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sexta-feira, 19 de abril de 2024

“Graffitar a Literatura” (VIII)

 Luís Souta
(Texto e foto)

AMADA MORRISON 

«este é o tempo das mulheres na literatura»
(Fernanda Melchor, Ípsilon, 15/03/2024, p. 25) 

Cascais, Outeiro da Vela, Av. Engº António de Azevedo Coutinho] 

«Eu sou Amada e ela é minha. Sethe é aquela que apanhou as flores, flores amarelas, antes de ficarmos agachados. Colheu-as das plantas verdes. Elas estão na colcha onde dormimos. Ela ia sorrir para mim quando os homens sem pele vieram e nos levaram com os mortos para o sol e empurraram-nos para o mar. (…) Sethe é o rosto que encontrei e perdi na água debaixo da ponte. Quando entrei, vi o seu rosto vindo para mim, e era o meu rosto também. Quis juntar-me a ela. Tentei, mas ela subiu em pedaços de luz para o alto da água. Perdi-a de novo, mas encontrei a casa em que ela sussurrava para mim. E lá estava ela, sorrindo, finalmente. É bom, mas não posso perdê-la de novo. Tudo o que quero saber é porque é que ela entrou na água naquele lugar onde ficámos agachados. Porque é que fez isso mesmo na hora em que ia sorrir para mim? Quis juntar-me a ela no mar, mas não podia mexer-me; quis ajudá-la quando apanhava flores, mas as nuvens de pólvora cegaram-me e eu perdi-a. Três vezes e perdi-a (…) Agora encontrei-a nesta casa. Ela sorri para mim e é o meu próprio rosto sorrindo. Não a perderei de novo. Ela é minha.» (pp. 274-5)

Amada (Beloved) é o primeiro romance de uma trilogia que inclui Jazz (1992) e Paraíso (1997). O livro de Toni Morrison recebeu o Prémio Pulitzer (1988) tendo sido mais tarde adaptado, ao cinema, por Jonathan Demme (USA, 1998), com interpretações de Oprah Winfrey (Sethe), Danny Glover (Paul D.), Thandiwe Newton (Beloved)… Toni Morrison baseou-se na história real da ex-escrava Margaret Garner e da relação com filha que nasce durante a sua fuga de uma plantação do Kentucky.

A ilustração da capa, de uma das edições portuguesas, de Amada (Difusão Cultural, 1989) é da brasileira Glair Alonso Arruda. Vislumbro nela similitudes visuais com esta mulher do trabalho plástico de oats.ink na sua intervenção de street art em Cascais[1], que veio dar outro colorido e animação estética a duas paredes contíguas de um incaracterístico e anódino equipamento urbano da EDP. Uma mulher jovem, negra, de cabelo preto, curto, sobrancelhas grossas, lábios espessos, olhos cerrados. A outra (a da capa do livro) de olhos abertos. Podia ser a mesma pessoa, em dois momentos sequenciais. Mas em ambas, não se vislumbra qualquer alegria nos seus estados de alma. Mulheres sofridas? Muito provavelmente… A mulher que oats.ink desenhou e pintou podia muito bem ilustrar a capa de Amada. 

Ilustração da capa de Amada, Difusão Cultural, 1989]

A autora, a norte-americana Toni Morrison (de seu nome Chloe Anthony Wofford, 1931-2019), natural de Lorain estado de Ohio, e formada em Estudos Ingleses pelas Universidades de Howard, Washington e Cornell, NY (1949-1955). Foi editora (Random House[2]) e professora universitária em diversas universidades, acabando na Princeton (1989-2006); desde 1981 membro da Academia Americana das Artes. Foi a primeira escritora negra a receber o Prémio Nobel da Literatura (1993); a Academia sueca sublinhou então a sua «força visionária e relevância poética». A defesa intransigente da liberdade, da dignidade humana e da igualdade, num persistente combate ao racismo, colocaram-na como uma voz de referência na sociedade americana, muito em especial, entre a comunidade negra, emparceirando com James Baldwin (1924-1987), essa figura central do Movimento dos Direitos Civis que, com clarividência, assegurava: «A glorificação de uma raça em detrimento de outra – ou outras – tem sido e será sempre uma receita para o morticínio.»

A sua obra, muito baseada na experiência das mulheres afro-americanas, contribui de forma poderosa para a construção positiva dessa identidade negra. O então presidente Barack Obama condecorou-a, em 2012, com a Presidential Medal of Freedom (a mais alta condecoração civil dos EUA concedida pelo Presidente), considerando-a «um tesouro nacional».

Morrison publicou onze romances, entre os quais, O Olho mais Azul (1970), Sula (1973), Song of Solomon (1977), A Dádiva (2008), Voltar para Casa (2012), Deus Ajude a Criança (2015), seis livros de literatura infantil (com seu filho Slade Morrison), teatro e até o libreto de uma ópera – Margaret Garner (2015). Publicou diversos ensaios, num deles – A Origem dos Outros: seis ensaios sobre racismo e literatura (Companhia das Letras, 2019), as Palestras Norton da Universidade de Harvard, 2016 – desenvolve o conceito de «literature of belonging».

 «Eu não olho para a política ou para a ciência. Eu olho para a literatura em busca de orientação, e isso é o que vou fazer.» (Ípsilon, 18/03/2016, p. 16)

Amada é a magnum opus de Toni Morrison, romance que exige um leitor atento, activo, disponível para entender o encantamento desse imbricar da realidade com a magia.

«Na quinta, Lady Jones surpreendeu-a a espionar.

– Entra pela porta da frente, querida Denver. Aqui não é um parque de diversões.

