Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves


quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Graffitar a Literatura (V)


“Dona Genciana em Cascais”


«o mundo é do tamanho do meu quarto»
(A Paisagem da Janela, Branquinho da Fonseca)


Dona Genciana era a personagem central de uma novela de José Rodrigues Miguéis que a descrevia deste modo:

«Assim era Dona Genciana: feita para reinar na moldura do serralho ou do lar. Visse-a você ali à janela, na bata de folhos engomados, o cabelo preto todo frisado a papelotes, cotovelos no peitoril, os seios fartos aninhados como pombos nos braços roliços, – e não resistiria a admirá-la como todos nós, os do tempo. Sugeria frescuras, grandes lavagens, bochechos de água de Botot, conchegos tépidos, colchões macios, noites regaladas. Vista de perto, não era nova, nem bela, nem elegante. Tinha mesmo o nariz avermelhado e grosso. Mas os seus olhos eram negros e rasgados, a pela alva e fresca, o cabelo abundante. E tinha essa fartura de carnes que, com o ardor dos olhos e as rendas e folhos, faz o nosso encanto: “Mulher asseada!” ou “Bom colchão!
(…)
Devia andar na casa dos quarenta e era viúva. Ainda hoje pergunto se ela seria, como diziam, ‘brasileira’, ou melhor, portuguesa de torna-viagem.
(…)
Alguma coisa ela devia ter de seu, para levar a vida assim à janela, a criar calos nos cotovelos, sem mexer uma palha. Mas dinheiro, se o tinha, nunca ninguém lho viu: dívidas tinha, e muitas.» (pp. 12-3) 
Imaginei-a um século depois e, em vez da pensão na (então nova) Avenida Almirante Reis, em Lisboa, estaria agora numa casa em Cascais, na Rua Nova da Alfarrobeira, 16A, onde Mário Belém concebeu um grande mural (cobre toda a lateral e a frontaria de um prédio de dois pisos), de que aqui se destacam apenas as suas janelas. Neste  seu novo contexto, seria possível ouvi-la, quando pela manhã, na abertura rotineira da janela, se apercebesse como aquela parede exterior estava renovada, animada de coloração e fantasia:
– Isto só pode ser obra de alguém que muito me ama. Como posso resistir a esta declaração de amor, em forma de graffiti?
Escancaro a minha janela e deslumbro-me com todo este mar de cores! A fachada branca ‘hospitalar’ do velho prédio (carcomido pelo tempo e pelo desleixo do senhorio) ganhou, de repente, a alegria explosiva das cores que nos enche a alma. Que moldura esta! Agora, ainda mais me regalo a vir à janela. 
Ao meu graffiter (tímido, suponho, mas ‘esbanjador’ de tinta) dou, naturalmente, um «sim» convicto. Confesso, tocou-me a sua arte e o meu coração está, de novo, pronto para novas e deleitosas ‘pinceladas’.
 Esta obra de José Rodrigues Miguéis (Saudades para a Dona Genciana. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1956; um «caderno» de 32 p. com desenho de Carlos Botelho) foi adaptado ao cinema por Eduardo Geada (1983), tendo recebido os Prémios do IPC aos Melhores Argumento (Eduardo Geada. Hélder Costa, Machado da Luz), Fotografia (Manuel Costa e Silva) e Actriz (Maria do Céu Guerra); o filme viria a estrear-se em 1985, no 1º Festival de Cinema de Tróia.
 Rodrigues Miguéis foi «escritor excepcional (…) o maior de todos nós», como o definia José Gomes Ferreira (A Memória das Palavras1965: 272). Autor de uma vasta obra que se desdobrou pelo romance (O milagre segundo Salomé, 1975, adaptada ao cinema por Mário Barroso, 2004), novela (Páscoa Feliz, 1932, Prémio Casa da Imprensa), conto (Léah e Outras Histórias, 1959, Prémio Camilo Castelo Branco), crónica (O Espelho Poliédrico, 1973), teatro (O Passageiro do Expresso, 1960), tradução (Coração Solitário Caçador de Carson McCullers, Estúdios Cor, 1958)…
 José Rodrigues Miguéis nasceu, em 1901, em Lisboa. Aí, se licenciou pela Faculdade de Direito (1924); fez também a licenciatura de Ciências Pedagógicas na Universidade de Bruxelas, na Bélgica (1933), como bolseiro da Junta de Educação Nacional. Foi professor provisório de História e Geografia no liceu de Gil Vicente (1929) e docente universitário nos EUA, para onde emigrara em 1935; viria a morrer em Nova Iorque, em 1980.
No nosso pequeno universo literário pejado, no entanto, de prémios literários, não existe, curiosamente, nenhum com o nome do autor de A Escola do Paraíso.
Post scriptum: Mas eis que um dia, um (mais que provável) writer, em processo de aprendizagem não tutelado, não encontrou melhor ‘tela’ (para a sua prática de spray can) que aquela deslumbrante fachada concebida pelo criativo Belém, durante o Muraliza 2014. O jovem artista  (nascido nos finais dos anos 70) deve ter ficado bem abespinhado (mesmo sabendo que no seu ofício, a arte é sempre marcada pelo sentido do efémero). Mas, caramba, que esses riscos estejam associados ao desgaste do tempo, e não às mãos de gente que pretende vir a integrar a mesma ‘tribo’ – a dos Street ArtistsPor sua vez, Dona Genciana, perante esta vandalização do seu edifício, fechou a janela e recolheu-se a penates… com lágrimas rebeldes (de indignação) que de modo algum queria públicas.
Luís Souta
(texto e fotos) 

