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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Poemas que se encontram





CASCAIS 22

pelo ar aberto que bate junto ás veias
abre-se a página do oceano, a rede é fina
são sete horas, estou a fazer o calçadão
não passas na música espiritual, comes o
pão dos nove cereais
o desemprego assusta o sol que se derrama
na manhã quente junto à praia
ficarei cor de chocolate onde espero o teu
corpo rosa carne viva e os teus cabelinhos
nos meus dedos de hortelã, o chocolate
derrete onde a folha azul voa com versos
não tenho língua só voz para dizer do nosso
amor - estamos em Maio e Cascais nasce cedo






Pazciência
Fernanda Leite Bião[1]

Gosto do gosto da paz
Esta paciência amistosa com o zum zum zum.

Chuva mansinha que cai após o reinado do sol rei
O balançar das árvores alegres
As formigas que se sacodem e retornam a sua rotina
E as janelas que lentamente se abrem com o movimento do próprio céu.

Oh terra cheirosa, molhadinha e lamacenta!
Oh natureza abençoada e certeira!
Quem as criou nos fez bem!
A sua limpeza limpinha nos traz a paz escondida.



[1] E-mail: fernandabiao@gmail.com.



REQUERER

Requeiro
visto
de saída

em nova vida
me arrependo
na continuação da busca

requeiro visto de entrada
e regresso ao prazer atávico
do seio materno

saio em vida envelhecida
de reconhecimento e prodigalidade.

(Pedro Du Bois, inédito)

http://pedrodubois.blogspot.com

sábado, 9 de março de 2013

Poemas que se encontram



AMORES

O perfume do jasmim
a cor da jabuticaba
a palavra áspera na despedida.
               
Os namoros breves
em breves namoros

bravo gesto alargado
em verbos caricatos
de perfumes e cores

                        resta a palavra
                        na inconsequência
                        do dizer: cada passo
                                  dado com você.

Pedro Du Bois, inédito




CASCAIS 2

Na praça aberta vejo o fundo da baía
ficam meus olhos bem no oceano do teu
corpo de hortelã e chocolate, procuro-te
no pontão de Cascais onde rebentam no
inverno as ondas que me trazem saudades

é um mar negro logo de manhã na calçada
branca como o céu - é inverno e procuro
a pele morena como na minha terra

oiço a tua musica mas quero só o mar
esse som eterno de rebolar contigo na areia

pelo mundo vou às 5 em ponto da manhã





PRESENÇA
Fernanda Leite Bião

Ele sempre me olhou.
Seu mistério se fez cá dentro.

Uma chama.
Um clarão
Uma lamparina.

Faíscas que ora transbordam.
Ora teimam em se apagar.
Mas aqui sempre está.

Lampejos de vida.
Acordes de esperança.
Hino salutar.

Nem sempre compreendido, às vezes sentido.
Sempre presente está.

O sol que irradia.
A noite, o repouso.
E a certeza do eterno renovar.


quarta-feira, 25 de julho de 2012

Silêncio



Fernanda Leite Bião


Quando o silêncio se faz cá fora
Cá dentro o barulho é ensurdecedor

Clama um coração aflito
Em busca de um pouco de alegria

Um pouco da energia de gente
Que aquece sem acender
A chama existente

Do amor, quem sabe?
Da companhia, talvez?
E a esperança, possível?
Um dia de cada vez...


terça-feira, 15 de maio de 2012

A mercantilização das relações humanas na seara espírita

Dia após dia, convivo com isso e percebo o crescimento do fenômeno da mercantilização das relações do ser humano consigo mesmo e com as demais pessoas, de tal maneira que os trejeitos, os condicionamentos instaurados no mercado de trabalho, na contemporaneidade, adentram não só o solo frio das empresas privadas, mas também das organizações públicas e das instituições sociais – a família, a escola, os ambientes religiosos. 

Não tenho a pretensão de esgotar todos os temas acima assinalados, uma vez que este texto tem a finalidade de expor minhas reflexões sobre aspectos da convivência no movimento espírita que mais têm me gerado preocupação, no bojo da mercantilização das relações humanas.

No que toca ao ideal cristão, a casa espírita se reveste da finalidade de proporcionar ambiente de convivência fraterna, com o objetivo de fomentar o desenvolvimento do potencial humano para o bem, para o amor e a solidariedade, características da formação humana, tão importantes para a aquisição de virtudes, tais como o respeito ao próximo, a amizade autêntica, a afeição sincera, a empatia e a assistência real diante das necessidades. 

