"Ninguém cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem nenhuma razão."
Chico Xavier (in, Diálogos Lusófonos)

sábado, 31 de outubro de 2015

Zé do Telhado


"Zé do Telhado" (Castelões de Recesinhos, Penafiel, 22 de, junho de 1818 —Mucari, Malanje, Angola, 1875), foi um militar e famoso salteador português, chefe bandoleiro, realiza um grande número de assaltos por todo o Norte de Portugal, durante um período muito conturbado, em que tentaram formar grupos de guerrilha em todo o país.Até hoje,contam-de muitas histórias do Zé do Telhado, mas muitos acreditam que era um homem bom e que roubava para dar aos pobres.
O bandoleiro mais conhecido do país acaba por ser apanhado pelas autoridades em 31 de março de 1859 quando tentava fugir para o Brasil. Esteve preso na Cadeia da Relação, onde conheceu Camilo Castelo Branco que se lhe refere nas Memórias do Cárcere.
 Em 9 de dezembro de 1859 foi julgado e condenado ao degredo perpétuo na África Ocidental Portuguesa. Foi-lhe comutada a pena aplicada de 15 anos de degredo, em 28 de setembro de 1863. Viveu em Malanje, negociando em borrachacera e marfim. Casou-se com uma angolana, Conceição, de quem teve três filhos. Conhecido entre os locais como o kimuezo – homem de barbas grandes –, viveu desafogadamente. Faleceu aos 57 anos, vítima de varíola, sendo sepultado na aldeia de Xissa, município de Mucari, a meia centena de quilómetros de Malanje, sendo-lhe erguido um mausoléu, objeto de romagens.

Margarida Castro
dialogos_lusófonos@yahoogrupos.com.br 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015


Não há maior satisfação do que aquela que sentimos quando proporcionamos alegria aos outros. (Masaharu Taniguchi)

Frase sugerida por José Bramim para reflexão, in dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Igreja de Santo António - Lisboa


Em 1195 Fernando Martins de Bulhão nasceu em casa de seus pais, comerciantes abastados, no lugar onde hoje se encontra a Igreja de Santo António, frente à Sé Catedral de Lisboa.
Ali ao lado havia a pedreira da Sé e o Arco, ou Porta de Ferro, onde esteve instalada uma Ermida de Nossa Senhora da Consolação, cuja imagem, havia sido levada de França pelo General Martim Afonso de Sousa (herói da Batalha de Aljubarrota).
Em 1431 já existia, porque para terem ali sido trasladados, de São Vicente de Fora, os restos mortais de dona Teresa Taveira, mãe do Santo, conforme inscrição que estava do lado da Epístola e que o terremoto de 1755 destruiu.
Por isto se confirma que a igreja já existia antes de 1495, ano em que o Senado, satisfazendo os desejos de D. João II, confirmado por disposição testamentária por D. Manuel I, de construir neste local uma nova igreja, decidiu erigir um templo que abrangesse toda a casa dos Bulhões, e a que se deu o nome de Real Casa de Santo António
Cerca de 1300, esta casa, solar ao que parece, por ter sido berço do Santo havia sido adquirida pelo Senado da Câmara e transformada em capela, conhecida de início por Santo Antoninho da Sé, servindo ao mesmo tempo de Senado Camarário desde 1326 a 1753.
Foi ali que D. João III recebeu a bandeira da cidade que havia de ser arvorada em Ceuta, bem como foi dali que saiu a bandeira empunhada pelo Conda de Castanhede, a que se juntou ao Senado e o povo em 1 de Dezembro de 1640 para correrem com os espanhóis.
Parece não se se saber ao certo quando esta casa-capela foi transformada em igreja em homenagem a Santo António. Freire de Oliveira atribui a fundação da primeira igreja entre o primeiro e segundo quartel do século XIII.
Perto da primeira capela mór ainda existe a mesma porta de que se servia Martim de Bulhão, pai do Santo.
Entretanto a primeira capela foi absorvida, ou completamente substituída pela igreja que D. João II e D. Manuel mandaram levantar.
Todos os reis de Portugal contribuíram para o esplendor deste templo, mas foi D. João V que converteu a basílica num dos mais sumptuosos templos da Europa. O terremoto de 1755 e o incêndio que se seguiu pela cidade quase a destruíram completamente, só se tendo salvo a capela-mór e a venerada e veneranda imagem do Santo.
Após esta catástrofe a Câmara ordenou que se edificasse, entre as ruinas da antiga basílica, uma capela provisória, cuja abertura coincidiu com o primeiro aniversário da tragédia.
Entretanto Mateus Vicente que planeara a basílica da Estrela, substituiu o estilo manuelino por barroco.

