“Gosto imensamente destes grandes silêncios, porque então ouço-me a mim mesmo, e vivo mais em cinco minutos de solidão do que em vinte horas de bulício.” (Machado de Assis)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


OS TEUS OLHOS AZUIS

Para a
Paula Canena

A minha tia Gertrudes foi a outra das minhas tias que se deixou ficar solteira, no seu caso pelo ramo paterno e até que a sua alma se juntou ao Criador. Ao contrário da tia Engrácia que bateu o pé ao meu avô para estudar e, em algumas outras ocasiões de choque, da minha tia Raquel que, após a segunda grande guerra, impôs um divórcio litigioso ao marido que tinha uma amante e depois criou um filho com os rendimentos do seu trabalho, aquela terceira filha sempre foi mais dada ao seu mundinho de bordados e leituras a que o talento acrescentou as telas de rostos e paisagens ou de simples instantes do quotidiano que ela pintava, sem outra intenção além do amassar das horas. Para lá disso escrevia poemas, assim passando os dias entre o seu quarto e a solidão de passeatas pelos campos e quintas circunvizinhas à vila. Dela guardo um volume, feito à mão, de algumas dezenas dos seus poemas de amor e na minha sala a curva de um regato num bosque, em aguarela. De todos os irmãos, a tia Estrudinhas, como lhe chamavam os sobrinhos, era a que mais se condoía com os pobres de haver e de espírito que usualmente se cruzavam, por baterem na porta e na rua, pela sucessão das semanas de um mundo em que nem todos tinham a possibilidade de ganharem o pão. Era a única que se dispunha a prestar ajuda nas festas de caridade da Santa Casa da Misericórdia e, no lar, tomou a seu encargo as canseiras de ter sempre um prato de sopa para os gaiatos de duas ou três famílias que os azares dos pais tinham atirado para a miséria. E censurava os irmãos quando se esqueciam de lhe entregar as roupas que abandonavam, para que ela pudesse aliviar as carências de algum corpo com frio. Desde menininha que ela dera mostras de vir a ter aquele temperamento, quer pelo carinho que dispensava até aos bonecos e animais, quer pela argumentação espontânea e permanente que, nas histórias que lia, usava para tomar partido pelos mais fracos. Dizem os mais velhos que mesmo os seus bonecos viviam em aposentos confortáveis que ela preparava com o desvelo de ter miniaturas de cobertores para o arrefecimento das madrugadas.
Segundo o ponto de vista da irmandade, a minha tia Gertrudes faleceu devido a uma doença do fórum nervoso, mas o Dr. Neves, amigo de meu pai e que de há muito conhecia aquela casa, sustenta que antes foi um ela deixar-se morrer. Nas duas últimas anuidades da sua vida, já eu aparava o bigode, aquela minha tia tornou-se uma pessoa propensa a barafustar por tudo e por nada e a todos virar as costas abafada de ufas e invectivas e descrenças. Chegou a passar dois meses sem sair do quarto e por fim acamou-se, a côdeas e a água, acompanhada por lágrimas e silêncios e ainda ordens para que se não visse a luz, até que uma noite o coração deixou de pulsar e alguém a encontrou lívida na manhã do dia seguinte.
Conta a minha mãe que aquela minha tia vivia encantada com as melodias dos passarinhos e as múltiplas nuances das tonalidades da luz. Quem ela verdadeiramente admirava eram os homens do saber e das artes, de quem sabia narrar, embevecida, as biografias e comentar as obras, pois, apesar de apenas ter estudado, com professora em casa, aquilo que seria o equivalente a um curricula liceal, a tia Estrudinhas era mulher de sólida cultura literária e histórica e filosófica, capaz de recitar de cor muitas passagens de “Os Lusíadas” e de citar obras de clássicos com fartura e elegância. Só o seu recato a que se remetia pelo entendimento de uma posição de última linha num mundo organizado para os homens, tão só a baixa voz que raramente se expressava a impediu de ir além do anonimato. Mesmo com o corpo, ela em nada se manifestava a fim de abandonar o exemplo que vira na sua mãe e já eu era bem crescidinho quando ela se decidiu a vestir fato de banho pela primeira vez, ainda que passasse todos os santos verões sob as aragens da beira-mar. E nem assim se pode falar de ousadia, uma vez que a obrigação teve como motivo a resposta às dores do reumático. Tanto foi que durante toda aquela primeira época ela se refugiou nas rochas do fundo da praia, ou em uma pequena enseada menos frequentada da baía. Justificava-se à minha mãe com a vergonha que sentia por saber que os homens poderiam distrair-se nas suas carnes.
Pensava eu que a tia Gertrudes nunca casara por jamais ter encontrado a chavinha que alhures existe para nos abrir o coração. No dia do seu funeral vim a saber a verdade.
Foi minha tia a enterrar numa campa que ela própria há muito adquirira e que se situava paredes meias com uma outra, muito anosa, da qual, veio então a saber-se, afinal sempre ela cuidara. Era a última morada de alguém que morrera novo, ceifado na aventura de querer conquistar mais e mais velocidade na estrada.
Do teu azul olhar
me fiz eu cativa,
onde quer que eu viva,
não há outro encantar.
Era o João, a cuja memória dedicara esta quadra.

Portel, 13 de Maio de 1998

domingo, 29 de janeiro de 2012







ENTÃO MAS AFINAL … (I)


Será assim o nascer?
- vir de um particular mar interior e escuro, lugar sem paredes, ocorrer a um chamamento e seguir a luz até desembocar num exterior, a que chamamos mundo, mais amplo e povoado, mais partilhado e barulhento, cumprindo um imperativo biológico, iniciando um novo ciclo daquilo a que chamamos vida –
                                              É bem possível.


Concordar ou discordar será uma questão de fé ou crença, exercício de pura especulação por se tratar de uma experiência ocorrida antes de sabermos as palavras que permitem ilustrar e lidar com as ideias e organizar o seu registo gráfico a que chamamos memória. Acredito, contudo, subsista um imemorial registo desse primordial percurso que para sempre nos acompanhará, matriz de uma indefinida saudade que, debalde os nossos esforços procuraremos preencher sem sucesso.


Essa busca impulsiona-nos a caminhar em sucessivas e ininterruptas etapas.
Efectivamente caminhamos desde que nos conhecemos (e mesmo antes de nos conhecermos), neste corpo que não escolhemos, antes nos acolheu.
Estamos algures entre o nascer e o momento de des-nascer para, quem sabe, tornar a re-nascer talvez sobre outras formas e noutros estados. Esse intervalo é o que chamamos vida, a nossa vida.                      


