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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

SAÚDE E CLARIDADE

 Risoleta Pinto Pedro

chi-kung-canoas

Tenho o maior respeito por todos os que trabalham a favor da saúde. E aqui englobo todas as formas de vida no planeta, cujo bem-estar faz parte das nossas preocupações.

Trago aqui um tema que não tem sido suficientemente tratado, ainda que seja bastante falado. Mas não necessariamente aprofundado sem preconceitos.

Tem vigorado, ao longo de séculos, um sistema mental de tudo avaliar em termos de bem e de mal. Separadamente. Usamos apenas duas gavetas do mundo. Aquela onde guardamos o que é bom e a outra onde escondemos o que é mau. Segundo os nossos valores. Nós próprios estamos numa dessas gavetas. Na do bem, quando nos queremos ver, uns como cowboys, e outros como índios, consoante o nosso sistema de crenças; e na do mal, quando o nosso amor próprio ou a falta dele nos atira para a gaveta dos índios… ou dos cowboys. E onde quer que estejamos, estamos sempre mal arrumados. Porque também as etiquetas “cowboys” e “índios”, estão equivocadas. O simples facto de haver etiquetas, o simples facto de haver gavetas, é o princípio do equívoco. Porque as coisas não funcionam assim. Comecemos por nós, que temos dentro o cowboy e o índio, sendo que o cowboy tem dentro de si o índio e o índio tem dentro de si o cowboy, e a coisa chega a um ponto em que já não é possível apontar o dedo a nada nem a ninguém, pois tudo contém tudo, como um sistema de bonecas russas. Não estou com isto a minimizar o quão devastador foi e continua a ser o efeito da ocupação do território nativo pelos que chegaram de fora. Esse é outro assunto. Não podemos é ficar eternamente plasmados nos arquétipos de vítima e vilão, pois desse modo só conseguimos perpetuar o que aconteceu. Agora há que olhar o que existe, o estado a que se chegou, aprender com o passado e recriar, pela imaginação e com a acção, o futuro. Muitos discursos acusatórios só atrasam. Vejamos um exemplo: a escravatura. As tribos que vieram a ser escravas da civilização branca tinham muitas vezes dentro delas, entre si, a prática da mesma. É evidente que numa sociedade organizada tem de haver regras, precisa de prevalecer a ética da defesa dos mais fracos. A nível individual e a nível colectivo. Mas não nos deixemos cegar pelo senso comum, ainda que devamos cultivá-lo, embora sem fanatismo.

Vem todo este arrazoado a propósito da questão da saúde. Em pequenina, no Alentejo perdido no meio da planície, andei ao colo de uma menina curandeira que teria mais uns dez ou doze anos do que eu e que sempre me tratou, como fazia a toda a gente da aldeia, gratuitamente. Depois, já noutras terras, ainda na infância, pelas doenças, a chegada do médico à beira da minha cama com sua bata branca, era sentida como a presença de um anjo. Tenho médicos na família, tenho médicos entre os meus queridos amigos e um profundo respeito pela profissão, assim como a atenção às dificuldades com que hoje trabalham, e não apenas no público. Vejo os médicos nos hospitais, nos centros de saúde, como verdadeiros heróis. Se no público é a falta de meios que impera, no privado observa-se uma enorme pressão sobre os médicos, relativamente ao “rendimento”. Estamos conversados. Poderia aqui contar casos de família e de amigos que num hospital privado foram dados como gravíssimos para intervenção urgente, e uma vez no público os médicos não encontraram nem um pequeno sinal dessa urgência, tendo tratado o caso com normalidade e eficácia. Toda a gente percebe do que se trata. Algo que não tem nada a ver com os médicos, interesses que os ultrapassam. Ainda há pouco tempo uma criança pequenina foi salva de uma intervenção urgente de que não necessitava, aos adenoides, necessitando, sim, dos adenoides de que iria ser privada. Salva por um médico do sistema público, no sistema público. Com isto, e porque não quero tratar este assunto com as ditas gavetas, não pretendo afirmar que sempre assim ocorra; há respeitáveis médicos no privado, conheço alguns. Conseguem manter-se dentro da ética e furtar-se corajosamente a essa pressão, e também no público encontramos falhas médicas, como em todas as profissões. Falo de médicos, falo de enfermeiros, falo de assistentes.

Avancemos um pouco mais. Sabemos de casos que se arrastam pelo público, pelo privado, em tratamentos infindos com medicamentos que umas vezes salvam e outras constituem enorme perigo, e que por fim, acabam por ir parar às chamadas medicinas paralelas. Com sucesso. Nem sempre isso acontece. Também aqui não quero criar gavetas, mas gostaria que começássemos a encarar as enormes possibilidades, com vantagens para a saúde pública, de uma aliança, a nível do sistema, entre as várias práticas. Como existe em alguns países. Mesmo na Europa. Mas o caso da China é o mais patente. Após os tempos da revolução maoista com perseguição às práticas da sua medicina tradicional, principalmente do Chi-Kung, o poder acabou por se render à evidência e tem hoje hospitais e laboratórios onde se faz investigação na vertente natural, onde a medicina tradicional chinesa com as suas acções terapêuticas milenares como a acupunctura, a massagem tuina, a fitoterapia, a dietética e o Chi-Kung, coexiste e colabora com a medicina moderna com tudo aquilo que nós conhecemos, nomeadamente a extraordinária evolução técnica, que traz, contudo, uma perversão, que é o risco de o médico, na sua tradicional observação, na relação com o doente, ficar apagado e esmagado pelas máquinas. O que não acontece nestes hospitais mistos de que falo. Há ainda, na China, outros hospitais, os do fim da linha, para onde vão os casos “perdidos” de todas estas tentativas, ali submetidos quase exclusivamente a práticas de Chi Kung energético puro e duro, e os resultados são qualitativa e numericamente surpreendentes, com percentagem grande de curas e nos outros, melhoria significativa da qualidade de vida. Milagres? Não! A ciência já explica. O problema é que também a ciência ainda está metida em gavetas e com dificuldade em abri-las. Mas vão sendo muitos os médicos no ocidente a frequentar cursos de medicinas paralelas e a usá-las na sua prática, médicos desenganados da sua própria medicina a irem tratar-se nas medicinas não convencionais, escolas de medicinas paralelas, como é o caso que conheço, a ESMTC, a incluir médicos e outro pessoal de saúde entre os seus formandos e entre os seus professores e entre os seus especialistas de medicina tradicional chinesa. De facto, as coisas estão a mudar. Claro que, no interesse dos doentes, terá de haver um reforço da regulamentação pioneira existente no nosso país, regulamentação essa que não pode passar pelo desvirtuamento das práticas tradicionais, pois isso seria retirar-lhes força e eficácia, mas porquê tanta resistência, tanto medo da parte das corporações? É só uma questão de tempo… É claro que algum mérito podemos encontrar nesta resistência, é ela que de algum modo ajuda a alertar para oportunismos. Nesse aspecto, há que agradecer. Mas oportunismos há em todo o lado e não pode ser esse medo a impedir a evolução que só pode beneficiar a saúde pública. A alternativa positiva ao medo e à força da resistência é foi a regulamentação.