Interior da Igreja

Existe ainda a cripta, por baixo do altar-mór, onde, segundo a tradição seria o quarto onde nascera o Santo casamenteiro.
A igreja esteve fechada desde 1910 a 1926, os anos escuros dos carbonários revoltosos, só foi reaberta ao público a 14 de Setembro.
Muitas modificações têm sendo efetuadas nesta igreja, como restauros e melhoras. A meio da parede nota-se uma lápide de mármore, ali mandada colocar pela Câmara em 1859:

Nascitur.Hac.Ut.Tradunt.Antonius. Aede.
Quem.Coeli.Nobis.Abstulit.Alma.Domus

(Nesta casa, segundo a tradição, nasceu António, aquele que nos foi arrebatado por missão celeste)
  


Francisco Gomes de Amorim
20 out. 15

Santo António de ... Lisboa ou de Pádua


Muita gente no Brasil não sabe se Santo António é de Lisboa ou de Pádua, ou se são dois santos. Na maioria dos lugares invoca-se o de Pádua, com seu nome tem cidades, cooperativa agro-pecuárias, festas, do Norte a Sul, etc. O de Lisboa tem uma paróquia em Florianópolis, terra de açorianos.  Por isso tive vários pedidos para escrever sobre o Santo e esclarecer quem é quem!
Acontece que já tinha escrito há quatro anos. Quem não leu na ocasião pode ler novamente.
Foram dois textos, que resolvi colocar no blog de uma só vez.
A festa dos "dois" celebra-se no mesmo dia: 13 de Junho, dia da sua morte.


1

Santo António

de... Lisboa

Lisboa, 13 de Junho. Feriado Municipal. Festa de Santo António... de Lisboa. O Casamenteiro.
Filho de Martinho de Bulhões e Maria Teresa Taveira, nasceu à volta de 1190, (15 de Agosto?) em Lisboa, um menino que foi batizado com o nome de um tio, cônego, Fernando, Fernando Martins Bolhão, ou Bulhões.
“Seus pais moravam à beira da Sé, e eram gente limpa e remediada”! Talvez o pai fosse ourives, uma vez que o nome Bolhão significava “barra de prata, com liga de outros metais, boa para bular, amoedar”. Bular acabou significando “colocar o selo” em documentos de grande importância, a bula!
Na Sé, havia ao tempo, aula de gramática e de artes, e, ali, Fernando, a partir dos sete anos, muito jovem, excepcional memória e invulgar inteligência, aprendeu as primeiras letras e os rudimentos de humanidades. Desde sempre mostrou uma profunda devoção e o começo de uma mística, profundas, apesar de andar com “amigos estróinas”, que o obrigaram a muito meditar sobre a sua vida.
Até aos 15 anos vive na casa dos pais, entra num período de vida libertina com os tais “amigos” e, para fugir aos chamados mundanos, decide entrar no mosteiro de São Vicente de Fora, dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, com a idade de 18 anos. Logo tomou o hábito da mão do Prior, e feito os votos possivelmente um ano depois. Aí fica dois anos na meditação e estudo e pede depois para ser transferido para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde ficaria longe dos amigos que o assediavam para o mau caminho.
Santa Cruz, em Coimbra, junto à Corte, tinha uma rica biblioteca e alguns mestres já formados em diversas cidades da Europa, o que o tornava “uma pequena academia de sábios”.
Em ambiente de estudo e oração permaneceu entre nove a onze anos. No entanto aquela vida de estudo e oração não o satisfaziam. Fernando impressionava-se com a visita dos frades menores de Santo Antão dos Olivais, que de vez em quando iam ao mosteiro de Santa Cruz pedir esmola. Por este mosteiro devem ter passado os cinco frades menores que em Marrocos deram a vida pela fé cristã, em 16 de Julho de 1220, e cujos restos mortais foram recolhidos por D. Pedro, irmão do rei Afonso II, e entregues ao mosteiro de Santa Cruz para aí serem depositados.
“O exemplo destes humildes, pobres, alegres e ardorosos pela causa de Deus, como se mostram os franciscanos de Coimbra e, sobretudo, o magnífico exemplo dos mártires, levam-no a trocar o nome de batismo por Frei António, e a cândida estamenha Agostinha pela estamenha parda dos frades menores, o rico e afamado mosteiro de Santa Cruz, pelo pobre e obscuro de Santo Antão dos Olivais, a vida sedentária de cônego, pela vida errante de frade mendicante e missionário.”
Santo António – pintura do séc. XIII, da Pinacoteca de Perugia

