MIRADOURO 33 / 2014
O ESTADO DO TEMPO – V
A
água que brota de nascentes – e daí as fontes e os rios e … - e que a chuva traz,
irriga e molha a terra.
Alimenta-a,
fecunda-a e fá-la parir feita uma imensa e diversificada maternidade.
Depois,
o sol aquece e a água evapora, sobe, faz-se nuvem para melhor voar.
Voa, por
onde quer, e depois regressa outra vez num recomeço sem fim.
A
vida, maravilhosa aventura, não pára.
Agora,
aparecem uns figurões a querer privatizar a água e apropriarem-se dela.
Deixará
assim de ser um bem público e comum. A loucura e a ganância não têm fim. São
insaciáveis e, se o permitirmos, tenderão a apropriar-se de tudo.
Enfim,
eu que por opção e convicção me vejo e sinto pacífico, lembrei-me da expressão
que ouvi a um jovem no outro dia, a propósito de um outro tema que tinha a ver
com o desemprego e a falta de oportunidades.
Dizia ele: «Eu quero e desejo a
paz. A paz segura e duradoura. A paz para todos, que respeite diferenças e
garanta a responsabilidade da liberdade para todos mas, cada vez estou mais convencido
que ela só é possível depois de uma guerra que precisamos travar porque a isso
nos obrigam.»
E
eu que na altura fui dizendo que não, temo que a vida, assim privatizada e só
para alguns, venha a ampliar e multiplicar o sentir deste jovem. E se qualquer
guerra é sempre de evitar, já o mesmo se não poderá ou deverá dizer de uma
oposição que se pretende eficaz e continuada, da desobediência civil exercida
com critério e inteligência.
É
claro que todos queremos e precisamos viver mas, se nada fizermos para nos opor
a esta gramática, qualquer dia pensarão em privatizar, talvez, o ar.
Pode-se
duvidar mas tenho para mim que há gente para isso.
Há gente para quem a ideia
de gratuídade da vida se afigura como perigosa e socializante para além de um
tremendo desperdício.
A Ribeira da Seda na sua passagem por Cabeção
(Foto de Joana Croca)

