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quinta-feira, 9 de julho de 2015


Palestra efectuada na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 29 de Junho de 2015,
no âmbito das Comemorações do 6.º Centenário da estadia
d’el-Rei Dom João I em Alhos Vedros.

COMUNICAÇÃO

Esta comunicação é uma síntese do power-point que acabámos de analisar. Aquando da preparação de ambos, dei preponderância ao texto do cronista. Estruturei a comunicação em 7 pontos, que enunciarei ao longo da leitura. Como já sabeis, o tema que me foi proposto é

Ceuta, 1415 – o Conselho Régio de Alhos Vedros,
o último antes da partida de Lisboa.”

1. De acordo com José Adriano de Freitas Carvalho, no seu escritoOs Fundamentos Poéticos do Documento. A Propósito de uma Página Exemplar do Leal Conselheiro”, incluído em “Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos”, publicado em 2004 pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, p. 385, no respeitante ao Conselho Régio efectuado naquele povoado ribeirinho é dito que consistiu em «uma reunião breve, e com reduzido número de conselheiros (…), sob um alpendre, para dar conta a D. João I do resultado da anterior, em que o rei (…) discorre sobre os empachos levantados
Contudo, tal Conselho Régio veio a revelar-se decisivo, no tocante à partida da frota para a conquista de Ceuta.

2. Quanto à relevância do Conselho Régio de Alhos Vedros, comparativamente aos Conselhos anteriormente levados a cabo, é minha intenção deixar bem clarificadas duas considerações: primeira, ausência de chauvinismo da minha parte, que seria desprovido de total razão de ser na sociedade actual, que se pretende cada vez mais evoluída, corporizada numa realidade multi e pluricultural; segunda, a minha convicção de que o sucesso ou o insucesso na implementação de um projecto, seja ele de que natureza for, advém, indiscutivelmente, da capacidade de liderança (ou ausência dela), mas igualmente do trabalho em equipa, numa imprescindível comunhão de vontades (ou não) que, ao longo do tempo, determinará os consequentes resultados (êxitos ou fracassos). Lendo o relato do cronista, no respeitante ao planeamento da empresa bélica que visava Ceuta, constatamos que, da parte de Dom João I, houve ajuizada liderança, alongada maturação, trabalho estruturado «ca mais de três anos havia, que ele tinha este feito começado».
Nesta comunicação, incorreria numa gravíssima omissão, se não referisse que o Conselho Régio de Alhos Vedros adveio da conjugação de dois factores: um, acidental, isto é, a urgência de garantir a segurança do Rei num local preservado da peste; o outro, a necessidade de ser definido o rumo a dar à empresa norteafricana, que o inesperado falecimento da Rainha embargara. Tratou-se, pois, de mais um Conselho, na continuidade dos anteriores.