A despeito desse nobre propósito de que estão imbuídas as fraternidades espíritas, noto, nos dias atuais, a infiltração, na seara do movimento espírita, da competição desenfreada, da pouca consideração fraterna e incondicional, da patrulha ideológica, da disputa evolutiva, de variadas condutas que desembocam no mesmo resultado: exclusão e opressão.

O que chamo de competição desenfreada? A casa espírita, ao longo do tempo, como reflexo de seus integrantes, é uma caixa de ressonância das mudanças e transformações por que passa a humanidade, absorvendo padrões de comportamento tanto benfazejos quanto deletérios. Nessa segunda categoria, enquadra-se a concorrência velada entre parcela de confrades espíritas pelo título social do “mais virtuoso”, do “mais evoluído”, do “mais produtivo” em esvaziar o umbral, a vaidade inconfessa de se exibir na condição de humilde obreiro a quem foram repassadas as informações mais recentes ou bombásticas sobre os bastidores do plano espiritual e a disputa entre os seus pares pela posição de trabalhador espírita mais operoso em zelar pela pureza doutrinária e pela deferência aos dirigentes espíritas de maior influência política no centro ou na federação a que se filiam.

Os fenômenos de grande expressão no ambiente espírita, a exemplo da hierarquização por competências (dando-se primazia, em uma espécie de pirâmide hierárquica, aos médiuns considerados mais valorosos e aos dirigentes ditos mais preparados), somada ao grande volume de orientações espirituais e de outras formas de assistência extrafísica, conferem a algumas pessoas, no âmbito da militância espírita, o poder de mando e de persuasão que, embora pudesse ser meio de agregar valores e aprendizados coletivos, é desviado para a manutenção da exclusão de muitos confrades que não se enquadram no estereótipo de obreiros produtivos, alegres e dóceis.

Por vezes, no afã de serem notáveis artífices da libertação em massa de Espíritos aprisionados em masmorras das trevas onde colaboraram, de forma exemplar, com os preparativos para a transmigração planetária de obsessores que atuam em nível planetário, esquecem-se muitos trabalhadores espíritas de também voltarem seus olhos para companheiros de seara kardequiana, que, encarnados neste mundo de provas e expiações, estão à espera somente de um rastro de luz, isto é, de uma palavra fraterna, de pequenos gestos de empatia e compaixão, para que possam enfrentar, com coragem, os desafios da vida terrena. 

Nesse processo de deslumbramento com missões de salvamento de Espíritos desencarnados e com o enfrentamento das trevas na erraticidade, valorosos membros da comunidade espírita ignoram o sofrimento e a dor daqueles que estão em seu entorno, na esfera dos encarnados: infelizmente, ao invés de não deixarem a candeia embaixo do alqueire, muitos dos militantes espíritas se evadem de seus deveres morais em relação a seus irmãos encarnados e contribuem para o esvaecimento (verdadeiro “apagão”) da luz interior em muitos irmãos. 

Em uma comunidade, dentro da sociedade atual, todos, homens e mulheres, estão sujeitos a variadas vicissitudes, visto que fazem parte de um ecossistema ainda inserido em contexto de mundo de provas e expiações, extensivas a todos os seus componentes, tanto encarnados quanto desencarnados. 

Em outras palavras, é importante conciliar o socorro aos irmãos e às irmãs no plano espiritual em condições enfermiças com o amparo a encarnados e a encarnadas partícipes do meio espírita que, igualmente, necessitam de cuidadosa assistência e, muitas vezes, são deixados em segundo plano.

Quantos, entre nós, não são encarnados enfermos a pedir socorro, no cotidiano, e, como vozes não visíveis, são negligenciados pela vaidade humana, que se ufana em priorizar o atendimento a irmãos que se encontram no outro plano existencial da vida?

Nas experiências cotidianas, embora atravessadas por inúmeras tarefas, que nos colocam como servidores de uma rotina humana na Terra, ainda assim somos convidados a refazer nosso modo de ser, inclusive a nossa postura em relação a nossos companheiros e companheiras (encarnados e desencarnados) de lida espírita e de outros segmentos da vida em sociedade.

Não acredito que todos os esforços estejam condenados à perdição da pessoa em si mesma. 

Acredito e tenho esperança na capacidade humana, porque sei que ainda somos aprendizes para o saber que nos contemplará como portadores de uma real humanidade. 

A formação de nossas capacidades, por meio do afeto e do desenrolar dessa afetividade, muito contribuirá para que o medo e a desconfiança cedam lugar às relações transformadoras e educativas. 

