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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Selo-de-Salomão


por Miguel Boieiro


Pela segunda vez, recebi o amável convite da Associação Cultural “Ficar”, de Portalegre, para proferir uma palestra subordinada ao tema “Ervas Silvestres Comestíveis” e acompanhar o grupo num passeio pedestre pelo Parque Natural da Serra de São Mamede, a fim de identificar espécies. Valha a verdade que se diga que existem na praça experimentados biólogos e outros especialistas muito mais habilitados do que eu para executar tais tarefas. Ao aceitar prazenteiros convites, tenho sempre em mente aquele velho provérbio “não vá o sapateiro além da chinela!”. Mas enfim, como defendo que cada um deve partilhar o que sabe ou o que julga saber, por muito pouco que seja, lá fui à cidade altaneira acompanhado da minha cara-metade que me cuida da indumentária, corrige-me excessos e acrescenta-me saberes.

Fomos recebidos principescamente, ficando alojados nas próprias instalações da Ficar, sitas em plena Rua do Comércio e a dois passos da imponente catedral. Mais interessante que a palestra foi o convívio que naturalmente se desenvolveu e as promessas de participação em outros eventos organizados pela dinâmica Associação. Um especial agradecimento à Dora e ao Telmo, sempre inexcedíveis de atenções.

Ora o que tem o selo-de-salomão a ver com isto? Perguntarão os leitores. É que tenho por hábito, aquando das minhas digressões, redigir sobre uma determinada planta que me aparece sem avisar e logo me sensibiliza. Da primeira vez, calhou aparecer o estevão-macho, já em território castelhano. Lembram-se? Agora, ao descermos uma das vertentes da serra, bem coberta de vegetação, surgiu-me o selo-de-salomão, planta medicinal não muito fácil de encontrar, uma vez que se encontra apenas em zonas montanhosas (nunca abaixo dos 500 metros), em lugares sombrios, habitualmente debaixo dos carvalhos e em solos alcalinos. A sua área de distribuição natural abrange a Europa e a parte norte da Ásia.

Pois tal herbácea, que dá pelo nome científico de Polygonatum officinale, Polygonatum multiflorum ou Polygonatum odoratum, segundo diversos botânicos, da família das Liliáceas, é uma bela planta vivaz com rizoma alvo muito espesso e ramificado que deixa cicatrizes anelares, os quais se assemelham a selos, sinetes ou carimbos, daí provindo o nome vulgar da espécie. Os caules, em forma cilíndrica, inclinam-se para o solo, possuindo folhas alternas, ovais ou elípticas. As flores são brancas, pequenas, quase sempre isoladas e inodoras. Os frutos são bagas azuladas, possuindo sementes esféricas.

A parte usada em fitoterapia é apenas o rizoma. Contém glucoquinina (substância hipoglicémica), amido, saponinas, mucilagens, tanino e açúcares. É considerado analgésico, diurético, emoliente, adstringente, antidiarreico e antipirético.

Em medicina tradicional chinesa e coreana existem várias aplicações curativas com realce para a anorexia e as disfunções sexuais, sendo, segundo afirmam, também afrodisíaca.

A planta possui toxicidade, especialmente nos frutos que contêm um glicósido venenoso chamado convallamarina, por isso, não deve ser utilizada internamente sem a assistência de um especialista. Diz-se que é excelente como diurética ou como adjuvante no tratamento da diabetes. Externamente é aplicada em compressas ou cataplasmas da polpa fresca, ou cozimento concentrado, para inflamações cutâneas, equimoses e contusões. É útil como cosmético para suavizar a cútis. As “Plantas Mágicas” de Sédir apontam resultados positivos para os panarícios e mordeduras de víboras.

Os rizomas do selo-de-salomão entram na preparação de diversos licores juntamente com o funcho, a hortelã, a canela e outras aromáticas.

Por último, os americanos referem que se podem comer os jovens rebentos cozinhados, como sucedâneos dos espargos.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Erva-formigueira




por Miguel Boieiro

Numa pequena propriedade meio abandonada brotou, em interstício do empedrado, uma erva-formigueira. Passados alguns meses, quando lá voltei, a pequena erva tinha-se transformado numa enorme moita, reproduzindo-se vigorosamente por vários locais. Podemos assim, desde logo, deduzir uma das características desta planta mexicana: a produção de milhares de sementes o que origina a sua rápida proliferação como espécie infestante. Outro atributo marcante é o seu odor indefinido, mas inconfundível. Há quem diga que cheira a formigas esmagadas e daí o nome que se dá à planta. Outros mencionam que deita um aroma que parece uma mistura de petróleo, menta, cânfora, segurelha e limão. De qualquer forma, a fragrância é muito intensa e original.

Para que não haja confusões, uma vez que o termo popular “erva-formigueira” aparece atribuído a diferentes plantas, em várias regiões do mundo, esclareço que me estou a referir à Chenopodium ambrosioides L., planta da família das quenopodiáceas, nativa da América tropical, que se aclimatou com facilidade em todas as regiões subtropicais e temperadas. Sendo bastante utilizada pelos ameríndios como planta medicinal, foi trazida para a Europa pelos espanhóis no século XVI e logo tomou várias designações: epazote, chá-do-méxico, chá-dos-jesuítas, erva-de-santa-maria, erva-vomiqueira, formigueira, lombrigueira, mentruz, quenopódio, ambrósia, etc.

Crê-se que a reputação desta planta provém do facto de afugentar ou eliminar parasitas, outrora muito comuns nas habitações e povoados: pulgas, piolhos, percevejos, carrapatos, moscas …

Em traços largos, podemos descrevê-la como herbácea anual ou perene, de raízes brancas, compridas e oblongas. Os seus caules são vigorosos, angulosos e ramosos, possuindo sulcos longitudinais pouco profundos, podendo atingir um metro de altura. As folhas são ascendentes, oblongo-lanceoladas, irregularmente dentadas e agudas com pecíolo curto. As flores aglomeram-se em espigas terminais e são brancas ou levemente esverdeadas e pequenas (1 mm de diâmetro). Os frutos, também muito pequenos, são aquénios ovóides achatados, completamente envoltos nos respetivos cálices, dando sementes pretas, brilhantes e lisas. Com bom desenvolvimento vegetativo, um só pé pode produzir dez mil sementes. Toda a planta, sendo intensamente verde, avermelha um pouco, quando as sementes amadurecem.

