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sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Homenagem a Fernão Mendes Pinto


por Miguel Real


HOMENAGEM A FERNÃO MENDES PINTO
NOS 400 ANOS DA PUBLICAÇÃO DE “PEREGRINAÇÃO”

INTERPRETAÇÕES DE PEREGRINAÇÃO: João David Pinto Correia, António José Saraiva e Rebecca Catz

João David Pinto Correia, num brilhante texto que opera a convergência de diversas leituras de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, apresenta esta obra como uma “tessitura textual muito complexa”, uma sorte de “confluência de várias espécies de discursos que se cruzam e se fundem numa vasta ordenação” dominada pelas categorias de “discurso narrativo” e discurso “autobiográfico”[1].

Neste sentido, e tendo em conta a dominância daqueles dois tipos de discurso, evidenciar-se-ia no texto de Fernão Mendes Pinto uma espécie de síntese de múltiplas categorias discursivas, do cruzamento e fusão das quais nasce justamente o texto literário: o discurso histórico ou historiográfico, o descritivo, o oratório, o dramático, o poético, de timbre lírico, o litúrgico e o epistolar[2].

Assim, enquanto texto autobiográfico e narrativo e devido ao seu tema principal (a vida do autor-narrador nas longínquas paragens do Extremo Oriente), Peregrinação entronca no vasto acervo da Literatura de Viagem escrita no século XVI: “um itinerário, ou uma relação de viagem, em que se apontaria, etapa por etapa, o conhecimento de lugares e populações” estranhas à mentalidade europeia[3], cujo título indicia uma espécie de provação existencial individual por terras incógnitas e exóticas de um “pecador peregrino”, uma sorte de “romagem de devoção”, na qual e pela qual o sofrimento vivido limparia os erros e pecados do autor-narrador[4].

Deste modo, João David Pinto Correia chama a atenção para o facto de Peregrinação não se constituir apenas como uma enumeração de factos (reais ou ficcionais), mas de apresentar igualmente “marcas de literariedade”[5] que testemunham estarmos de facto perante uma obra literária, apresentando “uma tensão entre um discurso coloquial (…) sem grandes pretensões estéticas, por um lado, e, por outro, um discurso literário, já narrativamente adequado ao suspense da narrativa e ao exotismo das descrições, já poeticamente organizado, de um barroquismo metafórico, ou então obediente aos cânones literários do classicismo”[6].

António José Saraiva, na introdução que escreveu para a edição de Peregrinação em quatro volumes da Editora Sá da Costa em 1961[7], realça ser o herói da narrativa um anti-herói ou um herói pícaro de timbre positivo, já que, com os lamentos do “coitado de mim”, suscitando o espírito sarcástico, coexistem “lágrimas e enternecimentos”[8]. Peregrinação estatuir-se-ia, assim, como expressão do esboroamento social e da decadência histórica da mentalidade feudal senhorial e cavaleiresca, activados por grupos soltos de mercadores portugueses não controlados pelo vice-reinado da Índia, mercadores que actuavam com o fito exclusivo de enriquecimento.

Segundo António José Saraiva, o autor, enquanto herói do seu livro, “tem a franqueza de nos declarar que a sua única preocupação é fazer fortuna. Conta as suas necessidades, misérias, fugas e os seus ataques de medo: «as carnes tremiam-me», diz frequentemente. Para salvar a vida é capaz não só de fugir, mas até de se rojar no pó, de caluniar o amigo, de beijar os pés do assassino”[9]; “desta forma, o herói principal de Peregrinação, como escravo, como miserável, como bobo, oferece-se ao riso dos leitores. É justamente um anti-herói, irmão de Sancho Pança. Não tem sombra de orgulho, de brio, de preceito. A noção de «honra» é-lhe inteiramente desconhecida. Dir-se-ia que o nosso Fernão Mendes Pinto quis apresentar o contraste, o avesso dos heróis empertigados de Camões e João de Barros, Este carácter do herói central é, porventura, a chave [de leitura] de Peregrinação e explica-nos numerosos episódios deste livro que de outra forma são incompreensíveis”[10].