Tanto caminhar – que às vezes cansa e desanima – é sem remédio nem remissão. Não pode deixar de ser assim, é compulsivo e independente da nossa vontade.
Na companhia da plêiade que nos habita (somos todos tantos, não somos?!) e que tantas vezes não conseguimos domesticar, percorremos os caminhos socorrendo-nos do que calha para nos orientar e, outras vezes, mesmo sem orientação alguma, tacteando como cegos, avançamos tentando decifrar os sinais.  (…)



Fotos: Edgar Cantante; Texto: João C.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Largo da Graça


O MUNDO NA ERA DA GLOBALIZAÇÃO


As tecnologias da informação estão a mudar o mundo - a conjunção da informática com as telecomunicações prenunciam uma nova época.
A fusão das tecnologias do telefone, computador, televisão por cabo e disco vídeo trarão novas formas de comunicação entre as pessoas.

A expansão da democracia é muito influenciada pelo progresso das comunicações a nível global.
O paradoxo da democracia atual é que enquanto se está a expandir por todas as partes do mundo, nas democracias mais maduras os níveis de confiança nos políticos tem vindo a diminuir.
Mas um certo desencanto nos políticos não desencantou os processos democráticos. Hoje, as pessoas que pertencem a organizações voluntárias, ou a grupos de ajuda mútua são vinte vezes superior às que estão filiadas em partidos políticos.
A revolução das comunicações produziu cidadanias mais activas, o que exige uma maior clareza e responsabilização dos líderes políticos.
É necessário democratizar a democracia.

A globalização neoliberal reproduz condições económicas e sociais que tende a aumentar as desigualdades entre ricos e pobres, quer em termos globais, quer nacionais.
O aumento das desigualdades acentua a exclusão social efectiva de grandes sectores da população mundial.
O aumento do trabalho precário nas grandes cidades e nas periferias provoca o aumento do número de pessoas que vive no limiar da miséria. 
Em Bogotá isso verifica-se, por exemplo, no crescente número de pessoas que sobrevive rebuscando contentores e lixeiras à procura de materiais recicláveis para venda.

Os países ocidentais exigiram a liberalização mundial do comércio para os produtos que exportavam, mas ao mesmo tempo continuaram a proteger os sectores em que a concorrência dos países em desenvolvimento podia ameaçar as suas economias.
Os EUA e o FMI insistiram sempre em acelerar este tipo de liberalização do comércio, fazendo mesmo depender os seus apoios ao desenvolvimento da aceitação dessa perspectiva.


Nos próximos anos, novas e mais sofisticadas tecnologias na área da informática aproximarão cada vez mais as sociedades mundiais de um "mundo sem trabalhadores". Redefinir a falta de trabalho deverá ser a questão social mais premente deste século.

Enquanto para alguns um mundo sem trabalho se traduzirá, sobretudo, em liberdade e tempo livre, para outros evoca a ideia de um futuro sombrio com desemprego e pobreza generalizada.

Novas instituições estão a ser criadas pelas pessoas para suprir necessidades que não estão a ser atendidas pelo mercado, ou pelo sector público. E isto se verifica por todo o mundo.


"No Séc. XVIII, a máquina a vapor, provocando a revolução industrial, mudou a face do mundo (...). No entanto, essa máquina apenas substituía o músculo.Com a vocação de substituir o cérebro, o computador está a provocar, sob os nossos olhos, mutações ainda mais formidáveis e inéditas." (Ramonet, Ignacio, 2002, p.91)


Luís Santos

Bibliografia
. LYON, David - A Sociedade da Informação. Oeiras: Celta Editora, 1992.
. GIDDENS, Anthony - O Mundo na Era da Globalização. Lisboa: Ed. Presença, 2000.
. RODRIGUEZ, César - O Caso das Cooperativas de Recicladores de Lixo na Colômbia,in, SANTOS, Boaventura Sousa - Produzir para Viver. Porto: Ed. Afrontamento, 2002.
. STIGLITZ, Joseph - Golobalização: A Grande Desilusão. Lisboa: Terramar, 2002.
. RIFKIN, Jeremy - O Fim dos Empregos. São Paulo: Ed. Milton Mira de Assumpção Filho, 1995.
. RAMONET, Ignacio - A Guerra dos Mundos. Porto: Campo das Letras, 2002.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria LXXIV

A Vespa, a Taça e os Pregos Autor António Tapadinhas
Óleo sobre tela 35x27cm

Pronto! Já tenho um computador novo! O coração (o disco) do outro estragou-se. Não sei onde este guarda os seus segredos, onde esconde algumas das imagens que foram recuperadas, os endereços dos amigos… Vai ser um relacionamento difícil, até nos conhecermos! Ela (a máquina) e eu vamos ter de mudar alguns dos nossos hábitos. A vida é feita de mudança e qualquer relacionamento, para resultar, é mais feito de cedências do que de vitórias…
Aí está o segundo quadro da prometida série de três. Todos os elementos essenciais para manter o referido desassossego paranóico-crítico de Dali, lá continuam,agora reforçado pela ameaça latente protagonizada pela vespa.
Pedi inspiração a António Aleixo para concluir com uma quadra:

Uma vespa sem pudor
Pica com a mesma energia
Na cabeça de um doutor
Ou na bunda da Maria.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

MANIFESTO CONTRA A CRISE – A LÍNGUA COMO MOTOR ECONÓMICO


A Direção da AICL - COLÓQUIOS DA LUSOFONIA (AICL, Associação [Internacional] Colóquios da Lusofonia) –preocupada pelas recentes decisões economicistas relativas à Língua e Cultura de todos nós, vem apresentar algumas ideias de estímulo económico, através da língua e cultura, que servirão a médio prazo para um estímulo maior à economia. Sabendo que existem estudos que apontam a importância deste setor e cifram o mesmo em 17% do PIB e considerando que BRASIL e PORTUGAL são os países em melhores condições de proporcionarem o arranque deste projeto, fica desde já a ressalva de que a eles se devem juntar os restantes países da CPLP quando estiverem dispostos a fazê-lo sem medos de Quintos Impérios e neocolonização cultural

1.       BUSCAR CONSENSOS COM O GOVERNO DO BRASIL E DE PORTUGAL E LANÇAR CURSOS DE PORTUGUÊS – PRESENCIAIS E ONLINE – EM TODOS OS 4 CANTOS DO MUNDO, UTILIZANDO UMA NOVA FÓRMULA QUE QUER O INSTITUTO CAMÕES QUER O MACHADO DE ASSIS NÃO PROPORCIONARAM, PODENDO INCLUSIVE UTILIZAR-SE O IILP PARA TAL FIM, E COM APOIO DE UNIVERSIDADES E POLITÉCNICOS DOS DOIS PAÍSES

