Levou tempo para que eu percebesse que quem presta muita atenção no que é dito não consegue escutar o essencial. O essencial se encontra fora das palavras.

Rubem Alves


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (379)


Rebelva (Carcavelos), Emmerico Nunes, 1920
Óleo sobre Cartão 27 x 22 cm

Nascimento: 6 de janeiro de 1888, Lisboa
Falecimento: 18 de janeiro de 1968, Sines

Possivelmente datada da década de 1920, altura em que o artista regressa a Portugal, esta tela pintada em Rebelva (Carcavelos), nos arredores de Lisboa, mostra o quanto Emmerico Nunes sabia captar diferentes atmosferas e lugares com um sentido plástico que lhe é próprio e que aqui se conjuga perfeitamente com a arquitectura da região. A mancha central, fortemente construída segundo preceitos geométricos, tanto ao nível da pintura – a propósito da qual nos vem espontaneamente o nome de Cézanne – como da arquitectura – na sua expressão formal mais básica, o cubo – contrasta com um céu remexido e batido pelo vento. A ligar os três planos – terra, arquitectura, céu – estão duas árvores descarnadas, elementos que surgem com alguma regularidade no trabalho do artista e que não basta “arrumar para um canto” a pretexto de serem “característicos” da paisagem (qual?) portuguesa. Quando lidas no conjunto da obra, elas dizem a dificuldade que Emmerico tinha em conjugar as suas raízes alemãs, maternas, com as paternas raízes portuguesas.

A década de 1920 marca, precisamente, o regresso forçado ao país natal, após oito anos passados na Alemanha onde tudo lhe corria comme sur des roulettes – assim o diz a autobiografia. Em contraste, os tempos vividos em Portugal serão anos de extenuante trabalho, sujeição e sofrimento, tanto de ordem moral como material.

ILC

Selecção de António Tapadinhas

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