Rebecca Catz, embora concorde quanto à natureza satírica de Peregrinação, tem, porém, sobre este livro, uma leitura muito diferenciada da de António José Saraiva.

Com efeito, esta autora critica de um modo muito sólido a vertente picaresca atribuída por António José Saraiva ao livro de Fernão Mendes Pinto, já que o facto de um texto ser autobiográfico, desenhar uma espécie de anti-herói, evidenciar episódios de miséria social e de cinismo narrativo não caracteriza necessariamente o texto de pícaro[11], embora seja comum à maioria dos textos satíricos.

Concordando que Peregrinação possui elementos pícaros avulsos, ou episódios em que o pícaro é dominante, a autora entende que o discurso dominante no texto possui as características da sátira. Escreve Rebecca Catz: “Sátira é, quanto a nós, retórica moral, e o seu propósito o de reformar [a sociedade, os costumes]. Ao mesmo tempo que critica males [descrevendo-os, narrando-os de um modo exemplar], estabelece o modelo positivo e aponta inexoravelmente o caminho para normas de moral elevada”[12]. E acrescenta, na Peregrinação “anda o diabo à solta; mas trata-se de um universo [social e literário] em que crime é um pecado contra Deus e o pecador ou se arrepende ou tem de responder perante Ele. Isto é, em nosso entender, o que o afasta do picaresco, um género literário isento de qualquer padrão moral normativo”[13].

Rebecca Catz critica igualmente a teoria sócio económica de António José Saraiva relativa à origem histórica do pícaro como “filho de uma ordem social agonizante, nutrido no solo espanhol, onde as suas energias [de origem cavaleiresca, fidalga, senhorial] se viam restringidas pelos valores de um sistema feudal já ultrapassado”[14], mormente transplantado para o ambiente social exógeno da Índia portuguesa e do Extremo Oriente. A autora considera forçada a extrapolação ou transplantação do pícaro, de origem eminentemente espanhola, para terras, ambientes e costumes radicalmente diferentes.

Em “Para uma compreensão de Peregrinação” (1989), Rebecca Catz regista ser este texto “uma obra de profunda filosofia moral e religiosa. A tese da obra, expressa simplesmente, é o pecado e o castigo. O impulso satírico que está nela patente é dirigido contra a ideologia de cruzada, que foi a maior força unificadora da história de Portugal. É isso, precisamente, que separa Fernão Mendes Pinto dos seus contemporâneos – porque só ele, no desabrochar da era do imperialismo europeu, teve a grande coragem, o discernimento e a perspicácia de pôr em dúvida a moralidade das conquistas ultramarinas, as quais condena como actos de bárbara pirataria, em ofensa a Deus”[15].

Por via do conceito retórico de “persona” (capacidade pela qual o autor literal ou histórico assume diversas vozes e/ou personagens), Rebecca Catz suplanta a visão picaresca de Peregrinação de António José Saraiva.

Assim, por via deste conceito, o autor-narrador do livro assume uma quádrupla dimensão:
a.  – a de voz moral, homem basicamente virtuoso e generoso;
b. – a de voz ingénua, como ser inocente, de coração simples, que suscita piedade;
c.  – a de voz heróica, capaz de desafiar e vencer o mal;
d. – finalmente, a de voz pícara, a “que revela a tolice e a patifaria dos outros dissimulando  uma aprovação, pela participação nele, do  mal que deseja condenar”[16].