2.       SERIAM CRIADOS CURSOS PRESENCIAIS DE LÍNGUA, CULTURA E TRADUÇÃO NAS CIDADES ONDE OS CURSOS DO INSTITUTO CAMÕES VINHAM FUNCIONANDO (EM COORDENAÇÃO COM UNIVERSIDADES, POLITÉCNICOS E OUTRAS ENTIDADES LOCAIS) E EM TODAS AS OUTRAS ONDE EXISTA UM NÚMERO SUFICIENTE DE LUSOFALANTES. NOS RESTANTES LOCAIS USAR-SE-IAM PLATAFORMAS DE E-ENSINO COMO AS EXISTENTES NA UNIVERSIDADE ABERTA DE PORTUGAL ENTRE MUITAS OUTRAS PARA MINISTRAR ESSES CURSOS QUE SE DEVERIAM FOCAR EM 3 VERTENTES: APRENDIZAGEM E MELHORAMENTO DA LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA LUSÓFONA E ESTUDOS DE TRADUÇÃO.

3.       BUSCAR APOIOS DAS ACADEMIAS DE LÍNGUA PORTUGUESA EXISTENTES ( ABL, ACL; AGLP), DA CPLP, E DE TODAS AS RESTANTES INSTITUIÇÕES PARA QUE CONTRIBUÍSSEM PARA ESTE PROJETO QUE SE NÃO DEVE LIMITAR AOS PALOP MAS A TODO O MUNDO ONDE HAJA LUSOFALANTES.

4.       CRIAR – PELO MENOS 500 BOLSAS DE ESTUDO ANUAIS PARA PAÍSES DE TODOS OS CONTINENTES FREQUENTAREM UNIVERSIDADES BRASILEIRAS E PORTUGUESAS (o Brasil poderia disponibilizar 350 e Portugal 150) PARA OS MELHORES ALUNOS DOS CURSOS REFERIDOS EM 2. OS BOLSEIROS DEVERIAM FUNCIONAR COMO EMBAIXADORES DA LÍNGUA PORTUGUESA NOS SEUS PAÍSES DE ORIGEM, UMA VEZ TERMINADA A BOLSA EM MOLDES A DEFINIR.

5.       CONVOCAR AS EDITORAS DE PORTUGAL E DO BRASIL E CRIAR COM AS ACADEMIAS E OUTRAS ENTIDADES UMA BOLSA DE EDIÇÕES A PROMOVER EM TODO O MUNDO DOS MAIORES VULTOS QUE REPRESENTAM A ESCRITA DE CADA UM DOS PAÍSES LUSÓFONOS, AS QUAIS SERIAM DISPONIBILIZADAS NOS VÁRIOS PAÍSES.

6.       CRIAR ANTOLOGIAS BILINGUES PARA A DISSEMINAÇÃO DE OBRAS DE AUTORES LUSÓFONOS E PROMOVER A SUA DISTRIBUIÇÃO NOS PAÍSES DE DESTINO À SEMELHANÇA DA ANTOLOGIA BILINGUE DE AUTORES AÇORIANOS

7.     CRIAR E DESPERTAR O INTERESSE POR AUTORES LUSÓFONOS, ATRAVÉS DA DISPONIBILIZAÇÃO GRATUITA EM LINHA DE EXCERTOS DE OBRAS SELECIONADAS DE AUTORES LUSÓFONOS, TAL COMO ESTÁ A SER FEITO COM OS CADERNOS DE ESTUDOS AÇORIANOS.

8.       EVITAR QUE AS BUROCRACIAS MINISTERIAIS E GOVERNAMENTAIS IMPEÇAM A IMEDIATA CONSECUÇÃO DESTE PROJETO, NOMEANDO UMA COMISSÃO DE SÁBIOS PARA DEFINIR EM DETALHE ESTE PROJETO, SEU CRONOGRAMA E CUSTOS.

Estes são os pontos de partida que gostaríamos de ver debatidos e aumentados no 17º Colóquio da Lusofonia pelos associados durante a Reunião da Assembleia Geral. Para aqueles que não puderem estar presentes, agradecemos que nos enviem as suas sugestões juntamente com a sua declaração de voto

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 J. CHRYS CHRYSTELLO, Presidente da Direção
,14-01-2012
COLÓQUIOS DA LUSOFONIA (AICL, Associação [Internacional] Colóquios da Lusofonia) - NIPC 509663133
Sede: Rua da Igreja 6, Lomba da Maia S. Miguel, Açores, Portugal /
Contactos: (+351) 296446940, (+351) 919287816/ 916755675
Faxe eletrónico:+(00) 18153013682/(00)16305631902



