O vôo é largo, é longa a rota
quando é amargo um beijo adoça
e um abraço reconforta
descemos sempre à nossa porta
(...)
Luís Represas, O Vôo da Garça


terça-feira, 29 de junho de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
XII

As cobras da refracção da luz, em movimentos, nos plátanos da caixa líquida.

-Bem, se me permite interrompê-la. Antes de mais, eu devo confessar que sobre esses assuntos da biologia e da genética, os conhecimentos que eu possuo são muito insuficientes e isto para não dizer mesmo totalmente inexistentes, pois sempre terei aprendido qualquer coisa no liceu. Mas essa é uma área que me é de todo estranha e por isso não terei, de modo algum, como contestar aquilo que o seu amigo disse. Seja como for, deixe-me que lhe diga que já quanto a isso de Deus e de sermos filhos de Deus… Você acredita mesmo nisso?
-Sim, foi isso que me ensinaram desde sempre e naturalmente procuro viver de acordo com esses princípios. Por exemplo, no que diz respeito a esta questão de sermos Seus filhos, quer isso significar que eu acredito que somos todos irmãos e é justamente por isso que eu procuro viver sem fazer qualquer mal a ninguém.
-Certo, mas não era disso que eu estava a falar quando lhe perguntei se acredita nisso que diz. Claro que você terá os seus princípios e nada me custa acreditar que viva inteiramente de acordo com eles; seria até uma grande falta de educação se pusesse isso em dúvida e, para falar com sinceridade, nem seria admissível que o fizesse.
-Pois, seria um despropósito.
-Sim, seria um despropósito, mas acima de tudo insisto que seria uma grande falta de educação. Mas passemos adiante, pois o que lhe estava a perguntar é se você acredita mesmo que é assim? O que é que a leva a pensar que seja assim, sem ser pela questão de princípio em que foi educada, tal como você disse. O que me intriga saber é naquilo em que se baseia, no que é que você se fundamente para crer que é assim, que somos filhos de Deus? Você não tem como o provar, pois não?
-Se vamos por aí, então teremos que admitir o inverso que, da mesma forma, não teremos como conseguir provar o contrário. Terá que ser assim, não?


-Sim, poderíamos dizer isso mesmo, não é verdade? Este reparo é pertinente. Mas o que se passa é que nós muito simplesmente não temos que o provar porque quando digo que acredito que somos filhos de Deus, o que isso significa é que tomo isso como um princípio. Não sei se em termos gnosiológicos não poderíamos dizer, um axioma. Contudo importa salvaguardar que e isto sem fazer qualquer truque intelectual, isso não se trata de uma crença. Não é de uma crença que estamos a falar, antes se trata de uma aceitação de um princípio, a aceitação de que é assim, o que é algo diferente. Já sei que me vai perguntar então porque é que aceito esse princípio sem ter que o provar. E porque é que eu faço isso? Por uma questão de Fé e esta não se justifica.
-Mas fé, desculpe estar a interrompê-la, fé quer dizer crença, não será assim? Você acredita em Deus como poderia acreditar, peço-lhe que não se ofenda com o que vou dizer, mas nesse sentido você acredita em Deus como poderia acreditar em bruxas, ou em fantasmas, ou, se quisermos, em Deuses, certo?
-Errado. Não é nada disso. Fé e crença são coisas distintas e diferentes entre si. Aliás, a primeira exclui necessariamente a segunda. A crença acaba por ter mais a ver com a crendice, justamente no sentido em que acabou de colocar a questão. Você acredita naquilo que vê, naquilo que pode ou julga que pode dar por certo. Num certo sentido, naquilo que pode ou consegue provar. Ora a Fé nada tem a ver com isso. É um pouco aquilo que está contido no episódio do ver para crer de São Tomé, quando Jesus Cristo lhe desdramatizou o problema da dúvida que isso encerra e disse que ele não era menos que aqueles que não duvidavam mesmo sem verem ou terem visto.
-Você vai perdoar-me, mas no que é que isso deixa de ser diferente de acreditar em Deus, acreditar que Deus existe? Pessoalmente não estou a conseguir vislumbrar onde é que possa estar essa diferença, sinceramente que não estou.
-Bem, se você coloca o problema dessa maneira, então o que eu poderei seguramente dizer é mais uma vez que não tenho qualquer motivo para não acreditar, não? Afinal, Ele nunca me mentiu…
-Está a fazer humor.
-Mais ou menos, mas é só para sublinhar que a Fé nada tem a ver com isso. Repito que a Fé é algo completamente diferente.
-Explique-me lá então o que pensa a esse respeito.

(continua)

domingo, 27 de junho de 2010

Generalidades


Nos últimos anos do século passado, fruto do desenvolvimento das sociedades humanas, preparávamo-nos para melhores níveis de qualidade de vida. O desenvolvimento da ciência e da técnica permitiam-nos sonhar com o controle da explosão demográfica, com a eliminação da pobreza, com uma redução substancial do número de horas de trabalho.

Sobretudo nos países mais desenvolvidos, mas um pouco por todo o mundo, fomos assistindo a um extraordinário incremento da protecção social, desenvolveu-se a saúde, aumentou-se a esperança média de vida, tentou-se eliminar, ou pelo menos, reduzir o trabalho infantil. O grande desenvolvimento das novas tecnologias e, de alguma forma, a substituição do homem pela máquina, indiciavam um mundo mais livre, onde o lazer e a criatividade se oporiam a um mundo de grande dependência face ao processo produtivo.

A ruína dos socialismos a leste, a queda do muro de Berlim e uma consequente maior democratização do mundo, foram vistas associadas a essa vitória das liberdades essenciais. O liberalismo assumiu-se, então, como o sistema político de excelência, tudo justificado pela vitória na "guerra fria" dos aliados ocidentais.

Mas, afinal, a grande supremacia acalentada pelas democracias ocidentais era mais frágil do que parecia. A crise económica depressa se fez anunciar. O capitalismo financeiro com facilidade se instalou nos centros de poder e o desenvolvimento social a que fomos assistindo, sobretudo, na segunda metade do século XX, depressa começou a ser atacado.

Regressou o fantasma do equilíbrio demográfico, agora revelado, no ocidente, pela diminuição das taxas de natalidade e consequente envelhecimento das populações. O sistema de segurança social é posto em causa. O desemprego atinge uma percentagem que há muito não se via. Torna-se necessário trabalhar mais, produzir mais, competir mais, exportar mais, porque se destruíram as finanças públicas e, mesmo assim não chega, porque as potências emergentes (China, Brasil…) desenvolvem-se a um ritmo que ameaça a hegemonia ocidental e com facilidade nos ganham nas trocas comerciais, mesmo com a Organização Mundial do Comércio a dificultar-lhes a manobra.

