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sexta-feira, 8 de março de 2019

Conto 2


José Pais de Carvalho

Lembrava-se! Como poderia recordar a manhã pronunciada no desconhecido senão pelo esquecimento.

Lembrava-se de percorrer em silêncio as ruas de uma cidade a sul, imerso na recordação do mercado, do pavimento irregular da calçada, da azáfama das pessoas e das mercadorias. Lembrava-se! viajara ao encontro do ancião e encontrara-o no pátio da casa quando uma mulher de velha idade e de feições indígenas lhe abrira a porta.

É verdade que sempre se afligia quando estava diante daquela figura enigmática, e supunha que não seria diferente daquela vez. Na sombra da latada esbatida sob o sol, reverberavam imagens perdidas da antiguidade, que o impressionaram ao ver a fisionomia da anciã alterada. Com respiração parca mas levemente acelerada, duvidava do espectro e aprazava-se por rever o anfitrião que o convidava a sentar, com um rasgado e efusivo sorriso de boas-vindas, não atribuindo outra importância ao puzzle criado pelas sombras e afectado pela imaginação. Conversaram acerca de trivialidades, da longa viagem. Depois o diálogo contemplou outros temas, cuja razão o viajante não podia divisar. Falaram sobre o que o homem de idade indeterminada designou por domínio da consciência. Houve, adrede, um silêncio: O grande feito é atingir a liberdade total antes de ser uma consciência desencarnada dirigindo-se para o incognoscível. Ficava a impressão de que o velho homem escolhera as palavras antes de retomar a conversa, para produzir uma tensão, e pousando-lhe a mão sobre o ombro, convidou-o a dar um passeio.

No caminho, o ancião observava, como se fosse a última, os rostos dos transeuntes e detinha-se defronte das lojas, dos candeeiros públicos, das casas. Numa alameda, atentava a cada pormenor: o reboco dos muros e das paredes, os líquenes, os tons verde-escuros, os de cor de bolor e as pedras descarnadas pelo tempo. A dado instante, dirigiu-se-lhe: … nesta cidade tudo é possível acontecer! e sorriu. Como jovem aprendiz, reconhecia aquele olhar, aquele sorriso. Inúmeras vezes deparara-se com circunstâncias análogas. Apoderava-se dele uma estranha sensação: incorria no íntimo a certeza de acontecer algo imprevisível, e sentia-se desconfortável. Numa rua pararam perpendiculares a um antigo casarão. O de mais idade não deixava de olhar tudo ao redor: contemplava a araucária, os plátanos, os cedros, e deteve-se na velha nespereira com as poucas folhas que restavam, tombadas sobre si próprias como lágrimas. O jovem para quem bastava um olhar, um sorriso ou uma palavra do decano para o estado emocional mudar radicalmente, permitiu que uma lágrima lhe escorregasse pelo rosto, e sentindo de antemão uma melancolia que o comoveu, pressentiu que a imagem acerca da velha nespereira seria apenas sua. Primeiro supôs sentir-se triste, mas de imediato compreendeu uma sensação mais profunda e distante, tão cavada quanto a solidão.

Chegados a uma praça, já sentados num banco público, o mais velho dava continuidade à frase deixada atrás: … por baixo da cidade está uma outra de onde desapareceram os que nos sonhos acordaram numa posição para além dos limites do conhecido. Escutar tal estória sobressaltava-o, e sentindo um empurrão, sem que pudesse formular alguma pergunta, entrava na igreja, e lembrava-se! já tinha estado ali em outra ocasião.

Ajoelharam-se ambos lado a lado num banco de madeira corrido, fronteiro ao claustro. O ancião balbuciou-lhe quaisquer palavras ininteligíveis, despertando-lhe uma recordação já perdida. Uma mulher de feições indígenas fitou-o, fazendo-lhe sinal, e ele, não pelo fulgor da juventude, deslumbrou-se: um misto de admiração e fascínio aprisionava-o, tão magnânimos eram os olhos negros. No momento ficou perplexo: a mulher que lhe abrira a porta estava ali, mas não parecia a mesma. O vestido preto deixava antever a sua silhueta e a tez era límpida e cuidada. Aparentava ser nova. E ele atemorizou-se.   Quis compartilhar a surpresa, descrevendo um movimento com o corpo, mas o ancião desaparecera, concomitante à perda da acuidade visual.

Algo acontecera. Quando recuperou a visão estava numa igreja, numa outra igreja, quiçá num outro tempo. A decoração afigurava-se do século dezoito: o altar-mor, o deambulatório em torno dele, as pinturas do teto da nave, a talha dourada, obturando o óculo da fachada com um relevo, sugeriam-no. Decorria uma missa, e o silêncio era total.