Tive, recentemente, um problema nos olhos para que procurei ajuda médica pública e privada. Estava cada vez pior e cada vez mais agressivos os medicamentos. Evito recorrer aos familiares e amigos médicos por saber da sobrecarga a que estão sujeitos. Fui, como paciente, à Escola de Medicina Tradicional Chinesa, onde perceberam, pelos métodos de observação, teoria e diagnóstico da medicina tradicional chinesa, que se tratava do fígado. Uma vez iniciado o tratamento do fígado, passou o problema dos olhos, sem tratamento local aos olhos.

Uma amiga que há dez anos sofria com dores num dos ombros, com imobilização quase total e passagem por muitas tentativas de tratamento convencional, após uma sessão reduziu drasticamente as dores e ao fim de três levanta o braço acima da cabeça exactamente como o outro, e movimenta-o quase sem dores. Faz, agora, uma vida normal, fica a escrever até de madrugada (é escritora), e já não sofre.

Uma outra que aguarda intervenção cirúrgica no excelente serviço do Curry Cabral, mas já não aguentava com dores de meses, braço imobilizado, incapaz da mais pequena tarefa pessoal, dependente para tudo, embora continue a aguardar a intervenção, pois é um caso onde não há a mínima dúvida de que a medicina convencional tem de actuar, passou, contudo, a ter uma qualidade de vida incomparavelmente melhor, com a diminuição drástica da dor através da aplicação das agulhas e outros procedimentos da medicina tradicional chinesa. 

Eu própria, com uma tendinite semelhante a outras anteriores, de há uns anos, que tratei com fisioterapia, do que me sinto muito grata, mas com tratamento de meses, desta vez com a massagem e a acupunctura na mesma escola acima referida, quando saí já estava um pouco melhor, no dia seguinte já fazia tudo, à segunda sessão fiquei bem.

Não sendo especialista, poderia aqui tentar uma explicação à medida do meu fraco saber, acerca do funcionamento deste método tradicional, mas qualquer um pode fazer uma pesquisa. Já há muitos médicos e cientistas falando disto e usando-o em si e nos seus doentes.

Recomendo vivamente a seguinte e excelente reportagem da SIC de há 10 anos atrás:

https://www.youtube.com/watch?v=ElW9-m8AtYI&t=15s

E o seguinte vídeo do Biólogo Bruce Lipton, investigador e professor em Faculdades de Medicina:

https://www.youtube.com/watch?v=O7sf18GCB_U

A Escola de Medicina Chinesa, ali à Estefânia é um pequeno império de saúde no sentido mais nobre do termo, pela autoridade que vem ganhando com os reflexos do seu trabalho e o poder que confere aos alunos e pacientes persuadindo-os e ensinando-os como cada um pode e deve ser responsável pela sua saúde. Pequeno, porque tudo se passa dentro de um belo edifício excelentemente aproveitado, ali a meio da Rua D. Estefânia, que já foi museu dos CTT e Casa do Teatro dos Dias da Água, todo forrado a madeiras nobres, com seu jardim intimista e pequeno lago tranquilizador no centro; mas também império, porque o seu poder se estende a todos os lugares onde chegam os seus alunos, futuros e actuais especialistas  de mtc, e os ex-doentes com os seus testemunhos, como agora senti o impulso de fazer.

Tive recentemente uma lesão da coluna cervical devido a um violento puxão de três trelas, que me fez cair de forma impactante, o que me deixou algumas sequelas, sendo a mais duradoura tonturas quase incapacitantes com certos movimentos da cabeça. No dia seguinte ao tratamento, que é o dia de hoje, antes de escrever esta crónica já mudei o caixote das gatas, lavei o terraço, reguei o jardim, dei de comer aos cães, fiz a cama, apanhei a roupa, tomei banho, vesti-me, tomei o pequeno-almoço, etc, depois de uma noite bem dormida, sem tonturas, quando ontem, até o tratamento tive de receber sentada, porque não suportava a posição deitada, pela sensação de abismo.

Mas recordo, e volto lá, as tantas vezes que o médico de família me aliviou e tratou, a mim e à minha família, e o exemplo do meu dentista que trabalha, não por necessidade, mas pelo prazer que tem em tratar, e isso vê-se na sua prática, no cuidado, na competência, na seriedade, na boa disposição, a ponto de eu quase adormecer na sua cadeira, algo de inacreditável e inexplicável para quem tenha medo de dentistas, e tantos, tantos outros casos, que todos temos para contar. E outros que tenho na família, médicos exemplares de valor e dedicação.

Assim, o que tentei fazer aqui foi abrir gavetas, arejar conceitos, trazer experiências e criar canais de comunicação, como nos casos citados na reportagem acima.