 Miguel Real,
31 de Dezembro de 2014




[1] João David Pinto Correia, Autobiografia e Aventura na Literatura de Viagens. A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Lisboa, Seara Nova / Editorial Comunicação, 1979, p. 51.
[2] Idem, ibidem, pp. 53 – 54.
[3] Idem, ibidem, p. 26
[4] Idem, ibidem, p. 25.
[5] Idem, ibidem, p. 77.
[6] Idem, ibidem, p. 77.  (FALTA   MARIA ALZIRA SEIXO)
[7] Cf. igualmente António José Saraiva, “Fernão Mendes Pinto e o romance picaresco”, in Para a História da Cultura em Portugal [1961], Lisboa, Europa – América, 1972, 3ª edição, pp. 117 – 136.
[8] António José Saraiva, “Prefácio” a Fernão Mendes Ponto, Peregrinação e Outras Obras, Lisboa, Sá da Costa, 1961, 1º vol., p. XLIV.
[9] Idem, ibidem, pp. XXII – XXIII.
[10] Idem, ibidem, p. XXVI.
[11] Rebecca Catz, A Sátira Social de Fernão Mendes Pinto. Análise Crítica de Peregrinação, Lisboa Prelo Editora, 1978, pp. 94 – 95.
[12] Idem, ibidem, p. 95.
[13] Idem, ibidem, p. 15.
[14] Idem, ibidem, p. 95.
[15] Rebecca Catz, “Para uma compreensão de Peregrinação”, in Fernão Mendes Pinto, Peregrinação & Cartas, Lisboa, Edições Afrodite, 1989, p. 1033.
[16] Idem, ibidem, p. 1033.

domingo, 9 de dezembro de 2012

ENSAIO SOBRE O HOMEM DO ADEUS


Lisboa Imaginada, Autor: António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela, 90x90cm
ENSAIO SOBRE O HOMEM DO ADEUS

Parte I

O senhor João Serra como espelho de um certo Portugal

O senhor João Serra nasceu em 1930. Media 1,75 m.. Tinha cabelo branco comprido que lhe caia (ma non tropo) pelos ombros e em melenas sobre a fronte aristocrática. Tinha a pele muito branca. Ostentava, mas de forma quase imperceptível, uma cárie como emblema da sua penúria financeira. Articulava bem com um sotaque lisboeta e com uma pequena afectação “chique” que se arrastava um pouco em cada final de frase e que me transporta, sempre que o oiço, ao foyer do Hotel Avenida Palace no preciso ano de 1939. Usava óculos de massa preta a fazer lembrar um Yves Saint Laurent dos anos 70. Usava quase sempre cachecóis em contraste bonito com “canadianas” de cor clara. Fez a instrução primária em casa com um professor particular. Não casou, não teve filhos, nunca viveu um grande amor, não teve profissão, viveu sempre em casa dos pais, fez a instrução primária toda em casa com um professor particular. Com ambos viveu até aos 13 anos num palacete da Rua Tomás Ribeiro em Lisboa, quando os pais se divorciaram. Depois, viveu com o pai, durante muitos anos numa casa do Restelo. O pai montou-lhe um estabelecimento comercial em Lisboa que ele deixou falir em pouco tempo. Após a morte do pai foi viver com a mãe. Com a morte da mãe inicia, como numa espécie de travessia anti-heróica, o período mais bonito e mais trágico da sua vida. O velho Dicionário da Porto Editora de 1961 diz que “solidão” é “o estado do que está só”. O estado do senhor João Serra, segundo o Dicionário da Porto Editora de 1961, era o de um homem só. Morreu no ano de 2010.
«Essa senhora é uma malvada que me persegue por entre as paredes vazias da casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente».( Blogue O Adeus ao Senhor do Adeus, Dezembro 2010).

Um homem ao morrer, como qualquer outro ser, está irremediavelmente só. Mas um homem pode estar só e não estar, necessariamente, a morrer? Ou, pelo contrário, estaremos logo a morrer a partir do momento em que nascemos?

Quando o senhor João Serra veio para a solidão da rua para fugir à solidão da casa já estaria a morrer?

O senhor João Serra saía de casa todas as noites para fugir de si próprio, para fugir ao sofrimento de ser como era?

Que estado de alma, que acontecimento, terá produzido a gota de água que fez transbordar a taça que levou o senhor João Serra a quebrar a inércia da solidão caseira, ainda assim, confortável, para se lançar num outro tipo de solidão, menos confortável, mais barulhenta e até mais perigosa?

Terá sido a falta insuportável da sua mãe que lhe dava o escasso equilíbrio, as asas para se manter a voar? «Não voar é morrer!», terá, forçosamente, pensado o senhor João Serra naquela noite longa em que as paredes de sua casa ganharam vida.