De temperamento susceptível, por experiências anteriores perante o desconhecido, ele sabia que facilmente oscilaria entre a confiança e o temor, e que poderia perder a razão. A luz da igreja era ambarina e ele demorou a ambientar-se. Espantou-se com as sombras, pois eram negras e profundas como nunca tinha visto, e reparou o tom de pele das criaturas ajoelhadas, singularmente pequenas. Apreensivo, tornara-se ele próprio testemunha da imaterialidade do tempo. Os entes ao redor não eram da época que atribuiu à igreja. Como poderia aquela gente rezar, mover os lábios e ele não ouvir o mínimo barulho? Estranho, olhou para a direita e confrontou-se com a dita mulher. Ã! gaguejou trépido. O som exauria-se em si mesmo, parecia-lhe inaudível, incumprido.  O corpo teve um espasmo e os indivíduos em torno olharam-no, censurando-o. A mulher murmurou-lhe que ouvisse com todo o ser; e ele assim fez sem saber como fez. A missa estava a acabar e o movimento da multidão, sentiu-o ensurdecedor ou quem sabe se intensificado. Porventura idealizava, concluiu. A percepção aguçada deu-lhe outra indicação. Percebeu que estava a sonhar. Havia uma agudeza mais consciente do que o torpor mental sentido. Independentemente de onde estivesse ou do mundo em que estivesse, o que vivenciava era real e abarcava-o na totalidade. A mulher olhava-o doce e intrigante, aparentava agora uns trinta anos: o mundo que apreendemos e a sua substancialidade dependem da tua total atenção para que exista. A posição em que se começa a sonhar espelha-se na posição em que permanece o corpo de sonho. Deste modo deve-se sonhar que se acorda deitado exatamente na mesma posição em que se adormece, para sonhar adormecer de novo. A voz dela era cristalina, sedutora num sentido restrito, magnetizante. Tudo o que se vê, o ambiente ao redor é a projeção da minha intenção, um sonho! Estás a viver no meu sonho. Não basta somente sonhar o objecto, é necessário visualizá-lo e trazê-lo para o sonho, materializá-lo, para se tornar real. Foi a partir deste recurso que te trouxe para o meu sonho. Foi desta maneira que numa época longínqua à do tempo deste sonho, os antigos habitantes desapareceram da cidade, deixando somente os vestígios da sua cultura. Foi muito antes de eu existir e de existir o local onde estamos. Quando nasci, eles já eram antigos e repara como sou antiga!  exclamou com malicia.

De seguida pegou-lhe na mão e levou-o até à porta da igreja, o que o acalmou. Ao saírem, deparam-se com uma praça velha. No tempo eminente escutou-a. A praça para que estás a olhar não existe na realidade, só a poderás tornar real mediante a tua intenção. A vista dele turvou-se; focando-a, encontrava-se agora sozinho na cidade em cujo cenário se desenrolava o sonho. Na praça viu o decano sentado no banco onde estiveram antes, segurando o chapéu, enquanto um vento soprava ao redor. Um pensamento determinava-lhe que tinha de deslocar os olhos para alterar a percepção. No mesmo banco, um outro homem dormitava. Embora o choque do que não podia avaliar o propulsionasse, fracionava-o luminescente, e vislumbrou a sua paridade: sentado no banco ao lado do homem que segurava o chapéu, viu-se de pé no pórtico da igreja, e assombrou-se, caindo em si.

Sentiu que tinha perdido algo significativo. Talvez alguém de quem gostasse muito, mas não conseguia recordar-se. Uma ideia como essa afigurou-se-lhe absurda. A memória atraiçoava-o de novo e sentiu um misto de saudade e medo, indecifrável.  O ancião sossegou-o, pedindo-lhe para contar o que se lembrava do sonho. Lembrava-se de terem entrado na igreja e pensou: poderiam ele e o ancião, acordar no mesmo instante, na mesma posição de sonho? O homem de maior idade não foi directo na resposta, disse-lhe que o acompanhara na ocasião em que se sentiu puxado por ele até ao interior da mesma. Não é possível saber como ocorre, talvez pelo desejo. Apenas acontece assim. Foi o modo como os antigos partiram em grupos. Talvez fosse decisão deles morrer em outro mundo, ou não encontraram o caminho de regresso. O fenómeno sucede conquanto paremos o diálogo interno e mudemos o foco para o que nos induz a percepções incomuns. Restava o silêncio, e lembrava-se! quem era a mulher do sonho? Por sua vez, o ancião apaziguava-lhe o temor:  era o tempo de se recordar da mulher, pois iria encontrá-la uma última vez. Era antiga como ela lhe dissera. Desafiara a morte com êxito, tornando-se prisioneira da veleidade que destruiu os antigos.  Dera-lhe um presente, o qual se recordaria em breve: Podemos viajar pelo desconhecido, mas temos de nos ancorar dentro dos limites do conhecido para regressarmos. Se te deslocares para outro mundo, esta cidade desaparecerá, mas irás permanecer aqui. É este o mistério que ainda não compreendeste.  Romper as barreiras da percepção é entrevir a eternidade. Mais cedo ou mais tarde aperceber-te-ás que cada um de nós é todas as coisas, que é isto e aquilo. Um mundo só é perceptível por força do alinhamento da totalidade dos nossos feixes de luz com os correspondentes exteriores e não apenas com partes deles. Disto depende a nossa estabilidade. Só assim um mundo se torna real, permitindo-nos então escolher onde morrermos e também como fazê-lo em consciência total. O teu trabalho será ainda tornar compreensível tudo o que está além do território onde a consciência quotidiana assenta a sua identificação, em que nenhuma dúvida possa interferir nos teus actos. Com o passar dos dias, compreenderás melhor. Darás uma coerência a tudo o que viveste e não consegues por enquanto recordar.

