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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Um conto inédito


O GÉNIO

Dores Nascimento

Isaías andava desanimado com os últimos acontecimentos. Do palheiro, nada sobrara depois de dominado o fogo, pelo menos acima das lajes que lhe tinham servido de chão. Com restos de uma vassoura, Isaías revolvia as cinzas, procurando nada ou qualquer coisa, nem ele sabia o quê. Conformado com a inutilidade da busca, começou a varrer a lixarada negra, com exasperada energia, enquanto o suor lhe escorria pelo rosto, traçando riscas mais claras na fuligem que o cobria. Deu por concluída a tarefa quando todas as lajes ficaram completamente a nú. Sacudiu as mãos uma na outra, puxou de uma garrafa de água que tinha num dos vários bolsos do colete, tomou um gole e sentou-se numa pedra a olhar para tudo e para coisa nenhuma. Amanhã ou depois ou quando lhe apetecesse, se lhe chegasse a apetecer, começaria a juntar materiais para a reconstrução.

Depois, desconsolado, desfocou a vista em horizontes distorcidos por fumos, e promessas de lágrimas rejeitadas com as costas da mão, quedando-se então a sua atenção, num desusado objeto, a meia dúzia de passos, que parecia uma lamparina de azeite. Levantou-se lentamente, ligeiramente espantado com o achado e tomou-o entre as mãos, cuidadosamente. Nos sítios onde a sujidade permitia, brilhava como ouro. Estava quente, bastante quente até. Isaías atribuíu, ainda que um pouco cético, o estranho calor ao recente incêndio, mas, se o rescaldo ocorrera há duas noites, o arrefecimento estaria mais justificado que o seu contrário, contudo, não relevou este dado e começou  a limpar o achado à fralda da camisa, para lhe perceber bem a natureza. Com a fricção, a temperatura deu em subir tão de repente, que fez com que  Isaías largasse o achado ou queimaria seriamente as mãos. Assustado, deu um passo para trás e não é que a lamparina, ao embater nas lajes, libertou uma enorme nuvem brilhante, que descerrou a figura de uma espécie de homem sem pernas, suspenso no ar, com um turbante na cabeça, os braços cruzados e um bigode farto e retorcido!?

Isaías por momentos considerou a possibilidade de estar no meio de um pesadelo, contudo a figura revelada nada tinha de hostil, portanto pesadelo não era, quando muito um espalhafatoso sonho, pelo menos à primeira vista.

-Uf, até que enfim, meu amigo. Isto de ser génio, já não é o que era. Nos tempos que correm, ninguém liga importância a lâmpadas esquecidas em palheiros.  

Isaías de idade avançada, mas ainda robusto, destemido e muitíssimo lúcido, procurava enfrentar o figurante sem dar parte de fraco e compreender o que se estava a passar; e antes que lhe perguntasse, já o génio lhe respondia em lufadas de palavras, o que não era para admirar. Há quanto tempo estaria ele enfiado naquela coisa, sem poder articular palavra ou alongar o corpo?

-Há muitos anos atrás, por razões que já nem recordo, mas que tenho uma vaga ideia que foi por castigo, fui parar dentro de uma lâmpada, onde permaneci uma eternidade. Depois um jovem chamado Aladino lá me encontrou. Satisfiz desejos a uns e a outros, mas depois, quando chegou o momento do último desejo dele, que era a minha liberdade, a namorada de nome Jasmim, levou um pequeno coice de um burrito e desmaiou e ele na aflição e sem pensar, gritou: Acorda-a, dá-lhe água, e leva-a  para casa, enquanto eu vou ver de quem é o burro. E zás. Três banais desejos esbanjados de uma assentada, quando só lhe restava um. Pois bem, não foi possível contornar um exagero daqueles. Se fosse só acorda-a, e leva-a, eu até podia assobiar para o lado e desconsiderar os pedidos como desejos, mas  a água é que estragou tudo, mal lhe estendi o púcaro, fui sugado para dentro da minha lâmpada para mais uma eternidade, que durou até hoje.

-Então, e não me leve a mal por perguntar, ainda lhe resta alguma reserva de desejos para satisfazer.
- Deixe ver aqui nos meus apontamentos, disse, consultando uma fita atada a um dos pulsos. Restam-me precisamente dois, confere inteiramente com o que me lembrava. O saldo disponível são dois, prémio por mais uma eternidade que passei aprisionado. O meu amigo tem alguma coisa importante a pedir? Não hesite, oportunidade como esta não se repetirá. Mas não se precipite. Escolha bem, e não se esqueça que eu também gostava muito de ser gente. Com o Aladino, que era uma excelente pessoa quase consegui, clamava o génio batendo com o punho direito na palma da mão esquerda.