Que a formação de grupos afins sirva de ânimo para a continuidade do espírito cristão com que um dia fomos contagiados e que, como semente, pede luz, pede o alimento, para ter força e romper a terra dura de nossos corações. 

A casa espírita, respeitando a sua condição humana, tem grandes chances de não se tornar mais uma ruína arquitetônica da experiência religiosa em nossa plurissecular caminhada evolutiva. Basta que os seus arquitetos, os seus responsáveis, os seus frequentadores instalem em seu seio os fragmentos do cuidado entre si e com todos. 

Não fiquemos só preocupados com o resgate de irmãos que já se encontram em condições de desencarnados. 

Não deixemos à margem aqueles que lutaram para adentrar as portas da comunidade espírita e que precisam construir ou reconstruir a sua fé sólida, o seu afeto por si mesmos e pelo demais e que não encontram amparo em outras instituições humanas atuais. 

Que o poder seja o poder de direcionar a vaidade e o orgulho para a construção do acolhimento e da compreensão de que todos precisamos, sob a premissa de que todos estamos a trilhar o caminho da evolução em condições árduas, próprias do mundo de provas e expiações no qual habitamos. 

Não existe mediunidade melhor ou pior: existe mediunidade com Cristo e sem o Cristo. 

Não me recordo, na história do Mestre, de nenhum comportamento excludente por esse ou aquele motivo. Todos que o procuravam tinham a mesma atenção e respeito, recebiam aquilo de que necessitavam e Jesus sabia ouvir e compreender cada pedido. Que possamos desenvolver a capacidade de ouvir sem julgamentos, de exercitar a suspensão de juízos e valores na condução e assistência de todos os homens e mulheres. 

Ouvir é acolher! Ouvir é se colocar à disposição do outro sem subserviência nem dominação. Permita a si mesmo caminhar com os seus irmãos e crescer sempre. Não se esqueça de que a única verdadeira ameaça que pode surgir em seu percurso de vida é a ameaça que nasce dentro de você. Aprenda a se conhecer, saindo da própria concha existencial, abrindo-se à coexistência fraterna com todos, homens e mulheres, encarnados e desencarnados, quer tenham afinidade com seus ideais e visão de mundo, quer comunguem de ideologia e valores diversos, com os quais, inclusive, em razão da diversidade, podemos nos enriquecer como pessoa e nos desenvolver como Espíritos imortais.

  
FERNANDA LEITE BIÃO 
Belo Horizonte, Minas Gerais (Brasil) 

A autora é psicóloga e orientadora profissional em Belo Horizonte. Mestranda em Educação Tecnológica (CEFET-MG). 

domingo, 29 de abril de 2012

Ousadia



Fernanda Leite Bião



Luto pela liberdade do cárcere da existência
A gaiola dos costumes me algema
E minhas asas já nasceram cortadas.

Fujo da mentira de mim mesma
Das ilusões que escarnecem das ideias
Das palavras bonitas e trameiras
E do medo que me afasta da coragem.

Procuro a luz da consciência
Nesse palco sem cor, sem brilho
Onde seus expectadores nada veem
Somente os movimentos repetitivos e mortos.

Clamo o sol do esclarecimento
Para que eu veja direito
O que está escondido atrás da cortina da vida.

Mistério?
Pra quê?
Preciso é compreender
Para saber me mover.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Alma solitária


Fernanda Leite Bião[1]

Ando só
Somente eu
O vento bate em minha face
Sinto o calor do meu corpo.

Reflexões assomam à minha mente
Movimentam emoções
Lágrimas que teimam em cair
Seguro-as dentro de mim.

Procuram-se explicações
Para falas não ditas
Dos conflitos mal resolvidos
Sinaliza a necessidade
De ouvir a própria verdade
Que dói e acalenta
Transfigura a face da mentira.

E cria
Para além
Uma nova vida.