De repente tudo ficava claro, mas nem uma palavra conseguia articular, não tinha energia suficiente para o colocar por palavras. Compreendia que tais acontecimentos não poderiam ser recordados pela memória. Então o ancião lia-lhe o pensamento: Agora começas-te a compreender. O mundo dos homens é tão-somente uma visão a partir da posição do alinhamento dos feixes de luz consoante a energia que reunam; não conseguires expressá-lo, deve-se ao facto de não teres ainda acumulado a energia que te permita ordenar o conhecimento. E mudava de assunto: Aproxima-se o momento de eu partir, esta será a última vez que nos encontramos nesta cidade juntos. Talvez  retorne um dia, mas nunca mais voltarei aqui tal como me vês hoje.

Sentiu-se uma brisa, do outro lado da praça o velho homem acenava-lhe, despedindo-se e surpreendeu-se: lembrava-se! o conhecimento era silencioso, uma força que não podia ser descrita, no entanto estava ali para que qualquer um a pudesse utilizar. Ainda olhou de novo para o outro lado da praça, e viu o ancião virar-se para trás, sorrindo-lhe.

sábado, 19 de novembro de 2016

Região Literária


DA POÉTICA AO SIGNIFICADO

A poética assume-se como uma manifestação da criação, mas não é a criação. Ela é a expressão artistica da nossa emocionalidade, mas também é o que não tem palavras para ser descrito. De igual modo, ela é o resultado da experiência directa – o que está para além da linguagem e do pensamento. Por conseguinte, a expressão artistica é a expressão da nossa emocionalidade, mas não é a nossa emocionalidade.

A poética revela-se pela intuição, pelo instante, por aquele breve momento em que o nosso pensamento pára, bem como as emoções se silenciam e o acto de criar ganha condições de se revelar. E, assim, cria-se um poema, uma prosa, uma pintura, uma estátua, ou outra obra de arte. Digamos, então, que a arte é a manifestação humana da nossa essência. Ela une os homens. Contudo, enquanto só temos consciência da nossa individualidade, está no domínio subjectivo, da visão particular e individual. Está ainda inserida no vislumbre que permite o acesso ao absoluto. Na intuição, na percepção instintiva, no impulso independentemente da reflexão. O acto de criar não é, pois, do domínio intelectual, resulta sobretudo da percepção e da sensação, jamais do raciocínio, tão pouco da visão do artista.
Como num breve momento o pensamento se aquieta e as emoções silenciam. O artista, num instante, intui o que não sabe saber, o que está além da forma e da ideia, do espaço e do tempo e não é condicionado, mas garante a realidade da criação da obra; a acção que dá a conhecer, pela forma e pela ideia, o sentido da obra não materializada, a qual se manifesta pelo desejo de conhecer a verdade através do crivo de uma peneira, a das concepções e emoções, dos traços e caracteres, no fundo, da visão inerente do artista que, consequência desta, cristaliza a dimensão da sua obra.

Para o artista é  a obra o meio da expressão artistica, porém revela-se-lhe também como uma nova faceta da sua tomada de consciência. Mas a obra é a revelação de um momento seguinte não consciente de uma cultura, a forma do que ainda não tem forma, a ideia do que ainda não é mais do que o germe. A antecâmara de uma consciência que está em movimento, que nasce, se desintegra e se transforma numa outra diferente. É a manifestação do aspecto intuitivo e criador, da radiância primordial. Assim, aquele que admira uma obra de arte sente essa satisfação interior, e quando a olha, nem a obra nem o que a olha serão os mesmos, mas outros, pressupostamente diferentes.

O admirador, tal como o artista, a partir da percepção, quando enxerga a obra de arte, apercebe o sentido ou o significado de ser e, em vez de encontrar a divisibilidade, encontra essa satisfação interior.

 O apreciador de arte, cada vez mais nos dias de hoje, procura aspectos intuitivos e de maior conhecimento de si como ser humano. Procura  um sentido para o sentido que a vida tem. É natural que, com o tempo, a arte ganhe uma nova dimensão, deixando de ser apenas vista como um meio de expressão artística, mas como um meio de autorrealização.
As utilizações das figuras de estilo, dos signos, dos simbolos, dos paradoxismos encontrados na linguagem, apresentam-se ao público como a expressão verbal ou visual do que está além da linguagem, a aproximação ou a manifestação da experiência directa, a manifestação da realidade absoluta que não é o absoluto. Todavia, também é a cisão no modo de pensar, do modelo de pensamento, da dualidade que este tem; senão uma renovação desse, uma consciencialização do que pode ser essa satisfação interior a que me referi anteriormente.

Penetrar na essência da palavra é ser o que não tem diferença entre o que se apercebe e o que é apercebido.  Pela razão da coerência e da coesão do raciocínio lógico, acabamos por acreditar num processo de separatividade para expressar o que é apreendido conceptualmente, perdendo a experiencialização do femómeno em si. Assim, a palavra precede a sílaba e a sílaba, o som. Mas como intelectualmente não nos é acessivel apreender a nossa identidade, apenas percebemos, em parte, o que nos é acessivel  e conceptual; de igual modo, só à medida que penetramos na nossa natureza é que vamos ganhando o conhecimento do que é e do que representa a palavra.

De uma forma mais lata, podemos então dizer que o nosso pensamento é modulado e transformado pelo som. O som tem, portanto, uma acção direta em como somos. É como um germe. Há, implicito, um sentido de continuidade, tão como aqueles que somos hoje, não sereremos exactamente os mesmos que seremos amanhã.

