seixal, de águas baixas e ricas de vida piscícola. Nesse período, não nos esforçamos em grandes voos. Antes nos miramos nas águas tranquilas enquanto vamos tratando da nossa plumagem de tons rosa. Somos um pouco narcísicos, confesso. Mas não descuramos as “refeições”: o nosso longo pescoço em Z, desaparece por entre as penas, quando mergulha, em movimento rápido, à procura de alimento.» (Flamingos, a elegância bizarra, p. 58)

e as cegonhas parteiras que a ciência escolar tratou de varrer do imaginário infantil, em nome de uma educação sexual positivista e precoce (?):

«Como reparaste, somos uma ave de grande porte, mas de movimentos lentos e tranquilos (nada que se compare com o nervosismo saltitante de pardais ou andorinhas). Estamos em sintonia com estas serenas planuras do Sul que nos acolhem. Adoramos viver na Comporta, a caminho das praias de Tróia, e nos férteis arrozais de Alcácer, nas margem do Sado, fontes do nosso bem estar. (…) Já te questionaste por que apreciamos os pontos altos para nidificar? Não é a mania das alturas ou o simples prazer de olhar o mundo de cima para baixo. Talvez seja para nos resguardarmos do Homem, não se pode confiar nele (…)» (Cegonhas-brancas do Sado, p. 60)

Bichos à Solta, disponível em http://www.sitiodolivro.pt/Bichos-a-Solta ou na Livraria Ferin (Baixa de Lisboa), é um bom presente para filhos, netos e todos os adultos que se preocupam com a defesa do Ambiente e dos Animais.

Luís Souta

PS: A todos os leitores do Estudo Geral, desejo um novo ano com boas leituras e empenhamento (crítico) na causa Ecológica.

BICHOS À SOLTA


Caros/as colegas e amigos/as

Venho dar-vos uma sugestão para este Natal; um bom presente para filhos, netos e todos os adultos que se preocupam com a defesa do Ambiente e dos Animais: o meu (nono) livro - Bichos à Solta (Lisboa: Edições Vírgula, Chancela do Sítio do Livro) que foi hoje publicado.

Trata-se de um livro juvenil (ou talvez não) que conta, num registo epistolar, 25 estórias (todas ilustradas pelas minhas filhas Lionor e Constança) onde as personagens principais são golfinhos, baleias, rãs, cavalos, hamsters, esquilos, cães, gatos, flamingos, cegonhas. Estes postais «constituem uma profunda lição de educação ambiental», nas palavras de Paulo Borges (FL-UL) que assina o prefácio.

Estará disponível na página da "Sítio do Livro" ou na Livraria Ferin, na Baixa de Lisboa.

O vosso feedback é desejado através de comentários, críticas e recensões. Agradece-se a divulgação, naturalmente.

Um grande abraço (editorial e natalício) de amizade.
Boas Festas

Luís Souta


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Aroeira



Não vos venho falar dos primorosos loteamentos com “charmosas” vivendas que ficam perto da praia da Fonte da Telha (concelho de Almada). O sítio ficou a chamar-se Aroeira, prosseguindo uma tradição toponímica ligada à botânica, frequente no nosso país e creio mesmo que em todo o mundo. É curioso que a povoação que antecede a Aroeira denomina-se Verdisela (concelho do Seixal) que também é nome de planta, mais conhecida por corriola.

