Uma Revista que se pretende livre, tendo até a liberdade de o não ser. Livre na divisa, imprevisível na senha. Este "Estudo Geral", também virado à participação local, lembra a fundação do "Estudo Geral" em Portugal, lá longe no ido século XIII, por D. Dinis, "o plantador das naus a haver", como lhe chama Fernando Pessoa em "Mensagem". Coordenação de Edição: Luís Santos.
domingo, 28 de setembro de 2025
O Encantador de Patos
segunda-feira, 21 de julho de 2025
O Encantador de Patos
À minha esposa
Claire Summers Smith
A minha mulher e eu estávamos na fila para pagar as
sandálias que tínhamos comprado para mim na loja, haviam duas senhoras também
para pagar, tirei meu chapéu e disse 'depois das senhoras por favor, elas
disseram de imediato 'não por favor, o senhor primeiro, insistimos', sorri e
acrescentei com um sorriso, apoiado na minha bengala, 'quando chegarem à minha
idade vão agradecer uma cortesia assim...!'. A mais velha, de certeza a mãe da
outra, perguntou 'qual a sua idade se não é indiscrição? ' vou andando aos 90, como
todos nós...' A minha mulher sorriu discretamente, as duas senhoras que me
deram a vez disseram 'mas que bem está, fala de forma lógica, caminha, sabe
agradecer, oxalá nós a sua idade sejamos assim também...!' O caixeiro apressou
para fechar o negócio e acrescentou os seus parabéns e deu-me a mão quando
acabou. Minha mulher disse-me ao sair 'mas de onde inventaste essa
história se acabas de cumprir 84...?' ' 84 para 90 é apenas uma questão de
tempo e de números, minha menina...não reparaste na alegria dessas pessoas por
ver um velho frágil e magro como eu a estar tão bem nessa idade que dá prazer
no futuro delas? E os piropos para mim em vez de dizer "coitadito, isso já
vai passar? Eu sinto-me animado com essa alegria, é um apoio para esta porcaria
de idade, sinto mais ânimo...!!
'
Os velhos somos um problema...para os outros, por isso que
normalmente se oculta a idade e se retiram anos, há medo de dizer tenho
90,porque pensa-se que esquecemos, que não ouvimos, que inventamos à vida, que
outra vez somos crianças e como tal nos tratam, há sorrisos cúmplices entre os
mais novos falam entre eles a causa de nós, pensa-se que não entendemos a
conversa, se digo 'quanto é ' para pagar, há um olhar de pergunta para minha
mulher, mais nova que eu que assente com a cabeça como quando compro bilhetes
para o cinema ou roupa ou livros. Pensa-se que não temos lógica, não entendemos
a realidade do momento. É verdade que somos lentos e, como todo ser humano de
qualquer idade, nos enganamos, mas um engano à minha idade soa de imediato como
alarme de demência senil, um horror, somos corrigidos de imediato, após uma
observação dura de 'não é assim... enganaste-te....' . Nasce o temor do
medo ao ridículo, um medo constante a sermos corrigidos, uma atenção permanente
para não errar....um trabalhão que cansa imenso, não é apenas esse afazer, é
esse temor de fazer mal e enganado, a paciência dos outros acaba nos velhos,
somos lentos, porém, tontos...outra vez crianças. É o medo da idade. Por isso
gosto de ouvir esse '90? Mas que bem que está...!' Claro que estou a ser
avaliado contra um modelo padrão que existe na sociedade e que meus colegas
cientistas não querem estudar...o medo ao ridículo em mim dinamiza a minha
atividade, não paro de mexer, ser socialmente útil e um desafio para não sofrer
empurrões de interação. O mais duro é reparar essa opinião sobre nós, é difícil
aceitar a menos valia entre esses outros para nós idosos. Ou uma simpatia
exacerbada, como esse cuidar do velho quando se fala com um deles ou delas.
Claro que há motivos para esse modelo padrão, não é
inventado, há factos que levam a esse padrão. Por exemplo, tenho praticamente
perdida a visão do meu olho esquerdo por glaucoma, donde também a terceira
dimensão, o sentido de profundidade quase o não tenho e sempre o tive, agora, tarde
na vida, devo me reinventar para ver e não cair com um chão disparejo. Ou
o frio, os velhos perdemos a adiposidade da pele e sentimos frio o que dá azo a
comentários familiares com amigos como 'morria de calor só que este tremia de
frio...' risada entre os que falavam de mim na minha presença, a pensarem que
eu não entendia ou não ia entender ou não me ia defender. Normalmente não me
defendo, era batalhar contra um credo social. Um impossível. Partimos
pratos cai tudo das mãos às vezes sobre a nossa roupa, uso um avental para
cozinhar e lavar loiça e não o tiro para comer, o que leva ao comentário das
amigas da casa a dizer 'assim é que é, vás ficar limpo...'dito com a
ironia e a arrogância de quem estima que nunca se
suja.
Os velhos gostamos do silêncio, a calma, a falta de debate, não
gostamos dos desencontros ou do ' muito bem...lembrou-se...!', porque esse vou
andando para os 90... é uma corrida de obstáculos cheia de impedimentos e
obstáculos que consigo perceber, mas que a maior parte dos adultos maiores
resolvem com um imaginário fértil de invenções que os médicos chamam demência
senil, alzheimer e não apenas 'à corrida aos 90..."..como observei em 9
anos de convívio com essas idades. Um poema que me acompanha a vida toda com
esse imenso carinho que desenvolvi por eles, era amar-me a mim próprio, um
sentido de família como quase nunca tinha tido. Era acompanhar a solidão, os
velhos somos pessoas solitárias, o nosso mundial ativo desapareceu e, no nosso
presente, as pessoas que conviviam connosco têm outras atividades, outros
interesses, outros amores são poucos os que permanecem ao pé de nós, todos
morrem antecipadamente, socialmente falando, já não temos utilidade e o carinho
não é suficiente, o amor não é pedra
social.
Um querido amigo visitou-me uma vez, apenas uma vez - pelo
menos uma vez, normalmente ninguém me visita ou a mim ou a outros velhos -
e queria saber se nós, anciãos tínhamos desejo sexual e orgasmo e ao saber que
sim, não acreditava. O Muro de Berlim construído historicamente entre sexo e
idade era mais forte que a reação por mim apresentada, nem entendeu que havia,
a minha idade, uma grande relação entre amar e desejar, porque na minha idade
desejamos só a quem amamos. Gosto de ver gente bonita e ativa, fêmea ou
macho, mas desejo só a quem amo.
Isto, e mais, é para mim ir andando aos 90... só que quem me
ouviu reduziu tudo ao socialmente conveniente e não ao prazer que um velhinho
tem de amar e ser amado... vou andar tanto como eu amar e eu ser amado.... Vivam
meus inventados 90 anos...! Besos y abrazos ...e, se nada do que digo é
verdade... bom é porque já tenho os 90 anos do modelo social dum velho...
Raul Iturra
O Encantador de Patos
Barra Mansa, 14 de julho de 2025
sexta-feira, 25 de abril de 2025
O Encantador de Patos
Raul Angel Iturra
Francisco
Hoje foi
verdade, hoje aconteceu, depois de uma prolongada doença e de outras doenças
prévias, Jorge Mario Bergoglio faleceu como todos sabemos; todos esperavam este
desfecho, milhares oravam para ele melhorar, ninguém dizia “coitado do
homem, a agonizar e a ser arrebitado, não o deixam descansar”. Era o nosso
comentário com a minha mulher durante esse mês de fevereiro quando ele estava
doente. Acordávamos de manhã para ouvir a notícia da sua morte e nunca mais
acontecia. Tínhamos pena desse acontecimento. Finalmente hoje, 21 de
Abril de 2025 descansou do seu mundo paradoxal, esse que diz que ao morrer um
fiel vai ter com a sua divindade, vai à glória eterna, ao prémio se foi bom, ao
tormento se não respeitou a doutrina cristã como dogma de fé para os
católicos, dogma que foi usado hoje para anunciar a sua morte “Hoje a sua
santidade o Papa Francisco voltou à casa do Pai”, esse dogma que do Pai
saímos e que junto dele voltamos, esse consolo cristão para suportar o nosso
desaparecer da história material.