E, nisto tudo, onde ficarão os grandes desequilíbrios ecológicos, as alterações climáticas, o esgotamento de recursos do planeta, a devastação florestal, a poluição dos rios e dos mares, a enorme acumulação de lixos vários, os direitos humanos, os direitos dos animais, a necessidade de uma alimentação saudável, de uma calma mental, de uma filosofia justa e, delírio dos delírios, o merecimento de conquistar a Vida para lá da morte?

O mundo está em rápida mudança, o debate está em aberto. Uma maior consciência cívica é necessária. A participação dos cidadãos é fundamental. O espírito democrático precisa substanciar-se. A organização política precisa de se merecer. Precisamos de saber sentar-nos a uma mesma mesa e aprender a conversar em vez de discutir.

É por isso que esta nossa parte do Estudo Geral aposta num espírito plural onde todos caibam. E se aprendemos com profetas e ascetas, com Cristo e Buda, que é o amor altruísta, o amor ao próximo, o que mais interessa, como podíamos nós trocar o geral pelo particular.

Luís Santos

sábado, 26 de junho de 2010

O território que temos dentro da cabeça

O gosto pela história, pelo conhecimento sobre os povos e por tudo que diga respeito às polêmicas relacionadas com o mundo dito lusófono, falem ou não a língua de Camões e de Machado de Assis, é o que me leva a partilhar com vocês um tema tão desafiante. Muitas perguntas e poucas respostas!

Os MAPAS dão-nos pistas importantes sobre os povos e o modo de pensar dos governantes em diferentes épocas. Um assunto fascinante. Desde os mais trabalhados, verdadeiras obras de arte, até os mais funcionais e precisos. Por isso não posso deixar de falar sobre a nova exposição “Magnificent Maps – Power, Propaganda and Art“, que ocorre de 30 de abril a 19 de setembro na Biblioteca Britânica. Segundo os organizadores : “80 obras-primas da cartografia, de 200 d.C. até o presente, muitas nunca exibidas anteriormente, compõem esta espetacular exposição de verão da Biblioteca Britânica. Refletindo uma imensa variedade de visões de mundo ao longo dos séculos, a exposição mostra como os mapas podem ser obras de arte – destinados a serem exibidos como esculturas e pinturas – e também veículos de propaganda e doutrinação”.

Séculos atrás, um doge de Veneza encomendou um mapa da península itálica, mas não gostou de o ver. A Península aparecia na proporção correta; muito pequena. Explicaram-lhe que a representação estava correta, mas mesmo assim o doge reclamou que a grandeza da cidade era muito maior. O poder dos poderosos dá-lhes maior dimensão, a realidade diminui-os. Hoje,estes, querem mais espaço na mídia. E querem que seu país pareça maior do que é.

Ao longo dos milénios, muitos mapas foram desenhados de acordo com o interesse da época para engrandecer o poder dos líderes dos territórios representados. Os 80 mapas, do século II até ao presente, reunidos na exposição, são representações mais de acordo com os territórios ideológicos de quem os encomendou e fez, do que dos territórios terrestres, marítimos e celestes.

Na exposição vêem-se representações em que pequenos condados parecem países enormes. Há mapas para fazer a guerra, outros para decorar palácios e o ego dos ocupantes. Nas exposição constam dois mapas portugueses , da coleção da Biblioteca Britânica, que mostram como a representação do território também é argumento para a beleza. Um deles, de Diogo Homem, foi feito em Veneza, em 1570. Representa o Mediterrâneo e quase toda a Europa (naquela época a Escandinávia e a Rússia eram ignoradas). A Itália ocupa o centro visual. As margens marítimas são debruadas a ouro, como filigranas para embelezar o mundo.

Outro mapa, é o de Antônio Sanches(Lisboa, sob o domínio dos Filipes de Espanha,1623) é um mundo sem América, onde o centro passa pelo Índico, apontando para uma política direcionada para a Ásia. O escudo português surge repetidamente e Santo Antônio também. Mostrando que os Filipes passaram mais depressa do que a febre de além-mar.

Foi quando o Japão começou a ganhar uma enorme importância na cartografia portuguesa. Os mapas falam!













António Sanches, Planisfério, 1623, British Library, London [pormenor] (MARQUES, 1994: 197)

Fontes consultadas: http://www.londresparaprincipiantes.com/?cat=48 http://jornal.publico.pt/pages/section.aspx?id=65513&d=25-06-2010 http://www2.crb.ucp.pt/Historia/abced%C3%A1rio/japao/cartografia.htm

Margarida Castro
26.06.2010

sexta-feira, 25 de junho de 2010

o bando acolhe 13 companhias europeias de teatro em 13 palcos ao ar livre

Teatro bando, em parceria com Platform11+ e Câmara Municipal de Palmela, acolhe mega evento internacional ao Ar Livre!

26 de Junho, 21:00
13 Companhias Europeias de Teatro
13 Palcos ao Ar Livre


TEATRO NUMA NOITE DE VERÃO / MIDSUMMER NIGHT’S THEATRE
Um evento Europeu de Teatro / A European event

Um evento único em Vale dos Barris: 13 Companhias europeias de teatro apresentam, em 13 palcos ao ar livre, histórias dos recreios, o que vos dará uma visão sobre a diversidade do trabalho realizado nos diferentes países. A variedade das culturas europeias soprará como a brisa através do vale – e mais de 100 artistas europeus celebrarão um solstício de Verão inesquecível. Deixem-se levar...

O evento está sujeito a reserva obrigatória através do número 212336850
Espectáculos ao Ar Livre pelo que aconselhamos o uso de roupas quentes.


