"Ninguém cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem nenhuma razão."
Chico Xavier (in, Diálogos Lusófonos)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Versículos



Bagagem

Nunca se pede demais,
não se pode esperar mais
do que aquilo que se consegue ter.
Quando se tem
se é tido.


Luís Santos


terça-feira, 30 de outubro de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



“-Claro que temos de fazer algo diferente. Nem faria sentido que fosse de outro jeito.”
Foram estas as palavras do José Pedro que tive o cuidado de anotar para que a memória não me levasse a operar com o cinzel da recomposição como habitualmente o faz pois, apesar da singeleza que lhes reconheço, tomei-as por tão bonitas e sinceras que não me quis furtar ao ipsis verbis de as registar tal e qual, através da boca, lhe saíram da alma. E eu concordo com ele, pesem embora as dúvidas de uns e até a oposição exposta por outros, também eu acho que esta aventura em que nos lançamos acabou por ganhar toda a razão de ser desde que não se restrinja aos benefícios materiais e imediatos que eventualmente dela venhamos a extrair, como já o estamos a fazer, é bom que se diga. E se avaliando pela amostra destes primeiros anos podemos estar confiantes de que serão certos e fartos. Seja como for, é como o José Pedro afirmou, é claro que não podemos deixar de querer algo mais que a repetição do que, de uma maneira ou de outra, já por outrem foi alcançado. E devo registar que há motivos para lá da generosidade que a atitude encerra. É óbvio que a partilha dá corpo a um espírito solidário, manifestamente imprescindível num mundo socialmente justo. Estou mesmo convencida que não só este seria de todo improvável, para não escrever impossível, sem aquele valor e atitude harmónica, como esta será inclusivamente o primeiro e primordial alicerce que aquele encontra para se sustentar. A partilha do que se tem e do que se sabe, não para que todos disponham exactamente do mesmo o que certamente contrariaria as recompensas da individualidade e muito menos para que todos sejam igualmente capazes e sapientes o que, por sua vez, iria ao arrepio da nossa própria natureza que a uns confere mais força e mais génio que a outros, antes para que, por ora em termos ideais, como é simples de entender, ninguém se veja amarrado na falta dos meios próprios a uma vida digna na busca da sua própria felicidade. Daí que ela seja uma escolha voluntária e consciente que não resulta pela imposição e por isso se faz valor e poderoso, sem o qual dificilmente será concebível a hipótese de uma sociedade justa, o mesmo é dizer, onde qualquer pessoa vê garantido o direito de dispor ou aceder aos mecanismos e oportunidades para escolher e construir o seu próprio caminho. Isto para mim é de uma clareza que não direi indiscutível mas que me atrevo a classificar de axiomática pois, mesmo tendo em conta os estudos que posterior e compreensivelmente me capacitaram a melhor precisar e arrumar as ideias, foi algo que adquiri por via da educação que recebi em casa, com os meus queridos pais. Em conformidade, daqui brotou o encanto que a expressão do José Pedro me incutiu e que eu quis aqui deixar lavrado no original. Seria um testemunho de prepotência totalmente inaceitável se alguém pretendesse que todos deveriam conseguir entender o problema sob este prisma; como referi, a solidariedade só é um valor enquanto parta do peito de cada um e assim considero absolutamente natural que muitos sejam aqueles para quem a vida, por mais longa, se possa desenrolar sem o menor gesto solidário. Penso até que outra coisa não seria de esperar, sequer sou capaz de dizer que haja aí algo de mal. Mas espanta-me como muitas dessas mentes utilitárias não alcançam os motivos pura e simplesmente egoístas que podem estar por trás da preferência por uma vida socialmente mais justa. A segurança, por mais evidente, será o primeiro de todos. Não é que se possa sustentar que existe uma relação causal entre a pobreza e a miséria e o crime, mormente o físico ou ao nível do roubo, pois nem todos os homicidas o são no contexto de causas tais e muito menos os ladrões e vigaristas se formam pelo simples facto de serem pobres, como o caso do engenhoso Alves dos Reis bem serve para o provar. Contudo, por muito rico que seja o palácio, nunca ele estará garantidamente a salvo da raiva e da fúria quando a turba miserável aumenta desmesuradamente. Compreendê-lo, quanto a mim, creio que se trata de um mero acto de inteligência e já me desconcerta que sejam tão poucos os que aí conseguem chegar. Com certezas ninguém pode dizer o que se passa na cabeça dos outros, por conseguinte também eu não poderei afiançar que as palavras do Zé estejam para lá dessa perspectiva interesseira que acabei de expor. Honestamente, acredito que sim e não sendo esse o caso, então devo dizer que eu, de livre vontade, prefiro a versão mais nobre. Quis o acaso que, em casa do Gustavo, o senhor Abel se deparasse com um exemplar de “O Lobo do Mar”, de Jack London que teve curiosidade em ler. A impressão que lhe causou é que não terá sido das melhores, uma vez que mais tarde se queixou da impotência que sentiu perante aquelas vidas e a filosofia de um capitão que lhe abalou convicções sem que ele tenha sido capaz de desenvolver ideias suficientemente fortes para as rebater, mesmo apesar de concordar que o Autor mais não logrou que um retrato pungente da natureza humana e num estilo sólido e com uma beleza ímpar. Mas a verdade é que o Homem não é apenas aquele lobo que se preda no semelhante e, no entender daquele companheiro, o que acima de tudo importa é que sempre tenhamos presente o que possa concorrer para que sejamos algo mais que um animal selvagem como os outros. Essa foi a conversa de um jantar, aqui em casa, e não me admirei quando ele pediu aos presentes que incluíam o Gustavo e a Viviana e ainda o Félix e a Éster, para além de mim e do Manuel, para que considerássemos seriamente a possibilidade de lhe ministrarmos lições em domínios tão distintos e variados como a Física e a Filosofia, sem esquecer a História e a Literatura. Propôs mesmo a ideia de um pequeno círculo de leitura que já estamos a pôr em prática, no qual se trocarão impressões e opiniões sobre determinada obra que a todos seja possível ler. Para ele será uma forma de poder testar aquilo que for aprendendo e, logicamente, de, no imediato, avolumar os seus conhecimentos. No entanto, o mais relevante naquele serão, foi o pedido humilde de um adulto interessado e empenhado em aprender. Talvez por isso tenha havido o eco entre os outros que, da indiferença à oposição, por não termos tempo para estas coisas, em alguns induziu o mais cruel desdém. Mas também houve quem apoiasse e logo se manifestasse disponível para a inerente acção de auxílio e ainda houve aqueles que se entusiasmaram. Entre estes o Quico que acrescentou que poderíamos muito bem estender essa espécie de escola popular (sic) aos trabalhadores rurais que temos vindo a contratar e que, tudo o indica, na larga maioria sequer chegam a saber ler e escrever. Pois foi daí que nasceu a iniciativa de fazermos uma campanha de alfabetização para todos aqueles que pretendam sair dessa negra impossibilidade de decifrar a mais pequena e insignificante das frases escritas. Temos espaço mais que suficiente no casarão para aí instalarmos uma pequena sala de aula, se bem que os trabalhos de adaptação estejam a cargo apenas daqueles que pretendem colaborar no projecto. Na troca de ideias em que decidimos avançar, preponderou o pensamento que sublinha a importância do saber na autonomia de cada um e até para melhorias no plano laboral propriamente dito e foi aí que a concordância do José Pedro teve aquela forma bonita de se expressar.

