“ Que imenso descanso, não dar nome às coisas! Que infinito espanto, olhar para um mundo sem nome

Paulo Borges


segunda-feira, 31 de julho de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (265)

Os criminosos e as suas propriedades (ao começo do dia)
Álvaro Lapa, 1974 - 1975


Álvaro Carlos Dinis Lapa nasceu em Évora a 31 de Julho de 1939.
Aos oito anos de idade foi separado da família, após a prisão do pai, um trágico acontecimento que motivou a mudança de residência da mãe e dos dois irmãos mais novos para o Barreiro.
Álvaro Lapa faleceu em Fevereiro de 2006. Deixou a obra de um homem livre e criativo, filósofo de formação e artista autodidacta, que dedicou a sua vida à Pintura e à Arte, duas actividades indissociáveis e complementares na sua obra.

Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Manuel de Sousa, Poesia!


“Promotor E Vendedor De Viciadas Promessas Blasfemas E Da Alma Penada E De Má Memória”

Como qualquer outro arranjo-me como promotor de promessas
Profissionalizei-me ao longo da vida como um profeta falsário
Conto estórias mal contadas e com contentos que não existem
Nado armado em campeão num largo mar imaginário de lendas

Baixo o capuz e mostro ao Mundo a minha recém-nascida careca
Ela reluz quase tanto como o próprio Sol num dia algo nebulento
Sonho com o dia que hei-de recuperar cada cabelo e pêlo perdidos
Consigo vez por outra têr pesadelos onde sou um gorila só da selva

Passeio-me pelos corredores decorados do museu da memória
Vejo dependuradas na parede craniana colecções intraduzíveis
Lembro-me quase todos os dias de uma nova lembrança antiga
Há quadros e imagens como que filmadas que dão para vender

Tombo num poço de más recordações e bato com força no fundo
Salpico as lembranças incólumes com pedaços grossos de lamas
Engesso as partes doridas e transmuto o rosto e as feições nele
Converso seriamente com um Druida famoso para me lêr a mão

Pretendo de ora em diante olhar para o futuro numa bola de cristal
Não sei descrever bem o que vejo no advir mas fico muito confuso
Afago as mágoas que pressinto no meu âmago e transpiro à farta
Desaperto botões e abro o fecho-de-correr a correr mui rapidamente…

Dispo na maior das urgências o corpo e refugio-me por inteiro e etéreo na Alma…

Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 27 de Julho de 2017, em Alusão ao Dia Mundial do Combate ao Câncer da Cabeça e do Pescoço, do Motociclista e da Pediatria, eventos que se celebram hoje…

Ainda, em Homenagem a todos os que sofrem de Doenças Mentais (Induzidas, provocadas, ou por causa de doenças ou por uso de drogas, ou em razão de crises sentimentais ou de origem natural/hereditárias, etc) ou outra de Fórum semelhante e que, apesar de tudo, têm vindo a auto superar-se e a conseguir obter sucessos e outros triunfos na vida e nas várias vertentes da criatividade, profissional ou artística…

“A Orson Wells, a Allan Poe e a Dante…”

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Vinho! Aaahhh! O Vinho!


Francisco Gomes de Amorim

Estou a imaginar Baco a deliciar-se com os vinhos de antão, bebidos por uma cornucópia, e não por aquelas taças com que o representaram, rodeado de afrodites, lindas, todos de carne e osso e não de mármores muito bem trabalhados, mas duros e frios como a morte!


Imaginem a Afrodite e Baco assim, para beber uns copos!

Mais perto do nosso tempo, de hoje, há pouco mais de vinte anos, andava eu lá pelo norte de Portugal, no Gerês, planejando um trabalho florestal a ser feito no Parque Nacional, e tive o privilégio de conhecer um chefe dos guardas florestais, já aposentado, homem de quem fiquei amigo e de quem recordo com saudade, o senhor Machado.

Quando o conheci insistia em tratar-me por sr. engenheiro e eu quase me zanguei com ele para o convencer que o meu nome, desde que nascera, era Francisco. Ou ele me tratava assim ou eu o chamava por sr. Chefe! Humilde, relutante, acabou por me tratar por sr. Francisco e eu a ele por sr. Machado.