Foi
eleito como Papa pelo colégio cardinalício em março de 2013. Ninguém o
conhecia, seu nome era apenas conhecido pelo seus concidadãos argentinos e pela
Cúria Romana. Curioso, investiguei e soube que vinha da Argentina, país vizinho
de onde eu nasci, Chile e de que fui forçado a abandonar faz já 52 anos
pela ditadura que matou o meu presidente Allende e milhares dos meus
compatriotas, como todos sabem. A minha pesquisa sobre Bergoglio revelou-me que
ele não teria protegido seus fiéis do governo também assassino, da Argentina.
Nessa altura escrevi um ensaio para o blog Banda Larga da Worldpress que
intitulei “Jorge Mário Bergoglio um Papa com um passado traidor e fascista”. Os
documentos que usei assim acusavam. No entanto, a minha editora disse-me que era
cedo demais para esse título, que era melhor esperar e ver. Não esperei,
publiquei. Anos volvidos reparei que tinha sido um grande erro, a minha amiga
editora tinha razão. Resolvi escrever um texto de desagravo, Jorge Maria
Bergoglio merece, não pelos dogmas de fé, bem ao contrário, mas pela sua
dinâmica acção dentro da sua igreja para restaurá-la e sobre a sua actividade
no mundo da interacção social entre pessoas e países, tinha sido o Papa do
desagravo.
Quando a guerra da Rússia - Ucrânia começou, ofereceu-se como mediador e ainda, como refém se fosse preciso para acabar com essas mortes de civis inocentes e esse êxodo impossível. Não vingou. Mais tarde Israel ataca os Palestinianos e provoca mortes inocentes, esse genocídio que todos denunciam como o mais horrendo desde o genocídio nazi dos Judeu nos anos quarenta do seculo passado; ele fala da “guerra dramática e ignóbil” “massacre incrível de seres humanos”, falou disso no dia em que o mundo cristão comemora uma ressurreição, fala de paz para Gaza ainda horas antes de tornar ao Pai, como se diz na sua doutrina.
É chamado o Papa da simplicidade por retirar ritual supérfluo na liturgia da sua religião chamada universal, daí católica, por definir que na sua igreja “todos tem cabimento na instituição e na fé”, por acolher o terceiro sexo como não pecadores, embora não aceite o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo por ser contra a doutrina genética tradicional - o casamento é para dar continuidade aos seguidores de Deus, não para amar. Retira sumptuosidade e parafernália aos rituais da liturgia, reformula o ritual do papado, a eleição de um Papa e o enterro do mesmo é agora mais simples, cria cardeais africanos, asiáticos como parte de uma reformulação do poder legislativo dentro da hierarquia católica. Cria outro equilíbrio do poder retirando-o da Europa, admite mulheres em rituais religiosos, esse género descurado pelos crentes através do tempo e da história e tenta fazer justiça à homosexualidade e pedofília dos religiosos da sua instituição. Esperávamos que definisse o matrimónio sacerdotal e a inclusão de freiras nas celebrações litúrgicas. Não conseguiu, retornou ao Pai antes. Reitero, porém, que foi o Papa da simplicidade dentro de uma doutrina recheada de liturgia milagreira de obscuridade e penitência que pune o corpo. Ouvia, definia, não punia. Redefiniu a economia vaticana e católica universal, retirou bispos e cardeais da gestão do Banco Ambrosiano e o cunhar da moeda de um estado minúsculo de poucos metros quadrados. Era humilde e muito divertido, ria e fazia rir até nas audiências papais. Era latino. Escrever
um ensaio para me desculpar do anterior não foi atempado. Morreu quase poucas
horas a seguir ao dia do dogma da ressurreição que foi comemorado ontem no
mundo cristão… dizem que no fim dos tempos, ele como todos também, vai
ressuscitar.
Não era, contrariamente ao que escrevi antigamente, em base documental, um Papa que tinha sido traidor e fascista. Foi um Papa que será canonizado como santo pela Igreja Católica.
Raul Iturra
O encantador de patos
Barra Mansa 21 de Abril 2025
Editado por Claire Smith
domingo, 30 de março de 2025
Do Diário de Vida de Raul Iturra
Vamos Embora meu Diário Querido!
Vamos andando para fora deste lar, Diário Amigo, tens-me
acompanhado anos sem fim, com calma e simpatia, nesta intimidade do meu quarto,
a única possível, ao pé do meu colega de habitação e eu acompanhado por estas fotos de família, única lembrança possível da minha vida anterior. Lá está essa
da minha senhora mãe com esse vestido preto e ajustado, o colar de pérolas
verdadeiras, elegante, esguia, um pé em frente de outro, as mãos cruzadas em
sinal de oração sustendo seu livro de missa, séria, um certo sorriso a
brilhar na sua boca, perto do meu pai, seu marido, esse senhor digno e bonito
que eu abraço, e esse eu sorridente e feliz vestido com o hábito de noviço
dominicano nos meus 17 anos, no dia em que ingressei no mosteiro para um dia
ser sacerdote pregador. Foto que assinala um dia alegre para essa ultra
católica mãe, triste para o não crente pai que assim perde um filho, cheio de
riso para mim que ansiava amar ao próximo e converter pecadores; tudo isso vejo
e lembro nos minutos de sair da cama, às cinco da manhã, para ir escrever no
gabinete que o lar disponibiliza para mim; pensamentos de lembrança com amor
que me fazem sorrir, quão crente e religioso era eu nesse tempo! Como eu
subordinava meu ser a quem eu pensava que fosse a vontade de Deus… tornar-me
sacerdote era o meu intuito…o silêncio do meu quarto permitia-me essa digressão
no tempo…um “ah! era assim que eu pensava”...”era assim que eu decidia”....
Sorri com simpatia pensando no meu ser de então.
Lembrava Querido Diário como eu mortificava a minha carne
com silícios e chicotadas para não ter pensamentos que furassem a minha
castidade agora entregue à Divindade… Meu colega de quarto resmungou entre
sonos e distraiu a minha recordação… que volta… e vejo-me sair desse mosteiro
poucos meses depois do dia da foto em procura de estudos e de amor, e romper a
castidade de amor e de sexo em que nem uma masturbação tive, para assim, em
estado de pureza louvar o Criador…Era assim o meu acreditar de então.
Lembrava-me disso nessa fria manhã do dia de me ir embora do
lar em que vivi, tão semelhante como me tinha ido fora do dito convento…
Pensando no meu futuro decidi que o que eu queria era defender os injustiçados,
ajudar os criminosos, socorrer os sem abrigo e decidi então ser advogado, uma
espécie de sacerdote cível sem obrigação de castidade, pobreza e obediência,
três votos que na solidão da casa de repouso lembrava-me serem sementes do meu
futuro… Sorri com essa lembrança nessa madrugada em que me mudei para casa da
mulher da qual eu estava namorado e que desejava… À saída do mosteiro não tinha
um amor para motivar o meu abandono da cela monástica, mas sim o tive para
fugir dessa outra subordinação às regras de uma casa de velhos, pensava eu na
hora de sair da cama, na minha intimidade, submissa às regras civis… Como
tentei de as manipular na solidão da minha escrita e nas minhas persistente
leituras no corredor, onde me sentava e onde me ia entretendo nesses nove anos
de enclausuramento causados pela manipulação mentirosa de uma minha descendente
que me classificara como incapaz de entender o real e fechara-me nessa
instituição. Quando abandonei o mosteiro tinha uma vida toda para construir e
ser alguém dedicado a trabalhar para outros; mas abandonar o lar de velhos era
um recuperar de uma vida de amor e de desejo com a mulher que amava, de calma e
simpatia, de namoro, de trabalho como se eu fosse entendido em aves e terra… pensava eu tudo isso no dia da minha partida, meditava na teologia que eu
estudei , nas qualidades de Deus, no amor fraterno… mas nessa madrugada meditava
em como amava essa carismática e atraente mulher, era recuperar uma vida que
tinha começado anos passados, uma atração que me fazia feliz, arriscado e
forte… era ser jovem outra vez, era para mim retomar uma vida a dois … para ser
autónomo e feliz... era tanto o meu pensar para essas horas da madrugada…
No lar lutei para restituir a credibilidade em mim, apostei
para que os outros fossem felizes, servi os meus colegas de idade, assim como
sobrevivi com o apoio incrível da mulher que amo e que me deu apoio
incondicional, assim como a minha outra descendente que não me largaram e
acompanharam-me durante anos… também com o apoio de uma “amiga gorda” com a
qual falava infinitamente… Ideias e lembranças, todas, na madrugada da minha
partida.