Na casa de Isaías e de Palmira sua esposa, um pedaço de uma história paralela acontecia, narrada por Augusta.

-Procurei qualquer coisa com que escrever, para deixar um recado ao marido de Palmira, sobre os procedimentos para umas análises médicas, que Palmira tinha de fazer. É que a cabeça dela já não dava conta destas coisas. Padecia há uns anos da doença do esquecimento.

Abri umas das três gavetas do móvel da entrada, e deparei com muitos guardanapos dobrados, daqueles que saem de dispensadores que se encontram nas mesas dos cafés. Finos e translúcidos. Afastei-os para um dos lados, encontrei um marcador vermelho que servia o propósito da busca e aproveitei a abundância dos guardanapos, para escrever num deles. Reparei então que alguns tinham palavras e números escritos. Recolhi-os cuidadosamente do amarfanhamento a que os tinha sujeitado pela busca e sentei-me numa cadeira, com um pano sobre os joelhos, onde coloquei o curioso pecúlio, para decifrar o que lá estava escrito.

Vários tinham Benvindos a beirais, 14 h  , outros,  almoço batatas com bacalhau, almoço sopa e bacalhau assado, hoje futsal e hoje ben hur canal  memória.

D. Palmira, uma senhora idosa, a quem eu de vez em quando faço companhia e alguma lida de casa, tinha sido uma linda mulher, a olhar às fotografias que  pela casa se vêm. A vida de D. Palmira era agora como um livro a que se vão arrancando folhas, do fim para o princípio.  Os recados achados na gaveta, nos guardanapos de papel de café, foram escritos por ela e a ela destinados, no tempo em que a consciência do esquecimentos ainda era sentida, no tempo em que ela sabia que se esqueceria e tentava contrariar essa realidade. Fiz-lhe perguntas sobre os recados, confessou com um sorriso de inocência que parecia ser a sua letra, mas que não se lembrava de os ter escrito. Leu todos os recados com atenção, corrigindo a posição dos óculos para ver melhor e tornou a sorrir com a descoberta, mas com um sorriso diferente, um sorriso conformado, um pouco triste talvez. Conversámos e notei-lhe uma certa habilidade para rematar os assuntos, defendendo-se para não acusar a fragilidade da sua memória. Habilidade e inteligência.

Fascinada perguntei a Palmira pelo esposo. Respondeu que devia estar na fazenda. Mas não, tinha ido ver dos estragos do palheiro, sabia-o eu. Ainda há um par de anos passava grande parte do seu dia numa fazenda e essa memória encontra-se gravada nas referências de Palmira, das idas ao palheiro, já não. O incêndio que o destruíra há uns dias, muito menos. Observei-a com carinho, enquanto ela própria observava atentamente as próprias mãos, buscando insuficiências nas unhas como algo de prioritário e inadiável. Ajeitou o chapéu cinzento, adereço inseparável, tal como a chave pendurada ao pescoço com uma fita verde da junta de freguesia de sua terra natal, os óculos e um vistoso relógio de pulso com uma bracelete rosa vivo. Gosta de saber as horas e constantemente acerta os ponteiros, logo que suspeita atrasos ou adiantamentos de um ou dois minutos, apesar de não reconhecer horários para coisa nenhuma.

Perguntei-lhe pela família, disse me que tinha uma filha muito parecida com o pai, um genro muito amigo e um neto e que o neto tinha uma namorada.

Com um sorriso sonhador contou-me que fora modista e que fizera muitos vestidos de noiva. Contou-me que o marido fora preso político em Caxias e no Porto. Sobre a idade, disse ter mais de oitenta anos e que fazia anos em Agosto. Perguntei-lhe o que tinha almoçado, disso, não se lembrava. Sobre uma cama de ferro de um quartinho encontra-se um montinho de roupa dobrada. Separei a roupa para a guardar com a ajuda de Palmira, que me indicou as gavetas dos lençóis e da roupa interior. Disse-me que o pijama não era dela, que não era lá de casa, mas que a filha, que tratava da roupa o trazia sempre por engano. 

Sentámo-nos em duas cadeiras, à porta, a apanhar o fresco da tardinha e várias mulheres, homens e crianças que passavam, cumprimentaram-na pelo nome. Perguntei-lhe quem eram, respondeu que os conhecia a todos, mas que não recordava os seus nomes. Um ou outro paravam e trocavam com ela meia dúzia de frases, mas ela na defensiva, conseguia iludi-los com as suas desconcertantes respostas, -Estou bem, cá vamos andando, saúde para todos.