FRESCOS


A vela eléctrica, a ponta esmagada de um cigarro consumido, três ascensões para uma melodia, o concerto de Sérgio Godinho e um livro de Sociologia Urbana no rasto de uma fumarada cinzenta, madrugada, as coisas processam-se.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Rinoceronte


Fonte: Wikipédia livre 

Segundo nota de Nina Gazire (Revista Isto É- 24 de outubro de 2012) estarão expostos até 13 /01/13 no Museu de Arte de São Paulo (MASP) gravuras e desenhos do período renascentista alemão. Serão vistas 61 gravuras que vieram do Museu do Louvre e que perfazem a amostra “LUZES DO NORTE”, onde está em destaque “O RINOCERONTE”( 1515), do desenhista e gravador alemão Albrecht Dürer.
Excluindo as guerras bárbaras entre oriente e ocidente, onde se empregaram elefantes, é interessante notar que até o século XV somente Roma antiga e as cidades mediterrâneas haviam trazido animais exóticos da África para a Europa, para despertar a curiosidade da população.  Após esse intermezzo, foram com os descobrimentos das grandes navegações marítimas dos séculos XV e XVI,  intentadas, no inicio, pelos portugueses e espanhóis, que se expôs um novo mundo ao velho continente.   Com eles vieram as radicais mudanças, geográficas, políticas, econômicas e artísticas antecessoras de um novo tempo. 
As distancias e os relatos das descobertas despertavam o imaginário de homens comuns e artistas.   Pintavam (flamengos), desenhavam (franceses), xilogravavam (alemães), aquilo que viam e o que não viam, baseados em desenhos de desconhecidos e revelações contadas e escritas pelos desassombrados navegantes. Assim é que plantas e animais exóticos, povos africanos e indianos, índios, utensílios de toda a espécie, foram levados pelos europeus descobridores principalmente para Lisboa, e de lá para o restante da Europa. Marcante em 1515 foi o caso do rinoceronte indiano, presente diplomático, com fins aliciantes, do rei português D. Manuel I, o Venturoso, ao Papa Leão X.  Após enfrentar uma viagem de quatro meses, da Índia a Lisboa, passando pelos Açores, ao chegar à capital portuguesa foi visto e admirado por muita gente. Conta-se que nessa ocasião alguém, não bem identificado, fez um esboço artístico desse animal e enviou a Dürer, em Nuremberg, que o desenhou sem tê-lo visto com tal sucesso que, apesar das incorreções morfológicas, é considerado um dos trabalhos mais conhecidos da historiografia artística do Renascimento.  O pobre animal na viagem de Lisboa à Itália morreu afogado (estava preso por correntes) no naufrágio provocado por uma tempestade. Seu corpo resgatado e empalhado em Lisboa chegou finalmente a Roma em 1516.
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 25/10/12
Fontes:
Wikipédia (enciclopédia livre)
Revista: Isto É (out./12)

domingo, 28 de outubro de 2012

Música de Filipe Pilar




Título do álbum: Caminhos Desconhecidos
Nome do artista:
Ano de lançamento:
2012
Número de faixas:
6
Duração total:
26:22

sábado, 27 de outubro de 2012

Rosário no Outono



 Enquanto ilusoriamente o sol, no seu passo certo, vai caminhando rumo ao Trópico de Capricórnio, e assim se vai afastando gradualmente das zonas temperadas do Norte, donde vos escrevo, a temperatura vai, pouco a pouco, diminuindo, de tal forma que é hábito o céu carregar-se de nuvens que se desfazem em lágrimas e escorrem pelo nosso rosto da Terra. Do outro lado do Equador o pessoal vai começar a esquentar e logo mais teremos samba, entre outras (an)danças.


O ciclo da água cumpre-se sempre e sempre nesta região do hemisfério norte, numa relação próxima com esse abandono do sol. Ao derramarem-se as águas e furando por tudo que é sítio, engrossam os rios que em azáfama ininterrupta correm para o mar. Águas, muitas águas. Tem anos que vem menos, mas parece que desta vez não será o caso. Muitas bençãos.


Menos sol, mais frio. Vão-nos chegando umas baforadas do Ártico, mas que por enquanto não nos fazem tremer. Nos estuários, mais água doce se mistura em água salgada. É o caso da praia fluvial do Rosário, estuário do Tejo, aqui mesmo em frente de casa, como quase se consegue ver na imagem. Moramos ali naqueles sinais de casas, mesmo defronte à margem norte do Tejo para onde espreitam as colinas de Lisboa.


Fotos e texto de Lucas Rosa


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

PROJETO ARCO-ÍRIS


PROJETO ARCO-ÍRIS - As Empresas do Futuro: Tradição e Inovação

Angariar linha pública de apoio financeiro, pretensamente em condições favoráveis (juro perdido?),  que possa apoiar Projetos naturalmente sustentáveis de desenvolvimento social. Eis alguns deles:

1.       . Rede de lojas/hipermercados/ centros comerciais alternativos

- produtos alimentares
- produtos e terapias naturistas
- restauração
- livraria
- vestuário

2.       . Rede de unidades hoteleiras

-alimentação vegetariana
- retiros terapêuticos
- cursos de meditação
- cursos de cozinha vegetariana

3.       . Rede de restaurantes vegetarianos

4.       . Rede de medicinas naturistas/alternativas em interação com a medicina moderna.

5.       . Rede de Escolas com pedagogias inovadoras

6.       . Centros de Investigação Científica (religião, saúde, alimentação, desporto, ecologia, lazer, política). Cursos Abertos. Formar grupos de pensamento inter-religioso e trans-religioso aberto a ateus e agnósticos.

7.       . Pensar e concretizar Projetos na área do Desporto

8.       . Apoio à edição e distribuição de livros em temas que se relacionem com o Projeto e afins; e igualmente a Projetos de Música.

9.     . Apoiar outros Projetos de Criação Artística

1.     . Comunicação Social

- Jornal Nacional
- Jornais Locais
- Televisão Cabo e Web
- Rádio


Carlos Rodrigues

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

S/TÍTULO

 

CELESTE BEIRÃO

Acrílico sobre Tela 300x300 cm


É preciso deixar passar harmonia pelas paredes de branco
exacto e por elas reinventar as formas firmes sombras sinais do
comum

depois abrir terraços de negro fechados e com o olhar reencontrar
a memória das cores ideias contínuas luzes de vida

será então o tempo de surpresa ao construir uma figura farol
com o pensamento no centro alongando o mar ao nível do céu e
transformando em azul o tenso espaço que em todos nós dorme