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


O FANTASMA DE JOÃO SORUMENHO

No tempo e no espaço, a família é universal. Compreende-se. Explicam os entendidos que ela é uma resposta cultural aos mecanismos biológicos da reprodução da espécie e também por eles sabemos da variedade formal em que a mesma se realiza. No entanto, ela é isso mesmo, uma construção cultural, pelo que não reproduz, necessariamente, as relações biológicas da consanguinidade. Trata-se de uma convenção e eu estou convicto que ela existe pelo reconhecimento ou, por outras palavras, só por essa via ela ganha existencial real. Apenas quando os indivíduos se reconhecem como parentes é possível falarem numa determinada família concreta. Ora o reconhecimento não se completa apenas no acto das diversas identificações pessoais, dele igualmente faz parte a memória e, com esta, as histórias que cada grupo singulariza em relação aos outros. No momento, não é minha intenção elaborar um trabalho desse género. Tão só quero chamar a atenção para o facto de aí podermos encontrar episódios que nos bem disponham e, por exemplo, sirvam para entreter um serão de cavaqueio.
Quando eu era pequeno gostava muito de escutar as histórias das minhas tias, de as ouvir narrar as peripécias deste ou daquele ou as mais estranhas lendas de outras eras e os mais variados eventos fantásticos. Desde os feitos de um tal Jorge Cagáu, uma autêntica baleia, no dizer dos conterrâneos que, todos os anos, ia a nado, pelo menos uma vez, até à ilha do Rato, mas também passando pela sina de um rapaz que tinha ataques e se transformava num cão de verdade, a todos eu abria os tímpanos e dedicava a atenção com igual prazer e entusiasmo. Por vezes, as deste último tipo provocavam-me arrepios e, à noite, faziam-me sonhar e, no preâmbulo do sono, perscrutar no escuro a metamorfose dos meus bonecos em monstros que eu me esforçava por ver se estavam ou não em movimento. Evidentemente que tudo isso foi ultrapassado com o decorrer dos anos mas, naquelas idades, quando eu apagava a luz e o longe parecia ficar todo da mesma cor, dava-se então o aparecimento da dúvida sobre se as coisas ganhavam ou não capacidades insuspeitas e terríveis. E de todas as contarias eram as que envolviam almas penadas que mais me levavam a adormecer com a cara voltada para a porta do quarto.
Quantas não são as famílias que, no seu património, guardam passagens de encontros com o além? Pois bem, o mesmo se passa com a minha, especificamente no ramo paterno, em que existe um caso de fantasmagorias. Propriamente dito, tratou-se de uma assombração que recaiu sobre a casa do meu avô, era o meu pai menino, por volta do início da segunda guerra e que, se aos residentes nunca chegou a preocupar por causa de um cepticismo natural em face da falta de provas, ainda trouxe a vizinhança com o credo na boca por mais de duas invernias. O meu avô ria-se e até fazia humor com o racionamento da comida que o país passava à época, argumentando que assim deveria contar com mais um hóspede. Mas até a Dona Teresinha insistia que não se devia brincar com esses fenómenos e ela era crente e nada dada a matérias de superstição.
Tudo começou quando, uma noite, alguém das casas fronteiras à Igreja Matriz e laterais ao cemitério foi acordado pelos sons de pancadas cuja origem, ao fim de alguns dias de repetições e depois do acréscimo de outros sons próximos de uivos, a suspeição fez recair sobre aquele rectângulo onde os mortos repousam. A Dona Henriqueta, jurava a pés juntos que ouvira o portão a bater e que, cheia de coragem, anesgando-se atrás das cortinas, bem vira que a pesada estrutura de ferro se movia sem qualquer fonte de inércia.
Daí às visões mais extravagantes foi o tempo de um raio e nos cafés e tabernas começaram a soar desencontradas descrições ora de uma sombra da altura do campanário, ora de uma luz que deambulava sem sentido. Nas barbearias, chegou-se à conclusão que só os peitos mais abertos poderiam ter testemunhado aquilo que começava a remeter as pessoas para trás de postigos e ferrolhos cerrados.
Até que uma noite de chuva houve um casal que viu um enorme vulto branco a erguer-se do interior da última morada e dali sair em direcção ao centro do povoado. A mulher urinou-se e o homem ficou gago e só por isso não eram capazes de pormenorizarem o rumo daquele mau encontro. Mas depois aquilo repetiu-se e outros olhos confirmaram a versão, até que o povoléu pôde estabelecer que o fantasma desaparecia no terraço das traseiras da casa do meu avô.
Ao princípio ainda houve um ou outro criado de atalaia, mas como nenhum deu com o que quer que fosse, rapidamente a família remeteu o assunto para o domínio da crendice popular e despreocupou-se com aquilo que designava muito simplesmente por um disparate. Diz o meu pai que apenas ele, o tio João e a tia Mimi, justamente os mais novinhos, deixavam que a cabeça descaísse para baixo dos cobertores. Contudo, o evento tornou-se habitual e, digamos assim, padronizado; primeiro escutavam-se as pancadas e uma algazarra que se assemelhava a um misto de gritos e uivos e depois lá se elevava a brancura que, bamboleante, demandava o destino que já se sabe. Num clube que era mais frequentado pelas famílias dos industriais de cortiça e os outros que a si se viam como os mais abastados, chegou a dizer-se que era o fantasma do Senhor Ezequiel, um admirador de Hitler, recentemente falecido que queria amaldiçoar aquele meu avô que não escondia as suas preferências anglófilas. Mas não era nada disso.
Um dia veio a saber-se que, afinal, tudo não tinha passado de um arranjinho entre uma das criadas do meu avô e o seu amante que assim conseguiam impor às más línguas o recato que lhes permitia abraçarem-se no seu segredo. Era ele quem produzia os ruídos e que sobre as andas se agigantava, não só para amedrontar, mas também para alcançar a altura do ninho de amor.
O plano chocou numa bebedeira alheia que, não dando conta dos ziguezagues, acertou em cheio no pedestal do fantasma que acabou por partir uma perna.

Amieira, 11 de Maio de 1998

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

domingo, 22 de janeiro de 2012




«De onde eu venho não existem paredes. O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: "Vem!". Havia um corpo e eu entrei.
Caminhava de cabeça baixa. A minha pobre cabeça, o meu corpo. (O meu corpo ?). Caminhava por dentro da noite, ouvindo o mar. Disseram-me: "Aquele que dorme caminha". Disseram-me que o sono é o lugar mais próximo da morte.
Sonhei com paisagens onde nunca estive. Alguém me instruía: "Dorme". Alguém me soprava ao ouvido palavras demoradas. Não sei de onde vim. Cheguei de noite num corpo estranho. Olhei-me ao espelho e vi-me: a outra. Olhei em redor e reconheci os lugares do meu sonho. Depois disseram-me: "Dorme".
Quando acordei apareceram vocês. Fizeram-me perguntas. Queriam saber de onde eu vinha. E eu disse: "De onde venho não existem paredes". Foi o que eu disse.    (...)

Fotos: Edgar Cantante;
Texto: José Eduardo Agualusa,” A Estação das Chuvas”, págs. 229/230

sábado, 21 de janeiro de 2012

A descoberta da Austrália pelos portugueses




Este é um dos temas  que venho tentando divulgar desde o início da década de 1980...mas que nenhum historiador em Portugal quis trabalhar, a descoberta da Austrália pelos portugueses (tema bastante bem desenvolvido no último capítulo de Chrónicaçores uma circum-navegação - volume dois - da editora calendário de letras...www.calendario.pt )

veja um filme  sobre o tema e ...vá ao blogue
http://coloquioslusofonia.blogspot.com/ , 

J. CHRYS CHRYSTELLO, 
Presidente da Direção, AICL, Associação [Internacional] dos Colóquios da Lusofonia

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A MÍSTICA

O pensamento místico, ou simplesmente, a mística, desenvolve-se no interior da tradição cristã, mas a sua origem remonta à cultura grega e deriva dos Mistérios Gregos. Os mais famosos são os Mistérios de Eleusis e quem lhes acedia passava por uma experiência iniciática (Mystés=Iniciados).

Os que passavam por essas experiências não comentavam posteriormente com os profanos. Até porque as experiências não eram traduzíveis por palavras. A regra de ouro era o Silêncio (a boca, os olhos e os ouvidos fechados). Quando se suspende os sentidos e o intelecto fica-se com uma maior capacidade de presenciar Deus.

Os textos sagrados são passíveis de diferentes interpretações e que vão servindo a cada um conforme o seu estado evolutivo.

Segundo Juan Martin Velasco pode definir-se o fenómeno místico da seguinte maneira:

- Uma experiência totalizadora e integrante, diferente da consciência comum cuja forma de conhecimento fragmenta a realidade.

