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sábado, 12 de novembro de 2016

TOTALITARISMO E DEMOCRACIA


Abdul Cadre
Vendas Novas, 11 de Setembro de 2016

Aceite, consentido ou imposto, todo o pensamento único é, insofismávelmente, a fórmula codificada da implementação do totalitarismo. Nas sociedades sufragistas, que invocam em vão o santo nome da democracia, a prática é, em nome das maiorias, sufocar as minorias até que se tornem invisíveis, escamoteando-se que a opressão, o totalitarismo e a tirania não são um exclusivo de minorias armadas até aos dentes. Tirania é tirania, seja exercida por poucos seja exercida por muitos.

Sociedades de maiorias e sociedades de massas, mais estas do que aquelas, tendem a aceitar qualquer tipo de totalitarismo e estão sempre prontas para o expurgo das diferenças. Os demagogos sabem bem disto e é-lhes muito fácil arrebanhar multidões: vendem à pequena burguesia o pronto a pensar e às classes laboriosas o pronto a dizer, arranjam um inimigo a quem se retira a humanidade e está pronto o estrugido.

Com sufrágio ou sem sufrágio, com inimigos unificadores ou sem eles, o pensamento único impõe-se e torna-se, não uma rotina, como alguns dizem, mas a rotina, o caminho único, o hábito único, o comportamento único; fora destes espartilhos é a heresia e os autos-de-fé. Toda a heresia merece ser castigada. Era assim na outra Idade Média e é assim na actual.

Nesta Idade Média Pós-moderna, seja a Leste seja a Oeste, aposta-se forte nos mecanismos securitários. Na boca dos mandadores deste baile mandado a segurança não passa de um eufemismo que se pode traduzir por alienação das liberdades para espantar o medo. Ora, acontece que, quanto mais queremos calar o medo, mais medo temos, o que nos leva a alienar mais e mais liberdade até que ficamos tão «seguros», isto é, tão agrilhoados que acabamos por ter medo de ter medo. Foi isto que aconteceu nos países ditos do socialismo real e é isto que está a acontecer nos países anti-socialistas integrantes do Império Alemão, a que os ingénuos chamam União Europeia.

Durante o decorrer da campanha actual para a presidência americana, O candidato marginal ao sistema Bernie Sanders dizia algo indesmentível: «Tudo aquilo que temíamos no comunismo: perder as nossas casas e posses, economias, ter de trabalhar duro por um salário miserável realizou-se graças ao capitalismo».

O pensamento único está aí, as fogueiras autênticas de antigamente, não. As que há agora têm outra e diversificada natureza. Por exemplo, a ninguém é permitido, sem a risota geral, pensar fora do sebentismo académico da ideologia do mercado, sucedânea das religiões salvíficas de paraísos impalpáveis. As Universidades formatam os novos sacerdotes da religião do mercado com o mesmo afã com que a igreja romana formatou crentes e incréus ao longo dos séculos. A formatação deixou tantas sequelas que ainda hoje os ateus não conseguem negar outro deísmo que não seja o da Bíblia. De semelhante e paradoxal jeito sofrem os comunistas que sobram por aí: todos eles falam economês com a mesma fluência e convicção dos mandadores e dos mandatários do sistema único em vigor. Também eles assimilaram muito bem o «não há alternativas», mesmo que se retorçam a dizer o contrário. Vejam bem como o pensamento único é mais ameaçador do que o aquecimento global!

Esta aceitação, esta subordinação a pensar segundo o que está instituído e de nos comportarmos como se espera que façamos constitui uma doença grave de características epidémicas, que pode levar à morte da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, tendo como consequência o impedimento da solidariedade, da tolerância, da aceitação do outro e das diferenças, da empatia, da compaixão, do humanismo.

Os sinais estão por toda a parte e só os não vê quem optou por pôr – voluntariamente ou por ignorância – as talas mentais que já não é preciso colocar-lhes à força. Veja-se, por exemplo, como a «indignação» se tornou um produto internético inconsequente e como há tanta gente sentada ao computador a indignar-se com os que não pertencem aos hábitos e aos comportamentos inerentes ao totalitarismo da ditadura democrática. O pensamento único ensina-nos que é bom que nos indignemos, não com o mal, mas com a dessincronia; temos todos de marchar com o passo certo e apanhar muitos Pokemons.