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A Margarida passou hoje o dia no escritório, com o pai. 

E não é que a pequenita ajudou-me numas quantas tarefas relativas ao arquivo de documentos? Mas também abriu e despachou o meu correio electrónico, eliminando o lixo circulante e imprimindo aquilo que me interessava. 

“-Hoje sou eu que levo as coisas para o meu pai.” –Disse ela à Mónica segurando numa série de papelada que eu tinha pedido à outra. 



Portugal anda mal. 

Esta palhaçada das cassetes gravadas pelo jornalista do Correio da Manhã já provocou a demissão do Director da Judiciária e de uma assessora de imprensa da Procuradoria-Geral que, supostamente, terá prestado informações indevidas por sequer serem passíveis de terem chegado ao seu conhecimento e além disso sujeitas ao segredo de justiça. 

A pergunta fatal não há quem a faça: quem ganha com isto? 

O jornalismo de encomenda que temos logo tratou de fazer eco das vozes da área do PS e, pasme-se, do Bloco de Esquerda, que vieram a público exigir a demissão do Procurador-Geral. 


É de bradar aos céus, digo eu. O que é que esta gente pretende? 


O caso Casa Pia está assim a ser reduzido, ao nível da opinião pública, a um processo que de violação em violação do segredo da justiça acabará por ser apresentado como uma guerra entre estes e aqueles no contexto da qual os crimes de que saíram acusações mais não são que peças inventadas dessas mesmas vinganças. 

Passarão gerações até que o estado de direito recupere, em Portugal, de toda esta calamidade por que o estão a fazer passar. 

Os maus venceram nesta pátria maldita. 

Até parece que nunca houveram vítimas nem o sofrimento indizível daqueles que viram a sua intimidade violada e a vida despedaçada por um bando de criminosos. 



Em Najaf joga-se mais um episódio da guerra mundial que o terrorismo apocalíptico, naturalmente em aliança com o fanatismo religioso, declarou ao mundo livre que parece teimar em seguir o princípio da avestruz. 

Paira o espectro do totalitarismo sobre o planeta. 


 Alhos Vedros 
  20/08/2004

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (382)


A Cow Lodge with a Mossy Roof, Samuel Palmer, 1829
"Watercolor and gouache with pen and black ink on medium, cream, slightly textured wove paper", 438 mm x 597 mm 


Samuel Palmer nasceu em Londres, a 27 de Janeiro de 1805 e faleceu em Redhill, a 24 de Maio de 1881.
Foi um pintor paisagístico inglês, que também utilizava técnicas de Água-forte e impressão. Ele também foi um escritor prolífico.
Palmer foi uma figura chave no romantismo britânico e produziu pinturas visionárias pastorais.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Um conto inédito


O GÉNIO

Dores Nascimento

Isaías andava desanimado com os últimos acontecimentos. Do palheiro, nada sobrara depois de dominado o fogo, pelo menos acima das lajes que lhe tinham servido de chão. Com restos de uma vassoura, Isaías revolvia as cinzas, procurando nada ou qualquer coisa, nem ele sabia o quê. Conformado com a inutilidade da busca, começou a varrer a lixarada negra, com exasperada energia, enquanto o suor lhe escorria pelo rosto, traçando riscas mais claras na fuligem que o cobria. Deu por concluída a tarefa quando todas as lajes ficaram completamente a nú. Sacudiu as mãos uma na outra, puxou de uma garrafa de água que tinha num dos vários bolsos do colete, tomou um gole e sentou-se numa pedra a olhar para tudo e para coisa nenhuma. Amanhã ou depois ou quando lhe apetecesse, se lhe chegasse a apetecer, começaria a juntar materiais para a reconstrução.