[1] E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O adoecimento das (nas) relações interpessoais*

Fernanda Leite Bião**


   Em meio à vasta rede de relações que os sujeitos experimentam, em que vivenciam suas histórias de vida, a socialização é o caminho para a construção da convivência interpessoal.
Marca imperativa, dentre os primeiros lampejos de vida, ainda mesmo quando crianças, a socialização com os primeiros pares (pais e cuidadores) é de grande importância para o desenvolvimento físico e psíquico. Primeiros passos para o conhecimento do outro e de si mesmo. Primeiros passos para as primeiras manifestações das escolhas e, quem sabe, o ensaio para o respeito das diferenças e dos diferentes.
   Assim, é no seio familiar em que as primeiras experiências significativas e primárias de socialização são vivenciadas e, com tais experiências, a possibilidade dos primeiros contornos de personalidade e de reconhecimento do Eu se tornam possíveis. Sentimentos e emoções, autoconhecimento e os primeiros nós existenciais também podem ser encontrados nesse momento.
   Aos nós existenciais chamo aquelas situações traumáticas e/ou repetitivas em que os sujeitos são inseridos e que, embora sirva de ensejo para se desenvolver algum tipo de aprendizado no campo do sentimento, atua também como um fenômeno paralisante em relação ao Outro, uma dificuldade para o estabelecimento de relações atuais e vindouras, o que impossibilita o ser vivente de enfrentar os desafios e as oportunidades de crescimentos de novas relações interpessoais.
   Em outras palavras, o medo e a desconfiança se tornam companhia constante, em detrimento da possibilidade de crescimento que mudanças em relações aos Outros pode trazer. É o velho que esbarra no novo a todo o momento. E quanto incômodo pode ser sentido e traduzido por meio de um corpo falante, de uma mente pensante e sentimentos transformados em armaduras protetoras de si mesmo e do outro. Daí nascem os questionamentos, dentre os quais se destaca esta indagação: como vai sua vida de relações?
Ando por vários lugares a escutar murmúrios e o queixume da dor nascida dos conflitos. Dor que corta para além de lugares palpáveis. Corações que choram sem cessar. Sentimentos sem nomes, emoções silenciosas e barulhentas. A necessidade de compreender a dor que lateja. A que veio a dor? O que ela quer me contar?
   Vejo o quanto se relacionar é um padecimento e a enfermidade atual é gostar. Padecem almas que não escutam a si mesmas, em meio a uma sinfonia interior, lastreada pelo grito que teima em sair. Quem as ouve? Quem se ouve? Quem ouve quem?
   Deseja-se o sonho do amor impossível, aquele que calou a alma e a modelou, docilizando os sentimentos alheios, a responder a uma necessidade que talvez seja somente uma fantasia, uma crença sobre a forma mais bonita de ser amado e de ser correspondido nas próprias necessidades.
   As necessidades sempre existirão, motivo por que se deve perguntar se a própria necessidade não violenta a possibilidade de receber o Outro, ou seja, de estar aberto para o que o mundo circundante tem a lhe oferecer. Se eu não quero, tenho de aprender a dizer a palavra mágica – “não” –, ser livre e sustentar a escolha de não querer. E, por falar em liberdade, parafraseando Sartre, estamos condenados a ser livres. Concordo com esse brilhante filósofo e reitero suas palavras, afirmando que estamos também condenados a nos relacionar. Que tal começar a pensar nisso?
_____________________
*Crônica escrita em 4 de fevereiro de 2012.
**Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Mestranda em Educação Tecnológica pelo Centro de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG). E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Dois Poemas


Fernanda Leite Bião[1]

Menininho!

Menino rasteiro
Olhos preguiçosos
Carinha de dengo
Sorriso sem dono

Responde com sempre
Acumula tarefas
Nem sempre satisfeito
Corre, corre a léguas

Não sabe se é sim
Quem sabe o não
Aprendiz da razão
Converte em leis

O dever é o presente
A moral eterniza
O direito é de quem?
Para sempre menino!




O tempo

O tempo se abre
Chovem anos
Chovem caminhos
Chovem possibilidades

O tempo passou
Com ele, a saudade
A dor que machuca
A lágrima pulsante

O tempo é alegria
De noite, de dia
Em cima
Embaixo

Passeia com a vida
Estadia certeira
História vivida
E, quem sabe, contada



[1] Psicóloga e Professora de Psicologia em Belo Horizonte.  E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Promessas



Fernanda Leite Bião (1)



Promessas são lampejos de desejos
Vontades que se aproximam do concreto
Nem sempre verdades

Promessas são rios em busca da correnteza
Sol com preguiça
Céu nublado

Promessas são esperanças
De um coração que clama o afeto
Nem sempre correspondido

Às vezes entendido como o sim, é o não.
Um lapso de loucura visceral
Corre pelas veias, algo animal.