(in, A Verruma, http://acverruma.blogspot.pt/2016/09/totalitarismo-e-democracia.html?m=1 )

sexta-feira, 10 de julho de 2015

PARTIDO ALEMÃO (AfD ) NAS PEGADAS DA “FRONT NATIONAL” FRANCESA?


O Despertar dos Nacionalismos como Resposta à Irresponsabilidade política e económica da União Europeia


António Justo

No Congresso do partido AfD (Alternativa para a Alemanha) realizado em Hessen a 4-5 de Julho, impuseram-se as forças nacional-conservadoras, elegendo como sua presidente Frauke Petry. Deste modo a AfD perdeu o seu fundador Prof. Dr. Bernd Lucke que há anos atrás tinha profetizado a actual crise da Grécia.

O economista Bernd Lucke, depois de ter sido destituído de chefe demitiu-se do partido. Lucke vê na eleição da nova direcção ( a sua rival Frauke Petry) uma nova orientação que permite o espalhar-se de  ideias latentes islamofóbicas e contra estrangeiros. O presidente deposto alega que a nova presidência assumirá uma orientação antiocidental (USA) e “uma orientação resoluta a favor de uma política externa e de segurança pró-russa”.

Bernd Lucke na sua atitude professoral não era a pessoa mais indicada para estar no topo do partido que reúne em si imensa gente descontente. Bernd Lucke é presidente da Associação “Weckruf 2015” (“Relógio Despertador 2015 ") e pode fundar um novo partido. Nos últimos dias 600 membros já abandonaram o partido AfD que contava com 21.000 filiados.

Apesar da clientela do partido, no dizer dos partidos estabelecidos, constar de uma mistura de “críticos do sistema, nacionalistas, populistas, amigos do movimento Pegida e racistas” não será fácil a Bernd Lucke conseguir a fundação de um novo partido que se afirme.

Com Frauke Petry, o partido tornar-se-á mais radical. Atendendo ao geral descontentamento político em relação aos partidos principais e aos problemas de integração de estrangeiros, à crise do Euro e ao descontentamento de grande parte da população em relação à política americana nas fronteiras com a Rússia, a AfD continuará a ter muitas chances.

Embora a Alemanha não se possa comparar com a França, o potencial de eleitores do estilo da “Front nacional” francesa, aumentará também na Alemanha. Frauke Petry afirma que não seguirá as pegadas da Front nacional.

Os ventos que correm na Europa e no mundo, em reacção ao globalismo e ao modo como a UE se comporta com os seus países membros, dão mais razão a uma retalhação da sociedade como movimento reactivo às centralizações do poder político-económico-ideológico.

Numa democracia, os governos e os parlamentos dependem dos eleitores e estes estão muito descontentes devido a uma política europeia de tecnocratas cada vez mais distante dos cidadãos e mais próxima das elites. O melhor exemplo revelador da situação europeia torna-se palpável no teatro da tragédia grega e no teatro das marionetes de Bruxelas. De um lado o nacionalismo grego e do outro lado os nacionalismos congregados em torno da UE e representados até ao esgotamento.

António da Cunha Duarte Justo
Jornalista


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Thomas Piketty “o Karl Marx do nosso tempo”?


A Desigualdade económica bloqueia o Futuro

António Justo

O especialista Thomas Piketty, professor de economia na École d’économie de Paris, no seu livro “O Capital no século XXI” mostra o surgir de um fosso cada vez maior entre ricos e pobres nas nações industriais. Provou que a riqueza se mantem durante séculos em determinadas famílias. O cúmulo da questão, como ele conclui, encontra-se no facto de os rendimentos do trabalho serem inferiores aos rendimentos do capital. A injustiça permanece e acompanha os diferentes regimes políticos e é fomentada pela crença divulgada de que “só não sobe na vida quem não se esforça”.