Lia Calapez Tonicher

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Abdul Cadre

 Vendas Novas, 8 de Outubro de 2012
... Tudo isto é Fado


O QUE TIVER QUE SER ASSIM SERÁ

DIZEM os populares que «o que tem que ser tem muita força», o que implica acreditar no determinismo. Dá-se até o caso de astrólogos e adivinhos dizerem que o destino está escrito nos astros, talvez por respeitarem mais os calhaus, que são os astros, do que o espírito, a vontade e a imaginação dos humanos e dos deuses.
Eu, que me habituei a acreditar que para quem crê no presente todos os destinos e todos os futuros são possíveis, por vezes fico perplexo.
Há muitos anos, conheci uma jovem que, escorregando no passeio duma rua da antiga Lourenço Marques, fraturou uma perna, coisa que acontece a muita gente. Levada para o hospital, foi engessada – coisa normal – e nos dias que se seguiram não sossegou com dores. Dores cada vez mais fortes e no hospital a dizerem-lhe que estava tudo bem. Depois, começou um cheirinho mau. Foi internada, operada e por ali ficou mais de um mês. Quando teve alta, sentia-se bem e quase não precisava das canadianas para andar. Isto até sair à rua, acompanhada do namorado e dois familiares. Aí, ao atravessar na passadeira, um carro mal governado projetou-a vários metros adiante. Fratura exposta na mesma perna e o hospital ali mesmo à mão. Voltou tudo ao princípio e a perna nunca ficou totalmente boa.
Lembrei-me disto ao ter conhecimento da morte prematura da ex-jornalista Margarida Marante, alguém a quem o mundo e a vida pareciam estender passadeiras triunfais e os fados, um curto-circuito na alma ou lá o que foi quiseram provar que o que tem que ser tem muita força.
Estava a escrever estas linhas e dependura-se-me na pantalha televisiva aquele senhor que tem a mania que é barítono e se atirou ao pote como quem pensa que o mel vai acabar – neste pormenor, provavelmente terá razão –; um senhor que é alcunhado, entre outras coisas, de primeiro-ministro, embora não seja esta a alcunha que o povo mais aprecia. Imaginei-o a dizer: «O país estava à beira do abismo, mas comigo deu um grande passo em frente». Estou ciente e consciente que ele não disse isto. Fê-lo, na verdade, mas não o disse. O que ele disse, não sei, quando ele fala já não o oiço. Aliás, não merece ser ouvido. A única coisa que mereceria ser ouvida era uma confissão pública do mal que fez a este país. Tirar a mão do nosso bolso e ir-se embora é que era.
Tinha acabado de ver o Ministro dos Impostos e, ao meu lado, alguém perguntava: «Porque será que o homem fala tão devagar?». Procurei esclarecer: «Sabe, amigo, não está ali um ser humano, trata-se de um cyborg. Sabe o que é um cyborg? Um cyborg é um ser vivo – chamemos-lhe assim – feito com tecidos humanos, de aparência humana, mas de natureza cibernética…
– Pode ser – voltou o outro à carga – mas por que é que fala tão devagarinho? Pensa que somos todos estúpidos, é?
– Não, amigo, ele fala assim porque está a fazer tradução simultânea. Tem um implante no ouvido que lhe permite ouvir permanentemente as ordens do Wolfgang Schäuble, que foi quem o mandou fabricar, e que é ministro das finanças na Alemanha…
A Alemanha está em vias de ganhar a guerra interrompida com a morte do homem do bigode ridículo. A sua substituta, sem precisar de tanques de guerra, basta-lhe o marco alcunhado de euro, gaseia-nos a todos. Podíamos atropelar a substituta do tal senhor, torpedear-lhe a moeda, despedir os empregados dela que aqui temos, mas não sei porque o não fazemos.
Por mim, faço votos que aconteça à Alemanha o que sempre lhe tem acontecido ao longo da História. Que se prove que o que tem que ser tem muita força.
E que a gente se safe, como é costume. Mas não estou nada, mesmo nada seguro.

(Nota: crónica publicada periodicamente no Jornal do Barreiro e que o autor partilha connosco) 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

FRESCOS


As nuvens, hoje há mais nuvens no céu
o ar está mais húmido, mas continua calor
existe maior harmonia com o hemisfério norte
congruência, para respirarmos mais descansados
esta tarde, com aqueles regatos que se formam no azul
encoberto aqui e acolá à medida da velocidade do vento
impressionante.