3. Previamente informado da irresolução ocorrida no Conselho Régio da véspera, que tivera lugar no Restelo, o Monarca ouviu apoiantes e oponentes da realização da empresa que há anos trazia o reino em frenesim. 
Analisando a Crónica da Tomada de Ceuta, de Gomes Eanes de Zurara, os argumentos a favor eram «que todavia el-rei devia partir, como primeiramente tinha ordenado, porque deziam que tamanhas despesas como já eram feitas, e tais provimentos com tantos trabalhos remediados e buscados, nom deviam assim de passar em vão. Quanto mais, pois aquilo fora movido principalmente por serviço de Deus, se nom devia leixar d’acabar por nenhuma cousa, nem havia hi rezom per que se justamente leixasse de fazer, ca posto que assim a Rainha falecesse, sua morte a tal feito nom devia fazer empacho. Ca a Rainha nom era mais que uma mulher, cuja morte nom trazia outra torva pera seu propósito, somente a tristeza que eles por sua causa filhavam. (…) Quanto mais que a fama deste feito era tão devulgada per muitas partes do mundo, que todos pensavam que tamanho movimento nom podia parar sem cometimento dalgum grande feito. Pelo fim do qual estavam cada dia em esperança de ouvir certo recado. A qual cousa seria mui vergonhosa assim pera el-rei como pera todo o reino, quando soubessem que por semelhante azo o leixavam de poer em fim
Avançando na leitura da narrativa do cronista, aqueles que eram contrários à abalada da frota «acordavam que todavia el-rei por nenhum caso devia partir. Por certo, deziam eles, se vós dezeis que por isto ser serviço de Deus o devemos principalmente de seguir, bem se mostra que Lhe nom praz de semelhante movimento. Por quanto, ante os nossos olhos traz tão manifestos sinais, per que de rezom devemos creer que o nosso movimento é comtrayro de Sua vontade! Que cousa tão maravilhosa pensais, que é o dano que esta pestenemça fez e faz cada dia em tanta boa gente, como per sua causa faleceu e falece? E nom é dúvida, que depois que forem todos dentro nos navios, que se nom acenda muito mais, ca o ajuntamento a fará muito mais acender. E o remédio proveitoso pera ela seria de se espalhar agora esta gente. E é certo que nom poderia tamanho fogo estar muito que se nom apagasse. E se nós agora partíssemos, pode ser que assim como morreu a Rainha, morrerão outras pessoas tais, cujo dano trazerá muito grande perda. Devemos ainda muito recear tamanho dano, como recebemos na morte daquela senhora, porque somente as suas orações eram abastamtes pera nos livrarem de quaisquer perigos. Ca bem mostrou Nosso Senhor Deus sinais acerca da sua morte, per que muito devemos sentir a perda de seu falecimento, do qual nom há nenhum, posto que de pequena condiçom seja, que nom tenha mui grande sentido. Certamente nós lhe mostraríamos sinal de pouco amor, perdendo em tão breve tempo memória de sua morte, nom tomando sequer algum espaço per que o mundo conhecesse o sentido que tínhamos de sua morte. Mas logo assim tirados dos choros de sua sepultura fazermos partida, nom seria bem. E que ainda quiséssemos leixar estas cousas, temos outro mui grande empacho, que é muito pera considerar. E isto é que por azo da doença da Rainha se desaviaram muitas cousas, pera corregimento das quais nom há mester menos de um mês. Pois nós somos agora casi em fim de julho, e quando um mês passasse, seríamos em fim d’agosto, que é já começo do inverno, em que se nom deve começar semelhante feito. É assim que, por todas estas rezões, se deve por agora escusar a eixecuçom desta cousa 
 
4. Uma vez escutados os pareceres divergentes sustentados por cada uma das partes beligerantes, o Rei revelou ser detentor de apurada eloquência e de incontestável sagacidade diplomática, aptidões que lhe permitiram aproveitar, de forma exímia, os argumentos dos opositores, fazendo-os reverter a favor da concretização da empresa, como se pode inferir das seguintes transcrições:
«(…) el-rei ouvidas assim aquelas rezões, descobriu sua cabeça que tinha coberta com seu doo, e disse. Muito me pesa porque em tão boas pessoas é achado nenhum falecimento de fraqueza em semelhante caso. Ca certamente eu cuidara, que posto que eu, por causa de minha grande tristeza, ou por outro algum azo quisera ficar, que eles me constrangeram pera ele, conselhando-me que todavia seguisse minha viagem. Porém, considerando acerca de todollos empachos que eles puseram em minha ida, cuja força principalmente está em estes acontecimentos que se ora seguiram, contando pelo mais forte o falecimento da Rainha que Deus haja. Creendo que o aparecimento destes sinais é mui grande amoestação de nossa ficada, o que eu todo entendo pelo contrayro, porque notório é, que pera prosseguimento de tamanho feito, nom cumpre mais que irmos arrependidos e purgados de nossos pecados, emclinamdo ao Senhor Deus nossas almas, tornando-nos a Ele de todo coraçom, fazendo penitência dos erros passados que contra Ele cometemos, e demandando-Lhe mui humildosamente que nos livre de nossos inimigos, e que Lhe praza dar glória a Seu nome, exalçando a Sua santa fé, quebrantando e destruindo todollos Seus comtrayros com a Sua própria virtude. (…) Porque necessário é, que Deus use das Suas creaturas como Lhe prouver. (…) Pois que sabemos nós, se Nosso Senhor Deus per estas cousas nos quis provar? (…) Certamente eu creo que todas estas cousas que assim acomteçerom, som mais porque Deus per elas nos mostra a çertidom da vitória que o comtrayro (…) e pera nós isto firmemente creermos, ponhamos ante os nossos olhos as maravilhosas cousas que lhe acomteçerom antes de sua morte, pelas quais certamente sabemos, que a sua alma está em bem-aventurado repouso
                        