O que têm a ver Baco e o senhor Machado? Imagino que Baco bebia do bom e do melhor que havia nesse tempo no Olimpo, na Hélade e na Frígia – até dizem que foi ele que o inventou! – e o vinho que o meu amigo Machado produzia, das suas pequenas courelas lá no Minho, vinho verde tinto, teria convencido Baco a naturalizar-se... minhoto!

Uma das melhores delícias de vinho que já bebi, e olhem que, com a idade que conto, já devo ter ingerido, quem sabe?, talvez 8 a10 pipas de 550 litros cada... fora a cerveja, e outros álcoois! (Comecei a beber regularmente às refeições teria uns 14/15 anos, o que significa que comecei há 26.000 dias! É conveniente acrescentar que não sou um bêbedo, e que não me lembro de alguma vez ter apanhado uma bebedeira das... sérias!)

Voltemos ao vinho. O de Baco seria certamente só uva espremida e fermentada. Assim era o do meu amigo do Gerês. Uva e somente uva.

Há uns 45 anos trabalhava eu em Moçambique, na ex-Lourenço Marques, cervejas Mac-Mahon – 2M – apareceu-me um homem que queria abrir um restaurante, tinha começado já a obra num prédio, mas entretanto, acabara-se lhe o capital. Veio pedir um financiamento! Levou-me para ver a obra, o que faltava, quanto necessitava, etc., e disse-me que fazia o melhor bacalhau do planeta!

Para avaliar a situação, e como o banco BCCI era o “dono” da fábrica de cervejas, combinei ir lá almoçar com dois colegas do banco, ver se o tal bacalhau correspondia aos incómios do descapitalizado “restaurador” e, por sequência se valia o investimento!

Confirmou-se, por unanimidade, quase por aclamação, a qualidade do bacalhau que permitiu passarmos a discutir como arranjar o dinheiro necessário para terminar a obra. Não foi difícil: eu, que ali representava a 2-M, garanti o pagamento e o banco emprestou a grana. Alta!

Mas algo me intrigou: o vinho que nos serviu, um tinto “brabo” era muito bom, não tinha qualquer rótulo, e em Moçambique vinho bom, só engarrafado.

- Oh! Sr. Pereira (o meu amigo senhor Pereira, que depois brilhou em Lisboa – Restaurante Laurentina – e continua a brilhar nas mãos do filho)! Que vinho é este?
O Pereira chamou-me de lado, pediu-me segredo, que eu assegurei, e diz-me, bem baixo, no ouvido, que era ele que fazia o vinho.
- Mas onde arranja as uvas?
- Não leva uva!
- !?!?!?!?
- O meu pai trabalhou muitos anos num dos armazéns de vinhos do Poço do Bispo e aprendeu lá a fazer vinho, de qualquer tipo, sem uvas! Podia ser do Dão, Colares, de qualquer lado, mas sempre sem uvas!

Fiquei espantado. Espantado é pouco, mas a verdade é que o que ele nos deu a beber era uma bela pinga! Sempre tinha ouvido dizer que por aqueles armazéns, à beira-rio, quase se esgotava o Tejo a fazer tanto vinho, mas daí a ter a certeza de que tinha bebido um vinho, muito bom, que não era vinho, foi uma novidade!
- O senhor tem que me ensinar isso.
- Quando estivermos sozinhos eu ensino. É muito fácil.

Nunca mais houve essa ocasião, e eu perdi um profundo conhecimento científico!
Hoje, só em Portugal há centenas de marcas e tipos de vinho, desde os correntes, onde se encontram alguns muito bons (serão com a fórmula do meu amigo?!) até a marcas sofisticadas e caríssimas.

Mas vinho como os de Baco e dos meus amigos Machado e Pereira é difícil.
Os primeiros porque eram pura uva fermentada, e podia beber-se um litro que a digestão se fazia sempre com as ideias claras! O do Pereira era pura química, mas bastante bom. E, disse o “cientista”, saía-lhe bem barato!

Agora, além do anidrido sulfuroso que se injeta no topo da garrafa acabada de encher, o que sempre se fez para evitar a oxidação do vinho, a mistureba de produtos químicos que se junta às uvas é impressionante.

Dantes, e não há muito tempo, a Lei proibia juntar ao vinho, às uvas fermentadas, o que quer que fosse. Vinho era uva espremida e fermentada e nada mais.