Depois, desconsolado, desfocou a vista em horizontes distorcidos por fumos, e promessas de lágrimas rejeitadas com as costas da mão, quedando-se então a sua atenção, num desusado objeto, a meia dúzia de passos, que parecia uma lamparina de azeite. Levantou-se lentamente, ligeiramente espantado com o achado e tomou-o entre as mãos, cuidadosamente. Nos sítios onde a sujidade permitia, brilhava como ouro. Estava quente, bastante quente até. Isaías atribuíu, ainda que um pouco cético, o estranho calor ao recente incêndio, mas, se o rescaldo ocorrera há duas noites, o arrefecimento estaria mais justificado que o seu contrário, contudo, não relevou este dado e começou  a limpar o achado à fralda da camisa, para lhe perceber bem a natureza. Com a fricção, a temperatura deu em subir tão de repente, que fez com que  Isaías largasse o achado ou queimaria seriamente as mãos. Assustado, deu um passo para trás e não é que a lamparina, ao embater nas lajes, libertou uma enorme nuvem brilhante, que descerrou a figura de uma espécie de homem sem pernas, suspenso no ar, com um turbante na cabeça, os braços cruzados e um bigode farto e retorcido!?

Isaías por momentos considerou a possibilidade de estar no meio de um pesadelo, contudo a figura revelada nada tinha de hostil, portanto pesadelo não era, quando muito um espalhafatoso sonho, pelo menos à primeira vista.

-Uf, até que enfim, meu amigo. Isto de ser génio, já não é o que era. Nos tempos que correm, ninguém liga importância a lâmpadas esquecidas em palheiros.  

Isaías de idade avançada, mas ainda robusto, destemido e muitíssimo lúcido, procurava enfrentar o figurante sem dar parte de fraco e compreender o que se estava a passar; e antes que lhe perguntasse, já o génio lhe respondia em lufadas de palavras, o que não era para admirar. Há quanto tempo estaria ele enfiado naquela coisa, sem poder articular palavra ou alongar o corpo?

-Há muitos anos atrás, por razões que já nem recordo, mas que tenho uma vaga ideia que foi por castigo, fui parar dentro de uma lâmpada, onde permaneci uma eternidade. Depois um jovem chamado Aladino lá me encontrou. Satisfiz desejos a uns e a outros, mas depois, quando chegou o momento do último desejo dele, que era a minha liberdade, a namorada de nome Jasmim, levou um pequeno coice de um burrito e desmaiou e ele na aflição e sem pensar, gritou: Acorda-a, dá-lhe água, e leva-a  para casa, enquanto eu vou ver de quem é o burro. E zás. Três banais desejos esbanjados de uma assentada, quando só lhe restava um. Pois bem, não foi possível contornar um exagero daqueles. Se fosse só acorda-a, e leva-a, eu até podia assobiar para o lado e desconsiderar os pedidos como desejos, mas  a água é que estragou tudo, mal lhe estendi o púcaro, fui sugado para dentro da minha lâmpada para mais uma eternidade, que durou até hoje.

-Então, e não me leve a mal por perguntar, ainda lhe resta alguma reserva de desejos para satisfazer.
- Deixe ver aqui nos meus apontamentos, disse, consultando uma fita atada a um dos pulsos. Restam-me precisamente dois, confere inteiramente com o que me lembrava. O saldo disponível são dois, prémio por mais uma eternidade que passei aprisionado. O meu amigo tem alguma coisa importante a pedir? Não hesite, oportunidade como esta não se repetirá. Mas não se precipite. Escolha bem, e não se esqueça que eu também gostava muito de ser gente. Com o Aladino, que era uma excelente pessoa quase consegui, clamava o génio batendo com o punho direito na palma da mão esquerda.

Na casa de Isaías e de Palmira sua esposa, um pedaço de uma história paralela acontecia, narrada por Augusta.

-Procurei qualquer coisa com que escrever, para deixar um recado ao marido de Palmira, sobre os procedimentos para umas análises médicas, que Palmira tinha de fazer. É que a cabeça dela já não dava conta destas coisas. Padecia há uns anos da doença do esquecimento.

Abri umas das três gavetas do móvel da entrada, e deparei com muitos guardanapos dobrados, daqueles que saem de dispensadores que se encontram nas mesas dos cafés. Finos e translúcidos. Afastei-os para um dos lados, encontrei um marcador vermelho que servia o propósito da busca e aproveitei a abundância dos guardanapos, para escrever num deles. Reparei então que alguns tinham palavras e números escritos. Recolhi-os cuidadosamente do amarfanhamento a que os tinha sujeitado pela busca e sentei-me numa cadeira, com um pano sobre os joelhos, onde coloquei o curioso pecúlio, para decifrar o que lá estava escrito.