Os seus principais constituintes químicos são saponinas, taninos, sucos amargos e um óleo essencial, cujo componente determinante se chama ascaridol. É ele o principal responsável pelas propriedades anti-helmínticas da erva-formigueira (capacidade de eliminar os parasitas intestinais). O óleo, amarelado e de aroma penetrante, serve de base a muitos medicamentos e aplicações veterinárias.

Para além da propriedade antes citada, a planta é carminativa, tónica estomacal, emenagoga, antiespasmódica, vermífuga, diurética, cicatrizante, analgésica, antirreumática e antiasmática.

Outrora abusava-se em demasia, quer da erva, quer da sua essência, ocorrendo frequentes intoxicações devido ao ascaridol. Hoje em dia continua a consumir-se a erva-formigueira mas com os devidos cuidados e não ultrapassando as doses prescritas pelos especialistas.

Algumas receitas clássicas:
Para eliminar vermes intestinais, melhorar as funções digestivas, aliviar a asma e as perturbações nervosas – tomar três chávenas por dia de uma infusão de 20g da planta verde num litro de água.

Para pernas inchadas, varizes, afeções da pele e picadas de insetos – aplicar cataplasmas das folhas cozidas com sal marinho.

Tendo sempre presente, as contra-indicações provocadas por doses elevadas, lembra-se que a infusão da erva-formigueira era, noutros tempos, tomada com regularidade como sucedâneo do verdadeiro chá.



Atualmente estuda-se, com acuidade, o seu efeito inseticida contra melgas e mosquitos e a aplicação em agricultura biológica para combater determinadas pragas.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

A Malva


por Miguel Boieiro

Creio bem que toda a gente, mesmo os citadinos, conhece a Malva silvestris L., planta abundante em todas as estações do ano, com grandes folhas palmatilobadas e flores com cinco pétalas separadas, que vão da cor branca à violácea. Por isso, dispenso-me de fazer aturadas descrições botânicas.

Pois a malva é toda boa, desde as raízes, passando pelos caules, as folhas, as flores e os frutos (que os miúdos chamam “queijinhos”). O seu uso não possui quaisquer contraindicações.

A verdade é que, hoje em dia, a facilidade com que se chega à farmácia para o fornecimento de qualquer medicamento de síntese química, enubla completamente o papel, outrora precioso, das plantas nossas amigas, em que a malva estava em primeiríssimo plano. Ficaram, é certo, ditos e provérbios, mas eles parece servirem apenas para brincar: – “Vê lá se também queres que te lave o …com água de malvas!”
Este dito jocoso, ilustra, às mil maravilhas, um dos usos comuns da malva, como anti inflamatória, desinfetante e calmante.

Já na antiga Grécia, a malva, considerada planta sagrada, utilizada de inúmeras formas, servia para combater todas as doenças conhecidas: abcessos, acne, furúnculos, picadas de insetos, hemorróidas, obstipações, inflamações oculares, bronquites, faringites, etc., etc. Aliás, Hipócrates, o chamado pai de medicina, recomendava-a como componente, em praticamente todos os preparados.

A malva pertence à família das Malváceas (outra espécie valiosa desta família é a alteia que, a seu tempo, analisaremos) e é uma herbácea bienal, ou mesmo perene que medra em caminhos, baldios e lixeiras onde existem solos porosos, ricos em azoto. Se as condições forem as ideais, ultrapassa facilmente o meio metro de altura.

Na sua constituição química sobressaem as mucilagens que possuem virtudes curativas como elementos calmantes, emolientes, desinfetantes e laxativos, para além de taninos, pró vitamina A e vitaminas B1, B2 e C.

Usa-se, quer internamente (infusões e decocções), quer externamente (lavagens, gargarejos, cataplasmas e preparados com substâncias oleosas).

Dizem que uma cataplasma feita à base de malvas produz efeitos quase milagrosos no tratamento de furúnculos.

Com as folhas tenras da malva, a que se juntam hortaliças, confeciona-se (ou confecionava-se) uma sopa muito apreciada, descrita desde remotas eras.

Para terminar, transcrevo, com a devida vénia, as mezinhas que o Dr. Oliveira Feijão prescreve na sua conhecida obra “Medicina pelas Plantas”:

“O infuso das flores (30/1000), adoçado com mel, é usado contra bronquites, tosse, sarampo, escarlatina, varicela, etc. O cozimento da raiz (60/1000) é um bom expectorante, tomado na dose de várias chávenas por dia. O cozimento das folhas (50/1000) emprega-se em clisteres, irrigações vaginais, gargarejos, pensos para feridas, doenças da pele, hemorroidal, etc.”. 

sábado, 3 de maio de 2014

Cavalinha


por Miguel Boieiro

Pela grande variedade de solos a que se juntam diversos microclimas, o nosso País pode justamente considerar-se uma das reservas mundiais da flora medicinal, dado que dispõe de ótimas condições para a produção de variadíssimas espécies. Daí que muito dificilmente se possa compreender que se importem determinadas plantas medicinais e seus extratos, de países onde, por vezes, é necessário criar condições artificiais de produção.

Sobre a planta medicinal que iremos abordar, podemos afirmar que só o concelho de Sesimbra possui, espontaneamente, quantidade suficiente para abastecer todo o mercado europeu. E isto de uma forma absolutamente natural: não é preciso semear, nem adubar, nem sachar, basta simplesmente colher.

Estamos a falar da cavalinha ou Equisetum arvense L., planta vivaz da família das Equisetáceas que teve a sua origem em épocas geológicas muito recuadas. Esta planta primitiva, autêntico fóssil vivo, não floresce, não possuindo, portanto, sementes. A reprodução processa-se através de esporos contidos nos esporângios que se encontram agrupados na espiga com que termina o primeiro caule da planta. Feita a dispersão dos esporos, os caules primitivos, de cor acastanhada, murcham. Nascem então outros caules verde claros, canelados, ocos e ramificados que se dividem em segmentos separados por pequenos nós. Os segundos caules, estéreis, que chegam a atingir mais de um metro de altura, são os que possuem atributos medicinais.

A cavalinha propaga-se com muita facilidade em solos arenosos e húmidos, constituindo uma erva daninha, flagelo dos agricultores. Deve ser colhida no verão e seca à sombra. Depois de cortada em pequenos troços, convém guardá-la em recipientes herméticos. Conserva as suas propriedades durante alguns anos.