A COMUNIIDADE DO VALE DA ESPERANAÇA - UMA CRÓNICA



Cresci e sempre vivi entre casario, de ruas calcetadas ou asfaltadas, demarcadas por passeios e ponteadas por candeeiros de iluminação eléctrica ou a gás, com o rebuliço de animais e carretas e um crescendo de motores na via e barulheira no ar, mesclas de vozes e ruídos dos trilhos que da infância me chegam mais claramente o tilintar das campainhas e as buzinadelas à mistura com o chiar dos freios dos eléctricos nos carris. Nasci em Lisboa e aí vivi entre a casa e, quando a idade o obrigou, a escola, onde chegava tão só pelo efeito do esforço de caminhar, fora as passeatas familiares que me levavam pelos arredores pitorescos e aquilo que interessava ver na cidade, até que o paizinho aceitou a colocação de médico da CUF, no Barreiro, terra em que continua a viver e onde montou consultório particular desde a primeira hora e da qual parti de regresso à capital, para acabar o liceu e mais tarde frequentar a Faculdade em que me cursei. Do campo conhecia as colinas saloias salpicadas de moinhos de vento e a serrania de Sintra e, com algum pormenor, os arrabaldes do vale em que se situa a quinta dos meus avós paternos, encravada entre corcundas próximas e montanhas distantes, cujo céu faz jus à alcunha de abóbada que em certas noites se polvilha de pontos brilhando na envolvência de uma estrada de luz e de dia se azula ou se acinzenta e desfaz em choradeiras que vão do lastro de uma lágrima aos prantos que embaciam o ar e nos impedem de ver ao longe. Lembro-me bem das viagens de comboio entre Lisboa e o Porto e de como gostava de admirar as paisagens que iam ficando para trás, feitas de bosques e terras de cultivo, ou marcadas pelas saliências das torres das igrejas que se destacavam nos povoados; Coimbra que se nos deparava subindo pelas marrecas dos montes e por fim a Invicta, cujo presépio, à medida que a máquina fazia o passo lento sobre a ponte de ferro, víamos descendo sobre a serpentina de água que entre as margens se aconchega. Já rapariga crescida e com alvíssaras para piqueniques com amigos próprios, fora da alçada dos avós maternos que me abrigaram enquanto estudante, passeei pela Arrábida e as praias dessa costa e, na viagem de núpcias, atravessei o Alentejo e percorri o Algarve no carro que o meu sogro emprestou ao filho para que o casalinho pudesse ter o presente de dias subordinados ao usufruto dos prazeres. Sempre gostei de ver as manifestações do tempo na Natureza, mesmo naquela que se limita ao arranjo dos jardins. Cada estação do ano tem os seus próprios encantos e se a Primavera traz a cor ao enfeite das janelas e deixa que os canteiros perfumem o ambiente, o Outono amarelece as ramadas que o Inverno derrama no chão, acastanhando o solo. Mesmo os céus, onde o Sol ora brilha ora se envergonha e se enche de amuos e negaças com os jogos das nuvens, têm graças diferentes sem que alguma vez tivessem deixado de levar agrado às minhas contemplações. A Natureza é uma maravilha tão prodigiosa e tão bela que às vezes penso, com Spinoza, que se houvesse Deus teria que ser ela uma das suas manifestações. Mas nunca imaginei que as planícies da lezíria e os seus recortes com os relevos que as delineiam fossem tão encantadores. E tenho gostado particularmente do mês de Janeiro em que os zénites solarengos espalham margaridas pelo verde que as chuvadas deixaram nos terrenos. É certo ser ainda uma singela proclamação de manchas que do alvo da neve variam em ouro, mas é também o prenúncio da sinfonia que as pequenas asas hão-de oferecer ao gorgulhar pictórico com que as sementes transbordarão a superfície, quando é uma certeza que os dias estão a ficar mais longos e a necessidade de agasalho se insinua no alívio. E quando nos sentimos felizes e em paz, quando nos deitamos e adormecemos com a convicção de termos o dever cumprido e a consciência da satisfação por aquilo que fizemos, então é como se víssemos o mundo da mesma maneira que o enamorado transforma em pérola o mais insignificante calhau que à amada maravilhou e do tecto do mundo consegue colher as estrelas com que decora os cabelos do ente querido.
Agora compreendo a alegria daquelas pessoas que se lançam ao trabalho e acabam por disso ver bons resultados. Seria inevitável que as agruras surgissem. O trabalho pesa como pedregulhos que aos pés se atassem no meio do mar e nem todas as colheitas têm gozado da expressão dos melhores anos, tal como o que pretendemos por vezes se nega por entre esta e aquela contrariedade que nos arrelia e se atira de remoques entre uns e os outros, tal qual o dique que vai resistindo aos avanços da nossa força e audácia, mas basicamente seria um injustificado queixume sequer se insinuasse que as coisas nos têm corrido mal ou simplesmente menos bem. Afinal, nestes escassos quatro anos, já conseguimos tanto… A começar pela dívida para com o José Pedro que as cortiças do último Verão acabaram por saldar, deixando agora livre a acumulação que já nos permite investir, enquanto cooperativa, com capitais próprios. E ainda nascem os projectos que perspectivam um futuro de crescimento em direcção à abastança colectiva e individual, como, por exemplo, a ideia que está germinando de virmos a evoluir no sentido da indústria, muito embora estejamos ainda no domínio dos intentos e, nessa condição, não valha a pena estar agora a perder tempo com o assunto. Adquirida, para já, está a boa qualidade das pinhoadas da “Ti Noémia” que ganham fama e nome e já não chegam para o escoamento que têm e que a todos induziram a concordância com o propósito de criarmos uma pequena unidade de produção alimentar que poderá vir a abarcar o aproveitamento das pevides que as abóboras deixam, ou das batatas que poderemos transformar e vir a vender em pacotes. A verdade é que o que retiramos do pinhal tem proporcionado uma fonte de rendimento engraçado e das muitas figueiras que há por aí, poderemos obter os frutos passíveis de serem secos, tal como da vinha poderemos ainda extrair as uvas passas que só ganharemos em acrescentar àquela produção. E isto perante a garantia que teremos a nossa própria marca de azeite que o rejuvenescimento e o aumento do olival nos irá proporcionar a expansão tanto quantitativa, quanto na qualidade de nos habilitarmos para apresentar ao lado daquele óleo corrente, um outro mais fino que tentaremos mercar aqui e no estrangeiro. Nunca pensei que fosse uma alegria tão grande ver o fruto bem sucedido do nosso trabalho mas é isso que está a acontecer comigo ou, pelo menos, é justamente disso que me tenho dado conta quando ao chegar a casa, ao cair da tarde, ocasionalmente tenho assistido ao retorno da criançada que sai da creche, Primavera nos olhos e nos lábios, correndo para os braços abertos dos pais.
O mundo é que permanece atormentado pelos cavaleiros do apocalipse. Os nazis têm muito maior resistência do que aquela que se esperava. O paizinho diz que é uma questão de tempo para que o tirano caia e os canhões se remetam ao silêncio. Pessoalmente não sei aquilatar das suas razões, mas tenho a certeza de que no instante seguinte veremos que levou atrás de si o melhor que a civilização nos legou e sinceramente não sou capaz de me render ao optimismo de que o mesmo possa um dia vir a ser reconstruído a partir destas cinzas. Ai como eu gostaria de estar redondamente enganada.

domingo, 21 de outubro de 2012


A Missão do Brasil junto à CPLP tem o prazer de convidar para o concerto MÚSICA PARA FLAUTA E PIANO NO ESPAÇO DA CPLP, com MAURÍCIO FREIRE (flautista) e PAULO ÁLVARES (pianista), dia 25 de outubro, às 18h00, na Sala dos Espelhos do Palácio Foz.

Palácio Foz - Praça dos Restauradores, 25
 Lisboa

clique na imagem para ampliar

dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br 

sábado, 20 de outubro de 2012

BLOGUES E FACEBOOK


Serenidade Fotografia de António Tapadinhas

Levei tempo a aderir ao FB e, curiosamente, depois desse facto, comecei a dar menos importância aos Blogues.
Eu até julgo saber as razões: só queria falar de pintura ou literatura nos Blogues e no FB não me sentia obrigado a esses temas. Para além disso, o FB é mais leve, mais imediatista, não precisamos de pensar muito no que dizemos ou escrevemos.
...Era o que eu julgava.
Mesmo agora, ao escrever estas palavras, dou por mim a pensar: mas quem é que me ordenou que escrevesse parvoíces no FB e coisas profundas ou inteligentes no meu Blogue?!


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Alimentação ecológica – Um Serviço à Humanidade. Dia Mundial da Alimentação.


António Justo

Celebrou-se na terça-feira passada o dia mundial da alimentação. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) submeteu a comemoração do Dia Mundial da Alimentação, deste ano, ao tema “Cooperativas agrícolas alimentam o mundo”. Este constitui um pau de dois bicos se atendermos ao facto de muitas multinacionais ditarem os preços dos produtos agrícolas a cooperativas locais agrícolas, chegando até a força-las indirectamente a comprar-lhes as sementes e até pesticidas e adubos. Os arrendamento Leasing (locações) torna-se problemático.

O direito a uma alimentação saudável e equilibrada, num mundo já com 7 bilhões de habitantes, é tarefa difícil num tipo de sociedade cada vez mais centrado em grandes cidades.
O lema “Cooperativas agrícolas alimentam o mundo” seria muito de saudar se acompanhado duma política descentralizadora da produção e comercialização dos produtos alimentares; isto é, se se fomentasse mais a produção biológica e os biótopos locais e regionais.

Facto é que no mundo existem praticamente apenas 10 monopolistas que dominam o mercado mundial da alimentação. São as seguintes multinacionais: Nestlé, Kraft, Pepsico, P&G, Kelloggs, MARS, J, Unilever, JonsonJonson e CocaCola.

Monopolistas destroem a Paisagem e os pequenos Lavradores

Com o fortalecimento dos monopolistas e consequente redução da produção em poucas mãos, assiste-se também ao aumento das monoculturas e à diminuição de oferta de produtos e à destruição dos pequenos agricultores. Para se fortalecer os monopolistas os lóbis criam até leis sobre as medidas comerciáveis da banana, da maça, etc., para que as de tamanho mais reduzido e menos “luzidio” sejam impedidas, destruindo-se, assim, o pequeno lavrador e aqueles que não usam pesticidas. Os monopólios agrários vão contra a diversidade de produtos agrícolas, sendo difícil de avaliar as consequências para a saúde.

De facto, também dez multinacionais dominam três quartos do mercado das sementes. Monsanto (USA) domina 27% do mercado mundial. DuPont (USA) e Syngenta (CH), produzem também pesticidas. (Cf. www.saatgutfonds.de). Assim as multinacionais, entrelaçadas entre elas determinam o produto agrícola a comercializar e até a fornecimento do adubo e pesticida a utilizar..