Aos dois anos, a minha filha, com uma anemia séria, não assimilando o ferro, depois de vista por mais do que um excelente pediatra e já encaminhada para transfusões, que não iniciou, teve, ao fim de duas semanas de tratamento homeopático, os seus valores de sangue normais.

Foi a ida com ela, mais tarde, por outras razões, a uma consulta da ESMTC (Escola de Medicina Tradicional Chinesa), que me pôs em contacto com esta medicina e a sua prática de Chi-Kung, que nunca mais abandonei. Por isso, a minha relação com a Escola de Medicina Tradicional Chinesa é antiga e cheia de afectos.

Foi também através de indicação desta Escola, também formadora de veterinários nos princípios da medicina Tradicional Chinesa, que a minha cadela resolveu, há uns anos, um problema de pele que não passava com tratamento nenhum.

Iniciada em 92, hoje possui um centro de consultas individuais de manhã e de equipas à tarde, havendo em cada dia uma equipa diferente e cada equipa liderada por um professor ou professora diferentes, tendo com eles assistentes e estagiários, e alunos em final de curso que dura cinco anos, mais estágio em hospital chinês. Além desta vertente terapêutica, oferece cursos temporários de vários tipos de massagens e outras terapêuticas, aulas de Tai-chi e Chi-Kung, e, como centro e coração de tudo, a Escola, onde os alunos aprendem desde anatomia e fisiologia com médicos, às técnicas específicas da medicina tradicional chinesa, como dietética, meridianos, plantas, massagem energética, Chi-Kung, técnicas de diagnóstico…

Volto aos milagres: as pessoas que aí são tratadas quando ali aparecem já em estado de desânimo e começam a melhorar e muitas vezes se curam, usam frequentemente a palavra milagre. Mas não se trata disso. Para além da competência e do profissionalismo e dedicação que também podemos encontrar na medicina convencional, esta medicina vai à causa do distúrbio e é aí que vai agir. Não se pode tratar uma árvore com raízes doentes cortando-lhe as folhas. Tem de se ir às raízes. É claro que casos há que requerem intervenção hospitalar, tratamento convencional, onde a lesão já não é tratável de outra maneira, ainda que numa segunda fase possam recorrer à MTC para equilíbrio do sistema, pois sabemos como a medicina convencional ainda é, tantas vezes, invasiva e localizada. Segundo a medicina tradicional chinesa, é necessário harmonizar energeticamente o corpo, através de desbloqueamento e da comunicação entre meridianos. Bruce Lipton, o cientista acima referido, fala em cooperação. Somos saudáveis e íntegros porque todas as nossas células cooperam umas com as outras. O problema é que nós não cooperamos com elas e por vezes a nossa própria medicina, já em desespero de causa, porque a medicina ocidental é uma medicina do desespero, é a luta que traz como tratamento, por aquilo que retira, por aquilo que introduz. E por vezes também salva. Apesar de nós, que somos, normalmente, o grande obstáculo. A medicina convencional será assim enquanto o ser humano transportar a luta dentro de si. Tudo é uma projeção da humanidade. Daí a importância da medicina tradicional chinesa: o apontar de caminhos para o equilíbrio, a autonomia e o bem-estar integral, que inclui o corpo, mas não se fica por aí. Não é por acaso que a medicina convencional já começa a dar alguma importância aos aspectos psicológicos, ao paciente como um todo animado, isto é, com alma, e não como um puzzle inerte composto de peças a tratar uma de cada vez. As coisas estão a alterar-se, lentamente. Que este texto possa contribuir, de alguma forma, para trazer algum esclarecimento, ou seja, alguma réstia, por pequena que seja, de luz. Sendo, também, uma forma comovida de agradecimento a todos os que, onde quer que estejam, labutam pela saúde integral da humanidade e do planeta.

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Parabéns ao Estudo Geral


Risoleta Pinto Pedro



Entre F(r)estas
Ainda agora se despediram os Reis Magos e já tenho saudades de quando aguardava a sua vinda. Nunca gostei de despedidas, por isso tardo em guardá-los na caixa onde vão dormir até Dezembro.
Há quem diga que não eram reis, mas magos, outros nem uma coisa nem outra, e há, até, quem negue a sua existência, o que é difícil de acreditar após um convívio de tantos anos. A questão não me tira o sono, conheço-os muito bem; não tenho propriamente crenças, mas ninguém me venha dizer que o Menino Jesus e os Reis Magos não existem. É algo que eu sei para além da ciência que não conheço, para além da crença que não tenho.
Ao Menino, continuo a vê-lo em cada criança que nasce, e todos sabemos como estes meninos trazem já uma “tecnologia” muito diferente das gerações anteriores, mais próxima do de Belém, nascido muito à frente, completamente anacrónico ao seu tempo (e ao nosso?). Quantos séculos tivemos (teremos?) de galgar para lhe chegarmos aos calcanhares…
Na antiga cozinha da menina, onde na noite de Natal mãe e pai confeccionavam as azevias, conviviam ecumenicamente: uma espécie de paganismo místico de rosto eventualmente cristão pelo ramo do meu pai, e um ateísmo social solidário pelo ramo da minha mãe, qual mais nobre e respeitável que o outro, deixando-me  estas duas posições em liberdade para, sem saber sem ter sido ensinada, e sem saber que o fazia, adorar sozinha, frente à intimidade do presépio, enquanto as azevias se faziam, e para sempre, o Menino Po-ético Futuro e Universal.
(Pintura: "Adoração dos Magos", Sequeira; MNAA)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

CONVITE



Meus queridos amigos e amigas, aproveitando o presente correio para desejar sobre vós a benévola coroação de uma cornucópia dourada neste ano a abrir, venho convidar-vos para a apresentação do meu próximo livro, no dia 20 de Janeiro, sábado, pelas 15.00, na sala Araújo Ferreira da Escola de Medicina Tradicional Chinesa, na rua D. Estefânia, nº 173, em Lisboa. 
O livro, António Telmo, Literatura e Iniciação, editado pela Zéfiro na colecção Tomé Natanael, será apresentado por António Carlos Carvalho.
Nesta sessão, cuja abertura será feita pela  professora Deolinda Fernandes, directora da Escola, que com o filósofo privou, será também lançado o VIII volume das Obras Completas de António Telmo (Rui Lopo e Renato Epifânio), ocorrerá uma conferência sobre António Telmo pela escritora, poeta e ensaísta Maria Estela Guedes, bem como leituras de ambos os livros pelas escritoras/poetas Ana Paula Costa, Maria Azenha e Luísa Sousa Martins.
Com um caloroso abraço, antecipo o dia e a alegria do novo encontro em torno do iluminado e iluminador pensador da razão poética.