Piketty apresenta uma radiografia da desigualdade social proveniente da economia; este livro irá revolucionar a discussão política e económica; superará as discussões ideológicas, dado o seu autor ser uma pessoa íntegra e mais virada para a realidade empírica ao apresentar uma análise dos dados sobre os porquês da sustentabilidade da precaridade e de um certo determinismo económico e histórico. Este abuso só poderá ser corrigido por uma política forte e atenta. Numa sociedade consciente de ser constituída por cidadãos e não só por empresários, a riqueza terá de deixar de comprar a influência e o discurso público. O povo tem de reconhecer a sua dependência da economia e da política para a poder respeitar e transformar.

Numa entrevista à revista Spiegel (19/2014) Thomas Piketty, à pergunta se ele é “o Karl Marx do nosso tempo” respondeu, “de modo nenhum” e uma tal ideia só poderá vir da ousada afirmação de que ”O capital devora o futuro / o passado tende a devorar o futuro”, uma posição crítica ao capital herdado. Afirma que o seu livro fora escrito numa perspectiva histórica enquanto a obra de Marx é teorética. Piketty não alinha com o determinismo económico e histórico de Marx.

Para Piketty há uma lei que se repete através da História: “a taxa de rendimento sobre o capital excede, a longo prazo, a taxa de crescimento da economia” e constata: “Marx subestimou o potencial de crescimento que actua livremente através do aumento da produtividade e do aumento da população”. Para o crítico do capitalismo Piketty, a catástrofe que se tem de recear “não é económica mas política”.

O grande capital desestabiliza os Estados e fomenta a sensação de injustiça social na população. Enquanto o rendimento do capital é em média de “4 até 5% ao ano, na economia só cresce 1% por ano”. De facto temos assim a indústria financeira, o mercado de casino contra a economia real. Isto torna-se incompatível com uma sociedade democrática que parte do potencial de cada indivíduo e não do princípio patriarcalista da descendência. Por isso a conclusão de Piketty é lógica mostrando a incongruência entre Democracia e os seus princípios, implicando a sua análise uma crítica aos que se assenhorearam da Democracia e às ciências que as acompanham. Não há lógica entre Democracia e prática económica nem entre os seus princípios.

O grande Capital não se dá com a Moral

O capitalismo é, ao mesmo tempo consequência natural e testemunho da força das desigualdades; ele seria incongruente se por ele mesmo criasse igualdade, possibilitando, muito embora, o bem-estar de muitos. O grande capital não se dá com a moral, por isso precisaria das rédeas do Estado que o moderassem mas sem o coibirem a uma ideologia ou demasiado dirigismo. O facto de ele incluir energias injustas não justificaria a injustiça do seu contraente socialismo.

O liberalismo económico actual contradiz a democracia e o princípio cristão de se ganhar o pão com o suor do seu rosto e não com a especulação usurária (Legitima o trabalho individual e social mas não a exploração através dum mundo financeiro de jogadores sem escrúpulos). A riqueza, provinda do negócio com o capital, favorece quem tem muito capital, ao passo que a propriedade vinda do trabalho (economia real) favorece o indivíduo e essa é mais democrática.

O Mestre dizia: “pobres sempre os tereis convosco” porque conhecia os aspectos negativos e positivos da natureza humana; por isso aceitava a diferença a nível individual e social salvaguardando a premissa de que a diferença tem de estar sempre ao serviço do bem-comum e de cada pessoa em particular. De facto, a sociedade não se pode arquitectar em termos só ideológicos, só económicos, ou só políticos, por isso advertia: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mat. 22:21) e acrescentava: “Nem só de pão viverá o Homem”.

Há diferentes lógicas e todas elas serão certas na sua argumentação interna, mas para serem eficientes devem reconhecer-se como complementares e obedecer à razão superior. A lógica económica e financeira não pode continuar a assumir as rédeas da democracia e a transformá-la no cavalo que a serve e transporta. Já Platão advertia que a Ideia é a mãe que determina diferentes práticas e não o contrário porque a realidade vinda da observação é ilusória. A orientação por um mero pragmatismo, a que chegamos hoje, abole o pensamento; leva-nos a ajoelhar-nos perante uma opinião política que só segue a economia/finanças e ilude a sociedade com ofertas de liberdades individuais no domínio sexual ou do divertimento, como se a questão social se resumisse a um problema adolescente de luta pela emancipação da moral e de costumes entre gerações e de reivindicação da exatidão/verdade da própria ideologia em relação a outras.