A industrialização da agricultura, concentrada em poucas firmas, leva também à monocultura destruindo assim a individualidade da paisagem, ameaçando o sistema ecológico. Uma investigação da Universidade Mochigan 2007 revela que se se procedesse à conversão da produção mundial de alimentos, em vigor, em agricultura biológica, verificar-se-ia um aumento na produção de alimentos em 50%, o que corresponderia a 4381 quilocalorias por pessoa e por dia.

Também a produção (reprodução) de sementes ecológicas protegeria a variedade de produtos vegetais e contribuiria para que os pequenos lavradores do interior se afirmassem não precisando de emigrar. As multinacionais fomentam apenas a produção de espécies (sementes) que necessitam de fertilizantes artificiais e pesticidas para terem boas produções e aumentarem os lucros especulativos. Na competição da manipulação biológica seria importante que os Estados se preocupassem em colaborar com universidades na produção de novas variedades de sementes adaptadas à mundivisão ecológica. Por enquanto, a compra de produtos biológicos ainda é um luxo, dado estes custarem, pelo menos, o dobro dos produtos agrícolas industriais. Os monopolistas fomentam a criação de verdadeiros campos de concentração de galinhas, porcos, etc. e roteamento de florestas. A humanidade ainda não chegou ao consumo alimentar.

Para se comer de consciência tranquila não chega um tratamento humano dos animais segundo as espécies a consumir. Além doutros aspectos, é preciso ter-se em conta o emprego da penicilina e hormonas no tratamento dos animais. A consequência do consumo de produtos, com tais ingredientes, vê-se já nas pessoas que cada vez se tornam maiores; há consequências que só podem ser observadas passadas várias gerações. Teologicamente poder-se-ia dizer que a Redenção de Cristo também se deu para os animais.

Depois da segunda guerra mundial desenvolveram-se as monoculturas com a industrialização da alimentação com a criação de espécies híbridas. Assiste-se a um êxodo das famílias do campo para as cidades. Neste ambiente os monstros da economia cada vez se afirmam mais contra os biótopos naturais.

O consumo de recursos para produzir um quilo de carne é hoje quatro vezes mais do que o que se precisaria para a produção de alimentação com cereais. A importação de soja para alimentar os animais destrói a floresta amazónica da américa do sul.

A aberração do comércio está também no facto da indústria e comércio alimentar se encontrarem nas mãos de accionistas que ganham imenso com a especulação de produtos alimentares. Um efeito colateral do grande negócio pode ver-se também no facto da produção dos peitos de frangos se reservar para a Europa rica sendo os restos exportados para África, a preços naturalmente baixos, destruindo, deste modo, os mercados locais africanos.


Urge criar uma nova ordem económica de comércio justa e humana, especialmente no que respeita à produção e comercialização de alimentos. O consumidor tem o poder de reduzir o consumo de carne e optar por produtos regionais, por amor ao solo, aos animais, às águas e ao ar. Só o consumidor poderá, através duma compra consciente, contribuir para se mudar o sistema da concorrência actual num sistema de cooperação a favor do bem-comum.

António da Cunha Duarte Justo

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Versículos


arco-íris

Pela estrada da vida
vamos
em busca do diamante eterno.
Luz.


Luís Santos


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

No quarto de partida


Velha de teus olhos verdes,
Passageira final à barca,
Mulher de força, desgaste sólido,
Padroeira idosa já tão fraca.

Diz  teu olhar de tão trémulo,
O cansaço pestanejante ainda vivo.
Do silêncio se escuta a sentença.
Que efémero momento, agora reflectindo.

A paz da tua cama
E da minha, a turbulência.
Esperando  assim alegre fado.

Deitar-me-ei contigo para sempre
Nessa cama,  que fofa,
Com o  candeeiro  apagado.


                                       Diogo Correia


terça-feira, 16 de outubro de 2012

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Ontem esqueci-me de referir um ponto importante desta minha passagem pela experiência de uma história de espiões e conspiradores. De certa maneira é melhor assim, tratar em separado um aspecto que afinal ofuscaria a alegria sentida pelo ter que reviver emoções e momentos que me fizeram feliz e com os quais muito aprendi e cresci. Sem o menor sintoma de narcisismo e sem a mínima vaidade que seria feia e retiraria às minhas palavras qualquer sentido de sentimento e sinceridade, posso mesmo escrever ter sido esta uma daquelas aventuras que, por aquilo que em elas adquirimos, concorrem para que sejamos umas pessoas melhores e foi precisamente isso que sucedeu comigo. Não sei se não será uma frase feita dizer que é nas situações mais difíceis que as pessoas se revelam mas, ainda que o não pensasse, seria certamente essa uma observação que teria que acompanhar a revisão daqueles factos, quer dizer, de toda aquela sucessão de peripécias verificaríamos, de tão evidente que o carácter de cada um dos envolvidos, quer directa quer indirectamente, não só foi posto à prova como acabou por se definir em face daquilo que as circunstâncias levaram cada pessoa a enfrentar. E é sempre triste concluir que não podemos estar confiantes que aqueles que estão ao nosso lado se dispõem a estender-nos a mão quando disso precisamos. Depende do que está em jogo, daquilo que cada um entende ter a perder ou a ganhar e do resultado que encontra para essa equação. É natural que assim seja, é o que me parece e não estou certa que possamos estabelecer algum julgamento moral a esse respeito. Antes de mais, somos apenas animais, como os outros e nessa medida, como todos, o primeiro problema que se nos coloca é o da própria sobrevivência. É precisamente aí que entram os valores que nos podem encaminhar para um dos lados desse ténue meridiano que separa a animalidade da humanidade ou seja, a barbaria da civilidade e é nisso que o carácter de cada um importa, pois, em boa parte, dele dependem as escolhas àquele nível. A generosidade e a coragem quando sinceras e não meros balões de palavras, sobrepõem-se ao medo e permitem que entre a solidariedade e o egoísmo, a opção recaia na primeira. Há sempre temores, desde logo na perspectiva do sofrimento físico ou psicológico e até moral, mas também na da perda do conforto material com que nos sentimos satisfeitos, mas são os traços daquilo que verdadeiramente somos que acabam por determinar os pressupostos das nossas condutas e se é a inteligência a ferramenta que usamos para sermos capazes de ultrapassar os medos, são os valores que elegemos que nos levam a tentar fazer uso daquela tendo em vista a finalidade de que falámos. Sendo normal e agora o vejo, esperável, não deixa por isso de me entristecer a verificação de tanta mesquinhez naqueles que nos rodeiam. E foi tão agradável o reviver daqueles dias que teria sido de todo lamentável se o estragasse com este outro lado menos abonatório daquela memória. A verdade é que nem todos bateram palmas ao modo recto e sem subserviências com que enfrentámos a polícia política e as vicissitudes por que esta e a guarda nos fizeram passar, indo ao pormenor humilhante de obrigar mães com bebés ao colo a ficarem na praça, sob o olhar atento e ávido dos fuzis, enquanto aquela canalha não desse por concluído o rasto abjecto das casas rebuscadas em nome de deveres anti-subversivos. Caramba, eu já nem lhes pediria que fossem capazes de assimilar a pertinência do que o José Pedro quis dizer quando afirmou que há momentos em que um homem tem que tomar uma posição. Será que as pessoas podem ser assim tão cegas? Será que não vêem que este regime atingiu um estado de demência tal que vê uma conspiração comunista em tudo? Então não temos conhecimento que as forças da ordem andam por aí, por esses campos, prontos a partirem os dentes a quem se limite a pedir mais dois tostões pela jornada por um simples naco de pão? Será que esta gente é toda ela comunista? Só se o pedir um pouco mais para os filhos ou até se o quase anódino clamar por um pouco mais de justiça for o suficiente para o ser. Será que algumas destas almas não compreendem que a pobreza, a miséria, melhor dizendo, é tanta que as pessoas nada mais querem que o comer um pouco melhor? Não será criminoso que se atirem as coronhas e os bastões, quando não as balas da polícia, sobre trabalhadores que fazem uma greve para que as respectivas barrigas e as dos seus tenham um pouco mais de respeito? Como pode o regime falar em nome dos portugueses se os mantém acorrentados aos ditames e ganâncias dos mais fortes e os priva da liberdade através de uma violência demente e gratuita que nem ao paizinho deixou de fora, incomodando-o por prestar cuidados médicos a quem eles tomam por maus e pouco ou nada recomendáveis, justamente aquilo que ele jurou como compromisso deontológico nunca dever deixar de fazer? Como é que pode haver quem perante tudo isto tenha apontado o senhor Abel como causador do mau bocado por que passámos? Infelizmente foi mesmo isso que aconteceu nos dias que se seguiram à nossa vitória secreta e de que nenhum deles chegou, mesmo que remotamente, a saber. Não tendo gostado do incómodo e, lá está, deixando que os pequenos egoísmos abafassem qualquer manifestação de generosidade de que, no caso, nem teria sido assim tão difícil arranjar as aparências de um disfarce, houve quem reagisse à presença abusiva e repressora da polícia com o propósito imediato da distribuição da culpa para a qual, o senhor Abel, em tal entendimento, teria o perfil ideal, assentando-lhe assim aquela que nem uma luva. Pessoalmente gosto muito dele, acho-o um ser humano extraordinário, um homem bem disposto e, apesar do que já percorreu de espinhos e facadas ao longo da vida, sem rancores, uma pessoa cheia de energia e sempre pronta a dar uma mãozinha ao próximo, alguém a quem as refregas podem deitar abaixo mas que se levanta uma e outra vez, aquelas que tiverem que ser, um exemplo de pai e marido e como se isso não fosse o bastante, inteligente, arguto e de mente aberta e eivada de curiosidade que o faz por interessar-se e empenhar-se em aprender aquilo que não teve oportunidade para aprender nos bancos da escola, contudo nem chega a ser isso que está em causa. Isso é o que o José Pedro resumiu em face desse diz que disse, ao sustentar ser aquela acusação uma vergonha que ele se recusava a perfilar. Pois tem ele toda a razão, é uma vergonha que a mim entristece e nem é pelo indivíduo em si a quem o dedo se aponta, antes pelo próprio esticar do indicador e o que ele revela de carácter que, na solidariedade nada mais vê que um vão vocábulo. É nesta mesquinhice que as tiranias se sustentam. Vale que o senhor Abel, se disso soube, não guarda ressentimentos a quem quer que seja.