E ganharam braços e ganharam mãos que o estrangulavam a mando daquela senhora malvada de cabeça desgrenhada, olhos coruscantes e trejeitos de louca.

«Viajámos muito os dois. Todos os anos íamos a Paris e Madrid. Conheço a Europa inteira, excepto a Grécia… Quando a mãe morreu fiquei desasado». (Blogue “O Homem que diz Adeus” Março 2005).

Então o senhor João Serra deve ter achado que vir para a rua podia ajudá-lo a respirar, que já sufocava lá dentro... E que comunicar com os outros, ainda que só através dum simples adeus de principezinho – que nem ensaiou e lhe saíu com naturalidade, naquela primeira vez que, a medo, experimentou – era uma forma de enganar a solidão, ainda que por breves instantes…

Dizer adeus a si próprio em frente dos outros era uma bonita forma de antecipar teatralmente, com um cenário de rua atravessada por automóveis com pessoas em fundo, o seu próprio fim. A preocupação da estética sempre presente; bastava olhar para a sua maneira de vestir, de falar, de ajeitar a melena…) Antecipar, encenando todas as noites, uma ideia delirante do seu próprio fim como forma de melhor receber o fim quando o fim fosse mesmo a sério… Como se enfim fosse, de uma assentada, actor, produtor e realizador do seu primeiro e último filme. De um filme que não precisasse da palavra “fim” para assinalar o fim porque todo ele seria, já e só, o fim.

«Sempre quis ser actor mas nunca me deixaram…». (Blogue “O Homem que diz Adeus” de Março 2005).

E ao desfiar as suas elucubrações por entre as lúgubres paredes de sua casa, soube finalmente - a par dessa outra dor que o deixou “desasado” - da dor imensa duma vida sem sentido. No baú dos sonhos perdidos, jaz o curso que não tirou, o trabalho que nunca fez, os filhos que não teve e, pior, o grande amor que nunca conheceu.

“Sinto-me só. Incompleto. Como se algo estivesse a falhar.». ( Blogue “O Homem que diz Adeus” de Março 2005).

Era dor a mais. Não aguentou. Decidiu mergulhar na rua.

Abraçou uma ocupação certa que nunca teve, um “part-time no Saldanha”. Ao princípio, parecia ser uma ocupação pouco digna, assim meio a fingir, mas esta foi, estou certo, a coisa mais séria que o senhor João Serra fez em toda a sua longa, imprestável e inconsequente vida. Finalmente saía do útero pós-materno e enfrentava o mundo – qual D. Quixote - à sua maneira, num gesto tão patético e tão lúcido quanto belo.

Mergulhou na rua como quem mergulha no vinho, para uma bebedeira. Um breve alheamento da dor “desasante” da solidão. Voar baixinho, viver à tira, à justa, à pele, mesmo que com a ajuda dum analgésico, é, apesar de tudo, voar…

E recomeçou a voar, ainda que muito baixinho, ali mesmo junto ao Saldanha. Os seus voos eram rasantes curtos e incertos. Mas voava. Nos primeiros tempos voava meia hora e ficava muito cansado. Com a continuação do exercício, a asa “desasada” pela dor que o “desasara” ganhou tónus muscular. Começou a equilibrar-se melhor e a aguentar mais tempo a voar.

Estou a vê-lo num vídeo no “You Tube”, em 2005, a dar uma entrevista na rua em pleno desempenho das suas funções; um exercício de “adeuses” de tocante beleza crepuscular (no sentido do seu contributo estético para uma forma de encarar a morte) com um “placard” em fundo cujo relógio marca 01,43 h. de uma qualquer madrugada.

“Chega por volta das onze, meia-noite. Começa pela zona do Monumental, vai descendo a rua até ao Marquês de Pombal e depois sobe, parando sempre em pontos estratégicos. Nunca falha.”, diz Arménio chefe de mesa da Marisqueira Maracanã, que já lhe serviu alguns jantares.». ( Blogue O Homem que diz Adeus - Março 2005).

Nesse vídeo quando o repórter lhe pergunta o que é que ele achava mal em Portugal ele responde que os portugueses cá não produzem nada mas que quando vão para o Luxemburgo, para a França ou para a Suiça são óptimos.