Para o evento existirá um serviço de transporte especial, gratuito e em autocarro, de Palmela para as instalações do Teatro o bando.
A bilheteira funcionará exclusivamente no Miradouro do Castelo de Palmela.
Bilhetes > 8, 10 ou 12 €

COMPANHIAS PARTICIPANTES
DIVADLO ALFA PILSEN | CZECH REPUBLIC
VAT TEATER TALLINN | ESTONIA
OULUN KAUPUNGIN TEATTERI OULU | FINLAND THEATER
JUNGE GENERATION DRESDEN | GERMANY
SZINHÁZ KOLIBRI BUDAPEST | HUNGARY
ELSINOR TEATRO STABILE D’INNOVAZIONE MILAN, FLORENCE, FORLI | ITALY
THEATER DE CITADEL GRONINGEN | THE NETHERLANDS
BRAGETEATRET AS DRAMMEN | NORWAY
TEATRO O BANDO PALMELA | PORTUGAL
THEATRE INSTITUTE BRATISLAVA | SLOVAKIA
JUNGES SCHAUSPIELHAUS/ JETZT & CO ZURICH | SWITZERLAND
PILOT THEATRE COMPANY YORK | UNITED KINGDOM
EMERGENCY EXIT ARTS LONDON | UNITED KINGDOM

O nosso companheiro Diogo Correia também participará na logística do evento.

Natural

Sopra o vento suavemente
Ao dar-se a quem o sente,
Pois quem não sente não vê
Morrendo cego constantemente.

Se à vida uma flor é lançada
Contemplar é um dever humano.
Quem com os olhos a desdém
Sua sorte será um dano.

Diogo Correia

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A VISÃO DE SARAMAGO



Nos “Cadernos de Lanzarote”, diz Saramago:
“Em bem e em mal, tudo quanto dos editores se conte é sempre menos do que deveria ser contado.

Pior do que isto, é quando os editores têm opiniões, e muito pior é quando as expressam.”
Afirma que alguns editores mesmo quando aceitam o livro são “capazes de aproveitar a oportunidade para tornarem público que o autor, simplesmente, não sabe o que faz. A mim aconteceu-me esta humilhação, com Michael Naumann, que, um dia, em sua própria casa, diante de convidados, declarou alto e bom som que o Baltasar de Das Memorial, ao contrário do que eu havia escrito, não tinha morrido nas fogueiras da Inquisição e vivia feliz e contente com a sua Blimunda. Tentei explicar que seria impossível a alguém, naquelas circunstâncias, amarrado a um poste e com uma fogueira enorme aos pés, escapar com vida, mas Michael Naumann fitou-me severamente e repetiu: “Se eu digo que não morreu, é porque não morreu!”
E, logo a seguir, Saramago, interroga-se: “Desde então tenho vivido a perguntar-me se de facto não me terei enganado, se me terei esquecido de escrever as linhas que faltavam, aquelas que descreveriam a libertação de Baltazar, a fuga, a felicidade com Blimunda.”
Se tudo o que se diz de um editor, nunca chegará ao que deveria ser contado, em bem e em mal, não haverá ninguém que ouse criticar, a pessoa que, numa recensão crítica, se atreva a aventar um pensamento, um molho de pensamentos, numa conversa, que como as cerejas, vêm umas a seguir às outras, a editora, com a conselheira ou a mulher, Pilar, que até poderão ser uma e a mesma pessoa, como as que se vêem nos espelhos, que sendo as mesmas, não o são na realidade, ao sugerir-lhe, ela também, mas por maioria de razão, por estar mais próxima que qualquer pessoa, um final diferente para o “Ensaio sobre a Cegueira”.
Quem está a escrever este texto, não quer ter os louros de uma imaginação fértil, como se fosse um coelho tirado da cartola do mágico, que antes estava vazia, como vazia ficará depois de cumprir a sua missão de voltar à cabeça do seu dono, ou da terra virgem donde nasce uma flor, que, não sabendo, sabemos que estava lá uma semente, porque se lembrou do lançamento do “Ensaio sobre a Cegueira”, exactamente a 16 de Outubro de 1995, com o lamento de não poder precisar a hora em que me ocorreu o pensamento de perguntar ao laureado autor, se alguma vez lhe terá ocorrido um final diferente para o referido Ensaio, e não outro qualquer, porque não teria cabimento estar a misturar alhos com bugalhos, como poderia acontecer se eu, ao falar de coelhos, me lembrasse da competência com que o próprio se avalia ao desnocar a nuca dos pobres leporídeos com uma pancada seca do cutelo da mão…( pag. 176)
Por muito que a imaginação dos homens ainda não tenha dado sinal de esgotamento, se esquecermos aqueles escritores ou pintores, para não falar de outros que poderão sofrer da mesma doença que a seguir descrevo, que depois de escreverem um livro ou pintarem um quadro, bem recebido pela crítica, e dos quais terão recebido fartos proventos, continuam a escrevê-lo e a pintá-lo de diferentes maneiras para serem sempre iguais, ainda podemos pensar que a mulher do médico, em vez de ficar a ver tudo branco, podia continuar com a visão para acompanhar o seu marido, como fez durante a doença inexplicável de toda a gente. Não seria de admirar que, à semelhança do editor, agora poderia ser o agente artístico, logo se levantasse a sua voz a criticar o final feliz, a história cor-de-rosa, o que não seria de todo inesperado, porque todos nós sabemos que o povo tem sempre razão e foi ele que disse, Preso por ter cão e preso por não ter, de acordo com os latinos que já diziam, sabedores que eram, Vox populi, vox Dei…
Para evitar as críticas, como um maometano evita a carne de porco, seria natural que a mulher do médico, embora não goste de tratar assim a heroína de um livro, não me atrevo, se não se atreveu o seu galardoado criador, porque não quis, eu, talvez porque não posso, a dar-lhe um nome, acabasse por sentir que era desleal para os seus companheiros e mormente para o seu marido, que como se sabe também deve ser companheiro, manter o dom da visão e, se aproveitasse das competências dele para fazer a operação que a tornasse igual a todos, e prescindisse dela, dado que em ocasiões já relatadas, a tinha forçado a ver aquilo que não queria.
Esta hipótese, se acaso ocorreu ao nosso agraciado autor, seria liminarmente recusada porque como soe dizer-se, gato escaldado da água fria tem medo e seria um final que conduziria, mesmo o leitor mais desprevenido, para o conto “Em terra de cegos…” (edição portuguesa da Padrões Culturais Editora, de 2008), de H. G. Wells, em que num vale longínquo e quase inatingível, todas as pessoas são cegas há catorze gerações, e por isso já não sabem que são cegas, até chegar um viajante, que lhes fala do mundo exterior e lhes tenta explicar o que é a visão, mas sem resultados, porque também não seria nada fácil explicar a um morcego, se acaso pudéssemos comunicar com ele, que tem capacidades sensoriais como o sonar, que nem eu nem o leitor têm, apesar de o homem o ter inventado para os navios e os submarinos, e agora para as bombas inteligentes, para prescindir dos seus atributos naturais, em compensação duma visão, para ele desconhecida, de tal maneira que seria o desventurado viajante a eliminar a sua visão, como se extirpasse um tumor doentio, que não era de onde vinha, para não ficar prejudicado em relação aos seus agora e para sempre conterrâneos, como poderá confirmar um leitor mais descrente, se se der ao trabalho de ler o conto, como foi escrito pelo seu criador.
A páginas 310 do Ensaio sobre a Cegueira, a mulher do médico, a que não tem nome, o que não deixa de ser estranho para quem escreveu um livro com o título ”Todos os Nomes”, ou talvez não, se por hipótese os gastou todos, diz, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.
Um leitor mais informado, começaria a achar demasiado óbvias as semelhanças com a “alegoria da caverna” de Platão, o que não sendo um mal em sentido abstracto, começaria a ser um problema para um autor que escreveu “A Caverna”, inspirado na outra, a de Platão, se nos lembrarmos do que foi dito sobre, agora esquecemos os pintores, escritores que vão reescrevendo a mesma obra, só, e não será pouco, pensarão alguns, porque foram vendidos muitos milhares de exemplares, e ganhou alguns prémios de nomeada, talvez o Nobel.
Como por mim já foi escrito, não serei eu a outorgar-me o direito de ser considerado alguém com uma imaginação acima do mais comum dos mortais. Por isso, tenho de encerrar as hipóteses de final para uma obra, que tendo muitos finais à sua disposição, por muitos e bons motivos, como acima tentei explicar, teve o único final possível.
As últimas palavras escritas foram, A cidade ainda ali estava.
Os livros também!