Assim, Denver passara quase um ano inteiro na companhia dos seus pares e juntamente com eles aprendera a ler e a contar. Estava com sete anos e aquelas duas horas ao fim da tarde eram preciosas para ela. Mais ainda porque fora até lá sozinha e vira o prazer e a surpresa no rosto da mãe e dos irmãos ao contar-lhes a proeza. Por um níquel por mês, Lady Jones fazia aquilo que os brancos achavam desnecessário, senão ilegal: enchia a pequena sala de visitas com crianças negras que tinham tempo e interesse em aprender a ler. O níquel, que Denver levava atado num lenço e preso ao cinto para entregá-lo à professora, fazia-a sentir-se importante. Empolgava-se com o esforço em manusear correctamente o giz e evitar o guincho que ele poderia fazer na lousa. Adorava o W maiúsculo, o i pequenino, a beleza das letras no seu próprio nome, as frases da Bíblia cheias de lamento que Lady Jones usava como cartilha.» (pp. 132-3) 

Notas

1. Uma iniciativa da Wallmob, associação que procura «dinamizar a Arte Urbana do Concelho de Cascais.

2. Desafiou Angela Davis a escrever Uma Autobiografia (Antígona, 2023), quando esta tinha apenas 28 anos; editou-o em 1974 e sobre ela escreveu: «Angela é a mulher mais feroz que alguma vez conheci e eu venho de uma longa linhagem de mulheres ferozes.»

Em breve será publicado o livro A TRÍADE DISJUNTIVA: Literatura, Antropologia e Educação que reúne, na sua II parte, os 30 textos desta rubrica que aqui fui editando desde 07/09/2014.

domingo, 4 de dezembro de 2022

Graffitar a Literatura (VII)

 Faróis”

«Não consigo pensar em nenhum outro edifício construído pelo homem tão altruísta quanto um farol. Eles foram construídos apenas para servir.»

(Bernard Shaw)

 
Cascais, Travessa dos Navegantes 

Sempre me atraíram os faróis. Procuro-os para os observar, fotografar e visitar. Deslumbro-me naquele interior espaçoso… em altura; fico extasiado perante aquelas lentes descomunais. Mas sobretudo, admiro (o que nunca vejo) os faroleiros e a sua solidão profissional. Em dias de raios e coriscos e névoa densa, a luz e o som dos faróis (preventivos de catástrofes) orientam as embarcações e levam-nas a bom porto. Na nossa costa temos 50. Locais de encantamento e magia.

Em mim, esse interesse acentuou-se ainda mais com a leitura do romance Mentira do catalão Enrique de Hériz (2005). Uma das personagens, Serena, desenvolve uma pesquisa sistemática, nos faróis da Costa Brava de Espanha, para encontrar um eventual registo do temporal de 22/01/1922 que provocou o naufrágio do barco de pesca que havia zarpado de Malespina (Barcelona), com o seu avô Simón em fuga de um pai tirano (três dias depois seria resgatado pelo cargueiro Astor). Serena aos 37 anos «ainda anda por aí à procura de tempestades, a sonhar com um ciclone que a transporte no tempo, sempre para trás, e lhe permita salvar o avô e resgatar também o pai e salvar-se a si própria de não sei o quê» (p. 93, lê-se no diário da sua mãe antropóloga que a família julgava morta na Guatemala).

«Desde finais do século XIX até 1968, todos os faróis de Espanha conservavam um registo chamado “Livro de Registos de Estados das Tempestades”. Hoje, os correspondentes a todos os faróis da Costa Brava estão guardados no Arquivo Histórico de Girona. Cada ano, um livro de registo. Adoro aquele nome: estado das tempestades. Como se uma tempestade não fosse uma coisa que acontece de repente, uma coisa que vem e vai, mas sim uma presença acaçapada e permanente, uma fera cujo humor se vigia. Foi esse o tema da minha tese e tive a sorte de tocar com as minhas próprias mãos aqueles documentos: cadernos oblongos de capas vermelhas e papeis toscos, inchados pela humidade» (p. 86)

Nessa demanda documental, quase obsessiva, Serena perdia-se maravilhada nos manuscritos «daqueles faroleiros, que eram meteorologistas sem o saberem» onde, para além dos dados meteorológicos (hora do início e fim da tempestade, humidade, temperatura, direcção do vento e quantidade de água recolhida por metro cúbico), anotavam, no verso da mesma página,

«as suas impressões pessoais e, com o estilo altissonante próprio dos tempos, demorava-se em apreciações quase poéticas sobre trovões e relâmpagos, espessura das nuvens e violência do mar. Antes de assinar, despedia-se sempre com o mesmo comentário final: “Não há conhecimento de que tenha ocorrido qualquer novidade nas proximidades deste estabelecimento.» (p. 86)

Foi também esta faceta “literária” da actividade dos faroleiros, expressa num instrumento que partilham com os antropólogos – o “diário” – que me entusiasmou de forma acrescida. À sua maneira, também eles etnografavam… o céu e o mar.

Uma amiga, sabendo desse meu gosto e fascínio pelos faróis, ofereceu-me um quadro pintado por si com este mesmo, o de Santa Marta, igualmente em tons de azul. Tenho-o numa das paredes do meu quarto. Acordo, todas as manhãs, a olhar aquela peculiar torre quadrangular de 20 metros, revestida a azulejo, com faixas horizontais azuis e brancas. E a lanterna vermelha a indicar-me o rumo: levanta-te e faz-te à vida… que já são horas! 

Post scriptum:

Este mural de Exas (Muraliza, Cascais, 2014), estende-se por um muro convexo na Travessa dos Navegantes, entre o nº 2 e o 5, e nele se vê uma pequena placa metálica azul em que se pode ler: “É proibido afixar anúncios nesta propriedade”.