Depois a amorosa União Europeia quis que Portugal adicionasse açúcar de beterraba ao mosto, e mais um pouco de água, com o que obteria mais vinho e eles venderiam assim o açúcar encalhado lá nos frios nortes da sobredita união. Portugal bateu o pé, falou grosso, disse que jamais faria tal coisa, a lei portuguesa era clara, etc., e os alemães e holandeses meteram a beterraba no...

Veio a modernidade, e a esculhambação!
Quando a gente pensa que está e beber o puro vinho, sem aditivos, aquele tipo Baco ou Machado, descobre que alguns juntam ao mosto um monte de tranqueira, como por exemplo:
- Estabilizante: ácido metatartárico, INS 353; quando adicionado este ácido, o vinho deverá ser previamente hidrolisado, pois induz uma precipitação incompleta de racemato de cálcio!  Entendeu? Não? Não tem importância.
Acidulante: ácido cítrico, normalmente proveniente do melaço da cana de açúcar. Não, não espremem o limãozinho. É na química. É o ácido 2-hidroxi-1,2,3-propanotricarboxílico
Anti-oxidante: ácido L-ascórbico, a vitamina C, que se costuma tomar para evitar a gripe!
- Espessante: goma arábica, E 414, é uma resina natural composta por polissacarídeos e glicoproteinas que é extraída de duas espécies de acácia da região subsaariana, principalmente da Acacia senegal e da Acacia seyalINS 353 e E 414, usados simultaneamente impede as precipitações combinadas de tartaratos e matéria corante. Deu para entender? Não? Paciência.

A Goma arábica é usada como espessante e estabilizante para vários alimentos, na manufactura de colas e como espessante de tintas de escrever. Quando eu era moleque fazia uma mistura com álcool e água e ficava o dia todo penteadinho, lindão... com a cabeça durinha! Muito usada em espumantes, mesmo os que custam os olhos da cara, para espessando o vinho, segurar as bolhas que se desprendem mais lentamente e... o copo fica mais bonito! E, curioso, um dos grandes produtores de goma arábica seria o Bin Laden!!! A vender para os granfinos! Boa piada. Mas o Sudão do bonzinho Al-Bashir é o maior. (Ah! Em doses um pouco mais elevadas pode ser letal!)

E você que me lê pensava que tem andado a beber pinga da boa? Está enganado!
Primeiro veja bem o rótulo. A maioria só diz que tem sulfitos, porque sem eles o vinho viraria vinagre em dois dias. Uns, mais temerários, lá escrevem que misturaram INS 330, INS 300, INS 220, INS 200, esquecem o INS 353 e o E 414, etc., mas... tudo numa boa.

Face a estes cocktails que transformam o vinho em um quase derivante do petróleo – plástico – você só tem um caminho: começar a beber vinhos de preços acima de € 500, (só a meia garrafa) mas... assegurando-se previamente que a uva estava limpinha.

Ou então procurar antigos funcionários dos armazéns do Poço do Bispo e beber aquilo que temos a certeza de que leva tudo menos a maravilhosa uva!

Que saudades dos meus amigos Machado e Pereira. Um fazia vinho puro e ótimo, o outro um vinho ótimo e... secreto!

O problema mais grave de tudo isto é: “E agora, o que é que eu vou beber?”

19/07/2017
f.g. amorim
http://fgamorim.blogspot.pt/


terça-feira, 25 de julho de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Ontem tive que me deslocar a Évora para um jantar em que recebi um prémio pelo primeiro lugar regional em produção, na Allianz, para o ano transacto. 
Conversas de seguradores, como é óbvio, mas a companhia do Nuno Gomes, o gerente da delegação do Seixal é sempre uma garantia de temas mais interessantes e só isso temperou o peso do incómodo e tirou ao serão o condão do pleno desperdício. Mas é assim, são obrigações profissionais e a ausência não seria educada quando se trata do reconhecimento. 

E eu lá fui à capital do Alto Alentejo, com chuva, muita chuva e nevoeiro, repetindo trajectos, recapitulando memórias. 



E os alunos continuaram a treinar o til que a Matilde identifica pelo nome e a fazer exercícios com palavras derivadas daquelas que já deram a partir da junção das sílabas componentes. 