Então comuniquei-lhe que a médica de família lhe passara umas análises ao sangue e à urina. Análises de rotina.  No dia seguinte teria de fazer xi-xi para um frasquinho, em jejum. Concordou com um desinteressado aceno de cabeça.

Fui depois arranjar-lhe um copo de leite, que ela bebeu com satisfação até ao fim e tornei a falar-lhe das análises, que tornaram a ser novidade. Disse-lhe que escreveria um recado ao marido e que depois ele ou a filha, a ajudariam a lembrar-se na manhã seguinte. Pediu-me que escrevesse o recado num papel grande, e para o colar na porta da casa de banho.

Entrei em casa e procurei um papel maior que os guardanapos. Encontrei um envelope vazio e desmanchei-o. Peguei no marcador e escrevi “Fazer xi xi , e logo fui interrompida pela Palmira com a pergunta: O que é que quer dizer “fazer onze onze”, pois sim, Palmira, perdeu parte da memória, mas não esqueceu a numeração romana. Complicado o funcionamento da nossa cabeça.

Entretanto Elias regressa a casa com o mágico escondido, mas não prisioneiro.

-Palmira, hoje fiz um achado que pode mudar a nossa vida. Ela sorriu, ajeitou os óculos e perguntou: Então o que foi?

-Cruzei me com um génio, ou melhor com um mágico que pode satisfazer-nos desejos. Esfregou a lâmpada e o mágico surgiu em todo o seu esplendor, para gáudio de Palmira, que o achou muito simpático, poucos minutos volvidos.

Querida Palmira, é como se nos tivesse saído o euromilhões, melhor que isso até, porque há coisas que o dinheiro não compra, por exemplo a tua memória. O génio pode satisfazer dois desejos. Um deles é qualquer coisa boa para nós, o outro é a liberdade dele, para que passe a ser um homem livre e se liberte definitivamente da lâmpada de que se encontra refém.

Palmira não aparentava grande surpresa, e trivialmente disse ao marido: - Oh Isaías, tens a cara tão suja, o que é que andaste a fazer, por que não vais lavá-la? –Sabes, andei a limpar as cinzas do incêndio, está tudo negro e seco. Quem nos dera uma boa chuvada que limpasse os ares e vencesse esta seca por este país fora.

Palavras não eram ditas, e a chuva fez-se sentir em todo o território e lá se gastou um dos dois desejos. Isaías tapou a boca com uma mão e entre emoções, disse, - Gastei um desejo com a chuva e agora?

O Génio estava triste com a perspetiva que já vislumbrava: Mais uma eternidade na lâmpada. Mas, Palmira segurou a mão de Isaías e com uma lucidez perturbadora disse, -Isaías, meu velho, a chuva é uma coisa boa para nós, agora vamos gastar o segundo desejo noutra coisa ainda mais importante para nós desde sempre e para sempre, a liberdade. E pediu a liberdade para o génio.

Moral: a cura do alzheimer chegará de forma científica, e não através de génios de lâmpadas. Contudo, os princípios e os valores, bons ou maus, permanecem nas memórias dos portadores da doença, porque esses não se esquecem, fazem parte de cada um de nós para sempre. 


domingo, 20 de maio de 2012

Era uma vez...


Era uma vez um menino que tinha um vovô e uma vovó. Um dia o menino virou Papai Noel e o vovô virou o homem de gelo, tinham começado o sonho e a brincadeira.

- Vovó, eu preciso de duas cadeiras da cozinha, uma pra mim e outra pro vovô homem de gelo, pra fazer o meu trenó.
- Está bem, pode pegar.
- Leva pra mim, eu sou Papai Noel e sou velhinho...
- Então o “senhor” me ajuda levando uma enquanto levo a outra. Certo?

Montado o trenó na varanda, eis que de lá vem um novo chamado:
- Vovó, eu preciso de mais “cadeira” porque o trenó tem que ser grandão pra caber tudo, senão as criancinhas não vão ter “ brinquedo”.
- Tudo bem Papai Noel, vamos buscar as outras.

E assim as cadeiras da cozinha, os banquinhos, tudo foi sendo transferido para a varanda, montando o grande trenó da fantasia infantil.
Espichado o trenó surge, de imediato, uma nova questão “dificílima” de resolver.
- Vovó, eu não tenho “arrena” e o Kamba  não quer puxar o trenó.
- Tudo bem Papai Noel, vamos buscar as coleiras.