- Uma experiência recebida, inesperada. O sujeito, de forma passiva, é surpreendido pela experiência.

- Imediatez. Experiência intuitiva, sem mediadores.

- Experiência fruitiva. A grande beatitude, o grande gozo. A linguagem mística é equivalente à linguagem amorosa. Uma consciência de vida eterna, aqui e agora. Não vale a pena esperar nada, tudo é para já.

- Simplicidade. Singeleza. Uma experiência que não exige nada do sujeito senão a sua disponibilidade, simplicidade. Se não estamos a vivenciar sempre a experiência mística é porque estamos a substitui-la pelas nossas.

- É inefável. Após a experiência não se pode verbalizar. É uma luz muito mais intensa do que aquela que pode ser dada pelas palavras. É uma experiência não verbalizável e convida a um discurso mais poético, mais criativo.

- Uma experiência, por um lado, extremamente evidente, por outro, extremamente obscura. Junta os paradoxos lógicos. O inexplicável - “não sei o que é, mas é isso que eu quero”. O egocentrismo desaparece. Tudo está ligado. O serviço faz mais sentido.

Carlos Rodrigues

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria LXXIII

A Mosca no Prato Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Tela 35x27cm

Há uns anos atrás, completei três obras, que pretendiam contar uma história que nunca chegou a ser escrita.
Em todas elas, um dos elementos do quadro interfere com a moldura, criando um desassossego no observador, a que Dali chamou de paranóico-crítico, mas que a mim, mais prosaicamente, me fez lembrar uma quadra de António Aleixo:

Uma mosca sem valor
Poisa c'o a mesma alegria
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

DA DOENÇA E DA CURA


A doença é considerada uma desarmonia nos corpos físico, mental e emocional em relação ao seu arquétipo existente nos níveis internos. Entende-se por cura uma integração e sintonia vibratória nesse arquétipo.

Toda a tentativa de cura que apenas vise esses corpos é incompleta, paliativa e mais tarde ou mais cedo outras desarmonias surgirão. O ser humano é um microcosmo dentro dum macrocosmo. A cada órgão ou parte do corpo correspondem Leis Superiores a serem vividas. Assim quando a doença surge há que verificar qual dessas Leis não está a ser vivenciada e integrarmo-nos nela, passando a ser uno com a mesma.

A verdadeira cura é interior podendo ou não refletir-se nos corpos externos e requer uma colaboração do indivíduo não apenas com o seu eu, mas com a Totalidade.

A.A.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


VISÕES DE ANJOS

 
Ai que vontade eu tenho de te falar, de te contar-me no que de mais profundo está na parcela que conta da minha alma. Sinto que a ti serei capaz de confessar os meus segredos mais bem guardados, aqueles que são fundamentais no que verdadeiramente sou e faço. Nem calculas como é difícil viver em semi-clandestinidade, permanecer em silêncio e solitário no meio de conversas e convivências, alapando actos e ideias por não ter a quem contar. Não que isso me desespere, sequer que tal me impeça de continuar aquilo que penso ser o meu caminho, mas custa tanto ter que evitar falar de certos preenchimentos do tempo, quando eles são tão grandes e nos deixam tão pouco espaço para outras dedicações. É tão penoso ter que me desculpar permanentemente por não estar atento, ter que inventar desculpas para as horas que furto a outras manifestações tidas por mais essenciais. Dói não ter ninguém que se disponibilize para ouvir apenas, alguém capaz de escutar um simples desabafo, o que bastaria para que os olhos sem esperança de ver não tivessem que ser mascarados por uma alegria que, mais do que existindo, por si, é convencionada. E a felicidade por te encontrar é tão grande que me vejo forçado a controlar-me para não te invadir com uma torrente avassaladora das minhas ninharias. Contigo seria capaz de trocar impressões até ao ocaso do tempo. Inclusivé, sinto que poderia pensar em voz alta, diante de ti, sobre as dúvidas ou os desejos ou as pretensões relativas aos trabalhos que penso vir a fazer coisa que, mesmo por superstição, devo admiti-lo, jamais tive o hábito de o fazer com alguém.
Eu creio em Deus, acho que foi Ele que criou o Universo para que a inteligência consiga aí encontrar a Eternidade. E acredito na existência dos Anjos que são espíritos divinos que nos observam e acompanham e desde muito novo que, nas minhas fantasias, penso que eles, embora não possam comunicar connosco e muito menos nos arredar de uma qualquer rota, podem iluminar-nos, isto é, revelarem-se-nos no nosso pensamento e, por essa via, guiar-nos os passos ou, se o quiseres, homenageando o rigor, proporcionando ao iluminado que a partir daí conduza as suas atitudes e comportamentos para com os outros e a vida em geral. Não sei como é que eles fazem isso, nem sei como ou porquê escolhem esta ou aquela pessoa. Obviamente são poucos os eleitos, como o testemunha o mundo cão em que vivemos. No entanto agrada-me pensar que eles penetram apenas as almas fechadas para as sementes do mal. E tu és alguém assim, uma criatura que independentemente de tudo é incapaz de lesar outrem deliberadamente. E ainda acrescentas coisas ao mundo, a começar pelo teu sorriso e a tua paz. Tu és um desses anjos vivos que deambulam entre nós; só por existires fazes-nos sentir a esperança de algures encontrarmos a felicidade, pois foi para tanto que Deus nos legou esta passagem pelo mundo.
Tenho a certeza que tu nunca me condenarias nem me julgarias em absoluto e que sempre me procurarias encontrar um laivo de humanidade no meu egoísmo mais radical. Esquecer-me-ás, com certeza, mas estou certo que se nos reencontrássemos, nunca o farias pelo lado da minha maldade e possivelmente estender-me-ias a mão, tão só pelo facto de ser teu semelhante.
O meu drama é que nunca consegui conviver muito bem comigo e se quiser ser sincero, devo acrescentar que nos momentos em que a razão me permite distanciar-me um pouco de mim, concluo, inevitavelmente, pela impossibilidade de gostar de quem sou. Em pequeno chorava e barafustava quando diziam que eu era mau, depois de ter feito isto ou aquilo e propagava que também eu era bom, mas não era. Era um miúdo que a si próprio se colocava à frente de tudo e que se atrevia na crueldade para alcançar o que de mais importante havia para mim. Também por isso, o meu crescimento intelectual foi uma espécie de domesticação do meu temperamento de autêntica besta. Apesar do que e sem atender a ninguém que não eu, não deixei de sacrificar os melhores anos das minhas energias ao simples prazer de escrever. É que a minha tragédia é este apelo incontrolável e incontornável que sinto para escrever, de tal forma que se não o fizer entro em sofrimento. E quem me diz a mim que isso não é, tão só, o balandrau com que escamoteio o gozo que me dá a criação literária? A verdade é que eu nunca fui uma pessoa com vontade de me empenhar no que quer que fosse. Não fossem os Anjos e eu não acreditaria um milímetro na nossa espécie e muito menos na sua possibilidade de salvação. O meu cepticismo quanto às nossas possibilidades de nos libertarmos do mal seria absoluto, cegaria qualquer réstia de crença no melhoramento da existência humana. Mesmo quando assumi ideias e militâncias políticas ou quando participo em realizações colectivas, faço-o porque me apetece e diverte. Não me recordo de me ter dado sem outra razão que não o gosto de o fazer. Nem me parece que o meu egoísmo alguma vez o consentisse.
E tu és o Anjo que eu conheci, a existência que, por a ter conhecido jamais olvidarei e jamais deixarei de considerar para manter a chama de procurar ser uma pessoa melhor.
Quando alguém me contou que tu tinhas elogiado o resultado de um borrão com o propósito de secar um pincel, compreendi que só poderias ser o meu Anjo depois de saber do empenho que tiveste para mostrar esse trabalho.
Valeu pois a pena acordar para um dia ter chegado a conhecer-te.