Ele também foi para o estrangeiro, não para trabalhar mas apenas para aprender inglês.

«Foram três anos fantásticos. Tinha um grupo de amigos fabuloso, com quem viajei imenso. Teria lá ficado se não fosse tão agarrado à família…O meu pai não sabia o que havia de fazer comigo. Decidiu mandar-me para Londres. Achava importante que eu falasse inglês fluentemente e eu fui. Ainda tenho saudades desse tempo. Foi uma festa do princípio ao fim. Inglês aprendi, mas não na escola como ele queria. Depois um dia decidiu que já chegava, cortou-me o dinheiro e mandou-me regressar». (Blogue “O Homem que diz Adeus”. - Março 2005.

Na minha pesquisa tropecei numa citação muito interessante que comparava o Senhor do Adeus com o mito urbano do “naked cowboy”: um homem que sai muitas vezes a dar uma volta na Times Square apenas com um chapéu de “cowboy”, as respectivas botas e umas cuecas. Não sei se o anti-herói nova iorquino irá ter direito a estátua. Por cá, há quem queira erigir no Saldanha uma estátua ao “homem do adeus”. Já corre, célere, nas redes sociais, uma colecta…

Mas, falta ainda desvendar o maior drama do senhor João Serra.

É uma espécie de “matrioska” só que com duas bonecas; um drama dentro de outro drama, qual deles o maior. A boneca maior é a ressaca. A boneca mais pequena é a bebedeira. Mas tinha dias em que a posição das bonecas se invertia e em que a boneca maior era a bebedeira e a boneca mais pequena era a ressaca, um dramático paradoxo…

A bebedeira, seja de que espécie for, nunca é eterna, desemboca sempre numa ressaca. Mas no caso do senhor João Serra a coisa complicava-se porque todos os dias a ressaca desembocava, inexoravelmente, numa nova bebedeira.

Isto foi o suplício de Sísifo do senhor João Serra. Extremamente penoso, extremamente custoso, nunca acabado. A dor da ressaca do regresso a casa conjugada com a dor do “torna-viagem” à bebedeira constituíram, para mim, a encenação mais completa e dramática da última parte da sua vida, porque também travestida de tanta coisa (das luzes da ribalta, do apagar das luzes, do “glamour”, da prostração, dos acordes dum fado, dum estremecer de silêncio...).

E garantiram, apesar de tudo, ao senhor João Serra durante alguns (poucos) anos uma existência q.b. mas, ao mesmo tempo, foram também os aceleradores da sua morte anunciada num adeus no Saldanha.

Depois…

O pressentir ficar só, o pressentir o fim, o pressentir só, o ficar só, o fim…



Parte II

O contributo do senhor João Serra para um outro Portugal

Há uma inegável similitude (ressalvadas as proporções, claro está) entre o percurso deste anti-herói com o percurso do próprio país. Este tipo de anti-herói nacional, para o país em que nos tornámos até não está nada mal. Empobrecido, deprimido, decadente, belo, dramático e a voar tão baixinho que estremecemos a cada batimento da asa “desasada” pois tememos sempre que vai “desasar” de vez…

Como o senhor João Serra também Portugal, em tempos idos viveu num grande palacete da Tomás Ribeiro, cobiçado por todos, até, dizem, pelo senhor Gulbenkian. Como o senhor João Serra, também Portugal andou tempo de mais num grande pagode.

“Que saudades tenho desse tempo…A casa estava sempre cheia de família e amigos…».(Blogue “O Homem que diz Adeus”. - Março 2005).

Mas, para já, também o “papá” cortou a mesada a Portugal…

Era bom que Portugal, de uma vez por todas, enfrentasse com a coragem do senhor João Serra – e, se possível, com a sua elegância – todos os seus fantasmas e saísse deste faz-de-conta interminável, saísse do pseudo útero em que se encasulou há tempo de mais e que cortasse, com uma tesourinha empunhada pela sua própria mão, o nauseabundo e sufocante cordão umbilical em que se enleou, nem que fosse para arranjar um qualquer “part-time” ali para o Saldanha…

O autor não aderiu ao “Novo Acordo Ortográfico”.