FRESCOS


Fecho os olhos e sobra-me, num escuro indefinidamente claro, o rasto luminoso.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A HISTÓRIA DO CORNETEIRO


Nos primeiros tempos da fundação da nacionalidade - tempo do nosso rei D. Afonso Henriques - no fim de uma batalha o exército vencedor tinha direito ao saque sobre os vencidos. (Saque - s. m. : acto de saquear. Roubo público legitimado).
Pois bem, após uma dessas batalhas, ganha pelo 1º Rei de Portugal, o seu corneteiro lá tocou para dar "início ao saque" a que as tropas tinham direito e que só terminaria quando o mesmo corneteiro desse o toque para pôr “fim ao saque”.
Mas, fruto de alguma maleita ou ferimento, o dito corneteiro finou-se, antes de conseguir tocar o "fim ao saque".
E, até hoje, ninguém voltou a tocar, anunciando o fim do saque.
Afinal a culpa é mesmo do corneteiro!...
Não haverá por aí alguém que conheça o toque ?

Margarida Castro

domingo, 14 de outubro de 2012

Propostas imediatas do PAN para a situação de emergência nacional



O Partido pelos Animais e pela Natureza apresenta uma série de propostas que acredita constituírem respostas muito mais éticas e eficazes à situação de emergência nacional que Portugal atravessa do que aquelas que têm vindo a ser implementadas pela coligação PSD/CDS-PP, que apenas conduzem a mais austeridade e miséria. Para um Portugal mais próspero e justo, propomos:

- Auditorias independentes à dívida soberana e divulgação total dos seus resultados para que os cidadãos possam saber o que lhes pedem para pagar.

- Renegociação imediata da dívida nacional, visando o alargamento de prazos de pagamento e a diminuição das taxas de juro em vigor. Defendemos que a taxa de juro a pagar não deverá ultrapassar a que a Alemanha suporta pela sua dívida pública.

- Adoptar políticas de austeridade não cegas, equitativas e não asfixiadoras da economia nacional e dos seus agentes mais vulneráveis (famílias e micro e pequenas empresas).

- Tornar nulos os contratos das Parcerias Público-Privadas (PPP's) identificadas pelo Tribunal de Contas como tendo violado os preceitos legais e responsabilização de quem as negociou.

- Renegociação célere das Parcerias Público-Privadas (PPP's) num processo transparente e que inclua a divulgação integral dos respectivos contratos.

- Tributação dos sectores bancário e segurados semelhante à da generalidade das empresas portuguesas, extinguindo benefícios que lhes permitem ter uma taxa de tributação inferior.

- Fim das mordomias excessivas da classe política e dirigentes da administração pública ou do sector empresarial do Estado (ajudas de custo elevadas, frota automóvel de luxo, viagens em primeira classe, etc.).

- Aumentar a taxa de IRS para os escalões mais altos de rendimentos.

- Criação de um imposto extraordinário sobre produtos de luxo.

- Intervenção do Estado nas políticas de crédito para as PME's dos bancos que receberam dinheiros públicos.

- Reprogramação urgente dos fundos do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) para os dirigir ao apoio das micro e pequenas empresas, para a criação de emprego e para a formação profissional, bem como privilegiar as entidades que realizem consumos sustentáveis (incluindo produtos nacionais, se se enquadrarem neste conceito) e cujo resultado possa ser partilhado por um vasto grupo da população e não apenas por uma minoria (elites).

- Divulgação pública num único sítio de todas as despesas de organismos do Estado, partidos políticos e empresas públicas que operem num ambiente não concorrencial, com excepção apenas para dados que coloquem em causa o direito à privacidade dos cidadãos, a sua segurança ou a segurança nacional.

- Responsabilização criminal e penas severas para responsáveis políticos ou funcionários públicos que omitam informações ao Tribunal de Contas, a qualquer outro organismo de investigação ou em documentos oficiais (como as declarações de interesses).

Intervenção à escala europeia:

- Criação de um bloco de pressão constituído por todos os países intervencionados ou em risco de o ser com vista à alteração da política europeia relativa à crise das dívidas soberanas.

- Revisão do acordo com a "troika", alargando o período de ajustamento, diminuindo as taxas de juro cobradas e substituindo as medidas geradoras de injustiça e empobrecimento, muitas das quais não têm qualquer impacto na capacidade de Portugal pagar a sua dívida.