Vários tinham Benvindos a beirais, 14 h  , outros,  almoço batatas com bacalhau, almoço sopa e bacalhau assado, hoje futsal e hoje ben hur canal  memória.

D. Palmira, uma senhora idosa, a quem eu de vez em quando faço companhia e alguma lida de casa, tinha sido uma linda mulher, a olhar às fotografias que  pela casa se vêm. A vida de D. Palmira era agora como um livro a que se vão arrancando folhas, do fim para o princípio.  Os recados achados na gaveta, nos guardanapos de papel de café, foram escritos por ela e a ela destinados, no tempo em que a consciência do esquecimentos ainda era sentida, no tempo em que ela sabia que se esqueceria e tentava contrariar essa realidade. Fiz-lhe perguntas sobre os recados, confessou com um sorriso de inocência que parecia ser a sua letra, mas que não se lembrava de os ter escrito. Leu todos os recados com atenção, corrigindo a posição dos óculos para ver melhor e tornou a sorrir com a descoberta, mas com um sorriso diferente, um sorriso conformado, um pouco triste talvez. Conversámos e notei-lhe uma certa habilidade para rematar os assuntos, defendendo-se para não acusar a fragilidade da sua memória. Habilidade e inteligência.

Fascinada perguntei a Palmira pelo esposo. Respondeu que devia estar na fazenda. Mas não, tinha ido ver dos estragos do palheiro, sabia-o eu. Ainda há um par de anos passava grande parte do seu dia numa fazenda e essa memória encontra-se gravada nas referências de Palmira, das idas ao palheiro, já não. O incêndio que o destruíra há uns dias, muito menos. Observei-a com carinho, enquanto ela própria observava atentamente as próprias mãos, buscando insuficiências nas unhas como algo de prioritário e inadiável. Ajeitou o chapéu cinzento, adereço inseparável, tal como a chave pendurada ao pescoço com uma fita verde da junta de freguesia de sua terra natal, os óculos e um vistoso relógio de pulso com uma bracelete rosa vivo. Gosta de saber as horas e constantemente acerta os ponteiros, logo que suspeita atrasos ou adiantamentos de um ou dois minutos, apesar de não reconhecer horários para coisa nenhuma.

Perguntei-lhe pela família, disse me que tinha uma filha muito parecida com o pai, um genro muito amigo e um neto e que o neto tinha uma namorada.

Com um sorriso sonhador contou-me que fora modista e que fizera muitos vestidos de noiva. Contou-me que o marido fora preso político em Caxias e no Porto. Sobre a idade, disse ter mais de oitenta anos e que fazia anos em Agosto. Perguntei-lhe o que tinha almoçado, disso, não se lembrava. Sobre uma cama de ferro de um quartinho encontra-se um montinho de roupa dobrada. Separei a roupa para a guardar com a ajuda de Palmira, que me indicou as gavetas dos lençóis e da roupa interior. Disse-me que o pijama não era dela, que não era lá de casa, mas que a filha, que tratava da roupa o trazia sempre por engano. 

Sentámo-nos em duas cadeiras, à porta, a apanhar o fresco da tardinha e várias mulheres, homens e crianças que passavam, cumprimentaram-na pelo nome. Perguntei-lhe quem eram, respondeu que os conhecia a todos, mas que não recordava os seus nomes. Um ou outro paravam e trocavam com ela meia dúzia de frases, mas ela na defensiva, conseguia iludi-los com as suas desconcertantes respostas, -Estou bem, cá vamos andando, saúde para todos.

Então comuniquei-lhe que a médica de família lhe passara umas análises ao sangue e à urina. Análises de rotina.  No dia seguinte teria de fazer xi-xi para um frasquinho, em jejum. Concordou com um desinteressado aceno de cabeça.

Fui depois arranjar-lhe um copo de leite, que ela bebeu com satisfação até ao fim e tornei a falar-lhe das análises, que tornaram a ser novidade. Disse-lhe que escreveria um recado ao marido e que depois ele ou a filha, a ajudariam a lembrar-se na manhã seguinte. Pediu-me que escrevesse o recado num papel grande, e para o colar na porta da casa de banho.

Entrei em casa e procurei um papel maior que os guardanapos. Encontrei um envelope vazio e desmanchei-o. Peguei no marcador e escrevi “Fazer xi xi , e logo fui interrompida pela Palmira com a pergunta: O que é que quer dizer “fazer onze onze”, pois sim, Palmira, perdeu parte da memória, mas não esqueceu a numeração romana. Complicado o funcionamento da nossa cabeça.