5. Mais adiante, o cronista apresenta-nos um esclarecedor arquétipo do exercício da autoridade régia. Não nos esqueçamos que, à época, meados da segunda década do séc. XV, a sociedade portuguesa se achava ainda profundamente alicerçada na matriz medieval. Daí que, na resolução de controvérsias de carácter político, a «última palavra» competia, incontestavelmente, ao Rei.
Pela pena de Zurara, sabe-se que o mesmo sucedeu no Conselho Régio de Alhos Vedros, em virtude da urgência da tomada de uma decisão relativamente a Ceuta. É, então, alicerçado em tal prerrogativa, que Dom João I declara peremptoriamente: «porém por todas estas rezões eu determino com a graça do Senhor Deus de seguir todavia minha temçom por Seu serviço. Ca doutra guisa nom me parece que faria o que devo. (…) Pois que assim é, disse el-rei, toda minha detença será daqui até quarta-feira, e depois siga-me quem puder. E vós, meus filhos, tornai-vos logo à vossa frota, e fazei dar a tudo tal aviamento, que quarta-feira, a Deus prazendo, possamos partir

6. Em face do anteriormente referido, dois detalhes dignos de realce que mencionar, os quais, na minha opinião, conferem ao Conselho Régio de Alhos Vedros um carácter sui generis, porque deliberativo: o primeiro, ter sido nesse povoado da «borda-d’água» que, finalmente, foi tomada a decisão de partir para Ceuta; o segundo, aí se ter definido uma data - 23 de Julho, antevéspera do Dia de Santiago - para abalar de Alhos Vedros e rumar ao Restelo, a fim de aprontar o que carecia ser aprestado para a partida da frota.

7. E, para concluir, tenho de confessar-vos um desejo pessoal… Oxalá eu tenha conseguido dar o meu modesto contributo, para deixar bem gravado na memória individual e na memória colectiva que, na segunda metade do mês de Julho, do ano 1415 da nossa Era, ocorreu em Alhos Vedros um facto assaz marcante para a História Local! Todavia, proclamar bem alto, que tal acontecimento, mesmo «contra possíveis ventos e marés», se encontra, incontestavelmente, arreigado na História Nacional!

                                                                     Muito obrigado!

                       Francisco José Noronha dos Santos


(Não é usada a grafia preconizada pelo actual Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa)

terça-feira, 29 de julho de 2014

O luto de D. João I em Alhos Vedros


No passado dia 18 deste mês de Julho do Ano da Graça de 2014 completaram-se 599 anos do falecimento da malograda Rainha D. Filipa de Lencastre.
Sob o efeito de indescritível sofrimento, Sua Alteza, el-Rei D. João, o Primeiro, vai despedir-se de sua amada esposa.
Os filhos aconselham-no a abalar, para não ser vítima da malfadada pestilência.
O Conselho Régio aprova a partida.
Em essa mesma data, Sua Alteza aporta à Vila de Alhos Vedros.