Os naturopatas são unânimes acerca das extraordinárias virtudes curativas da cavalinha, a qual contém potássio, ferro, sódio, magnésio, enxofre e sobretudo, silício. O famoso naturista Kneipp considerava a cavalinha, uma das doze plantas medicinais mais incontornáveis e recomendava-a para o combate às seguintes enfermidades: gripes, catarros, resfriados, reumatismos, gota, hidropisia, ciática, inchações, herpes, cárie, pés gretados, hemorroidal, cálculos, doenças dos rins, fígado, baço e bexiga, hemorragias e cancro. É na realidade uma lista impressionante mas ainda assim, incompleta. O espanhol Ferran Comas aconselha-a para o bócio, as inflamações oculares e a tuberculose. O médico chileno Lazaeta Acharan gaba a sua eficácia extraordinária na cicatrização de todo o tipo de feridas.

A rapidez com que estanca qualquer hemorragia é espetacular. Também não parece haver dúvidas de que a cavalinha limpa as impurezas do organismo, essencialmente por ação do silício solúvel de que é bastante rica.

O modo mais divulgado para beneficiar dos princípios ativos da Equisetum consiste em preparar uma infusão deixando ferver a planta pelo menos dez minutos. É conveniente não coar de imediato, pois a cavalinha continua a libertar princípios ativos após a fervura. O “chá” torna-se assim mais concentrado, o que se constata pela sua cor avermelhada. Para meio litro de água são necessários 50 g de cavalinha seca. Se for em verde há que duplicar o seu peso. O “chá” de cavalinha possui paladar discreto mas agradável e não apresenta contra-indicações.

A utilização do concentrado da cozedura da cavalinha para juntar à água do banho dá também bons resultados. Para males respiratórios aconselha-se a aspirar o vapor da cozedura da planta. Da cavalinha fresca pode extrair-se o respetivo suco, que é a melhor maneira de se aproveitarem as suas excecionais propriedades. Infelizmente, importamos este extrato da Alemanha a preços altíssimos.



Enfim, há ainda quem recomende misturar os rebentos tenros nas saladas cruas, ou usar o pó para temperar a comida já que a cavalinha é, comprovadamente, um óptimo remineralizante.



terça-feira, 29 de abril de 2014

Lúcia-lima


por Miguel Boieiro

A maltinha nova da minha geração tinha por costume intercalar cheirosas folhas de lúcia-lima entre as páginas dos livros para aumentar o prazer das leituras. As folhinhas secavam facilmente e reforçavam o seu característico perfume. Juntava-se assim o útil ao agradável.

Na verdade, a Aloysia citriodora, também popularmente conhecida como bela-luisa é uma das plantas mais aromáticas que conheço e, não fora só por isso, deveria ter sempre lugar permanente nas hortas e quintais dos cidadãos mais atilados. Com ela prepara-se uma infusão deliciosamente aperitiva que não precisa de açúcar e serve, às mil maravilhas, acompanhada por umas fogaças à moda de Alcochete (passe o chauvinismo), para confecionar um requintado lanche, particularmente quando recebemos visitas, mas não só.

Este pequeno arbusto caducifólio da família botânica das verbenáceas veio da América do Sul, tendo sido introduzido na Europa no século XVII. Adaptou-se rapidamente ao nosso clima e consegue resistir às geadas desde que elas não sejam muito agrestes. As suas folhas, que caem no inverno, como já se anteviu, são lanceoladas, quase sésseis (pecíolo curto) e algo rugosas com coloração verde amarelada. As flores são brancas e muito pequenas, agrupando-se em espigas. Os frutos formam minúsculas drupas mas, jamais as vemos no continente europeu. Consequentemente, a reprodução processa-se mediante estacas já devidamente enraizadas que se separam da planta mãe.

A lúcia-lima é estimulante do apetite, digestiva, antiespasmódica, antifúngica, febrífuga, emenagoga, relaxante do sistema nervoso, sedante, hipotensora e carminativa.

Com tantas propriedades, não admira que seja uma das plantas medicinais mais estimadas.

Possui um óleo essencial algo complexo onde foram detetadas mais de cem substâncias. Destas destacam-se o citral, o limoneno, o eucaliptol, o pineno e o cariofileno. Contém também taninos, flavonóides, melatonina e mucilagens.

É indicada para situações de ansiedade, transtornos digestivos (dispepsias, digestões pesadas, flatulências superiores), menstruações dolorosas, cólicas renais e biliares. Por possuir melatonina que é um relaxante natural, por vezes mais eficaz que os tranquilizantes químicos e sem os efeitos secundários desses fármacos, torna-se excelente para combater as insónias.

O “chá” é muito simples de fazer: basta ferver, durante três minutos, 30 g de folhas secas num litro de água e tomar bem quente após as refeições ou ao deitar. Devido ao seu sabor muito aromático e adocicado, convém parar após cinco dias e retomar a tisana uma semana mais parte, porque, com a continuação, ela torna-se um pouco enjoativa.

No Perú, um dos países de origem desta verbenácea, fabricam, a partir das respetivas folhas, uma bebida gasosa muito agradável, cuja comercialização local chega a suplantar a da coca-cola.

Naturalmente que a lúcia-lima é também plantada como apreciado arbusto ornamental e odorífero nos jardins de todo o mundo de climas tropicais e temperados. Ela prefere uma boa exposição solar e solos húmidos bem drenados e levemente argilosos. Uma das características mais interessantes no que respeita ao seu cultivo é o facto de medrar satisfatoriamente no meio de outros vegetais (planta fitófila).

Tal como a erva-príncipe, também a lúcia-lima pode ser usada na gastronomia, conferindo aromas cítricos aos molhos, marinadas, saladas de frutas, gelatinas, etc.

Por fim, há que referir o seu emprego em produtos de cosmética e perfumaria. Segundo “La Beauté par les Plantes” da conhecida editora Gründ, o odor fresco da “verveine  citronnelle” perfuma os sabonetes, as loções capilares, as brilhantinas e os “batons” para os lábios das “madames”.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Setembrista


por Miguel Boieiro


Fui ao Sapal das Hortas que dista quase 2 km da minha moradia e tive sorte. Estava baixa-mar. Colhi duas dúzias de folhas de setembrista e regressei contente. As setembristas gostam da água salgada e constituem a guarda avançada da vegetação halófita, juntamente com as salicórnias. Quando a maré está cheia o seu habitat fica submerso e já não dá para apanhar. Cozi-as só em água e pensei – o petisco vai ficar salgadote! Enganei-me! As folhas da setembrista estavam tão deliciosas como se fossem espinafres e sem qualquer excesso de sal. Não tivesse havido um inverno ultra chuvoso e naturalmente as plantas concentrariam mais cloreto de sódio. Li algures que elas chegam a resistir em meio aquoso com 35 g de sal por litro de água.