Nesse  processo o som assume dois aspectos na sua manifestação – o interior e o exterior.  O exterior revela-se em como a palavra pode ser determinante no ambiente. Uma palavra agressiva pode determinar as mais violentas acções, ou, pelo contrário, uma palavra de conforto pode aliviar a enorme dor de alguém. Na sua expressão mais elementar podemos compreender, com este exemplo, como a palavra proferida afecta os pensamentos e emoções dos que nos rodeiam. Já no aspecto interior, revela-se pela nossa melhor percepção, através dos pensamentos e das emoções, que nos dão esse sentimento de satisfação interior e essa amorosidade.

De uma maneira muito concreta e objectiva, à medida que nos vamos conhecendo, não apenas compreendemos as implicações dos nossos actos, pensamentos e emoções, essa essência criativa, como também nos apercebemos da nossa verdadeira identidade, essa inexistência de significado e significante, de sujeito e de objecto, onde a palavra se manifesta por esse som primordial que nos conduz além da experiência ou de qualquer visão - a radiância primordial.

José Pais de Carvalho
Sintra, 2015

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O QUE INTERPRETAMOS


por José Pais de Carvalho

Encontrar nas nossas vidas o que é essencial e destrinçar o que é acessório é, antes de mais, termos o discernimento de entender o que nos traz satisfação interior. E não é uma tarefa fácil. Na verdade estamos sempre sujeitos a uma escolha, mas esta depende muito da consciência que temos e não tanto da cultura na qual estamos inseridos, porque esta é o reflexo de como somos e pensamos.

Há dois aspectos dentro de nós com os quais convivemos. Um deles é o ego, a causa de todos os nossos problemas. É este que nos dá a perspectiva singular e divisível do que apreendemos e faz agarrar-nos às emoções e ao objecto delas, restringindo-nos a interpretação. O outro é a nossa verdadeira identidade, a que se revela quando, em momentos específicos, o nosso pensamento pára.  Ao que acontece nesses períodos, surpreendidos, erroneamente chamamos por coincidências, porque, numa atitude receptiva, permitimo-nos dizer que tivemos uma intuição ou no caso do artista, criou-se uma obra de arte. Até mesmo em nossas vidas, sem nada o fazer esperar, já se desbloquearam coisas que nem sabíamos como as resolver.

O ego é, pois, sustentado pela visão que temos do mundo. Remete-nos ao medo do que não conhecemos, o que nos leva a criar soluções dentro dos limites do nosso mapa emocional e comportamental. No entanto, dá-nos uma falsa ideia de criação, que não é mais do que mera construção. O seu âmbito de acção está no domínio intelectual que constrói conceitos, abstracções e interpretações - individualizando, analisando, categorizando. O que significa fazer um universo de diferenciações e contrários. Estes contrários, por si só, originam a ambiguidade e tampouco são sinónimos de opostos. Mas a interpretação de algo não necessita desta ambiguidade nem das suas consequências.  A polivalência de sentidos e as infinitas interpretações levam-nos a um distanciamento de nós mesmos, à confusão e às doenças mentais.

E é desta maneira que confundimos a realidade com a sua representação, a nossa identidade com a nossa mente – logo, nós não existimos porque pensamos, mas porque somos um todo que vai muito para lá do cérebro e dos cinco sentidos.

Essa maneira de usar a racionalidade impossibilita qualquer princípio de unicidade. Ainda que nos possa dar uma aproximação da realidade, a visão dualista não nos permite entendê-la. Ela nunca é fruto da experiência. Por esta razão é geradora de profundos conflitos existenciais, familiares e sociais.

Não estou com isto a dizer que a racionalidade é inútil, mas antes a chamar a atenção de que, no âmbito do conhecimento por via do intelecto, é útil quando queremos construir uma máquina, mas nunca para adquirir o conhecimento de nós próprios. Este conhecimento adquire-se através da experiência e é, a partir desta, que se interpreta.

Do mesmo modo, quanto mais nos limitamos a interpretar o mundo à luz dos factos e dos acontecimentos mentais, mais perdemos a noção de que o fazemos baseados nas nossas próprias concepções, e isso perturba-nos  a visão sobre nós próprios e do mundo, enchendo-nos de emoções prejudiciais e  conflitos, afirmando constantemente a nossa individualidade, enchendo-nos de conceitos e pré-conceitos, vincando a separabilidade de tudo ou qualquer coisa.

Dizendo de outro modo, a visão que temos, não é só consequência de um conjunto de variantes improváveis de poderem ser entendidas intelectualmente, mas também de condições que se manifestam perante circunstâncias e situações favoráveis; porém,  não nos permitem ver nada mais além desses limites da visão. Por isso, cada um de nós tem caracteres, tendências e interpretações diferenciadas e uma perspectiva única de nos olharmos e ao mundo. Poderemos dizer que os apetrechos inatos que possuímos são o necessário para cumprir a nossa vida.

Na perspectiva de nos libertarmos da ignorância, desenvolvemos as nossas qualidades, mas também corrigimos os nossos defeitos. Estudamos, pensamos, treinamos habilidades, desenvolvemos a capacidade de elaborar conceitos, ideias, trocamos opiniões. No fundo, debatemo-nos para ultrapassarmos a ignorância, procurando soluções próprias.