Entretanto Elias regressa a casa com o mágico escondido, mas não prisioneiro.

-Palmira, hoje fiz um achado que pode mudar a nossa vida. Ela sorriu, ajeitou os óculos e perguntou: Então o que foi?

-Cruzei me com um génio, ou melhor com um mágico que pode satisfazer-nos desejos. Esfregou a lâmpada e o mágico surgiu em todo o seu esplendor, para gáudio de Palmira, que o achou muito simpático, poucos minutos volvidos.

Querida Palmira, é como se nos tivesse saído o euromilhões, melhor que isso até, porque há coisas que o dinheiro não compra, por exemplo a tua memória. O génio pode satisfazer dois desejos. Um deles é qualquer coisa boa para nós, o outro é a liberdade dele, para que passe a ser um homem livre e se liberte definitivamente da lâmpada de que se encontra refém.

Palmira não aparentava grande surpresa, e trivialmente disse ao marido: - Oh Isaías, tens a cara tão suja, o que é que andaste a fazer, por que não vais lavá-la? –Sabes, andei a limpar as cinzas do incêndio, está tudo negro e seco. Quem nos dera uma boa chuvada que limpasse os ares e vencesse esta seca por este país fora.

Palavras não eram ditas, e a chuva fez-se sentir em todo o território e lá se gastou um dos dois desejos. Isaías tapou a boca com uma mão e entre emoções, disse, - Gastei um desejo com a chuva e agora?

O Génio estava triste com a perspetiva que já vislumbrava: Mais uma eternidade na lâmpada. Mas, Palmira segurou a mão de Isaías e com uma lucidez perturbadora disse, -Isaías, meu velho, a chuva é uma coisa boa para nós, agora vamos gastar o segundo desejo noutra coisa ainda mais importante para nós desde sempre e para sempre, a liberdade. E pediu a liberdade para o génio.

Moral: a cura do alzheimer chegará de forma científica, e não através de génios de lâmpadas. Contudo, os princípios e os valores, bons ou maus, permanecem nas memórias dos portadores da doença, porque esses não se esquecem, fazem parte de cada um de nós para sempre. 


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Parabéns ao Estudo Geral


Risoleta Pinto Pedro



Entre F(r)estas
Ainda agora se despediram os Reis Magos e já tenho saudades de quando aguardava a sua vinda. Nunca gostei de despedidas, por isso tardo em guardá-los na caixa onde vão dormir até Dezembro.
Há quem diga que não eram reis, mas magos, outros nem uma coisa nem outra, e há, até, quem negue a sua existência, o que é difícil de acreditar após um convívio de tantos anos. A questão não me tira o sono, conheço-os muito bem; não tenho propriamente crenças, mas ninguém me venha dizer que o Menino Jesus e os Reis Magos não existem. É algo que eu sei para além da ciência que não conheço, para além da crença que não tenho.
Ao Menino, continuo a vê-lo em cada criança que nasce, e todos sabemos como estes meninos trazem já uma “tecnologia” muito diferente das gerações anteriores, mais próxima do de Belém, nascido muito à frente, completamente anacrónico ao seu tempo (e ao nosso?). Quantos séculos tivemos (teremos?) de galgar para lhe chegarmos aos calcanhares…
Na antiga cozinha da menina, onde na noite de Natal mãe e pai confeccionavam as azevias, conviviam ecumenicamente: uma espécie de paganismo místico de rosto eventualmente cristão pelo ramo do meu pai, e um ateísmo social solidário pelo ramo da minha mãe, qual mais nobre e respeitável que o outro, deixando-me  estas duas posições em liberdade para, sem saber sem ter sido ensinada, e sem saber que o fazia, adorar sozinha, frente à intimidade do presépio, enquanto as azevias se faziam, e para sempre, o Menino Po-ético Futuro e Universal.
(Pintura: "Adoração dos Magos", Sequeira; MNAA)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

A Matriz Cultural de Portugal #1



Luís Santos

O LATIM e o CRISTIANISMO

A romanização da península ibérica durou, grosso modo, cerca de 600 anos, entre 200 anos, antes de cristo, e 400 anos, depois de cristo. Corria a primeira década do século V, quando Alarico, o primeiro rei visigodo, conquistou no ano de 410 a cidade de Roma, capital do império romano do ocidente.

Duas das marcas culturais mais significativas que os romanos deixariam na península foram: o latim e o cristianismo.