A setembrista é mais uma planta selvagem, que quase ninguém conhece, que pode ser utilizada vantajosamente na culinária. Escusam de procurar em livros da especialidade e na net, que não encontram esta designação. Nem eu próprio me lembro como tal chegou ao meu conhecimento. Setembrista porquê? Ora porque na região onde sou nado, junto ao delta do estuário do Tejo (passe a aparente contradição; defendo a ideia de que este rio desagua em delta num mar interior), ela floresce em setembro. Nessa altura é das flores mais bonitas que aparecem nos sapais, compostas de malmequeres lilases de corolas douradas.

Como outras plantas silvestres, elas são ideais para a panela enquanto jovens e tenras. Logo que espigam, endurecem e são apenas boas para a vista. A propósito, li algures em documentação oriunda dos EUA que estas plantas são oftálmicas, mas não se diz como se faz e como se aplica o remédio fitoterápico. Presumo que seja uma preparação tópica a partir da água da decocção ou da cozedura de talos, folhas e raízes. Ou talvez das flores, não sei!

Os conhecimentos são ainda muito reduzidos no que toca aos proveitos a obter da vegetação halófita, quer para curas, quer para alimentação. Dada a riqueza botânica existente nas regiões onde a água do mar se encontra com a água dos efluentes de água doce, da qual a zona estuarina do Tejo é um bom exemplo, seria mister que alguém, cientificamente dotado, escrevesse algo. Fica o desafio para quem o quiser enfrentar.

O que na minha região se chama setembrista é a Aster tripolium L. subsp. Pannonicus. Ela pertence à vasta família das Asteráceas e ao género Aster que provém do grego e significa estrela. Na verdade existem para cima de 300 espécies de Aster com flores amarelas, brancas, azuis, lilases ou violetas. Esta, minha conhecida, é muito bonita e tem os capítulos lilases. Os caules são eretos e ramificados desde a base. As folhas são brilhantes, suculentas, alternas e lanceoladas. A raiz é grossa. As flores são hermafroditas e formam panículas. Os frutos são aquénios.

Alguns autores dizem que a Aster tripolium é anual, outros referem que é bisanual e outros ainda que é perene. Pois bem! A minha setembrista é perene. Todos os anos, da toiça primitiva surgem novos rebentos. Alguns dizem que é provida de pêlos. A “minha” não os tem.

A setembrista gosta da humidade e do sol. Segundo o “Atlas Botanique” do eslovaco Jindrich Krejca (edição francesa) que contém a descrição de 1785 plantas, a Aster Maritime, presente em marismas, floresce de junho a setembro. Até pode ser, só que a “minha” não dá flor antes de setembro.

Do que fica dito se pode concluir que, para além de existirem muitas espécies de Aster, existem igualmente muitas subespécies de Aster Tripolium e que sendo todas originárias de parte do continente europeu, asiático e do norte de África, variam em numerosos detalhes, de região para região.

Redigir “sem rede” sobre tal planta, torna-se, deste modo, tarefa difícil para este escriba amador. Mesmo assim, resolvi arriscar e aventurar-me na esperança de que outros mais sabedores venham preencher as minhas lacunas e corrigir erros e lapsos.
Concluindo, reafirmo: As folhas de setembrista, especialmente no fim do inverno e no princípio da primavera, para além de ajudarem os hipertensos, podem ser, se nós quisermos, uma “delicatessen” gastronómica de se lhe tirar o chapéu.Fui ao Sapal das Hortas que dista quase 2 km da minha moradia e tive sorte. Estava baixa-mar. Colhi duas dúzias de folhas de setembrista e regressei contente. As setembristas gostam da água salgada e constituem a guarda avançada da vegetação halófita, juntamente com as salicórnias. Quando a maré está cheia o seu habitat fica submerso e já não dá para apanhar. Cozi-as só em água e pensei – o petisco vai ficar salgadote! Enganei-me! As folhas da setembrista estavam tão deliciosas como se fossem espinafres e sem qualquer excesso de sal. Não tivesse havido um inverno ultra chuvoso e naturalmente as plantas concentrariam mais cloreto de sódio. Li algures que elas chegam a resistir em meio aquoso com 35 g de sal por litro de água.


A setembrista é mais uma planta selvagem, que quase ninguém conhece, que pode ser utilizada vantajosamente na culinária. Escusam de procurar em livros da especialidade e na net, que não encontram esta designação. Nem eu próprio me lembro como tal chegou ao meu conhecimento. Setembrista porquê? Ora porque na região onde sou nado, junto ao delta do estuário do Tejo (passe a aparente contradição; defendo a ideia de que este rio desagua em delta num mar interior), ela floresce em setembro. Nessa altura é das flores mais bonitas que aparecem nos sapais, compostas de malmequeres lilases de corolas douradas.
Como outras plantas silvestres, elas são ideais para a panela enquanto jovens e tenras. Logo que espigam, endurecem e são apenas boas para a vista. A propósito, li algures em documentação oriunda dos EUA que estas plantas são oftálmicas, mas não se diz como se faz e como se aplica o remédio fitoterápico. Presumo que seja uma preparação tópica a partir da água da decocção ou da cozedura de talos, folhas e raízes. Ou talvez das flores, não sei!

Os conhecimentos são ainda muito reduzidos no que toca aos proveitos a obter da vegetação halófita, quer para curas, quer para alimentação. Dada a riqueza botânica existente nas regiões onde a água do mar se encontra com a água dos efluentes de água doce, da qual a zona estuarina do Tejo é um bom exemplo, seria mister que alguém, cientificamente dotado, escrevesse algo. Fica o desafio para quem o quiser enfrentar.
O que na minha região se chama setembrista é a Aster tripolium L. subsp. Pannonicus. Ela pertence à vasta família das Asteráceas e ao género Aster que provém do grego e significa estrela. Na verdade existem para cima de 300 espécies de Aster com flores amarelas, brancas, azuis, lilases ou violetas. Esta, minha conhecida, é muito bonita e tem os capítulos lilases. Os caules são eretos e ramificados desde a base. As folhas são brilhantes, suculentas, alternas e lanceoladas. A raiz é grossa. As flores são hermafroditas e formam panículas. Os frutos são aquénios.