«António Telmo é uma espécie de semente de felicidade, algo que germina e germinará, pelo conhecimento, pela ética, pelo arrojo, pelo testemunho, pela Presença, pelo brilho elevado até na sombra. Se tentar descrever o que sinto desde sempre quando penso nos livros dele, é muito parecido com o sentimento que em criança (e recordo-me muito bem) dedicava aos brinquedos mais sonhados, mais desejados, como objectos mágicos. Algo assim: se tud...]o falhar existem estes livros, existe este pensamento. 
​[​...]
Fica arrumado que o sol pertence ao mundo das coisas sensíveis. E não nos ocupamos mais disso.
Mas quando António Telmo afirma: «Seja qualquer ser sensível, o sol, por exemplo», já é outra coisa. O sol já não é distante, já não provoca queimaduras, já não morreu, já não é uma estrela inalcançável. É um menino perdido no céu, solitário de tanto brilho, incompreendido de tanta distância, é antes a personagem dos poetas, o filho das mães, o pai dos filhos, o nosso rosto no universo, a máscara da nossa sombra, o cintilar das nossas lágrimas em arco-íris, o nosso coração de pedra em formato de luz. Enternece. Se pudéssemos pegar-lhe ao colo, falar-lhe-íamos como ao nosso amigo animal, como ao nosso boneco de dormir, como ao nosso filho quando bebé, como à criança que nós próprios fomos. É um ser sensível, o sol. Como nós somos e andámos a esconder de nós mesmos. Obrigada, António Telmo, hoje talvez escondido atrás do sol a rir deste meu delírio. Muito se aprende com a Gramática Secreta…» (do livro)

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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

UM TEXTO ANTIGO SOBRE UM TEMA NÃO RESOLVIDO:


por Risoleta Pinto Pedro

Refiro-me aos abusos sofridos pelos animais. E à hipocrisia humana.
Todos conhecem as campanhas publicitárias da Benetton: chocantes, lúcidas, denunciadoras.
Poderia ser assim a próxima campanha:
A cena passa-se na Austrália. A lã é retirada às ovelhas pelo seguinte e ultra-moderno processo: arranca-se a lã aos animais juntamente com a pele (por esfolamento) a que vêm agarrados pedaços de carne. Os animais ali ficam em agonia até acabarem por ser mortos. O que é uma sorte. Esta lã é excelente, o processo é rápido e barato. Só vantagens.
Não sei se os cartazes indicarão que essa lã é adquirida pela Benetton para fabrico dos seus produtos.
Em 2005, num mundo dito civilizado. Não é no Iraque nem num sítio desses moralmente desvalorizado.
E continuamos sentados nas nossas cadeiras giratórias. Giram tanto, as nossas cadeiras, dão-nos uma visão tão ampla que deixamos de ver. E de saber. E de querer saber. É como se não víssemos nada. E a carne de ovelha dá um excelente ensopado. Com banda sonora: os fracos balidos dos animais torturados. Para quem desejar. Confortavelmente, elegantemente vestido com as cores da Benetton.
Será a mais chocante campanha publicitária de sempre. Ou talvez não. A crueldade começa a ser banal.
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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A Crise do Porco


Risoleta Pinto Pedro

O porco faz parte do meu imaginário, como o de toda a gente.
Nos livros de histórias da minha infância eram muito redondinhos e apetecia pegar-lhes ao colo, um pouco como aquele porquinho da Tânia (se nos esquecermos da lâmina que lhe pôs na cabeça,  quando começou a ficar cor de rosinha, antes de ela o perverter na cor), minha amiga artista que criou a escultura de um porco com arame e papel, a propósito de um livro muito interessante sobre o mesmo, com texto e pintura, que saiu na &etc.  
Suponho que até cheiravam bem esses porquinhos das histórias de menina, qualquer perfume com uma imaginária marca Walt Disney. O porco da minha infância estava sustentado por uma estética aristotélica, muito diferente da desses porcos do livro da &etc, tão escandalosamente parecidos connosco, tão cheios de celulites e adiposidades fora do sítio e com um ar tão cheio e tão alienado de si que os torna escandalosos.
São tantas as máscaras do porco: o porco da matança, o porco dos vermes, o porco dos três porquinhos, o corpo do porco que, aberto, é um mapa, quase à escala do nosso interior. Porco meu, espelho meu, quem é mais bela do que eu? O espelho devolve-me uma imagem que me faz lembrar vagamente alguém... serei eu? Mas o que é aquela coisa espiralada ali atrás? A espiral está por trás do porco, o porco é rematado em espiral. Há esperança.
Atenção ao porco dentro de nós, ele espreita e ameaça tomar conta da situação a qualquer momento. Ninguém está livre do porco.
É imoral porque tem estrias na alma. O único porco digno é aquele verdadeiro, o da pocilga, honesto e igual a si mesmo. Viva o porco, abaixo o porco.
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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O Rio do Espírito