Uma competição totalmente livre só beneficia o mais forte. Somos todos diferentes e por isso uma política de oportunidades para todos é sempre ditada pela diferença que faz os mais fortes.

Piketty constata que “A argumentação de que a sociedade de classes foi superada, é a expressão de uma ideologia republicana enganosa”. A progressão da desigualdade encontra-se hoje ligada ao desemprego.

Piketty sugere como início de uma tentativa de solução  “Um imposto progressivo sobre o capital líquido da propriedade privada”; o melhor seria um imposto sobre o capital a nível global, para que as transacções financeiras do capital não circulem descontroladamente de uma nação para a outra. O imposto sobre o capital poderia, no parecer de Piketty, ser empregue para reduzir as cobranças sobre uma classe média demasiado sobrecarregada.

Consequentemente o nosso sistema político-económico terá de transcender as discussões ideológicas que não passam de cancões para embalar a classe média e a classe precária.

Seria atraiçoar o conteúdo do livro e do autor tentar coloca-lo numa discussão ideológica ou partidária que o assunto do livro pressupõe já ultrapassada ou numa mera discussão ideológica entre capitalistas e socialistas. Precisamos das duas facções.
As carências de todas as instituições humanas, sejam elas capitalistas ou socialistas, vem da precaridade do Homem. A falha original, que legitima a discussão, situa-se na concorrência entre indivíduo e sociedade. A sociedade/instituição aproveita-se, da necessidade de protecção e de mais-valia do indivíduo, para, em troca de protecção, assumir o direito de regulá-lo. O ideal da igualdade de direitos e de oportunidades pressuporia instâncias justas que os impusessem com justiça e a organização de firmas que deixassem de obter os maiores rendimentos na construção de armas para o fomento da guerra em vez do fomento da paz. O problema está no modo de chegar lá numa humanidade feita de desiguais com estruturas que fomentam os mais fortes na convicção de que estes é que garantirão o desenvolvimento e o futuro! Para se subir a escada da jerarquia só se consegue através da autoafirmação, o que torna a instituição numa sociedade dirigida por autoafirmados! Daí concluir pela opção de um sistema seja ele capitalista ou socialista peca já de si do equívoco de pressuposto de que o ser humano seria um anjo. Quanto a mim entusiasma-me o projecto JC, como protótipo do Homem a construir, começando pela revolucionamento do ser humano (esteja ele onde estiver) na descoberta da sua gene divina que levará cada pessoa a arrumar com os vendilhões do templo seja ele de caracter socialista ou capitalista.

António da Cunha Duarte Justo
Jornalista livre



sexta-feira, 29 de março de 2013

Comunicação Social miserabilista


Informação que apela à Lágrima e ao Sentimento

António Justo

Acabo de regressar de Portugal com uma certa melancolia pela beleza e riqueza dum país que sofre no corpo e na alma como um canino amarrado a uma casota de raposas e predadores. O medo e a raiva assolam um povo a viver cada vez mais na rua, sem poder entrar em casa.

O povo ainda anda de pé mas é conduzido pela mão da Troika e de instalados nas diferentes administrações e representações que o conduzem docemente ao curral dos senhores. Muitas pessoas “vivem da mão para a boca” e muitas outras na angústia/revolta perante um Estado que cada vez interfere mais negativamente na sua vida. Apesar da presença de personalidades sociais responsáveis a dignidade humana cada vez é mais ultrajada.

Fomenta-se uma mentalidade mafiosa que, a nível de discussão pública, deita achas para a fogueira duma emotividade que ofusca a razão com o fumo de sentimentos difusos que vão da raiva ao desespero e da inveja ao racismo. Um Estado sem rumo próprio segue uma política subterrânea jacobina que ganhou especial expressão em Portugal com as invasões francesas e com o republicanismo.