Alguns autores dizem que a Aster tripolium é anual, outros referem que é bisanual e outros ainda que é perene. Pois bem! A minha setembrista é perene. Todos os anos, da toiça primitiva surgem novos rebentos. Alguns dizem que é provida de pêlos. A “minha” não os tem.

A setembrista gosta da humidade e do sol. Segundo o “Atlas Botanique” do eslovaco Jindrich Krejca (edição francesa) que contém a descrição de 1785 plantas, a Aster Maritime, presente em marismas, floresce de junho a setembro. Até pode ser, só que a “minha” não dá flor antes de setembro.

Do que fica dito se pode concluir que, para além de existirem muitas espécies de Aster, existem igualmente muitas subespécies de Aster Tripolium e que sendo todas originárias de parte do continente europeu, asiático e do norte de África, variam em numerosos detalhes, de região para região.

Redigir “sem rede” sobre tal planta, torna-se, deste modo, tarefa difícil para este escriba amador. Mesmo assim, resolvi arriscar e aventurar-me na esperança de que outros mais sabedores venham preencher as minhas lacunas e corrigir erros e lapsos.

Concluindo, reafirmo: As folhas de setembrista, especialmente no fim do inverno e no princípio da primavera, para além de ajudarem os hipertensos, podem ser, se nós quisermos, uma “delicatessen” gastronómica de se lhe tirar o chapéu.

sábado, 22 de março de 2014

Serpentina


por Miguel Boieiro

Felicito vivamente Teresa Perdigão pelo seu excelente livro “Serpentina – Uma Tradição de Raiz”. Igualmente parabenizo a Junta de Freguesia de Ribeira Chã (Ilha de São Miguel, Açores) pela edição da obra e pelo seu labor na defesa e divulgação das tradições e, em especial, da gastronomia popular da região.

Humildemente confesso que a planta que a seguir irei discorrer, jamais afluiu à minha mente no âmbito das pesquisas que venho efetuando, mormente no tocante à fitoterapia e às espécies silvestres comestíveis. Foi a antropóloga Teresa Perdigão quem um dia despertou a minha atenção para a farinha de serpentina e mais tarde consolidou o meu interesse quando me ofereceu o seu livro.

Pasme-se porque a farinha de serpentina vem de uma planta toda ela venenosa e nunca me passou pela ideia que tivesse algum préstimo. Mais uma vez opino convictamente que todas as plantas são úteis, só que algumas foram esquecidas e noutras ainda não se determinou a sua utilidade.

Ora, com a devida vénia, vou então abordar a Arum italicum, planta perene, julga-se que oriunda da região mediterrânica, conhecida popularmente por jarro dos campos. Pertence à família botânica das aráceas que engloba mais de cem géneros e três mil espécies, quase todas ornamentais pela beleza das suas grandes e lustrosas folhas e originalidade dos apêndices florais. Com fins alimentares são mais conhecidos o inhame, Colocasia esculenta (tubérculo) e, residualmente, a costela-de-adão, Monstera deliciosa (fruto).

Convém desde já explicitar que no respeitante aos jarros, ou seja, ao género Arum, a “Flora Portuguesa” de Gonçalo Sampaio aponta apenas duas espécies espontâneas em Portugal: o Arum maculatum e o Arum italicum. Proveniente de África naturalizou-se também no nosso País, como flor ornamental, o Zantedeschia aethiopica, conhecido por “jarro-de-jardim” ou, mais identificadamente por “copo-de-leite”, como é conhecido no Brasil.

Todos estes jarros são parecidos e todos eles são tóxicos, principalmente as bagas que constituem os frutos. Os dois primeiros aparecem nos campos em zonas húmidas e pouco se distinguem um do outro. Lembro-me de que em tempos da minha meninice, quando faltava a comida para os animais, se colhiam as folhas dos jarros que, após cozidas, se davam aos porcos. Estas plantas possuem um sistema de polinização muito sofisticado. A inflorescência é composta por um espadice branco ou esverdeado que protege a verdadeira flor. No interior do espadice surge um atraente espigão amarelo que tem na base flores femininas e mais acima flores masculinas separadas por um conjunto de filamentos. Quando as flores femininas estão recetivas, a temperatura aumenta e é exalado mau cheiro que atrai insetos (moscos). Estes entram à procura do “pitéu” e ficam aprisionados durante 24 horas, enchendo-se de pólen. Passado esse tempo, os filamentos murcham e os moscos podem então sair para fertilizar outra planta. Para resultar, a polinização tem que ser cruzada, isto é, embora a planta agregue os dois sexos, eles não se fertilizam na mesma unidade. A fim de que tudo dê certo, as flores masculinas e femininas produzem os seus pólenes em espaços e tempos diferentes.

Centremo-nos no italicum, embora me pareça que o rizoma do maculatum pode ter também idêntico aproveitamento para se elaborar a tal farinha de serpentina. Um dia hei-de experimentar!

Diz Teresa Perdigão que a serpentina é colhida quando a “vela” (espigão) desponta, por volta do mês de março. Arranca-se a raiz, formado por socas que, depois de limpas das raízes pequenas, são lavadas. Logo após são cozidas com água e sal a que, por vezes, se adiciona uma erva aromática (funcho, por exemplo). Escorrida a água da cozedura pode-se comer, uma vez que a toxina (oxalato de cálcio) fica eliminada. Para fazer a farinha o processo é mais complexo. A serpentina é ralada para dentro de grandes alguidares com água. Muda-se a água várias vezes no mesmo dia e em dias sucessivos para retirar uma espécie de farelo. Finalmente, a farinha, que vai ficando cada vez mais branca, está pronta para utilizar. A autora apresenta várias receitas, com boas fotografias, incluindo papas, pudins, gelados, bolos, cremes e pratos de carne e de peixe.

Anote-se que a farinha de serpentina, muito usada na ilha de São Miguel em tempos de penúria alimentar, chegou a ser comercializada e exportada para o continente, sendo vendida nas lojas do Jerónimo Martins. Na respetiva embalagem comercializada, respigámos as seguintes frases encomiásticas:
Um caldo de serpentina não é apenas um alimento de alto valor nutritivo e fácil digestibilidade, mas um verdadeiro doce que se aprecia com prazer.
Conclusões da análise do Prof. Charles Lepierre:
Farinha tipo fécula de composição normal, bem preparada, semelhante à da “arrow-root”. Pode entrar na alimentação corrente. Poder alimentício – 3.500 calorias por quilograma.

Para terminar, refira-se que, segundo alguns autores, também em fitoterapia os jarros do campo têm utilidade uma vez que as raízes possuem virtudes expetorantes, podendo ser utilizadas no caso de afeções das vias respiratórias.