por Risoleta Conceição Pinto Pedro



Segundo informação amiga, que me enviou fonte fiável na qual depois tive oportunidade de eu própria confirmar o que vou dizer, o distintíssimo e historiador Jaime Cortesão é citado pelo inigualável (na sua área) investigador Moisés Espírito Santo a propósito de uma carta daquele ao beirão Lopes Dias. Neste estudo (“Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa”) Moisés Espírito Santo defende e prova que os judeus expressavam sempre o culto ao Divino perto de água, principalmente dos rios, pela convicção de serem estes fonte da expressão da divindade... naquela citada carta, Cortesão dizia que o rio Zêzere era o rio do Espírito Santo...
Porque, como diz Moisés Espírito Santo, “O culto do Divino prescinde dos templos e nem sempre se associa às capelas ou às esculturas que têm o seu nome.»
Segundo Cortesão, este culto terá sido, desde tempo remoto, muito popular nas cidades, vilas e aldeias sobretudo da Beira Baixa, destaca a larga difusão da imagem do Espírito Santo nos Concelhos de Santarém e de Portalegre e manifesta o sonho de fazer um inquérito pessoal na Beira Baixa e nas margens do Zêzere, onde o culto se manifestava de forma espontânea em «ramadas» e «cabanas». Não sei se chegou a fazê-lo.
Manuel Ferreira da Silva, num texto sobre os congressos do Espírito Santo que têm sido realizados, afirma, em consonância com o atrás dito: «[em 2001] Fizeram-se inquéritos por todo o país; e, sobretudo através das Misericórdias, apurou-se que as tradicionais e populares Santas Casas eram, na sua maioria, a memória e herdeiras da Confrarias, Impérios do Espírito Santo em todo o espaço lusitano, designadamente na Beira, ao longo do Zêzere até ao Tejo – e a propósito do que o historiador Jaime Cortesão chamava ao rio Zêzere o “Rio do Espírito Santo”»
Segundo o estudo citado, as dezenas de capelas ao Divino estão construídas junto ou muito próximas de cursos de água: rios e ribeiros. Não os havendo, abriam poços, para que a água estivesse presente.
«O Divino» é como os judeus e os beirões (deles herdeiros, tenham ou não disso consciência) designam o Espírito Santo.
Vem esta conversa a propósito da próxima realização, em Setembro, em Lisboa e Alenquer, de mais um Congresso sobre o Divino, o culto do Espírito Santo. Alenquer e Lisboa são para mim espaços de alimento do espírito: o meu espírito de criança, o meu espírito de adulta aí se alimentaram e continuam a alimentar. Como Ferreira do Zêzere. Quer possa ou não ir ao congresso, tentarei estar atenta ao que lá se passar e espero que aí seja evocado também este rio, transportador de beleza, sonhos e… do Divino. O Espírito Santo. Sempre senti que esta era uma terra abençoada. Compreendo agora que, pelo menos em parte, a bênção lhe vem do rio que lhe confere metade do nome.


Notinha: Este textinho, já publicado em "O Despertar do Zêzere", foi gentilmente cedido pela autora para publicação no Estudo Geral. 

sábado, 20 de agosto de 2016

Do corpo e seu sagrado trânsito


(Uma breve história da vergonha)

por Risoleta Pinto Pedro


(pintura: Amanda Greavette)

Sem querer dar ideias, pergunto-me por que razão ainda não inventaram pílulas e cápsulas para não evacuar, para não urinar, para não espirrar, para não bocejar, para não respirar… Então não é uma maçada termos de lidar com os nossos dejectos, os nossos salpicos, os nossos ventos, as nossas névoas, humidades e outros elementos da natureza de que a dinâmica do corpo se sustenta e equilibra?… E que são vistos como pequenos ou grandes incómodos, erros da natureza, imperfeições da espécie, falta de educação se em público…
Se tossimos, todos nos olham como se fôssemos tuberculosos, se espirramos todos se desviam comos e fôssemos ET’s ou a única pessoa no mundo a espirrar, se transpiramos quase pedimos desculpa como se pelos poros saíssem, para além de coisas que já não nos fazem falta, a interior humidade num inteligente processo de limpeza e refrescamento do corpo, uma espécie de ar condicionado natural, como se de nós saísse um veneno de cobra ou uma gelatina viscosa, vergonhosa e profana.

Talvez este preconceito que a educação vai reforçando ao longo de gerações radique numa memória de culpa.

É que se algumas mães se regozijam e fazem uma festa quando o bebé faz um cocó apelidando de lindo o que acaba de sair do corpo do seu filho (e na verdade, para quem consegue ver a natureza profunda das coisas o que a criança expulsa é, como tudo o que existe, luz; e na verdade é belo que o corpo funcione na sua perfeição e possa libertar aquilo de que não necessita sem que isso tenha de ser amaldiçoado), a maioria cedo incute na criança a crença de que aquilo é feio, sujo e nojento.

Aquilo que é, afinal, a obra divina.

Mas tudo isto pode ter a ver, repito, com a primeira maçã colhida da Árvore do Conhecimento. É que ao ingerirem a maçã proibida, era preciso verem-se livres dela. Nessa altura Deus já era um detective. Coitado. E que melhor forma de o enganar, que não a evacuação? Talvez eu esteja a brincar, talvez não. Mas existe aqui um complexo de culpa e vergonha associado ao corpo. O primeiro homem, a primeira mulher (estamos em plena linguagem simbólica, por favor não interpretem literalmente), perante a desobediência, sentiram culpa e vergonha, que muitas vezes andam associadas. Era preciso verem-se livre do objecto do crime de desobediência e depois esconder. É o que fazemos. Escondemos tudo o que aprendemos a encarar como feio, vergonhoso ou inútil. Até escondemos os nossos lixos no fundo dos mares, como as crianças escondem os papéis das pastilhas e gomas que ingeriram a mais debaixo da cama. Somos crianças com um sentimento de culpa e de vergonha não do tamanho do mundo mas maior, muito maior. Não estará longe o tempo (e cá estou eu outra vez a dar ideias) em que expelimos os nossos lixos em naves espaciais. Na volta até já há quem o faça, eu que não sabia…

