"Cheguei finalmente à vila da minha infância (...) Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu."

- Álvaro de Campos


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

TRIANGULAÇÃO


Daomé – São Salvador da Baía – Alhos Vedros
(Texto ainda por publicar)

SINOPSE

    
El-Rei morreu! Viva El-Rei!
     A D. João V sucedeu D. José I.
     Sebastião José de Carvalho e Melo, um estrangeirado, ascendeu ao Poder.
     Na missionação do Brasil, destacava-se o jesuíta italiano Gabriel Malagrida.
     Da “costa dos escravos para o Brasil, o tráfico negreiro estava no auge.
     Nos areais de Chega Nego, cercão da cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, decorria o leilão de “cabeças de alcatrão”, que haviam aportado no tumbeiro Esperança - uma galera comandada pelo capitão Da Silva.
     O padre Malagrida acorreu ao “mercado”, a fim de atiçar consciências. Mas foram em vão as suas súplicas.
     No estrado surdiu um jovem, porte altivo, que a todos abalou pelo seu denodo. O jesuíta comprou-o, para espanto e escárnio dos circunstantes.
     No Colégio de São Salvador, no Terreiro de Jesus, o jovem negro encetou a aprendizagem da cultura do homem branco, alcançando esmerada educação. De forma natural, granjeou a estima de todos. Kéhindé, de seu nome na Língua Yorubá, recebeu o nome cristão de António.
     Entre Kéhindé e o sacerdote estreitaram-se laços, que a vida pôs à prova.
     Catequizado e alforriado, António Kéhindé deixou a Capital da colónia e acompanhou o clérigo para São Luís, no Maranhão, onde prosseguiu a sua formação.
     Em janeiro de 1754, por solicitação da Rainha-mãe, o padre Gabriel Malagrida rumou a Portugal. Consigo viajou António Kéhindé.
     Impedido de contactar a Rainha, por deliberação expressa de Sebastião José de Carvalho e Melo, Secretário Régio, o missionário teve de se exilar em Setúbal.  
     No mercado do Sapal, na Vila do Sado, António Kéhindé travou conhecimento com José e o pai, carreteiros alhosvedrenses. Desde logo nasceu entre eles uma genuína amizade.
     Nas longas ausências do padre Malagrida na Capital do Reino, a fim de acudir aos chamados do Superior do Colégio Jesuíta de Lisboa, Kéhindé passou a viver em Alhos Vedros, em casa de José e dos pais - Ti João Zebedeu e Ti Josefa - auxiliando-os na labuta quotidiana.
     Malgrado a prática da escravatura na Vila ribeirinha, uma vez conhecida a sua condição de homem livre, António Kéhindé integrou-se, gradualmente, na comunidade local.
     Culto, bem-falante e com boa aparência, “trajando que nem os senhores” aos domingos e festas de guarda, Kéhindé despertava o interesse das moças casadoiras.
     Profundas transformações ocorreram no vetusto povoado, e um invulgar enlace sucedeu, quebrando tabus ancestrais.
     Também em Alhos Vedros se viveu o terramoto de 1 de novembro de 1755.
     Obstando as teses racionalistas do Secretário Régio, o padre Malagrida, imbuído de acalorado misticismo, asseverou terem sido castigo divino as causas do abalo telúrico, inculpando o Povo e a Família Real, pela decadência dos valores morais da sociedade.
     Arqui-inimigo da Companhia de Jesus, Sebastião José de Carvalho e Melo tinha de a aniquilar, assim como ao intrépido e incómodo missionário.
     O atentado contra D. José I, perpetrado na noite de 3 para 4 de setembro de 1758, despoletou uma catadupa de acontecimentos. Incriminados os Távora, as execuções ocorreram em Belém.
     O padre Malagrida, apelidado de herético e, depois, culpado do crime de lesa-majestade, foi entregue ao Tribunal do Santo-Ofício.
     Kéhindé teve descendência em Alhos Vedros.
     As invasões napoleónicas impeliram a Família Real à fuga para o Brasil, deixando o Reino a saque. Terminadas as invasões, o Reino seguia absolutista, cerceado da liberdade de pensamento e de expressão.
     A Junta Governativa semeou ódios.
     O General Gomes Freire de Andrade foi eliminado, o mesmo sucedendo a vários de seus correligionários.
     Venceram os ideais do Liberalismo, a que se seguiu a Vila-Francada.
     Tempos conturbados se viveram em Alhos Vedros, na família de António Kéhindé.


Francisco José Noronha dos Santos


3 comentários:

luis santos disse...


Será que ainda existem descendentes de António Kéhindé por cá? Eis uma boa genealogia a estudar, já que o início desta singela história de vida está identificado. Muito Bom. Obrigado pela partilha.

MJC disse...

Ora muito bem vindo amigo Francisco.
E como o texto me parece um guião para algo maior e mais desenvolvido cá fico à espera.

Abraço.

Manuel João Croca

Gil disse...

Fico à espera de mais, amigo Noronha, após tantos anos reaparecido :)

Sejas bem vindo!

Abraço