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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Encontros com Agostinho da Silva



AS ÚLTIMAS CARTAS DO AGOSTINHO
2ª Edição

CARTA XII

Queridos Amigos

Parece que tôda a gente está de acôrdo em que o mundo inteiro se encontra em crise. Como isto me parece demasiado vasto para eu poder ser util, decidi que sou eu quem está em crise e talvez consiga sair dela com três princípios: O de me ver livre do supérfluo, o de não confundir o verbo amar com o verbo ter, o de prestar voto de obediência ao que for servir, não mandar. Nestes termos comunico a todos os Amigos que não imporei a ninguém a leitura de textos meus, a começar pelas Folhinhas , e que só responderei a quem me escreva, pedindo (para aumentar o supérfluo...) que cada carta venha com selinho de resposta, mas um apenas, para me não obrigar a escriturações administrativas. Para tudo o que fordes e fizeres rogarei perfeito empenho e boa sorte, bom vento de navegar.

Setembro de Lua Cheia e de 93. Agostinho



POETAS DE FORA EM LINGUAGEM DE DENTRO

Catulo, latino, séc. I a.C.

Amigos, êste barco que ora vedes
nos diz ter sido o mais veloz de todos;
nenhum jamais o pôde ultrapassar,
quer a remos viesse, quer à vela;
não dirão o contrário êste Adriático,
a nobre Rodes ou as ilhas Cíclades,
a hórrida Propôntida ou o Pôntio,
lá onde outrora foi só fronde em bosque.
Muitas vezes, no cume do Sitoro
os seus ramos ao vento sibilaram,
como tu sabes bem, Amastris Pôntica,
e tu Citoro de abundante bucho.
Esteve no teu cimo, em tuas águas
os remos mergulhou e trouxe o dono
por violentas vagas, quer o vento
o levasse de esquerda ou de direita,
quer o sôpro de Júpiter teimasse
sôbre uma ou outra escota, sem que nunca
prece elevasse aos deuses litorais,
desde que ele chegou de mar remoto
às tão límpidas águas deste lago.
Tudo isto foi, passou; repousa agora
e velho vai ficando. Num refúgio,
o mais calmo de todos, se consagra
a Castor gémeo do seu próprio gémeo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO DA SILVA



AS ÚLTIMAS CARTAS DO AGOSTINHO
2ª Edição

CARTA X

Meus caros

Como vos escrevo quando ainda decorre em Salvador da Bahia a Cimeira Ibero Americana, não quero deixar de vos dizer que sinto muita pena de que lá não se tenha proposto a criação de um Centro de Estudos Ibero Americanos, ou em Timor, o que seria melhor, ou em lugar apropriado das Filipinas, ou até, para sermos de todo ousados, na própria ilha da Páscoa, onde houve Indonésios, e já com especial interesse e colaboração do Chile. Mas um dia haverá.

Por agora, e pulando para os Atlânticos, o que vos participo é que não vejo grandes possibilidades de sairem depressa as Folhinhas de que se tomou compromisso, vosso e meu, para se expedirem por vossa conta. Como acima de tudo vos quero livres para todo o voo que vos apetecer ou a que sejais impelidos de dentro, peço que mo digam todos aqueles que desejam a devolução da ajuda gasta e que me autorizem a fazê-lo os que preferem que tudo seja depositado, para o que der e vier, no Fundo Dom Dinis que tem sua sede e base no Montepio Geral. Todos de acôrdo?

Crescente de Julho de 93.


                  China. Do “Livro do Tao”. Sec. III a.C.

O homem ao nascer é brando e frágil,
o torna a morte duro e rígido;
nascem árvores, ervas, brandas, frágeis,
rijas e sêcas as torna a morte.

O duro e rígido à morte levam,
o brando flectir conduz à vida.

Talvez não vença o forte exército,
mas flectirá a alta árvore.

Dureza e rigidez são inferiores,
                            superiores o ser brando e flectir.



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Encontros com Agostinho da Silva



AS ÚLTIMAS CARTAS DO AGOSTINHO
2ª Edição


CARTA IX

Companheiros e Amigos

A História de Portugal, inteligente, documentada, válida e duradoura, diz que a Nação nasceu por; se fixou por; se defendeu com pinheirais e castelos sempre por; navegou por; entristeceu e se alegrou por; finalmente acabou por. Aquela História de Portugal pela qual eu vou, História sentimental e fantasiosa, meio inventada talvez em muito ponto, garante-me logo de comêço que a Nação nasceu para, se definiu para; casou para; navegou para; desanimou para e reagiu para e acabará para. Eu me explico tanto quanto posso. Nasceu para ocupar a melhor das costas, dando naturalmente para o mar, mas sobretudo para o Oceano, que permite ia a todo o lado; para aprender a bolinar; para completar o Império Romano que soberanos e legiões tinham deixado só como esboço, com uns lambiscos de Europa e uns desembarcadouros de África e umas vagas idéas de Ásia; para universalizar Direito tirado pelos romanos da Filosofia grega, como engenharia baseada no Euclides; lógica de guerrear da de pensar.; para, depois de ouvir a Isabelinha de Aragão, projectar para o mundo inteiro o entender e adorar o Divino, de ser a criança o maior dos milagres, de não se ter de ganhar a vida, o que a amesquinha, e de não haver prisões, nem as de grades, nem sobretudo, porquanto piores, as que são de dúvidas. Têm razão os saábios, que tanto respeito, que Portugal foi por; mas insisto em pensar, sem autoridade alguma, que Portugal sempre foi, sempre é e sempre será para. Obrigando-nos a todos nós, a que sejamos para, servindo-nos para tal do que somos por. Vocês não acham?


                    Quadrinhas de quando em quando 
                         
Mas esta vai hoje mesmo
por ser aquela que fez
São João à Lua Cheia
do Junho do nove e três

“Que me baptize o Luar
e faça de mim portento
banhado sempre na Luz
de que serei instrumento.”



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO DA SILVA


As Últimas Cartas do Agostinho
2ª Edição

CARTA VIII

Amigos

Estamos ainda bem longe, talvez a séculos, de que tal suceda, mas um dia se verificará que, depois de tanto tempo, de tanta geração de colonialismos, quer os de potências europeias, quer os de força islâmica, quer os de internacionais entidades americanas, foi a África restituida a si própria pela obstinada, calma, paciente e exigente influência do Brasil e da China, com alguma velha semente ibérica deixada num ponto ou noutro do Magrebe, sobretudo, diria eu, no Marrocos ou naquela embaixada que no Cairo pensava em expedições etíopes, e com o Brasil do lado de Angola, a meditar das varandas de São Tomé, no redesenho dos mapas latinos ou germânicos da distribuição pelos novos donos da infinda pluralidade étnica daquelas novas terras, e a China das bandas de Moçambique, aí com a tarefa algum tanto facilitada, ou guiada, pela tradição do acertado império do Monomotapa. E quando diremos que a África será reentregue a si mesma?