A luz do sol e a alegria de viver encontram-se cada vez mais ensombrados. A falta de esperança leva a dormir e torna-se motivo do não viver.

A grande cultura lusa sofre e é depauperada por uma Comunicação Social que fomenta o miserabilismo popular e a leviandade de muitos comentadores cínicos e convencidos que se aproveitam dum certo voyeurismo e de opiniões entumecidas como se opinião e realidade fossem a mesma coisa.

Muitos locutores do dia-a-dia agarrados às banalidades noticiosas bombardeiam o povo com ideias, imagens e sentimentos repetitivos lisonjeadores de amigos e desrespeitadores de inimigos. Fomenta-se um pessimismo amedrontador que inibe a própria iniciativa e o espírito de investimento.

Como sanguessugas, até os meios de comunicação social nacionais se fixam no negativismo de notícias dirigidas ao sentimento. Quando alguém se enforca logo se juntam os leões e as hienas à volta de imagens e ideias que fomentam a imitação. A TV pública fala de suicídios do foro privado e faz render o peixe, como se se tratasse de suicídios de motivação política realizados dentro da sala do Parlamento. Cultiva-se o extremismo emocional e um voyeurismo que se alonga nos telejornais até às profundezas dos canais de rádio. As coisas são repetidas até à exaustão.   

Observam-se controlos da ASAE a restaurantes e empresas como se fossem mandatados por estrangeirados sem consciência pela realidade local com um comportamento anti-regionalista ao serviço de interesses centralistas anónimos e antinacionais.

Um sistema político servidor de interesses individuais e partidários a nível nacional e de autarquias continua a servir o compadrio da avalanche dos arrivistas criando postos de trabalho na administração quando não há trabalho suficiente para os já empregados. Uma mafia de rosto lavado dos lugares cimeiros de Câmaras e administrações procura desestabilizar os seus subordinados criando um clima de medo, desconfiança e intriga entre os empregados.

Arrasta-se o povo para um pessimismo medroso e amedrontador. Num ambiente de tudo contra todos, tudo tem razão, predadores e subjugados; só uma coisa falta: a consciência de responsabilidade nacional.

A contestação social mais que objectiva, é, muitas vezes, manipulada por grupos que vivem de mordomias à custa do povo, sejam eles representantes dos trabalhadores ou dos senhores. Um exemplo disto foi a última greve ferroviária que pretende manter bilhetes gratuitos para os familiares dos empregados. Naturalmente que todos os grupos têm direito a defenderem os próprios interesses; o dilema de Portugal é encontrar-se nas mãos duma esquerda intransigente e de senhores e capitalistas sem alma social nem nacional.

O último sintoma do estado doentio grave e depravado de quem tem o dizer em Portugal, foi o facto José Sócrates, que deveria estar sob observação judicial, aparecer como candidato a comentador político nos canais da TV pública. Um atrevimento que bradaria aos céus numa sociedade normal! A tal falta de discernimento chegou um povo! A honra dos predadores é legitimada com a desonra da nação. Os interesses partidários afirmam-se mafiosamente sem que haja oposição qualificada. Com esta iniciativa, José Sócrates pretendia aproveitar-se da lorpice da Comunicação Social para se preparar para as presidenciais.

No meu belo e inocente país os predadores são os senhores!

António da Cunha Duarte Justo

sábado, 23 de julho de 2011

Viva a Liberdade!


Nobreza de espírito é a realização da verdadeira liberdade, é a busca permanente da verdade e do bem, a encarnação da dignidade humana.

Não pode haver democracia nem sequer mundo livre sem este alicerce moral.

A verdadeira liberdade é aquela que permite seguir na busca do padrão absoluto pelo qual o nível da dignidade humana deve ser medido.

Eis o grande ideal!