«Senhor, porque semtimos que a senhora Rainha he era tall pomto, que em breue tempo fará fim de sua uida, pareçenos que he bem i5 que uossa merçee sse parta daquy pêra alguúa parte, porque o mall nom aja rrazom de seer mayor, sobreuimdouos alguíía gramde emfirmidade pollo aazo de uosso gramde nojo. O quall com menos pena semtirees nom teemdo amte os olhos a força do caso, porque o auees de semtir.
E bem uos parece, rrespomdeo elRey, que eu aja de desemparar a ssemelhamte tempo huíja molher, com que tam lomgamente niamtiue companhia, por certo hi sse pode seguir quallquer caso que a Deos aprouuer, mas eu per nehuú modo nom partirey dapar delia, em cuja companhia me Deos faria merçee de me leuar pêra o outro mundo. Porque querees uos senhor, disseram os Iftamtes aazar dous muy gramdes malles por uossa estada sem esperamça de nehuú proueito. O primeyro, que semtimdo-uos a Rainha açerqua de ssi, acreçemtarlhees mayor trabalho, quamdo lhe lembrar que ja uos mais nom ha de ueer. Ca posto que a sua uoomtade seia comforme aas cousas do outro mundo, em quamto a alma esta na carne, he necessário que a humanidade rrequeyra o que he de sua natureza. O segumdo he que uos estamdo aqui, he necessário que estees a todos seus offiçios, que a ueiaaes depois de fimda. A quall uista uos trazera aa comsijraçom mujtas cousas, cuja nembramça acreçemtara o uosso gramde nojo, de que sse uos depois pode seguir alguúa emfirmidade que será mujto peor. Porem uos pedimos por merçee, que uos nom apartees daquello que sempre husastes .s. rrezam e comsselho, mayormente sobre cousa tam assijnada.
Pois que assj' he, rrespomdeo elRey comtra o Iftamte Duarte, uos mamdaae chamar todollos do comsselho que aqui ssom, e fallaae com elles, e o que acordardes que he bem que eu faça, isso farey.
E breuemente o comsselho feito, determinaram que todauia elRey se deuia partir dalli, e sse passar aalem do Tejo a huú luguar que chamam Alhos Vedros, como sse de feito partio. Mais daquelle triste espidimento que elle fez da Rainha sua molher, quamdo a foi ueer amte que sse partisse, nom posso eu fallar tamto como deuia, porque a força das lagrimas me embarguam a uista, que nom posso escpreuer, comsijramdo em cousa tam triste, ca sse me apresemta amte a jmagem do emtemder, como o uerdadeiro e leall amor he mais forte cousa daquellas que a natureza em este mundo jumtou. Do quall Sallamam disse no camtar dos camtares que era forte como a morte.»
in CRÓNICA DA TOMADA DE GEUTA POR EL REI D. JOÃO I,”COMPOSTA POR GOMES EANNES DE ZURARA”,
PUBLICADA POR ORDEM DA ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE LISBOA, SEGUNDO OS MANUSCRITOS N.ºs 368 E 355 DO ARQUIVO NACIONAL. FRANCISCO MARIA ESTEVES PEREIRA


Recolha feita por Francisco José Noronha dos Santos

terça-feira, 24 de junho de 2014

GIL VICENTE E ALHOS VEDROS


Gil Vicente nasceu por volta do ano de 1465, mas não há concordância dos historiadores, nem quanto à data, nem no que se refere ao local do nascimento. Terá nascido no Minho, mais propriamente em Guimarães? Ou terá vindo ao mundo em Barcelos e tenha crescido numa localidade da Beira? Ou a sua terra natal possa ter sido Lisboa, na Estremadura?
Daquilo que não há dúvida, é que viveu nesta cidade.

Bom observador da realidade circundante, audacioso, detentor de um mordaz espírito crítico, nenhum estrato social escapou à sua perseverante denúncia de exageros, infidelidades e hipocrisias!

Conhecido na cidade, rapidamente a sua fama acudiu aos ouvidos régios, tendo sido introduzido na Corte como artista, e onde foi incumbido de superintender a organização das festividades da Casa Real.

Como era uso na época, a Corte transitava pelo País, assentando arraiais em diversas povoações: vilas e cidades, de Norte a Sul do Reino.
Gil Vicente tomava, invariavelmente, parte nessas viagens.
«São conhecidas as localidades seguintes, frequentadas pela Corte e quase sempre por Gil Vicente (...), durante o reinado de D. Manuel I de Portugal e do seu sucessor, o rei D. João III: Lisboa, Almeirim, Abrantes, Chamusca, Sintra, Torres Vedras, Évora, Alhos Vedros, Castro Verde, Lavradio, Benavente, Alcochete, Aldeia Galega, Tomar, Barreiro, Palmela, Alcácer- do-Sal, Alvito, Montemor-o-Novo e Coimbra. (...)»