Promessas, prometido, lugar igual.
A luz que treme
Em meio à escuridão



[1] Psicóloga. Professora de Psicologia e Formação Humana em Belo Horizonte. E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A transcendência do olhar



Fernanda Leite Bião[1]
Hidemberg Alves da Frota[2]



A compreensão da linguagem de um olhar assemelha-se à capacidade de decifrar uma obra artística construída em meio ao sagrado da presença divina e ao profano de uma vida na terra.
O olhar de Jesus tinha a capacidade de mobilizar vidas, serenar almas e despertar consciências. Transmitia a confiança no potencial humano de cada ser que dele se aproximava.
Por meio das nossas vivências e da permissão que damos a nós mesmos para a elaboração de novas atitudes, concebemos lentes novas para ver situações e experiências pessoais e interpessoais até então inexistentes ou despercebidas. Tudo depende dos olhos que veem!
Ao aprendermos a olhar os nossos semelhantes para além das representações sociais e das imagens que nossos cérebros podem decodificar, vamos encontrar em nossos pares, não o reflexo de estereótipos sociais nem apenas os desenhos de seus corpos, mas almas em constante transcendência, em um incessante movimento entre o status em que se encontram e o vir-a-ser, à medida que insculpem na história de suas vidas a narrativa de uma caminhada até então desconhecida e, ao trilhar esse percurso de renovação, aos poucos trazem a lume uma nova realidade e a possibilidade de recriar sua existência.
Tomemos como exemplo o jovem que, aprovado no vestibular, ingressa em curso de nível superior e, passo a passo, sobe os degraus da sua vida acadêmica de graduando, até que, ao fim da sua graduação, transcende a condição de aluno, ao colar grau, tornar-se um profissional e adentrar o mercado de trabalho. Ao longo dessa trajetória, remodela a própria identidade como pessoa, influenciado pelos valores e ideais da profissão que abraça, dos saberes que assimila e da vivência do seu cotidiano profissional.
O contexto evolutivo da humanidade, como da natureza em geral, não é estanque nem estático.
É preciso a abertura consciencial para divisar as mudanças saudáveis que o outro floresce na própria existência e que, ao fazê-lo, em um efeito multiplicador, deflagra nas almas daqueles com quem coexiste. Assim como nós, o outro tem o direito de aprender, vivendo, e, baseado em suas vivências, melhorar a si mesmo e servir de exemplo ao desenvolvimento dos demais.
É preciso permitir a si mesmo atualizar a própria perspectiva sobre o outro e suas circunstâncias, transmutando o próprio olhar diante dos ventos da transformação.
Então, olhe! Aproprie-se das imagens, decodifique-as sem a pressa de julgar. Aprecie os horizontes divisados. Permita a outro crescer e cresça com ele. Embora nossas vivências sejam bússolas personalizadas que direcionam a nossa caminhada e o que tem em nós seja fruto daquilo que vivenciamos não podemos nos prender à experiência pretérita como expressão da verdade absoluta, congelada no tempo.


[1] Psicóloga. Professora de Psicologia e Formação Humana em Belo Horizonte. E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.
[2] Agente Técnico-Jurídico do Ministério Público do Estado do Amazonas. E-mail: hidemberg_frota@yahoo.com.br.

domingo, 11 de setembro de 2011

E este corpo que fala?

Fernanda Leite Bião (1)

Passos lentos ou acelerados, coração que bate no compasso, obedecendo à cantiga da vida andante.

Experiências que circulam pelas veias como sangue. Olhos vivos e cintilantes. Boca que se aperta ao degustar os sabores.

Os ventos trazem os odores para dentro das narinas, que se conectam com uma memória de cores e lembranças.

Circuitos abertos e fechados, luzes e escuridão fazem parte da iluminação cerebral.

Uma boca – várias funções – delícias a serem vividas.

Respiro – vai e volta – troca – dou de mim e levo de muitos.

Mãos que acariciam – toque sagrado – trabalho.

Pés a caminho. Sempre! Quais? Nunca acabado.

Semblante que revela sentimentos. Medo do medo. Alegria em ser alegre. Raiva da estagnação.

Corpos são tantos! Entretanto, todos carregam joias a serem desvendadas – a Alma!

_______________________
(1)Psicóloga. Professora de Psicologia e Formação Humana em Belo Horizonte. E-mail: fernandabiao9@hotmail.com

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Atravessamentos


Fernanda Leite Bião*

Como os raios que atravessam a natureza insólita,
Um dia fui atravessada por uma flecha brilhante.
Com a mão no peito, coração a tremer,
Não sei se morria ou vivia.
Abri os olhos e tentei ver,
A sombra cobria minhas pupilas.
Tomada de uma energia estranha,
Me descobri assim meio boba
E aqui estou, ainda atravessada.
Nunca mais a mesma
Para sempre diferente
Coração que pulsa, vida para a vida.