Entregue à pobreza e à missionação, Frei António decide partir para Marrocos, onde os cinco mártires tinham sido degolados pelo Emir, Amir al-Mu'minin, o Miramolim. Desta vez porém os muçulmanos deixam Frei António em paz, mas ao mesmo tempo uma doença pertinaz o obriga a voltar a Portugal.
O barco que havia de o levar sofre uma violenta tempestade, é desarvorado, e vai ter às costas da Sicilia, onde, nas imediações da cidade de Messina encontra abrigo num pequeno convento de Frades Menores.
E assim acaba a vida de Frei António em Portugal! E começa o Santo Antonio de Padua!
Num próximo texto continuaremos a seguir a sua vida. Hoje, deixamos um só dos seus sermões, que mesmo parecendo estranho pode ajudar muito a meditar:

Parábola do anel de Ouro
(Jesus tomou o saco das nossas misérias)
Lê-se no Passionário de São Sebastião que um rei possuia um anel de ouro ornado de uma jóia preciosa, que lhe era muito querido. Um dia caiu-lhe do dedo dentro de uma cloaca, o que muito o penalizou. E, não encontrando alguém que lhe pudesse tirar dali o anel, depondo os vestidos da dignidade real, desceu à cloaca vestido de saco, procurou o anel durante muito tempo, até que finalmente encontrou o que procurava e, alegre, trouxe para o palácio o achado. O Reino é o Filho de Deus; o anel, o género humano; a jóia do anel, a preciosa alma do homem. Este caiu no gozo do Paraíso, como do dedo de Deus, na cloaca do inferno. O Filho de Deus muito se doeu desta perda. Para recuperar o anel, procurou entre os anjos e os homens, e não o  encontrou, porque ninguém foi capaz. Então, depôs os vestidos, aniquilou-se a si mesmo, tomou o saco da nossa miséria, procurou por trinta e três anos o anel; finalmente desceu aos infernos e aí encontrou Adão e toda a sua posteridade. Muito alegre, levou o achado consigo para a eternidade.”

N.- Voltaremos ao Santo António, mas... de Padua!
10/06/2011

2

Exulta Lusitania Felix

Santo António

de... Pádua

Primavera de 1221. Frei António, doente, tem que regressar a Portugal, mas levado por um violento temporal, vai dar às costas da Sicilia, onde nas imediações da cidade de Messina, encontra abrigo num humilde conventinho de frades menores.
Está quase com 31 anos. Um erudito teólogo, profundo conhecedor das coisas da Igreja, da Bíblia, dos Santos Doutores, e de tudo quanto os muitos anos de estudo em Coimbra lhe proporcionaram. Até ali tinha sido um estudioso, mas o exemplo dos frades menores, franciscanos, com toda a sua humildade, pobreza e vocação missionária, o levam a ingressar nesta Ordem fundada por Francisco de Assis em 1209.
No final de Maio de 1221 realiza-se em Assis um Capítulo Geral, que ficou conhecido na história como o Capítulo das Esteiras, porque a multidão de frades era tal que a grande maioria teve que dormir no chão! Lá vai o nosso Frei António, desejoso de encontrar o Fundador da Ordem, Frei Francisco de Assis. Ali aprendeu ao vivo o que deve ser o verdadeiro frade menor.
Levado para o eremitério de Montepaolo, na Romagna, onde fica mais de um ano a celebrar missa, ajudar nos trabalhos domésticos, e a vida ativa com que sonhara em Coimbra, converte-se em contemplativa.
Em finais de Setembro de 1222 há ordenações sacras na vizinha cidade de Forli, e o nosso Frei António ali vai. No momento próprio o superior da comunidade dos franciscanos pede aos dominicanos que tinham comparecido à cerimônia, para pronunciarem algumas palavras de circunstância. Perante a escusa destes, manda então a Frei António que anuncie a palavra de Deus. E acontece o inesperado: a revelação. Todos ficam rendidos à sua simplicidade e bom senso, à sua palavra leve e profunda. Frei António revela ser não só um frade santo, pronto a lavar panelas de cozinha, como um sacerdote de vastíssima cultura e brilhante arte da oratória.
Aos sacerdotes mais dotados nomeavam pregadores. Em pouco tempo o Provincial de São Miguel foi informado do que acontecera e “Frei António obrigado a deixar o seu silêncio e sair a público, encarregado do ofício de pregador, o que o fez percorrer cidades, aldeias, castelos e casais espalhando a semente da vida com tanta abundância como fervor”.
A sua doutrina e santidade começou a brilhar em muitos lugares do Norte da Itália. Em 1220 Frei João Strachia organizara uma casa de estudos em Bolonha, e Francisco de Assis ao se aperceber que ela se destinava a “poctius doctos quam piuos”, formar mais doutores do que frades piedosos, acaba com ela. Mas em Bolonha será por fim a primeira casa de formação intelectual da Ordem.
São Francisco viu em António que estudo e piedade podiam não só conviver perfeitamente, como influenciar-se positivamente, e expede o seguinte bilhete:
“A Frei António, meu Bispo, Frei Francisco envia saudações. Apraz-me que ensines Teologia aos frades, contanto que para tal estudo não extingas o espírito da oração e devoção, como está contido na regra.”
Santo António e São Francisco