Texto de António Tapadinhas

Debate com o Dr. Fernando Nobre - Hoje, 5ª feira, 24, 18.30, Anf.IV, Fac. Letras

Alguns dados objectivos para este debate, que inaugura um novo ciclo na política nacional. Serão dirigidos convites aos demais candidatos presidenciais.

"Oito por cento do milho e noventa e cinco por cento da aveia colhidos nos Estados Unidos destinam-se a alimentar animais criados por seres humanos para sua alimentação. [...] No mundo inteiro, o gado consome uma quantidade de alimento equivalente às necessidades calóricas de 8,7 bilhões de pessoas, mais do que a população humana total da Terra.

Muita gente está morrendo de fome no mundo. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) informa que todos os dias morrem 40 000 crianças de subnutrição. Enquanto isso, muita gente come demais no Ocidente. [...] Um economista francês disse-me certa vez que, se os países ocidentais reduzissem pela metade o seu consumo de carne e álcool, resolveríamos o problema da fome no mundo.

Quanto ao impacto ambiental da produção de carne nos Estados Unidos, o Emory College diz o seguinte:

. Terra: do total de terra agricultável nos EUA, 87% são utilizados para a criação de animais para consumo. Isso equivale a 45% do território do país.
. Água: mais da metade do consumo total de água nos EUA destina-se à criação de animais para alimentação. A produção de um quilo de carne demanda 18 000 litros de água. Para se produzir um quilo de trigo são precisos 180 litros de água. Isto é, cem vezes menos. Uma dieta totalmente vegetariana consome 1000 litros de água por dia, ao passo que uma dieta à base de carne requer 14500 litros por dia.

. Poluição: a criação de animais para consumo humano causa mais poluição de água nos Estados Unidos do que qualquer outra atividade industrial. Os animais criados para esse fim produzem uma quantidade de excremento 130 vezes maior que a de toda a população humana, algo como 40 000 quilos por segundo. Grande parte dos detritos de granjas industriais e matadouros é vazada em córregos e rios, contaminando fontes hídricas.

. Desmatamento: cada vegetariano poupa quase meio hectare de árvores por ano. Mais de 100 milhões de hectares de florestas já foram desmatados nos Estados Unidos para dar lugar a pastagens que alimentam gado de corte. A cada vinte segundos desaparece um hectare de árvores. As florestas tropicais estão sendo destruídas para abrir pastagens para gado. Para produzir apenas um hamburguer podem ter sido desmatados quase cinco metros quadrados de floresta tropical.

As florestas são nossos pulmões. Elas nos fornecem oxigênio e protegem nosso meio ambiente. Quando comemos carne, estamos destruindo as florestas e, portanto, estamos comendo a carne da nossa Terra Mãe. Todos nós, inclusive as crianças, podemos perceber o sofrimento dos animais criados para produzir alimento. Podemos optar por comer conscientemente e proteger a felicidade e a vida das espécies que nos acompanham e da própria Terra Mãe"

- Thich Nhat Hanh, Serenando a Mente, Petrópolis, Vozes, 2007, pp.65-67.

arevistaentre.blogspot.com

Organização: revista Cultura ENTRE Culturas /
Apoio: Partido Pelos Animais, Movimento Outro Portugal.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A HERANÇA DA LÍNGUA PORTUGUESA NO ORIENTE (ÁSIA PORTUGUESA)

Azul: Comunidades que falam Português atualmente na Ásia.
Vermelho: Comunidades que falavam o Português na Ásia.

Escrito por Marco Ramerini
http://www.colonialvoyage.com/

(Tradução feita por Márcia Siqueira de Carvalho)

A língua portuguesa foi, nos séculos XVI, XVII e XVII , a língua dos negócios nas costas do Oceanos Índico, em função da expansão colonial e comercial portuguesa. O português foi usado, naquela época, não somente nas cidades asiáticas conquistadas pelos portugueses, mas também por muitos governantes locais nos seus contatos com outros estrangeiros poderosos (holandeses, ingleses, dinamarqueses, etc).

No Ceilão, por exemplo, o português foi usado para todos os contatos entre os europeus e a população nativa; vários reis do Ceilão falavam fluentemente esta língua e nomes portugueses eram comuns na nobreza. Quando os holandeses ocuparam a costa do Ceilão, principalmente sob as ordens de Van Goens, eles tomaram medidas para parar o uso da língua portuguesa. Porém, ele estava tão entranhado entre os habitantes do Ceilão que até mesmo as famílias dos burgueses holandeses começaram a usar a língua portuguesa. Em 1704, o governador Cornelius Jan Simonsz falava que : "se você fala português no Ceilão, você é entendido em todo lugar". Também na cidade de Batávia, capital da Holanda Oriental (atual Jakarta), o português foi a língua falada nos séculos XVII e XVIII.

As missões religiosas contribuíram para esta grande expansão da língua portuguesa. Isto porque desde que as comunidades se convertiam ao catolicismo, elas adotavam o português como língua materna. Também as missões protestantes (holandeses, dinamarqueses, ingleses ...) que trabalharam na Índia foram forçados a usar o português como a língua de evangelização.