Onde se alojaria a Corte em Alhos Vedros?

Achando-se Gil Vicente em Santarém, aquando do terramoto de 26 de janeiro de 1531, que abalou Lisboa e o Vale do Tejo, «censurou num discurso os sermões terríficos, nos quais os frades de Santarém explicavam ao povo a catástrofe como resultado da ira divina. Então, referiu o facto ao rei, numa carta na qual se pronunciava também contra a perseguição movida aos Judeus, tendo o rei D. João III abandonado, a partir de 1531, a política de assimilação e tolerância religiosa que havia caracterizado a época manuelina

Essa missiva de Gil Vicente recebeu-a o Monarca em Palmela, depois de ter passado por Alhos Vedros e aí ter pernoitado, antes de ter seguido para Coina.


Francisco José Noronha dos Santos


terça-feira, 6 de maio de 2014

(Des)Encontros


Subtítulo: Alhos Vedros – Rosário
(ainda por publicar)

SINOPSE

     Alhos Vedros e o Rosário são vetustos povoados da borda-d’água, ambos acariciados pelas águas do Tejo que, desde tempos imemoriais, os apartou e os uniu.
     Características comuns das suas laboriosas gentes: a pesca, a salicultura, a construção naval, a agricultura e o respeitador acatamento dos conselhos dos anciãos.   
     O rio, fonte de trabalho e pão, revelou-se por vezes o cerne de encarniçados conflitos.
     Na década de Quarenta do século XX, Alhos Vedros assistiu à implantação da indústria corticeira, que modificou hábitos de trabalho e modos de vida, mas não tanto as mentalidades.
     A ação decorre nos anos de 1940 e 1941.
     A Europa central sofria o morticínio da Segunda Grande Guerra.
     Na cidade de Lisboa, pululavam os foragidos, que a barbárie compelira ao exílio.
     Em Portugal, o Natal de 1940 foi vivido sob o temor de uma possível invasão franquista, em aliança com os boches. Nas casas, as tiras coladas nas vidraças das janelas mais não eram que as ligaduras visíveis que cobriam as feridas interiores.
     Na Vila de Alhos Vedros e no Rosário, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 martirizou a natureza, corpos e almas.
     A um agreste inverno sobreveio uma ridente primavera, brotou um amor, desvendou-se um segredo jurado a um moribundo!
     Eis a síntese de uma narrativa ficcionada, alicerçada em factos e em pessoas reais, que a vida compeliu a (des)encontros!


Francisco José Noronha dos Santos

quarta-feira, 30 de abril de 2014

ALHOS VEDROS QUATROCENTISTA


Cristãos e Judeus – o enterramento de Fernão do Casal
(inédito)

SINOPSE

     Desde épocas imemoriais, nas terras da Ibéria, coabitam judeus e cristãos. Para Celso Lafer, «os judeus se instalaram na Península desde os tempos salomônicos, passaram pelo domínio romano, suportaram as invasões bárbaras, sofreram os primeiros reinados visigóticos, sustentaram os árabes, integraram-se nos reinados cristãos da Reconquista...»

     Para Ângelo Adriano Faria de Assis (*) «O nascimento político do reino português (…) [no] século XII, sob a espada abençoada por visões divinas e comandada por Afonso Henriques (…), dá-se num momento em que os filhos de Abraão já se encontram (…) sedimentados em algumas localidades de grande povoamento e importância, como Santarém, Coimbra e Lisboa. (…) O relacionamento entre cristãos e judeus no mundo português encontrava particularidades que o diferenciava dos outros países da Europa cristã. De acordo com Anita Novinsky, as diferenças começam na própria origem: durante a Idade Média, Portugal foi "o país que antes de qualquer outro da Europa reconheceu os direitos dos judeus"; consequência desta política de "aceitação" social, é que "foi nessa parte ocidental da Península que a propaganda oficiosa antijudaica penetrou mais tarde"

     Também em Alhos Vedros, povoação na margem esquerda do Tejo, dada a vizinhança de Lisboa, havia judeus integrados na comunidade local.