Em 1224 é mandado a França onde a sua santidade de vida e a sua pregação foram de tal forma eficientes, que lhe chamaram “martelo dos hereges”; aproveita o tempo e ensina nas escolas conventuais de Toulouse e Montpellier.
Em 3 de Outubro de 1126 morre Frei Francisco de Assis. Para escolher o seu sucessor são os frades convocados a Capítulo, em começo de 1227, onde Frei António é nomeado Provincial da Itália do Norte, e já não regressa a França.
Em 1228 vai a Roma, e prega, na Igreja de São João de Latrão, diante do Papa Gregório IX, cardeais e muito povo. O Papa tão impressionado ficou, que o chamou de “Arca do Testamento”.
Dois anos depois é-lhe dada a carta geral de pregador e libertado do cargo de Provincial.
Decide então retirar-se para a sua querida cidade de Pádua, para ali continuar a sua missão de pregador e escritor. Aí Santo António, como já era conhecido por todo o norte da Itália, escreve uma série de textos, tentando levar a paz onde reinava o ódio, sobretudo em Florença entre os guelfos e os gibelinos, a libertar os presos por dívidas, o que levou a um estatuto publicado pela edilidade de Pádua em 1231, luta contra as usuras e bens obtidos pela violência, procura afastar as prostitutas da sua degradante vida, e até se esforça para convencer os ladrões profissionais a não tocarem no alheio e a trabalharem honestamente.
Escreve entretanto muita coisa mais, e também os seus famosos “Sermões”.
Com quarenta anos, sente-se cansado e vai descansar uns dias em Camposampiero, perto de Pádua. Durante a refeição do meio dia, 13 de Junho de 1231, sente-se desfalecer. Vendo-o tão mal levam-no para a casa dos Frades de Arcella, onde recebe os últimos sacramentos. Já com o Senhor à vista, disse aos que o assistiam:“Video Dominum meo!” e entregou a alma a Deus.
E apesar do silêncio guardado pelos Frades, logo correu a notícia pelo povo:“Morreu o padre santo” Morreu o Santo António!”
Em 17 de Junho foi sepultado em Pádua.
Nem um ano passado era canonizado pelo Papa Gregório IX.
Em 1934 foi declarado Padroeiro de Portugal.
E finalmente em 16 de Janeiro de 1946 o Papa Pio XII, em sua Carta Apostólica, que começa

Exulta Lusitania Felix,
o Felix Padua gaude

declara Santo António Doutor da Igreja, Doutor Evangélico.
Lisboa tem imensos ciúmes de Padua, que guarda lá os ossos do Santo, e nem se atreve a, alguma vez, dizer que o Santo é de Lisboa.
Com estes breves textos se pode ver que enquanto em Portugal, Santo António foi um frade desconhecido, mas onde estudou e se “encheu” de toda a bagagem que o tornaria famoso em Itália. Foi aqui que pregou, ensinou aos frades, pode considerar-se o primeiro lente franciscano, e ainda em vida já era chamado de santo.
Preparou-se em Portugal e revelou-se na Itália.
Deve ser o único Santo da igreja que tem dois nomes!

16/06/2011
Francisco Gomes Amorim

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE – O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

PALMAS PARA A MATILDE

E pronto, tudo indica que os alunos entraram definitivamente na aprendizagem da palavra menina, a primeira do método e, com ela, franquearam o processo que os levará ao domínio dos mistérios que lhes permitirão saber ler e escrever. 

A aula de hoje foi toda ela preenchida com exercícios de escrita e desenhos daquele vocábulo e, como complemento, trouxeram trabalho para casa. Este consistiu na cópia daquele substantivo por três vezes repetidas e em colorir uma figura alusiva com flores em redor. 
Mais uma vez o pardalito cumpriu o dever, embora ainda não tenha descoberto um bom método para pintar as gravuras dadas. 

Seja como for, depois do almoço tive a surpresa de ver o meu anjinho escrever de memória e com as suas letrinhas toscas, a palavra dada. 

“-Olha, pai!” 
E lá estava menina escrita numa página de jornal. 