Pois é, escondemos, escondemo-nos. Por essa razão (e cheguei finalmente ao motivo que me trouxe a esta crónica) é quase tão difícil encontrar, como uma agulha em palheiro, nas prateleiras dos supermercados, um desodorizante que não seja anti-transpirante. Na maioria nem existe…

Porque é preciso que não transpiremos. Mesmo que seja um crime contra nós mesmos e aquilo que devia sair na respiração volte para trás e aí sim, contamine pelo caminho os lugares por onde passar, com as consequências, umas imagináveis, outras inimagináveis, para a saúde, porque é contra-natura, no corpo, este sentido ao contrário. Tudo isto, porque não queremos sentir ou mostrar vestígios de humidade por baixo dos nossos braços. Como se não fôssemos de carne, como se fôssemos feitos de plástico. Bonecos não transpiram. Pessoas podem e devem transpirar. PERCEBERAM, senhores dos laboratórios e dos supermercados, consumidores e todos? Não é vergonha, é natureza, é saudável, é divino e é belo. Acredito que até Deus transpire, então não somos feitos à sua imagem? Transpiração é coisa de Deuses. Como é possível criar sem transpirar? Só os bonecos e os anjos não transpiram. Nós somos humanos. Faz parte da nossa natureza. Essa que passamos a vida a rejeitar até morrermos prematuramente. Por excesso de plástico e vergonhoso asseio.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Silêncio


Risoleta Pinto Pedro


branca flor


Abro a porta do frigorífico e uma imobilidade e um silêncio ao mesmo tempo me tomam. Do fundo dos tempos, dentro do saco onde a guardo, o perfume misterioso da hortelã. Invade a casa depois de passar pelas minhas mucosas e espalha uma bênção airosa e firme a recordar avós e mãe. As mãos que no tempo têm colhido, recolhido e transportado a hortelã de vasos ou da terra para dentro de tachos, chás, mesas rituais.
Fica para trás o frigorífico e passo à porta que dá para o terraço. Sentada, em pose nobre e elegante, a minha cadela, imóvel, aspira discretamente algo que só ela saberá. É frequente a esta hora, no início da manhã, ou no final da tarde, sentar-se na abertura da porta e assim ficar aspirando o ar como quem contempla. E ao mesmo tempo contemplando com o olhar algo que não consigo ver, que apenas ela consegue descortinar. O rastro do sol que chega, do sol que parte? O Silêncio, que ao início da manhã e ao fim da tarde, num momento, se torna absoluto e eterno? Contemplará ela a eternidade?
Ela contempla o invisível e eu imito-a, contemplando o perfume da hortelã e contemplando-a a ela. Momentos de absoluta paz que apetece eternizar, mas que apenas têm valor porque são únicos, não perenes, mas constantes, o retorno eterno. A promessa de que cada dia terá, pelo menos, dois momentos de paz indescritível e viva. Antiga. Não sei de onde vem. Mas passa pela hortelã e por uma cadela (ou mais) sentada entre portadas, doméstica e inapreensível.




quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

ESTUDO DO RIO E DO CÉU E DAS OUTRAS COISAS GERAIS QUE ENTRE ELES SE ENCONTRAM



por Risoleta Pinto Pedro

Filosofia & Presépio

“ […] A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
[…]”
Alberto Caeiro


Em Filosofia & Kabbalah, de António Telmo, um livro em renascimento neste tempo de Natal, através da sua reedição ampliada enquanto IV volume das Obras Completas, diz o filósofo, nesta minha velha amiga, a edição de 1989 da Guimarães:
“No quadro original da filosofia de língua portuguesa, isto é, nas expressões nossas de amor à sabedoria, existem «luzes», como diria o poeta, capazes de nos fazerem ver. E uma dessas luzes é o sentimento português e brasileiro de Deus como Menino, o qual já Unamuno dizia caracterizar o nosso Cristianismo. Terá havido quem, ao ler o poema VII do Guardador de Rebanhos, se tenha sentido indignado com a malícia, que roça a blasfémia, como aí é tratada a Trindade Católica. O que aí há, porém, é ensino de boa teologia cristã e um desaprendizado ou desfazer das imagens religiosas que, por via directa ou indirecta, a educação clerical prendeu ao inconsciente. “

Afirma mais à frente:

“À visão original do mundo chamei eu, linhas atrás, visão infantil do mundo. E está certo, desde que, recordando o que Fernando Pessoa escreve em Páginas de Doutrina Estética sobre Afonso Lopes Vieira, não se atribua às crianças a imaginação que o adulto julga que elas têm. A definição foi já dada: «ver» pela primeira vez o que se repete, deter-se maravilhado perante as coisas e os seres como se nunca tivessem sido vistos. E então tudo surge aos nossos olhos «como fenómeno», como o que não estava ali e de repente «aparece» e mostra no aparecer tudo o que é. Assim, na imaginação infantil, não há imaginar ou sentir: através dela o espírito actua como um fiat. O Menino Deus é o «Guardador de Rebanhos» e o filósofo que vai com ele de mãos dadas pelo campo é, como diria Heidegger, «O Pastor do Ser». “

E é aqui que toca, para mim, neste tempo de advento, o essencial: cada vez que refaço ou actualizo ou enceno, em cada ano, a constelação presépio, nunca o meu olhar é igual. O presépio tem a força mágica de pintar ou dotar os meus olhos de uma visão nova: o menino, sendo o mesmo, nunca é igual, e o mesmo com os outros arquétipos. Não só no lugar que ocupam relativamente uns aos outros e a mim mesma, mas eles próprios mudaram. Ou foi o meu olhar.
Não conheço melhor definição de presépio:
“E então tudo surge aos nossos olhos «como fenómeno», como o que não estava ali e de repente «aparece» e mostra no aparecer tudo o que é.”
Um físico quântico não diria melhor.
Num documentário sobre a realidade do ponto de vista quântico que vi há tempos, existe uma cena em que uma mulher se levanta de manhã e ao correr os cortinados para olhar a rua, subitamente tudo se reagrega, como um cenário que não estava lá, mas a que os olhos dão vida.
Assim é o meu presépio, a “visão original do mundo”, nas palavras de António Telmo.
Para todos, um muito Feliz Advento! Novo, novinho, a estrear. De tão repetidamente original.