______________
* Psicóloga, Orientadora Profissional e Professora de Psicologia e Formação Humana. E-mail: fernandabiao9@hotmail.com

terça-feira, 12 de julho de 2011

Massacre das palavras

Fernanda Leite Bião(1)

Letra por letra, unidas.
Eram vogais e consoantes que bailavam.
Tive medo.

As palavras têm seu poder.
E que poder!
Poder de renascer e fazer morrer.

Matam, aniquilam, massacram.
Podem construir o amanhã.
Tudo depende do seu interlocutor.

Anjos e demônios.
Somos todos.
Quem fala mais alto?

______________
(1)Psicóloga, Orientadora Profissional e Professora de Psicologia e Formação Humana em Belo Horizonte (MG). E-mail: fernandabiao9@hotmail.com

sábado, 2 de abril de 2011

Chega!

Fernanda Leite Bião(*)

Chega de escravidão velada
Com seu sorriso perverso
Conquistam-nos os passos e laços

Chega de vida sem vida!
Olhar cansado e parado
Vidrado somente na mídia

Chega de corre-corre sem riso
Abre e fecha de livros
Sem argumentos e sentidos

Clamo da vida sossego!
Para que eu me entenda direito
Sem medo da friagem dos tempos

Calor que corre nas veias!
Quero respirar de fato
E sentir a brisa dos ventos.
Chega!


(*)Psicóloga e Orientadora Profissional. Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Psicóloga da Bem Viver Psicólogos Associados. Psicóloga voluntária do Núcleo de Apoio Psicológico aos Vigilantes Vítimas de Violência no Trabalho (NAPSI), vinculado ao Sindicato dos Vigilantes de Minas Gerais (SEESVEMG). Professora de Psicologia do Centro Técnico Bom Pastor. E-mail: fernandabiao@hotmail.com.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O que pensar do Natal?

Fernanda Leite Bião(1)

O que pensar do Natal? Uma época de tanto movimento social, abre e fecha de presentes. Papai Noel passeando por aí, em suas carruagens, em ambientes sofisticados. Sonhos e fantasias nos olhares dos pequeninos, que tanto esperam um momento mágico e, por que não dizer?, de nós, também, eternos velejadores, entre oceanos de sonhos, desejos e fantasias.
Acredito que toda criação humana tenha a sua importância, mas amo pensar na raiz, no radical, no principio em que tudo começou. Assim...
Era uma vez uma história de Natal...
Menino nascendo, reis magos, animais acalentadores, uma mulher e um homem a caminho de sua cidade natal, para o recenseamento. Estrela que brilha lá longe! Longe e perto de nós. A luz que se procura. Esclarecimento, conhecimento, paz, amor. A estrela brilha, é a figura que se destaca, a escuridão agora só é o fundo de uma pintura bonita que retrata uma história.
Jesus nasce!
Nasce e se desenvolve em meio a homens e mulheres, carneiros e ovelhas, escolhidos e malditos. Nasce, cresce e se desenvolve, abrindo novas paragens, construindo novos olhares, educando pelas parábolas e trazendo às pessoas a esperança e a possibilidade da desenvoltura de sua autonomia, para se lançarem a uma vida diferente e melhor. Cegos que são cegos e cegos não cegos voltam a enxergar. Ouvidos ouvem pela primeira vez a palavra e as pernas começam a se movimentar. Vejo o toque da liberdade da humanidade a se humanizar.
Jesus nasce!
Em várias crenças, em várias casas, em várias mesas, nos olhares e nos cânticos de adoração.
Entretanto, o meu desejo hoje é que Ele nasça em seu coração! Muita paz!

(1)Psicóloga e Orientadora Profissional. Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).
E-mail: fernandabiao9@hotmail.com

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Ventania

Fernanda Leite Bião(1)

Fenômeno constante e presente, insinua-se, renovada, uma dança silenciosa que, lentamente, volta a balançar todo o meu ser e sua integralidade, no compasso de trovões agitados e assustadores ou na cadência de uma canção leve e tenra. Sempre constante.

Em sua agitação, assemelha-se às tempestades violentas ou a águas diáfanas que movimentam toda a estrutura da vida. Fazem-me não aceitar e questionar o meu lugar na existência.