Alhos Vedros, 9 de Maio de 1998

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

... Tudo isto é Fado



O FIM DO MUNDO EM CUECAS

VEJAM BEM a minha pachorra: entrei o ano a ver masoquisticamente na televisão esse intragável filme de Roland Emmerich, chamado de «2012». Emmerich é alemão – daí o seu jeito para as catástrofes – e a coisa foi filmada no Canadá, nos anos de 2008 e 2009, dependurada nessa tontice maianista do calendário maia, que por sinal não é maia, é olmeca, o que para os catastrofistas é indiferente. Também lhes é indiferente que o calendário não faça quaisquer referências ao fim que eles anunciam e entram sem qualquer pejo a surripiar o papel das Testemunhas de Jeová, não em nome de Deus, mas da Ciência, que nem sequer estudaram e que, consequentemente, não sabem. Aquela do Sol alinhado com o centro da galáxia pareceu-lhes um bom argumento, que só o facto de tal alinhamento se dar todos os anos pode prejudicar.
Podiam pensar assim: os tipos que elaboraram o tal calendário fizeram as contas para um período completo, para uma era e não para duas ou três. Gente assim faz-me lembrar aquela psicóloga muito alvoroçada porque um dado menino só desenhava a vermelho. Coisa grave, pensava ela. Mas não era. O menino não tinha lápis de outra cor.
Esta mania das catástrofes é capaz de ser tão antiga quanto a humanidade. Parece bastante lógico que o mundo, tendo começado terá de acabar um dia. Do começo, disse em 1650 o irlandês James Hurst – vá lá saber-se como descobriu –  que a coisa se deu às 9 da manhã do dia 7 de Setembro de 4004 a. C.. Do fim, há muita gente que se põe a anunciar. Lembram-se de como seria o fim do mundo em cuecas com o chamado bug do milénio?
Credenciadas são as Testemunhas de Jeová, que já previram várias datas para a «purificação» do mundo, que para mal da doutrina não se concretizaram, pelo que continuamos por aqui a pecar e a contribuir para a crise. Foi 1834, 1914, 1925, 1975 e a previsão que se encontra presentemente em vigor aponta para 2034, o que nos dá uma grande folga em relação aos maiaistas do 21 de Dezembro do ano em curso, data corrigida, porque aqui há tempos era a 23.
Como disse Mark Twain, «A profecia é um género muito difícil, sobretudo quando aplicado ao futuro». Menos brilhante, mas porventura mais assertivo, era aquele jogador de futebol que dizia: «prognósticos só no fim do jogo».

Abdul Cadre
abdul.cadre@gmail.com
Vendas Novas, 3 de Janeiro de 2012

(in, Jornal do Barreiro, Janeiro de 2012)

domingo, 15 de janeiro de 2012





IMITEM AS ÁRVORES DOS CAMINHOS QUE DÃO FLORES E FRUTOS MESMO SEM QUE LHES PEÇAM (José Gomes Ferreira)


 Numa altura em que tanto se fala de crise, endividamento, austeridade, … a par de algum desregramento na utilização dos dinheiros públicos por parte de alguns, é de assinalar pela positiva a solução encontrada pela Câmara Municipal da Moita para embelezar o espaço das rotundas na via que liga a Moita à nossa velhinha terra.

O embelezamento desses espaços com árvores é uma solução feliz e, cremos que, económica.









Torna-os vivos, na medida em que as árvores são seres vivos e generosos, renovados e harmoniosos, já que as árvores no seu crescimento sempre se vão naturalmente transformando, alegres e humanizados. Acresce ainda a vantagem de não retirarem visibilidade a quem circula.












Não querendo estar a meter o bedelho, até porque a solução encontrada nos merece aplauso, atrevemo-nos contudo a sugerir que a rotunda frente ao antigo forno da cal possa vir a ser igualmente contemplada com uma árvore. Na linha das já citadas, poderia agora ser um pinheiro-manso para manter o denominador na esfera das árvores típicas dos climas temperados mediterrânicos e que nos são comuns.




De qualquer forma, não queremos deixar de “parabenizar” a edilidade pela feliz iniciativa, esperando que o exemplo frutifique.

Fotos: Edgar Cantante;
Texto: João C.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O velho Fulô

Ao meus amigos um conto mineiro, verídico.
Um abraço
Maria Eduarda



Já bem velho, pra lá dos seus noventa e poucos anos, porém com uma saúde de despertar inveja ( morreu com 105 anos), o "nego" FULÔ, ainda sentia os arrebatamentos que a fogosa natureza africana lhe dava. Viúvo, vivendo com meus sogros, se apaixonou pela jovem empregada que trabalhava na casa. A idéia fixa de se casar com ela virou senil obsessão, a ponto de servir de
pilhéria para os netos. Levados da breca, resolveram pregar uma peça no velho assanhado . Telefonam da rua e mandam chamá-lo. Fazendo-se passar pela faceira morena, imitando-a, um dos rapazes faz declarações de amor e promete casamento. No dia seguinte, ao chegar para trabalhar, Helena, a empregada, se deparou com um Fulô todo animado querendo "tirar uma prosa", fazer os
preparativos para casar. O espanto da jovem e as gargalhadas da rapaziada, que tudo assistia, foram a água fria que esfriou o velho e mostrou o engodo, a esparrela de que fora vitima. A raiva dos primeiros dias, com o tempo, virou chantagem emocional. Fingindo-se abatido, doente, Fulô ameaçava se suicidar a toda e qualquer contrariedade que lhe davam.
Cansados de tanto " teatro" os endiabrados netos resolveram dar um basta àquela situação. Sem que ele visse, trocaram por açúcar o pó de veneno para ratos, e numa ocasião em que nego Fulô , pela centésima vez, pedia para morrer, um dos rapazes pegou o pó branco, despejou num copo com água e chegando no nariz dele disse:
" Tá bom, vô, se ôce quer morrer acaba logo com isso, bebe o veneno de rato", vai ser rápido. Fulô, arregalando os olhos e afastando o copo da cara disse:
-Moleque, tira esse negócio de perto de mim, só o cheiro mata!