     Citando de novo Ângelo Assis, «Apesar da forte influência do direito canónico, (…) "a religião não impediu nem prejudicou seriamente os contatos mútuos, as inter-relações grupais, sendo mesmo considerável o número de casamentos mistos". A situação, na prática cotidiana, mostrava-se em Portugal - como em nenhuma outra parte – favorável ao bom convívio entre os grupos. (…) O povo não levava muito a sério as proibições dos representantes da Igreja e os monarcas portugueses foram muitas vezes recriminados de Roma por favorecerem aos judeus"».

     No funeral do Fidalgo alhosvedrense Fernão do Casal, cooperaram cristãos e judeus, irmanados no mesmo sentimento de pesar.

     Desgraçadamente, «o aumento das perseguições na Europa e (…) os acontecimentos em Espanha, (…) mormente na segunda metade do século XV, mudariam este quadro e trariam um triste fim ao período em que os hebreus conviviam abertamente com os cristãos no reino fundado séculos antes por Afonso Henriques(*)
     
Qual mito da cripta, sub-repticiamente, foi sem-do gerado o monstro.


(*) Ângelo Adriano Faria de Assis Coordenador do Curso de História/Docente - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Nair Fortes Abu-Merhy (Além Paraíba - MG), in “O Medievo Português em tempos de livre crença: relações entre judeus e cristãos em Portugal antes do monopólio católico iniciado em 1497.”



Francisco José Noronha dos Santos

quarta-feira, 9 de abril de 2014

EL-REI DOM JOÃO III EM ALHOS VEDROS


por Francisco José dos Santos Noronha


«Memória do terramoto de 1531»

«Guardando a ordem dos anos, direi do seguinte, de trinta um, no principio do qual ouve neste reino de Portugal muito trabalho, por aver nele peste e terremotos, com tremer a terra e caírem casas e edeficios, onde morreo muita jente; e tal espanto e medo pôs que andávão as jentes espantadas e fora de si, que não ousávão a entrar, nem dormir em povoado, e saíão-se ao campo, onde dormião em choupanas e tendas que pera iso fazíão, e asaz foi isto mais em Lisboa e polo Tejo acima que em outra parte, e em especial em Vila Franca, Povos, Castanheira, Azambuja, até Santarém, e foi este terremoto a vinte de janeiro do ano de trinta um; e, como Noso Senhor é misericordioso, ouve por bem sosegar o tempo.»
Bernardo Rodrigues, Anais de Arzila, 1561


EL-REI DOM JOÃO III EM ALHOS VEDROS

«No início do ano de 1531, Lisboa conheceu uma crise sísmica que culminou no dia 26 de janeiro com um abalo de grande intensidade (provável magnitude 6.5 – 7.0), com origem na zona de falhas sísmicas do Vale Inferior do Tejo. Posteriormente, e ao longo de todo o ano, sucederam-se réplicas e sismos de menor intensidade. A destruição causada terá sido significativa, tanto na capital como nos arredores. Em Lisboa, cerca de 25% dos edifícios terão sofrido estragos significativos e, pelo menos 10% ter-se-ão desmoronado (cerca de 1500 habitações). A cidade contaria com cerca de 100 mil habitantes, dos quais entre 20 mil a 30 mil terão perdido a vida. Há referências a grande devastação em residências e oficinas, em particular na Rua Nova, a principal artéria comercial da cidade, e na rua dos Fornos, bem como edifícios nobres gravemente danificados (Paço da Ribeira, Paço dos Estaus, Convento de São Domingos, Sé, Convento do Carmo, Igreja de São João da Praça, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos).» (NUNES, Maria Paula, PROVIC, PUBLICAÇÃO MENSAL DA AUTORIDADE NACIONAL DE PROTECÇÃO CIVIL/N.º 47/FEVEREIRO 2012/ ISSN 1646 – 9542, p. 3)

Receoso pela sua segurança e pela dos seus, o Rei deu ordem para que desocupassem o Real Paço da Ribeira e se trasladassem para Enxobregas. Posteriormente, também por deliberação Régia, foram instalar-se no Paço Real de Santos. Dada a proximidade de Lisboa, o Monarca continuava a não se sentir resguardado da epidemia. Ordenou, então, que a Real Família embarcasse para o Barreiro e Lavradio.