Quando se ouvir ou se souber de algum africano que propôs acrescentos a Einstein ou reprovou Kant na língua que em pequeno falava com sua mãe, sem ter feito o esforço antibiológico de ter de se exprimir noutra língua, de preferência numa do domínio indoheuropeu. E na dita língua materna ensinando ao resto do mundo muita coisa que ainda precisa de aprender, com ligação a um correcto comportamento social e solidário. E livre. Mas qual a atitude enquanto se espera? Pois a de achar que ainda se está distante e, ao mesmo tempo, que tudo já aconteceu. O trabalho vai ser o de, sem falta alguma, que ainda está distante o que já aconteceu. Juntar a face do adquirido com a face do ambicionado. Querem um exemplo? Pois lembro o que acontecia com os Portugueses que, desrespeitando Tordesilhas e a pontifícia autoridade, iam fazendo mapa falso sôbre mapa falso, sabendo que ainda tinham muito que andar, mas, simultâneamente que já descansavam à beira do Pacífico que sempre se lhes negou. Mas o Brasil lá chegará e com inteira obediência à lei com que tôdos os Povos estejam de acôrdo. Sabeis o resumo? Ser e não ser são a chave do ser.

Minguante de Maio. Maio de 93. Ou de qualquer ano em que a tal se volte.


Página das Odes Breves


Ode Breve a Isabel
a mulher de Dom Dinis
que sendo serva de Deus
fez na terra quanto quis
trouxe logo de Aragão
um saber italiano
por ser Dom Pedro seu Pai
da Calábria soberano
aprendeu de Joaquim
que Deus também tem idade
doutros amigos que Assis
exige fidelidade
levou Afonso seu filho
que era de má catadura
a ter respeito a seu pai
a dar-lhe a ela ternura
quando via seu marido
pela praia a meditar
creio lhe inspirou Brasil
e Timor além do mar
e repartiu bem certinha
esta Ibéria que era sua
com minguantes e crescentes
como ela via na lua
morreu ela em santidade
como irmã de Santa Clara
não para lhe darem ordens
mas para ter de nós todos
uma obediência rara
e penso de quando em quando
que ela dá seu sermão
mas com humor e carinho
porque tão bem o conhece
a este incerto Agostinho

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Encontros com Agostinho


AS ÚLTIMAS CARTAS DO AGOSTINHO
2ª edição

CARTA VI

Amigos

Ao que me parece, encontra-se agora o mundo e, sobretudo, aquela Lusitânia de que é Portugal apenas uma pequena província das Europas, mas nelas essencial, num dos momentos mais importantes, mais agudos e mais interessantes que poderiam ser imaginados. Por um lado há o estrondear, a confusão do esborear-se daquele Império Romano que o cristianismo reassegurou depois dos ataques bárbaros e que ao globo foi em caravelas e naus, tôdas mais ou menos oriundas, em facto ou em inspiração, do pinheiral de Leiria, e que vinha, no fundamental, daquele tornar prática pública, no que se podia entender com maior facilidade, a teoria grega, no direito a partir da filosofia, na engenharia de pontes e calçadas a partir de Euclides, na geometria, mas não na física, que era errada, e na penetrante, universal lógica que deu, nas legiões, seu fruto mais perfeito. Ruina também do dealbar daquele Império do Espírito Santo ou do Divino, obra essencial da Rainha Isabel, que foi pena não ter navegado, como missionário, do XIV ao XVI, mas que, graças à expulsão de Portugal de tanto adepto seu, vai mesmo, geneticamente, navegar agora, com o empreendimento em que pensa o Brasil duma Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, e seus crioulos, filhos, por seu turno, do crioulo que o Português foi do latim, tudo afinal neto do mais vasto Indo-Europeu. O que vai haver, sem velas, excepto as desportivas, mas por aeroportos e por Faxes, é a integração dum pensamento como o de Lao-tsu, se dele é, com o do que podem inventar os mais renitentes xiitas, que os há em todas as religiões e filosofias. O que houve no Portugal da Alta Idade Média, foi apenas um avisar de sol, logo obscurecido, depois de Aljubarrota, por estar no trono o Dom João das saudades de Londres, mas que vai subir com seu calmo e forte esplendor, todo fruto de fé, que significa confiança, e de crença, que tem que ver com o coração; pelo passado transferido ao futuro, portanto eterno; pelo reinado da criança e o sumir de tôdas as prisões, quer as que há dentro de nós quer as que pululam à nossa volta. Reinado da criança e sacralização dos animais e de tudo o resto. O que temos de ter conosco é um sentido de ordem não opressiva que impeça o caos e ondas de imaginação a saudar o que ainda não veio, com uma China cada vez mais para o concreto, um Brasil todo virado ao sonho, e, no meio, uma África que nos ensine a todos, já que índio enfraqueceu por tanto século de luta. E tôda a atenção a cada notícia de aurora, talvez alguma ainda apanhada por estas vossas Folhinhas.

Lua Nova (face virada ao Sol) dêste abril de 93.



                   Buda hostil a Luis de Camões!?        


“Erros meus, má Fortuna, Amor ardente

em minha perdição se conjuraram,

os Erros e Fortuna sobejaram

que para mim bastava Amor somente."




“Se para ti bastava Amor somente
amor em mim não chega para nada
pois preciso inventar o que hei-de amar
pensando que é a vida que o inventa
já que juntos nós vamos percorrendo
um tempo que também é irreal
o não ser do que é tudo a mim me anima
me recria no espaço que não há
não haver nada é tudo por que anseio
para me erguer não sendo e reteimar
que verdadeiro amor é mesmo amar
pois que nunca a ninguém apraz não ser.”