Saí do lar… tinha eu adoecido pela falta de dopamina, a
secreção que permite pensar, andar, calcular, o neurónio restabeleceu-se,
cresceu, recuperei faculdades com a ajuda de uma médica do lar… corri ao
tribunal, pedi a mudança de filha acompanhante, ganhei a minha causa, foi-me
dito que podia viver onde quisesse… cá estou eu com a senhora que acreditou em
mim e me fez feliz. Foi com ela que fomos de visita à minha vida anterior, aos
amigos das aldeias que estudei, sobre as quais escrevi quatro livros, a minha
família galega como se denominam a si próprios, dias de felicidade e de atenção
deles para connosco…de uma simpatia e bom tratamento que me permite esquecer a
violência com que me tratara a descendente que me fechou no lar que agora
abandonei finalmente… nem consigo lembrar as formas duras que foram empregues
por essa minha descendente e sua família para me desqualificar socialmente… para
que meus amigos e colegas fugissem de mim… para me isolar e não receber as
honrarias que a sociedade me quis dar… e que contudo teve um final feliz para
mim. Assim exponho as lembranças do apoio que pude dar aos velhos do lar, que
tenho escrito neste livro, que agora, por amor de Deus, só quero acabar para
não sofrer mais por causa das manipulações da dita descendente… perdi uma filha
e dois netos mas ganhei uma vida de amor e tranquilidade. O editor deste meu
livro e de amigos que me acompanharam nesses nove anos, eles sabem quem
são, têm convertido a minha vida no paraíso que sempre sonhei…
Tive dois mosteiros, o de sacerdote a servir uma divindade,
na qual eu já não acredito, e o de uma casa de repouso onde fui maldosamente
encerrado. Dos dois consegui safar-me sem grandes dificuldades ou tristezas
para minha vida que agora é feliz e plena… passei a ser um encantador de patos
como a mulher que amo me denomina, besos e abrazos Diário Querido que me tens
acompanhado toda a minha larga vida de quase 85 anos… tanto ano… Diário Amigo.
Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do
ISCTE-IUL
Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga
Barra Mansa, Março 2025
Notinha: Na foto, Raul Iturra, Quinta Barra Mansa, Fontanelas, Sintra, Portugal - fotografia de Maria do Céu Raposo.
sábado, 1 de fevereiro de 2025
Do Diário de Vida de Raul Iturra
A Minha Gorda Amiga
Uma homenagem
É com alegria e sorrisos, meu Diário Querido, que vou-me lembrando dessas conversas de quase nove anos que tive no lar onde resido com a minha gorda amiga, já mencionada por mim nos capítulos anteriores. Gorda como metáfora de uma mulher linda, com cara de porcelana como boneca, lisa, sem nenhuma ruga nos seus 86 anos. Anos que eram celebrados por todos nós no 22 de Abril de cada ano. A senhora alta, esguia, apesar dos quilos a mais que tinha em certos anos, porque desde sempre tem adorado comer. Era bom dente, melhor garfo, eram abundantes as bolachas e chocolates... Uma senhora mesmo senhora, cativante, vestida com roupa que tem tido por hábito mudar todos os dias. Levava mais de uma hora no seu quarto para escolher o vestido que mais assentasse aos seus caprichos do momento. Roupa grossa no inverno, com casacos compridos adequados à cor do fato, sempre com vestidos porque: “as calças são para homens e eu não sou, sou mulher que gosta de atrapalhar homens bonitos com a minha roupa”, gostava ela de dizer e de pôr em prática. Daí as largas horas que gasta em se arranjar e para pentear os escassos cabelos sobreviventes da sua cabeça...ela os pintava...quase cor ruiva que gostava para parecer mais arrumada… Sugeri-lhe, um dia, deixar de pintar o cabelo, ela aceitou e passaram a ser de cor branca, parecendo-se assim como mulher digna da alta sociedade, como ela gosta de ser classificada. Por norma, esta distinta mulher quer andar com pessoas bonitas e bem apresentadas e por isso mandava-me, ao longo destes anos todos, atar um lenço ao pescoço e colocá-lo dentro da camisa. Mandava-me comer, comer e muito "para que desapareçam as covas da sua cara, Sr. Doutor, para que fique assim mais bonito"...Gosta dessa elegância nos outros. Desde o primeiro dia que partilhamos o lar gostou do proprietário da casa de repouso, um homem jovem, bonito, bem vestido e perfumado. Odor que ela adora. Ela nunca deixou de me oferecer água de colónia: “caso o perfume tão bom que usa o Sr. Doutor e que eu gosto se esgote...". Sempre me chama Sr. Doutor e obriga os outros a usarem este adjectivo para falarem comigo. Um senhor Doutor quando não usava “Senhor Professor Doutor que escreve tantos livros”. Tem sido um bom garfo e melhor vestida ainda, mas a falar...fala todo o tempo...calmamente, lentamente, informada, especialmente de bispos e papas, santos e anjos, um saber litúrgico sem igual. Cansava-me tanta palavra, especialmente porque gosto de ler em silêncio. Parar aquilo era só com comédia: fecho o olho esquerdo que ela vê desde o seu sítio enquanto mantinha aberto o direito para ver televisão no tempo em que eu gostava de ver programas. "Está a dormir?.." dizia-me e eu respondo..."Estou a dormir profundamente...", mentia eu e ela aceitava e assim calava-se. "Que dia é hoje querida amiga?" “segunda..." "pense bem... ontem veio a sua filha que só aparece aos sábados..." "não me diga que é domingo.." "é..." "atão...há missa.." e eu punha o canal correspondente na liturgia do domingo dos católicos e ela ia orando ao longo do que o oficiante dizia...em profundo silêncio perante os outros ali sentados...e ai dos que falam...!! Recebem um grito de fúria "caluda...é a missa...não se fala...respeito". Ela católica devota, eu anticatólico frenético e militante, passei a respeitar profundamente a sua inabalável fé... ela quase uma santa na sua devoção...e o terço! ai, meu Deus...três ou quatro por dia...era eu o seu coro ou procurava-lhe outros acompanhantes, havia muitos, era só coordenar os que iam rezar com ela, eu organizava e ela gostava da minha iniciativa, contava com ela, era esperada. Aprendi muita geografia de Portugal com as suas histórias de viagens quando procurava velharias que vendia na sua loja na estrada de Sintra, o que sempre gostou de fazer nos trinta e cinco anos de atividade como também aprendi a geografia da sua terra: "Sou da aldeia com ovelhas que eu pastoreava enquanto lia os romances do Camilo (Castelo Branco) e a vida do Santo António, pertenço à freguesia do carvão, do distrito dos antigos escravos que os romanos não foram capaz de conquistar”, ensinou-me ela. Eu agradecia...um par de vezes disse-me que sonhava comigo, eu curioso, queria saber o que sonhava. Ela: "Aí não! É só comigo, tenho vergonha de lhe contar..."...outra vez desafiou-me "o Sr. Doutor comprimenta as senhoras com um beijo e a mim nada..." Lá fui eu, beijei sua bochecha e ela feliz com esse carinho, “...não vou lavar a cara nos próximos dias..."!! Num lar de idosos havia pessoas que morriam, eu sabia e vinha-lhe contar e a minha muito querida amiga rezava terços pelas suas almas durante três dias porque "ele está no julgamento divino e com o terço ajudo-o….". Com a passagem do tempo, a minha maravilhosa amiga emagreceu e passou de mulher forte a elegante, linda, bem vestida a uma senhora mais querida ainda na sua magreza. Ela adorava a minha mulher. Tinha sempre um presente para ela nas suas visitas com beijos sem fim. Cara de porcelana, uma beleza velha desperdiçada, querida por todos no lar: ela não grita, não se zanga, opina e tem sido ouvida como ninguém, com uma dignidade sem arrogância que a todos cativa. Não fosse eu casado e amante da minha mulher a teria namorado, essa dama que quando uma descendente minha retirou-me com maldade o uso do meu telefone ela deixou-me usar o dela sem pagamento. Minha mulher ofereceu-lhe uma cruz dourada com pedras de cores de fantasia e ela a todos dizia que era um presente de ouro com pedras preciosas, porque não podia ser por menos vindo de uma senhora que ela, essa minha antiga amiga gorda depois elegante e muito bonita, mas mesmo muito bonita, recebeu da sua amada amiga, minha mulher. Essa minha querida matrona elegante e calma entrou ontem na eternidade e hoje vai ser enterrada, eu a choro profundamente mas aceito a realidade com calma, não tenho outra opção, descansou...Querido Diário, vamos lembrá-la enquanto estivermos vivos e vamos nos encontrar na ressurreição em que ela acreditava.
Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL
Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga
Barra Mansa, Janeiro 2025
sábado, 14 de dezembro de 2024
Do Diário de Vida de Raul Iturra
A memória dos meus velhos
Eis-me irritante, meu Diário amigo, por essa crença das
pessoas todas, dos velhos sermos esquecidos, não entendermos, não dizermos o
que pretendemos, termos só memória do passado e ignorar o presente. No entanto,
somos pessoas prioritárias em qualquer fila, deixam-nos passar primeiro nas
ruas onde os carros param à nossa passagem. Vejo-me obrigado a agradecer
mexendo a minha bengala em gesto de cumprimento. Faz pouco fui convidado a ver
uma peça de teatro com a minha família. No foyer éramos uma multidão à
espera do começo da obra. Os mais jovens, corpos ágeis, tinham aparecido
primeiro e estavam sentados nas escassas cadeiras; o meu enteado mais velho e a
sua mulher procuraram sítio para mim porque tínhamos chegado mais tarde devido
ao meu caminhar lento; uma senhora amável levantou-se e convidou-me a usar o
seu sítio contra todos os meus princípios de “ladys first” e dizer, como era
meu hábito à mulher que me oferecia a cadeira e à mulher do meu enteado que
elas é que deveriam ter prioridade. Princípio que ninguém queria aplicar, eu
era um velhinho magro e tremido por estar em pé; eles eram amáveis entendiam a
realidade, eu por minha vez queria usar o tradicional “mulheres primeiro” que
tinha norteado quase oitenta anos da minha vida…Como é que uma mulher, ainda
por cima bonita, ia-me dar o seu lugar?…
Os
velhos não somos pessoas que esquecemos, somos seres de princípios. Estes
princípios têm mudado com a passagem do tempo. Os nossos corpos resistem um
pouco, cansamo-nos, custa-nos muito admitir essa realidade. Talvez uma simpatia
devesse acompanhar essa gentileza de quem nos quer amparar para nos ajudar, sem
acanhamento: um sorriso, uma palavra amável para nos aceitar, uma abertura e
argúcia a outras realidades. Ó Diário querido como educar os jovens para serem
espontâneos no seu apoio, com alguma imaginação e sem vergonha nem embaraço
pela caridade que fazem. Caridade essa que entendo ser a atitude má. Ser
caridoso é o que nós os velhos rejeitamos porque salienta a nossa inutilidade
na interação social. Na sociedade capitalista da concorrência é a forma de
mostrar que somos inúteis na produção, de nos sentirmos pouco ativos na vida
social, especialmente depois de termos passado a vida a criar e orientar
outros, a criar filhos para serem interativos. Fomos criados numa sociedade que
entende que a realidade deve ser caridosa e que obriga a socorrer os
velhos…Dizem de nós: “Eles não sabem, coitadinhos não entendem, esqueceram!”
Tudo isto é indigno de nós.
Tenho
uma querida amiga entre os meus velhos do lar que fartava de dizer a todos os
que queriam ouvir que ela era filha dum senhor que compunha música e escrevia
poemas na sua casa da aldeia A, da freguesia B, do concelho de C, do distrito
D, onde ela tomava conta do rebanho de cabras e ovelhas todo o dia enquanto ia
lendo histórias; após sete anos de contar isto a todos, agora só lembra este
facto se lhe é perguntado com simpatia numa conversa normal, com carinho e
estímulo. Tenho reparado que este carinho e apoio estimula a memória que outros
dizem que não temos, uma memória atrapalhada pelo medo dos que mandam, dos que
decidem. Um temor destas nossas crianças que rapidamente no tempo passam a ser
autoridades no lugar em que dantes éramos nós a organizar a sua vida. Não
reclamo o status quo, não peço para parar a sociedade na geração anterior, só
digo que não queremos condescendência, queremos igualdade no tratamento e amor
na interação. Não queremos que gozem da nossa conversa, menos ainda fazer pouco
de nós, mas queremos que seja aceite sem ironia a realidade que vive o adulto
maior; se se aceita com alegria e estímulo o que uma criança inventa como
realidade, porque não fazer igual com a criança velha?
Tenho reclamado esse respeito ao longo da minha vida em
livros e ensaios, mas nunca tive aderentes a essa ideia.
Tenho tido companheiros de quarto que se sentem atemorizados
quando chegamos ao pé deles, gritam e pedem ajuda, como esse senhor acometido
com o mal degenerativo de Huntington que, por casualidade, um dia
perguntei-lhe quem era esse lindo rapaz numa foto que tinha ao pé dele, se era
filho ou amigo. Ele parou de gritar e disse-me com orgulho ”esse sou eu aos
meus vinte anos”. Comecei a falar com ele sobre a sua vida dessa altura, e ele
passou a contar-me das pessoas namoradas que tinha tido e, na sua difícil
maneira de narrar, disse-me do colega que o tinha seduzido e da mulher que o
tinha abandonado pela sua doença. Desde aquele dia pude acarinhá-lo, ouvi-lo,
perdi o medo, pude beijá-lo. Um carinho que ele passou a esperar da minha parte
porque mais ninguém lhe falava ou acariciava. O medo que eu tinha com os seus
gritos passou com o amor que lhe dei e ele por seu lado acalmou. Nenhum homem
beija outro na nossa cultura pelo temor de ser qualificado como gay. Com esse
medo os machos batem nos outros machos quando é necessário. Para acalmar e
apoiar os meus colegas do lar, apenas os funcionários não cristãos tocam e
beijam esses velhos doentes. Com eles aprendi e assim a memória volta, e torna
a vida calma, volta a simpatia, a comunicação… o medo desaparece, esse medo que
faz gritar. Também deste colega de mesa, que sempre dizia que nada tinha para
dizer, descobri que tinha uma filha e uma sobrinha com as quais não se dava
muito bem, mas foi-me contando a vida da sua descendência e do seu passado. Até
ganhou peso, antes aprisionado num corpo magro de solidão, depois de ter
socializado seu problema.
A falta de lembrança também ocorre pela falta
de contacto com a normalidade da realidade criada nas pessoas pela
demência senil ou doenças neurológicas que aparecem com a idade. Assim como a
senhora que fala com a sua irmã defunta e que quando eu aceitei esta conversa
como um facto real, ela passou a sentar-se ao pé de mim e a me contar as suas
conversas com a morta. Facto que eu contei às suas filhas e a partir daí, sem
dúvida, conseguiram melhorar a sua relação com a mãe. Eu próprio tive uma filha
que inventou uma família que dormia na casa de banho da nossa casa. Ela não
conseguia dormir sem antes ir deitar a sua família inventada que para ela tinha
existência material. Se aceitamos a realidade inventada com respeito, carinho e
inteligência para uma criança, porque não se aceita também a realidade
inventada pelo adulto maior.
