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domingo, 11 de março de 2012

MOMENTO DE POESIA
com Manuel Alegre



FALÉSIAS PRAIAS AREAIS ARDENTES
OU
O SÉTIMO POEMA DO PORTUGUÊS ERRANTE

Para deixar-vos tenho o meu orgulho
que para vos deixar não tenho nada
ensinei-vos o mar o verão o Julho
o alvoroço da pesca e da alvorada
os pássaros a caça o doce arrulho
do instante que passa e é tudo e nada.


Para deixar-vos tenho a liberdade
um astro a lucilar dentro do não
o riso e seu esplendor a intensidade
da vida que se dança num só verão
o fulgor dessa breve eternidade
o azul o vento o espaço a solidão.


Para deixar-vos nada que deixar
só um país e as ilhas adjacentes
um rectângulo inteiro e ainda o mar
as montanhas os rios e afluentes
as índias que ficaram por achar
falésias praias areais ardentes.


Para deixar-vos tenho o que não tenho
que para vos deixar não tenho mais
do que a escrita da vida e o eco estranho
de ritmos sons e signos e sinais
metáforas que têm o tamanho
do mundo que vos deixo. E nada mais.


Fotos: Edgar Cantante; Poema: Manuel Alegre do livro “Livro do Português Errante”.

domingo, 4 de março de 2012





                    
A NOSSA TERRA É, TAMBÉM, A NOSSA CASA


















A primeira condição para que alguém se candidate a um cargo político deveria ser gostar da “coisa” a que se candidata. Seja freguesia, concelho, país, …  para além da necessária preparação e competência, a primeira coisa deveria ser “gostar de” , “ter um projecto para” logo depois e, condição também ela fundamental e indispensável, “espírito de servir”.
É evidente que outras características deverão ser levadas em conta, como a capacidade de escutar os outros, sanar divergências, trabalhar em equipe unindo os desavindos se possível, e da sua conjugação dependerá em muito o resultado da “missão” a que o candidato se propõe mas, os três primeiros aspectos constituirão os alicerces do propósito.

Ao percorrermos a nossa terra velha (“velhinha” apetece-nos dizer pela ternura que nos inspira) sentimos (-lhe) um grande desconforto envergonhado. O núcleo habitacional/social mais antigo, o “centro-histórico” da nossa terra está em ruínas. É uma ruína.



O Café do Teco, a velha Cooperativa de Consumo, o antigo Hospital,  (tantas vivências, memórias)… muitos outros exemplos se poderiam referir - como as fotos ilustram – e, pensando, parece-nos que alguém não está a fazer bem o trabalho que lhe compete.
Não sabemos a quem cabe a responsabilidade de providenciar no sentido de obstar a esta degradação, não sabemos sequer se existe legislação que impeça este desleixo mas, se não há deveria haver e, como tal, deverá ser criada por quem de direito, ou seja, políticos eleitos. Se assim não for, para que serve então isto tudo?
Não gostamos do que vimos, incomoda-nos, questiona-nos, provoca-nos.

A política serve para resolver os problemas dos cidadãos, encontrar soluções, melhorar o viver colectivo e comum. Fora isso é um simples exercício de retórica ou, uma forma de fazer carreira servindo-se do que se jurara servir.

Já temos uma Feira Medieval que vem melhorando de edição para edição, que apoiamos e aplaudimos mas não temos centro-histórico, ou melhor, temos uma ruína a alastrar.
Vamos acabar com isso não acham melhor?

Fotos: Edgar Cantante; Texto: João C.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

QUALQUER COISA NO AR NOS DIZ … QUE É HORA (!)   DE SOLUCIONAR UM PROBLEMA QUE NUNCA DEVERIA TER EXISTIDO.

Para quem desconheça e se aproxime, é um choque. Para quem já conhece e por ali circule, é a indignação e a revolta por a situação se perpetuar.
O Parque das Salinas é um lugar visualmente agradável principalmente para quem nele entra vindo da igreja. Árvores e relvados, campos polidesportivos, bancos e lagos, … mas, continuando a andar aproximamo-nos das zonas húmidas e caldeiras que integram o parque. Aí, começamos a ser surpreendidos por um cheiro fétido e nauseabundo que nos agride e nos faz procurar a causa. Deparamo-nos então com um imenso esgoto a céu aberto que vai variando de caudal segundo o mapa das marés.
A cerca de duzentos metros há uma creche, mais perto jovens e crianças praticam desporto, gente de várias idades passa caminhando, correndo, passeando, conversando e, …  isto não pode ser!
O ar que ali se respira quase dispensa a análise bacteriológica.
Um local que deveria ser espaço de convívio, lazer e divertimento, promovendo algum contacto com a natureza, a vida saudável e ao ar livre, acaba por constituir um atentado à saúde pública.
Já ouvimos várias explicações mas o que é um facto é que a resolução do problema vai sendo protelada. Ajam, portanto (!) e acabem com aquele perigo e aquela vergonha.
É o exercício da cidadania que fundamenta a democracia.
Respeitem-na e não a atraiçoem. 
Mais do que as palavras, o conjunto fotográfico que se segue é elucidativo, cremos.