***

Quem preza a civilização e a vida intelectual olha para a história do século XX com verdadeira perplexidade. Quase diria, com estupefacção. Quantos eruditos – académicos, artistas e cientistas – puseram de lado a vida civilizada optando pelo triunfo da mentira, da ditadura, daviolência? Quantos deles colocaram as suas potencialidades às ordens do terror? O rol é certamente incontável.

Mas também, quantos os que se recusaram a abandonar a integridade e por isso morreram às mãos dos algozes da Civilização? Eis outro rol interminável que nos deixa atónitos…

E olhando em redor, o que vemos? Vemos exércitos de eruditos queconsideram mais importante alcançar a resposta final política do que dizer a verdade e pensar sem preconceitos.

Foi depois da guerra de 1939-45 que Hannah Arendt concluiu que a crise só se transforma em drama quando lhe respondemos com preconceitos. E estes mais não são do que as ideias politicamente formatadas. Em vez de recorrerem à liberdade, recorrem às «cartilhas». Ironicamente, fazem-no em nome da liberdade que, desse modo, nãopraticam nem sequer, afinal, admitem.

A traição de parte significativa da intelectualidade está na razão directa da falta de capacidade para assumpção das responsabilidadesintelectuais. É para esses mais cómodo responderem às questões com soluções politicamente formatadas do que assumirem a integridade que deles seria legítimo esperar. Não passam daquilo a que Thomas Mann ironicamente apelidava de «literatos da Civilização», os que sabem tudo relativamente ao que os outros pensam mas pouco ou nada acrescentam da sua própria autoria. Para estes, a felicidade não é uma questão metafísica ou religiosa mas sim e apenas um problema político.

Logicamente, arriscam-se a propor soluções baseadas em ideias geradas em contextos completamente diferentes dos que estão na circunstância em observação. É que, se existe algum lugar onde a submissão reina, é seguramente entre os intelectuais politizados.

Cúmulo da ironia, bradam as receitas encartilhadas à mistura com VIVAS à liberdade.

Porquê tanta traição à nobreza de espírito?

Sedução do poder, influência, inchaço por ser ouvido e quiçá admirado. Numa palavra, vaidade.

O significado de conceitos imortais como o do bem, do mal, dacompaixão, da sabedoria, da justiça, da virtude, raramente é aflorado porque a linguagem actual preza a objectividade dos factos que se analisam em função de objectivos que visam o progresso material.

A busca da verdade só pode seguir a via dos valores perenes dedistinção entre útil e inútil, bem e mal, relevante e insignificante.

Assim, em nome da liberdade, se mata a verdadeira liberdade e seabandona a procura da verdade.


17 de Julho de 2011

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

Riemen, Rob NOBREZA DE ESPÍRITO, UM IDEAL ESQUECIDO, Ed. Bizâncio, Lisboa, Abril de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A União Europeia destruiu a Indústria tradicional portuguesa e agora pede-lhe Contas. O Negócio com as Dívidas dos Países sob Observação da Troica.

A tragédia da Grécia arrasta-se, de maneira humilhante, sem que haja uma perspectiva honrosa para as partes. A crise financeira em que se encontram os países sob observação da Troika é consequência dum crise das instituições da EU e da desarmonia das suas economias.

Assistimos a um conflito macabro entre a Europa do Norte e a Europa do sul; fundamentalmente um conflito entre os países carentes e os países fortes.

Os países ricos querem vender /exportar para os países pobres, sem contrapartidas de investimento sério nestes países. Como macro-produtores colocam, os seus produtos a preço de concorrência com os produtos das empresas locais. Em Portugal, a União Europeia destruiu as indústrias do calçado, das pescas, dos têxteis e em parte a agricultura. A princípio, as multinacionais internacionais instalaram-se provisoriamente nos países da periferia para se aproveitarem dos fundo perdidos da EU. Depois de passar o prazo de compromisso assumido começaram a abandonar o país ou a reduzir a produção. Ficam redes de intermediários que passam a servir o mercado com produtos importados. Resultado: a fraca economia é ainda mais enfraquecida ao ver as pequenas e médias empresas desaparecerem.