De maneira leve e rasteira, permite um silêncio nem sempre calado de si, eco seco de uma inquietação angustiante que demanda, quase sempre, conexões constantes de mares calmos ou revoltos. Ondulações incessantes.

Os ventos da mudança transbordam em meu ser a possibilidade de conhecer minha própria história (recente e longínqua). Lembro realizações e frustrações, medos e esperanças. Repenso os caminhos escolhidos, as escolhas realizadas e as oportunidades questionadas.

Vejo-me escalar um monte. Ao pé da montanha, ergo a cabeça ao alto. Para alcançar o objetivo, diviso o tempo, o tamanho do obstáculo e as estratégias. No coração, batidas exprimem sons característicos aos sentimentos e emoções despertadas, em diálogo com minhas tarefas, desejos e necessidades.

Existe uma graduação de aprendizado na experiência a ser vivida. Quanto mais perto do chão, mais grosseira é a atmosfera em que me encontro. O peso dos acessórios carregados é enorme. Porém, não posso me desfazer deles, logo eles que me trazem alguma segurança, que, reconheço, é, no momento, necessária. A segurança de ter em que me apoiar. Recordo dos valores, crenças e regras aprendidas, companhias constantes, ao longo da inconstância da vida. São como os meus equipamentos. Nesse momento ainda não posso abandoná-los de todo, embora sinta desejo de fazê-lo.
Subo mais um pouco. O corpo já se ressente dos movimentos bruscos que uma escalada pode proporcionar.

Enquanto tomo fôlego, penso na partida e no ponto final. A corda balança na montanha. Sou um pêndulo. Preciso me movimentar.

Aos poucos, sinto o meu corpo desfilar sobre um caminho possível. A esperança de chegar, finalmente, ao cume desejado expande a minha alma, desperta em mim uma força que desconhecia. Aproximo-me do meu destino. Sinto que a esperança que cultivei, questionada nos dias sombrios, foi o facho de luz diante da escuridão da incerteza.
Posso olhar para baixo sem constrangimento e para cima com mais alguma coragem. Estou quase lá, sigo com a consciência tranquila.

Existe um momento em nossa caminhada em que a dor busca abrigo em nós. O sofrimento entra pelos aposentos do nosso ser sem nos pedir licença. Escolhas são realizadas. Enquanto contemplamos as perdas e ganhos que cada escolha traz consigo, por vezes, esquecemos que, descuidados, abrimos a porta a visitantes, queridos ou indesejáveis. Quando damos conta, pode ser tarde para expulsar o sofrimento que chamamos de intruso. Confusos com gritos e respostas que circulam na atmosfera vivida, sentimos a necessidade de recolher em sacolas respostas esparsas que circulam ao redor. Em processo de evolução, caminhamos tateando em meio a esperanças e esforços de organizar a própria vida e dar sentido à existência.

Visões do porvir nem sempre vem a ser o exato prenúncio do futuro, mas precisamos perseverar, projetando no devir nossos projetos, que fazem a vida valer a pena ser vivida.

Uma lágrima desce no rosto com marcas das experiências de vida.
O mundo é um palco de representações e papéis sociais. Nem sempre gostamos de todos, mas temos de escolher alguns e caminhar.


1)Psicóloga e Orientadora Profissional. Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Educadora Social. E-mail: fernandabiao9@hotmail.com. Blog: http://fernandaleitebiao.wordpress.com.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Cativar

por Fernanda Leite Bião (1)

“[...] – Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda.
– [...] Que quer dizer ‘cativar?’.
[...] – É algo quase esquecido – disse a raposa. – Significa ‘criar laços’...
[...] – Que é preciso fazer? – perguntou o pequeno príncipe.
– É preciso ser paciente – respondeu a raposa. – Tu te sentarás um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...” [...]

(Trecho do diálogo entre a raposa e o Pequeno Príncipe. In: SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. 48. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2009, p. 64-67. Tradução de Dom Marcos Barbosa.)