Destas terras da borda-d’água, acompanhado de um séquito de Cavaleiros e homens d’armas, o Soberano encetou a caminhada para Sul e alojou-se no Paço Real de Almeirim. Certo dia de Janeiro, cavalgou até Benavente e aí se alojou. A 26 do dito mês, a terra tremeu enfurecida! «O Paço de Benavente, onde o Rei D. João III se encontrava, não terá resistido aos efeitos do terramoto, forçando o monarca a procurar refúgio, primeiro em Alhos Vedros e, mais tarde, em Azeitão.» (Idem)

Em Alhos Vedros, onde se terá alojado el-Rei?
Mas sabe-se que se achava na Vila, a 27 de Janeiro de 1531, data em que redigiu uma Carta Régia enviada ao Governador Cível, D. Fernando de Castro. (inCatálogo dos manuscriptos da Bibliotheca Eborense”, p. 88)

terça-feira, 25 de março de 2014

O TERRAMOTO


Subtítulo: Lisboa – 26 de janeiro de 1531
(Ainda por publicar)

SINOPSE

     Reinava Sua Alteza, Dom João, o Terceiro.
     Um infausto inverno assolava Portugal: chuvas diluvianas arrasavam culturas, acarretando fome e miséria. A Peste ceifava vidas em Lisboa.
     A Família Real desocupou o Paço da Ribeira, instalando-se em Xabregas. Depois, transferiu-se para o Paço de Santos. Com o recrudescer da epidemia, a Real Família partiu de Santos para o Barreiro e Lavradio.
     Escoltado por Nobres e homens d’armas, el-Rei seguiu do Barreiro para o Paço Real de Almeirim.
     Vozearia na lezíria, em animada montaria.
     Estremecimentos periódicos abalavam Lisboa e o Vale do Tejo, sentidos em Vila Franca, Azambuja, Castanheira, Santarém…
     El-Rei rumara a Benavente.
     Violento abalo telúrico ocorreu a 26 de janeiro de 1531, atingindo duramente o Paço Benaventense. D. João III e D. António de Ataíde, sob a proteção de dez homens d’armas, iniciaram a jornada para Alcochete.
     A Peste grassava em Lisboa.
     Incriminavam-se os judeus pelas catástrofes que assolavam o Reino.
     Da Vila de Alcochete, o Rei e o séquito rumaram a Azeitão. Pelo caminho, afrontaram temerosa borrasca, que os forçou a uma alteração dos planos. Encaminharam-se para Alhos Vedros.
     No terreiro do cais alhosvedrense, em dia de mercado, disfarçados de serviçais, o Rei e o Nobre deambularam por entre a turba e as tendas, visitaram o estaleiro de mestre Gonçalo e aí merendaram.
     No dia seguinte, Josué, um serviçal da Casa dos Bragança, revelou a mestre Gonçalo a verdadeira identidade dos visitantes da véspera.
     Rei, Nobre e militares haviam abalado de Alhos Vedros, passado por Coina, seguido para Azeitão, onde pernoitaram, e dali haviam partido para Palmela.
     Em fevereiro de 1531, lavrava o pânico em Santarém. Diante da igreja de São João, um frade dominicano vociferava, acicatando a turba aturdida.
     Uma discreta criatura abanava a cabeça, incrédula, enquanto observava a multidão embravecida. Quem seria tal criatura?
     Imenso Clero rumou ao convento de São Francisco, em Santarém.
     No dia 25 de fevereiro de 1531, achando-se em Palmela, o Rei recebeu um mensageiro proveniente de Santarém, portador de uma missiva.
     Portugal, Terra de Santa Maria, implorava o amparo Divino, face à barbárie e à ignomínia!