Pois resumo mais simples e com alguma pontuação, Amigo Buda:


Mesmo convictos de que não há nada,
jamais se perca em nós o dom de amar.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Encontros com Agostinho


AS ÚLTIMAS CARTAS DO AGOSTINHO
2ª edição



CARTA IV

Meus Amigos

Devo dizer-vos, com toda a franqueza possíveis, que, ao contrário do que às vezes se julga, nunca pensei nada de completo, de coerente e de algum futuro, senão depois de ter reencontrado, por Jaime Cortesão e António Quadros, o chamado Culto Popular do Espírito Santo ou Culto do Divino. O que, para mim, não exclui, e por isso empreguei o reencontrar, que tenha eu próprio andado no tal século XIII, e marítimo de Algarve, pastor do Alentejo, ou já aburguesado no Pôrto, envôlto com os outros na Festa do dia de Pentecostes em que sonhava o povo português sentir-se já num Paraiso a vir, e até num Paraiso mais seguro, porquanto sem tentações. Ou então a celebrar o Culto noutros tempos mais próximos, e noutros lugares, porque houve Brasil, com os que fugiam de Portugal, e houve América do Norte, com os emigrantes, o que me leva agora a desejar que tenha o Presidente Itamar, o tão de Minas Gerais, algum pensamento de lembrança, e, por muito diferente que seja a linguagem, sejam fieis ao mesmo anseio, os de uma Presidência Casada, Bill Clinton e Dona Hilária. Ou que mais longe, pelo menos em espaço, quem sabe se na China de Deng Xaoping, se esteja avançando para a junção de duas faces, ambas visiveis e tocaveis, de um corpo perpetuamente misterioso, existente e inexistente, uma face de economia e uma face de teologia, místicas e talvez matematizaveis as duas, mas sempre com nítidos e gerais efeitos práticos. Pôsto isto assim, e acreditando num Universo sacralizavel ou de que se descobriria o Sagrado, na possibilidade de uma vida gratuita, numa defesa e desenvolvimento contínuos do Poeta que nasce em cada Criança e numa desejavel inteira liberdade de cada ser, o melhor é não o andarmos pregando, mas o pormos em prática. Como felizmente o posso fazer não ficarei com direitos de autor das Folhinhas, como não tenho ficado com os de outras publicações. São de todos os Amigos, as reproduzirão como queiram. Os tais quinhentos escudos serão só para o material e portes de quem as queira receber em casa. Sempre com muita pena de a correspondência ainda não ser gratuita. Mas, um dia, lá chegarão os CTT.

Lua Cheia de 8.3.93



P Á G I N A  D A S  O D E S  B R E V E S

Ode breve a Mestre Sócrates
filósofo das esquinas
enquanto os grandes senhores
preferiam salas finas

era de família humilde
e decerto obediente
mais encarreirada à lógica
que treinada em dar ao dente

guerreiro foi e gostando
de muita espécie de luta
e para subir ao céu
fez escada da cicuta

o que viu como verdade
sempre a todos ensinou
mas por fim com suas manhas
a política o matou

lá está lá estará
sempre só mas não sozinho
e livre de ordenar verso
ao servidor Agostinho

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Encontros com Agostinho



AS ÚLTIMAS CARTAS DO AGOSTINHO
2ª Edição


CARTA II

Queridos Amigos

O imaginário Convento Sonho duns Irmãos Servidores me encarrega de vos comunicar que acaba de tomar posse de tudo quanto há e me designa como seu agente junto de vós para tudo que se refira a estas folhinhas dactilografadas, que serão sempre mensagem do Convento, assinadas ou não. Não terão periodicidade marcada, saindo quando calhe ou seja necessário para esta ou aquela tarefa. Ou por descargo de consciência.
São enviadas a tôdas as pessoas que já declararam por palavras ou feitos que desejam recebê-las ou o declarem daqui por diante. Por enquanto vão sem encargos para os destinatários, alguém os tomará sobre si, mas é possível que, daqui por mais uns tempos se tenha gôsto em mandar ou receber selos, papel, ou o que se aplique em material ou portes.
Também lembrou um Amigo que fica cada um inteiramente autorizado (e incitado ?) a enviar cópias das folhinhas a conhecidos seus; ou a inimigos, para os aborrecer com a leitura.
Por mim, e obedecendo inteiramente às ordens de meu Superior, fico também, e por completo, a vosso dispor, só não garantindo resposta a tôda a correspondência que possa receber, ou trabalhos para opinar (e aqui porque me não julgo competente).
Com os votos de tôda a possível acção vossa e de tôda a vossa capacidade de sonho,  Agostinho.

   Lua Cheia de 8.1.93


Esta Ode Breve aos Reis
que se afastavam dos povos
a ver se um dia lavravam
alguns decretos mais novos
até agora era só
o de mandar isto aquilo
ansiosos de encontrar
algum guia e de segui-lo
e fartos já de cumprir
o pesado verbo ter
a ver quem os ajudava
a conjugar o de ser
por fim numa estrebaria
viram um dia um menino
que acompanhado duns bichos
sorria de jeito fino
para pastor que cantava
para uma linda pastora
que estava perto dum velho
e junto de uma senhora
ao mesmo tempo há silêncio
que som algum jamais corta
o ser e não ser se ligam
(*) todos os transporta
tão lento como os camelos
em que soberanos montam
para ir ao sítio nenhum
em que as auroras despontam
não sabem a certa altura
se sonharam ou se viram
mas o certo é que ao lugar
donde vieram retiram
e tudo contam sem fala
a mundo que era maninho
mostrando o que é ser não sendo
ao servidor Agostinho. 

(*)falta uma palavra que, a partir do original, não foi possível decifrar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO

NAMORANDO O AMANHÃ
(2ª. Edição)


8. E MUITO OBRIGADO POR ESTE VOSSO PRESENTE


         Este nosso encontro não é, portanto, um encontro de realizações.

         É um encontro de promessas de parte a parte.

         A minha promessa de vir aqui e vos contar o que está sucedendo nesse trabalho de criar uma fundação, ou de sacudir as outras fundações para que elas trabalhem em conjunto.

         E por outro lado, da vossa parte, para vir saber qual é a vossa opinião sobre o que se vai fazendo. Vos dizer exactamente o que está sendo para que cada um possa decidir se acha que a coisa está sendo bem ou merece haver qualquer censura, qualquer crítica, ou ainda se deve apresentar qualquer sugestão para que possamos melhorar a nossa actividade.

         Nos vamos encontrar, como vos disse, mais vezes, para vos vir fazer como que o relato do que houver.