O termo popular “aroeira” designa vários arbustos ou árvores de espécies diferentes da família das Anacardiaceae. No Brasil, por exemplo, as aroeiras são árvores que dão pelos nomes científicos de Schinus molle ou Schinus terebinthifolius. Tais espécies, oriundas das faixas tropicais, são conhecidas em Portugal por pimenteiras bastardas e podemos encontrá-las amiúde nos jardins urbanos. Mas não são essas que iremos abordar, muito embora elas possuam também valiosos atributos medicinais.
Vamos antes falar de um vulgaríssimo arbusto espontâneo e dióico, nativo da região mediterrânica e da Macaronésia (ilhas dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde), cujo nome é Pistacia lentiscus L. Existe praticamente em todo o país sendo mais frequente no sul. Forma densas matas de copas arredondadas, com ramos frondosos desde a base, podendo atingir 4 metros de altura. As suas folhas persistentes, coriáceas, lanceoladas, glabras (sem pelos), têm uma coloração verde um pouco brilhante. As flores surgem minúsculas, vermelhas ou amarelas e sem corola. Os frutos, aos cachos, são pequenas drupas apiculadas e avermelhadas que enegrecem quando maturam. Os caules, não muito grossos, são, no entanto, duros, resistentes e flexíveis.
A aroeira medra em terrenos incultos nas charnecas e florestas e mesmo em áreas costeiras, já que resiste bem à salinidade.
Na “Flora Portuguesa”, Gonçalo Sampaio aponta também outra espécie, a Pistacia terebinthus que se distingue da lentiscus por ser de folha caduca, entre outros pequenos detalhes diferenciadores.
Fazendo incisões nos caules, surge uma oleorresina que, segundo Aloísio Fernandes Costa em “Elementos da Flora Aromática”, é pobre em constituintes voláteis permitindo, por destilação, a separação de essências. Destas, o constituinte mais predominante é o pineno.
Os antigos, nomeadamente Teofrasto, Plínio e Dioscórides tinham esta planta em grande conta. Na ilha grega de Quios ficou famoso o mastique, resina aromática e translúcida baseada no látex extraído do tronco da aroeira. O mastique era usado em odontologia por possuir uma boa atividade antibacteriana. Além disso, fortalecia as gengivas e eliminava o mau hálito. Tanto a mastigação do mastique como os bochechos da decocção das folhas e dos caules podem ser usados como dentífricos naturais para combater a piorreia, a gengivite e a parodontose (degenerescência dos tecidos de fixação dos dentes). A citada resina é também mencionada para aromatizar o pão e os biscoitos e como constituinte de um licor denominado “mástika”.
Em “Flores da Arrábida”, José Gomes Pedro refere que o óleo da aroeira pode ser usado na alimentação e a madeira na indústria de marcenaria.
Alguns autores mencionam que a aroeira é boa para combater catarros pulmonares, gota e reumatismo e que as folhas são boas para feridas, hemorragias, picadas de insetos e diarreias.
Segundo Oliveira Feijão e José Salgueiro, as bagas da aroeira entram na preparação do, outrora muito famoso, óleo-da-mata.  A sua confeção é muito simples:
- Ferver 300 g de bagas bem esmagadas com um pouco de mastique num litro de azeite, até que a água contida nas bagas evapore. Espremer. Arrefecer. Filtrar e guardar ao abrigo da luz e do calor.
O óleo-da-mata é muito eficaz para debelar dores reumáticas e artroses.
Vamos experimentar?

 Miguel Boieiro

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

FÉRIAS, DOCES FÉRIAS!


Ontem já havia o sabor do lazer pelo ar; boa parte da manhã, por exemplo, foi preenchida pela visita de palhaços e do pai natal da Junta de Freguesia que ofereceu um estojo de madeira com lápis de cor a cada criança. 

Mas hoje foi a sério e após um convívio em torno das merendas que os alunos levaram e de uma saída antes da hora habitual, finalmente, a palavra mágica ganhou a sua razão de ser. 

VIVAM AS FÉRIAS! 

E pela primeira vez na sua vida, a minha querida filha Matilde vai experimentar o quanto é bom ter o tempo todo para brincar depois de cumprida a obrigação. 

Pois eu tenho a certeza que o pardalito merece. 
Ai e o piolhito também. 

Sexta-feira, pelas dezoito e trinta, serão as reuniões de avaliação. 

Tenho para mim que a Matilde tem atingido os objectivos nas diferentes disciplinas. Sempre resolveu muito bem os trabalhos de casa e, pela observação dos cadernos, não só mostra a regularidade de uma boa prestação em todos os exercícios como, no caso da escrita, o seu progresso entre a garatuja e as letras bem desenhadas foi rápido e notório. Além disso, sabe descrever o que faz nas aulas ou nas outras actividades para-escolares e, posteriormente, tanto se mostra capaz de recapitular a informação aprendida como de a aplicar em situações exteriores aos respectivos contextos de aprendizagem. 
Ora tudo isto deixa antever um comportamento adequado, quer ao nível da atenção com que se entrega ao trabalho, quer no plano da normalidade das atitudes disciplinares. 