Os velhos não esquecemos, a nossa verdade é que é diferente da histórica, até por motivos de limitações fisiológicas e biológicas. É difícil viver na interação da concorrência e do lucro para o que já não temos nem informação, força, apetite ou entendimento. A maior parte de nós não pode realizar operações bancárias ou mesmo de comunicação porque hoje em dia tudo é digital e virtual, até o dinheiro pelo que lutamos uma vida inteira transforma-se em números abstratos - nunca o vemos, é imaterial. Como é que se pode pretender que o velhinho se lembre da materialidade que sustenta a memória se hoje ela é completamente diferente? Hoje em dia há barrigas de aluguer para a reprodução humana, matrimónio entre pessoas do mesmo sexo, morte assistida, divórcio, namoros que começam pela cama, valor das palavras na mesma língua que tem diferente significados. É uma sociedade absolutamente diferente para o qual o velho ou velha, este adulto maior, foi educado e que as religiões persistem em impingir como verdade dogmática contra os princípios que agora governam a interação… A maior parte da sociedade está condenada a não lembrar o que não viveu… Com carinho é que se entende as recordações e realidade deste ser que já é de outra história. A falta de carinho dá medo e o medo faz esquecer.
Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL
Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga
Barra Mansa, Dezembro de 2024
quinta-feira, 26 de setembro de 2024
Do Diário de Vida de Raul Iturra
Os velhos somos também pessoas que amamos.
A afetividade no lar.
Lembras-te, Querido Diário, que temos falado de perda de identidade no lar. Parece-me que a pior das perdas é a falta de amar e sermos amados. Somos criados na vida social como construtores da identidade amorosa, como criadores de afetividade. Começamos por amar os nossos pais, continuamos pela empatia com os nossos irmãos, parentes e amigos. Amamos e gostamos de ser amados pela pessoa que nos pode acompanhar durante a nossa vida; se temos filhos tomamos conta deles e se é uma relação não reprodutiva ou adoptamos ou amamos os dos amigos. Não é preciso consultar Freud ou seu discípulo Donald Winnicott para entender que querer e desejar são actividades muito próximas: quando queremos alguém, normalmente queremos tocar essa pessoa, não apenas dar a mão ou um golpe no ombro ou um braço pelo pescoço, também queremos abraçar estreitamente e beijar. O costume ocidental é homem beijar mulheres e vice-versa, crianças beijar adultos, adultos acarinhar pequenos.
Estes factos não existem nos lares onde tenho vivido exceto raras ocasiões de intimidade entre homem e mulher. Não há solução para a falta de abraço estreito, menos ainda o de beijar exceto, como eu aprendi a fazer com adultos com doenças senis ou degenerativas que precisam de contacto físico afectivo: dar a mão, trocar palavras, acariciar. É uma forte dor não ter ninguém para abraçar. Donald Winnicott descobriu o que tenho analisado num outro livro meu e diz que a partir do quarto mês de gestação a criança em formação desenvolve afetividade erótica e normalmente quando um pénis erecto entra numa vagina com um bebé em formação, este feto mexe e tenta expelir o intruso que penetra a essa futura mãe.
O amor e o desejo existem no lar, especialmente entre adultos com camaradagem prolongada. Tive no meu quarto um colega que passado um ano de conversas sobre a sua família filhos e mulher sobre qual ele sempre falava, perguntou-me um dia: “Ó Doutor acha que faz mal que eu bata uma punheta”, “ó meu amigo só não faz mal como é o hábito de pessoas sós e desde criança, bata que é bom para si”. Prudentemente eu me retirava do quarto quando ele parecia excitado e respeitei a única intimidade possível para um velho num lar. Única possibilidade erótica para idosos, cabelos brancos, rugas, com falta de excitação exceto se é estimulado. As pessoas mais novas procuram seres da sua geração que permitam um desejo mais agradável. Nós os velhos também queremos ter interacção sexual mas dificilmente se torna possível com pessoas mais novas que não se sentem atraídos por nós. No lar a vigilância é tão estreita que ainda que haja atração esta não se pode materializar.
Eu tive a tentativa de sedução dentro do lar por uma amiga de longa data que me contava os sonhos eróticos que ela tinha comigo. “Ó Sr. Doutor, ontem à noite sonhei que o senhor me penetrava e eu sentia-me feliz, tive que brincar com a minha “patareca” para me satisfazer. Eu replicava “fico feliz de saber que a satisfiz, ainda que na sua fantasia”, “Sr Doutor não queria meter-se na cama comigo?”, “Ó minha senhora era uma grande honra mas cá está proibido” “quem, quem proibiu…, fazer amor não é pecado”, “minha senhora é pecado para os que mandam no lar e não permitam que nós dois possamos brincar”. Contudo não havia dia que eu não fosse de manhã visitar a senhora desde a porta do seu quarto, não havia noite que eu antes de deitar não fosse ao quarto dela para lhe levar bolachas que ela esperava com prazer e fruição. Não era só a bolacha que ela esperava, era também a carícia na sua mão e a minha voz que lhe pedia que tivesse doces sonhos e que não falasse com as suas colegas de quarto para ela dormir e elas descansarem bem. Ao longo de 9 anos habituamo-nos à simpatia de falarmos, comer na mesma mesa, mudar o canal de televisão para que possa ver o que ela queria até que esta minha amiga foi removida da minha mesa e lhe deram o seu lugar sentada noutra sala. A nossa amizade foi interrompida pela autoridade do lar, não apenas não podíamos materializar nenhum desejo bem como a nossa troca de ideias e conversas foi acabada. Não é apenas o desejo proíbido bem como o cultivo da amizade pura e casta que também foi acabada. Só foi possível retomar nossa conversa quando ela começou a perder a sua memória e o contacto com a vida real e voltaram a dar-lhe o seu lugar no sofá junto ao meu no corredor da entrada, não pela nossa amizade mas bem por conveniência do lar. Foi assim que, sentada ao pé de mim, eu ouvia as suas histórias, tomava conta dela, chamando um funcionário quando os chichis e os cocós saiam da fralda para o chão e pedia a mudança de fraldas quando já estava toda a roupa empapada. Foi uma amizade aceite porque passei a ser útil nesta casa de repouso para uma utente que já não era capaz de controlar os seus esfíncteres. A utilidade é o que manda nas relações do lar.
Não apenas eu tive este contacto simpático na nossa vida em comum, também havia um outro colega de quarto praticamente cego que namorava uma senhora utente da sua geração e que tinham de fechar a porta do quarto para eles se acariciarem despidos e eu tinha que avisá-los atempadamente quando iam aparecer funcionários que proibiam o amor entre velhos. Nunca me esqueço dessa primeira vez que entrei no nosso quarto e ele estava sem calças nem fraldas e ela despida sem camisola e sem soutien. Esta primeira vez ela gritou e como ainda era mulher ágil, saltou da cama e correu de volta ao seu quarto aos gritos “meu Deus, meu Deus, que horror, desculpa…” foi a partir desse dia que eu falei com o meu colega e pedi-lhe para ter mais cuidado na sua sedução. Ele ria e disse-me que ele era o “garanhão do lar”, que estava aí para amar e fornicar com essa e outra velha que gostava dele e o perseguia usando as suas mão para o esfregar entre as pernas e ele feliz, satisfeito com a sua vida erótica do “velho mais ativo sexualmente” do lar.