Encantos da paternidade. 



Por sua vez, a Margarida é uma boa aluna. 
Aprende e aplica facilmente as matérias e sabe fazer uso da memória para se servir de conhecimentos que consegue combinar para explicar ideias ou situações que se lhe deparem. 
É uma criança que fala com fluência e dentro das regras gramaticais da língua que conhece e compreende, para tanto possuindo um vasto e variado vocabulário cujos significados domina. Escreve sem erros e é capaz de criar diversos tipos de textos que vão de uma simples nota a uma missiva, ou de um comentário a uma pequena história, neste último caso, geralmente, com cabeça tronco e membros. Lê com ritmo e entoação e fá-lo em qualquer texto, bem como nos contextos do cinema e da televisão. 
Não admira pois que tenha um excelente aproveitamento em todas as matérias e acumule reportório em outras áreas para além do quotidiano escolar. 
Finalmente, sem ser uma santinha que não o é, tem comportamento adequado e aberto à aprendizagem e não é preciso que os pais lhe solicitem o cumprimento dos deveres; fá-lo de livre e espontânea vontade. 

Quanto à leitura, tenho para mim que vai no bom caminho. 
Embora só neste último Verão tenha começado a avançar para as histórias de aventuras, desde praticamente toda a terceira classe que ela utiliza livros temáticos para se inteirar de assuntos do seu interesse e alguns deles foram lidos por inteiro. 


Eu mentiria se negasse o orgulho que sinto pelo que acabei de registar. 


Deus seja louvado por uma tão grande ventura. 



Mas a grande novidade é a libertação do Sr. Paulo Pedroso que assim viu terminada a prisão preventiva em que estava, há quatro meses, na sequência do processo de abuso e exploração sexual de crianças, da Casa Pia, no qual há indícios para vir a ser acusado de quinze do primeiro daqueles crimes. 
Por dois votos a favor e um contra, proponente da medida de prisão domiciliária, o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu que a medida de coacção imposta era excessiva pelo que decretou o seu fim, substituindo-a pelo simples termo de residência e de apresentação às autoridades. 

É claro que a justiça foi feita e, neste momento, serão remotas as possibilidades de fuga, escamoteamento de provas ou obstrução ao regular curso das averiguações, mas as vozes que já começaram a disparar sobre o Juiz de Instrução deixam transparecer algo que se assemelha mais à vontade de julgar na opinião publicada aquilo a que só aos tribunais compete decidir. 


Não sei se não teremos uma repetição do que se passou no processo das FP 25 de Abril. 


A verdade é que à discrição preferiu-se o alarido mediático e não faltaram os correligionários em desfile de abraços e sorrisos como se o homem tivesse acabado de ouvir a sentença da sua inocência. Estamos a falar de um sujeito que é suspeito da prática de quinze crimes de abuso sexual de crianças e que nem reuniu a unanimidade para a medida de coação que agora lhe foi imposta. Mas para quem como a direcção do PS, falou de uma cabala contra a pessoa do senhor deputado e o próprio partido, está bem assim. Há que ufanar como se de uma vitória se tratasse. 

De qualquer forma, Paulo Pedroso permanece arguido e se este acórdão do Tribunal da Relação põe em causa os pressupostos da prisão preventiva, nada tem a ver com indícios que o levaram a ser constituído naquela condição em que não deixou de estar; estes últimos permanecem, pelo menos por enquanto, inalterados. 


Acontece que sabemos muito bem que neste país desgraçado há homens que batem às respectivas mulheres e são tidos e apontados como pessoas de bem. 



Com isto, quase passou despercebida a entrega da pasta dos Negócios Estrangeiros a Teresa Gouveia, uma antiga secretária de estado da cultura dos governos do Professor Cavaco Silva e que tão forte empenho e importante papel teve no lançamento da Fundação da Casa de Serralves, no Porto que para mim é a maior realização cultural do país desde setenta e quatro. 
Em Portugal, será a primeira mulher que ocupará aquele ministério. 

Diz que não haverá alterações em relação à gestão anterior. 
Mal feito fosse. 



As noites continuam convidativas ao passeio. 



 “O Pregador”, de Erskine Caldwell é uma história brilhante a respeito do homem e do mais profundo da sua natureza, escrita com o vigor da escultura e a carícia de uma melodia doce. Metodologicamente irrepreensível, é também um fresco cru e belo de uma certa América marcada pela escravatura e a sociedade segregada e mandriona que em torno da mesma se enraizou. 

Para levar as almas e subjugar os homens, é satanás capaz dos disfarces mais inconcebíveis. Mas somos nós que o encarnamos e fazemos o seu reino nesta Terra. 