E no recreio dá gosto ver a sua alegria em brincar. 

Pois hoje tive uma surpresa suplementar. 
A Margarida esqueceu o chapéu-de-chuva na sala de aula e após o almoço parámos na escola para pedirmos a alguma das empregadas que ainda ali se encontrassem que tivesse a gentileza de permitir a recuperação do objecto. 
E não é que uma Auxiliar, vendo a Margarida ao lado da mais nova, perguntou-lhe: 
“-Tu és a irmã da Matilde?” 

Que terei eu feito para merecer tamanha felicidade? 



Voltou a chuva ao seu papel de música de fundo da noite. 


Alhos Vedros 
  17/12/2003

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (235)

Inverno, Autor António Tapadinhas, 2008

 Acrílico sobre tela 100x100cm

Foi a ouvir o concerto para violino e orquestra, “As Quatro Estações”, de Vivaldi, que encontrei a inspiração para executar este quadro. Logo no início, os acordes dissonantes da orquestra lembram os gélidos ventos e a queda de neve, com o violino em escalas descendentes e harpejos, imitando o canto dos pássaros ávidos do calor do sol. Curiosamente, quando procurei a ilustração para esta postagem, surgiu-me esta encenação do concerto em que as cores dos fatos dos personagens são iguais às que utilizei no meu quadro. 
Esta obra foi feita por mim com as mãos a tremer de frio, a ser atingido pelos ventos cortantes que, apesar das portas e janelas fechadas, entram pelas frinchas do meu estúdio…
Mas é com o coração quente que desejo a todos os amigos um Feliz Ano Novo!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