- Alteração dos tratados europeus para permitir que o Banco Central Europeu (BCE) compre dívida soberana directamente aos Estados membros.

- Criação de uma taxa sobre transacções financeiras para combater a especulação.

9/10/2012

(Nota da Redação: texto enviado por Paulo Borges, Presidente do PAN)

sábado, 13 de outubro de 2012

Indígena e pescadores realizam nova ocupação do Belo Monte


Estou enviando o vídeo somente hoje à noite. Está tudo muito ruim aqui em Altamira, telefone, internet, enfim todo mundo sabe. Estou enviando imagens do segundo dia da ocupação, fiz uma edição com dois link, no primeiro fala de liderança indígenas e pescadores, no segundo imagens do local que foi ocupado. Acredito que esse formato seja mais interessante para baixar e fazer a própria matéria, ajudem a divulgar o máximo.


Nova ocupação paralisa a obra de Belo Monte


Espero que gostem do novo format e ajudem a divulgar , estamos pensando de fazer um vídeo sobre pauta e campanha de ajuda para ocupação.

Obrigado,
Andrea Duglac

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Musidanças




Em novembro, o Bairro Alto abre as portas à lusofonia

O primeiro lugar em que Oriente, Índias, Áfricas e Áméricas se encontraram, recebe agora o festival das artes do mundo lusófono, o Musidanças. Guiné, Angola, Portugal, Cabo Verde e Moçambique reúnem-se no Bairro Alto para celebrar com ritmos a mestiçagem da língua portuguesa. O encontro está marcado para os dias 1, 2 e 3 de novembro no Teatro do Bairro, com apresentação na Fnac Chiado.

Para a sua 12ª edição, o Festival Musidanças traz ao coração de Lisboa uma mostra da nova geração de músicos que, apesar de serem provenientes de estilos diferentes, partilham algo em comum: a língua.

O festival arranca na Fnac Chiado com Tutim Di Giralda, um artista que tem vindo a revelar-se, através da voz da cantora cabo-verdiana Nancy Vieira, como um talentoso e versátil compositor. Mas o seu dom
transcende a composição, e é por isso que se estreia agora também como vocalista.

Mais tarde os Cabace sobem ao palco do Teatro do Bairro para nos trazer um som que definem como “Afro-good-feeling”. É música carregada de vibrações positivas, que explora estilos africanos bem como géneros mais mainstream como a pop, o soul ou o reggae.

E se um moçambicano e uma caribenha se encontrassem no caldeirão étnico de Londres e decidissem criar música juntos? Foi o que fizeram Mohammed, rapper moçambicano e Sarina Leah, cantora de r'n'b caribenha. Em conjunto formam os Native Sun, um duo que mistura a língua portuguesa com a inglesa e une o hip-hop ao soul. Os Native Sun actuam no dia 2 de novembro, o segundo dia do festival.

E se foi no coração de Lisboa que tudo se misturou, é natural que existam ainda os ecos da história, que criaram novas tradições. No último dia do festival, os ATMA sobem ao palco e espalham pela sala o espirito lusitano. Através dos acordes da guitarra portuguesa e do fado, o grupo convida o público a uma viagem pelo mundo arábe e crioulo.

A apresentação do festival na Fnac Chiado tem entrada gratuita. No Teatro do Bairro, os bilhetes são diários e estarão à venda no local do evento, existindo a possibilidade de serem reservados. O valor de cada ingresso é de 8€.

A CP associou-se ao Musidanças no âmbito da sua estratégia de promoção do comboio como meio de transporte para viagens de lazer, e para além da oferta de condições comerciais vantajosas nos seus transportes, a empresa apoia a divulgação do evento.

Para além da CP, o Festival Musidanças conta ainda com o apoio da Fnac, do Teatro do Bairro, da Associação Jungleplanet, da Zoomusica, da NCS Entertainement e da WTG®Management.

Programação

1 de novembro (Quinta-feira)

18h30 - Fnac Chiado
Apresentação do Festival Musidanças com Tutim Di Giralda

23h00 - Teatro do Bairro
Cabace (Guiné Bissau/ Afro / Soul / Reggae)
Dj Quiné (Dj Set) (Afro World)

2 de novembro (Sexta-feira)

23h00 - Teatro do Bairro
Native Sun (Moçambique / UK / HipHop / Soul)
Eliza Sparks vs Sette feat Greyss (Dj Set) (Afro / Hiphop)

3 de novembro (Sábado)

23h00 - Teatro do Bairro
ATMA (Portugal/World Fusão)
Bob Figurante feat. Dublota Sound (Dj Set) (Reggae / Étnico)

Preço de venda ao público

Bilhete: 8€ ( à venda no local do evento, existindo a possibilidade de reservar).

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Poema da Semana


AMOR FEITO POESIA
é mais um poema declamado para os românticos e não só que poderá ouvir e ver aqui neste link:

www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Amor_Feito_Poesia/index.htm

Euclides Cavaco

Aceite o meu convite e venha tomar comigo um cálice de poesia. Entre por aqui na minha sala de visitas e saboreie da que mais gostar...
www.ecosdapoesia.com

terça-feira, 9 de outubro de 2012

FRESCOS


De repente a chuva e a cabeça cai no fervilhar da areia.