E afinal o que interpretamos? Ou uma perspectiva estritamente intelectual do senso comum que nos leva a infinitas interpretações abstractas e, como consequência, aos caos emocional e existencial. Ou compreendemos a nossa emocionalidade através da nossa experiência de vida, da nossa percepção e sensações, onde o intelecto posteriormente interpreta.

São estes dois os movimentos possíveis entre os quais nos deslocamos. Um, o que definitivamente nos distancia, e outro que nos leva ao encontro de nós mesmos. Não é por sabermos teorias, munirmo-nos de muitos conceitos e encontrarmos diferenças em tudo que nos tornamos melhores ou piores; e tampouco isso permite-nos ter satisfação. Já o movimento contrário leva-nos a saber discernir e perceber o nosso verdadeiro objectivo na vida ao encontramos aquilo que nos deixa intimamente satisfeitos e em paz, e é quando a multiplicidade, que torna a nossa vida num inferno, desaparece.

Mas essas escolhas têm de ser feitas não só para a nossa vida pessoal, como também para os objectos dos nossos interesses e estudos. Por exemplo, em literatura, na interpretação, a análise da diversidade de sentidos, da intenção do autor, da intenção do texto ou das qualidades do leitor, entre outros, só podem ser entendidas como uma forma limitada. Todos estes aspectos são de natureza intelectual, por conseguinte, mentalmente construídos, permitem-nos a análise, a suspeição, as descrições de estruturas, de modelos, mas no contexto do autoconhecimento e do conhecimento do ser humano na sua essência e natureza nada trazem que melhore as nossas qualidades e potencialidades, nem o entendimento da existência humana. O contexto do conhecimento intelectual traz-nos infindáveis possibilidades, contudo inúteis, porque estas nunca poderão chegar a qualquer finalidade para além do aspecto formal.

Tal como num jogo, os jogadores podem, ao longo da sua carreira,  ganhar melhor capacidade física, desenvolver melhores estratégias técnico-tácticas, mas o jogo é sempre o mesmo: se ganham uma vez, terão de voltar a ganhar, se perdem, têm de conseguir ganhar no próximo. A interpretação, no ponto de vista tradicional, é igual a um jogo, um círculo fechado, estéril. Em nada evoluímos, nem progredimos. Pelo menos numa perspectiva existencial.

Através das experiências da Fisica moderna e à medida que se penetra na natureza do universo, o físico tem de abandonar a sua linguagem para descrever essas mesmas experiências; nós, de igual modo, quando vivenciamos esses mesmos fenómenos, não temos palavras para os descrever.

O que difere entre ambas as perspectivas parece estar na particularidade de, individualmente, podermos vivenciar os fenómenos, enquanto nas experiências científicas se podem descrever e interpretar (interpretações essas chamadas teorias ou modelos). E aqui há, não só uma convergência no pensamento, mas idênticas descrições dos fenómenos.

A diferença entre aqueles que, pela experiência, vivenciam o fenómeno e as conclusões dos cientistas, reflecte-se em  que, estes, o fazem por via intelectual e os primeiros pelo que integram quando é vivido. Ou seja, pode-se explicar a diferença através de um exemplo muito simples como é andar de bicicleta. Pode-se explicar como temos de nos equilibrar em cima dela, como pedalamos e travamos, descrever os meios que utilizamos para andar, mas isso não nos permite saber andar de bicicleta. É preciso praticar, sentarmo-nos nela e colocar esses aspectos teóricos em prática, e se não tivermos essa experiência que nos permite equilibrar, pedalar, travar, olhar para os lados que, no fundo, é o que se chama andar de bicicleta, então não sabemos andar de facto de bicicleta.

Reparo que cada vez mais as pessoas procuram dar um sentido ao sentido que a vida tem, mas também que, cada vez mais, se torna distante essa possibilidade. Provavelmente, porque não sabem o que procurar ou reconhecer a sua meta.  No fundo, a vida é simples, também precisamos de parar um pouco e ficar apenas a observar. Sermos espectadores de nós próprios.

O que escrevo, por exemplo, se não vivido também por outras pessoas, está sujeito a todo o tipo de criticas, comentários e divergentes opiniões que se baseiam nos mais diversos aspectos intelectuais. Essas divisibilidades não são tão perceptiveis quando se trocam ideias, devido à  própria natureza da linguagem; contudo agarramo-nos a conceitos da mesma maneira como as pessoas  que  se agarram demasiadamente a factos e, quantas vezes  isso nos afasta delas, porque percebemos que são muito comesinhas, mesquinhas, conflituosas, que  se agarram a tudo e, até sem querer, acabam por transformar tudo num conflito, sempre a confrontar-se com o que o outro disse e fez ou faz.  Portanto, quanto mais nos agarramos aos factos e a construções mentais, menor é a possibilidade de entender o que vemos e  o que escutamos.  A  isto chama-se ignorância no contexto em que o apresento.

Por outro lado, quando temos a receptividade de sermos espectadores de nós mesmos e não ficarmos a fazer comparações com os outros e a pôr em causa tudo o que nos é exterior, quando, de facto, fruto da nossa vivência, entendemos o que o outro nos transmite, porque este também já vivenciou o mesmo, então estamos naturalmente de acordo. Nada nos pode perturbar. O silêncio, usando-o como figura de estilo ou de uma forma linear, é a expressão do conhecimento vivenciado, do Verbo para alguns, para outros da experiência.