APROXIMAÇÕES À SABEDORIA ANTIGA

Abdul Cadre
Dizia o grande místico Karl von Eckartshausen que «A verdade absoluta não existe no reino dos fenómenos. Nem sequer nas matemáticas a encontramos, porque as suas regras e princípios estão fundados em certas hipóteses respeitantes à grandeza e à extensão, já por si de carácter fenoménico. Mudem-se os conceitos fundamentais das matemáticas e o sistema inteiro será modificado».
Assim, dizer-se que uma dada ordem de coisas ou de saberes tem quatro, ou nove, ou doze graus, partes, modos ou o que mais se queira é falar-se de critérios quantitativos, de convenções, de codificações, de espírito analítico e nada mais.
O homem, para poder entender os enigmas, os segredos e os mistérios, divide – que é o pressuposto da análise – e estabelece convenções – que é o corolário de todas as sínteses – para que, a partir de um saber codificado e aceite o entendimento recíproco seja possível e as transmissões dos códigos e o método dessa transmissão se estabeleça. 
Na administração do saber, nas universidades medievais, usava-se um conjunto de quatro disciplinas – Aritmética, Geometria, Astronomia e Música – que se designava por QUADRIVIUM. Esta base quadrangular requeria, de quem pretendia alcançar a mestria nas artes liberais, a coroa do TRIVIUM, que compreendia a Gramática, a Dialéctica e a Retórica, disciplinas estas que, vistas à luz dos nossos dias, poderíamos chamar de ciências da linguagem, para acrescentarmos que é precisamente a fala, organizada em sistema coerente e simbólico, o que mais nos distingue das espécies animais que habitam connosco este planeta. Tal culminar em SETE remete-nos necessariamente para a simbólica da construção: uma casa, como a desenhará qualquer criança, é um triângulo sobre um quadrado.
Esta associação do triângulo com o quadrado também podia ser tomada de forma menos prosaica e menos profana se nos lembrássemos que o sagrado tetragrama da cabala aparece gravado no centro de um triângulo, símbolo que, por sua vez, se ostenta no pórtico de muitas igrejas cristãs. É o nome de Deus, que não se pronuncia e apenas se soletra: Iod, He, Vau, Hé.
Quando o Dr. Gerar Encausse, vulgarmente referido pelo seu nome iniciático de Papus nos propôs, no seuTraité élémentaire de Science Occulte, analisar as questões da Pristina Sophia, tendo em atenção as quatro realidades tradicionais – Deus, o Universo, a Natureza e o Homem – certamente que não ilidiu o pressuposto de que a chave mestra da descodificação humana é o triângulo, isto é, o número três. De tal forma não ilidiu que, na mesma obra, declarou que toda a doutrina oculta se pode classificar em três secções fundamentais: os princípios, as leis e os factos.
Quanto a nós, a convenção básica de todo o entendimento tradicional é a triunidade – como é Acima é em baixo – ou, em termos dialécticos: tese, antítese e síntese (mercúrio, enxofre e sal) e representa-se pelo triângulo. Em correspondência com esta convenção, que resulta duma dependência incontornável, todas as escolas esotéricas e iniciáticas, por mais que possam comportar uma grande pluralidade de graus, em boa verdade têm apenas três e não mais do que três, e tudo o mais será espelhismo, necessidades pedagógicas e convenções particulares que se justificam mais na História e na cultura do que na Tradição e nas condições de iniciação.
Voltando ao tetragrama e seguindo o pensamento de Papus, diríamos o seguinte: o Iod, como princípio activo e símbolo da Teogonia, falar-nos-ia de Deus, do todo primordial; o primeiro Hé, como princípio passivo e símbolo da Cosmografia, falar-nos-ia do universo; o Vau, como princípio equilibrante e símbolo da Androgonia, falar-nos-ia de como a relação alquímica Deus-Universo produz o sal, o traço de união que é o Adam Kadmon. Por fim, se quisermos ver representado no segundo Hé o regresso à unidade, ou realização total em todos os planos vamos ter de admitir, realçando o indisfarçável sinal de repetição do Hé, que realizar não é um grau, mas o escopo de todos os graus, e assim voltamos à simplicidade das coisas, propondo-se: 
1º Grau do saber. Diz respeito aos FACTOS. Estes correspondem à natureza, ao plano onde o homem tem por veículo animal um corpo de carne. Neste grau, o homem de ideias e ideais é chamado, mas só o discípulo em prova se pode dizer que é escolhido.
2º Grau do saber. Diz respeito às LEIS. Estas correspondem ao universo e exigem, do estudante, consciência do corpo astral. Por isso lhe chamamos discípulo aceite. 
3º Grau do saber. Diz respeito aos PRINCÍPIOS. Estes correspondem a Deus e exigem, do estudante, a consciência da alma imortal. O discípulo passa a ser um com o Mestre e é tradicional chamar-se-lhe filho do Mestre. 
Este tratamento esquemático pode parecer uma tentativa de subverter o entendimento teosófico dos cinco estágios do discipulado, mas afirmamos que não. Segundo o nosso ponto de vista, a razão é esta: a Teosofia fala de um quinto estágio, que seria o de Iniciado... Ora, iniciado não é estudante, ou não é estudante neste plano. Por outro lado, não se pode considerar estágio autêntico e autónomo de discipulado o de «homem de ideias» porque não está na senda; quando estiver, como mais atrás dissemos, será então um discípulo em prova. 
Esta é uma aplicação, se se quiser, da navalha de Occam, princípio de busca respeitado em ciência, nomeadamente em Parapsicologia, o qual postula que a teoria explicativa mais simples de um facto ou fenómeno será mais válida do que aquela que introduz complicações desnecessárias.

Quarta-Feira, Novembro 09, 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (234)


Paisagem, Autor António Tapadinhas, 1994
Óleo sobre tela, colada sobre platex (28x34)

Este foi o meu primeiro quadro (1994). Quando o pintei, no estúdio do Mestre Pina da Silva, ele fez um ar de surpresa e agrado, que me deixou muito orgulhoso e disposto a continuar a pintar. Esta continua a ser a obra preferida da minha filha, Elsa. Estou farto de trabalhar para ver se consigo mudar-lhe a opinião. Até hoje, ainda não consegui...
Não há amor como o primeiro...

sábado, 17 de dezembro de 2016

Quer saber o que vai acontecer ao IMI no seu concelho em 2017?