Tivesse eu mais tempo para mim e esta teria sido uma leitura de uma tarde. 



A Lua, quase cheia, ali está, reflectora, sobre os telhados da vizinhança. 


E eu vou ficar aqui, a ver. 


 Alhos Vedros 
   08/10/2003 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Caldwell, Erskine, O PREGADOR, Tradução de Dulce Rebelo, Publicações Europa-América, Lisboa, 1972

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (155)

Torre dos Clérigos, Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Tela, 56x25 cm
A Torre dos Clérigos, começada em 1732, é a obra mais antiga do arquitecto toscano Nicolau Nasoni, que marcou fortemente a paisagem urbana do Norte de Portugal, em meados do século XVIII. É considerada o ex-libris da cidade do Porto.
Para pintar esta jóia da arquitectura barroca, simplifiquei os traços da paisagem circundante e fui generoso na intensidade da cor que concedi às casas e aos seus telhados. Com esta opção procurei garantir que a torre seria um elemento indispensável no equilíbrio do conjunto.
Para a pintar utilizei, talvez não pareça na fotografia, a minha paleta de cores na sua totalidade. Baseei-me na teoria da mistura óptica, segundo a qual a mistura de pigmentos na paleta do pintor resulta, no olho do observador, em cores menos puras. Estendi a cor do céu de uma forma simples, com predomínio do branco, para não perturbar a energia da torre, com o seu ruído. O monumento foi pintado com pequeníssimas pinceladas de cor em estado puro, deixando o trabalho da sua mistura, à retina do espectador. A torre parece assim vibrar com a luz que incide sobre ela... Eu vibrei com o resultado.
Espero que os meus amigos usem um pouco da sua imaginação para tentar perceber o que as minhas pobres palavras não conseguem transmitir. A Torre dos Clérigos merece...

António Tapadinhas

domingo, 25 de outubro de 2015

 
 
MIRADOURO 35/2015
esta rubrica não respeita as normas do acordo ortográfico
 
 
SIGAMOS.
EM FRENTE, CLARO.
 
Falavas-me de um estado de tristeza, assim como de um buraco dentro de ti, de sussurros ou apelos que ouvias mas de que não tinhas a certeza.
Algo no agora mas que vinha de trás, do breu de um passado que apenas escutaras já que não te tinha sido dado lá morar.
Algo sombrio de que querias fugir e de ti expurgar.
São fundas as marcas dos percursos colectivos e, quando deixam traumas, chegam devagar e ferindo os ais que se queriam contidos, porque se não pode esconder o que não pode ser esquecido.
Pois é, para fazer o futuro é preciso, às vezes, ir ao passado para que não retrocedamos para um caminho já andado.
Gostamos de espaços abertos não queremos caminhos fechados.



Foto de Edgar Cantante

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

"Happy Meal - manjar sentimental" Risoleta C. Pinto Pedro




Texto de apresentação do lançamento do livro de Risoleta C. Pinto Pedro "Happy Meal - manjar sentimental", de Luís Santos, na Escola Artística António Arroio, em 20/10/2015:



“Happy Meal” – manjar sentimental
Manual de sobrevivência para adultos às voltas com adolescentes

Agradecimentos

Antes de mais, agradecer o convite que me foi dirigido pela amiga Risoleta para apresentação do seu livro.
Ficámos particularmente satisfeitos pela apresentação do livro acontecer na Escola Artística António Arroio pela qual temos especial carinho, até porque Rui Madeira, o seu Diretor, é um amigo de longa data, com quem o destino se vai encarregando de nos marcar encontros amiúde pelo tempo, em lugares muito inesperados. Como sabemos, foi também aqui que a amiga Risoleta passou largos anos à volta com adolescentes, coisa que como se verá foi, e continua a ser, muito merecida sina de vida.
Agradecer a presença de todos.
Dividiremos a apresentação do livro em duas partes: A primeira onde faremos algumas referências à sua capa, título e estrutura; a segunda, onde abordaremos algumas das suas múltiplas interessantes questões.

1ª Parte – Capa, Título e Estrutura do Livro

- Sobre o título, “Happy Meal – manjar sentimental”, embora tenha demorado a chegar, como nos confessa Risoleta, não podia ser mais adequado. Creio que já todos ouvimos falar nesse procurado “hamburger” de famosíssima indústria alimentar. Ora, para um livro que se dá, desde logo, como um “manual de sobrevivência para adultos à volta com adolescentes”, uma das grandes apreensões que logo transparece é, justamente, o “fast food” (ou “comida de plástico” como é também de uso dizer-se), constituir o tipo de alimentação preferencial de muitos adolescentes, mais as nefastas consequências que daí advêm. Particularmente, quando se pensam os cuidados a ter com a alimentação como de decisiva importância para uma “mente sã, coração terno, corpo puro”, lembrando a divisa rosacruciana, de forma a que uma saudável longevidade nos assista.