Uberaba, 12/01/12
Maria Eduarda

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

d´Arte - Conversas na Galeria LXXII


Flor de Amendoeira Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Platex 15x15cm
(clique sobre a imagem para ver em pormenor)

No passado Sábado estive no céu! A visita à exposição, A Perspectiva das Coisas, patente no Museu Calouste Gulbenkian, foi a sensação que me deixou. Ver Cézanne, Monet, Manet, Matisse, Bonnard, Braque, Magritte, os nossos Vieira da Silva, Amadeo de Sousa Cardoso, Eduardo Viana e o génio louco Van Gogh, têm esse efeito sobre mim.
Com o trabalho tudo correu bem, o último quadro foram ramos floridos – tu verás, entre as minhas obras talvez a que fiz com mais paciência e melhor, pintada com calma e uma maior segurança das pinceladas. Estas palavras foram escritas por Van Gogh, numa carta ao seu irmão, depois de concluir um quadro, para oferecer ao seu sobrinho e afilhado, Vincent.
A obra, com o título, “Amendoeira em Flor”, óleo sobre tela, 73x92cm, está em Amesterdão, no Rijksmuseum Vincent Van Gogh. Todos os críticos, nos seus comentários, consideram este céu, o mais intenso, o mais brilhante, que o artista alguma vez pintou. Tinha a intenção de colocar aqui o quadro, mas fiquei completamente baralhado: se se derem ao trabalho, verificarão, nas centenas de reproduções que há no Google, as diferenças gritantes que existem entre cada uma delas.
Agora, já vi e já senti o verdadeiro azul do Mestre.
Neste Inverno, mais do que a queda de neve ou os gélidos ventos, imaginem as andorinhas pairando no ar, com o inconfundível aroma das amendoeiras em flor, anunciando a chegada da Primavera…

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Dois Poemas



FRONTEIRAS

Na fronteira passo minha inexistência.
Trêmulas bandeiras desencontradas
evitam a minha mão. Desfaço os nós
presos ao estribilho e torno o hino
impatriótico na universalidade.

Espaço o caminho das ultrapassagens.
Ao lado é estar aqui na consequência.


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PARÊNTESES

ser a vida entre parênteses
na explicação dos teores ocultos
no desplante: mentir explicações
de contados elementos na imagem
modulada no limite do esgarçamento:
conta apresentada em favores;
desligar o som e explicar o silêncio
do quarto entreaberto em atos.
O sentido do rosto contra o espelho
melancólico das imagens. Texto
tosco das palavras sem sentido.

(Pedro Du Bois, inéditos)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

INTIMIDADES


A SETA DO TEMPO

 
O tempo é a modos que uma marcha imparável que se materializa nas diversas mutabilidades da matéria múltipla nos muitos universos que, em conjunto vistos, perfazem a totalidade cósmica. Ele cresce em nós de um nada percepcionado, até à verificação, por vezes dolorosa, da sua omnipresença e, se estudarmos mais fundo, concluímos que apenas o anulamos em modelos ideais que, na realidade, a nada correspondem. O tempo tem uma seta, a da irreversibilidade, o que faz com que nos encontremos permanentemente no futuro, ainda que, de início, o não saibamos. Bem visto, o presente ou, se quisermos, os presentes são sempre uma convenção, têm a duração com que delimitamos uma qualquer acção de um qualquer elemento, pois o que acontece é uma infinita formação de porvires que, inevitavelmente, deixam rastos de passados. Não que seja obrigatório um movimento com determinado destino ou que as consequências necessariamente identifiquem uma espécie de pirâmide de complexidade. No que a nós, humanos, diz respeito, estou até convencido que vivemos num mundo de imponderabilidade onde as leis, se é que as possamos isolar, e, por inerência, as previsões, apenas conseguem uma aproximação de probabilidades. Seja lá como for, a verdade é que a seta do tempo está lá, indelével, sobre a ombreira do seu próprio portão.
É curioso como no princípio temos a impressão que tudo permanecerá como aos nossos olhos se apresenta. Eu escrevi curioso mas queria escrever engraçado, é esta a palavra mais acertada. E é engraçado porque mais tarde, mesmo sem que sejamos dados a grandes reflexões e erudições, basta que atentemos para acabarmos por concluir que a vida se vai fazendo numa colagem, mais ou menos ordenada, de permanências que em alguns casos desejaríamos perpétuas. Trata-se da seta do tempo, a nossa seta do tempo que, pela lufa-lufa, nos permite a experiência de um plural de vidas. E, agora sim, é curioso como certas pessoas interpretam o vai vem dos nossos quotidianos. A curiosidade reside no facto de curtas presenças se prolongarem tanto na memória. É assim, algumas almas, até por pormenores irrelevantes e sem explicação, depois de um laivo de cruzamento, permanecem, tenho para mim que devido à esquina que virámos e, provavelmente, em outras circunstâncias não viraríamos.
O Ricardo Jorge, o Tuberculoso, é um desses indivíduos. Estivemos próximos enquanto durou a comunhão de uma crença política, o que não chegou à conta de uma revolução e aconteceu era a adolescência meã.
Tinha sido miúdo criado num dos bairros de expansão da vila, onde as casas térreas e caiadas a cores de outras dignidades testemunhavam a fixação de povo oriundo de paragens alheias onde o pão era mais incerto. Os seus pais há muito que tinham imigrado do interior da peneplanície além do Tejo para, em conjunto, tentarem assegurar uma velhice livre de faltas a mais. A mãe procurava transmitir-lhe aquele espírito engenhoso que, dos malabarismos, tirava a multiplicação dos alimentos, sapiente que era de uma ciência de reciclagem muito antes dessa necessidade se ter estendido a tantos e tão diversificados aspectos do nosso mundo. E com isso contribuiu para que o salário de um empregado do comércio da grande cidade pudesse manter uma casa com dois rapazes de barriguinha satisfeita e roupa lavada. E ambos lhe exigiam que fosse respeitador, vestiam-se com o que de melhor tinham para os bailes festivos da colectividade do bairro e levavam-no em todas as ocasiões, mesmo às assembleias de sócios e, com as conversas de tacho, incutiam-lhe o interesse pelo que o rodeava. De resto, o catraio fez-se no areal que daquelas construções fazia ilhas, nas estações mais quentes, de um ondulado de cerealíferas selvagens. Disputava-se e media-se com os outros miúdos do lado de lá da via férrea, fronteira onde terminava a autonomia do centro da vila. Com eles jogou à bola e fez explorações velocipédicas, com eles se atreveu e arrependeu e lá chegou ao moço que eu vim a conhecer. Mas aquilo que o individualizava era a propensão para interrogar os mistérios do que nos era dado saber. Talvez daí aquele seu aparentar do avesso e aquelas suas hipóteses de curar constipações pelos choques de um isqueiro electrónico. Acontece que ele tinha carácter, não tirava partido do corpo gigantesco e evitava implicar com os outros ou, mais que isso, fazer-lhes mal. Quando as suas associações e non sense se expressavam em voz alta faziam-nos rir. E apesar do seu estar permanentemente a trepidar as realizações alheias, era uma companhia que mais valia ter do que não ter. E até que a Universidade e o casamento o levaram dali, o rapaz chegou a ser lendário, dele se contando genialidades como a lembrança de levar os borrachinhos recém-nascidos para o quarto, a fim de passarem a noite no aquecimento de uma estufa. Hoje acompanha a vida escolar das filhas que já transportou, brincalhão, sobre os ombros e ainda anda de mão dada com a mulher na rua, com quem já partilhou a troca de casas e de carros.
Estive aí um quinquénio sem o ver e, certo dia, à época do meu primeiro ano universitário, vim a reencontrá-lo na cantina do Instituto Superior de Agronomia, onde ele estudava e a partir de onde encontrou a profissão. Depois dos salamaleques esperados e das apresentações das respectivas namoradas, disparou uma pergunta que reatava uma conversa que interpretáramos em certo Inverno distante por uma boa meia dúzia de anos.
Afinal já era capaz de sustentar porque era muito mais importante acabar com a pobreza do que protegê-la que, bem ponderada a questão, era afinal ao que se limitavam os propósitos de muitos revolucionários bem pensantes que diziam ser a vanguarda do povo. E no que pessoalmente dizia respeito, em princípio, estava certo que a sua quota-parte seria cumprida.
“-Mas se alguma vez deixarmos de olhar para o nosso semelhante, se, mesmo podendo, não estendermos uma mão a outra ou se não evitarmos pisar quem está ao nosso lado, aí tornar-nos-emos em cruéis egoístas e a partir daí seremos capazes de todas as demências.” –Concluíu com a expressão de menino com que sempre dissera todos os disparates.