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Rábanos e Rabanetes


por Miguel Boieiro

Os compêndios consultados dizem que o rábano não se encontra espontâneo e tampouco se conseguiu determinar a sua região de origem, embora seja claramente oriundo dos climas temperados. O facto é que ele nasce espontaneamente no meu quintal. Não preciso de o semear porque, na altura própria, ou seja, quando aparecem as primeiras chuvas do outono, começo a ter fartura de nabiças. Com o decorrer do tempo, ganha uma raiz grossa e carnuda, floresce e dá sementes que se espalham pelo terreno. Depois, só é preciso efetuar desbastes e mondas, assentando nos princípios da chamada permacultura.

Este rábano de que vos falo, também conhecido por rabão, nabo-chinês ou nabo-japão, dá pelo nome científico de Raphanus sativus L. subsp. Longipinnatus. Vejamos: “raphanus” vem do grego e significa crescimento rápido, “sativus” provém do latim e significa que a espécie é cultivada e “longipinnatus” refere-se às folhas que são longas e recortadas. Outra espécie afim é o rabanete - Raphanus sativus L. var. radicula. São ambas plantas da utilíssima família das crucíferas com praticamente os mesmos constituintes químicos e semelhantes usos culinários e fitoterapêuticos. Ao efetuar consultas, quer pelos livros, quer pela internet, depara-se com alguma confusão porque há quem as considere o mesmíssimo vegetal. Todavia, quando adultos, apresentam-se fisicamente bem diferentes. Os rabanetes, embora “não indo à mesa do rei”, como se apregoa num fado popular, são bastante mais conhecidos. De ciclo anual, apresentam-se pequenos, redondinhos e vermelhinhos (espécies mais comuns) e entram na decoração de diversos pratos. Por sua vez, os rábanos são bienais, bem maiores, a pele da sua raiz é mais rosada e o sabor mais picante, já que possuem compostos sulfurados em maior quantidade. Podem alcançar quase meio metro de altura, têm raiz pivotante, folhas alternas e flores rosadas hermafroditas. As sementes, de cor castanha, ficam encerradas em silíquas aguçadas.

A textura da raiz é crocante e picante, cujo ardor se reforça com a falta de água.
Eis os principais constituintes do rábano: heterósidos sulfurados, óleo essencial, glúcidos, aminoácidos, antocianósidos, potássio, cálcio, fósforo, vitamina C, vitaminas do complexo B e diversas enzimas.
Propriedades: diurético, béquico, colagogo, dissolvente dos cálculos hepáticos e renais, anti escorbútico e aperitivo.

O rábano é benéfico no tratamento de inúmeras enfermidades, de que destacamos as seguintes:
- Asma, bronquite, catarro e outros transtornos do sistema respiratório. Coze-se 100 g da raiz num litro de água, adoça-se com mel e toma-se 3 ou 4 vezes por dia;
- Dispepsia, cálculos renais e problemas hepáticos. Deve-se consumir a raiz crua amiudadas vezes;
- Cálculos biliares. Comer a raiz cortada às rodelas embebida em sumo de limão;
- Urticária e acne. Esmagar rábanos adoçados com mel, coar e beber até meio litro por dia;
- Artrites. Aplicar cataplasmas de rábanos triturados nas zonas do corpo afetadas.
- Obesidade. Tomar em jejum uma papa preparada a partir de uma raiz de rábano esmagada (ou de três rabanetes) sem qualquer adoçante.

O Dr. Oliveira Feijão em “Medicina pelas Plantas”, prescreve o xarope confecionado com rodelas finas de rábano fervidas com açúcar para debelar a tosse convulsa.

Também o Dr. Samuel Maia no “Manual de Medicina Doméstica” apresenta receitas de xaropes e de vinho antiescorbútico, algo sofisticadas.

Na culinária é sobejamente conhecido o uso das folhas e das raízes dos rábanos em saborosos caldos e sopas alcalinizantes. As raízes cortadas às rodelas valorizam extraordinariamente as saladas crudívoras e aprimoram a guarnição de variadíssimos menus.

No Japão, a variedade designada por “daikon”, de raiz mais esbranquiçada, é um ingrediente importante da respetiva cozinha, proporcionando, inclusive, a elaboração de figuras esculpidas que beneficiam a apresentação dos pratos, uma vez que “os olhos também comem”. É igualmente determinante nas cozinhas coreana, chinesa, vietnamita e indiana.

Em França e nos países do norte da Europa gabam-se as virtudes do rábano negro - Raphanus sativus var. niger, cuja raiz possui uma tez escura. Muito utilizado na culinária, pois é de baixo valor calórico, estimula a secreção dos sucos digestivos com o seu típico sabor picante (Plantes Potagères - editora Gründ).


sábado, 23 de novembro de 2013

Dulcamara


por Miguel Boieiro

Apreciar a flora que brota espontaneamente à beira dos percursos pedonais que episodicamente trilhamos, acaba por se tornar, com a continuação, um passatempo deveras agradável. Não é preciso ir ao campo para divisar a exuberância multifacetada e multicolor da vegetação. Mesmo em plena cidade, as plantas não pedem licença para emergir viçosas e atraentes se para tal encontrarem propícias condições.

Uma escassa hora livre que disponho antes da aula de fitoterapia que costumo orientar na Universidade Sénior dos Coruchéus dá-me para passear um pouco pelas chamadas “avenidas novas” que circundam as instalações. Anoto, com prazer, que quase todos os prédios possuem jardins anexos e até pequenos hortejos. Alguns espaços são tratados com esmero pelos respetivos moradores. Outros restam abandonados mas sempre repletos de plantas (árvores, arbustos, flores, ervas …). É incrível como deparamos com tanta variedade florística em pleno solo urbano, estercado, quase sempre, pelos excrementos dos canídeos, omnipresentes naquela aprazível zona de Lisboa.

De entre tantas plantas que observo que vão das simples ervinhas até às olaias, às tílias, aos lódãos, aos plátanos, aos abacateiros, aos ginko bilobas fêmeas, deu-me agora para distinguir um pequeno arbusto, cujas flores azuis em formato estrelar sobressaem em diversos jardins. Poderia escolher outra mas, desta vez, calha falar da dulcamara.