Havia formas simpáticas de usar a líbido proibida, especialmente dar-se as mãos, trocar beijos, ouvir declarações de amor. Não esqueço esse senhor que estava sempre a solicitar os amores de uma idosa que ele queria, mas era-lhe proibido declarar-se abertamente. A afetividade e o desejo apareciam de outras formas como o de essa senhora que dançava comigo quando havia festas e saídas para o jardim da casa mas que acabaram quando ficou confinada numa cadeira de rodas por se ter acidentado e partido o osso da perna no seu eterno andar pelos corredores do lar. A partir daí a afetividade passou a manifestar-se nas sessão de jogo do bingo, a beijar-me e dar-me a mão quando eu ia a falar com ela na sua cadeira e dizia-me “Ó Sr. Presidente Américo Tomás dê trabalho ao meu filho que não consegue juntar dinheiro para mim”, “Senhor tenente ande cá dê-me a mão e acaricia-me as bochechas e beija-me”. O que eu fazia para a sua alegria e satisfação. Ou aquele senhor habituado a estar com a mãe e a irmã em casa deles mas que no lar não tinha a quem acarinhar e chamava-me aos gritos, agarrava as minhas mãos mas beijava e punha as suas bochechas a jeito para eu as beijar e, às vezes, beijava-me nos lábios, ele feliz e eu complacentemente entendi a sua necessidade de afecto. Tanto assim que sem me chamar eu ia de modo próprio à sua cadeira de rodas acariciava as suas mãos e beijava-o com simpatia. Às vezes ia ao seu quarto onde era levado por causa dos seus gritos, o acariciava, o acalmava e ele parava de gritar.
A afetividade no lar é muito controlada. A maior parte dos idosos raramente recebem visitas porque os seus parentes estão a trabalhar. Quando os parentes vão visitá-los, falam com eles, levam-lhes lanches ou bolachas ou frutas e o idoso ou idosa visitado passam a ter a sua afetividade satisfeita por um tempo. Quando os parentes vão embora procuram uma pessoa amiga entre os colegas utentes para, pelo menos, conversar. A afetividade como eu dizia está reduzida ao mínimo ou a carícias que alguns funcionários, especialmente os estrangeiros, dispensem aos utentes. Nunca esqueço este primeiro ano de atividade de um funcionário que mal entrava de turno comprimentava com beijo nas bochechas todos os idosos sentados na sala de convívio. Ou as funcionárias não portuguesas que atribuíam aos idosos diminutivos ou alcunhas, criadas por elas. Mas também há as senhoras funcionárias que abraçam e beijam os utentes com senilidade menos avançada, com abraços estreitos, apertados e excitantes. Todos eles ficavam felizes de serem assim amados por pessoas que exercem autoridade sobre o comportamento dentro do lar.
O que mais me admira é a suavidade e a paciência com que funcionários muito crentes na divindade sorriem, acariciam, abraçam, contam histórias a pessoas que de outra maneira não teriam ninguém em quem se apoiar para amar e serem amados. A afetividade é procurada por quem viveu uma vida inteira a procriar, educar e produzir. A afetividade é um bem precioso que quando estamos mais combalidos e solitários e sem ninguém para tocar, procuramos a simpatia de quem, mas nem sempre, nos pode amar. Uma das formas que alguns dos utentes têm de exprimir a sua emotividade é gritar, vilipendiar, chamar nomes, inventar histórias que vários dos outros utentes rejeitam ofendidos. Já tinha referido no capítulo anterior a senhora de 94 anos que grita “puta, bêbada, caralho” que acorda nos outros, especialmente nas suas colegas de mesa uma raiva que se manifesta em gritos de zangas, às vezes em muros com que as ofendidas tentam defender o seu bom nome que tanto estimam.
Não consigo esquecer um funcionário, que deixou de trabalhar no lar, que vivia com o seu companheiro, sargento do exército, na casa maternal e que por hábito dava nomes simpáticos a toda a população idosa do lar. Eu fui batizado por ele de “doutor charmoso”, especialmente quando eu vestia calças brancas e camisola vermelha, ele vinha me abraçar estreitamente e me beijava; fiquei triste quando ele se foi embora para um sítio melhor. Ele normalmente contava-me as suas histórias de amor e de como mudava rapidamente de namorado porque nenhum deles prestava para ele; eu aconselhava-lhe e trocava ideias sobre o namoro, tal como eu falava com outros funcionários de suas famílias o que eles agradeciam; é mais uma forma de expressão da solidão afectiva que todos temos de uma casa tão fora da realidade social. A afetividade é tão deturpada que eu costumava sonhar que fazia amor com uma funcionária muito bonita mas de um temperamento espantosamente desagradável, distante e aos gritos comigo. Não permitia que eu saísse do meu quarto antes das cinco da manhã, a minha hora habitual que tive que adotar no lar. Não me dava o chá com açúcar medicamente prescrito para o meu acordar. Ela evitava comprimentar-me no dia dia e no entanto eu falava-lhe de forma simpática e nos meus sonhos a desejava. Normalmente ela não sabia do meu sonho como dos que eu contava a uma outra funcionária com a qual éramos amigos e riamos, estrepitosamente. Era assim como manifestava o meu carinho aos funcionários estrangeiros que também me iam contando as suas vidas e as suas solidões por estarem longe dos seus países. Eram tão exilados como eu, eu político eles de economia política. As nossas conversas pessoais ficam comigo por serem complexas e delicadas.
Os velhos somos pessoas. Os velhos amamos. Os velhos desejamos. Os velhos queremos fazer amor. Existe a pacata ideia de que passado setenta anos, nós, idosos, temos dado cabo do nosso erotismo. Com o que eu tenho referido, posso provar como é uma falácia; que é impossível satisfazer o desejo como o imaginamos, lá isso é verdade. Sim, como disse antes os velhos amamos e desejamos, mas o nosso desejo é abafado pelas leis da ética das religiões que impede uma relação entre duas pessoas que não estão casadas de forma heterosexual. É abafada pela crença nessa ética pela autoridade do lar e pela moral dos funcionários que nunca sei se é respeitada também na sua vida quotidiana. Os funcionários nos vêm com o olhar desta ética que exige que nós tenhamos um comportamento de respeito dos costumes que não acredita na sinceridade do amor entre velhos para exprimirem a sua afetividade.
Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL
Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga
Barra Mansa, Setembro de 2024
sexta-feira, 30 de agosto de 2024
Do Diário de Vida de Raul Iturra
A PERDA DE IDENTIDADE NO LAR
Nem tudo o que acontece no lar, querido diário, é resultado do eterno debate entre funcionários e utentes ao qual me tenho referido nas páginas anteriores. Entramos no lar já velhos, cansados, com uma história de vida marcada pelas nossas relações sociais construídas na interação com os outros. Somos pessoas resultado da nossa vida social, vivemos em nichos definidos pela dita interacção. Nascemos, somos filhos, um primeiro nicho social; se temos pila entramos na categoria de homem, se não, mulher. Desenvolvemos o nosso comportamento imitando os adultos que nos criam, que nos rodeiam, que acompanham o nosso crescimento, sejam eles familiares ou instituições que tomam conta de crianças. Em breve somos estudantes, somos enviados para instituições chamadas escolas para sermos introduzidos à cultura, à mente cultural do estado em que vivemos: somos preparados para sermos cidadãos do país em que nascemos e incutem-nos sabedoria de letras, sabedoria de história, sabedoria sobre o universo em que moramos; incutem-nos também a crença numa divindade e um comportamento religioso que define como agirmos com outros seres humanos; incutem-no sermos pessoas.