Já quando era miúdo não entendia bem o sentido desta placa afixada nas paredes exteriores de alguns edifícios, da minha vila suburbana. Por esses tempos (os da ditadura) não havia, praticamente, publicidade de rua (só me lembro do Licor Beirão), nem disputas eleitorais (o sistema era de partido único), nem graffitis (ainda eram desconhecidos, entre nós, como manifestações de contracultura).

Com a democracia, a parafernália de cartazes partidários tornou obsoleto o conteúdo de tais placas proibitivas, e lançou o caos naquelas paredes caiadas por um senhorio diligente e ávido do que é seu. Era o tirocínio da cidadania através de ínvios caminhos.

Nos dias de hoje, este aviso – resquício desse tempo em que tudo se proibia (até o viver em liberdade) – é digno de loja de antiguidades. Por isso o graffiter não o teve em conta e fez o que o seu impulso artístico e dever cívico lhe impunham – extravasar o que lhe ia na alma e dar vida e colorido ao velho e corroído muro daquela movimentada rua.

Agora, anos volvidos, a vegetação espontânea apossou-se da parede e quase esconde o belo mural. Os meus olhos desviavam-se, entristecidos pela incúria…


Texto e Imagens

Luís Souta

domingo, 2 de outubro de 2022

"Graffitar a Literatura" (XXX)

Luís Souta

«A medida do amor é amar sem medida.»

(Victor Hugo)


Tomás Pires (ÔJE), nascido em Lisboa, em 1987, e licenciado em Design de Ambientes (ESAD.CR, 2010), deu vida aos monos urbanos (caixas dedistribuição de electricidade e telecomunicações) espalhados ao longo da estrada principal que atravessa a vila da Ericeira. Essas infraestruturas incrustadas nos passeios (!) são, para lá, de um empecilho para quem aí circula, uma mácula visual. Nesse labor de recuperação artística (até com um certo didactismoecológico), ÔJE recorreu a elementos marinhos – peixes, golfinhos, polvos…

Ericeira, junto ao miradouro, no início da via pedonal que vai até à Foz do Lizandro
 
Este, fez-me lembrar Os Homens do Mar (Les Travailleurs de la Mer) deVictor Hugo (1866): «uma história de amor verdadeiro, a história de um abnegado herói, de umhomem só (como o autor), insulado do Mundo que, por amor, tudo e todos enfrenta, homens, medos e monstros, na tentativa de resgatar das profundezas escuras de um mar de escolhos a máquina (símbolo do progresso e de um mundo novo), ao mesmo tempo que faz prova do seu amor, não correspondido, a que tudo sacrifica…» (sinopse de Luís Gomes, Público, 05/05/2016, p. 47)

Esta obra de Victor Hugo teve várias edições no nosso país; recorro aqui à 3ª edição da Guimarães & Cª Editores, s/d; uma publicação fac-símile que reunindo os 2 volumes, saiu, em 2016, na colecção “Quem Vê Capas, Vê Corações” do jornal Público.Victor Hugo (1802-1885), figura proeminente do romantismo, membro da Academia Francesa (1841), autor de uma prolífica produção literária (enquanto poeta, dramaturgo, romancista e ensaísta) e na qual se destacam os clássicos O Corcunda de Notre-Dame (1831) e Os Miseráveis (1862). Victor Hugo foi umescritor fortemente  empenhado na vida sociopolítica do seu tempo, um liberal reformista, batendo-se contra a pena de morte, pela defesa da República… pagou num longo exílio (1851-1870), a sua oposição a Napoleão III, a quem apelidou de Napoleão, o Pequeno. Os Homens do Mar abre com estas palavras:

«Dedico este livro ao rochedo de hospitalidade e liberdade, a esse canto da velha terra normanda, onde vive um punhado de valorosos filhos do mar, à ilha de Guernesey, sempre severa e meiga, meu actual asilo, meu túmulo provável.»

Tal não se veio a verificar; regressaria a Paris onde seria ainda deputado daAssembleia Nacional ( 1870) e senador (1876)… e ali morreu (de uma congestão cerebral) com 83 anos. «Chegam montanhas de flores de todos os cantos da França – e o povo, emocionado, acompanha o poeta à sua última morada, o Panteão.» (José Ramón Araña in Os Forjadores do Mundo Moderno, 1968:108).
Alma grande e generosa: «dou cinquenta mil francos aos pobres» (lê-se no seu testamento).
No romance Os Homens do Mar, dividido em três partes, destaco os episódios épicos em que o principal protagonista – Gilliatt – se debate, em plenomar, com “O monstro”, assim designado, pelo  autor, no Livro IV da Segunda Parte:

«A pieuvre não tem massa muscular, nem grito ameaçador, nem couraça, nem chifre, nem dardo, nem pinças, nem cauda que prende ou contundente, nem azas com garras, nem espinhos, nem espada, nem descarga electrica, nem virus, nem veneno, nem garras, nem bico, nem dentes. A pieuvre é de todos os animaes o que está melhor armado.
O que é então a pieuvre? É a ventosa.
Nos cachopos do mar largo, nos sitios onde a agua ostenta e occulta todos os seus explendores, nas cavidades dos rochedos não visitados, nas covas desconhecidas, onde abundam as vegetações, os crustaceos e os mariscos, sobre os profundos porticos do Oceano, o nadador que ahi se aventure, enlevado pela belleza do sitio, corre o risco de se encontrar com ella. (II vol., pp. 102-3)

Cascais, Antiga Rua Direita, frente à Praia da Conceição

Este é um pormenor de um mural concebido em 2021 por Jacqueline De Montaigne, anglo-portuguesa, formada em ciências da saúde e a residir em Cascais; uma muralista tardia cujo primeiro trabalho surge só aos 36 anos de idade.
A capa de Os Homens do Mar, da autoria de Roberto Nobre (1935), define- a José-Augusto França como «uma pintura futuro-expressionista, à moda alemã, que o cinema (de que foi o maior crítico da sua geração em Portugal) lhe trazia» (citado em Rita Gomes Ferrão, Público, 05/05/2016, p. 47). Nesse artigo, a historiadora de arte remete «a cena representada, descritiva de um episódio da narrativa (…) a luta entre a figura humana e o polvo gigante» para um gramática Art Déco e as influências do cinema expressionista alemão dos anos 20.

