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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Agostinho da Silva: A Educação de Portugal e o Culto Popular do Espírito Santo

Travessa do Abarracamento de Peniche, 7, casa onde viveu Agostinho da Silva (Foto de Lucas Rosa)


É no culto popular do Espírito Santo, onde Agostinho da Silva encontra a referência mais alta de sempre vivida pela cultura portuguesa, sendo que, por isso, nele devemos buscar inspiração. O início das comemorações deste Culto remonta ao reinado de D. Dinis, século XIII, tendo perdido dimensão a partir do século XVI. Hoje, ainda se pratica nalguns lugares do continente, mas é sobretudo nos Açores, nalguns estados do Brasil e comunidades de emigrantes nos EUA que se organizam estas festividades.

Culto, onde se pretende que a fraternidade cristã não seja uma palavra vã, mas antes que ganhe expressão numa economia que não se caracterize por um existir concorrencial para o desenrasca de apenas uns quantos, mas que se destine a servir todos.

Economia que não tenha a sua expressão máxima no mundo do trabalho que escraviza os homens enquanto subordinados produtores, mas antes no tempo livre e na criatividade absoluta, sendo que o caminho se deve fazer em direção a uma produção automática dos bens como já vem prometendo o grande desenvolvimento tecnológico das últimas décadas. Onde a propriedade privada, para bem de uns poucos, deverá ser substituída pela propriedade coletiva, para bem de todos.

A utopia é a de que o desenvolvimento tecnológico possa libertar o homem o mais possível da escravidão do trabalho.

Mas o ponto fundamental da prática do culto popular do Espírito Santo é a coroação de uma criança como Imperador do mundo libertando, simbolicamente, os adultos das funções dirigentes que, antes, deverão ficar entregues à meninice que existe em cada um de nós.

Nas palavras de Agostinho, “…declara-se que todos os Imperadores de qualquer Império declarado Santo pela vontade, os interesses e os apetites dos homens, devem ceder seu trono às características infantis de atenção contínua à vida, de existência total no presente, de ignorância de códigos, manuais e fronteiras, de integração no sonho, de valorização do jogo sobre o trabalho, de simpatia pela cigarra, que logo a nossa escola substitui pelo aplauso à formiga, já que (a primeira) convém à alegria, apenas, e a outra ao lucro.” (Agostinho da Silva, Textos Pedagógicos II: 104)
               
São estas as premissas onde assentam os seus ideais educativos. É um projeto educativo, portanto, assente em bases religiosas o que Portugal tem de dar ao mundo. Mas, atente-se, de uma religião que estende a mão a todas as outras, alargando-se mesmo a ateus e agnósticos, desde que respeitem todas as religiões como se de suas se tratasse.

Nesta interação religiosa, o mais importante de tudo é a forma como se terá de potenciar a organização social para o bem de todos e para a vigilância da paz, princípio primordial de um Império de Servir, sabendo que num Império do Espírito tem menos importância aquele que manda do que aquele que serve.

Portanto, os valores que se perfilam no horizonte neste Projeto da Educação de Portugal são os da liberdade, da justa distribuição económica, de uma coexistência pacífica entre os povos e as religiões, o espírito da criança como o maior bem do mundo.

Nos últimos séculos da nossa história pouco se tem feito por este Império do Espírito, a não ser a fé que alguns têm manifestado, “o Espírito, porém, nos vai chamar agora”. (id.: 116)

A missão dos mais esclarecidos é, então, a de educar o povo a partir dos valores referenciados, mas sabendo que educar não é levar ninguém a ser isto ou aquilo, mas criar as condições para que as pessoas se vão desenvolvendo a partir daquilo que mais lhes convém interiormente. 

Luís Santos

sábado, 19 de outubro de 2013

Agostinho da Silva e a “Educação de Portugal”


Agostinho da Silva deixa o Brasil em 1969, onde viveu perto de 25 anos. No ano seguinte ao do seu regresso a Portugal, em 1970, escreve “Educação em Portugal”, livro onde se propõe pensar num projeto educacional para o país.  

Dois grandes princípios estruturais enunciam o ponto de partida desta sua proposta:

1) Nascemos e crescemos “estrelas de ímpar brilho, sem que o mundo em nada nos melhore”, o que significa afirmar o valor primordial da natureza face à cultura e um profundo sentimento humanista com a filiação do homem diretamente numa natureza que é simultaneamente bela e divina.

2) Cada homem vale, sobretudo, por si próprio e cada um terá de desbravar o seu próprio desenvolvimento interior. Neste sentido a educação deve ser pensada como um processo mais de orientação do que ensino, mais de acompanhamento e ajuda, do que propriamente de despejamento de programas sobre o educando.

Citando Agostinho, “Acreditando, pois, que o homem nasce bom, o que significa para mim que nasce irmão do mundo, não seu dono e destruidor, penso que a educação, em todos os seus níveis, formas e processos não tem sido mais que o sistema pelo qual esta fraternidade se transforma em domínio.” (Educação em Portugal: 92)

O princípio fundamental de que se parte é que a natureza da criança é preferível à natureza do adulto e, portanto, deve ser essa a natureza a ser potenciada. Por conseguinte, a educação deve consistir num processo de livre florescimento da criança e não da substituição da maneira natural de ser da criança por “uma natureza adulta”.

A crítica aqui implícita é a de que no tradicional sistema educativo, a pouco e pouco, se vai destruindo a criança, a sua espontaneidade, o livre viver, que nasce em cada um de nós e que, ao contrário, deverá ser na preservação dessa “natureza da criança” que se deverá partir para a construção do futuro. Nas palavras do Professor: “Resumindo, diria pensar que a natureza humana, mais do que boa é excelente; que a sociedade e nela a educação, ajudando o homem a sobreviver, o tem limitado, e muito, no melhor, que é o seu ser livre; mas que o pior passou e que todo o sofrimento e toda a treva serão apenas pesadelos finalmente em paz e luz desfeitos.” (idem: 94)

É enorme, pois, o otimismo com que Agostinho da Silva parte para a sua ideia de educação do país. Recorrendo à sua insubstituível prosa, eis o que anuncia o Projeto:

“O reino que virá é o reino daqueles que foram crucificados em todas as épocas, por todas as políticas e por todas as ideologias, apenas porque acima de tudo amavam a liberdade (…); o reino daquele Deus que viam definindo-se fundamentalmente por não obedecer a nada e a ninguém senão à sua divina natureza; e o reino que desejam para homens que não sintam obrigação alguma que não seja a de se aproximarem quanto possível da divindade de ser livre, livre no viver, livre no saber, livre no criar.” (idem: 93)


Luís Santos