Votos de um Natal, Advento, Solstício ou Renascimento à medida do que for, para cada um, a ideia da felicidade ou apenas suave e intensa serenidade. Que o menino sábio universal  se espreguice e desperte dentro de nós ao ritmo que a cada um aprouver. Para felicidade das almas em corpos saudáveis e tranquilos. 
R


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

"Happy Meal - manjar sentimental" Risoleta C. Pinto Pedro




Texto de apresentação do lançamento do livro de Risoleta C. Pinto Pedro "Happy Meal - manjar sentimental", de Luís Santos, na Escola Artística António Arroio, em 20/10/2015:



“Happy Meal” – manjar sentimental
Manual de sobrevivência para adultos às voltas com adolescentes

Agradecimentos

Antes de mais, agradecer o convite que me foi dirigido pela amiga Risoleta para apresentação do seu livro.
Ficámos particularmente satisfeitos pela apresentação do livro acontecer na Escola Artística António Arroio pela qual temos especial carinho, até porque Rui Madeira, o seu Diretor, é um amigo de longa data, com quem o destino se vai encarregando de nos marcar encontros amiúde pelo tempo, em lugares muito inesperados. Como sabemos, foi também aqui que a amiga Risoleta passou largos anos à volta com adolescentes, coisa que como se verá foi, e continua a ser, muito merecida sina de vida.
Agradecer a presença de todos.
Dividiremos a apresentação do livro em duas partes: A primeira onde faremos algumas referências à sua capa, título e estrutura; a segunda, onde abordaremos algumas das suas múltiplas interessantes questões.

1ª Parte – Capa, Título e Estrutura do Livro

- Sobre o título, “Happy Meal – manjar sentimental”, embora tenha demorado a chegar, como nos confessa Risoleta, não podia ser mais adequado. Creio que já todos ouvimos falar nesse procurado “hamburger” de famosíssima indústria alimentar. Ora, para um livro que se dá, desde logo, como um “manual de sobrevivência para adultos à volta com adolescentes”, uma das grandes apreensões que logo transparece é, justamente, o “fast food” (ou “comida de plástico” como é também de uso dizer-se), constituir o tipo de alimentação preferencial de muitos adolescentes, mais as nefastas consequências que daí advêm. Particularmente, quando se pensam os cuidados a ter com a alimentação como de decisiva importância para uma “mente sã, coração terno, corpo puro”, lembrando a divisa rosacruciana, de forma a que uma saudável longevidade nos assista.

É também por aí que vai a singela pintura de capa, de Bruno Ma, viva criatividade e aprumada estética, onde numa mesa posta e pronta se serve tempo e equilibrada geometria, que junta triângulos a uma plena lua e a um rio onde se espelha o céu, a expressa paisagem que assiste à autora e à necessária inspiração literária que determina a obra. Título e pintura revelam-se, assim, como pingos de luz que se inscrevem e resplendem no preto neutro do fundo da capa.

Deixando umas palavras pela Estrutura em que se ergue este, e digo já, magnífico livro, a imagem que nos ocorreu quando da sua leitura foi a de uma bela sinfonia, dividida em vários andamentos, talvez pela ligação que a autora tem mantido com a dança e seus libretos múltiplos. De facto, o livro constitui-se por narrativas várias, a um só tempo independentes e interligadas, dando possibilidade de uma leitura a várias vozes que são, tal e qual, a múltipla heteronímia da própria autora, desenvolvida e cimentada durante diferentes períodos e instâncias da vida, pois que é de uma narrativa de cariz autobiográfico que se trata.

Cada um dos 4 andamentos em que vemos dividido o “libreto da sinfonia”, um justo adjetivo para este nosso livro, trazem toda uma trama onde se vão desenvolvendo as grandes linhas de força da narração. Mas tenhamos em atenção que estes “andamentos sinfónicos” não se sucedem consecutivamente, antes se trocam e misturam entre si, dando origem a perfeitas alterações de ritmo nas voltas do texto.

Assim, num 1º andamento, é-nos oferecido um registo autobiográfico de superior reflexão espiritualista que constitui a narrativa central da obra;
Como 2º andamento, temos uma compilação de peculiares “receitas alimentares” alquímicas, onde a mistura dos corpos com os alimentos não podem ser abandonados, sem mais, às imperiosas necessidades lucrativas de uma obesa indústria alimentar;
No 3º andamento, intitulado “As Lições do Tonecas II”, pressupostamente escritas por pena de adolescente, o seu sobrinho Rubem, descreve-se em discurso direto uma velha escola, caduca, onde se alerta para os tradicionais desencontros e as falhas de comunicação entre professores e alunos, agrilhoada que está a velhos modelos sem força para se libertar;
Por fim, um 4º andamento, de seu nome “A Casa do Vento Vazia”, onde se assinala um mergulho intenso nas memórias de infância da narradora, nas suas purezas e medos, mas onde se reconhece convictamente que o melhor do mundo são mesmo as crianças, como sustentam poetas e deuses, mas ainda assim com tanto mal em redor. E citando a autora, “a menina luz que eu fui sem saber, está sempre ao meu lado nas minhas aventuras dos sonhos, como um duplo…”

2ª Parte – A Trama do Livro

Avancemos para as grandes linhas estruturantes por onde se estende o livro, desde logo, sem que esqueçamos o seu subtítulo, “um manual de sobrevivência para adultos à volta com adolescentes”. Comecemos pelos personagens principais e por alguns dos traços que mais os caracterizam:
Renata (algumas vezes também nomeada por Suria), narradora e personagem central, a braços com o seu recente divórcio, mais as perturbações e inseguranças que se lhe possam associar, mas também a liberdade de quem fica com a própria vida, inteira, entre mãos. Mas eis que subitamente lhe entra em casa um sobrinho, que vem estudar para Lisboa e ocupar-lhe a casa e o tempo, mais os imensos necessários cuidados que a adolescência sempre trás consigo. O sobrinho e uns quantos amigos de quem se vai rodear.