É, pois, esta simplicidade o lugar do conhecimento onde não há segredos, sentidos ocultos, nem mistérios.

José Pais de Carvalho
Sintra, 2015

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Da Linguagem


por José Pais de Carvalho

Pelo que vivi e me pergunto - o que falo? - Reparo que a linguagem é uma expressão de como apercebo o mundo a partir de como sou, dos meus caracteres,  tendências e consciência, e revela-se pela acção na reciprocidade.
Esta acção encerra em si um poder expresso magnificamente num ditado que diz: “Quem com ferro fere com ferro será ferido”, ou seja, recebemos aquilo que damos. Esse poder subordina as causas, condições e mudanças a todos os níveis no ser humano. De alguma maneira, manifesta-se através da consciência.  Permite-nos, então, dizer que a consciência que tínhamos do mundo na adolescência, por exemplo, não é a mesma que, com a experiência adquirida na vida, temos na idade adulta. Portanto é visível como a consciência tem uma continuidade, sendo consequência do instante anterior.
Essa reciprocidade passa-se connosco a diferentes níveis, e também na linguagem. Somos seres que nos definimos através de processos de relação. As nossas identidades são impossíveis de se descreverem por si próprias, mas tão somente como forma de relação. A linguagem no seu sentido mais amplo é, pois, a forma de nos inter-relacionarmos. É o sistema que usamos para comunicar. A sua função expressa-se pela maneira como cada pessoa organiza consciente e inconscientemente a sua emocionalidade e escolhe, através da linguagem, a mensagem que quer transmitir.
Esta mensagem  pode ser expressa por diversos modos, quer por imagens, quer por palavras. É, então, num processo de relação, que a linguagem deve ser olhada, sendo o conceito (conteúdo da mensagem) a manifestação da expressão de uma  construção mental/emocional que, por sua vez, já  é uma representação individual ou coletiva, orientada pelas palavras ou imagens que o constituem. Concluindo, o conceito constituiu o objecto da representação da linguagem, e o que apreendemos é diferente do que é apercebido. Ou seja, é consequência do não reconhecimento da nossa identidade e das vicissitudes do puro acto de criação, portanto tem caráter ilusório, distante da Verdade.
O conceito, na sua maior abrangência, quer dizer: tudo o que se concebe. Como tal, deve ser compreendido como construção mental. Através  da palavra, da imagem ou outros transmite  a representação das qualidades e as características que o compõem.
O conceito, quando proferido, escoa-se por si só, quer pelo tempo, quer confrontado com outro conceito. E é esta a sua contradição e a sua brevidade.
Contradição, porque é sujeito a reformulações, senão antíteses; brevidade, porque não tem uma causa substancial.
Mas é na representação do conceito representado que a linguagem encontra as maiores dificuldades, porque, pela sua natureza, a representação também não tem existência própria, mas, antes, uma existência relativa. A representação, que, em si, é a expressão do que é já projectado (o conceito), funciona em relação a um ponto de referência externo, onde o conceito representado (construção mental) não é mais do que uma projecção daquilo que não é passível de se entender corretamente (consequência da visão dualista). Daqui o facto de ser discriminatório e estar sujeito a ser constantemente aceito ou rejeitado. E este é o paradoxo e o limite do pensamento lógico e dualista.
Esse pensamento induz-nos a dissociarmo-nos da nossa emocionalidade ao invés de nos dissociarmos das nossas emoções, e leva-nos à necessidade de estarmos permanentemente a analisar, a validar e a confirmar as nossas razões para justificar a existência,  criando uma falsa imagem do que tomamos por realidade  e  dando-nos uma versão fragmentada e individualista de nós e do mundo como consequência do não reconhecimento dessa força impulsionadora a que chamamos Vida. A linguagem, em sua linearidade, é, pois, o veículo do pensamento dualista, intelectual, e é incapaz de unificar.
Mas a linguagem vai além da fala e da escrita. Poderemos dizer que a percepção (que tem como significado: acto ou efeito de perceber; recepção) e a sensação são alguns dos aspectos que captamos e estão além da palavra, dos quais destaco dois possíveis de se reconhecerem por todos nós.
O 1º, como consequência da nossa experiência. O 2º, como consequência do poder expresso pela nossa consciência ou pela nossa visão particular.
No 1º caso, o que sei e o leitor sabe, pelo que vivemos e porque chegámos a uma mesma conclusão, fruto da nossa experiência, encontrámos a mesma verdade, e por isto nos é comum o seu reconhecimento. Não precisaremos de palavras para descrevermos a realidade. Basta-nos o silêncio quando, nós dois,  simultaneamente, deparamo-nos perante estas condições e situações externas específicas.
 No 2º caso, não pegamos num ferro em fogo porque sabemos que nos queimamos. Ao depararmo-nos com este facto, surge em nós uma neutralidade, até não consciente. Por fracções de segundos, ao olharmos o ferro, ficamos livres de qualquer juízo, sem algum conceito ou emoção, senão em silêncio.
É um momento de receptividade, nada nos leva a formular qualquer acção. Aceitámos a realidade com que nos confrontámos.
De idêntica maneira, o mesmo acontece-nos no dia a dia e, sem nos apercebermos, sem tomarmos posições de qualquer espécie, num repente, encontramos as coisas que nos preenchem, o êxito numa tarefa, um namorado novo ou namorada; quando menos o esperamos, o telefone a tocar no momento em que pensamos em alguém. E esse é o acto de criar. Manifesta-se pela satisfação - a satisfação interior -, a que não está sujeita à satisfação dos cinco sentidos e que os artistas conhecem bem e o público que aprecia as obras de arte reconhece.
A arte é, pois, esta expressão da criação e, a receptividade, a qualidade da percepção e da sensação. Quanto  mais livre da conceptualidade e das referências externas estiverem os nossos pensamentos e as nossas emoções, mais acessível será o nosso entendimento e comprensão, e maior é a expressão artística.
Compreendermos  como os dois casos descritos acima se inter-relacionam indissociáveis no nosso âmago permitem-nos enxergar como a mente intelectual, lógica e dualista, quando sobrevalorizada, tal e qual o fazemos nos nossos dias, acaba-se por tornar a semente das nossas ilusões. Dependerá o  entendimento do que foi dito, então, de um só aspecto: do nosso grau de discernimento.