         Apenas ainda conseguimos registar o nome, já levou um certo tempo, estamos agora fazendo os estatutos e o advogado –exactamente a pessoa que veio ter comigo com a mesma ideia de fundação- o advogado que se encarregou de redigir os estatutos, no fundo está procurando que não saiam apenas dele; está falando a vários colegas para que cada um dê a sua opinião e a coisa seja uma obra de conjunto, o que me parece plenamente acertado. Então ele espera que se não demore muito tempo para que depois vamos ver s outra função, a de procurar o suficiente para que ela dentro de algum tempo comece a trabalhar e eu aqui voltarei para lhes fazer o relatório daquilo que se for realizando.

         Não só da “Fundação Mensagem” porque de fora apareceu uma outra ideia interessantíssima.

         A ideia de que houvesse uma coisa que não fosse a “Fundação Mensagem”, mas uma associação dos amigos da “Mensagem” que exige de cada um muito menor responsabilidade do que fazer parte de uma fundação, mas dá a cada um o direito e o dever de perguntar o que é que se está fazendo e da própria fundação que coisa se está realizando. E na medida em que puder auxiliar também a que os esforços se multipliquem e possam ser vitoriosos na conquista daquilo a que se dirigem e que é, fundamentalmente, a liberdade de cada um.

         Muito obrigado pois pelo vosso convite. Muito obrigado por me terem trazido até aqui e muito obrigado se tiverem, no futuro, a paciência de me aturar.
FIM

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO

NAMORANDO O AMANHÃ
(2ª. Edição)
7. RECADINHOS PARA OS PORTUGESES

       É preciso que antes de tudo, Portugal cuide de si próprio; que não se ponha com ideias de passar para aqui e acolá, sem cuidar primeiro da sua terra. Que tomemos, todos nós, o exemplo que tiveram aqueles que construíram Portugal. Assim como eles tiveram que construir Portugal como se fosse um cais à beira da Europa, donde podiam partir os navios, assim nós agora temos que reconstruir Portugal para que os novos navios, desta vez aviões, ou desta vez nós nem voamos, apenas o nosso sonho e a nossa vontade possa levar a navegações muito mais importantes do que aquelas que se fizeram no passado, muitíssimo mais importantes. As outras foram apenas para descobrir novas culturas e foram para descobrir novas terras. Nós agora, as navegações que vamos fazer serão para levar a todo o mundo aquilo que é fundamental na cultura portuguesa.

         É preciso que a economia não seja mais o que tem sido até agora, uma economia de caça e uma economia de guerra. É preciso que seja uma economia de convivência.

         E é preciso que os governos não sejam para mandar às populações fazer aquilo que lhes agrada a eles mas, pelo contrário, para perguntarem às populações de que coisas é que eles têm mais vontade, mais desejo, e conseguir harmonizar todas as vontades de tal maneira que tenham recursos suficientes para que isso realmente possa existir, possa realizar-se no mundo.

         E finalmente que as crianças se possam educar em liberdade na vida, correndo àquilo que gostam e aprendendo aquilo que prefiram.

         E ainda mais uma coisa que para os portugueses foi fundamental que é o de poder olhar a vida, não com a ideia que já viveram todos aqueles dias, como hoje sucede a tanta gente que se levanta da cama para fazer nesse dia que alvorece a mesma coisa que fizeram na véspera e já estão achando que a coisa é realmente insuportável, já estão tendo aquilo que eu chamo que é o destino da Europa e Portugal, com todo o cuidado, não caia na mesma coisa; porque o destino de todo o europeu que se mete na cama é de acordar na véspera, não é no dia seguinte, ele acorda na véspera para fazer de novo aquilo que já tinha feito anteriormente.

         E é preciso que não vamos cair disso. É preciso que nós, pouco a pouco, com vontade, com atenção a tudo quanto há, vamos tentando modificar a cada passo as coisas.

         E ao que parece, não é legislando para todo o país que nós conseguimos resolver o problema.

         Deixemos os governos legislarem para todo o país. Provavelmente, estão fazendo, no meio de tudo, alguma coisa de bom.

         Mas é preciso que nós vamos em pequenos grupos, como estamos aqui, organizando a vida naquilo que podermos na nossa própria terra, limando aquilo que seja mais áspero, tentando realizar uma vida que se não totalmente para nós, pelo menos sirva para os mais novos.

         Viemos à bocado, durante a viagem, conversando sobre o que é terrível haver tanta criança que, porque os pais têm que trabalhar deste ou daquele modo, estão como que abandonadas na vida.


         Eles não tiveram e não têm aquilo que é importante para a criança ter que é a experiência dos mais velhos e a companhia, nos momentos difíceis da sua vida, como é, por exemplo, a ida para a escola. A quase toda a criança custa muito passar a ir à escola e quando mudam de escola, exactamente a mesma coisa. E ao passo que dantes, por condições de vida, elas tinham sempre algum apoio em casa, hoje, na maior parte das vezes, elas estão como que sozinhas na vida, só raramente vendo os pais.

         E vendo nas terras como é que nós, a pouco e pouco, poderemos ir mudando esse ambiente e levando até aqueles que têm o poder a fazerem alguma coisa que vá nesse sentido e que ajude, por que entenderam o que é preciso, aquilo que as populações querem.

         Neste momento, eu não estou nadinha interessado, vamos dizer, no geral de Portugal, ou no geral da cultura portuguesa. Estou interessado a ver o que se pode fazer em cada momento.

         E nem imaginam o gosto que foi para mim receber o vosso convite. Que não viria por minha iniciativa a Alhos Vedros, coisa nenhuma, deixaria, como nas outras coisas que a vida desse o seu sinal. Ela deu o sinal.

         E aqui estou pronto a voltar aqui, muitas vezes, para vos dizer o que se vai fazendo nesse adiantar e na tal fundação “Mensagem”.

         Que não creio que ela possa resolver os problemas sozinha. Claro está, são muito mais graves e poderosos do que quaisquer recursos que nós possamos conseguir.

         Tenho uma outra ambição.

         Há outras fundações já em Portugal. Vamos a ver se é possível um dia coordenar o trabalho dessas fundações todas de maneira que não se gaste o dinheiro todo numa só coisa que está toda velha, ficando outras coisas sem recursos, mas sim repartindo as possibilidades que houver pelas necessidades que vierem a surgir.

         E talvez uma outra coisa ainda.

         Eu digo que há uma fundação muito mais importante do que aquelas todas a que nós conhecemos o nome, a Fundação Gulbenkian, ou a Fundação Oriente, a Fundação António Almeida, no Porto, ou a Fundação Eugénio de Almeida, de Évora.

         Sabeis qual é essa fundação?

         É aquela que foi criada por Afonso Henriques.