A língua portuguesa também influenciou várias línguas orientais. Muitas palavras portuguesas foram incorporadas por vários idiomas orientais, como as da Índia, do suaili, malaio, indonésio, bengali, japonês, os várias do Ceilão, o tetum de Timor, africâner da África do Sul, etc. Além disso, onde a presença portuguesa era preponderante ou mais duradoura, cresceram as comunidades de "casados" e "mestiços" que adotaram uma variedade de língua mãe: uma espécie de Creoule português.

O que restou hoje é muito pouco. Entretanto é interessante notar que, neste sentido, existem pequenas comunidades de pessoas espalhadas por toda a Ásia que continuam a usar o "creoule" português, embora não tenham mais contatos com Portugal, em alguns casos, durante séculos. Outro aspecto interessante é que durante o período mais importante da presença portuguesa na Ásia, não havia mais do que 12.000 a 14.000 portugueses, incluindo os religiosos.

AS COMUNIDADES QUE FALAM PORTUGUÊS ATUALMENTE:

Malacca, Malásia: (Portuguese Settlement, Praya Lane, Bandara Hilir). Cerca de 1000 pessoas falam esta espécie de "creole" (Papia Kristang). Cerca de 80 % dos antigos habitantes da colonia portuguesa em Malacca falam Kristang, que também é falado atualmente em Singapora e Kuala Lumpur. Kristang é muito parecido com o malaio local na sua estrutura gramatical, mas 95% do seu vocabulário deriva do português. Não muito tempo tempo atrás o português também era falado em Pulau Tikus (Penang) mas agora é considerado extinto. A comunidade eurasiana tem 12.000 membros na Peninsula Malaia. Activo é MPEA (Malacca Portuguese Eurasian Association) e SPEMA (Secretariat of the Portuguese/Eurasian Malaysian Associations) com 7 associações dos seus membros em Alor Star, Penang, Perak, Malacca (MPEA), Kuala Lumpur, Seremban e Johor Baru. Ha também em Singapura uma associaçao Eurasiatica. Malaca se separou do domínio português em 1641.

Korlai, Índia: (perto de Chaul). Cerca de 900 pessoas falam o creole português e esta comunidade tem a sua igreja chamada: "Igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo" Chaul se separou do domínio português em 1740.

Damão, Índia: (Damão Grande ou Praça, Campo dos Remédios, Jumprim, Damão da Cima). Cerca de 2000 pessoas falam esta espécie de Creole Português. Damão se separou do domínio português em Dezembro de 1961.

Ceilão (Sri Lanka): [Burgueses Portugueses em Batticaloa (Koolavaddy, Mamangam, Uppodai, Dutch Bar, Akkaraipattu); Trincomalee (Palayuttu); comunidades Kaffir de Mannar e Puttalam ]. Atualmente é apenas usado entre as 250 famílias em suas casas em Batticaloa até 1984. Muitos emigraram para a Austrália. Ainda há 100 famílias em Batticaloa e Trincomalee e cerca de 80 famílias Afro-Sinhalese (Kaffir) em Puttalam. Quase extinta. Em Batticaloa existe o Clube de Recreio"Shamrock" or "Batticaloa Catholic Burgher Union". Ha uma pequena comunidade de descendentes portugues na aldeia de WahaKotte (circa 7°42'N. - 80°36'E) (Centro do Sri Lanka, seis quilometros de Galewala estrada entre Galewala e Matale), eles são Catolicos Romanos, mas são acerca de dois geracão que Creole Português não é falado. Ceilão se separou do domínio português em 1658.

Macau: Cerca de 2.000 pessoas fala o português como sua primeira língua, e perto de 11.500 como sua segunda língua. Apenas poucas mulheres idosas falam o Macauense um Creole Macau-Português. O "Instituto Cultural de Macau" e a "Fundação do Oriente" estão funcionando. Existe também um canal de TV e vários jornais voltados inteiramente para o português. Macau em 20 de Dezembro de 1999 voltou a fazer parte da China.

Hong Kong: Centenas de pessoas falam o MACAUENSE. Quase todas são emigrantes de Macau. Nunca foi colonia portuguesa.

Goa, Índia: O idioma português está desaparecendo rapidamente de Goa. Atualmente ele é falado por um pequeno setor das famílias mais abastadas e apenas 3 a 5 % da populaçãio continua falando-o (estima-se de 30.000 a 50.000 pessoas). Atualmente 35% da população de Goa são imigraantes de outros estados indianos. Nas escolas da Índia ele é ensinado como a terceira língua (não obrigatória). Existe um departamento de Português na Universidade de Goa, mas a "Fundação do Oriente" e a Sociedade de Amizade Indo-Portuguesa ainda estão em funcionamento. O último jornal em língua protuguesa foi publicado na década de 80. Em Panaji muitos cartazes em português ainda são visíveis em lojas, edifícios públicos, etc. Goa se separou do domínio português em Dezembro de 1961.

Diu, Índia: Aqui o idioma creole protuguês está quase extinto. Diu se separou do domínio português em Dezembro de 1961.

Timor Leste: Os que falavam o português em 1950 não ultrapassavam a 10.000 pessoas e em 1974 apenas 10% a 20% da população. Em 1975: O Timor Leste tinha 700 000 habitantes dos quais : 35 a 70 000 sabiam ler e escrever em português e 100 a 140 000 podiam falar e entender esta língua. Até1981, o português foi a língua da Igreja de Timor, quando foi substituído pelo Tetum. Entretanto ele é comumente usado como idioma de negócios na cidade de Dili. O português permaneceu como a língua da resistência anti-Indonésia e de comunicação externa da Igreja Católica. O português criole de Timor (Português de Bidau) hoje está praticamente extinto. Ele é falado próximo a Dili, Lifau e Bidau. Indonesia invadiu o Timor Leste em 1975. Entretanto, nenhuma nação reconheceu esta anexação militar. Timor Leste tornou-se um estado independente, 20 de maio de 2002. A lingua oficial de Timor-Leste está o português.

Flores, Indonésia: (Larantuka, Sikka) Aqui o português sobrevive nas tradições religiosas e na comunidadeTopasses (os descendentes dos homens portugueses com as mulheres nativas) utilizam-no nas suas preces. Aos sábados, as mulheres de Larantuka rezam o rosário numa forma corrompida de português. Na área de Sikka, no Leste de Flores, muitas pessoas são descendentes de portugueses e ainda (???) usam esta língua. Existe uma Confraria chamada de "Reinja Rosari". Portugal retirou-se em 1859.