«O monstro era o habitante d’aquella gruta. Era o genio medonho d’aquelle logar. Especie de sombrio demonio da agua. (…) Gilliatt mettera o braço pela fenda: a pieuvre agarrara-o.
Tinha-o seguro.
Gilliatt era a mosca d’aquella aranha. (…) Dos oito braços da pieuvre trez aderiam ao rochedo, e cinco a Gilliatt. D’este modo segura por um lado ao granito, e pelo outro ao homem prendia Gilliatt ao rochedo. Gilliatt tinha sobre si duzentos e cincoenta sugadores. Complicação d’angustia e de desgosto. Ser apertado por uma enorme mão, cujos dedos são elasticos, e quasi de um metro de comprimento, e interiormente cheios de pustulas vivas que penetram pela carne.
Já dissemos que não é possivel desprendermo-nos da pieuvre. Se o tentarmos, mais ligados nos sentimos ainda. Cada vez nos aperta mais. O seu esforço cresce na razão do nosso. Mais abalos produzem mais constrição.
Gilliatt tinha apenas um recurso, a navalha.» (II vol., pp. 108-9)

Gilliatt abate o monstro mas não ganha o amor de Déruchette, essa mulher que «usava todo o anno chapéus guarnecidos de flores; tinha a fronte altiva, o collo flexivel e tentador, os cabellos castanhos, a pelle alvissima, com algumas manchas de sardas no verão, a bocca espaçosa e sadia, e, sobre essa
bocca adoravel e perigosa, o explendor do sorriso.» (I vol., p. 43)

Déruchette que, num certo dia, ao escrever no gelo, ao lado da marca dos seus pequenos pés, a palavra “Gilliatt” viria a deflagrar, sem o querer, uma chama no coração do solitário (que vivia numa «especie de lazareto», a casa do fim da rua) e pouco estimado Gilliatt («os indígenas detestam os estrangeiros
enigmaticos», p. 15). Um amor nascido de um equívoco pelo qual lutou com a bravura de um autêntico herói. Venceu no mar, perdeu em terra.


domingo, 24 de julho de 2022

Graffitar a Literatura (XXIX)

"O Beijo"

~

Foto: Eva Costa

 Lisboa, Rua do Conde de Redondo


«...um romancezinho, desses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo...»

(Eça de Queiroz)


«Contei-lhe que há muito a desejava e recordei-lhe as minhas breves tentativas de aproximação. Ela não teve dificuldade em compreender que se visitava Sonis tantas vezes era unicamente por ela. Não demorei a arrancar-lhe uma meia promessa de que um dia se encontraria comigo em Paris e que lhe poderia escrever com uma letra feminina, dado que nem o Papá nem a Mamã lhe vigiavam a correspondência se os sobrescritos parecessem enviados por uma mulher que podia ser uma cliente. Pedi-lhe o beijo prometido e expliquei-lhe que não desejava a estúpida e fraterna pressão dos lábios.

– Quero um verdadeiro beijo à francesa – disse-lhe.

Riu. Percebi que me compreendera. (pp. 18-9)

(…)

Na carruagem do comboio voltei apertar a minha Lilian nos braços e verifiquei encantado que ela me beijava naturalmente, inserindo-me a língua eternamente na boca. Os lábios dela davam a sensação se colarem aos meus e tenho a certeza de que o meu beijo suave e o toque da minha língua sobre a garganta, orelhas e olhos lhe devem ter dado o prazer que uma rapariguinha sente.

“Os teus beijos endoidecem-me!” ou “A tua boca enlouquece-me!” Eram duas das suas frases favoritas, quando se afastava do meu abraço tremendo de prazer para voltar a beijar-me uma e outra vez logo a seguir.

Era indubitável que não sentia repugnância física por mim porque acontece frequentemente uma mulher pensar que deseja um homem e quando este finalmente a abraça, haver qualquer coisa, um cheiro, a pele, a forma de abraçar, a respiração, a mais pequena insignificância capaz de destruir bruscamente todas as ilusões que albergava. Lilian gostava visivelmente que a abraçasse e os meus lábios agradavam-lhe tanto como os dela a mim.» (pp. 23-4)

Estes dois extractos foram retirados do livro Memórias Eróticas de um Burguês (Suburban Souls, na 1ª edição inglesa, de 1901), de autor anónimo (Lisboa: Edição Livros do Brasil, s/d, 458 p.), escrito entre Julho de 1899 e Janeiro de 1900. A obra assenta numa estrutura predominantemente epistolar (a correspondência define os limites temporais da história: entre 20 de Outubro de 1897 e 31 de Dezembro de 1899). Tempos de fim de século em que se começava a vulgarizar a máquina de escrever:

«Na minha encomenda (…) enviei um curioso recorte do Figaro e uma passagem do último romance de Zola que acabara de sair copiados à máquina, pois para mudar o curso aos meus tristes pensamentos comprara uma máquina e andava a praticar.» (p. 419)

«Vejo que está a recorrer à máquina de escrever. Tenho a certeza de que fará como eu e de que, depois de adquirir prática e embora por vezes bata mal uma tecla, achará tão fácil que não mais o conseguirão convencer a utilizar a caneta.» (p. 421)