Autor: José Jorge Vinha

segunda-feira, 12 de março de 2012

INVESTIGAÇÃO SOBRE IMORALIDADE NA RIQUEZA - A Honra do rico é a sua Toalha


António Justo

Ricos mentem mais e têm menos consideração por outros, ensina o preconceito e confirma uma investigação.

Segundo uma investigação levada a efeito nos USA a riqueza atrai a violação da lei.

Nos USA condutores com carros de prestígio são considerados como impiedosos e atrevidos. Um estudo feito veio comprovar que isso corresponde à realidade. Pessoas ricas em autos ricos transgridem mais as leis do que pessoas com carros médios ou pequenos. Os cientistas da Universidade da Califórnia (Berkeley/US-Staat K.) chegaram também à conclusão que membros da camada social superior mentem mais que membros da camada social inferior. A ganância, para os mais ricos testados, não constituía, duma maneira geral, problema moral. Nas elites é prevalente a concretização dos próprios interesses. Naturalmente que não se pode generalizar porque também nas camadas superiores há muito boa gente que se orienta por fins superiores.

Ricos não têm consideração por muitas regras porque sabem que não sofrem as consequências directamente no pelo, porque partem do princípio que o dinheiro pode comprar quase tudo. O preconceito de que os ricos não tomam a sério a moral é apoiado por esta investigação. Não é fácil manter o equilíbrio entre os próprios interesses e os da comunidade.

Na nossa sociedade contorna-se a moral com muita facilidade. A usura praticada por especuladores da Bolsa (certos ordenados de banqueiros, de futebolistas e de muitos parasitas de empresas, Estado e instituições), fazendo o seu negócio com a insolvência de firmas e Estados à custa dos trabalhadores e dos cidadãos brada aos céus.

Não se trata de condenar quem é rico mas de lembrar que riqueza implica sempre uma componente e um dever social. Se mandássemos fazer uma investigação sobre a proporção de pessoas do crime registado, certamente que as encontraríamos muito mais nas camadas baixas. Isto apenas revela a mobilizaç1bo da agressividade latente em cada pessoal desde que se encontre em determinada situação.

Com investigações poder-se-iam fomentar ainda mais preconceitos dado a virtude e o mal espreitam em cada humano. Há muita gente rica com consciência social. O problema está mais nos super-ricos, que afirmam o seu negócio com agressividade tal como acontece na condução na estrada. A honra do rico é a sua toalha mas o pobre não deve ser privado duma toalha honrada a que se possa limpar.

Riqueza um Perigo ameaçador de Estados

Muitas vezes não se nota nos pequenos a sua corruptibilidade porque se limitam a pouca. A corrupção dos ricos usa uma medida e a dos pobres usa uma outra.
O que se possui deve provir, duma maneira geral, do próprio trabalho.

O Estado deveria intervir regulando a usura escandalosa. Quem ganha mais de 25 vezes do que o salário mínimo deveria ser condicionado a empregar o excedente em instituições de caracter cultural e social. Cada pessoa quer ser orgulhosa por algo, o que é legítimo. Uma igualdade de cemitério seria catastrófica como se demonstrou nos estados socialistas; uma desigualdade vistosa e imoral, como se observa no turbo-capitalismo destrói qualquer ética de coesão social.

A sociedade em que vivemos, atendendo à sua insegurança, não favorece o desprendimento. Por isso muito boa gente se vê obrigada a precaver-se do futuro, acumulando riqueza para si e para os filhos. Uma sociedade cada vez mais contra instituições morais, cada vez mais egoísta aposta na diferenciação exagerada. Disto sofre a humanidade.

Necessita-se uma cultura da dignificação da honra no oferecer. Uma maneira gratificante no oferecer seria ajudar directamente pessoas necessitadas ou prestar ajuda através de ordens e congregações onde vivem pessoas (sem ordenado material) que entregam a sua vida ao serviço do próximo sem olhar a quem.

O mérito social, a virtude, o cultivo do bem e do belo terão de ser tomados a sério pela sociedade, doutro modo, a riqueza de alguns torna-se num perigo público.