Manuel Henrique Figueira

Querem saber o que vai acontecer ao IMI no vosso concelho em 2017?
E no resto do país também?
E se quem tem filhos irá beneficiar do chamado IMI Familiar?

Para já, várias coisas se podem concluir dos dados disponíveis:

1.ª - Quase 30% dos municípios baixou a taxa (uns de livre vontade  a Santa Eleição Autárquica de 2017 está à porta e costuma fazer milagres , outros a isso foram obrigados, pois a taxa máxima, que era de 0,50, passou a 0,45 (a).
Os restantes 70%, aproximadamente, manterão as taxas do ano anterior.

2.ª – A Autoridade Tributária já divulgou as taxas de 298 dos 308 municípios.

3.ª – Quase metade das câmaras irá aplicar a taxa mínima, 0,30, para já, 143 fizeram-no.

4.ª – Há já 211 câmaras que aplicarão a redução do IMI Familiar (20 euros para 1 filho; 40 euros para 2 filhos; 70 euros para 3 ou mais filhos).

Podem ver o mapa aqui:

http://www.jornaldenegocios.pt/economia/impostos/imi/detalhe/mapa-saiba-se-o-seu-municipio-e-um-dos-que-vai-baixar-o-imi-em-2017?ref=DET_maislidas

(a) Excepto as câmaras que estão sujeitas ao PAEL (Programa de Apoio à Economia Local) ou ao PAM (Programa de Ajustamento Municipal), que podem ir até 0,50 de taxa.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Versículos


(Natureza)
O instinto e o raciocínio juntos,
a poesia e a ciência,
que maravilha.

 Luís Santos
(Aprendizagem)
Os livros e o conhecimento,
O saber dos analfabetos
Tudo bom,
Que boa é a emoção da Vida.

Como definir a ignorância?



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Nasruddin, o mestre-escola e os ratos de laboratório


José Flórido

Estamos condicionados. E dificilmente somos capazes de nos libertar deste condicionamento e pensar por nós próprios. Pois, tanto é peso do meio envolvente, que exerce sobre nós uma influência asfixiante! Por isso, aquilo que vulgarmente se chama "cultura" não passa muitas vezes de um somatório de conhecimentos dispersos, desordenados e sem dimensão espiritual. Uma espécie de "culto das exterioridades"... (sobre isso, teremos ainda muito que falar...)
   Gurdjieff advertia frequentemente os seus discípulos dessa realidade. E referia-se ao facto das bibliotecas conterem muitos milhares de livros, escritos por "adormecidos" para outros "adormecidos". Assim, o sono pega-se com facilidade e é quase impossível acordar. É que este "saber", de que tanto nos orgulhamos, apresenta-se muitas vezes divorciado da vida, sobrevalorizando determinadas realidades em detrimento de outras. Vem então a propósito esta história:

   "Um dia, quando Nasruddin ajudava um mestre-escola a atravessar um rio de barco, disse, a determinada altura, uma palavra errada, que mereceu imadiatamente a reprovação do professor:

    - Nunca aprendeste gramática? - perguntou o mestre-escola ao barqueiro.
   - Não - respondeu Nasruddin.
   - Então, perdeste metade da tua vida.
   Mas, alguns minutos depois, foi a vez de Nasruddin perguntar:
   - O senhor nunca aprendeu a nadar?
   - Não - disse o professor.
   - Então, vai perder a vida toda, porque vamos afundar-nos.

   Estamos realmente condicionados. E, por isso, a nossa vida assume muitas vezes um aspeto puramente convencional e até mesmo "mecânico". As nossas palavras, os nossos gestos, os nossos atos são mecânicos, repetitivos, perdendo a espontaneidade e a criatividade. Por esse motivo, temos de estar "vigilantes" se nos queremos libertar, pelo menos parcialmente, desse condicionamento. Os nossos atos provêm de solicitações do mundo exterior que exercem sobre nós um domínio tirânico. Tanto as nossas ideias como as nossas ações são, por assim dizer, "fabricadas", de acordo com os interesses e os objetivos da organização social onde estamos inseridos. Tudo isto nos leva a pensar que não são unicamente os ratos de laboratório que podem estar "condicionados" (segundo a experiência de Pavlov e a sua teoria dos "reflexos condicionados"). Também o homem pode estar "condicionado". Por isso, o psicólogo inglês, Hans Eysenck, parodiando a experiência de Pavlov, contava uma engraçada anedota sobre o rato de laboratório que dizia para o outro rato: "Sabes... tenho um homem muito bem "condicionado". Sempre que carrego nesta alavanca, ele deixa cair um pedaço de comida para mim."