Na parábola de “O Pequeno Príncipe” (Capítulo XXI), de Antoine de Saint-Exupéry, o menininho se aproxima devagar, percebido é por ela – a senhora raposa. Faceiramente, munida de experiências marcantes da sua vida, ela se esconde, tem medo de ser caçada.
Mais passos são percebidos e os olhos da tal senhora estão ligados naquela criatura que se aproxima.
O menino percebe também um movimento e questiona quem seja. Assim começa o diálogo – estrutura de comunicação necessária ao estabelecimento de relações.
Em passos lentos, entre a necessidade de se esconder e de se mostrar, a permissão ao contato acontece. Um olhar curioso, um sorriso como sinal de intimidade e a capacidade de escolher começar, ou seja, recomeçar, de um novo começo sobre o conhecimento aprendido.
Sempre é tempo de experimentar novas possibilidades e novos olhares. Foi assim que a raposa medrosa permitiu ao menino curioso se aproximar. O medo dela se torna o prazer de tê-lo consigo e a curiosidade dele se torna o principio fundante para um novo olhar sobre a vida.
‒ Tu me cativas, menininho?
‒ Cativar, senhorinha?
‒ Sim, pois te esperarei. Você virá?
‒ Sim. Quero aprender a arte de brincar ‒ disse o menino.
A brincadeira é um jogo simbólico para a compreensão da vida. Uma fala representada por expressões de uma liberdade diferente.
Brincar de conquistar, brincar de cativar.
Olhos brilham e os corações se tocam. A respiração individual circunda no mesmo raio de espaço, tornando-se uma manifestação de relação.
Claro que preciso do outro. Do outro que também sou eu. Do outro que fui e do outro que serei.
A importância do outro está associada ao ato de cativar, de aproximar, de compartilhar vivências e florescer afetos.
Uma vez que o coração é tomado pela energia da presença de alguém, jamais terá o mesmo pulsar.
De pulinhos, esconderijos e aproximações, senhora raposa e o menininho passaram a se amar.
Do ato à vontade ou será da vontade ao ato?
É preciso movimento, persistência e a permissão do nascimento da vontade, para se estar junto a outrem. Vontade é o combustível para que o ato se torne realidade.
De ato em ato, o amor, que era só um desejo, um sonho, torna-se palpável, singular.
Conquistar é para as coisas. Nós, seres humanos, queremos é ser cativados!

(1) Psicóloga e Orientadora Profissional. Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).
E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Singularidade

por
Fernanda Leite Bião*


O que são palavras,
Senão a reunião de letras que
Precisam de um autor para dar sentido.
E o sentido é o movimento de um corpo-alma,
Em direção de um alvo.
E o alvo é o desejo corporificado.
Uma entidade que precisa ser alcançada.
Do movimento a uma direção nasce o propósito.
E esse propósito precisa de gestos.
Gestos simples ou complexos,
Não importa.
Na reunião da palavra (sinais) com o verbo (gestos),
A relação, enfim, acontece.
Relacionar-se é ser-com.
Não duas metades, partidas, quebradas.
Mas dois inteiros, íntegros seres em sua singularidade.
Singularidade, movimento das diferenças nos diferentes.
Diferentes que somam e intercruzam.
Nos movimentos quânticos da vida.

* Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Psicóloga e Orientadora Profissional. E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Súplicas de Uma Alma

Sabe qual é o meu desejo hoje?
É que você me leve embora daqui, me socorra.
Quero um dia para não pensar em nada, absolutamente nada.
Pois pensar é um trabalho muito cansativo.
Quero ver o verde passear pelos meus olhos, o céu ser azul, pois, por vezes, não percebo a beleza das cores.
Me resgate deste umbral.
Me limpa, alimenta-me e me ajude a curar minhas feridas.
Inspire-me com o seu sorriso a esperança e o ato da fé.
Deixe-me ser somente uma menina.

Fernanda Leite Bião

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Mágica da Vida

por
Fernanda Leite Bião(1)

A mágica da vida talvez seja buscar as possibilidades.
Mágica de mistério, mistério, o não conhecido ou mesmo desconhecido. Sempre há o que se retirar da cartola. Coelho, lenço, vida, possibilidades.
Possibilidades, condição do que é possível, do que pode acontecer ou mesmo do que faz a riqueza de alguém, clama o nosso querido e amigo dicionário.(2)
Assim, não espere para amanhã para buscar realizar a mágica do possível em sua vida.
A vida já exprime uma porção de incertezas, de movimentos e de possibilidades de se fazer. Construir-se no infinito do finito – você.
Caminhe mais rápido, se desejar.
Caminhe mais lento, se precisar.
Não olhe somente os obstáculos – podem ser pedacinho de pedras que você transformou em montanhas.
Os labirintos são desafios para a alma, para que não se canse.
Pegue sua bolsa de tesouros. Temos os nossos. Busque o mapa da sua existência (seus projetos), desenhe seu roteiro (suas metas e objetivos) e comece a sua grande viagem.
Quando chegar, me avise!

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(1) E-mail: fernandabiao9@hotmail.com.
(2)INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM.