"Cheguei finalmente à vila da minha infância (...) Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu."

- Álvaro de Campos


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Livros d'África



JOAQUIM DE LISBOA (Joaquim da Silva Caetano Serra)

Nasceu em Cernache do Bonjardim em 1946. Aos 17 anos partiu para Angola para trabalhar empregado numa fazenda de café do Golungo Alto. Mais tarde ingressou no BCCI, em Luanda, cidade em que se manteve até 1975, o ano do regresso a Portugal.
Foi um regresso muito pouco habitual, mesmo naqueles dias de confusão, onde se verificaram todo o tipo de originalidades na hora da partida: houve quem trocasse automóveis por um saco de batatas ou por um simples pacote de cigarros.
Mas o Joaquim e mais cinco compinchas resolveram bater todas as originalidades: fazer a viagem de traineira!!!
“(…) E tínhamos então: um pescador reformado; o seu ajudante; dois comerciantes de Bairro; um electrotécnico; e eu do ramo bancário. Assim sim!... Já formávamos uma equipa polivalente capaz de enfrentar Oceanos e tempestades!”

E com tal “polivalência” se fizeram ao mar, corajosamente. As tropelias dessa jornada são-nos contadas pelo Joaquim de Lisboa com um imenso humor (o que ameniza bastante as situações difíceis que tiveram de enfrentar), misturadas com lembranças da sua vida em Angola no livro “NA ROTA DE DIOGO CÃO”, numa Edição de Autor de 2005.
“(…) Durante o dia (…) vimos um remoinho de mar que nos sobressaltou e donde se elevava uma espécie de vapor. Pensámos em primeiro lugar num submarino e já nos julgávamos a ser perseguidos, ou pior, embatidos, mas o tio Zé afiançou-nos que seria “apenas” uma baleia. Quando tentei saber mais e lhe perguntei quantas baleias já havia visto, respondeu-me:
- Nenhuma!
Fiquei descansado e esclarecido…”

Havia também assuntos sério a debater:
“(…) Abordámos o assunto em conversa e debatemos o que se faria se um de nós “batesse a bota” por doença ou acidente. Pode parecer coisa pouco importante para debater mas chegámos à conclusão que nada havia a fazer senão sepultar no mar aquele que no mar tinha morrido e… tentar salvar os restantes.
Eu por mim dispenso tal funeral até porque sou detentor de um talhão no cemitério de Caconda.”

E conta que o ganhou por ter descoberto naquele cemitério a sepultura do famoso naturalista José de Anchieta, ali falecido em finais do século XIX. O administrador, que não sabia(!!!), ofereceu-lhe o tal talhão fúnebre.
As memórias de Angola são imensas e pontilham todo o livro:
“(…) Mas quando, sem trabalho ou incertezas, desejávamos bater-nos com uma farta churrascada de peixe cacusso, rumávamos ao Porto Quipiri ali para os lados do Caxito nos arredores de Luanda, onde um pescador local, o Atanásio – às vezes no decorrer da festa e no despejar das cervejas já nos enganávamos e chamávamos-lhe, carinhosamente, Satanás! – previamente avisado, lançava as redes na lagoa e ao outro dia lá estavam prontos e esperando por nós os cacussos que, assados na brasa e decorados de gindungo, deixavam um cristão a pensar porque é que a gula era… pecado!!!”

Foi uma aventura heróica, a viagem do Joaquim e dos seus companheiros. Mas lá para trás ficou algo: a saudade.
“(…) A vida ia continuar, e daí para a frente, todas as noites as saudades de Angola viriam visitar-me, trazendo-me à lembrança uma terra que, com tudo o que continha e por estranho feitiço, eu tinha sido “condenado” a amar.”


Tomás Lima Coelho


1 comentário:

Gil disse...

Gostei muito e aguçou-me a vontade de conhecer melhor Joaquim de Lisboa e o seu sentido de humor!