         Portugal, para mim, é ao mesmo tempo e sobretudo, a Fundação Afonso Henriques.

         Não quero saber, de maneira nenhuma, de que política é ou não é determinado governo, exactamente como quando vou à Gulbenkian, ou a outra fundação para apresentar um projecto e para ver se eles dão os meios necessários para o realizar, eu não pergunto a quem me atende se ele é deste partido ou de outro partido. Eu apenas quero que ele estude o projecto que lhe dei e que me diga, se segundo os regulamentos internos da fundação que eu não quero, de maneira nenhuma, alterar, a coisa pode ser satisfeita ou não.

         Eu então quando vejo projectos destes, vossos ou de qualquer outra localidade, para que nós não tenhamos recursos, tenha que procurar recursos, depois de procurar nas outras fundações que existem, estou pronto a dirigir-me à tal Fundação Afonso Henriques a apresentar o projecto e ver se aquele conselho de administração que politicamente é o Governo, está ou não está disposto a conceder um recurso e a facilidade suficiente para que essa coisa se realize.
(continua)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO

NAMORANDO O AMANHÃ
(2ª. Edição)

6. BRASIL, EXEMPLO DE MUNDO E OBRA PORTUGUESA

Meus amigos, quando os portugueses chegaram ao Brasil já havia um tratado que se chamava o Tratado de Tordesilhas que marcava uma linha, a partir da qual o Brasil era todo praticamente dos espanhóis e havia umas tirinhas de Brasil para o lado dos portugueses.

O português desembarcou e coitados dos espanhóis. Estavam seguros de que o português ia respeitar a linha.

E eu costumo contar a seguinte história.

A primeira vez que um português dormiu no Brasil, olhou para os lados e quando viu que toda a gente estava a dormir e ninguém dava por nada, foi com todo o cuidado, pegou no meridiano de Tordesilhas e pôs um bocadinho mais para lá..

Foi andando assim ano após ano.

Meus amigos, levou duzentos e cinquenta anos a carregar o meridiano aos bocados.

E quando achou que já era de mais que os espanhóis, apesar de não entenderem nada da ciência dos portugueses e de julgarem que os portugueses eram como o ambiente deles e ficavam quietos, quando viram que já era de mais, então resolveram falar aos espanhóis e dizer-lhes:

“-Até agora temos feito uns mapas que não eram exactos, sabem? A gente não sabia bem como eram as coisas, mas agora chegamos a um ponto em que já sabemos como é que é. E vamos ver se então fazemos um acordo entre nós. Há uns territórios que são indispensáveis a vocês espanhóis, há uns territórios que são muito úteis para nós e o melhor é trocarmos uns com os outros e ficarmos todos em boa paz.”

E os espanhóis disseram:

“-Óptimo!”

“-Então aí vai o mapa.” –Mandaram para o Rei. “-Para Vossa Majestade ver como é que é, se concorda ou não.”

E mandaram o mapa.

E como tinham pouca confiança que o Rei espanhol entendesse o que era o mapa e visse o que era para um lado e para o outro, eles puseram um fio no meio do mapa, a marcar aquilo que davam aos espanhóis e aquilo que dos espanhóis queriam receber.

O Rei olhou para o mapa e naturalmente disse para a mulher:

“-Menina!... Que gente generosa são estes portugueses. Olha o que eles nos dão e olha o bocadinho que eles querem para eles.”

E assinou o Tratado que se chamou Tratado de Madrid, em 1750, duzentos e cinquenta nos depois de Cabral ter abordado o Brasil.

O mapa era falso.

O mapa tinha inchado extraordinariamente as terras que os portugueses davam aos espanhóis e Mato Grosso que é do tamanho de Angola e Goiás que tem mais de dois mil quilómetros de Norte a Sul, eram umas tirinhas de terra que estavam ali em frente da América espanhola.

E foi assim que o Brasil tem o território que é hoje.

O Brasil foi a maior coisa que se fez no mundo que é a receita para todo o mundo se entender.

Eles ali juntaram, uns por cima, outros de qualquer maneira, eles ali juntaram o quê?

Os portugueses juntaram o Oriente que já lá estava –todos aqueles índios tinham vindo da Ásia. Numa altura em que no mundo houve grande frio, a água gelava, não caía em chuva, o nível do mar desceu e era possível passar por terra, sempre da Ásia para a América do Norte. Aquela gente foi descendo, quarenta mil depois de terem iniciado a marcha, eles chegavam ao Brasil mas eram parentes dos chineses e japoneses, eram, portanto, gente do Oriente- depois chegaram os portugueses e atrás dos portugueses muitos outros europeus que foram representar o continente, digamos, dos brancos e depois como era preciso gente para trabalhar a terra, os portugueses foram e trouxeram os africanos, contra a vontade deles, trouxeram para o Brasil e juntaram ali a África.

Então o Brasil é fundamentalmente o primeiro país do mundo, imaginado pelos portugueses e pelos portugueses realizado, para reunir gente dos três grandes continentes do mundo, da Ásia, da Europa e da África, povoando a América em que só havia, naturalmente, esse do Oriente que eram os índios.

E que vai suceder no futuro?

Meus amigos, vamos olhar o que é a Europa.

Hoje diz-se, Portugal está integrado na Europa.

Então vamos supor que amanhã, um de nós, feiticeiro, sujeito extraordinário no mundo, podia cercar a Europa com um muro e dizer:

“-Portugal fica do lado de cá do muro à espera de criar uma boa porta para entrar na Europa.”

Não podia demorar muito, porque hoje sabe-se que daqui a quinhentos anos, se ninguém entrar na Europa, se ficarem só aqueles que lá estão, como não nascem meninos, não vai haver mais europeus. Os meninos não estão nascendo na Europa. Como se costuma dizer, a natalidade é negativa.

Os que lá estão estão envelhecendo cada vez mais, daqui a pouco morre tudo, não nasce mais ninguém e eu até às vezes digo que deviam começar a fazer ao lado do jardim zoológico, em Sete Rios, um jardim para ter os restos dos alemães e ingleses para as crianças poderem estudar.

Bom, felizmente não vai suceder nada disso. O que vai suceder é que vai imigrar muita gente para a Europa.

E que gente vai emigrar?

Vão emigrar latino-americanos, aqueles que os portugueses fizeram no Brasil e os espanhóis fizeram na América espanhola; vão emigrar, já estão emigrando, muitos africanos, do Norte de África e do resto de África e vai correr muita gente chinesa do Oriente.