José Pais de Carvalho
Sintra, 2015

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Região Literária

por José Pais de Carvalho

OLHARES

Quando me debruço sobre a interpretação do acto de criar ou tento transmitir algumas ideias, sinto que há algo para além de toda ou qualquer sensação, emoção, sentimento ou pensamento. Qualquer coisa que, sem fronteiras, está além do que me é possível conceptualizar e descrever, porém tão perto, tão dentro de mim, uno e imutável, que é a ideia perfeita, a linguagem perfeita, a obra perfeita, no entanto inacessível.
Assim, apreendo a existência de duas facetas no meu interior. Uma, pela sua dualidade, estabelece diferenças, e  a outra, por sua interioridade e primordialidade, é o conhecimento e a origem de todas as coisas.
A primeira faceta, captada a partir de referências exteriores e do que se apreende do que é projectado,  conceptualiza unicamente o que não pode ser correctamente compreendido. A segunda, pelo desconhecimento da nossa verdadeira identidade, permite-nos apenas o acesso a si própria, como é o exemplo da sensação particular no acto de criar, como referi acima.
Portanto, posso dizer da minha vontade de ir além desta percepção, pois a nossa existência não é mais do que uma constante transição, e nós, sequer como espectadores, conseguimo-nos dissociar para a presenciarmos, tal a solidez das nossas estratégias duais.
Como pessoa, compartilho com todas as outras um conjunto de percepções que me permitem dizer que sou um ser humano. Mas, individualmente, observo que temos diferentes maneiras de explicar, sentir e interpretar essa percepção comum, criando a impressão de que vivemos num mundo único ou separado dos demais.
Ao debruçarmo-nos um pouco mais sobre essa perspectiva, constatamos que ela descreve o que se pode entender como a realidade relativa; subentende-se, então, que este tipo de visão tem um carácter subjectivo, representa a interpretação ou a concepção individual, e também a que, colectivamente, podemos fazer sobre alguma coisa, material e imaterial.
Observe comigo o leitor que, se 1000 pessoas sonharem, haverá tantos sonhos como sonhadores. Haverá tantas culturas quantos grupos de pessoas diferentes que, sob uma mesma percepção, desenvolvem um mesmo sistema cultural, social e económico. Das até 60 000 línguas que se calculam haver no planeta, estas representam tantos idiomas possíveis de outros tantos povos, tribos, etnias ou países. Ou, num ângulo mais restrito, numa família, havendo 6 irmãos, nenhum deles é igual ao outro, cada um terá caracteres diferentes e será uma pessoa diferente.
É, pois, esta percepção de individualidade que compreendo como realidade relativa. E se entendermos haver também uma realidade absoluta, e como entre o absoluto e o relativo não existe uma oposição, mas, antes, uma continuidade, de alguma maneira poder-se-á dizer que o que está além do relativo será o absoluto.
A nossa vida está cheia de exemplos que nos permitem abordar o acesso (e repito: abordar o acesso) à percepção do que é absoluto, mas não ao absoluto. E isto é-nos revelado não só na Arte, mas nas coisas simples da vida, em alguns casos, chamamos-lhe experiência da vida, em outros, coincidências. Por exemplo, eu e o leitor não pegamos num ferro em brasa porque ambos sabemos que nos vamos queimar, ou, quando estamos a pensar em alguém, essa pessoa telefona-nos nesse preciso momento. Pelo  desconhecimento desse todo que é a realidade absoluta, procuramos caminhos exteriores para a encontrar.
Assim acontece também com os modelos de pensamento. Ademais, penso que estes, mal-comparados, não são melhores ou piores do que qualquer interpretação individual devidamente fundamentada.
Deste modo, devemos não só apreciar o que determindado modelo nos traz de benéfico, mas também reflectir como o mesmo nos impede de enxergar, ainda que, para isso, necessitemos mudar o foco e afastarmo-nos desse mesmo modelo.
Para observarmos outras possibilidades, é necessário dissociarmo-nos daquele em que estamos inseridos. Porque, bem vistas as coisas, um modelo de pensamento, ainda que fortemente estruturado, não passa de uma provável interpretação entre muitas possíveis.
Quando nos interessamos por  uma obra de arte, pensamos no porquê, quando e como, mas geralmente através dos olhos da causalidade mecânica. Olhando a obra, pensamos como é que o artista chegou àquele traço, àquele signo. Assim se estuda a mecânica do texto, do autor e do leitor nas suas mais variadas formas. Mas este é um movimento sobretudo externo.
Este tipo de pensamento de génese helénica, e posteriormente cartesiana e newtoniana, é  dialéctico e mecânico no raciocínio e na argumentação. Por tanto, circular e infinito. Circular como sistema fechado e infinito pela probabilidade.
Criar um modelo na perspectiva de abarcar o todo no contexto da cultura ocidental é o mais puro engano, no mínimo, a mais pura ilusão. Intelectualmente, vã é a tentativa.
Este, entretanto, é o tipo de raciocínio dominante na nossa cultura. Porém, quando fazemos o movimento interior, intimista, antes de mais, pensamos no nosso aspecto emocional. Apercebemos  que as nossas emoções vão e vêm ininterruptamente. Ainda que façam parte da nossa génese, somos muito mais do que de positivo ou de negativo elas podem representar nas nossas vidas.
Ao invés de imaginarmos que podemos ignorar as emoções, fazermos de conta que não existem ou, antes, pelo contrário, enaltecê-las, torná-las um ícone da sensibilidade humana, será necessário conseguirmos entender como elas influenciam os nossos comportamentos, levando-nos a uma visão subjectiva e restrita.
Ao penetrarmos na natureza das emoções, reconhecemos a sua instabilidade e efemeridade; então começamos a compreender-nos e  compreender o que nos cerca com outros olhos. Assim, a partir do momento que o conseguimos fazer, o poder das nossas acções, pensamentos e emoções deixam de se reverter em consequências, tais como as vivenciamos e interpretamos comunmente;  redimensionando-nos e, por consequência, redimensionando o mundo que conhecemos como real, aproximando-nos do todo.
Portanto novos olhares emergirão, conforme compreendermos, gradativamente, a importância do que é a realidade subjectiva e a realidade absoluta. Não obstante, o meu discurso é somente uma descrição a partir de um ponto de vista fora do modelo comum do pensamento, ou uma tendência artística. Um relato ou um caminho sob um olhar diferente. E nada mais pretende ser.