«Só comecei a escrever à máquina no dia 26 depois de duas lições com uma jovem de dedos elegantes. Tinha um trabalho em que necessitava de o fazer. Resolvi tentar e aluguei uma “Nompareil” por um mês. Julguei que poupava algum dinheiro, mas estou a gastar uma fortuna em borrachas.» (p. 422) 

O narrador diz que «esta narrativa é verdadeira» (p. 436) e dedica «este romance de sórdida sensualidade» à sua heroína, «uma das mulheres mais depravadas do mundo». Nele desenvolve as suas teorias «de amor e afecto verdadeiro» (p. 434), analisando, principalmente, a complexa teia de relações entre Jacky e Lilian mas também o clima (algo incestuoso) da família desta (Eric Arvel, o Papá-padrasto, Adèle, a Mamã, e Raoul, o irmão), através de uma «escrita psicológica em que o autor tenta penetrar no mais íntimo das almas dos seus personagens sensuais e revelar os motivos, desejos, ciúmes, etc., que os impelem» (p. 431).

O quadro quotidiano de costumes é profícuo, ainda que pouco se diga sobre o contexto político-ideológico da época, apenas algumas referências ao processo Dreyfus e respectivo posicionamento de alguns dos protagonistas do romance. Mas, em contrapartida, são múltiplas as alusões à imprensa (com alguns excertos nos “Apêndices”, pp. 437-457) e ao campo literário: Émile Zola, Conan Doyle, Memórias de Casanova e esse mimo intitulado A Etnologia do Sexto Sentido, do qual são transcritas algumas passagens (sobre o hímen, a vulva e o buço) cuja ‘cientificidade’, hoje, nos fazem sorrir.

Aquilo que sexualmente chocou a moral vitoriana da altura e que acarretou o longo “esquecimento” da obra e o total olvido do seu autor, nos dias de hoje (quase) tudo nos parece banal (podendo-se ver cenas semelhantes num qualquer filme ou série televisiva a circular na nossa aldeia global). A grande diferença está no lugar da mulher na sociedade: como ela se vê e os outros a percepcionam. E não são apenas os olhos do “macho-burguês” Jacky (que não reconhece capacidades intelectuais igualitárias na sua amante: «As mulheres são astutas e espertas – não inteligentes, porque a malícia e astúcia não implicam inteligência» (p. 414), Lilian, por exemplo, remata algumas das cartas, dirigida ao seu amado, neste teor: «A sua inteiramente submissa escrava (p. 68), A sua escrava adora-o e anseia por o ver (p. 101). Por isso, creio que este man oriented book não deve ser muito atractivo para o hodierno mundo feminino. 

Este mural de MRDHEO (Porto, 1985) preenche toda a fachada lateral da residência de estudantes universitários na Rua do Conde de Redondo (no cruzamento com a Rua Luciano Cordeiro), em Lisboa.

«Nome de rua quieta

onde à noite ninguém passa.

Onde o ciúme é uma seta,

onde o amor é uma taça.

Nome de rua secreta

onde à noite ninguém passa.

Onde a sombra de um poeta

de repente nos abraça.» (p. 214)

 Fragmento de “Nome de Rua” (in Obra Poética, vol. I) de David Mourão-Ferreira (1927-1996), o nosso grande poeta do amor e da cidade de Lisboa. Um gentleman de cachimbo (num tempo em que tal era possível de enxergar nos ecrãs da televisão) muito empenhado na divulgação literária.

Será que o graffiter estaria a pensar noutro fumador inveterado – Humphrey Bogart –, aqui com Ingrid Bergman, no icónico filme Casablanca (1945)? Suposições de quem vê… já que a arte de rua prescinde título, legenda ou sinopse. 


Luís Souta

domingo, 26 de junho de 2022

Graffitar a Literatura (VI)

 

«Não queiras ganhar o mundo e perder a alma.»

(provérbio de Omã)

 

Rua Frederico Arouca (Antiga Rua Direita), Cascais

«Our soul is a spray can» (hip hop graffiter dixit).

Ao escritor a caneta, ao desenhador o lápis, ao pintor o pincel, ao escultor o martelo e o cinzel, ao fotógrafo a máquina fotográfica, ao cineasta a câmara, ao graffiter a «spray can».

Cada um destes artistas, escreve, desenha, pinta, esculpe, fotografa, filma, ‘muraliza’ o que lhe vai na “alma”. Então a “soul” são os instrumentos – a caneta, o lápis, o pincel, o martelo, o cinzel, a máquina fotográfica, a câmara de filmar, a «spray can» – ou os produtos que deles emanam  – o romance, o desenho, o quadro, a escultura, o retrato, o filme, o graffiti e o mural?

O graffiter (não confundir com os que se “expressam” pelo bombing) é um artista plástico que desenha e pinta na rua (paredes de casas, muros, pontes, viadutos e outros «não-lugares»). Ao darem-nos as suas obras, deliciam-nos a custo zero. Ao tornarem a arte (a sua “soul”) pública, prestam também um valioso contributo na recuperação dos espaços urbanos degradados. E só por isso, as câmaras municipais deviam considerá-los “artistas residentes” e aboná-los em conformidade.