Os anos passam, cada época da nossa vida é diferente da etapa anterior: somos aprendizes, somos estudantes, chegamos à idade de amar e sermos amados, à idade de trabalhar e colaborar com a economia social, passamos a ser profissionais. Uma profissão seja letras, ciência ou trabalho direto, que nos introduz à economia, que nos dá salário, casa, emprego. Normalmente encontramos o nosso par, juntamo-nos, acasalamos, passamos ao estatuto de pais, criamos, educamos, orientamos. A nossa atividade muda de etapa em etapa e vamos ganhando uma identidade pela qual somos conhecidos no país de que somos parte. Somos cidadãos com responsabilidade ética, estética e afetiva. É principalmente o nosso papel de pais que define o nosso comportamento como um elo importante do nosso objectivo de vida: não apenas reproduzimos seres humanos, também reproduzimos saber para introduzir os seres humanos que criamos na vida social, como nós também fomos igualmente introduzidos. Sermos pais é o mais importante da nossa vida de interação. O nosso objetivo não é apenas educar, é também amar e ser amado pela geração de pessoas que temos estado a criar. Crescemos, envelhecemos, cansamo-nos. A geração que criamos devia tomar conta de nós e velar por um fim adequado de vida, calmo, tranquilo e economicamente funcional. No entanto, a vida social moderna tem organizado uma interação que retira os mais velhos da responsabilidade social directa e entrega-os a lares que os alimentam, os cuidam, os vestem, definem os seus parâmetros quotidianos.
A nossa identidade muda de sermos adultos responsáveis para sermos outra vez crianças que obedecem a um plano definido de comportamento individual. A nossa vida social muda, deixamos de ser entidades, passamos a sermos indivíduos obedientes.
Já não vou referir o que acontece com os outros colegas utentes do lar em que vivo como tenho feito nos outros capítulos do meu diário mas vou passar a vasculhar apenas na minha própria vida. Um dia não consegui andar, colocaram nas minhas mãos um andarilho para me apoiar e continuar meu quotidiano como sempre tinha sido. Esta etapa não durou muito tempo: caía na rua, enganava-me nas compras, a minha gestão económica era-me difícil com o pouco dinheiro que me era pago cada mês pela minha reforma, pela mudança das formas do acontecer no quotidiano; entrou na nossa vida pessoal a internet, os bancos passaram a serem geridos pelo computador, as compras eram feitas em linha, enfim um descalabro que me acontecia após 70 anos de uma construção histórica social liderada por mim próprio e a partir do meu entendimento. As formas de vida mudaram de tal maneira que era necessário uma nova educação para viver de forma autónoma como o tinha feito antes. Confiei que a minha descendência ajudar-me-ia, confiei que a minha descendência explicar-me-ia as novas formas de ação em função da minha nova etapa de vida. Não tive esta sorte. A minha descendência resolveu fechar-me num lar e referir que eu não entendia a realidade, que eu estava doente e não valia a pena explicar-me a nova vida social, e isolar-me do mundo que eu tinha ajudado a construir foi a solução encontrada. Eu próprio acreditei que era incapaz de perceber o mundo atual causado por doença progressiva, seria parkinson e demência vascular tal como me era explicado que doravante era a minha realidade. Felizmente uma médica do lar disse-me: Doutor Raul vamos parar com estas queixas e doenças, vamos diminuir a medicação que toma ao pequeno almoço, almoço, e jantar e a pouco e pouco vai se confrontar com a vida como ela é e não como a sua filha mais velha, a quem foi confiada a sua tutoria, lhe quer fabricar. Perguntei-lhe como iria eu fazer? Com paciência, com calma e boa disposição, respondeu-me a médica, e quando precisar venha falar comigo para contar-me o que pensa, o que sonha e o que sente.
A partir deste momento foi uma progressiva viragem.
Assim no lar eu tinha todo o tempo para mim, estava isolado, não tinha passeios, não tinha visita dos meus amigos e colegas excepto o convívio com duas antigas estudantes de doutoramento que não pararam de me acompanhar, alguns passeios com uma antiga amiga de longa data e pelo convívio da minha filha mais nova que me visitava desde do estrangeiro um par de vezes ao ano. Visitas escassas devido à distância do lar do meu antigo local de vida e dominadas pela falta de partilha da vida social ativa.
Como disse antes tinha todo o tempo para mim e pensando como redefinir um convívio com os meus colegas de lar resolvi apoiar quem precisasse cada vez que fosse necessário, andar, ajudar os meus colegas a jogar ao bingo com a animadora cultural, ler livros sem fim o dia todo, escrever o meu diário de vida na sofá que uso, inventar conversas com funcionários amigos que me relatavam o que acontecia no mundo exterior. Raramente ouvia notícias, normalmente nunca aceitei sentar-me a ver televisão. Conseguir ler e escrever foi o meu objectivo de vida. Era difícil convencer as diversas diretoras do lar de como eu queria organizar a minha vida. Fiz-me amigo profundo de uma senhora com quem almoçava, conversava e ria. Esta senhora foi retirada da minha mesa e fui colocado com outras pessoas sendo assim o meu convívio organizado pela direcção do lar, por ordem de quem neste tempo, conforme a lei, era a minha tutora. Tive que lutar e com ajuda de poucos amigos e da minha filha mais nova, mandei o meu grito de ipiranga recorremos ao tribunal de família e tempo mais tarde fui libertado da minha submissão a uma tutoria que me ia matando. A minha identidade foi recuperada pelo grande esforço e disciplina de vida que organizei no meu dia a dia: acordar às 5 da manhã, tomar banho, escrever e viver o dia entre comidas, conversas, reflexões e música. Tive sorte, e a pouco e pouco tornei a ser o Raul Iturra que eu tinha sido. Comecei a interagir em mensagens e telefonemas com algumas pessoas que quiseram responder às minhas mensagens e chamadas.
No lar é mais fácil perder identidade e submeter-se ao que define a direção por ordem da família. Falei com o proprietário do lar e pedi para ser tratado como um velho que não tinha para onde ir e aí morava por falta de acolhimento noutro sítio. O lar submete. O lar manda. O lar ouve a família e não o utente. O utente normalmente tem pouco para dizer e passa a ser como criança como falei nos capítulos anteriores. No meu caso infelizmente entendia o que acontecia e bati-me contra a disciplina e organização do meu tempo por outros. Aceitei horário de comida do lar, mas o meu tempo quotidiano foi por mim organizado: assim me entretive e os nove anos passaram sem eu reparar.
Somos pessoas. Somos adultos, somos pais, somos cidadãos. Tudo isso parece acabar quando se quer manter uma disciplina no seio de um grupo de adultos que passa o dia a conversar e ver televisão, eventualmente a se entreter com as atividades de animação cultural. Há eleições nacionais, ninguém sabe e ninguém vota, ninguém vai às urnas. Apenas dois de nós temos seguido à risca a planificação política do país. Ninguém sabe o que se passa nem qual será o futuro. O nosso país prescinde das pessoas que moram em lares apenas orientados pelas suas famílias nas quais cada utente confia com profundidade e nos quais tem esperança de os ver outra vez numa próxima visita.
O lar faz perder a identidade de ser pessoa que a sociedade nos incute antes de sermos velhos entrando assim no fim da sua vida sem que saibamos para onde vamos, nem com quem, nem como. Eu gritei, pedi acesso ao tribunal de família e libertei-me do autoritarismo com que a lei manda tratar os velhos do país. Tentei recuperar a minha identidade mas choro pela solidão dos meus colegas que ainda estão fechados no lar sem saber para onde vão até um dia dele sair no seu próprio funeral.
Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do ISCTE-IUL
Texto Editado por Claire Smith, Antropóloga
Barra Mansa, Agosto de 2024
sábado, 27 de julho de 2024
Do Diário de Vida de Raul Iturra
Os velhos, somos atropelados…
Não é uma afirmação gratuita, Querido Diário, nasce da
minha experiência com diversas pessoas da vida social. Estava eu sentado no meu
sofá em frente da porta do refeitório, a meu lado uma comprida fila de velhos
em cadeiras de rodas estava à espera de entrar no refeitório para lanchar.
Todos já com babete imenso que cobre peito e colo, para não sujar as roupas e
colocados a correr pelos funcionários que organizavam a entrada ao
refeitório, todos preparados para comer!
De repente abre-se a porta da sala de jantar e aparece
uma mulher com aspecto descuidado, desgrenhada como é o seu cabelo. É uma
funcionária nova que diz aos gritos:
- “Então! está tudo bem, ainda todos vivos!, ou já há vários mortos
como deve ser com os velhos”.