Francisco José Noronha dos Santos


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

TRIANGULAÇÃO


Daomé – São Salvador da Baía – Alhos Vedros
(Texto ainda por publicar)

SINOPSE

    
El-Rei morreu! Viva El-Rei!
     A D. João V sucedeu D. José I.
     Sebastião José de Carvalho e Melo, um estrangeirado, ascendeu ao Poder.
     Na missionação do Brasil, destacava-se o jesuíta italiano Gabriel Malagrida.
     Da “costa dos escravos para o Brasil, o tráfico negreiro estava no auge.
     Nos areais de Chega Nego, cercão da cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, decorria o leilão de “cabeças de alcatrão”, que haviam aportado no tumbeiro Esperança - uma galera comandada pelo capitão Da Silva.
     O padre Malagrida acorreu ao “mercado”, a fim de atiçar consciências. Mas foram em vão as suas súplicas.
     No estrado surdiu um jovem, porte altivo, que a todos abalou pelo seu denodo. O jesuíta comprou-o, para espanto e escárnio dos circunstantes.
     No Colégio de São Salvador, no Terreiro de Jesus, o jovem negro encetou a aprendizagem da cultura do homem branco, alcançando esmerada educação. De forma natural, granjeou a estima de todos. Kéhindé, de seu nome na Língua Yorubá, recebeu o nome cristão de António.
     Entre Kéhindé e o sacerdote estreitaram-se laços, que a vida pôs à prova.
     Catequizado e alforriado, António Kéhindé deixou a Capital da colónia e acompanhou o clérigo para São Luís, no Maranhão, onde prosseguiu a sua formação.
     Em janeiro de 1754, por solicitação da Rainha-mãe, o padre Gabriel Malagrida rumou a Portugal. Consigo viajou António Kéhindé.
     Impedido de contactar a Rainha, por deliberação expressa de Sebastião José de Carvalho e Melo, Secretário Régio, o missionário teve de se exilar em Setúbal.  
     No mercado do Sapal, na Vila do Sado, António Kéhindé travou conhecimento com José e o pai, carreteiros alhosvedrenses. Desde logo nasceu entre eles uma genuína amizade.
     Nas longas ausências do padre Malagrida na Capital do Reino, a fim de acudir aos chamados do Superior do Colégio Jesuíta de Lisboa, Kéhindé passou a viver em Alhos Vedros, em casa de José e dos pais - Ti João Zebedeu e Ti Josefa - auxiliando-os na labuta quotidiana.
     Malgrado a prática da escravatura na Vila ribeirinha, uma vez conhecida a sua condição de homem livre, António Kéhindé integrou-se, gradualmente, na comunidade local.
     Culto, bem-falante e com boa aparência, “trajando que nem os senhores” aos domingos e festas de guarda, Kéhindé despertava o interesse das moças casadoiras.
     Profundas transformações ocorreram no vetusto povoado, e um invulgar enlace sucedeu, quebrando tabus ancestrais.
     Também em Alhos Vedros se viveu o terramoto de 1 de novembro de 1755.
     Obstando as teses racionalistas do Secretário Régio, o padre Malagrida, imbuído de acalorado misticismo, asseverou terem sido castigo divino as causas do abalo telúrico, inculpando o Povo e a Família Real, pela decadência dos valores morais da sociedade.
     Arqui-inimigo da Companhia de Jesus, Sebastião José de Carvalho e Melo tinha de a aniquilar, assim como ao intrépido e incómodo missionário.
     O atentado contra D. José I, perpetrado na noite de 3 para 4 de setembro de 1758, despoletou uma catadupa de acontecimentos. Incriminados os Távora, as execuções ocorreram em Belém.
     O padre Malagrida, apelidado de herético e, depois, culpado do crime de lesa-majestade, foi entregue ao Tribunal do Santo-Ofício.
     Kéhindé teve descendência em Alhos Vedros.
     As invasões napoleónicas impeliram a Família Real à fuga para o Brasil, deixando o Reino a saque. Terminadas as invasões, o Reino seguia absolutista, cerceado da liberdade de pensamento e de expressão.
     A Junta Governativa semeou ódios.
     O General Gomes Freire de Andrade foi eliminado, o mesmo sucedendo a vários de seus correligionários.
     Venceram os ideais do Liberalismo, a que se seguiu a Vila-Francada.
     Tempos conturbados se viveram em Alhos Vedros, na família de António Kéhindé.


Francisco José Noronha dos Santos