Pai do Vento sul, Alcabideche

“Alma russa”, lugar-comum ocidental construído no século XX, muito à custa de uma plêiade ímpar como Dostoievsky, Tolstoi, Gogol, Pushkin, Tchekhov…, é o título do romance escrito, em 1911, pelo consagrado Joseph Conrad (1857-1924). A história, passada num tempo de tirania dos czares, tem como protagonista um jovem de «carácter forte (…) filho de um Arcipreste e protegido de um membro notável da nobreza» (p. 16), Cirilo Razumov, estudante do 3º ano de Filosofia da Universidade de S. Petersburgo que se vê envolvido, involuntariamente, no assassinato do «Ministro de Estado investido de poderes extraordinários» (p. 17). O livro, reeditado em Maio de 2022, como segundo volume da colecção “Biblioteca da Censura” (uma louvável iniciativa do jornal Público), foi proibido, em 19 de Abril de 1947 pelo Estado Novo, por ser considerado «livro de propaganda revolucionária» (?!). Como refere Gustavo Rubim, o militar censor «limitou-se a julgar pela capa e pelo título português [no original “Under Western Eyes”]… tomá-lo como “propaganda” pró-russa é pior que tresler: é mesmo recusar-se a abrir o livro» (Público 24/05/2022, p. 31). A mesma Direcção dos Serviços de Censura, face ao requerimento do editor, viria a autorizá-lo em 17/01/1948. 

«Ah! És um bom camarada! Concentrado… – frio como gêlo. Um autêntico inglês. ¿Onde fôste arranjar essa tua alma? Não há muitos como tu. Escuta amigo! Homens como eu não têm posteridade, mas as suas almas não se perdem. Nenhuma alma humana jamais se perde. É uma coisa que actua por si… – de contrário, ¿como faria sentido o auto-sacrifício, o martírio, as convicções, a fé… – as actividades criadoras da alma? Que será da minha alma quando eu morrer, da forma como hei-de morrer… – breve… – muito breve, talvez? Ela não pode perecer. Não confundas Razumov. Isto não foi um assassinato… – é guerra, guerra! O meu espírito há-de continuar a fazer a guerra encarnada em qualquer corpo de russo, até que a mentira seja varrida definitivamente do mundo. A civilização moderna é uma mentira, mas a nova Revolução há-de partir da Rússia. Ah! Tu não dizes nada. Tu és um céptico. Respeito o teu cepticismo filosófico, Razumov, mas não toques na alma. Na alma russa que vive em nós todos. Ela tem um porvir. Tem uma missão a cumprir, digo-to eu (…)»

(edição fac-similada de 1945, Porto: Livraria Civilização, p. 30) 

No entanto, há quem persista na procura da alma: “Where is my soul”, canção de 1995 dos Finn Brothers (Neil & Tin), que a soberba versão da holandesa Matilde Santing, incluída no álbum To Others To One (1999), veio popularizar.

«Soul where is my soul where is my soul

I'll go up with my conscience clean» 

Uns cheios (de militantes) convicções, outros pejados (de poéticas) dúvidas…

 

Post scriptum:

O primeiro graffiti já não existe; o segundo (o do Pai do Vento) resiste, ainda que já mais próximo dos tons de aguarela esvaída em parede esboroada.

 

Luís Souta

(texto e fotos)

domingo, 8 de maio de 2022

Graffitar a Literatura (II)


 «O desenho é a única maneira de fixar a atenção.» (livro do século XVIII) 

«Todo o artista faz realismo social.» (Almada Negreiros, 1953) 


 
Paredão, Monte Estoril, Fevereiro 2012

Eis a explicação para a (tradicional ?) quietude nacional. O país continua vazio de utopias. Falta-lhe um (novo) grande sobressalto cívico. Ideias mobilizadoras (que nos orientem o futuro) precisam-se!

Recordei Almada Negreiros por oposição à mensagem deste graffiti. Vazio e quieto, dois estados que em nada se aplicam a um homem de acção como ele foi, cheio de ideias e projectos, a transbordar energia e criatividade. Em Ensaios I (5º volume das Obras Completas de José de Almada Negreiros, Editorial Estampa, 1971), no primeiro texto, intitulado “O Desenho”, conferência-performance proferida em 1927 aquando da sua estadia em Madrid, defende a ideia desta arte enquanto síntese, uma espécie de via rápida para expressar o entendimento:

«O desenho não é, como pode julgar-se, simplesmente um conjunto de linhas ou traços, um gráfico representando qualquer coisa existente.

O desenho é o nosso entendimento a fixar o instante.

A célebre frase de Napoleão, dizendo: “vale mais um pequeno croquis do que um longo relatório” contém todo o sentido do desenho.

Ao contrário do trabalho, da construção que exige tempo, composição e volume, o nosso entendimento é rápido, claro e simples. A perfeição do entendimento é momentânea e, por consequência, há que fixá-la.

Por isso o desenho é o melhor amigo do entendimento.

É corrente, quando alguém não percebe o que se lhe diz, acrescentar: precisas que te faça um desenho?» (p. 13)

 

Alcabideche, Avenida de Alcoitão

Este mural (um triptíco), da autoria do jovem oats.ink (numa iniciativa da Junta de Freguesia de Alcabideche) pretende celebrar dois grandes artistas lusófonos, nascidos em África, um em São Tomé e Príncipe e outro em Moçambique – Almada e Malangatana. Almada Negreiros, figura incontornável do modernismo português, foi um «vanguardista por excelência», um homem dos sete instrumentos:

«“Almada foi poeta, romancista, dramaturgo, cronista, pensador e polemista; foi também desenhador, caricaturista, pintor, retratista, vitralista, muralista, azulejista, figurinista, tapeceiro, gravador e geómetra”. E, deve acrescentar-se, bailarino e conferencista. No todo, a arte do espectáculo, a unidade do actor.»

(Fernando Cabral Martins “Almada Negreiros” in O Cânone, 2020:67) 

As mais de 400 obras da Exposição “José de Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno”, que esteve no Museu Calouste Gulbenkian entre Fevereiro de 2017 e Junho de 2018, atestam bem esse «artista-omnívoro (…) o homem que quis comer todas as artes», como é definido no Ípsilon (03/02/2017, pp. 5-9). Não é coisa pouca, para um autodidacta que não fez as Belas-Artes nem frequentou qualquer escola de desenho.