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Bem, creio poder afirmar que passei pela minha história de aventura com passagens pela experiência da clandestinidade e da luta subversiva. Mais que um caso policial, quase me pareceu um enredo de espionagem e, no balanço final, não será imodéstia admitir que tenho razões para estar satisfeita com o meu comportamento, pois em momento algum vacilei perante os perigos e naturalmente no meio das peripécias em que, sempre por força das circunstâncias e nunca por molas decorrentes da minha vontade, me vi envolvida. Curiosamente tenho para mim que cresci com isto. Aprendi a conhecer-me melhor e fiquei a saber que sou capaz de manter o sangue frio e a presença de espírito em situações que põem em risco não só a nossa segurança como, no fundo, podem arrastar para uma exposição às maiores sevícias físicas e até ao mais prosaico ponto final nesta maravilhosa delícia que é o facto de estarmos vivos. Pudera, enfrentar a polícia política, com os seus esbirros cheios de vontade de ver sangue e completamente determinados a desmantelarem uma acção conspirativa, cheios de técnicas e artimanhas para o prosseguirem e com as armas e a violência sem freio suportadas na lei e protegidas pelo restante aparelho do estado, moralmente despidos do respeito que a vida humana deve gozar e eticamente enformados na ideia do cumprimento do dever na sua missão de defenderem o que eles consideram ser os interesses da nação e que para mim não passam daqueles que fundamentam a lógica de um regime que se arroga de falar em nome dos portugueses ao mesmo tempo que os priva da liberdade de se defenderem da ganância e das prepotências mais abjectas e com isso os atira para o limbo da miséria em que a maioria deles permanece. Dar de caras com a agressividade em desenlace eminente, quando menos se espera e sofrer de imediato a ameaça que sabemos não ser vã de que algo horrível nos vai acontecer, é daqueles acontecimentos que nos fazem sentir um arrepio que mais se assemelha a um choque eléctrico, seguido de um estranho rebuliço na barriga que desce, num ápice, até às extremidades da anca e nos deixa com a fraqueza nas pernas de quem sustem as necessidade mictóricas, na proporção inversa da sensação de secura que se instala na garganta. Ver um bando de meliantes de pistola em punho entrarem pela casa de empurrão, ainda os galos fazem horas e as estrelas deixam a superfície à mercê das sombras, batendo antes de perguntar e rebuscando os cantos e os recantos mais esconsos em busca do que não encontram por lá não estar e depois suspendermo-nos na incerteza que uma retirada tão repentina e inesperada como a invasão deixa no espírito. Ou ver um ror de homens fardados apearem-se de dois camiões para cercarem a aldeia munidos de espingardas prontas a disparar e os da secreta aos gritos e com maus modos e aos encontrões, insistindo em reunir quem estivesse no largo, sempre na condição indefesa de quem não tem como escapar ao mal que lhe queiram impor. Se alguém me tivesse dito que eu seria capaz de ter a resposta e a serenidade apropriada para não só reagir até com certa delicadeza às manifestações da barbaridade, como ainda para chamar a atenção para a falta de sentido do injustificado e a necessidade de mantermos o bom senso, se alguém me dissesse que eu seria capaz de mentir e ocultar informações sem deixar transparecer o mais leve sinal de o estar a fazer e muito menos se alguém me dissesse que eu conseguiria tudo isso e simultaneamente acalmar os outros e levá-los a controlarem receios e estados de pânico e a adequarem as atitudes, para ser sincera, antes de tudo o que se passou, jamais o teria acreditado. Os meus pais educaram-me para saber tratar de mim e ganhar o meu próprio sustento para não ser um fardo para ninguém. O paizinho, especialmente, sempre me incentivou a enfrentar os obstáculos com tranquilidade e a mente aberta para encontrar as melhores soluções para cada problema. São mesmo uma memória de infância os passeios que dava com ele pelos campos circunvizinhos à quinta dos avós, naqueles dias que ele ali passava connosco e que nuns anos coincidiam com o levar-me e noutros com o trazer-me e que sempre englobavam uma escalada até ao cume da serra, em que ele me fazia defrontar com passagens sobre e através de rochedos que só vergava pela força do ânimo. Daí até às qualidades de uma militante em plena luta subversiva que acabei por sentir em mim… Não sei, por muito que procure, não sou capaz de imaginar onde fui buscar um tal desembaraço. Mas a miséria que nos rodeia é tanta, o sofrimento que os testemunhos do Félix e do Artur nos trazem é tanto por essas casas e casebres fora, apinhadas de crianças que não chegam a ter a idade do sonho por passarem directamente para o esforço das tarefas sequer passando pelos bancos de escola, deve ser tão triste e desesperante ver os filhos descalços sem possibilidade de aconchegarem o estômago com algo mais que as sopas de caldo e batatas e um simples naco de pão. Provavelmente foi isso que me fez forte na convicção de não estar a fazer algo de errado e consequentemente me transmitiu a força de vontade necessária para enfrentar a borrasca com os olhos bem abertos e, apesar do medo que sempre me acompanhou, tenho de o confessar, com um mínimo de lucidez. Mas tenho quase a certeza que foi essa a razão por que o José Pedro, na minha cozinha e em voz de segredo, disse para o Manuel e para mim e para o Félix e a Éster que também estavam presentes que há momentos em que um homem tem que tomar uma posição e foi desse modo que ele ali justificou a concordância em prestar todo o auxílio possível ao senhor Abel, a quem, pela calada de um amontoado de silvas e choupos em torno de um charco, nada mais nada menos que um destacado dirigente comunista pediu socorro para si e o responsável pela greve numa importante fábrica da Covilhã, a fim de se esconderem até que a rede os pudesse conduzir para lá da fronteira até à União Soviética onde hão-de ficar a salvo. A única reserva é que seria de todo inconveniente se os outros soubessem ou viessem a saber da conjura, até pela ausência de garantia quanto à concordância de alguns em face daquilo que eles se propunham fazer. Essa preocupação em todos se revelou e sobretudo na Teresa, desde a primeira hora, pois foi debaixo do seu tecto que o mais velho de todos nós se abriu e foi dela que partiu a ideia de usarem as grutas de uns penhascos na ponta a Norte da propriedade que, numas boas mãos cheias de hectares, permanece selvagem há muitas gerações. Se fizessem a coisa sem deixar rasto, dificilmente ali apareceria alguém à procura dos fugitivos e com um pouco de imaginação e um trabalho bem organizado, seria possível manter aquelas pessoas pelo tempo que fosse preciso até que as coisas amainassem e elas, muito embora furtivamente, encontrassem as condições para partir rumo à tão desejada liberdade. E pelo que ela conhecia daquela área, seria fácil montar uma panóplia de atalaias e mecanismos de aviso para que, no caso de os maus por ali quererem avançar com cães e metralha, os dois tivessem tempo de saírem dali e de se acoitarem na ravina traseira a que só pelo interior da terra tinham acesso e cuja passagem só por mero acaso os perseguidores conseguiriam encontrar e mesmo assim só depois de perceberem o que a mesma poderia significar o que, com todo o respeito, seria muito pouco provável se todos os cuidados tivessem sido seguidos na eliminação dos vestígios das presenças e na ocultação daquela entrada. Mas faltava a organização, o plano bem urdido e executado e para isso careciam de operacionais que os dois, ou os três se contassem com ela, não teriam como levarem a conspiração a bom porto. Qualquer um deles estava perfeitamente consciente que não eram só as suas próprias vidas que, em última instância, estavam em jogo. A comunidade, como um todo, poderia muito bem vir a ser afectada de morte se algo corresse mal e ao mesmo tempo estavam bem certos da discordância de alguns dos que nos acompanham nesta nossa experiência. O Manuel ficou todo satisfeito pelo sinal de confiança que foi o terem-se lembrado de nós para ajudarmos neste episódio de revolucionários e espiões. Mas tenho muitas dúvidas que isso tivesse o menor peso na sua concordância e empenho sem a menor das hesitações. Foi assim que entre nós, ainda com a conivência do Gustavo e da Viviana que a todos cobriram os álibis, perante os outros ou quem quer que fosse e a colaboração, como disse do Félix e da Éster, foi dessa forma que vigiámos caminhos e colinas e despistámos rastos e provas para que, uma vez a cada três dias, os foragidos pudessem pôr o dente em comida fresca e ficassem abastecidos com o suficiente para as restantes jornadas de isolamento e isto de tal maneira que nem a menor migalha ficasse sobre o chão onde se haviam escondido. Todos os envolvidos estão certos que a polícia apareceu por aí não porque desconfiasse com fundadas suspeitas de alguma coisa, mas apenas por saberem do passado do senhor Abel, ao que naturalmente se juntam os ditos e os mexericos que na Vila, de quando em quando, ainda constam a nosso respeito. E eu vi pela primeira vez alguém a quem chamam de perigoso comunista que, pelo cabelo desgrenhado e a barba por fazer e mal tratada, tenho até certa vergonha em o admitir, mais me pareceu um Zé do Telhado do que alguém determinado em transformar o mundo na maior justiça do socialismo. Agora que já lá vão um bom par de meses sem que hajam notícias de prisões, podemos começar a serenar e a acreditar que tudo passou, nós cumprimos com os imperativos das nossas consciências e este nosso pequeno paraíso ficou a salvo. Nestes tempos de guerra que teima em não querer acabar, é a alegria de uma pequena vitória sobre a tirania.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Versículos


Esperança

Saudade, essa palavra
que nos é tão cara.
Portugal.


Luís Santos