José Pais de Carvalho
Sintra, 2015

sábado, 4 de junho de 2016

"A Voz Interior", de José Pais de Carvalho




RESUMO

“E na curva da estrada onde as sombras não são as sombras e o sol o sol, da qual liberdade do ventre da terra despontada sentia a dor de ser, decepcionado. Inconformado, partia por vales e montanhas, os do coração, onde as paisagens eram as paisagens, as da aprisionada alma. E num grito surdo e mudo fazia da vida poemas e quadros sem molduras nem tintas ou pinceis, só a volúpia do mar e a serenidade da terra.”

Dotado de uma inegável força poética, densa mas encantadora, o texto leva-nos a percorrer com Pedro diversas paisagens, de diferentes matizes, verdadeiros quadros impressionistas à moda de Monet, que representam o estado de espírito ou a alma do protagonista ao penetrar em sua consciência. E com ele, passamos a percorrer a nossa própria, pois ocorre uma identificação. Os conflitos de Pedro são de senso comum; caminhamos com ele, vemo-lo, mas enxergamo-nos então. De modo reflexivo, mas lúdico, através de uma exposição atemporal dos factos, somos levados a identificar a natureza de nossas emoções.

Vivenciamos com Pedro a dor da rejeição, o amor por Lúcia e a consequente desilusão, o fardo de uma escolha profissional direcionada pelo pai e não pelo seu talento, a decepção das falsas expectativas, o desalento com o sistema cultural ludibriador, a frustração do engajamento político e, após esse percurso árduo mas libertador, presenciamos a chegada dele ao autoconhecimento. O protagonista, ao se debater com o próprio ego em sua trajetória pessoal, leva-nos a libertarmo-nos do nosso, e concluímos com ele por fim que, se enfrentarmos e percorrermos um percurso descritivo analítico, será gratificante, pois aprenderemos a lição da amorosidade, um bálsamo e, certamente, a única porta de entrada para uma convivência mais harmoniosa conosco e com o mundo.

Para auxiliar nosso herói nesse percurso, surge outra magistral personagem de dimensão mítica e mística, o sábio índio PAEM EÇÁRÉ - aquele que tudo vê -, o qual, recorrendo a uma terapia sistémica,  ensina a Pedro e a nós, leitores, a importância de reestabelecermos as ordens de amor entre a família e os homens.

Numa das cenas mais comoventes da obra, encenada num momento de realismo fantástico, Pedro, num barco, percorrendo um rio, o da vida, confronta-se com o engano das relações amorosas ilusórias e prossegue o seu caminho ao encontro do sagrado e, com este, o amor incondicional.

Ao final da leitura, sentimo-nos mais amorosos e mais bem preparados para fazermos nossas próprias escolhas com o coração, pois, como Pedro, conhecemo-nos, passamos a nos relacionarmos harmoniosamente connosco e com o mundo, tornamo-nos mais flexíveis, menos conflituosos e conflituantes, e capazes  de sermos mais positivos e felizes.


José Pais de Carvalho