Post scriptum: O serviço camarário (in)competente optou, entretanto, pela limpeza da obra não assinada no Paredão de Cascais. Apagou-o! E aquele espaço ficou branco durante anos. Agora, está por lá um mural institucional sobre o voluntariado; colorido… mas pindérico.

Luís Souta (texto e fotos)

sábado, 2 de abril de 2022

Graffitar a Literatura (III)

Luís Souta 
(foto e texto)

«Um século viverás, um século aprenderás e na velhice tolo ficarás»
(provérbio russo)

Cascais. Travessa do Visconde da Luz

Abandonada estou e arruíno-me. Não cumpro mais a nobre função que é a minha: dar abrigo. Mas os graffiters viram em mim uma tela gigante, deram-me colorido, luminosidade, animação. Renasço, então, nas fachadas exteriores. Grata fico à criativa Arte de Rua e, no caso presente, a Belém, autor deste engraçado mural (primeira edição do Muraliza – Cascais, em 2014.  Agora, até os pass[e]antes (quase sempre distraídos) param, miram, comentam… e, por regra, clicam, tornando-me perene. Por que o desmoronamento, esse, está certo e anunciado.

Falemos agora da velhice das pessoas (não a dos prédios). A senectude, no feminino, tem os seus estereótipos: o carrapito, os cabelos brancos, os óculos na ponta do nariz, o interminável tricot… Numa outra perspectiva, Maria Judite de Carvalho (1921-1998), dedicou uma crónica aos «imprestáveis», os “Velhos” – incluída em O Homem no Arame (1979) textos publicados no Diário de Lisboa entre 1970 e 1975 (reeditado em 2019 pela Minotauro: um dos três livros inserido no IV volume das Obras Completas de MJC, pp. 209-210).

Na sua «iluminante sobriedade estilística», a escritora aborda a questão (eterna?) da velhice nestes termos:

«Ei-los que esperam ao sol. Esperam o quê, quem? Estão sentados, vegetais com raízes no dia de ontem, esquecidos de quem são, de quem foram – foram-no há tanto tempo! – e com frio. Desconhecem este mundo em que subsistem e que os ignora. (…) Só sabem – sentem – que são velhos, inúteis, pesados aos filhos e mais ainda às noras e aos genros. Pesos mortos que têm de ser alimentados, vestidos, alojados, suportados. (…)

Muitas vezes ao dia dizem (ou pensam) que no tempo deles, que dantes… Sem saberem que a maior maravilha desse tempo era a sua idade jovem. Agora nada lhes pertence, estão a ocupar o espaço indevido, parece-lhes às vezes que as pessoas em redor falam outra língua, chegaram de outro planeta. E gostariam de se indignar, mas quem para se indignar com eles? Já partiram os que podiam compreendê-los. Dos netos e até dos filhos separa-os um fosso que ninguém procura – para quê? – estreitar.»

Judite de Carvalho mereceu um lugar n’ O Cânone, em texto de Isabel Cristina Rodrigues, pp. 347-354, essa grande obra colectiva de referência (533 p.) coordenada por António M. Feijó, João R. Figueiredo e Miguel Tamen, editado em 2020 pela Tinta-da-China. Aí, se evidencia que

«os vários tipos de cárcere que enformam o viver das personagens femininas de Maria Judite de Carvalho (…) determinam a imposição de uma vida de janela entre o insípido existir de cada uma delas e o mundo vivível lá fora, instituindo na experiência dos dias que lhes é comum uma espécie de limiar entre o viver e o não viver, entre o fora em que não participam e o dentro da sua astenia e do seu desamparo.» 

Nos 100 anos do seu nascimento, a Associação Portuguesa de Escritores promoveu, ao fim da tarde de 08/11/2021 na Biblioteca Palácio Galveias - Lisboa, a sessão “Maria Judite de Carvalho: Reencontros em tempo de Centenário”. À semelhança de outros encontros do mesmo género levados a cabo pela APE, para além das intervenções dos membros da “mesa” (aqui, designadamente, a sua neta Inês Fraga e a professora universitária Isabel Cristina Mateus) houve a resposta dos sócios da Associação ao convite «traga um livro e dê voz à obra do autor»; tal permitiu que lá fossem lidos passagens das muitas obras de Judite de Carvalho. Um formato bem participativo onde o público (leitor) mostrou a qualidade ímpar de uma escritora que, em vida, esteve algo ofuscada pela notoriedade de seu marido – professor, escritor e cidadão empenhado – Urbano Tavares Rodrigues.

Mas a qualidade é como o azeite, vem sempre ao de cima. É tudo uma questão de tempo….

Post scriptum: A trepadeira selvagem das traseiras alastra-se imparável pela fachada lateral e tapa já parte substancial da obra artística de Belém. Acresce a acentuada degradação do edifício. Danos inevitáveis de uma arte que não pressupõe qualquer processo de "restauração".

sábado, 22 de janeiro de 2022

Graffitar a Literatura (I)

 

«O impossível resulta possível
apenas por capacidade do meu cérebro?
Ou do meu coração?
Que importa se eu não sei
Se o impossível tem sempre a possibilidade de ser realizado
Exigindo assim a sua dedifinição.»

(Jacinto Magalhães, Entre Mim e o Outro, 1978)

Graffiti na Rua da Irmandade, Ribamar (Ericeira)


Este humorado graffiti, assinado por Manifesto, preenche toda a fachada lateral (virada para a N247 que liga Ribamar à Ericeira) de um amplo edifício rectangular de dois pisos, tipo armazém. Construído em zona, hoje, de turismo jovem – World Surfing Reserve – o mural apresenta marcas gráficas desse contexto geográfico (fato de banho garrido, tatuagens, skate, texto em inglês). A juventude seria a destinatária preferencial desta mensagem artística – “Everything is impossible”. Um lema para quem é novo, numa idade em que tudo parece (ainda) ser possível de concretizar.