É também por aí que vai a singela pintura de capa, de Bruno Ma, viva criatividade e aprumada estética, onde numa mesa posta e pronta se serve tempo e equilibrada geometria, que junta triângulos a uma plena lua e a um rio onde se espelha o céu, a expressa paisagem que assiste à autora e à necessária inspiração literária que determina a obra. Título e pintura revelam-se, assim, como pingos de luz que se inscrevem e resplendem no preto neutro do fundo da capa.

Deixando umas palavras pela Estrutura em que se ergue este, e digo já, magnífico livro, a imagem que nos ocorreu quando da sua leitura foi a de uma bela sinfonia, dividida em vários andamentos, talvez pela ligação que a autora tem mantido com a dança e seus libretos múltiplos. De facto, o livro constitui-se por narrativas várias, a um só tempo independentes e interligadas, dando possibilidade de uma leitura a várias vozes que são, tal e qual, a múltipla heteronímia da própria autora, desenvolvida e cimentada durante diferentes períodos e instâncias da vida, pois que é de uma narrativa de cariz autobiográfico que se trata.

Cada um dos 4 andamentos em que vemos dividido o “libreto da sinfonia”, um justo adjetivo para este nosso livro, trazem toda uma trama onde se vão desenvolvendo as grandes linhas de força da narração. Mas tenhamos em atenção que estes “andamentos sinfónicos” não se sucedem consecutivamente, antes se trocam e misturam entre si, dando origem a perfeitas alterações de ritmo nas voltas do texto.

Assim, num 1º andamento, é-nos oferecido um registo autobiográfico de superior reflexão espiritualista que constitui a narrativa central da obra;
Como 2º andamento, temos uma compilação de peculiares “receitas alimentares” alquímicas, onde a mistura dos corpos com os alimentos não podem ser abandonados, sem mais, às imperiosas necessidades lucrativas de uma obesa indústria alimentar;
No 3º andamento, intitulado “As Lições do Tonecas II”, pressupostamente escritas por pena de adolescente, o seu sobrinho Rubem, descreve-se em discurso direto uma velha escola, caduca, onde se alerta para os tradicionais desencontros e as falhas de comunicação entre professores e alunos, agrilhoada que está a velhos modelos sem força para se libertar;
Por fim, um 4º andamento, de seu nome “A Casa do Vento Vazia”, onde se assinala um mergulho intenso nas memórias de infância da narradora, nas suas purezas e medos, mas onde se reconhece convictamente que o melhor do mundo são mesmo as crianças, como sustentam poetas e deuses, mas ainda assim com tanto mal em redor. E citando a autora, “a menina luz que eu fui sem saber, está sempre ao meu lado nas minhas aventuras dos sonhos, como um duplo…”

2ª Parte – A Trama do Livro

Avancemos para as grandes linhas estruturantes por onde se estende o livro, desde logo, sem que esqueçamos o seu subtítulo, “um manual de sobrevivência para adultos à volta com adolescentes”. Comecemos pelos personagens principais e por alguns dos traços que mais os caracterizam:
Renata (algumas vezes também nomeada por Suria), narradora e personagem central, a braços com o seu recente divórcio, mais as perturbações e inseguranças que se lhe possam associar, mas também a liberdade de quem fica com a própria vida, inteira, entre mãos. Mas eis que subitamente lhe entra em casa um sobrinho, que vem estudar para Lisboa e ocupar-lhe a casa e o tempo, mais os imensos necessários cuidados que a adolescência sempre trás consigo. O sobrinho e uns quantos amigos de quem se vai rodear.

Como se não bastasse, o divórcio trouxe a Renata a necessidade de mudar de casa e acaba por ir morar para um prédio onde vive um Professor, José Bento de seu nome, que tem tanto de simpático como de enigmático vizinho, conhecido na vizinhança por ser “comedor de rosas”…

Detenhamos, então, a nossa atenção nas 2 principais questões com que Renata se vai debater ao longo da estória. Por um lado, as preocupações que a dieta alimentar do sobrinho lhe trás: o vício dos “happy meals”, problema que ganha dimensão particular para quem é vegetariano como é o caso da narradora; e, por outro, quais os valores que se escondem por detrás de um vizinho, professor, que é “comedor de rosas” e, como se não bastasse, está de licença sabática a fazer uma tese de doutoramento sobre… “rosas”, com quem Renata vai, afinal, descobrir que tem muitas coisas em comum.