O latim, uma das línguas mais faladas no extenso império, a par com o grego. É do latim, sobretudo, que deriva a Língua Portuguesa, mas também outras línguas românicas como o italiano, francês, espanhol, português, romeno, catalão, entre outros idiomas. Como a Língua Portuguesa se acabará por desenvolver a partir do latim vulgar, falado na província do Lácio que se situa na atual região central italiana, por isso, o poeta brasileiro Olavo Bilac lhe atribuiu a feliz designação de “Flor do Lácio”.

O cristianismo, que por decisão do imperador romano Teodósio I, se tornou na segunda metade do século IV, depois de cristo, a religião de todo o império, depois de se caracterizar durante vários séculos pelo politeísmo que, entretanto, se tinha desenvolvido a partir do panteão grego. Ora, quando no século seguinte, o império romano do ocidente acaba por ruir às mãos dos povos germânicos que invadem a península ibérica, o cristianismo já tinha criado raízes suficientemente fortes para perdurar com grande força, por todo este território.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Bolas, dias e noites de trabalho consecutivo para repor a escrita em dia e já tenho pendentes para as próximas semanas. Pobre de mim que da vida folgada de professor passei ao duro e preenchido quotidiano de executivo. 

Mas é assim mesmo e por ora só me resta trabucar, com a certeza de preparar uma reforma precoce que penso vir a conseguir num horizonte não superior a dez anos. 

Mereço umas boas dezenas de anos para me dedicar tranquilamente à escrita e por aí não virá mal algum para o mundo. 



Mas a verdade é que nestes dias sequer tive a menor oportunidade para me sentar aqui e escrevinhar estas linhas. 



Fica o registo da azáfama e o telefonema que a Matilde nos fez, pela hora do jantar. Está bem e tem passeado com a tia Fátima. A partir de amanhã terá a companhia da prima Patrícia que escolheu a casa dos avós paternos para preparar o exame de Anatomia, a única cadeira que lhe falta para que em Outubro inicie o quarto ano de Medicina sem quaisquer matérias em atraso. Segundo a Margarida, amanhã jantará em casa da tia onde, tudo o indica, deverá passar a noite. 


Ricas férias. 



Os pais ficam felizes por elas. 


 Alhos Vedros 
  18/08/2004

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (381)


Pedra de Itapuca, Icaraí,  Antônio Parreiras, 1917
Óleo sobre Tela, 38,1 x 61 cm

Nascimento a 20 de Janeiro de 1860, Niterói
Morte a 17 de Outubro de 1937, Niterói

Antônio Diogo da Silva Parreiras foi um pintor, desenhista, ilustrador, escritor e professor brasileiro.

Abordava a natureza com olhos de artista, sentindo-a com a emoção que causa a quem pessoalmente presencia o que retrata. Tinha o desejo de interpretar a natureza quando esta ainda parecia ter sido intocada.

Acredita-se que, para além de cumprir contratos - Parreiras tem obras espalhadas por importantíssimas edificações públicas -, o pintor tenha imprimido em seus quadros sua visão sobre a história nacional. Hoje, suas obras históricas podem, em sua maioria, ser encontradas nos museus de arte e história do Brasil a fora ou até mesmo na decoração de algumas das sedes de governo do país. Para São Paulo, foram duas as obras encomendadas. O Salão Nobre da Câmara Municipal da Cidade e o Gabinete do Prefeito da cidade têm obras de Antônio Parreiras como objetos decorativos.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Um Poema


“A Mastigar Sem Parar De Estar Atento À Vasta Luz Do Eterno Ovo Cósmico”

Mastigo com uma parte da boca e com a outra não
Bocejo armado em mastodonte já extinto há muito
Passei com o tempo de carnal a sêr de aspecto puro
Quiçá fui invisível e sou agora um pouco mais visível
Vim do nada e pretensiosamente transformei-me em luz…

Andei pelo formato vegetal de hortas em jardins afins
Vim das sementes de frondosas florestas marinhas
Cheguei ao ponto de mastigar folhas e ramos crus
Transmutei de uma árvore da selva em bicho da sêda
Arrastei-me sim e icei-me momentos passados depois…

Aqui estou eu a olhar para as estrelas e tentar contá-las
Nos pulsos uso pulseiras feitas de tecidos e de contas
Sonho em desprender-me desta rocha e libertar-me além
Conjecturo desde o início atingir o fim de meus objectivos
Reúno-me com o resto do cosmos original a idealizar a multiplicação…