António da Cunha Duarte Justo

sábado, 9 de abril de 2011

O Tráfico de Seres Humanos é um problema à escala mundial

O tráfico de seres humanos não é somente um problema brasileiro, mas um fenômeno mundial que tem sido vivenciado por milhões de pessoas de diferentes lugares do mundo, muitos deles originários de países de língua portuguesa.

Essas pessoas ficam submetidas a trabalhos forçados para gerar lucros aos grupos de exploradores.

No Brasil o tráfico de seres humanos se encontra como a terceira maior fonte de renda gerada pelo tráfico. Perdendo somente para o tráfico de armas e drogas.

Dentre as principais vítimas, estão jovens em situação de grande vulnerabilidade, marcado por diversos problemas sociais, como falta de acesso a educação e condições dignas de sobrevivência. Muitos deles são aliciados, seduzidos pela possibilidade de melhorar as suas condições de vida.

Tráfico de seres humanos é o ato de transferir, alojar, raptar ou coagir através da força pessoas de uma localidade para outra podendo ser dentro ou fora do país, de maneira legal ou ilegal, voluntariamente ou não.A finalidade é para exploração do trabalho seja a serviço de redes internacionais de exploração sexual, da mão-de-obra escrava ou remoção de órgãos.

O medo que as vítimas sentem de fugir ou de denunciar o que está acontecendo são as principais razões para que o número total destas vítimas ainda seja desconhecido.

Este crime pode tomar diferentes formas, em combinações secretas com outros procedimentos ilegais: exploração infanto-juvenil, conflitos civis, trabalho forçado, pedofilia, migração ilegal e prostituição sob coerção. Especialistas chamam este crime de escravidão contemporânea.

O tráfico de seres humanos afecta todas as regiões do mundo e gera dezenas de biliões de dólares em lucros para os criminosos. É muito difícil avaliar a real dimensão deste crime, pois tem lugar clandestinamente e muitas vezes não chega a ser identificado como tal.

Quais são os países mais afectados?

O tráfico humano afecta todos os países do mundo, que podem actuar como países de origem, de trânsito, de destino ou mesmo como uma combinação entre eles. O tráfico ocorre muitas vezes entre países menos desenvolvidos e países mais desenvolvidos.
Em Portugal, desde 2008, já se identificaram vítimas provenientes dos seguintes países de origem:
Brasil
Moçambique
Argélia
Nigéria
Marrocos
Ucrânia
Roménia
Bulgária
Colômbia
Croácia
Itália

Países de trânsito:
Áustria
Itália
Espanha
França

Não feches os olhos a esta realidade! Tu podes ter um papel ativo. Denuncia.

Para saberes mais sobre tráfico de seres humanos em diferentes países e regiões do mundo,
• Consulta o Relatório Global da UNODC sobre Tráfico de Pessoas para conhecer a situação mundial
• Consulta o Relatório Anual sobre Tráfico de Seres Humanos 2009 para conhecer a situação nacional
. Para mais informações, por favor visita o site do Observatório do Tráfico de Seres Humanos.
. Conhece ainda os locais onde as vítimas poderão estar a ser exploradas e os países mais afetados.

Vê as ligações sugeridas para consulta no http://www.portalseguranca.gov.pt/index.php?option=com_content&view=section&layout=categorymaiblog&id=37&idh=350&Itemid=291

Consulta também as informações no http://feministactual.wordpress.com/category/trafico-humano/
http://www.onu-brasil.org.br/view_news.php?id=508
http://www.observatoriodeseguranca.org/relatorios/trafico
http://portal.mj.gov.br/data/Pages/MJ0A9BD4F5ITEMID894216FA4EA2427D987142B31FF7815CPTBRNN.htm

Denuncia!

Margarida Castro 04.04.11
Pela Democracia Participativa em língua portuguesa

sábado, 16 de outubro de 2010

Breve ensaio sobre a PERCEPÇÃO

Percepção:

Nome feminino

Acto ou efeito de perceber

Tomada de conhecimento sensorial de objectos ou de acontecimentos exteriores.