A Matoldas já escreve. 
A afirmação sustenta-se no facto de o pardalito escrever as palavras dadas sem recurso a qualquer auxiliar, assim como a partir das sílabas conhecidas conseguir, sem erros, registar outras palavras estranhas ou não ao conteúdo das lições. 

É um encanto da alma vê-la concentrada nas brincadeiras ou nos trabalhos de casa, evoluindo na destreza e na complexidade da linguagem escrita. 

E já lê algumas delas, com um sorrisozinho que denota a satisfação interior por fazer bem. 


Eu agradeço a Deus tamanhas venturas. 



Mais um bombista suicida que se fez explodir num autocarro, em Jerusalém; onze mortos. As Brigadas de Al-Aqsa reivindicaram o crime e a Autoridade Palestiniana condenou-o. 
É bom não esquecer a proximidade daquela facção com o próprio senhor Arafat. 
Enquanto os responsáveis por estes actos não forem presos e levados a tribunal, não há confiança possível nas boas intenções de um futuro estado palestiniano e é aí que residem os principais obstáculos à paz. 



Nestes últimos dias tem havido actos de guerra entre o Sudão e o Chade; a aviação daquele país tem bombardeado território fronteiriço do segundo. 
Há morte e destruição e os cortejos dos refugiados também. 



E as sextas-feiras parecem ter ganho a especialidade de dia tranquilo da semana. Na vizinhança da folga até vem a calhar e a verdade é que a Matilde cumpre os deveres a preceito pelo que a leveza é merecida e bem aceite. 
Os alunos escreveram, como todos os dias, a data e o nome e depois seguiu-se a aula de religião e moral que antecedeu a deslocação à Moita para a patinagem. Após o regresso, tiveram a já habitual aula de música. 
O pardalito já consegue patinar. 



Noite parda, sob o efeito de estufa a temperatura amenizou e o ar tem um certo sabor a maresia. 



Num destes serões comecei e reli de uma assentada o “Ben-Hur”, de Lewis Wallace que a Margarida comprou numa venda de livros que houve na escola. Continua a ler-se com a mesma fluência com que o fiz no início da adolescência. 


 Alhos Vedros 
  30/01/2004 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Wallace, Lewis, BEN-HUR, tradução revista por F. Romão, Amigos do Livro, Lisboa

segunda-feira, 24 de julho de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL... (264)


Alphonse Mucha, nascido a 24 de Julho de 1860, 

foi um pintor, ilustrador e designer gráfico checo e

 um dos principais expoentes do movimento Art Nouveau. 


Selecção de António Tapadinhas


sábado, 22 de julho de 2017

Rosas Gémeas


Duetos luso-brasileiros
Fotomontagem de Kity Amaral
Texto de Luís Santos




Funciona assim: Primeiro, uma imagem, uma fotomontagem. Depois, um, dois, três dias, semiesquecida, sem fundo de resolução à vista, fica no forno a amadurar. Certo dia ao acordar lá estão as palavras todas, enfileiradas, direitinhas. A própria consciência, as sinapses neuronais, sem a habitual acordada atividade mental, produzem o encadeamento textual. O origâmico sonho.

Aí, vem uma xícara de café, e a memória da imagem, tudo de sabor mineiro, brasileiro. Neste caso, as duas rosas, gémeas, numa bela mandala rendilhada, são bem símbolo de amizade, de fraternidade, de irmandade. Rosas, cor de rosa, lado feminino, lado lunar, a própria poesia, o amor. Uma cristianice presença. Ou uma rosa no centro da cruz que desabrocha em redenção, sofrimento, e se transmuta em cultivada alegria.

No meio da cruz floresce uma rosa de braços abertos, o peito(o coração) ao deus dará, um fraterno amor ao próximo, sem tempo e sem espaço, e-terno. A origem são os toucados de pássaros egípcios, a adoração do sol, os enormes túmulos piramidais, os caminhos verticais e a libertação dos escravos. O monte Sinai e as tábuas da lei. Do povo eleito à força do amor. O sol transformado em Deus.

Hoje aqui estamos e o que se vê foi coisa que nasceu lá muito atrás que é simultaneamente mais adiante, muitos anos depois depois de 1822. O século vinte e dois, belo horizonte, sabor mineiro da xícara de café. Os livros ficcionais das nossas estórias infantis fazem-se acompanhar de lindos desejos, mais os seus violinos que lhe dão um sinfónico fundo musical, quase meditativo, com as flautas, as arpas, as trombetas.