Então podemos dizer, amanhã que vai ser a Europa?

Vai ser um novo Brasil.

Não a falar só português. Vai falar várias línguas e depois se vê quais são as línguas que vão ficar mais usadas por tofda aquela gente.

Mas é outra vez gente de todos os continentes, gente de todas as culturas, gente de todas as cores que se vai juntar ali e fazer alguma coisa nova que é uma nova Europa, ajudá-la a fazer-se por aquilo que os portugueses e de algum modo os espanhóis criaram no mundo.

Mas a Europa é uma terra que sempre tem procurado espalhar-se pelo mundo.

Amanhã vai espalhar-se.

Então a ideia que podemos ter do mundo é que, amanhã o mundo, em toda a parte haverá gente de várias culturas e haverá gente de várias raças, quer dizer, o mundo, um dia, vai ser todo ele, aquilo que este pequeno povo sonhou para o Brasil.

E essa ponte se vai fazer do modo que eu quiser.

Com uma condição. A tal condição de fazermos da estrada que existe com buracos, uma pista da qual se vai levantar voo para todos os lados.
(continua)

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO

NAMORANDO O AMANHÃ
(2ª. Edição)
5. CEPA DE GENTE CORAJOSA QUE AINDA DÁ FRUTO
Quando ele saía, eu disse:
“-Anda cá. Nós agora vamos atravessar a baixa da cidade que é a área dos bancos e das grandes empresas etc, e depois é que vamos ao castelo de São Jorge. E eu queria que você fizesse uma coisa. Quando vir na rua alguém com uma cara semelhante àquela que têm os homens dos painéis, você me diz, olha, ali vai um.”
Bom, o nosso amigo, como eu esperava, atravessou a baixa silencioso, porque ali, a maior parte das pessoas que andam metidas naquela máquina terrível de ganhar dinheiro e de fazer mais dinheiro em cima de dinheiro, têm uma cara coitados, como podem, não é? Uma cara de qualquer maneira e não aquela que deviam ter. Uma cara que agrade ao patrão, uma cara que agrade à empresa, uma cara que agrade àquele e quem eles vão distribuir impressos ou caixinhas da morte, a fregueses, etc, e não ter a cara própria que gostariam de ter. Então, efectivamente, ele atravessou aquilo sem falar.
Chegámos ao castelo de São Jorge, eu lhe mostrei a linha geral da cidade, ele gozou também e depois eu disse:
“-Já que estamos aqui, vamos ali às Portas do Sol e vamos descer por uma escada, de que eu gosto muito, para chegarmos a Alfama.”
E disse-lhe:
“-É pena ser Domingo, sabe? Porque assim, em Alfama, todas as tabernas devem estar fechadas, nós não podemos ir, como devíamos, a uma taberna.”
E tivemos muita sorte, porque sendo Domingo estando tudo fechado, havia uma taberna aberta.
Eu disse:
“-Você já não sai daqui sem beber vinho e comer pão ou um frito qualquer que lhe agrade para você saber exactamente o que é Alfama.”
Sentamos para comer, daí a pouco tempo toca.
Diz assim:
“-Ali está um com aquelas caras.”
-Ah sim, em Alfama claro, claro, claro… E noutras aldeias de Lisboa você também encontraria. Eu é que o desafiei a encontrar isso na Rua do Ouro. E aí, meu querido amigo, eu estava pronto a perder uma fortuna se você apostasse ao contrário.”
Ia ganhá-la que era o que eu faria, não é?
Efectivamente houve transformações na vida portuguesa e as pessoas que vão vendo as caras que desfilam pela Rua do Ouro, pensam que Portugal, coitado, não presta para nada. Os outros sim, foram os navegadores, foram os descobridores, foram os guerreiros.
E eu digo.
Meu caro amigo, para passar os Pirenéus a salto, no Inverno, na neve, para chegar à Suécia e fazer trabalho na Suécia ou na Suíça que ainda é pior, os portugueses tiveram essa coragem. Saíram de Portugal que lhes não oferecia nada que os pudesse prender, pelo contrário, os privava de tanta coisa, foram para a neve, morreram na neve; abandonados, passaram esses países de que não sabiam as línguas e as aprenderam e se tornaram indispensáveis e para isso foi precisa muita mais coragem do que para ir à China ou tomar a cidade de Malaca. Aqui eram as obras e o que eles fizeram durou meses e meses de angústia, de dureza, de suplício e eles aguentaram.
O que acontece é que não houve até agora, nestes tempos modernos, nenhum projecto pelo qual o português se apaixonasse.
O português não se pode apaixonar por qualquer coisa como se apaixona um alemão ou se apaixona um inglês. O português é de mais qualidade, só se apaixona por aquilo que vale realmente a pena.
E ao passo que os outros andavam apaixonados, na altura em que os portugueses foram para o mar, em trocar umas mercadoriazinhas da Holanda para a Inglaterra ou da Inglaterra para o Báltico, os portugueses não, só se apaixonaram por aquele projecto grandioso que toda a gente julgava impossível que eles realizassem e depois foram realizar outro de que a Comissão das Navegações nunca se lembra. Foram navegar para o Brasil, por terra.
(continua)





sexta-feira, 5 de agosto de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO

NAMORANDO O AMANHÃ
(2ª. Edição)