Pensemos no simbolismo espiritual das rosas, pois que reconhecemos em José Bento um personagem caracterizado por desenvolvida espiritualidade, em busca de explicações para os mistérios da vida. Como a própria Renata diz, “das rosas que nos trazem o amor e que entre reencarnações e ressurreições, nos livram da morte”. Numa tese de doutoramento, em cujos capítulos se enunciam estudos sobre “o grande arquiteto do universo, da rosa que floresce na cruz, ou do milagre das rosas”.

Para nós, antes de mais, entre as repetidas rosas e os mistérios que em si encerram, logo automaticamente nos chegam duas figuras centrais da História de Portugal, esse rei e poeta “plantador das naus a haver”, como Fernando Pessoa se refere a D. Dinis na sua Mensagem, pela importância que haveria de ter no devir da expansão ultramarina portuguesa, e na sua mulher, a santificada Rainha Isabel de Aragão, mais o seu “culto popular do Espírito Santo”, sobre o qual Agostinho da Silva tanto refletiu e enalteceu.
Mas diga-se que o espaço geográfico, cénico, em que se desenrola a misteriosa trama do livro, pois que é um livro essencialmente sobre vida e “misteriosofia”, utilizando o conceito de António Telmo, longe de se centrar exclusivamente em Portugal, faz pensar num amplo espaço/tempo que vem, pelo menos, desde o Antigo Egito (sem esquecer a diáspora judaica) e se estende até Tomar, cidade templária, onde, como é sabido, posteriormente se sediará a “Ordem de Cristo”, que depois partirá nas naus para o Oriente, para a Índia, para o Tibete, “dando novos mundos ao mundo” para relembrar o verso de Luís de Camões. Mas não descurando, que lá temos também o Tao e temos Buda, entre esse espírito português ecuménico, “católico”, quer dizer, universal, para não fugirmos de todo à etimologia da palavra, onde tempo e eternidade se pretendem coetâneos.

A determinada altura da estória, José Bento, o tal da tese de doutoramento, corria o mês de Dezembro, chama a atenção de Renata para um barco que tinha chegado a Lisboa carregado de rosas. Ao que esta logo pergunta: “Rosas em Dezembro?”…
Embora não se refiram grandes pormenores sobre a estrutura do barco, nem dos lugares por onde navega, necessariamente que o vemos construído com pinho de Leiria e com passagem obrigatória pela “Ilha dos Amores”. Mas Renata acaba por não ver estranheza naquele facto e logo a sua superior prosa nos esclarece: “…No estado em que estávamos achávamos tudo natural. Apesar de tudo deslumbrados. Mas era um deslumbramento natural perante a naturalidade das rosas. Porque, nesse momento, era para nós uma evidência que os milagres nos rodeiam e apenas esperam que reparemos neles.”

Evidenciados, e semi-resolvidos, que ficam alguns dos mistérios de José Bento, porque o mistério, como se conclui nesta obra, veio para ficar, iremos agora à responsabilidade que a narradora sente nos cuidados a ter com a alimentação de Rubem e o problema dos “happy meals”.

Num momento de descrença amorosa, Renata decide fazer com Rubem uma peregrinação a Santiago de Compostela. Vai cuidar demoradamente dos pormenores necessários a delicada viagem, mas nas vésperas da partida, para seu grande tormento, obrigações profissionais acabam por lhe trocar as voltas e impedi-la de fazer a viagem. Rubem, porém, não desiste e mais o seu amigo Tiago avança rumo à Galiza. E eis, então, que no regresso o milagre se dá: o apóstolo, Santiago, o amor, não lhe vai permitir continuar a alimentar veleidades. E se o corpo, o coração e a mente, se querem puros, ternos e sãos, não há-de ser com “happy meals” que se vai lá chegar.

Terminando, gostaríamos de deixar bem claro, sem favor algum, que estamos perante um livro extraordinário, onde “o verbo fala o verbo”, o que só por si dispensa mais elogios. Este o seu maior prémio, a luz que a palavra sagrada lhe dá, mas que pela sua humilde grandiosidade, certamente, que outros bons e duradouros prémios virão. Adivinha-se.

Pelo nosso lado, não podemos deixar de manifestar a nossa gratidão à autora, pela preciosa amizade, pelo convite com que fomos distinguidos, mesmo não nos julgando à altura da apresentação dos requisitos de tão digna obra. Mas talvez que um poema de Agostinho da Silva, com que os deixamos, lhe possam trazer mais justiça. Diz assim:

“Se eu chegar a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo 
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

não só homens mas também
os animais e as plantas 
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurrecta da morte".



Luís Santos