Trata-se de uma planta ornamental, é bem de ver, mas também medicinal, conhecida e utilizada desde o tempo dos faraós. Atualmente, devido ao quimismo consumista que nos flagela, raramente é mencionada como espécie curativa. No entanto, a doce-amarga, nome popular por que também é conhecida, cuja designação científica, Solanum dulcamara L., indicia a sua família botânica - solanáceas - tem muitas aplicações no campo da fitoterapia.

Antes de prosseguirmos, convém caracterizar bem a planta em questão. Trata-se de um subarbusto perene e trepador com folhas ovais, pontiagudas, verde- escuras e pecioladas. Cresce, e embora sem gavinhas, enrola-se nos seus próprios suportes flexíveis, podendo atingir quatro metros de altura. As flores têm cor azul-violácea e estames amarelos. São alternas, pedunculadas e hermafroditas, possuindo habitualmente cinco pétalas. Os pequenos frutos formam bagas ovoides que começam por ser verdes, passando a vermelhas quando amadurecem. As sementes são reniformes (em forma de rim).

Julga-se que a dulcamara é originária das zonas temperadas da Europa e do norte de África. Ela contém interessantes princípios ativos de que se destacam os gluco-alcalóides, a dulcamarina, a solanina, os taninos, as saponinas e as resinas.

Tem reconhecidamente propriedades diuréticas, emolientes, cicatrizantes, depurativas, expectorantes, febrífugas, sedativas, analgésicas e refere o Dr. Samuel Maia no seu antiquíssimo “Manual de Medicina Doméstica”, também narcóticas e anafrodisíacas.
Principais indicações: bronquite, celulite, hidropisia, urticária, eczema, herpes, acne, queimaduras, hemorroidas, artrite, reumatismo …

O caule da planta tem inicialmente um sabor doce e logo a seguir muito amargo, daí a origem do nome dulcamara. Já se mencionou que pertence à família das solanáceas, o que só por si, implica que tenhamos muito cuidado com o seu manuseio, devido aos alcaloides tóxicos que contém, dos quais se destaca a solanina. No entanto, não está ainda bem determinado qual o grau rigoroso de toxicidade desta planta. Considera-se que as bagas são venenosas, especialmente quando estão verdes, contudo, numerosas espécies de aves ingerem-nas sem, aparentemente, qualquer efeito nocivo.

Antigamente a dulcamara era intensamente utilizada em aplicações internas (infusões). Todavia, hoje em dia, por precaução talvez exagerada, recomenda-se mais o seu uso externo.

Eis algumas receitas que repesquei na minha biblioteca privada:
- Cozimento ou a cataplasma das folhas frescas para aplicar em contusões, queimaduras, herpes e hemorroidas (Dr. Oliveira Feijão).
- Cataplasmas preparadas a partir da decocção de 100 g de folhas em 2,5 dl de água a que se adiciona linhaça (sementes de linho moídas). Aplicar três vezes ao dia, durante 15 minutos, na região afetada (Dr. Pamplona Roger).
- Infusão de 15 g para um litro de água para tomar apenas uma chávena por dia, em jejum (Dr. Lyon de Castro).
- Infusão de 20 g dos caules pulverizados num litro de água. Ferve durante quinze minutos. Tomar uma chávena ao deitar para a polução noturna (Dr. Samuel Maia). Nota: isto é mais para a malta nova, como é evidente.

Outras receitas antigas incluem tinturas, compressas e o suco fresco das bagas.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Espinafre-da-nova-zelândia


por Miguel Boieiro

Acabei de ler o excelente trabalho da minha amiga Maria-Manuel Valagão, ilustre Investigadora do Instituto Nacional de Recursos Biológicos, denominado “A sopa em Portugal e as sopas de plantas silvestres alimentares”. Trata-se de um tratado notável que relata, sobre múltiplas facetas, o percurso histórico, etnográfico e até mesmo, filosófico de toda a elaboração culinária, resultado da ebulição em água, durante um certo tempo de vários componentes, e que geralmente se come à colher. O estudo, frisa a importância alimentar das sopas, caldos e papas e os seus benefícios para a saúde das populações, quer sejam abastadas, quer de fracos recursos.

Há naturalmente variadíssimas versões desde as leves sopas de vegetais, à canja (palavra que em concani, idioma falado em Goa, significa apenas sopa de arroz), ao caldo verde (com ou sem rodela de chouriço), até às famosas sopas da pedra, sopas caramelas e sopas de corno. Não cabe nesta croniqueta explicar como elas se fazem, mas sempre direi que as pedras e as pontas dos chavelhos têm de ser de boa qualidade para que as sopas resultem. Isto mesmo, dizem os gastrónomos entendidos. Por mim, aproveito para recordar minudências da minha infância em que o prato único que, todos os dias, tínhamos ao jantar era a sopa de feijão. Num dia adicionava-se arroz, no outro massa e no outro pão de dezassete esfarelado, acompanhado de hortaliças, abóbora, um naco de toucinho fresco e um pedacinho de chouriço só para dar o gosto.
Tudo isto vem a propósito de uma referência que encontrei no trabalho da Maria-Manuel sobre o uso de espinafres Tetragonia tetragonoides para confecionar sopas no Alentejo e vai daí, lembrei-me de discorrer sobre essa plantinha.

Em Portugal ela é conhecida como espinafre-da-nova-zelândia, em alusão ao país donde se julga ser proveniente, mas encontra-se completamente naturalizada, sendo mesmo considerada nalgumas regiões uma planta invasora. O seu nome científico tem a ver com a configuração curiosa do fruto em forma de quadrilátero. Em França a planta é conhecida por tétragone, designação que considero mais feliz, dado que, botanicamente, pertence à família das aizoáceas e nada tem nada a ver com o espinafre - Spinacia oleracea - da família das amarantáceas.

Do aspeto do fruto, já estamos conversados. As folhas, a parte que nos interessa para preparar a sopa de legumes, são triangulares, carnudas, papilosas, pecioladas e de cor verde brilhante. A ramagem é prostrada, cobrindo o solo em razoável extensão, dado que com grande facilidade alastra por terrenos abertos. As flores são pequenas, discretas, solitárias nas axilas das folhas e de cor amarelo-esverdeado. 