Resultado ou dados da percepção:

Noção; conhecimento

Figurado discernimento;

Percepção intelectual: acção de conhecer, pela inteligência ou entendimento, independentemente dos sentidos.

Certamente que há tempos bons e tempos maus, mas o nosso humor muda mais frequentemente do que o nosso destino. Nós provavelmente, não vemos as coisas como elas são, vemo-las como nós somos. Cada um tem uma percepção própria sobre um qualquer elemento que visualiza, quer real, quer abstracto. A percepção talvez seja uma tomada de conhecimento sensorial, e é provavelmente uma actividade consciente e portanto presupõe um estímulo que por sua vez deu origem a uma sensação. Assim, julgo que são todas as estimulações heterogéneas das diversas partes da retina que mudam constantemente enquanto o indivíduo se movimenta, o que nos dá a percepção global do meio que nos rodeia.O mundo está cheio de coisas mágicas que pacientemente esperam que a nossa percepção fique mais aguçada. Se as “portas” da percepção fossem limpas, tudo apareceria ao homem como realmente é: infinito. Assim é se lhe parece.

Corre Pé

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Cativar

por Fernanda Leite Bião (1)

“[...] – Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda.
– [...] Que quer dizer ‘cativar?’.
[...] – É algo quase esquecido – disse a raposa. – Significa ‘criar laços’...
[...] – Que é preciso fazer? – perguntou o pequeno príncipe.
– É preciso ser paciente – respondeu a raposa. – Tu te sentarás um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...” [...]

(Trecho do diálogo entre a raposa e o Pequeno Príncipe. In: SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. 48. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2009, p. 64-67. Tradução de Dom Marcos Barbosa.)

Na parábola de “O Pequeno Príncipe” (Capítulo XXI), de Antoine de Saint-Exupéry, o menininho se aproxima devagar, percebido é por ela – a senhora raposa. Faceiramente, munida de experiências marcantes da sua vida, ela se esconde, tem medo de ser caçada.
Mais passos são percebidos e os olhos da tal senhora estão ligados naquela criatura que se aproxima.
O menino percebe também um movimento e questiona quem seja. Assim começa o diálogo – estrutura de comunicação necessária ao estabelecimento de relações.
Em passos lentos, entre a necessidade de se esconder e de se mostrar, a permissão ao contato acontece. Um olhar curioso, um sorriso como sinal de intimidade e a capacidade de escolher começar, ou seja, recomeçar, de um novo começo sobre o conhecimento aprendido.
Sempre é tempo de experimentar novas possibilidades e novos olhares. Foi assim que a raposa medrosa permitiu ao menino curioso se aproximar. O medo dela se torna o prazer de tê-lo consigo e a curiosidade dele se torna o principio fundante para um novo olhar sobre a vida.
‒ Tu me cativas, menininho?
‒ Cativar, senhorinha?
‒ Sim, pois te esperarei. Você virá?
‒ Sim. Quero aprender a arte de brincar ‒ disse o menino.
A brincadeira é um jogo simbólico para a compreensão da vida. Uma fala representada por expressões de uma liberdade diferente.
Brincar de conquistar, brincar de cativar.
Olhos brilham e os corações se tocam. A respiração individual circunda no mesmo raio de espaço, tornando-se uma manifestação de relação.
Claro que preciso do outro. Do outro que também sou eu. Do outro que fui e do outro que serei.
A importância do outro está associada ao ato de cativar, de aproximar, de compartilhar vivências e florescer afetos.
Uma vez que o coração é tomado pela energia da presença de alguém, jamais terá o mesmo pulsar.
De pulinhos, esconderijos e aproximações, senhora raposa e o menininho passaram a se amar.
Do ato à vontade ou será da vontade ao ato?
É preciso movimento, persistência e a permissão do nascimento da vontade, para se estar junto a outrem. Vontade é o combustível para que o ato se torne realidade.
De ato em ato, o amor, que era só um desejo, um sonho, torna-se palpável, singular.
Conquistar é para as coisas. Nós, seres humanos, queremos é ser cativados!

(1) Psicóloga e Orientadora Profissional. Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).
E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.