As pessoas protestaram:
- “Eu não quero morrer, sou ainda uma pessoa nova, tenho 25 anos e a
minha mãe deixou-me cá enquanto foi às compras”, diz a minha amiga de 85
anos, que antes andava muito e agora não consegue abandonar a sua cadeira
de rodas. Mais 3 ou 4 pessoas protestam e dizem :
- “Eu não quero morrer, eu quero comer!”, enquanto a
desalinhada funcionária ri e assobia alto e diz “Morrer é uma lei da vida e
vocês estão todos perto da hora de desaparecer”.
Eu furioso pela atitude protesto e peço à funcionária
para calar-se e ser mais discreta com as pessoas que ela estava a espantar;
esse espanto usado para subordinar os velhotes às suas ordens. Felizmente a
porta do refeitório abriu e a fila de adultos maiores concentrou-se no ritual
de entrada e serem levados aos seus sítios nas mesas do dito refeitório: O
desejo de comer era tão forte que faz esquecer a ”simpática” ameaça da
funcionária que não parava de assobiar.
As pessoas querem viver, as pessoas não querem sofrer,
as pessoas querem rir, falar e engolir, não comer, engolir os alimentos que
estão na mesa e comentam uns com os outros: “Eu não tenho pão!, tu tens!”, eu
tenho iogurte com bolachas que gosto mais ", diz outro. Todos debatem numa
confusão em que vários querem arrebatar o que tem a pessoa que está ao pé
deles: até parecem adequar-se ao grito da funcionária que lhes disse que todos
iam morrer, para poder controlar o acesso à comida. Mas não é necessário porque
aparece a cozinheira de mãos nas ancas e grita violentamente:
- ”Pouco barulho, o lanche é para estarem calados e sem comentários, calem! e pela força do grito as pessoas assustam-se, calam e comem em silêncio.
Então a cozinheira diz:
- "Lindos meninos, assim é que é, todos caladinhos e a comer como deve
ser”.
Custa-me muito aceitar estes procedimentos. Como já
tinha dito em capítulos anteriores, o agir das pessoas cuidadoras é pouco
simpático para todos, é por meio do medo e da ameaça que o pessoal que vive na
casa de repouso, obedece cheio de pânico de fazerem mal e receber mais uma
gritada de quem deveria cuidá-los e tratá-los com simpatia, mas não conseguem.
Havia os funcionários mais novos que eram amáveis e carinhosos com os utentes.
Mas o peso do trabalho de sentar nas cadeiras conduzir ao refeitório, abrir os
iogurtes, levantar as bolachas que caem no chão, levar os utentes de volta ,
nas cadeiras de roda e sentá-los nos seus sofás respectivos é uma tarefa pesada
que dá cabo da amabilidade e do sorriso que estes funcionários tinham nos
primeiros dias de trabalho. Conseguem realizar a tarefa mas mal acabam,
refugiam-se na cozinha ou no pátio de trás para se contarem entre eles quem
tinha conseguido melhor despachar os utentes. Estes, os utentes, ficam sós na
sala de convívio a ver televisão em alto volume de som para apagar qualquer
tipo de conversas entre eles e que só leva ao desânimo, à zanga, ao se bater
uns com os outros, como crianças a lutar por um rebuçado. Comportamento que bem
podia ser evitado se houvesse entretenimento onde fixar as energias não gastas
de adultos maiores que antigamente lavravam a terra , lavavam roupa para
outros, cozinhavam para os demais, …. Não têm agora como se entreter, como
fixar seus pensamentos, como gastar suas energias, excepto gritar uns para os
outros: “cala-te, estás doido, antigamente não eras assim!” e outras mordomias
que a inatividade do dia inteiro os levam a exprimir. Não são apenas os gritos
que se tentam calar mas também as conversas que se possam iniciar entre os
utentes e que uma funcionária desactiva manda todos calar.
Em suma, os utentes são vigiados.
Lembro-me bem das conversas que eu tinha com o meu
colega de aulas Michel Foucault, na Maison des Sciences de l’Homme e no Collège
de France, Paris, que referia um livro que tinha escrito “Vigiar e Punir”
onde ele sustém que a vigilância é a forma de orientar o pensamento para aquilo
que quem vigia pretende. O título em francês é mais eloquente “Surveiller et
Punir” que é obcecadamente, insidiosamente, ver o que faz o outro para
retirar qualquer dinâmica de comportamento não adequado à calma procurada pelo
vigilante. Não é em vão que a polícia em Espanha ou em países da América Latina
são chamados “vigilantes”. Estes levem no seu pensamento o que a lei
prescreve para um comportamento socialmente adequado e assim ninguém tem a
ousadia de inventar condutas alternativas, autônomas e independentes. “Deus
nos livre” dizem os sacerdotes da igreja católica, “Deus nos valha”
costuma dizer a cozinheira do lar quando nada é feito como ela manda. A
vigilância total reside na divindade que “vigia” e “pune” o que está mal feito
pelas pessoas que interagem. Deus vê. Deus julga, Deus premeia ou retira
favores. É este o esquema básico do que Michel Foucault propõe nos seus livros,
retirados da sua observação da conduta social e da história. É isto o que os
utentes usam entre eles para adequar o comportamento do vizinho ao
comportamento por eles desejado. É o comportamento dos funcionários com os
utentes; é o comportamento dos sacerdotes que falam do inferno com os seus
fiéis ou dos políticos que usam o covid para fechar a população por anos nas
suas casas e usar o trabalho a domicílio como forma de produção.
Este comportamento alastra-se já desde a época da
Idade Média onde quem sabe se pôr em posição de mandar manda e como era nessa
época, quem não obedece é morto. Hoje em dia não se mata tão facilmente mas
estabelece-se um comportamento de vergonha e atribui-se um diagnóstico
negativo.
É o que me aconteceu com a neuróloga que devo visitar como a lei prescreve de 6 em 6 meses e que deve avaliar se ainda sou capaz de pensar, falar, articular um discurso lógico, entender a realidade. Tanto faz se eu sei ou não sei, se eu me comporto ou não como esperado de uma forma lógica, o diagnóstico está já feito nos livros e é me aplicado. Este senhor tem uma escrita compulsiva, este senhor não é capaz de planificar. Eu pergunto-me de onde foi retirado este diagnóstico? E lembro-me que antes tinha sido eu submetido a uma bateria de testes por uma outra neuróloga, simpática, bonita e querida que tinha concluído também a escrita compulsiva e a falta de planificação de vida que antes, num episódio decadente da minha vida tinha sido diagnosticado por psicólogos que me tinham examinado. Faz 12 anos que este diagnóstico foi emitido; faz 12 anos que já estava condenado ao mesmo diagnóstico por medo dos médicos de falhar na sua vigilância. Felizmente um neurólogo antigo que consultei recentemente, independente não envolvido em teorias de livros, mas ele criador duma teoria adaptada à realidade observada, disse com sorriso “sempre foi assim" referindo-se à insistência de classificar a minha escrita de compulsiva e ofereceu-se a ler este meu Diário de Vida e a escrever o seu prólogo.
Tanto pelo diagnóstico da neuróloga, tanto pelo
comportamento de funcionários e utentes reitera-se o espreitar, vigiar,
“surveiller” para punir. Punição que se manifesta por fechar velhos num lar,
encher de calmantes e comprimidos para ninguém desobedecer. Criar grilhetas
novas para os desesperados que procuram um agir adequado aos seus objetivos de
vida que é comer, descansar, amar, rir. É assim que eu penso que nós os velhos
somos atropelados, é assim que eu penso que nunca nos dão razão. Vigiar e punir
é a base da estrutura religiosa e da vida social que incute o comportamento em
que a punição final é o velho ser ignorado, encarcerado.
Professor Doutor Raul Iturra, Catedrático Emérito do
ISCTE-IUL
Texto
Editado por Claire Smith Antropóloga
Barra
Mansa, Julho de 2024