Fotos: Edgar Cantante; Texto: João C.



 










domingo, 12 de fevereiro de 2012





 ENTÃO MAS AFINAL … (III)









                               (...)

A mecânica continua e ser misteriosa.
Perde e reganha magia.                                      A música oscila, varia.

Perdem-se instrumentos, calam-se outros que entravam na composição do som e o temperavam mas surpreendentemente outros surgem de onde menos e quando nada se esperava e reverbera o som noutras tonalidades que dilatam a alma.


E escutamos de novo e sempre, e tentamos perceber
 - porque sentimos e só depois sabemos -
que a mecânica da vida se altera, muda, e que, todos nós fomos, somos, seremos,
arquitectos e construtores nessa mudança.

 



Chega um poeta e solta o seu verso cantado
“Que caminho tão longo, que viagem tão comprida, que deserto tão grande, sem fronteira nem medida. Águas do pensamento vinde regar o sustento da minha vida …” (1)

É claro, gostaríamos ter a arte de sempre cruzar os caminhos interpretando uma declaração de amor. Amor por tudo, por todas as coisas, por todos os seres vivos e inanimados. Amor universal, completo e pleno.
Mas apesar de sentirmos – na convicção e instinto – ser essa a única atitude orientada no sentido do que todos buscamos, nem sempre é possível, pois não? Não porque o não queiramos, antes porque o não podemos, porque o não sabemos.

E não se pode soçobrar. Não se pode dizer agora não, agora “passo”, agora …espera?!

Não se pode?

Não! No universo das ideias/emoções a vida é sempre a andar. Sem intervalos nem esperas, sem ausências.

As ideias/emoções cavalgam-nos, ultrapassam-nos e arrastam-nos para o abismo ou a redenção. 

                       (...)

(1) - Excerto de um poema de José Mário Branco do álbum “Ser Solidário”

Fotos: Edgar Cantante, Texto: João C.

domingo, 5 de fevereiro de 2012



                                                         
ENTÃO MAS AFINAL … (II)



(…)
Olhamos as estrelas e os planetas, olhamos a imensa abóbada rutilante e aspiramos o cheiro da terra.                                  
Ouvimos o som da água e das marés – escutamos búzios ao ouvido - aspiramos a maresia e o grito das aves do mar. Escutamos, também, o silêncio e as suas metamorfoses. Ora insuportavelmente ruidoso, agitando-nos, ora o grande silêncio que extasia.
Nessa caminhada, crescemos com o que vamos descobrindo. Cores e sons, paladares, aromas, sentimentos que germinam em sonhos, amores … paixões.

No eterno discorrer, procura cada um realizar o que lhe cabe, cumprir o seu destino. Paramos nas muitas encruzilhadas. Paramos e tentamos interpretar, conjugar e harmonizar os ecos, os ruídos e as vozes. As de dentro e as do mundo. A do outro, as dos outros. Escutamos e tentamos perceber o nosso lugar e o passo a seguir, o onde e o quando, o por e o para, o sentido do porquê.
Interrogamo-nos.

  
Bem, não é só crescer.
Por vezes também minguamos.
Nem tudo são festas e rosas e sons celestiais. Há a dor, as dores. Acontecimentos, situações que ferem. Discórdias, desigualdades, não as de forma que enriquecem, antes as de substância, sociais, que estruturam e determinam o sentido da “ordem”. Injustiças, ódios, e no limite guerras.
Tarda-se, teima-se em reconhecer e aceitar a diferença. Porque há princípios e há valores. Há o SERVIR. Mas há também interesses e imposturas, e os vícios e os viciados. Há o SERVIR-SE.
Surge às vezes a solidão e o medo. Solidão desamparada, medo visceral e instintivo.
Pois, o sono toma o lugar do sonho.
Dúvidas, incertezas, desorientação, algum desalento e,… a busca. 
                   (…)

Fotos: Edgar Cantante; Texto: João C.

domingo, 29 de janeiro de 2012







ENTÃO MAS AFINAL … (I)


Será assim o nascer?
- vir de um particular mar interior e escuro, lugar sem paredes, ocorrer a um chamamento e seguir a luz até desembocar num exterior, a que chamamos mundo, mais amplo e povoado, mais partilhado e barulhento, cumprindo um imperativo biológico, iniciando um novo ciclo daquilo a que chamamos vida –
                                              É bem possível.