O mundo acordou ao som da música das esferas, de cânticos celestiais. Lá se vê a rosa que floresceu na cruz e menino jesus, criança outra vez. As rosas que do manto caem e se transformam em pão, milagre são. A marinha já não é o que era, mas a língua ainda é uma mistura do africano galaico português. E nós postados nos cotovelos, nos toldam românticos cabelos e levamos em “olhar esfíngico e fatal, o Ocidente, futuro do passado”.

Alhos Vedros, Mestre de Avis, 22 de Julho


quarta-feira, 19 de julho de 2017

José Flórido

Certo jornalista, durante uma entrevista que fez ao Dalai Lama, comentou a determinada altura: "Vocês, budistas, acreditam na reencarnação..." Ao que o Dalai Lama respondeu: " Não se trata de uma crença... Quem não sabe isso, é por ignorância."

Fiquei a pensar. Na verdade, muitos, que dizem "acreditar na reencarnação", são tão ou mais ignorantes a esse respeito que aqueles que "acreditam". E têm, aliás, a vantagem de não estar, como os outros, iludidos por um falso saber. Por...que, afinal, o que o representante supremo do budismo quis dizer é que só pode saber verdadeiramente alguma coisa sobre este assunto quem tenha uma experiência real desse facto ou, talvez, quem consiga abrir as portas do seu próprio ser ao Saber real, ou infuso, que lhe permita ter acesso imediato a esse conhecimento.

Confesso, no entanto, a minha incerteza, ou a minha falsa certeza. Mas, admito que a palavra "reeencarnação", não seja a mais adequada, porque as "personalidades" não reencarnam. Talvez, por esse motivo, os termos "Recorrência" ou "Renovação" sejam mais expressivos e traduzam melhor a ideia contida no simbolismo da "Espiral": a de que tudo se renova e se projeta numa outra dimensão, abrindo-se um novo ciclo de vida.

Acreditar na reencarnação é muito pouco. Como é muito pouco acreditar em Deus. Disse, por isso, Agostinho da Silva:
"Crente é pouco
sê-te Deus
e para a nada que é tudo
inventa caminhos teus"

José Flórido
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Círculo do Entre-Ser


CÍRCULO DE LEITURA  


AGOSTINHO DA SILVA  

A ÉTICA CÓSMICA

18 de Julho

O Círculo do Entre-Ser inicia uma nova actividade mensal, dedicada a um dos seus inspiradores: o Professor Agostinho da Silva. Leremos e conversaremos em torno dos textos desafiadores de um homem que foi um exemplo de vida e um despertador de consciências, mostrando a grande actualidade das suas ideias nos nossos tempos. O tema desta sessão será a abrangência cósmica da ética proposta por Agostinho da Silva, bem patente neste trecho:
“[…] uma boa definição de homem, para além de suas limitações físicas, seria a de que é um ser de embrionária liberdade, cujo dever, cujo destino e cuja justificação é o da liberdade plena; plena para ele, plena para os outros, plena para os animais, plena para ervas, plena talvez até para seixo e montanha” ~ Agostinho da Silva, “Nota a Cinco Fascículos” [1970], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 262-263.
No Círculo do Entre-Ser encontra-se à venda a 3ª edição do livro de Paulo Borges, "Agostinho da Silva. Uma Antologia Temática e Cronológica" (Lisboa, Âncora Editora, 2016), bem como, do mesmo autor, "Tempos de Ser Deus. A espiritualidade ecuménica de Agostinho da Silva" (Lisboa, Âncora Editora, 2006).
As sessões decorrerão uma vez por mês entre as 18H30 e as 20H00.
 