ATÉ POUCOS ANOS ATRÁS, COMUNIDADES QUE FALAVAM O PORTUGUÊS EXISTIAM EM:

Ceilão (Sri Lanka): (O Creole Português era falado pela comunidade burguesa holandesa ) Até o início do século XX, o creole português era falado pelos membros desta comunidade. Até depois da Segunda Guerra Mundial, os católicos do Sri Lanka, em Colombo se reuniam nas missas faladas em português (como a igreja de Santo Antônio, em Dematagoda). Após a segunda metade deste século, parte destes católicos tão antigos começaram a freqüentar missas em grupos cada vez menores nas igrejas católicas na cidade (Dematagoda, Hulftsdorp, Kotahena, Kotte, Nugegoda e Wellawatte). Embora era uma língua falada, o português estáva perdendo rapidamente a sua importância original nos serviços religiosos nas igrejas católicas (sendo substituído pelo inglês mais moderno e mais procurado).

Jakarta-Batavia-Tugu, Indonésia: (um subúrbio de Jakarta). Aqui, até o início do século XX uma espécie de português corrompido ainda era falado pela população cristã em Tugu. O último habitante que falava creole morreu em 1978. Nunca esteve sob domínio de Portugal.

Cochim, Índia: (Vypeen). Desapareceu nos últimos 20 anos. A comunidade portuguesa/hindu (2.000 pessoas) frequenta a velha igeja de Nossa Senhora da Esperança. Portugal retirou-se de Cochim em 1663.

Bombaim or do Norte, Índia: (Baçaim, Salsette, Thana, Chevai, Mahim, Tecelaria, Dadar, Parel, Cavel, Bandora-Badra, Govai, Morol, Andheri, Versova, Malvan, Manori, Mazagão) Em 1906, este Creole foi, depois do Ceilão, o dialeto indo-português mais importante. Em1906 ainda existia perto de 5.000 pessoas que falavam o Creole Português como,língua materna, e 2.000 estavam em Bombaim e Mahim, 1.000 estavam em Bandora, 500 em Thana, 100 em Curla, 50 em Baçaim e 1.000 em outras vilas. Não existia, naquela época, escolas em creole-português e as classes mais ricas substituiram-no pelo inglês. (Costa, Dalgado).

Coromandel, Índia: (Meliapore, Madras, Tuticorin, Cuddalore, Karikal, Pondicherry, Tranquebar, Manapar, Negapatam…..) Na costa de Coromandel, os descendentes dos portugueses são geralmente conhecidos como "Topasses", eram católicos e falavam o creole português. Com a chegada do domínio inglês na Índia, eles começaram a falar a língua inglesa em lugar do português e também alglicizaram seus nomes. Atualmente fazem parte da comunidade aurasiana. Em Negapatam, em 1883, ainda existiam 20 famílias que falavam o indo-português. (Schuchardt, Dalgado)

DESAPARECEU JÁ HÁ MUITOS ANOS:

Solor & Adonara, Indonésia: Solor, Adonara (Vure)

Ilha de Java -Batávia, Indonésia: (comunidade holandesa de Batávia, Mardijkers) Os Mardijkers são os descendentes dos antigos escravos de Malacca, Bengal, Coromandel, Malabar, que foram convertidos ao Protestantismo quando libertados. Eles falavam uma espécie de creole-português e eram o ramo principal da comunidade portuguesa da Batávia. Depois da conquista holandesa de Malacca e do Ceilão eles cresceram consideravelmente. Em 1673, foi construída uma igreja protestante, para a comunidade portuguesa na Batávia e depois, no século XVII, uma segunda igreja foi construída. Em 1713, esta comunidade tinha cerca de 4.000 membros. <> Até 1750, o português foi a primeira língua na Batávia, porém, depois o malaio passou a dominar. Em 1808, o reverendo Engelbrecht celebrou a última missa em português. Em 1816, a comunidade portuguesa foi incorporada pela comunidade malaia. Também entre as famílias holandesas da Batávia, a língua portuguesa foi intensamente usada até 1750, apesar dos esforços do Governo Holandês contra o seu uso.

Mangalore, Índia: Mangalore.

Cannanore, Índia: Cannanore.

Bengala, Índia-Bangladesh: (Balasore, Pipli, Chandernagore, Chittagong, Midnapore, Hugli……) A língua portuguesa foi, nos séculos XVII e XVIII, a "lingua franca" em Bengala. Depois de 1811, o português era usado em todas as igrejas cristãs (católicas e protestantes) de Calcutá. No início do século XX, apenas umas poucas famílias falavam uma forma corrompida de português misturadas com muitas palavras da língua inglesa. (Campos)

Moluccas, Indonésia: (Ternate, Ambon, Banda, Makasar) TERNATENO, um creole Português que foi falado nas ilhas de Ternate e West Halmahera, atualmente está extinto. AMBON, aqui o português sobrevive na língua actualmente falada o Malayu-Ambom, o que contem cerca de 350 termos de origem portuguesa.

Nas costas da Índia, existiam cerca de 44 comunidades onde o português era falado.

BIBLIOGRAFIA:

- Abdurachman, Paramita Rahayu "Some portuguese loanwords in the vocabulary of speakers of Ambonese Malay in christian villages of Central Moluccas"
17 pp. LIPI, 1972, Jakarta, Indonesia.
- Clancy, Clements "The genesis of a language: the formation and development of Korlai Portuguese"
XII, 281 pp. maps, Creole language library vol.16, Benjamins, 1996, Amsterdam and Philadelphia.
- Dalgado, S. R. "Estudos sobre os Crioulos Indo-Portugueses"
187 pp. Comissao Nacional para as Comemoraçoes dos Descobrimentos Portugueses 1998 Lisboa, Portugal.
Dialecto Indo-Portugues de Goa; Dialecto Indo-Portugues de Damao; Dialecto Indo-Portugues do Norte; Dialecto Indo-Portugues de Negapatao; Berço duma cantga em Indo-Portugues.
The latest edition of the interesting study of Sebastiao Rodolfo Delgado on the Creole languages of Goa, Damao, Negapatam and the Northern Province of India.
- Dalgado, Sebastião Rudolfo "Dialecto Indo-Português de Ceilão"
301p. (Cadernos Ásia) CNCDP, 1998, Lisboa, Portugal.
- Daus, Ronald "Portuguese Eurasian communities in Southeast Asia"
83 pp. Institute of Southeast Asian, 1989, Singapore.
The Portuguese Eurasian communities in Malacca, Tugu, Larantuka and Singapore.
- Goonatilleka, M.H. "A Portuguese Creole in Sri Lanka: A Brief Socio-Linguistic Survey"
In: SOUZA, Teotónio R. de (ed.) "Indo-Portuguese History. Old Issues, New Questions (3 th ISIPH )"
pp. 147-180 Concept, 1985, New Delhi, India.
- Hettiarachchi, A. S. "Influence of Portuguese on the Sinhalese Language"
JCBRAS Vol. IX, 1965, pp. 229-238
- Jackson, Kenneth David "Sing without a shame:oral traditions in Indo-Portuguese creole verse: with transcription and analysis of a nineteenth-century manuscript of Ceylon Portuguese Creole"
XXVII, 257 pp. Creole Language Library, Benjamins, 1990, Amsterdam and Philadelphia.
- Lopes, David "A Expansão da Língua Portuguesa no Oriente durante os Séculos XVI, XVII e XVIII"
265 pp. Portucalense Editora, 1969, Porto, Portugal.
- Matos, Luís de "O português, língua franca no Oriente"
In: "Colóquios sobre as províncias do Oriente" Vol. 2 Junta de Investigações do Ultramar, 1968, Lisboa. - pp. 11-23
(Estudos de Ciências Políticas e Sociais ; 81)
- Silva Jayasuriya, Shihan de "Indo Portuguese of Ceylon: a contact language"
188 pp. Athena Publications, 2001, London, UK.
- Silva Rego, Padre Antonio da "Dialecto Portugues de Malaca e outros escritos"
304 pp. (Cadernos Ásia) CNCDP, 1998, Lisboa, Portugal.
Dialecto Portugues de Malaca; A Comunidade Luso-Malaia de Malaca e Singapura; A cultura Portuguesa na Malaia e em Singapura.
- Teixeira, Pe. Manuel "The Influence of Portuguese on the Malay Language"
In: "Journal of the Malayan Branch of the Royal Asiatic Society", 1962, vol. XXXV (Pt. 1).
- Theban, Laurentiu "Situaçao e perspectivas do português e dos crioulos de origem portuguesa na India e no Sri-Lanka"
In: "Actas do Congresso sobre a situaçao da lingua Portuguesa no Mundo" vol. 1 pp. 269-285 Imprensa National, 1985, Lisboa, Portugal.

terça-feira, 22 de junho de 2010

OS MOINHOS DE VAN GOGH


Foto de António Tapadinhas

Quando falamos de moinhos, quase sempre nos lembramos de Dom Quixote. Desta vez, vou falar de um moinho diferente, mas igual, porque também é de vento.
O moinho que visitei é De Kat, na aldeia de Kalverringdijk (não sei como se pode pronunciar este nome), perto de Amesterdão.
O que ele tem de especial é que continua a dar cor à vida!
Por volta de 1600 eram importadas diferentes variedades de madeiras tropicais, que depois de diversos tratamentos eram reduzidas a pó nos moinhos e transformadas em pigmentos para serem utilizados na pintura.

Foto de António Tapadinhas

Mais tarde, os moleiros também começaram a moer as pedras coloridas que eram trazidas das pedreiras próximas, transformando-as em pigmentos de terra.
Dos mil moinhos de vento que fizeram da região a mais antiga zona industrial do mundo, existem, actualmente, vinte moinhos.
Este de que vos falo, talvez seja o último moinho de vento para produzir tinta que existe no mundo.
Vou utilizar os seus pigmentos para fazer os meus próximos quadros. Com os novos pigmentos e a ajuda de Van Gogh não terei desculpa para um mau resultado!

Texto de António Tapadinhas
HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
XI

-Mas vocês vejam. Afinal o que é que tem produzido o progresso da humanidade? O que é que acham que tem feito com que as sociedades avancem?
-O Marx falava da luta de classes.
-Mas a coisa é mais complexa do que isso, não? Quer dizer, são vários os factores que podem conduzir ao progresso, que estão na base do progresso e nem todos eles terão a ver, mesmo indirectamente que seja, com a luta de classes, nos termos em que Marx a descreveu. Por exemplo, não sou capaz de ver que relação possa haver entre a inovação científica que, sem dúvida alguma, é uma das mais poderosas molas, salvo seja a expressão, do progresso, não vejo que relação possa haver entre isso e a luta de classes.
-Sim, claro, mas eu estava apenas a dar uma pequena nota de humor. Isto sem qualquer tipo ou intenção de ofensa aqui para este nosso amigo, como é natural.
-Mas a verdade é que o progresso, os avanços que a humanidade tem conseguido têm sido sempre fruto do génio e das capacidades de uma minoria de eleitos, de uma ou de outra forma, indivíduos que são iluminados e que são aqueles que fazem as coisas avançarem. Se não fossem essas elites que inventam e organizam o trabalho e as sociedades, muito provavelmente, os homens ainda estariam na idade da pedra. Por si, sozinho, o homem comum jamais teria sido capaz de abandonar o mais básico da sobrevivência. Ora é o escol dessas elites, são aqueles que entre esses mais se aproximam daquilo que será o homem perfeito, do homem que consegue compreender os mistérios do universo e da vida e que consegue viver acima disso, aquele que consegue elevar-se acima da simples vida material do dia a dia, são pois essas pessoas que mais e melhor nos podem fornecer a imagem do protótipo do que possa ser o super-homem que um dia terá que ser dominante para que a humanidade venha a ser capaz de viver em plenitude que, como já disse, quanto a mim, é o seu destino natural. É por isso que eu digo que se quisermos dar lugar a esse tal super-homem, temos que ter sociedades dirigidas, conduzidas, se quisermos, por elites fortes e determinadas e isso para que o homem comum não arraste a humanidade para a perdição e para que se impossibilitem as condições para o aparecimento desse novo homem tão necessário.
-Segundo o seu ponto de vista, é claro, seria essa a forma como poderia aparecer o super-homem.
-Sim. Tal como facilmente compreenderá, não iria ele surgir do nada, não é?
-O senhor desculpe-me lá se eu vou insistir num ponto, mas nós estamos a conversar e até tenho que dizer que esta está a ser muitíssimo interessante, mas a verdade é que eu não posso deixar de mais uma vez estar em desacordo consigo e, como já disse, até está a ser uma conversa cheia de interesse, o senhor compreenderá que até será uma forma de mantermos essa mesma conversação.
-Sim, é evidente. Se perante todos os assuntos apenas houvesse concordância, nunca teriam havido trocas de ideias e estou inteiramente de acordo consigo quando diz que este está a ser um daqueles momentos de que podemos com segurança dizer que se tratam de pequenas surpresas, pequenas mas agradáveis surpresas justamente pelo interesse que a conversa está a ter. Mas diga lá de sua justiça, você ia discordar de mim mais uma vez.
-É isso sabe? É que eu acho que mais uma vez o senhor está a confundir as coisas. Aquilo que sustenta a respeito das elites não deixa de ser, de alguma maneira, verdadeiro.
-Deixa-me só acrescentar uma pequena nota que é para dizer que a esse respeito é fundamental o trabalho de Vilfredo Pareto que sustentava, em síntese, que era a mobilidade das elites que permitia que as sociedades não entrassem em entropia e, por isso, regredissem e até desaparecessem, uma vez que eram as elites os estratos que poderiam trazer progresso a essas mesmas sociedades e daí o ser fundamental que elas se renovassem, precisamente por via da sua mobilidade.