Concordar ou discordar será uma questão de fé ou crença, exercício de pura especulação por se tratar de uma experiência ocorrida antes de sabermos as palavras que permitem ilustrar e lidar com as ideias e organizar o seu registo gráfico a que chamamos memória. Acredito, contudo, subsista um imemorial registo desse primordial percurso que para sempre nos acompanhará, matriz de uma indefinida saudade que, debalde os nossos esforços procuraremos preencher sem sucesso.


Essa busca impulsiona-nos a caminhar em sucessivas e ininterruptas etapas.
Efectivamente caminhamos desde que nos conhecemos (e mesmo antes de nos conhecermos), neste corpo que não escolhemos, antes nos acolheu.
Estamos algures entre o nascer e o momento de des-nascer para, quem sabe, tornar a re-nascer talvez sobre outras formas e noutros estados. Esse intervalo é o que chamamos vida, a nossa vida.                      


Tanto caminhar – que às vezes cansa e desanima – é sem remédio nem remissão. Não pode deixar de ser assim, é compulsivo e independente da nossa vontade.
Na companhia da plêiade que nos habita (somos todos tantos, não somos?!) e que tantas vezes não conseguimos domesticar, percorremos os caminhos socorrendo-nos do que calha para nos orientar e, outras vezes, mesmo sem orientação alguma, tacteando como cegos, avançamos tentando decifrar os sinais.  (…)



Fotos: Edgar Cantante; Texto: João C.

domingo, 22 de janeiro de 2012




«De onde eu venho não existem paredes. O que recordo é apenas a luz. E o mar. Ou, talvez, o ruído do mar. Recordo-me que era de noite e havia uma passagem. Disseram-me: "Vem!". Havia um corpo e eu entrei.
Caminhava de cabeça baixa. A minha pobre cabeça, o meu corpo. (O meu corpo ?). Caminhava por dentro da noite, ouvindo o mar. Disseram-me: "Aquele que dorme caminha". Disseram-me que o sono é o lugar mais próximo da morte.
Sonhei com paisagens onde nunca estive. Alguém me instruía: "Dorme". Alguém me soprava ao ouvido palavras demoradas. Não sei de onde vim. Cheguei de noite num corpo estranho. Olhei-me ao espelho e vi-me: a outra. Olhei em redor e reconheci os lugares do meu sonho. Depois disseram-me: "Dorme".
Quando acordei apareceram vocês. Fizeram-me perguntas. Queriam saber de onde eu vinha. E eu disse: "De onde venho não existem paredes". Foi o que eu disse.    (...)

Fotos: Edgar Cantante;
Texto: José Eduardo Agualusa,” A Estação das Chuvas”, págs. 229/230

domingo, 15 de janeiro de 2012





IMITEM AS ÁRVORES DOS CAMINHOS QUE DÃO FLORES E FRUTOS MESMO SEM QUE LHES PEÇAM (José Gomes Ferreira)


 Numa altura em que tanto se fala de crise, endividamento, austeridade, … a par de algum desregramento na utilização dos dinheiros públicos por parte de alguns, é de assinalar pela positiva a solução encontrada pela Câmara Municipal da Moita para embelezar o espaço das rotundas na via que liga a Moita à nossa velhinha terra.

O embelezamento desses espaços com árvores é uma solução feliz e, cremos que, económica.









Torna-os vivos, na medida em que as árvores são seres vivos e generosos, renovados e harmoniosos, já que as árvores no seu crescimento sempre se vão naturalmente transformando, alegres e humanizados. Acresce ainda a vantagem de não retirarem visibilidade a quem circula.












Não querendo estar a meter o bedelho, até porque a solução encontrada nos merece aplauso, atrevemo-nos contudo a sugerir que a rotunda frente ao antigo forno da cal possa vir a ser igualmente contemplada com uma árvore. Na linha das já citadas, poderia agora ser um pinheiro-manso para manter o denominador na esfera das árvores típicas dos climas temperados mediterrânicos e que nos são comuns.




De qualquer forma, não queremos deixar de “parabenizar” a edilidade pela feliz iniciativa, esperando que o exemplo frutifique.

Fotos: Edgar Cantante;
Texto: João C.