Travessa do Abarracamento de Peniche, 7, casa onde viveu Agostinho da Silva (Foto de Lucas Rosa)
É no culto popular do Espírito Santo, onde Agostinho da Silva encontra a referência mais alta de sempre vivida pela cultura portuguesa, sendo que, por isso, nele devemos buscar inspiração. O início das comemorações deste Culto remonta ao reinado de D. Dinis, século XIII, tendo perdido dimensão a partir do século XVI. Hoje, ainda se pratica nalguns lugares do continente, mas é sobretudo nos Açores, nalguns estados do Brasil e comunidades de emigrantes nos EUA que se organizam estas festividades.
Culto, onde se
pretende que a fraternidade cristã não seja uma palavra vã, mas antes que ganhe
expressão numa economia que não se caracterize por um existir concorrencial
para o desenrasca de apenas uns quantos, mas que se destine a servir todos.
Economia que não
tenha a sua expressão máxima no mundo do trabalho que escraviza os homens
enquanto subordinados produtores, mas antes no tempo livre e na criatividade
absoluta, sendo que o caminho se deve fazer em direção a uma produção
automática dos bens como já vem prometendo o grande desenvolvimento tecnológico
das últimas décadas. Onde a propriedade privada, para bem de uns poucos, deverá
ser substituída pela propriedade coletiva, para bem de todos.
A utopia é a de
que o desenvolvimento tecnológico possa libertar o homem o mais possível da
escravidão do trabalho.
Mas o ponto
fundamental da prática do culto popular do Espírito Santo é a coroação de uma
criança como Imperador do mundo libertando, simbolicamente, os adultos das
funções dirigentes que, antes, deverão ficar entregues à meninice que existe em
cada um de nós.
Nas palavras de
Agostinho, “…declara-se que todos os Imperadores de qualquer Império declarado
Santo pela vontade, os interesses e os apetites dos homens, devem ceder seu
trono às características infantis de atenção contínua à vida, de existência
total no presente, de ignorância de códigos, manuais e fronteiras, de
integração no sonho, de valorização do jogo sobre o trabalho, de simpatia pela
cigarra, que logo a nossa escola substitui pelo aplauso à formiga, já que (a
primeira) convém à alegria, apenas, e a outra ao lucro.” (Agostinho da Silva, Textos
Pedagógicos II: 104)
São estas as
premissas onde assentam os seus ideais educativos. É um projeto educativo,
portanto, assente em bases religiosas o que Portugal tem de dar ao mundo. Mas,
atente-se, de uma religião que estende a mão a todas as outras, alargando-se
mesmo a ateus e agnósticos, desde que respeitem todas as religiões como se de
suas se tratasse.
Nesta interação
religiosa, o mais importante de tudo é a forma como se terá de potenciar a
organização social para o bem de todos e para a vigilância da paz, princípio
primordial de um Império de Servir, sabendo que num Império do Espírito tem
menos importância aquele que manda do que aquele que serve.
Portanto, os
valores que se perfilam no horizonte neste Projeto da Educação de Portugal são
os da liberdade, da justa distribuição económica, de uma coexistência pacífica
entre os povos e as religiões, o espírito da criança como o maior bem do mundo.
Nos últimos
séculos da nossa história pouco se tem feito por este Império do Espírito, a
não ser a fé que alguns têm manifestado, “o Espírito, porém, nos vai chamar agora”.
(id.: 116)
A missão dos
mais esclarecidos é, então, a de educar o povo a partir dos valores
referenciados, mas sabendo que educar não é levar ninguém a ser isto ou aquilo,
mas criar as condições para que as pessoas se vão desenvolvendo a partir
daquilo que mais lhes convém interiormente.
Luís Santos
9 comentários:
Amigo Luís, viva!
Sinto-me grato por mais este texto deveras enriquecedor.
Por mim, apenas me interrogo sobre a conclusão de ser um projecto educativo assente numa base religiosa.
Já a ideia do Servir me parece sábia como, aliás, é timbre no celebrado Mestre.
Abraço.
Manuel João
Pois, acho que fazes muito bem em interrogar-te. E Abraço.
Esclarecido. Obrigado. Outro abraço.
Sim, a tua questão é pertinente e tem sustentação filosófica.
Sem educação religiosa, abrangente, como se pode compreender o mundo? E Agostinho, o grande Mestre sabia-o muito bem.
...e, pelos vistos, tal como Agostinho da Silva, o amigo Francisco (e eu) também.
Grande Abraço Grande.
Só para perceber o que é dito:
Sem educação religiosa, abrangente, não se pode entender o mundo?
Manuel João
Eu diria de maneira diferente: Neste caso, sem compreensão religiosa abrangente torna-se mais difícil uma melhor compreensão do mundo.
Ok, obrigado pelo esclarecimento.
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