O valor proteico da planta é fraco, mas em compensação, é rica em vitaminas do complexo B, vitamina C, provitamina A, potássio, cálcio, magnésio, fósforo e ferro. O único senão à utilização desregrada deste “falso espinafre” é a existência de ácidos oxálicos, sobretudo quando a planta já está envelhecida. Por isso, é conveniente rejeitá-la quando se encontra em frutificação.
O espinafre-da-nova-zelândia gosta do calor e da humidade, dando-se bem numa alargada faixa de climas temperados. Não é atreito a moléstias, resiste às investidas dos insetos predadores e possui características halófitas, ou seja desenvolve-se em terrenos medianamente salinos. Lembro-me de que a primeira vez que vi este vegetal em grande quantidade foi junto à praia do Baleal (Peniche), já lá vão umas quatro décadas. Aí, e nessa altura, a planta era espontânea, apresentando uma excelente reprodução. Tal também acontece no meu quintal, visto que a água que obtenho do furo sofre a influência da cunha salina proveniente do estuário do Tejo. Todos os anos tenho abundante produção sem fazer qualquer sementeira.

Quanto às virtudes terapêuticas do espinafre-da-nova-zelândia, aponta-se que o capitão Cook, famoso navegador dos mares austrais, a utilizou largamente para combater o escorbuto que atormentava a tripulação do navio Endeavour.


Contudo, é na gastronomia que este vegetal se mostra relevante. Consulte-se, por exemplo, a obra “Plantes potagères” da editora Gründ, onde o tétragone aparece com grande destaque. Na verdade, a sua primordial utilidade é na preparação de esparregados e de suculentas sopas de vegetais, misturada com outras hortaliças. Fica especialmente bem numa sopa ou estufado com grão-de-bico. Experimentem!


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

REMÉDIOS NATURAIS PARA CONSTIPAÇÕES E GRIPES

Quando se aproxima o fim do Verão é frequente aparecerem as constipações e gripes. Pode haver várias razões para tal, mas normalmente isto significa que ingerimos demasiados alimentos Yin (líquidos, saladas cruas, frutas, etc) durante o tempo quente e que, chegadas as temperaturas mais baixas, o corpo tenta libertar-se desse excesso. Em vez de recorrermos logo a medicamentos alopáticos mais agressivos para o nosso organismo, podemos recorrer a algumas práticas caseiras muito fáceis de preparar e eficazes.

Antes de mais, devemos tentar criar uma rotina diária que nos fortaleça e nos mantenha num estado de saúde equilibrada, pois são os extremos que criam as condições propícias para que a doença se instale. Todos estamos sujeitos a contrair todo o tipo de doenças, por isso, mais do que as doenças, o que importa é a qualidade do "terreno" e o estado do Sistema Imunitário que é quem tem sempre a "última resposta".

No caso das constipações e gripes, devemos tentar repousar e deixar que o corpo se liberte dos excessos, fazendo uma alimentação frugal ou mesmo, em alguns casos específicos e aconselhados por um profissional de saúde, praticando um jejum adequado a cada caso.

O que podemos fazer:

- chá de gengibre (ferver 1 L de água, juntar 8 a 10 rodelas finas de gengibre, deixar em infusão e beber quente, em jejum, depois das referições e quando quiser) (nota: o gengibre não deve ferver pois perde as qualidades terapêuticas.

Ao chá de gengibre pode acrescentar anis estrelado (ou erva doce), casca de limão (laranja ou toranja), alho (com casca), pimenta preta em grão e curcuma (açafrão das Índias). Neste caso, pode ferver estes ingredientes durante 10 min., e juntar o gengibre apenas no fim deixando de infusão.

Para aumentar as nossas defesas, podemos beber estes sumos, no início das refeições ou fora delas:

- sumo de 1 limão + 1 dente de alho + 1/2 cebola (tudo batido na liquidificadora com água) e beber de imediato; se tiver dificuldade em beber, adoce com um pouco de mel ou geleia de arroz.

- sumo de cenoura + maçã + aipo + gengibre (bater tudo com um pouco de água na liquidificadora e beber de imediato, pois as vitaminas desaparecem mto depressa);

A estes sumos pode ainda juntar salsa, laranja, toranja ou limão, conforme o gosto. É bom variar.

- O creme de Kuzu, é um excelente e eficaz remédio para as gripes: desfazer 1 colher de sopa de kuzu num pouco de água fria, juntar mais uma chávena de água fria, mexer, levar ao lume mexendo até que a solução fique transparente. Apagar o lume, juntar 1 colher de chá de shoyu. Beber quente.

- Escalda pés: Ferver uma chaleira de água. Preparar uma bacia ou alguidar com água bem quente e sal marinho (ou, como alternativa, gengibre fresco ralado). Levar para o local onde se vai fazer o escalda pés a chaleira com água a ferver, uma toalha e meias. Deixe os pés de molho cerca de 20 a 30 minutos e vá juntando, pouco a pouco, a água da chaleira para manter a água da bacia sempre quente. Antes de calçar as meias, se quiser, pode e deve!, massajar os pés com um pouco de óleo de sésamo morno (isto proporciona um bom sono).

Este tratamento pode ser feito diariamente e em qualquer altura do dia, sobretudo se a pessoa tiver os pés muito cansados. Mas o ideal é fazer à noite antes de se deitar.

- Suplementos: Vit C (2 a 3 gr por dia (não se preocupe, pode tomar até 5 ou 6 gr por dia sem problemas): 1000 mg ao pequeno almoço, e as restantes em intervalos de 1 ou 2 horas); Lisina (1 gr por dia, ao peq almoço); Vit A+C+E+Selénio (1 comp por dia); Complexo B (não exceder a dose recomendada); Equinácea (não exceder a dose recomendada); Propolis (não exceder a dose recomendada).

A EVITAR:

leite e todo o tipo de lacticínios, açúcar, doces, todo o tipo de alimentos refinados (farinhas, arroz e massas “brancos”), álcool, café, chocolate e tabaco.
Alimentos favoráveis:

cereais integrais, legumes de folha verde (pouco cozinhados), cenoura, abóbora, nabo, rabanete, alho francês, courgette, feijões, grão, tofu, tempeh, sopa de Miso, toranja, aipo, salsa, gengibre.

Evite deitar-se tarde e repouse o mais possível, lembre-se que o cansaço (ou a falta de repouso) é o primeiro passo para que a doença se instale.

Não tenha medo da doença porquanto ela é sempre um sinal do corpo indicando que, por alguma razão, nos afastámos do nosso centro. Pense positivo, alimente sentimentos e pensamentos alegres e felizes e deixe que, tranquilamente o seu corpo reencontre o seu estado natural e equilibrado.

Paula Soveral (www.paulasoveral.net)
Terapeuta Conselheira em Ayurveda e Macrobiótica
Presidente da Direcção Técnica da Sociedade Portuguesa de Naturalogia