Com as coleiras e as guias nas mãos, em dois tempos, muito contra a vontade deles, Lady, uma cocker de sete anos, Joe, um vira-latas amarelinho que já conta dezoito para dezenove anos, e Kamba, um labrador de nove anos, transformaram-se em renas mágicas para puxar o trenó. Pronto, fazendo de conta que as renas de Papai Noel eram apenas três, lá se foram voando na imaginação aguçada o menino Papai Noel e o vovô homem de gelo distribuindo alegria, aventura, brinquedos imaginários pelo mundo todo e muita felicidade pela casa. Uma noite mágica como mágicos eram todos os encontros entre o menino de quatro anos e seu vovô.

Não demorou muito tempo, apenas um mês, o menino voltou sorrindo procurando o vovô para brincar mas ele não estava mais lá.
- Vovó, onde está o vovô, ele vai demorar ?
- Vovô, meu amor, está no céu. Papai do céu precisou de um vovô bonzinho para ajudar a Ele e levou o seu para morar lá. Ele não volta mais. Vai ficar vendo você lá de cima das nuvens...
- Mas não tinha outro vovô pra Ele levar?
- Papai do céu sempre chama aqueles que Ele gosta mais pra ficarem pertinho Dele. Quando Ele chama, a gente não pode desobedecer.  
- Por quê ?
- Você pode desobedecer ao seu papai?
- Não, mas vovô já é grande, até dói o joelhinho...
- É, mas Papai do céu é muito maior e mais velho. Vamos falar de outra coisa?
Vamos, mas me conta, como é que vovô foi pro céu?

E a vovó, abraçada ao menino e contendo as lágrimas, começou:
- Lembra que você e vovô plantaram feijões mágicos? Pois bem. Era uma vez um vovô.....

                                                                            Nádia P.Chaia (Sidewí)
Maricá, maio de 2012.

sábado, 17 de dezembro de 2011

ONDE PERDI PAPAI NOEL?



Faz muitos anos, nem sei mais quantos, que perdi Papai Noel. Na verdade não entendo bem se o perdi ou se ele me perdeu...

Lembro-me de um natal, não sei bem se tinha nove ou dez anos, em que, não conformada em nunca ver o Papai Noel, cheguei mesmo a cogitar a possibilidade dele chegar apenas depois que eu estivesse dormindo para que não tivesse que falar comigo. Certamente porque não gostava de mim, cumpria apenas o dever de levar-me algum presente como fazia, na minha imaginação era assim, com todas as crianças do mundo. Eu deveria ter feito alguma coisa de muito terrível para que isso acontecesse. O sentimento de culpa começou a tomar conta de mim sem que eu soubesse porque, ainda mais que escutava de meus pais, avós e tios, durante o ano inteiro, que se eu não fosse uma boa menina Papai Noel não me traria nada porque ele não gostava de criança malcriada, teimosa, desobediente e toda uma ladainha de pecadilhos infantis. Como sempre gostei de enfrentar as situações ao invés de fugir delas, na noite de natal pedi para dormir na sala porque, assim, poderia encontrar os pacotes na árvore de natal logo que acordasse. Muito a contragosto meus pais concordaram. Terminada a ceia, corri ao meu quarto e peguei um travesseiro e um saco de dormir. Naquele tempo as mesas de jantar eram enormes, a lá de casa acomodava doze pessoas, era comprida e larga. Sem pestanejar, arrumei o meu saco de dormir sob a mesa e fechei os olhos. É claro que eu não estava dormindo, mas por mais que vez por outra meu pai e minha mãe viessem até a sala, bem devagarinho, e mexessem em meus braços ou nos cabelos eu não abria os olhos e até ressonava. Convictos do meu sono apagaram as luzes da sala, deixando aceso apenas o pisca da árvore de natal. Passado algum tempo ouvi uns passos, entreabri os olhos e vi um par de pés calçando uns chinelos que eu conhecia, olhando um pouco mais para cima reconheci o pijama listrado que cobria aquelas pernas no mesmo instante em que elas se curvaram e os embrulhos de presentes foram colocados no chão, ao pé da árvore. Dei um pulo e gritei “peguei Papai Noel”. Meu pai me olhou um tanto assustado, como se tivesse feito uma asneira e eu, imediatamente, senti um grande vazio dentro de mim. Abracei-me com ele e chorei. Havia desmoronado, na minha frente, o meu mais belo sonho de menina, mas ao mesmo tempo eu havia também perdido o sentimento de culpa que me atormentava. Foi um misto de decepção e alívio. E ali, naquele instante, na madrugada do natal eu perdi Papai Noel... ou será que ele me perdeu?


Nádia P. Chaia