Os mais velhos já não vão tanto em slogans, precisam de leituras mais sólidas e profundas; talvez a Utopia de Thomas More (1516). «Texto literário? Filosófico? Prosa de ideias, relato de viagem, diálogo didáctico?» questiona Maria Alzira Seixo (Visão, 15/03/2007, p. 138), aquando da (excelente) edição da F.C. Gulbenkian.

Nas duas partes em que o livro se divide é-nos dado o «discurso de Rafael Hitlodeu [um marinheiro de idade avançada, Português de nascimento] sobre a melhor das repúblicas». 

«Na Utopia, porém, onde a propriedade privada não existe e os utopianos se ocupam a sério dos negócios públicos, porque o bem particular se confunde com o bem comum, o nome de república é duplamente merecido. (…)
Na Utopia, onde tudo pertence a todos, os cidadãos sabem que, se os armazéns e os celeiros públicos estiverem cheios, ninguém sentirá falta de nada para uso pessoal. Como tal, entre eles a distribuição dos bens não constitui um problema, e não há gente pobre e indigente. Quando ninguém deve nada, todos são ricos. Que maior riqueza pode existir do que a de levar uma existência alegre e livre de cuidados, sem preocupações com a subsistência e livre das queixas contínuas da mulher, preocupada com questões de dinheiro e com o dote do filho ou da filha.» (p. 165)

Já noutras áreas, designadamente nas de género, More não vislumbrou um cenário de igualdade, sendo evidente as marcas do contexto histórico-social em que viveu: 

«As esposas devem obediência aos maridos, os filhos devem-na aos pais, e os mais novos aos mais velhos.» (p. 86)
«Nos templos, os homens encaminham-se para a direita e as mulheres para a esquerda. Os homens sentam-se em frente aos seus chefes de família, e as mulheres em frente à matriarca. Deste modo, o seu comportamento em público pode ser visto por aqueles que os orientam e os dirigem. » (p. 160) 

Uma outra utopia, escrita anteriormente por Christine Pisan (1405) A Cidade das Mulheres (Coisa de Ler Edições, 2007), parece não ter tido repercussão em Thomas More quando idealizou esse “lugar nenhum” de uma sociedade perfeccionada – a ilha da Utopia, com as suas 54 cidades. 

Infelizmente, nos dias de hoje, não há lugar para utopias, pelo menos, no debate político. E essa devia ser, por excelência, a esfera onde se projecta o futuro: como organizar o que é “público” e gerir o “bem comum”. No entanto, no mundo académico há ainda quem se focalize, seriamente, nesta temática por considerar que «a utopia serve para nos fazer caminhar com sentido»; é o caso de Fátima Vieira, docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que assina a Introdução duma edição bem mais recente da Utopia de Thomas More (Público / Utopia & Conhecimento, nº 1, 2021); dela, sugerimos também duas entrevistas: ao programa “Câmara Clara” (RTP2, 14/10/2012) e à revista a Página da Educação (nº 200, Primavera 2013, pp. 6-15).

A ideia de “utopia” tem-se desgastado. Muito desacreditada no espaço comunicacional público (apelidar alguém de “ser utópico” anda perto do enxovalho intelectual). Pois é, «a utopia subverte», como o relembra Fátima Vieira (2013). Daí as emergentes tentativas de a ancorar mais à realidade; por exemplo, a adjectivação do conceito – Para uma Utopia Realista (Encontros de Châteauvallon, em torno de Edgar Morin, Instituto Piaget, 1998). Ou conceito criado por Immanuel Wallerstein em Utopistics or Historical Choices of the Tweenty-First Century (New York: The New Press, 1998):

«utopística é uma séria avaliação das alternativas históricas, o exercício do nosso julgamento face a uma racionalidade substantiva de uma alternativa possível de sistemas históricos. É a sóbria, racional e realística evolução dos sistemas sociais humanos, com os constrangimentos do seu contexto e as zonas abertas à criatividade humana. Não a face do perfeito (e inevitável) futuro. É antes um exercício, simultaneamente, nos campos da ciência, da política e da moral.»

Nesta linha, podemos inserir a canção de Bruce Springsteen que deu título ao álbum Working on a Dream (Sony Music, 2008), e que se tornou numa espécie de hino da primeira campanha presidencial de Barack Obama; estava-se então num patamar superior ao «I have a dream», formulado por Martin Luther King, em 1963. Quarenta e cinco anos volvidos, o “trabalhar” sobre o “sonho” deu resultado: a utopia concretizou-se; os EUA tinham um presidente negro (em dois mandatos consecutivos).

Essa ligação entre o Presidente (Obama) e The Boss (Springteen) teve, recentemente, novo desenvolvimento no livro Renegados. Nascidos nos EUA (Objectiva, 2021) que recolheu as conversas de ambos no podcast (Spotify).

Em tempos de cinzentismo e pensamento único, são os campos da arte aqueles que mais pugnam por manter a chama acesa:

«Pegue o tambor e o ganzá

Vamos pra a rua gritar

A palavra utopia.»

(“Samba da Utopia”, Jonathan Silva, 2018)


Post scriptum:

 Este mural desapareceu nos finais de 2021. Durou 7 anos! (havia-o fotografado no Verão de 2014). Nada mau para os padrões da “arte do efémero”. Os proprietários resolveram lavar a cara à casa, pintando-a de alto a baixo e, na voragem da limpeza, lá se foi o mural. E o edifício deixou de se distinguir dos outros daquela zona de veraneio: ficou asséptico, com muito menos encanto. A arte de rua, por aquelas bandas, parece “impossible”.


Luís Souta

(texto e foto)