 joseflorido.weebly.com/textos 
9/12/2016

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Entrevista com o Professor Vitorino Magalhães Godinho, no “Público” de hoje, o investigador que trouxe a História feita por portugueses para o mesmo nível de modernidade do trabalho que se fazia na Europa Ocidental. 
Homem vertical, sofreu a perseguição da ditadura obtusa que subjugou os portugueses. Nem mesmo a sua reconhecida competência científica o livrou de ser expulso da Universidade de Lisboa onde leccionava. Mas resistiu e nunca se vergou perante a tirania. 
Agora, com oitenta anos, sente-se triste com o mundo que vê à sua volta. 
Diz que a democracia já não existe e que o capitalismo está dominado por grupos poderosos que impõem os seus interesses aos estados. (1) 

Visão sombria? 
A merecer reflexão, no entanto. 



Fala-se em quebra de três mil milhões de euros na cobrança de impostos, em dois mil e três, especialmente ao nível do IVA e do IRC. 
Em Portugal, os mais pobres continuam a suportar as melhorias na vida que a todos beneficiam. 



Hoje os alunos aprenderam uma nova palavra, uva, a respeito da qual fizeram os exercícios do dia. 

Mas amanhã será o último dia útil de escola. 
Na quarta, de acordo com a comunicação que o pardalito me deu para assinar, haverá apenas uma festa durante o turno da manhã. 
Depois… Vivam as férias! 


Sexta-feira, às dezoito e trinta, serão as reuniões de avaliação. 



Saddam Hussein deverá ter a possibilidade de um julgamento justo. 


Deus nos ilumine com a sua infinita sabedoria. 


 Alhos Vedros 
   15/12/2003 


NOTA 

(1) Magalhães Godinho, Vitorino, HOJE NÃO EXISTE DEMOCRACIA, p.38 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 


Magalhães Godinho, Vitorino, HOJE NÃO EXISTE DEMOCRACIA, Entrevista por Carlos Câmara Leme, In “Público”, nº. 5016, de 15/12/2003

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (233)



No Moinho de Maré de Alhos Vedros a Cacav Círculo no ano em que comemora 30 anos de existência abre portas à exposição de uma selecção de trabalhos realizados no projecto ÁGORA desenvolvido pelo Serviço Educativo do Museu Coleção Berardo. Depois da exposição que esteve presente no Museu, chegou a hora de a Vila de Alhos Vedros ver o que esta gente criativa andou a fazer.

Fabricia Valente

Aberto das 14h30 às 18h30, todos os Sábados, até 28 de Janeiro, excepto Natal e Passagem de Ano.


Selecção de António Tapadinhas

sábado, 10 de dezembro de 2016


A flor da pele

Estou a flor da pele
Conto os nanossegundos
Os minutos ignotos
As cinzas das horas
E os dias hialinos
Tempo que nunca passa
Martírio que nunca passa

***
No sábado negro
Sábado meu
Sábado nosso
Magnânima amada minha

***
Conto o tempo
Os nanossegundos
Os minutos
As horas
E os dias
Para ter-te sacrossanta
Por fim
Nos braços meus
Negra Valquíria

***
Conto o tempo infindo
Os nanossegundos
Os minutos
As horas
E os dias
O tempo que não passa
Para ter-te
Negra açucena em prantos
Somente para mim
No dia que nunca chega


Samuel da Costa
(in, diálogos_lusófonos@yahoogrupos.com.br )



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

"Aspecto Interior do Sacrifício" (excerto)


Agostinho da Silva (1906-1994)