Em Portugal pude observar isto na zona de S. João da Madeira. Uma empresa alemã, aproveitando-se do saber especializado da região em calçado, instalou, lá e noutras zonas, grandes fábricas de calçado. A sua concorrência levou muitas empresas pequenas e médias à falência. Depois a empresa fechou uma fábrica e racionalizou outras para se irem aproveitar doutras zonas mais baratas fora de Portugal. Para trás ficam os trabalhadores sem capacidade de compra. Estes servem-se dos produtos chineses baratos mas de má qualidade.

O turbo-capitalismo passa pelos países como um furacão arrastando tudo atrás dele. Deixam o país com maus hábitos explorando-os depois através dos abutres financeiros.

A Europa é um projecto político que está a ser destruído por interesses económicos turbo-capitalistas demolidores de nações. São de tal modo grandes que obrigam os países a pôr tudo à venda e a privatizar tudo no seu interesse.

Atendendo às diferentes tradições na economia não se pode chegar nunca a uma solução satisfatória, com agravante da moeda única. Como a política económica europeia é inconsequente, torna-se consequente a exigência da Chanceler alemã Merkel ao exigir que os bancos apoiem os países fracos. Os credores têm de renunciar a uma parte das suas exigências através dum acordo de dívida, para que Portugal e a Grécia se libertem de parte da sua dívida. Consequentemente alguns bancos entrariam em crise.

Só uma prorrogação dos períodos de reembolso para os títulos do governo e créditos de apoio com juros baixos poderão dar tempo ao país para reorganizar e disciplinar a sua economia. Só neste caso se poderia compreender a intervenção duma Troika controladora. Portugal para cumprir o memorando da Troika terá de renunciar à sua soberania e transformar os portuguesesem assalariados do grande capital, sem capacidade de se erguer com dignidade.

Temos uma EU com economias de diferentes tradições. O Norte, exportador e disciplinado está interessado num euro forte devido aos interesses financeiros mundiais e o Sul que não consegue produtividade concorrente e que pelo facto estaria interessado na desvalorização do Euro, para assim poder exportar os seus produtos mais baratos em relação a outras moedas. Como os países fortes não instalam empresas de grande alcance internacional nos países da periferia, estes, para manterem um nível alto de vida, recorrem à importação e ao crédito financeiro internacional. Assim passa um país inteiro a viver “com as calças na mão.” Terá de hipotecar também os esforços de estabilização não lhe restando fundo de meneio para investimentos próprios.

No caso de não haver na Europa uma distribuição equitativa das fontes de produção, o Norte Europeu terá de fazer grandes transferências de capitais (fundos de solidariedade) para os países pobres. Assistimos a um jogo de batoteiros em que uns têm os trunfos e os outros a “canalha”. A Troika vela pelos interesses do grande capital! Os deuses europeus parecem agarrar-se à vaca da europa mas só enquanto ela dá leite.

Faltam os investimentos; os créditos de apoio financeiro estrangulam povos enações. Este apoio revela-se apenas em favor dos accionistas e dos países com economias fortes. Precisa-se uma política de investimento económico, de firmas alemãs e dos países criar fábricas e lugares de trabalho nos países da periferia. Doutro modo encontramo-nos numa divisão do mundo em países ricos produtores e em países pobres consumidores. Assiste-se, ao mesmo tempo, à concentração do saber especializado nas mãos de alguns e do saber proletarizado para a generalidade.

O programa de assistência financeira visa assegurar o pagamento aos credores internacionais. Estes vêm dos países fortes, que se vêem divididos entre a defesa dos seus bancos interessando-se por isso em facilitar os créditos para que os governos possam pagar os juros aos seus Bancos. Seguem assim uma política anti-contribuinte.

Um país como a Alemanha consegue créditos no mercado financeiro internacional a 3% para depois poder emprestá-lo a Portugal a 7% e à Grécia a 11%. Facto é que Portugal também disponibilizou dinheiro para a Grécia ganhando algum; não muito porque não tem o crédito/confiança internacional duma Alemanha. Este sistema só beneficia os especuladores bancários com os seus accionistas e promove a irresponsabilidade. Na União Europeia não há honestidade.

António da Cunha Duarte Justo
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