4. SOBRE UMA COSMOVISÃO LUSÍADA



Sabeis o que ele queria nesse dia?
Ele queria que todas as crianças fossem de tal modo livres e desenvolvidas que pudessem dirigir o mundo pela sua inteligência, pela sua imaginação, não propriamente por saberem aritmética ou por saberem ortografia, mas porque eram eles próprios, porque eram os pequenos, as crianças que deviam dar ao mundo e aos homens, o exemplo do que devia ser a vida.
E em segundo lugar eles diziam que a vida devia ser gratuita que ninguém tinha que pagar para viver e trabalhar para viver. Que tendo a vida sido dada de graça, era inteiramente absurdo, inteiramente tolo, passar o resto da vida a ganhá-la.
“-Ela não foi dada de graça? Devia continuar a ser de graça.”
E eles então achavam isso que a vida ia ser de graça para toda a gente.
E ainda uma última coisa extremamente importante. Iam à cadeia da terra e abriam as portas de par em par para que todos os presos saíssem, para que ninguém mais passasse a vida amuralhado e encerrado entre grades; que viesse para a vida e na vida se retemperasse e na vida renascesse para ser aquilo que devia ser.
Era uma espécie de anistia, talvez.
Mas era uma anistia que não tinha uma coisa que hoje as anistias têm.
É porque se abrem as portas aos presos nas cadeias e depois se tornam a fechar para eles não entrarem, quando afinal, quando vêm para a vida, eles encontram muitas vezes condições de habitação, de comida, etc, muito piores do que as que tinham na cadeia.
Uma anistia completa seria aquela que soltasse os presos que quisessem sair e mantivesse as portas da cadeia abertas àqueles que não encontrassem acolhimento fora e tornassem a esperar que lhes servisse na vida alguma coisa que efectivamente os levasse a ser mais do aquilo que era até ali.
Mas quando uma nação tira um retrato e apresenta um texto para nós lermos e concluirmos, eu acho, aquela gente traçou todo o caminho para o futuro.
Nós, hoje, queremos a mesma coisa.
Não queremos que a criança vá à escola para aprender a aritmética ou qualquer outra coisa e fique no fim com a cabeça mais pequena do que aquilo que tinha.
Claro! Não é para isso.
Haviam uns índios perto do Brasil, na fronteira entre o Brasil e a América espanhola que tinham a mania de quando a criança nascia achavam que ela trazia uma cabeça que não era para usar em público, sabe?
E então punham umas tábuas laterais, uma tábua à frente e outra atrás para a criança ter uma cabeça o mais possível cúbica.
“-Que nós hoje, na maior parte das escolas, o que fazemos é criar cabeças cúbicas. E nós como perdemos essa mania do cúbico, o que dizemos é que a maior parte das vezes, a pessoa sai da escola sendo uma besta quadrada.”
Bem, então as coisas foram desse ponto. O meu amigo olhou aqueles painéis com grande gosto e a face daquela gente voluntariosa, cheia de ânimo, disposta a dar tudo para fazer da terra em que habitavam uma terra que fosse exemplo de mundo.

(continua)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO

NAMORANDO O AMANHÃ


(2ª. Edição)




3. NOBRE POVO NAÇÃO VALENTE



Então o que é que eu fiz?
Falei com um amigo.
Ou antes, eu falei, primeiro, comigo próprio.
Não gosto de fazer coisa nenhuma que não me seja trazida pela própria vida.
Por exemplo, eu não tomaria nunca o caminho de vir a Alhos Vedros, como antes da partida para o Brasil, nunca tomei, por iniciativa minha, o caminho do Barreiro ou de outras populações a que ia –como tanta outra gente ia- conversar com as pessoas que era a única maneira na época de estar realmente vivo.
Mas um dia um amigo veio ter comigo e me disse:
“-Você sabe que eu estou pensando uma coisa?”
“-Então o que é?” –Perguntei eu.
E ele disse:
“-Meu querido amigo, você mês está trazendo aquilo que precisava.”
A vida veio ter comigo e me desafia a que eu faça aquilo que eu sei.
“-Você não quer trabalhar comigo?”
Estamos trabalhando os dois.
Já conseguimos registar o nome da fundação. Que nome lhe demos? Chamamos-lhe “Mensagem”.
Há um livro célebre de Fernando Pessoa, “Mensagem” que toda a gente cita, que muita gente leu e que é o quê? É um livro em que o Fernando Pessoa diz o que pensa que Portugal foi quando fez as suas grandes proezas de construir este país e de navegar pelo mar que navegou.
Então nós pensamos que devíamos ter uma mensagem não para o passado mas para o futuro.
Uma mensagem que não fosse apenas escrita, pensada, belamente diversificada como é a de Fernando Pessoa, mas que fosse coisa, fosse de facto, de chegar a um lugar e ver como as crianças estavam plenamente na vida; como realmente aquela terra, por mais pequena que fosse a aldeia, estava tendo uma vida económica certa.
Era essa a mensagem que queríamos, não só para Portugal, mas para todo o mundo, se ela tivesse força suficiente para chegar a todo o mundo.
E que mais uma vez se visse no mundo que o português não é nenhum povo mesquinho acantonado numa tirinha da Península Ibérica mas, pelo contrário, aquele povo que no mundo mais fez para que o mundo que houve até agora existisse e que mais pode fazer para que exista outro mundo que é esse outro completo.
Foi Portugal, foram os marinheiros portugueses, quasi todos analfabetos, foram eles que obrigaram a Europa a meter-se em ciência nova que produziu tudo o que é técnica e que é a ciência de hoje.
Foram eles que mostraram à Europa o que era o resto do mundo. Foram os navios portugueses que andaram transportando de um lado para o outro do mundo as culturas diferentes, os homens diferentes, os animais diferentes, as árvores diferentes. Nunca ninguém fez tais coisas no mundo se não os marinheiros portugueses.
Marinheiros, como dizia, analfabetos, mas que estavam tão atentos à vida, tão interessados na vida, tão educados pela vida que realmente puderam dar vida mesmo àquele que parecia distante e morto.
E eu digo que depois de nos inventarem o próprio Portugal, inventaram o mar.
Muita gente decidira descobrir o mar. Pois é. Mas quando se diz que um cientista descobriu isto ou inventou aquilo, a pessoa fica muito hesitante sempre em dizer se descobriu ou se inventou.
Então vamos pôr, exageradamente, eu digo, vamos pôr que os portugueses inventaram o país e depois inventaram o mar, não é?
E toda a gente, tal foi a força dessa invenção, acabou por achar que sempre tinha havido, que os portugueses não inventaram nada, apenas tinham descoberto aquele país e descoberto aquele mar.
Tanto me faz que se diga uma coisa como se diga outra.
O que eu digo é que Portugal ainda não acabou a sua tarefa.
E quando as pessoas vêm e me dizem assim:
“-O que é que o senhor julga? O português, nesse tempo, foi exactamente assim. Mas agora?”
E eu conto duas histórias, ou antes, uma história e depois uma invenção.
A história é a seguinte:
Tenho um amigo meu, arquitecto de São Paulo, um grande arquitecto da Universidade de São Paulo que me disse:
“-Eu tenho apenas uma hora para estar em Lisboa. O que é que o senhor me aconselha que eu veja?”
E eu digo:
“-Duas coisas. Vamos ao Museu das Janelas Verdes para ver aquilo que se chama os painéis do Infante –se é do Infante ou não, não se sabe, mas enfim, supondo que é do Infante, os painéis de São Vicente ou os painéis das Janelas Verdes, como eu gosto mais de dizer- vamos ver aqueles painéis e depois disso saímos e vamos por aí fora até ao castelo de São Jorge.”
Como ele se interessava pelos problemas da cidade, da arquitectura da cidade, do traçado das ruas etc…
“-Vamos lá porque de lá de cima temos uma certa vista de Lisboa e o senhor vai entender como se formou Lisboa e até como se está deformando, como se está transformando numa coisa bem inferior a muitas que já foi.”
E fomos às Janelas Verdes.
E esse meu amigo que é um arquitecto e um grande apreciador de artistas fartou-se de tirar fotografias dos painéis.
Como sabem, os painéis são uma coisa única que há no mundo, porque nunca uma nação inteira foi tirar o retrato.
Um dia, vou vos trazer para aqui uma reprodução dos painéis e vamos ver esse retrato extraordinário que os portugueses tiraram no fim do século XV. Com todas as classes. Ali há o povo pescador, ali há um frade branco, chamado de São Bernardo, ali há o nobre, ali há o guerreiro, ali há gente que sabia coisas que lia livros, aqueles que estavam dispostos a ensinar a outros aquilo que os outros ignoravam.
E toda aquela gente está com uma visão e com uma face de respeito, de força, de saúde, de vontade e ao mesmo tempo, não entendendo bem que mudança ia haver.
Vão tirar o retrato enquanto é tempo e enquanto a vida lhes corre daquela maneira e têm alguém que eles apresentaram com um livro virado para o povo.
E nós dizemos, se uma família for tirar um retrato a um fotógrafo, for com um livro virado para o público, que naturalmente que vamos ler aquele livro e tiremos conclusões.
O livro tem a parte da missa que se diz no dia em que se celebra o Espírito Santo. E o dia em que se celebra o Espírito Santo era o dia em que o povo português dizia aquilo que queria.
(continua)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO



NAMORANDO O AMANHÃ

(2ª. Edição)


2. OLHA, AQUI TEMOS UM CAMINHO


E queridos amigos, neste ponto há uma coisa de que estou convencido.
É que quando as resoluções vêm de cima, quando é para o geral de um país, elas vão ser pouco adequadas aqui e acolá. Há sempre alguma coisa a que o realizador não pode atender que não pode encontrar, aquilo que é pormenor deste ou daquele lugar.
De maneira que ao mesmo tempo que haja essa legislação geral, é preciso que haja uma vontade local –quase diria particular- que atenda ao problema da terra com cuidado.
E tendo a certa altura visto este problema com clareza, eu pensei o que era possível da minha parte fazer nisso.
Se eu fosse rico, não havia –eu quando digo ser rico, quero ter à minha disposição todo o dinheiro do mundo, porque se não falta sempre alguma coisa- então, se eu fosse rico, naturalmente eu, directamente ou por amigos, companheiros, chegava a algum lugar e dizendo: “-Qual é o problema económico desta terra?” e as pessoas eram capazes de me dizer, o problema é na agricultura, ou na indústria, nisto ou naquilo, qualquer ponto. Como este acto se resolve?
E eu não adiantaria nenhuma espécie de remédio. Eu deixaria que as pessoas me dissessem como acham que podiam resolver.
E quando elas tivessem um plano bem firme, eu então poderia chamar amigos economistas, ou amigos da agronomia, ou de qualquer outro assunto em que se tivesse tocado naquela conversa, para eles virem dizer quais os inconvenientes ou convenientes que haviam na solução marcada pelas pessoas.
E se houvesse discordância, eu iria até ao ponto de acreditar mais naquilo que as pessoas tinham achado como ideal, do que aquilo que viesse da ciência do meu amigo economista ou do meu amigo agrónomo. Porque acredito muito mais, como modelador na vida, na vontade que as pessoas têm dentro de si do que naquilo que aprenderam nos livros; podem eles estar errados, pode a pessoa ter lido em diagonal, ao passo que ter tido um ideal e satisfazê-lo, mesmo que se verifique no fim que a coisa não deu certo, é para a pessoa um renovar de confiança em si próprio. Ele ousou ser uma coisa que não lhe era aconselhada por outros que lhe pareciam superiores.
Então se faria uma determinada experiência de economia num lugar.
Se eu passasse a outro lugar e houvesse uma ideia diferente quanto à economia e quanto à maneira de organizar as pessoas para essa economia, eu apoiaria também uma experiência diferente para que depois as experiências se pudessem comparar e se tirassem conclusões gerais para uma colectividade inteira, para muita gente junta.
Eu arranjaria a tal escola aberta de dia e de noite para que as pessoas que tivessem perguntas para fazer viessem aí e perguntassem e a pessoa que estava lá dentro pudesse responder, pelo menos no geral, para que elas compreendessem o problema e pudesse depois, ele próprio, contactar com outras pessoas para poder dar informações mais adequadas.
E quando eu percebesse que as perguntas estavam rareando, havendo ainda tanta coisa para saber, eu faria vir algfuém que incitasse as pessoas a fazerem mais perguntas.
Nunca ninguém se deve satisfazer com aquelas respostas que já tem; que aquelas respostas que tiverem sejam apenas uma pedra mais alta a que eles subiram para fazerem perguntas ainda mais difíceis do que aquelas que já tinham feito e também as respostas adequadas a isso.
E a terceira coisa.
A terceira coisa seria a de se verem cinco maneiras de poder pôr ali alguém que estivesse atento à saúde geral e à saúde de pessoa a pessoa e pudesse dar todos os conselhos que fossem necessários para que ela continuasse a seguir aquela rota.
Tendo eu, meus amigos, um cuidado especial.
Em não ser dono de coisa nenhuma daquelas coisas que deixasse em cada povoação, porque ser dono de coisas, se pode dar a possibilidade de fazer isto ou aquilo, prende ao mesmo tempo a pessoa, e muito, em cuidados com o dinheiro, onde é necessário, se está perdendo, se está ganhando etc, uma série de complicações que estragam a vida de muita gente.
Provavelmente há muita gente rica que todos julgam que estão vivendo opiparamente e passam a noite com fantasmas, com pesadelos, meio acordados, meio a dormir, inquietos, porque supõem que pode falir o banco em que puseram o dinheiro ou que pode dar mau resultado um negócio no qual investiram o seu capital.
Não! Nós o que devemos acima de tudo é estar tranquilos com a vida que levamos desde que ela seja naturalmente adequada às nossas necessidades.
Mas não sou rico, é evidente. E procuro sobretudo, não sendo rico, ser a favor, com muito cuidado com essa história, não é?

(continua)