Saio da casca do ovo filosofal onde também nasceu a Terra para o imaginário…

Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 16 de Janeiro de 2020,
em Homenagem a todos aquelas e aqueles Cientistas, Estudiosos, Professores e  Observadores que, para além de pacientemente perscrutar o incomensurável Espaço e o Universo e todos os possíveis eventos e fenómenos espaciais, buscam novos Galáxias, Astros Solares e outros e Planetários e tudo o que para la é detectar ou observar a partir do Planeta Terra…

“A estes Heróis da Observação Astronómica, vai o meu profundo respeito e a eles, como muitos de nós Humanos, deposito toda a confiança para que se mantenha a esperança de um dia, estarmos mais avançados a explorar os novos Mundos, ora observados e catalogados…”   

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A MATILDE FOI PARA O PORTO

E com os passeios e tantas miúdas endiabradas, o fim-de-semana foi como areia entre os dedos. 


E a Matilde lá seguiu com o tio Jorge e as primas para o Porto, onde passará as próximas duas semanas em casa dos avós. 


Eu já estou cheio de saudades, mas sabemos que estas ausências são como fermento para o espírito e a autonomia do nosso amorzinho, ajudam a crescer com saúde na alma. 



No Burundi houve matança. 
Guerrilheiros de um partido hútu mataram mais de cento e oitenta congoleses que ali permaneciam num campo de refugiados. 


Dez anos depois das carnificinas no Ruanda, continuam os conflitos entre tutsis e hútus que estão na base da instabilidade nesta região africana de fronteira entre a República Democrática do Congo (ex-Zaire), com o Burundi e o Ruanda. 


É a humanidade chorando em África, a esquecida, onde mais a norte, no Sudão, as mulheres que fugiram à guerra no Darfur, são objecto de exploração sexual pelos polícias sudaneses que deveriam zelar pela segurança delas. 



Feito inédito no ciclismo português. 
Sérgio Paulinho ganhou a medalha de prata na prova de estrada, sagrando-se como o primeiro atleta nacional a subir ao pódio olímpico nesta modalidade. 



E na Venezuela, o Presidente Hugo Chavez vai a referendo para decidir se completará o mandato ou se submeterá a eleições antecipadas. 

Tudo indica que as oposições não conseguirão apeá-lo da presidência e a Venezuela continuará a repetir a história das ditaduras militares sul-americanas, particularmente daquelas que se anunciaram sob o lema de um projecto revolucionário a favor do povo e pelo bem da pátria. 



E a Margarida dormirá sozinha no quarto novo. 

Amanhã regressa a normalidade da semana de trabalho para os mais velhos da família. 

Só os anjinhos continuam de férias que bem merecidas são. 


 Alhos Vedros 
  15/08/2004

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (380)


La Sortie du Bourgeois, Jean Béraud, 1889
Óleo sobre tela, 37,5 x 53,3 cm

Nascimento, 12 de Janeiro de 1848, São Petersburgo, Império Russo
Morte a 4 de Outubro de 1935, Paris, França

Jean Béraud foi um pintor impressionista francês, conhecido por seus diversos quadros retratando a noite parisiense e da alta sociedade. Inúmeros quadros da Champs Elysees, cafés, Montmartre, com detalhados retratos do cotidiano de Paris durante a era conhecida como "Belle Époque".

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Vamos de férias três semanas e o que nos espera é o trabalho desses mesmos dias. Passei o resto da semana fechado no gabinete e ainda tenho outro tanto pela frente. Ainda assim, hoje fiz por sair a tempo de ver a cerimónia de abertura dos jogos olímpicos, que uma pessoa não é de ferro e depois dos ritmos e da liberdade de uma viagem demora sempre um pouco a recuperar as cadências da normalidade laboral. 


E ainda bem que assim decidi. 

Foi um espectáculo magnífico como acho nunca ter visto algo semelhante. 
Um desfile de estátuas humanas impressionante, evocando uma espécie de apresentação dos jogos na antiguidade, com fugiras da mitologia e da tragédia grega, um cortejo que tanto pela exuberância do guarda-roupa, como pela representação irrepreensível das centenas de actores que o realizaram, teve o efeito de espantar a própria imaginação. E a parte aérea do desfile, em que os figurantes suspensos por cordas atravessaram o estádio em corridas ou voos acrobáticos, revelou-se como uma subtil solução para a ausência de tempos mortos para quem ao vivo se maravilhou com aquela verdadeira obra de arte. 


Só tenho pena de já não ter a disponibilidade de outrora para em deixar ficar a ver as provas do meu agrado. 
Mas este ano, com a diferença horária de duas horas, creio que terei oportunidade de ver algumas delas. 