Como se não bastasse, o divórcio trouxe a Renata a necessidade de mudar de casa e acaba por ir morar para um prédio onde vive um Professor, José Bento de seu nome, que tem tanto de simpático como de enigmático vizinho, conhecido na vizinhança por ser “comedor de rosas”…

Detenhamos, então, a nossa atenção nas 2 principais questões com que Renata se vai debater ao longo da estória. Por um lado, as preocupações que a dieta alimentar do sobrinho lhe trás: o vício dos “happy meals”, problema que ganha dimensão particular para quem é vegetariano como é o caso da narradora; e, por outro, quais os valores que se escondem por detrás de um vizinho, professor, que é “comedor de rosas” e, como se não bastasse, está de licença sabática a fazer uma tese de doutoramento sobre… “rosas”, com quem Renata vai, afinal, descobrir que tem muitas coisas em comum.

Pensemos no simbolismo espiritual das rosas, pois que reconhecemos em José Bento um personagem caracterizado por desenvolvida espiritualidade, em busca de explicações para os mistérios da vida. Como a própria Renata diz, “das rosas que nos trazem o amor e que entre reencarnações e ressurreições, nos livram da morte”. Numa tese de doutoramento, em cujos capítulos se enunciam estudos sobre “o grande arquiteto do universo, da rosa que floresce na cruz, ou do milagre das rosas”.

Para nós, antes de mais, entre as repetidas rosas e os mistérios que em si encerram, logo automaticamente nos chegam duas figuras centrais da História de Portugal, esse rei e poeta “plantador das naus a haver”, como Fernando Pessoa se refere a D. Dinis na sua Mensagem, pela importância que haveria de ter no devir da expansão ultramarina portuguesa, e na sua mulher, a santificada Rainha Isabel de Aragão, mais o seu “culto popular do Espírito Santo”, sobre o qual Agostinho da Silva tanto refletiu e enalteceu.
Mas diga-se que o espaço geográfico, cénico, em que se desenrola a misteriosa trama do livro, pois que é um livro essencialmente sobre vida e “misteriosofia”, utilizando o conceito de António Telmo, longe de se centrar exclusivamente em Portugal, faz pensar num amplo espaço/tempo que vem, pelo menos, desde o Antigo Egito (sem esquecer a diáspora judaica) e se estende até Tomar, cidade templária, onde, como é sabido, posteriormente se sediará a “Ordem de Cristo”, que depois partirá nas naus para o Oriente, para a Índia, para o Tibete, “dando novos mundos ao mundo” para relembrar o verso de Luís de Camões. Mas não descurando, que lá temos também o Tao e temos Buda, entre esse espírito português ecuménico, “católico”, quer dizer, universal, para não fugirmos de todo à etimologia da palavra, onde tempo e eternidade se pretendem coetâneos.

A determinada altura da estória, José Bento, o tal da tese de doutoramento, corria o mês de Dezembro, chama a atenção de Renata para um barco que tinha chegado a Lisboa carregado de rosas. Ao que esta logo pergunta: “Rosas em Dezembro?”…
Embora não se refiram grandes pormenores sobre a estrutura do barco, nem dos lugares por onde navega, necessariamente que o vemos construído com pinho de Leiria e com passagem obrigatória pela “Ilha dos Amores”. Mas Renata acaba por não ver estranheza naquele facto e logo a sua superior prosa nos esclarece: “…No estado em que estávamos achávamos tudo natural. Apesar de tudo deslumbrados. Mas era um deslumbramento natural perante a naturalidade das rosas. Porque, nesse momento, era para nós uma evidência que os milagres nos rodeiam e apenas esperam que reparemos neles.”

Evidenciados, e semi-resolvidos, que ficam alguns dos mistérios de José Bento, porque o mistério, como se conclui nesta obra, veio para ficar, iremos agora à responsabilidade que a narradora sente nos cuidados a ter com a alimentação de Rubem e o problema dos “happy meals”.

Num momento de descrença amorosa, Renata decide fazer com Rubem uma peregrinação a Santiago de Compostela. Vai cuidar demoradamente dos pormenores necessários a delicada viagem, mas nas vésperas da partida, para seu grande tormento, obrigações profissionais acabam por lhe trocar as voltas e impedi-la de fazer a viagem. Rubem, porém, não desiste e mais o seu amigo Tiago avança rumo à Galiza. E eis, então, que no regresso o milagre se dá: o apóstolo, Santiago, o amor, não lhe vai permitir continuar a alimentar veleidades. E se o corpo, o coração e a mente, se querem puros, ternos e sãos, não há-de ser com “happy meals” que se vai lá chegar.

Terminando, gostaríamos de deixar bem claro, sem favor algum, que estamos perante um livro extraordinário, onde “o verbo fala o verbo”, o que só por si dispensa mais elogios. Este o seu maior prémio, a luz que a palavra sagrada lhe dá, mas que pela sua humilde grandiosidade, certamente, que outros bons e duradouros prémios virão. Adivinha-se.

Pelo nosso lado, não podemos deixar de manifestar a nossa gratidão à autora, pela preciosa amizade, pelo convite com que fomos distinguidos, mesmo não nos julgando à altura da apresentação dos requisitos de tão digna obra. Mas talvez que um poema de Agostinho da Silva, com que os deixamos, lhe possam trazer mais justiça. Diz assim:

“Se eu chegar a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo 
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

não só homens mas também
os animais e as plantas 
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurrecta da morte".



Luís Santos