CONTRIBUIÇÃO:

Donativo livre. Aceitamos donativos para as nossas actividades que façam o seu coração sorrir.
Av. Duque de Ávila, 95 – 3º
1069-013 Lisboa, Portugal
T: 935 500 716

terça-feira, 18 de julho de 2017

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Anteontem citei um artigo de Cintra Torres que, lido com atenção, deixa antever uma pista a partir da qual podemos perceber como é que a partidocracia em que vivemos assenta em estruturas oligárquicas. 
Mas esse é um dado que podemos extrair do conteúdo da peça que, no seu todo, é uma autêntica delícia. 
A começar pela humildade revelada em dar o seu próprio nome para exemplificar a pequenez das elites portuguesas o que justificaria a normalidade e a facilidade com que os seus intérpretes se encontrariam, mesmo de áreas diferentes como, na situação em apreço, é o caso dos homens e das mulheres do mundo do jornalismo e da política; ao que se junta a inclusão, enquanto comentador, no grupo dos homens que escrevem na imprensa, como em primeiríssimo lugar os jornalistas, os quais, precisamente por causa do facto anterior, a proximidade gerada pelos cruzamentos entre um escol numericamente reduzido, não têm como fugir à incapacidade de relatarem certos acontecimentos e investigarem determinadas pessoas. 
Isto a partir do caso de laços familiares entre uma série de profissionais da SIC e dirigentes do PS, acabando então a pérola a generalizar não ser preciso falar de cabalas na imprensa para entendermos o alinhamento que, a seu ver, aquela estação televisiva fez com a defesa dos arguidos no chamado caso Casa Pia. E para que não faltasse o argumento de autoridade, conclui com uma citação de Durkheim a explicar o que é um facto social, depois de, por essa forma, nos ter feito perceber a importância do número nos grupos humanos e rematando a tese central do artigo e que lhe dá o título, com a frase de um sociólogo alemão, “a imprensa é livre, mas os jornalistas não.” 
Damos de barato o contexto original da afirmação; seja como for, a mesma é usada para definir que a possibilidade de um trabalho de jornalismo livre varia de peça para peça dado precisamente o referido núcleo reduzido das elites com a proximidade que isso provoca entre os seus membros. 

Santa ingenuidade a minha que pensava que o ideal de um jornalismo livre e independente começaria no pressuposto que tudo e todos podem ser investigados, obviamente, sem que tal se faça na violação das leis ou das regras básicas do respeito pela privacidade de cada um. E se alguém não está em condições para levar a efeito um determinado trabalho jornalístico, não será do mais elementar bom senso atribuir a tarefa a outra pessoa? 
Bem, se não for apenas formalmente, isto é, a existência de uma liberdade de imprensa consagrada em leis que para nada servem e que não são respeitadas por quem quer que seja, de tal forma que os jornalistas, em termos de facto, se vejam coagidos e coarctados na sua autonomia para escreverem livremente os seus textos, fora disso dificilmente consigo almejar como é que uma imprensa pode ser livre se os jornalistas não forem. De qualquer forma admito que aconteça e que tão só por ignorância eu ainda não saiba que os jornais já se fazem sem o elemento humano. 

Enfim, mas linda, linda, linda é a inocência de quem escreve assim: “(…) A tese de doutoramento em 1995 de Pedro Tavares de Almeida na FSCH-UL (que ainda não li) quantifica e analisa esta endogamia e autodefesa da élite política na primeira Regeneração, na segunda metade do século XIX. (…)” (1) 

E depois digam lá como é que Portugal pode deixar a cauda da Europa. Com elites destas… 

A tragédia é que são estes os fazedores de opinião e assim se descartam as perguntas mais incómodas mas, simultaneamente, mais pertinentes. 
Existem ou não grupos que têm a capacidade para impor notícias e outros textos ou peças na comunicação social? 

É aqui que se pode ver se a imprensa e os jornalistas são ou não livres o que, em Portugal… 

De outra forma como explicar o tratamento que aqueles têm dado à recuperação de Kadhafi e às ténues aberturas do regime iraniano? 
E como é que ninguém quer ver as relações com a guerra ao terrorismo é que eu cá estou. 
Em contrapartida, as bombas e os bombistas suicidas que matam em Bagdad são actos de resistência do povo iraquiano. 



Hoje os alunos fizeram fichas e exercícios com os números dados e já estão a fazer um uso regular das somas. 



Então o ministério da justiça não tem “contratados” que ultrapassam todos os prazos e regras que a legislação do trabalho enquadra, a quem reteve dinheiros para a segurança social que nunca chegaram ao seu destino, tendo permanecido nos cofres da entidade empregadora? 
Onde será o fundo em que os portugueses irão bater? 



E o dia de hoje, cheio de Sol, com o verde dos campos tão viçoso a realçar um azul dos céus a que apetecia encostar o rosto. 


