"Firme, forte, bem enraizada, a última azinheira e a sua dríade ou Espírito da Natureza, qual Deusa Mãe Terra, saúda-nos e pede-nos para defendermos mais as árvores, em especial as mais velhas, raras e sagradas..." (Pedro Teixeira da Mota)



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O Rio do Espírito


por Risoleta Conceição Pinto Pedro



Segundo informação amiga, que me enviou fonte fiável na qual depois tive oportunidade de eu própria confirmar o que vou dizer, o distintíssimo e historiador Jaime Cortesão é citado pelo inigualável (na sua área) investigador Moisés Espírito Santo a propósito de uma carta daquele ao beirão Lopes Dias. Neste estudo (“Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa”) Moisés Espírito Santo defende e prova que os judeus expressavam sempre o culto ao Divino perto de água, principalmente dos rios, pela convicção de serem estes fonte da expressão da divindade... naquela citada carta, Cortesão dizia que o rio Zêzere era o rio do Espírito Santo...
Porque, como diz Moisés Espírito Santo, “O culto do Divino prescinde dos templos e nem sempre se associa às capelas ou às esculturas que têm o seu nome.»
Segundo Cortesão, este culto terá sido, desde tempo remoto, muito popular nas cidades, vilas e aldeias sobretudo da Beira Baixa, destaca a larga difusão da imagem do Espírito Santo nos Concelhos de Santarém e de Portalegre e manifesta o sonho de fazer um inquérito pessoal na Beira Baixa e nas margens do Zêzere, onde o culto se manifestava de forma espontânea em «ramadas» e «cabanas». Não sei se chegou a fazê-lo.
Manuel Ferreira da Silva, num texto sobre os congressos do Espírito Santo que têm sido realizados, afirma, em consonância com o atrás dito: «[em 2001] Fizeram-se inquéritos por todo o país; e, sobretudo através das Misericórdias, apurou-se que as tradicionais e populares Santas Casas eram, na sua maioria, a memória e herdeiras da Confrarias, Impérios do Espírito Santo em todo o espaço lusitano, designadamente na Beira, ao longo do Zêzere até ao Tejo – e a propósito do que o historiador Jaime Cortesão chamava ao rio Zêzere o “Rio do Espírito Santo”»
Segundo o estudo citado, as dezenas de capelas ao Divino estão construídas junto ou muito próximas de cursos de água: rios e ribeiros. Não os havendo, abriam poços, para que a água estivesse presente.
«O Divino» é como os judeus e os beirões (deles herdeiros, tenham ou não disso consciência) designam o Espírito Santo.
Vem esta conversa a propósito da próxima realização, em Setembro, em Lisboa e Alenquer, de mais um Congresso sobre o Divino, o culto do Espírito Santo. Alenquer e Lisboa são para mim espaços de alimento do espírito: o meu espírito de criança, o meu espírito de adulta aí se alimentaram e continuam a alimentar. Como Ferreira do Zêzere. Quer possa ou não ir ao congresso, tentarei estar atenta ao que lá se passar e espero que aí seja evocado também este rio, transportador de beleza, sonhos e… do Divino. O Espírito Santo. Sempre senti que esta era uma terra abençoada. Compreendo agora que, pelo menos em parte, a bênção lhe vem do rio que lhe confere metade do nome.


Notinha: Este textinho, já publicado em "O Despertar do Zêzere", foi gentilmente cedido pela autora para publicação no Estudo Geral. 

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