O Jorge veio visitar-nos, com as suas filhas. Chegaram ontem à noite depois de andarem perdidos pela Moita dada a inexistência de sinalização adequada. 
Mas chegaram e hoje, com a Luísa e as miúdas, foram todos passear para o jardim zoológico, em Lisboa, de onde regressaram há pouco, contentes e ruidosos. 


“-Um leão marinho deu um beijo à mãe.” –Disse a Matilde mal eu abri a porta para os receber e beijar os meus amores. 
“-Verdade!” –Acrescentou o piolhinho perante a minha incredibilidade. 
E sempre de espírito pronto, a mais novinha logo tratou de mostrar a fotografia que registou o acontecimento. 



Por sua vez, as fotografias da viagem de férias ficaram boas. 



E que vergonha se passa em torno do sórdido processo Casa Pia, agora que veio a público o conteúdo de conversas de um jornalista do Correio da Manhã com o Director da Judiciária, Adelino Salvado e outras figuras públicas, tudo o indica gravadas sem conhecimento e o consentimento dos interlocutores e em que a primeira daquelas pessoas parece ter falado de assuntos em segredo de justiça e aos quais não deveria ter acesso. 

Não tenho a menor dúvida que isto parte da defesa de Carlos Cruz e nada mais visa que a descredibilização da justiça e, por via desta, da acusação. 
Dentro de dias pedir-se-á a demissão do Procurador-Geral da República. 


Esta gente tem sido capaz de dar os golpes mais sujos. 



Os grilos falam de calor, enquanto um bufo grita sobre um telhado vizinho, provavelmente para afastar um concorrente na hora do alimento. 


 Alhos Vedros 
  13/08/2004

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (379)


Rebelva (Carcavelos), Emmerico Nunes, 1920
Óleo sobre Cartão 27 x 22 cm

Nascimento: 6 de janeiro de 1888, Lisboa
Falecimento: 18 de janeiro de 1968, Sines

Possivelmente datada da década de 1920, altura em que o artista regressa a Portugal, esta tela pintada em Rebelva (Carcavelos), nos arredores de Lisboa, mostra o quanto Emmerico Nunes sabia captar diferentes atmosferas e lugares com um sentido plástico que lhe é próprio e que aqui se conjuga perfeitamente com a arquitectura da região. A mancha central, fortemente construída segundo preceitos geométricos, tanto ao nível da pintura – a propósito da qual nos vem espontaneamente o nome de Cézanne – como da arquitectura – na sua expressão formal mais básica, o cubo – contrasta com um céu remexido e batido pelo vento. A ligar os três planos – terra, arquitectura, céu – estão duas árvores descarnadas, elementos que surgem com alguma regularidade no trabalho do artista e que não basta “arrumar para um canto” a pretexto de serem “característicos” da paisagem (qual?) portuguesa. Quando lidas no conjunto da obra, elas dizem a dificuldade que Emmerico tinha em conjugar as suas raízes alemãs, maternas, com as paternas raízes portuguesas.

A década de 1920 marca, precisamente, o regresso forçado ao país natal, após oito anos passados na Alemanha onde tudo lhe corria comme sur des roulettes – assim o diz a autobiografia. Em contraste, os tempos vividos em Portugal serão anos de extenuante trabalho, sujeição e sofrimento, tanto de ordem moral como material.

ILC

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 4 de janeiro de 2020

Lampyridae




Lampyridae

Cristiana Penna de Amaral

(Fotografia) 


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

ESTUDO GERAL
dez./jan.    2020           Nº119


«No Canto IX dos Lusíadas, Ilha dos Amores, «Camões dá este conselho pedagógico aos portugueses: os meus amigos, se querem alcançar o Céu na terra, tratem do seu navio, mantendo-o em ordem, com disciplina a bordo, porque um dia a Ilha dos Amores aparece». - Agostinho da Silva


Sumário

1.    Editorial

2.    Um Anjo – Ana Pereira
       canalização

infografia

graffitar a literatura

estórias

real…irreal…surreal

diarística
 


---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------


Editorial


Este mês de janeiro do ano de 2020, o Estudo Geral faz 10 anos.

Um imenso espaço alternativo de múltiplas expressões artísticas, originais, porque das poucas regras que o EG tem é que só publica obras com autorização do próprio autor.

Um espaço vivo com constantes atualizações no passar dos dias, o que faz com que, quem nele participa ou procura, sempre encontra novas propostas criativas que, certamente, aqui e ali, ajudam a alicerçar um pensamento próprio e a esperança de uma maior clarividência na vida.

Afinal, um precioso arquivo onde se vão guardando e estão sempre disponíveis para todos, as centenas de artigos publicados.

O Estudo Geral é nosso.