 Alhos Vedros 
  28/01/2004 


NOTA 

(1) Cintra Torres, Eduardo, A IMPRENSA É LIVRE, OS JORNALISTAS NÃO, p. 41 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Cintra Torres, Eduardo, A IMPRENSA É LIVRE, OS JORNALISTAS NÃO, In “Público”, nº. 5056, 26/01/2004

segunda-feira, 17 de julho de 2017

REAL... IRREAL... SURREAL.... (263)

delarochehemicycle3

The Hemicycle of Fine Art (detail) (1836-41, 1853),oil and wax on canvas, approx 4.5 x 27 metres


Paul Delaroche, nasceu em Paris em 17 de Julho de 1797. Determinado a tornar-se artista, ingressou no estúdio de Antoine-Jean Gros e fez a sua estreia artística no Salão de Paris, em 1822. Foi um dos pintores do romantismo mais conhecidos do início do século XIX.


Selecção de António Tapadinhas

sexta-feira, 14 de julho de 2017

TEATRO POEMA NO MUNDO



“E se de repente as palavras desaparecessem dos livros? E se um camelo comesse as palavras todas e se transformasse num Atelier de Animação da Leitura e da Escrita de uma Biblioteca itinerante em todos estes desertos urbanos em que vivemos”

Trabalhámos uma ideia do escritor Rui Saramago em “A Escrita Efémera”. (Circulo de Leitores),

TEATRO POEMA NO MUNDO
25ª Celebração da IDEA
Por José Gil
no Colégio do Espirito Santo – Universidade de Évora





1. O poema teatro e mundo


No dia 12 de manhã, apresentámos a intervenção “O MEU PAIS É O MEU CORPO” com o “pontapé de saída” da atriz e diretora de Teatro, Rita Wenglorowius. Depois de apresentar os atuais Projetos de Teatro Social, pelo Teatro Profissional e Comunitário Teatro Umano e do Mestrado em Teatro Comunitário da Escola Superior de Teatro, do Instituto Politécnico de Lisboa, lançou-se o mote para a nossa intervenção: “Se tu fosses o Poema e o Teatro no mesmo mundo de todos aqueles em que vivemos.”
Retomámos ideias do mesmo escritor na mesma obra e que nos serviram de indutores: “E se… a comunicação numa cidade [como Lisboa] se tornasse tão intensa que provocasse uma saturação de símbolos e significados na mente das pessoas? E se o mundo contemporâneo, com as suas imagens [o nosso foco é o país dos viajantes que são o seu corpo em viagem pelo mundo] e os seus slogans por todo o lado induzisse essa saturação?!”
O nosso indutor ou isco chave — a metáfora do pescador, do isco e do peixe — poderia aproximar-se de uma crónica do descalabro. Do caos nasce a luz?
Os participantes eram da Sérvia, da Finlândia, da Itália (Nápoles), do Uganda, da Áustria, da Alemanha, do Peru, da Austrália e de Portugal (Chapitô, Umano - Lisboa, IPS Setúbal). Lançaram-se logo nas palavras, escreveram nas folhas brancas ultrapassando as restrições habituais em Oficinas de Escrita criativa (poesia e teatro) em todo o mundo. Recordamos e registamos:

“na cabeça amo mangas
como um copo de água”
Winnie, 28 anos, Uganda (África). 28 anos

 “o som do amor
quando o ouvi
sentei-me no chão
com as minhas orelhas
comi abacaxi”
Anónima, 26 anos, Áustria

“Águas quentes
Dançam dentro dos olhos
Se me apaixono
E sou uma mandarina
Sumarenta”
Lili, 61 anos, Peru (América do Sul)

 “Quando nado na água
Os meus olhos
Perdem-se por 
Amor
Numa árvore de
Mangas”
Davis, 26 anos, Uganda (África)

“O pêssego é amigo do fogo
Meus olhos
Perdem-se nele
Quando morre
Queimado”
Salvatore, 54 anos, Itália (Nápoles)

“Rir (Alegria)
Com ouvido para ouvir
A risada d’água 
é refrescante
como a laranja”
Tintti, 65 anos, Finlândia

 “Meus dedos do pé estão queimando
De busca de paus
que eu estou cozinhando para
meu milagre wafes.