Amieira, 8 de Maio de 1998

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O Largo da Graça



Dalai Lama e Tibete

No livro " O Ensinamento do Dalai Lama", escrito por Ele mesmo, diz-se que o Budismo é uma doutrina que visa a eliminação do sofrimento - de si próprio e de todos os seres. Como se poderá lá chegar? Através da meditação, da contemplação, da reflexão, respeitando todo um conjunto de princípios e de práticas.

Talvez se possa dizer que a principal orientação dada nesses ensinamentos é de que se deve amar mais os outros do que a si próprio. Servir os outros constitui-se no Budismo como a principal regra de vida.

Logo aqui, a clara relação que se pode estabelecer com uma dos mandamentos da mensagem cristã, "Ama o próximo como a ti mesmo", permite perceber que a mensagem budista tem infinitos pontos de contacto com a mensagem de Cristo.

Quanto à causa do povo tibetano, devo confessar que não conheço muito bem a sua história, mas reconheço-lhe alguns pontos semelhantes aos da causa que guiou o povo Maubere à independência. Quer dizer, o direito de um povo poder decidir sobre o seu destino, num território que lhe foi usurpado pela força, parece-me uma causa de direito inalienável.

Deveria ser pacífico, não?

(…)

Por ouvir falar em Teocracia, tenho para mim que Deus é Liberdade. Naturalmente, uma liberdade com regras, dada a necessidade de vivermos num Estado de Direito, onde a igualdade de todos perante a lei é (ou deveria ser) princípio basilar. Uma liberdade onde o processo de iniciação dos noviços seja feito de forma adequada para não deixar que ninguém se perca.

Desde a Revolução Francesa que temos vindo a aperfeiçoar um sistema político de democracia liberal, economia de mercado, capitalista, com maior ou menor intervenção por parte do Estado, sistema que saiu triunfante da “guerra fria", dada a súbita queda dos socialismos a leste, mas não de todos.

Os Socialismos hão-de voltar e veremos, lá mais para a frente, no que vai dar a aventura Chinesa deste Socialismo de Mercado. Esperemos que nos possa trazer um aperfeiçoamento que os liberalismos tardam em conseguir, embora estejamos de pé atrás… Dizemos os liberalismos porque eles não são todos iguais se comparamos, por exemplo, o norte com o sul da Europa.

De facto, esta nossa democracia liberal tem tantas limitações que se torna exasperante. Faltam-lhe mecanismos que lhe garantam um melhor funcionamento e que lhe reduzam os incríveis demagogismos, os clientelismos partidários, o situacionismo de "partidos" (quer dizer, de não serem inteiros, íntegros…), onde não seja necessário os políticos falarem aos gritos, numa indelicada poluição sonora, quais enganosos vendedores de banha da cobra.

Sente-se a falta de Algo, ou de Alguém, que esteja acima do Presidente (ou que o substitua!...), do Governo, dos Tribunais, mais lúcido, mais clarividente, que os possa orientar na sua limitada capacidade de gestão do tecido social. Esta inépcia política torna-se ainda muito mais gritante na administração autárquica.

Talvez no lugar de um Conselho de Estado devêssemos ter um Conselho de Sábios, com o maior respeito por aqueles senhores conselheiros, que muito úteis podiam ser nos desvarios mentais dos nossos líderes políticos. Talvez assim a Justiça legitimasse o Estado de Direito, a Educação formasse pessoas de eficaz participação social, os doentes tratassem da Saúde e o sustento desse muito mais para todos com muito menos trabalho.

Mas já agora, o que é um Sábio?

E não será que, com estas ideias, nos estamos a afastar de um sistema político de democracia liberal por troca com um sistema teocrático? De democracia plural mas radical? Ou será que é mais de tipo oligárquico, género socialismo de mercado? Decerto, anarquista e pacifista. Ecologista e que respeite mais os direitos dos animais. E não será possível juntá-los a todos?

É claro que necessariamente as Agendas Políticas se adequariam definitivamente aos Direitos Humanos.

Luís Santos