[...] “O desprender-se da segurança e da comodidade, o mergulhar na incerteza e na dura restrição só para continuar fiel às bases em que assentou o pensamento e se quis fundamentar toda a vida é já a certeza, para aquele que verdadeiramente serve o espírito, de que segue o bom caminho, de que a sua posição adversa à grande massa é ainda aristocrática, isolada, como é preciso que seja. O cumprimento do dever, quando se não chama dever a uma imposição feita de fora, mas a uma aspiração sempre mais larga à posse de todo o mundo racional, jamais poderá ser olhado como um sacrifício que exige recompensa; antes me parece que uma tal oportunidade de ter experimentado as suas forças e vencido mais um grau na imensa e bela subida para o Ser apenas deveria provocar, nas relações com os outros, uma gratidão sincera e sólida por todo o conjunto de circunstâncias que permitiu o provar e ascender. [...]


   Há, no entanto, um outro aspecto que sobreleva em significação universal esta fidelidade de indivíduo a si próprio; o domínio do impulso dos sentimentos pelo calmo giro da razão é um esforço que leva o mundo para Deus, como as pancadas dos remos fazem deslizar o barco sobre as águas; no bom remador nenhum movimento é inútil para que o porto se alcance; de igual modo, no que bem pensa, nenhum acto da vida se perde para a salvação da Humanidade; e mais do que todos, dão marcha vigorosa ao barco em que vogamos, os que ousaram  as mais largas remadas, os que não temeram estoirar os músculos ao serviço do bem comum. No que mais vê objecto que sujeito anda espalhado o fim último dos homens: inteligência que em si compreende amor, beleza e justiça; consagrar-lhe a vida inteira, num momento ou em anos, é repartir-se por toda a Humanidade, arder nas várias chamas que de todos os peitos se elevam para o céu, congregá-las no fogo do trabalho que transformará o universo. A esta grande missão só uma linguagem desvairada poderá chamar sacrifício, só os cegos de espírito poderão dar por companheiras a resignação e a tristeza. Os que vêem mais alto e mais claro ardentemente desejam que sobre eles recaia a escolha do Senhor; porque sabem como as almas se dilatam, como as invade, as ilumina a alegria contínua e doce, quando sentem palpitar dentro de si, correr, expandir-se o grande mar de sonhos, de visões, de caridade e aspiração de justiça, que vai rolando poderoso e magnífico no mundo.”


Agostinho da Silva, Considerações, in Textos e Ensaios Filosóficos, vol I. Lisboa, 1999, Âncora Editora, pp.97,98 (Considerações - texto publicado pelo autor, 1ªedição, Famalicão, 1944)

(Nota do editor: Texto extraído do Boletim "Folhas à Solta", nº68, da Associação Agostinho da Silva)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

No Arabesco do Fio





Kity Amaral

técnica mista sobre canson
(Nanquim, lápis de cor aquarelado e colagem)
44cmx32cm
2008


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A PRISÃO DO TIRANO

Finalmente, tudo aponta para que seja uma notícia verdadeira, Saddam Hussein foi preso. 
É uma vitória dos aliados que deixa todos os democratas satisfeitos. Ainda que mereça um julgamento justo, um tirano como ele só terá a piedade dos acólitos. 
Mas é sobretudo uma vitória do povo iraquiano. 

Naturalmente, não terminarão aqui os atentados terroristas sobre as forças militares que procuram assegurar a estabilidade naquele território. Será mesmo de esperar que haja um aumento das acções militares nas próximas semanas. Quer aquilo que a partir de agora restar das forças leais ao ogre, quer os voluntários da Al-Qaeda que ali fazem a sua jhiad, ambos esses campos confluirão numa tentativa para aumentarem o flagelo das tropas e forças de segurança aliadas. Com toda a certeza, quererão mostrar que continuam vivos e actuantes. 
Mas esta captura tem um valor colateral da maior importância para os iraquianos. É que do ponto de vista psicológico, a população pode agora perder o medo e isso será fundamental para o seu empenho no processo de reconstrução do país. Agora todos sabem que o antigo regime está morto, será enterrado e não mais voltará. 
Além disto, há um outro efeito mais imediato e directo do ponto de vista militar. Sem o líder supremo e carismático, será mais difícil para os homens do partido baas continuarem a pôr em prática a sua resistência armada e, ao invés, os aliados terão assim mais e melhores oportunidades para desmantelarem esses focos de instabilidade. Com isso, ficarão no terreno apenas os terroristas da Al-Qaeda e o tempo encarregar-se-á de os isolar face aos iraquianos que, habituados como estão a um estado laico, preferirão uma vida normal e não aquela que a sharia lhes impõe. 
Se bem que por agora a guerra continue, tal como a batalha do Iraque ainda não tenha findado, este é, sem dúvida alguma, um passo importante na senda da pacificação daquele território. 