Como wafes com a minha cabeça
já parece uma melancia

Humor e confiança no amor
Faça-me ir”
Aline, 31 anos, Alemanha

“Há morango nos meus olhos…
Isso é uma paixão
Que não pode ser lavada om água pura”
Jovana, 18 anos, Sérvia

“Meus olhos veem um vislumbre
De madeira de “swayina”
Suavemente no ar e na minha casa
 cheios de gratidão”
Nina, 66 anos, Austrália (de origem italiana)

“Espero com todos os meus ouvidos
Então continue me perguntando 
(…) enquanto estou na terra
por instantes a maçã
(,,,) nesta terra
Continuo me perguntando
Com todo o coração
Sobre a maçã (...)”
Adriana, 65 anos, Países Baixos

“Seus olhos estavam olhando para a água no grande lago
enquanto fazia uma maçã, 
(…) ela gosta do amor
que une o seu corpo”
Peppe, 31 anos, Itália

“os meus olhos são laranjas
De ar pleno de amor”
anónima, 42 anos, Portugal

Trabalhámos os poemas a partir de imagens/indutores:
        1. A fruta que mais gosta;
        2. A parte do corpo preferida;
        3. Um elemento da natureza (ar, fogo, água, terra);
        4. Uma emoção, um sentimento…
Os participantes/autores leram os poemas e fizeram alterações em inglês e na sua língua materna e novamente em inglês contando com a colaboração dos participantes estrangeiros com conhecimentos de português. O português escrito foi contextualizado para lhe dar a forma oral e performativa.
A seguir trabalhámos a recitação nas várias línguas com atenção à postura, todos em pé, à respiração, à leitura em voz alta com serenidade, o peso de cada palavra e de cada verso… iniciando-se a improvisação gestual e em movimento que permitiram melhorar a interpretação e partir para o segundo grande jogo.

2. Teatro é Repetição


O Teatro provoca diferença de tradução e interpretação corporal. A proposta foi que cada participante contasse com o corpo (gestos e movimentos e poucas palavras) a história mais terrível que lhe contaram na sua infância. Poucas palavras, as necessárias à narração na língua materna de cada um. Foi mantida a língua inglesa como língua veicular, de forma a decifrar as mensagens, depois de intensa repetição e melhoria do gesto, do movimento e da expressividade das contadoras de história tradicionais da África, da Europa do Sul, da América do Sul, da Europa Central, do Norte ou do Leste, da Austrália. 
O Teatro deriva da ação da improvisação do ensaio repetitivo e diferenciado:
1.       Repetição após repetição sempre diferente. Este é o grande prazer de fazer diariamente teatro. Repetição com novos elementos. Repetição e diferença como nos fala Gilles Deleuze;

2.       “Um conceito de diferença implica uma diferença que não é só entre duas coisas e que não são mais do que uma simples diferença conceptual, é preciso ir até a uma diferença infinita (teologia) e para uma razão simples (física). Qual são as condições para constituir um conceito puro de diferença. Um conceito de repetição implica uma repetição que não é só da mesma coisa do mesmo elemento. As coisas é o elemento que supõe uma repetição mais profunda, rítmica. A arte não é pesquisa de repetição, mas também de pensamento (Contracapa)”. (1)

3. Celebração
Tratando-se da Celebração 25ª da IDEA, fizemos com fotos uma viagem rápida sobre alguns momentos do 3º Congresso no Quénia, Lago Vitória onde estivemos com um Atelier Internacional “Flying Like a Bird Over the Stage” (traduzimos neste momento por “Voando como um pássaro por dentro do palco”) e incluímos no título chave desta investigação que temos vindo a registar: “O meu país é o meu corpo” (projeto IPS-ESE). Através da Alexandra Espigão, as fotos foram entregues ao Repositório Digital de Memórias da IDEA. Foi a nossa pequena prenda aos 25 anos da IDEA.
Neste tipo de intervenções trabalha-se sobre três níveis:
1.       O criador – o poeta, o bailarino, o encenador, o dramaturgo, o guionista;
2.       O instrumentista – o corpo como instrumento, a improvisação teatral, um instrumento musical (por exemplo o cavaquinho) e a Voz (articulação, projeção, dicção);
3.       O espectador – levar as pessoas às salas de espetáculos e realizar debates abertos e muitas vezes intervenções nos espetáculos pelos espectadores.

José Gil
14-7-2017