terça-feira, 23 de outubro de 2012

A COMUNIIDADE DO VALE DA ESPERANAÇA - UMA CRÓNICA



Cresci e sempre vivi entre casario, de ruas calcetadas ou asfaltadas, demarcadas por passeios e ponteadas por candeeiros de iluminação eléctrica ou a gás, com o rebuliço de animais e carretas e um crescendo de motores na via e barulheira no ar, mesclas de vozes e ruídos dos trilhos que da infância me chegam mais claramente o tilintar das campainhas e as buzinadelas à mistura com o chiar dos freios dos eléctricos nos carris. Nasci em Lisboa e aí vivi entre a casa e, quando a idade o obrigou, a escola, onde chegava tão só pelo efeito do esforço de caminhar, fora as passeatas familiares que me levavam pelos arredores pitorescos e aquilo que interessava ver na cidade, até que o paizinho aceitou a colocação de médico da CUF, no Barreiro, terra em que continua a viver e onde montou consultório particular desde a primeira hora e da qual parti de regresso à capital, para acabar o liceu e mais tarde frequentar a Faculdade em que me cursei. Do campo conhecia as colinas saloias salpicadas de moinhos de vento e a serrania de Sintra e, com algum pormenor, os arrabaldes do vale em que se situa a quinta dos meus avós paternos, encravada entre corcundas próximas e montanhas distantes, cujo céu faz jus à alcunha de abóbada que em certas noites se polvilha de pontos brilhando na envolvência de uma estrada de luz e de dia se azula ou se acinzenta e desfaz em choradeiras que vão do lastro de uma lágrima aos prantos que embaciam o ar e nos impedem de ver ao longe. Lembro-me bem das viagens de comboio entre Lisboa e o Porto e de como gostava de admirar as paisagens que iam ficando para trás, feitas de bosques e terras de cultivo, ou marcadas pelas saliências das torres das igrejas que se destacavam nos povoados; Coimbra que se nos deparava subindo pelas marrecas dos montes e por fim a Invicta, cujo presépio, à medida que a máquina fazia o passo lento sobre a ponte de ferro, víamos descendo sobre a serpentina de água que entre as margens se aconchega. Já rapariga crescida e com alvíssaras para piqueniques com amigos próprios, fora da alçada dos avós maternos que me abrigaram enquanto estudante, passeei pela Arrábida e as praias dessa costa e, na viagem de núpcias, atravessei o Alentejo e percorri o Algarve no carro que o meu sogro emprestou ao filho para que o casalinho pudesse ter o presente de dias subordinados ao usufruto dos prazeres. Sempre gostei de ver as manifestações do tempo na Natureza, mesmo naquela que se limita ao arranjo dos jardins. Cada estação do ano tem os seus próprios encantos e se a Primavera traz a cor ao enfeite das janelas e deixa que os canteiros perfumem o ambiente, o Outono amarelece as ramadas que o Inverno derrama no chão, acastanhando o solo. Mesmo os céus, onde o Sol ora brilha ora se envergonha e se enche de amuos e negaças com os jogos das nuvens, têm graças diferentes sem que alguma vez tivessem deixado de levar agrado às minhas contemplações. A Natureza é uma maravilha tão prodigiosa e tão bela que às vezes penso, com Spinoza, que se houvesse Deus teria que ser ela uma das suas manifestações. Mas nunca imaginei que as planícies da lezíria e os seus recortes com os relevos que as delineiam fossem tão encantadores. E tenho gostado particularmente do mês de Janeiro em que os zénites solarengos espalham margaridas pelo verde que as chuvadas deixaram nos terrenos. É certo ser ainda uma singela proclamação de manchas que do alvo da neve variam em ouro, mas é também o prenúncio da sinfonia que as pequenas asas hão-de oferecer ao gorgulhar pictórico com que as sementes transbordarão a superfície, quando é uma certeza que os dias estão a ficar mais longos e a necessidade de agasalho se insinua no alívio. E quando nos sentimos felizes e em paz, quando nos deitamos e adormecemos com a convicção de termos o dever cumprido e a consciência da satisfação por aquilo que fizemos, então é como se víssemos o mundo da mesma maneira que o enamorado transforma em pérola o mais insignificante calhau que à amada maravilhou e do tecto do mundo consegue colher as estrelas com que decora os cabelos do ente querido.
Agora compreendo a alegria daquelas pessoas que se lançam ao trabalho e acabam por disso ver bons resultados. Seria inevitável que as agruras surgissem. O trabalho pesa como pedregulhos que aos pés se atassem no meio do mar e nem todas as colheitas têm gozado da expressão dos melhores anos, tal como o que pretendemos por vezes se nega por entre esta e aquela contrariedade que nos arrelia e se atira de remoques entre uns e os outros, tal qual o dique que vai resistindo aos avanços da nossa força e audácia, mas basicamente seria um injustificado queixume sequer se insinuasse que as coisas nos têm corrido mal ou simplesmente menos bem. Afinal, nestes escassos quatro anos, já conseguimos tanto… A começar pela dívida para com o José Pedro que as cortiças do último Verão acabaram por saldar, deixando agora livre a acumulação que já nos permite investir, enquanto cooperativa, com capitais próprios. E ainda nascem os projectos que perspectivam um futuro de crescimento em direcção à abastança colectiva e individual, como, por exemplo, a ideia que está germinando de virmos a evoluir no sentido da indústria, muito embora estejamos ainda no domínio dos intentos e, nessa condição, não valha a pena estar agora a perder tempo com o assunto. Adquirida, para já, está a boa qualidade das pinhoadas da “Ti Noémia” que ganham fama e nome e já não chegam para o escoamento que têm e que a todos induziram a concordância com o propósito de criarmos uma pequena unidade de produção alimentar que poderá vir a abarcar o aproveitamento das pevides que as abóboras deixam, ou das batatas que poderemos transformar e vir a vender em pacotes. A verdade é que o que retiramos do pinhal tem proporcionado uma fonte de rendimento engraçado e das muitas figueiras que há por aí, poderemos obter os frutos passíveis de serem secos, tal como da vinha poderemos ainda extrair as uvas passas que só ganharemos em acrescentar àquela produção. E isto perante a garantia que teremos a nossa própria marca de azeite que o rejuvenescimento e o aumento do olival nos irá proporcionar a expansão tanto quantitativa, quanto na qualidade de nos habilitarmos para apresentar ao lado daquele óleo corrente, um outro mais fino que tentaremos mercar aqui e no estrangeiro. Nunca pensei que fosse uma alegria tão grande ver o fruto bem sucedido do nosso trabalho mas é isso que está a acontecer comigo ou, pelo menos, é justamente disso que me tenho dado conta quando ao chegar a casa, ao cair da tarde, ocasionalmente tenho assistido ao retorno da criançada que sai da creche, Primavera nos olhos e nos lábios, correndo para os braços abertos dos pais.
O mundo é que permanece atormentado pelos cavaleiros do apocalipse. Os nazis têm muito maior resistência do que aquela que se esperava. O paizinho diz que é uma questão de tempo para que o tirano caia e os canhões se remetam ao silêncio. Pessoalmente não sei aquilatar das suas razões, mas tenho a certeza de que no instante seguinte veremos que levou atrás de si o melhor que a civilização nos legou e sinceramente não sou capaz de me render ao optimismo de que o mesmo possa um dia vir a ser reconstruído a partir destas cinzas. Ai como eu gostaria de estar redondamente enganada.

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