Pela minha parte, enquanto elas brincam com a amiga Beatriz, vou passar o resto da tarde com os olhos nos canais de notícias internacionais. 
O Presidente Bush fará uma comunicação às dezoito horas de Lisboa e Tony Blair já falou mas eu não ouvi. 

Mas isto já é suficiente para que este tenha sido um fim-de-semana emocionante. 



Cá estou eu de volta depois de uma tarde de notícias e leitura de Amartya Sen. 


Pois parece que o homem foi mesmo apanhado. 
“-Ladies and gentlemen. We got him.” –Disse Paul Bremen, logo na abertura da conferência de imprensa em que esta manhã mencionou o feito que terá ocorrido ontem, de madrugada. 
“-United States military forces, captured Saddam Hussein alive.” –Disse mais tarde o Presidente George W. Bush na comunicação que fez ao seu país e ao mundo. 

Por todo o Iraque se registam imagens de regozijo popular. 
Agora sim, o povo sabe que o tirano não mais voltará ao poder. 

“-O Rei Herodes ainda foi pior. Mandou matar os meninos todos.” –Disse a Matilde quando, à mesa do almoço para que fomos convidados, em casa dos meus pais, se comentou a prisão do tirano. 



Para os meus amores, hoje foi um dia de repouso, com brincadeiras e jogos na infância e jornais na idade adulta. 


Esta noite vamos orar pela paz no Iraque. 


 Alhos Vedros 
   14/12/2003

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

REAL... IRREAL... SURREAL... (232)


Olhão, Autor António Tapadinhas, 2008
Óleo sobre Tela, 100x100cm

XXVI - Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

 Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas.

Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!

Alberto Caeiro

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 3 de dezembro de 2016

IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis)

IMI
REGIÃO BAIXA TAXA MAS MANTÉM O IMI MAIS ALTO DO PAÌS
A tendência de redução das taxas do imposto já é visível, ainda assim, Setúbal é o distrito com a taxa média mais alta do país. E há apenas um município com a taxa mínima: Alcácer do Sal

Caros amigas, caros amigos:

Está cada vez mais presente na vida (e no bolso) dos munícipes um imposto, que, por sinal, considero bastante injusto na forma como é aplicado entre nós: trata-se do IMI.
Isto na medida em que, para a determinação da taxa a aplicar, não tem em conta, nem a protecção da casa de família, nem a composição do agregado familiar: concretamente o número de filhos.
É verdade que foi criado o IMI Familiar, mas é facultativo (só o aplicam as câmaras que o quiserem fazer), e contempla valores de desconto irrisórios.
Mas dentro da grande injustiça que representa, em geral, entre nós, a aplicação do IMI, talvez não saibam que a sua aplicação no todo nacional (nas 308 câmaras do país) é muito díspar.
Mas não só este facto está bastante ofuscado pela falta de informação, como há muito ruido e desinformação sobre este imposto, isto como forma de confundir as pessoas.
Para o contrariar, nada melhor do que analisar, tratar e apresentar os dados obtidos, esclarecendo, assim, quem quiser ser esclarecido.
É o que procurei fazer nos dois artigos que publiquei dia 15/11 no Diário da Região n.º 1250 (páginas 6 e 7).
Pode lê-los aqui:
Nestes artigos há 4 quadros que contêm a informação essencial, e, para melhor neles se analisar os dados que coligi, destaquei-os, o que permite a cada um dos leitores imprimi-los facilmente.
Podem aceder aos 4 quadros aqui:
Quadro 1:
Quadro 2:
Quadro 3:
Quadro 4:

Boa leituras.

Manuel Henrique Figueira
Munícipe em Palmela