-Pois, lá está e já agora que introduziste um parênteses, também eu digo que, não vindo aqui à conversa, mas até posso dizer que acho que é por aí que vai uma das causas dos problemas que a sociedade portuguesa atravessa nos dias de hoje e que é, precisamente, a inexistência de elites fortes e conscientes, inteligentes, conhecedoras e empreendedoras e não, como acontece, na minha opinião, é claro, em que a realidade que nos é dada a observar são elites ignorantes e quase que atreveria a dizer, cleptómanas. Mas isto é outra história que não vem agora aqui ao caso. Mas seja como for, portanto, o que o senhor defende sobre a importância das elites e do papel que as mesmas podem ter na melhoria das condições de vida das sociedades, isso não me parece que me possa merecer grandes reparos. O problema é que continua a ser exactamente o mesmo. Por um lado nem acho que essas elites tenham alguma coisa a ver com o ser ou o haver ou não um super-homem, da maneira como o senhor fala, o qual se assemelha mais a um paradigma, digamos assim, do que a alguém verosímil e necessariamente existente ou que necessariamente possa vir a existir. E por outro lado, continuo a não encontrar qualquer relação entre o que defende a esse respeito com o tal super-homem de que fala.
-Aliás… Desculpa interromper-te mais uma vez. Nem há, nem faz qualquer sentido que se pretenda que possa alguma vez haver esse tal super-homem.
-Pois, pois, o problema começa logo por aí, é que, de facto, esse tal super-homem pura e simplesmente não existe.
-Bem, nesse caso devo dizer que devem conceder que isso também vocês ainda não justificaram.
-Era o que estava a tentar fazer.
-Ora, isso seria o equivalente a uma alteração da nossa própria espécie.
-Não necessariamente. Não terá sido bem isso que eu sustentei. Eu não falei nesse sentido.
-Mas seria como se tivesse essa consequência, porque para chegarmos a esse tal homem perfeito de que o senhor falou, estaríamos com toda a certeza a falar de uma alteração da nossa própria natureza. Ora nós somos simples animais sujeitos ao erro e justamente essa é que é a nossa natureza. Por mais que uma pessoa seja instruída ela nunca deixará de estar sujeita a esse constrangimento. Haverá sempre a possibilidade de errarmos.
-Também me parece evidente que isso é incontornável, a menos que uma qualquer engenharia genética pudesse vir a alterar isso e aí já não falaria em impossíveis. De qualquer modo e tal como as coisas são, isso decore da nossa natureza genética e sabemos que o que é culturalmente adquirido não é biológica nem geneticamente transmitido. Pretender o contrário, até seria o recuperar do lamarckismo que a Biologia depois de Darwin rejeitou e provou como falso. Para além de que dificilmente se conseguiria imaginar como poderia a evolução vir a produzir um homem perfeito nos moldes em que o senhor o definiu.
-E não é só isso. Para uma pessoa como eu que desde pequenina fui educada segundo princípios religiosos, isso não faz de todo qualquer sentido. Que coisa é essa de sermos perfeitos como os deuses? Nós somos filhos de Deus e por isso somos estes seres imperfeitos que pela sua própria natureza vivemos na contingência de estarmos sempre sujeitos a cometer erros.

(continua)

domingo, 20 de junho de 2010

Jangada de Pedra

O título é nosso

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Uma Lágrima a Saramago

Toque-se agora toda a vuvuzela,
junte-se ao inferno os carrilhões de Mafra,
e bata-se as sacrossantas tampas de panela,
celebrando um ano novo por meio de um velho.

Enfim separou-se a tua Ibéria da Europa,
arrastada pelo oceano salgado fora
por um bando de estorninhos em desalinho,
à esquerda,
por um elefante com cornaca,
à direita,
e no centro o cão Ardent ganindo, Caim, caim.

Hoje, e por tua conta,
se atirarmos pedra ao mar, flutua,
se riscarmos o chão, o risco perdura,
se construírmos passarola, de vontades voa,
depois de desmontarmos o cerco de Lisboa.

Neste ano da tua morte,
quem foi que nos disse, José,
que apenas se perde um pai, Não sei,
Pois a tua ausência deixou-me objecto quase,
de lágrima-cão no olho. Hoje cega-se em branco.


António José Lopes

Lisboa, 18 de Junho de 2010

A mundividência da açorianidade em autores contemporâneos

por Chrys Crystello

INTRODUÇÃO

Literatura de significação açoriana, escrita que se diferencia da de outros autores de Língua portuguesa com especificidades que identificam o autor talhado por elementos atmosféricos e sociológicos descoincidentes, justaposto a vivências e comportamentos seculares sendo necessário apreender a noção das suas Mundividências e Mundivivências, e as infrangíveis relações umbilicais que as caracterizam face aos antepassados, às ilhas e locais de origem. Grandes vultos das letras e das artes nasceram nos Açores como Gaspar Frutuoso, o conde de Ávila, Manuel de Arriaga, Antero de Quental, Teófilo Braga, Roberto Ivens, Tomás Borba, Francisco de Lacerda, Canto da Maya, Domingos Rebelo, Vitorino Nemésio, António Dacosta, Carlos Wallenstein, Victor Câmara e Carlos Carreiro. Dos autores contemporâneos de que falarei aqui, selecionei alguns daqueles por quem nutro mais apreciação: Cristóvão de Aguiar, Daniel de Sá, Dias de Melo e Vasco Pereira da Costa.

1. LITERATURA AÇORIANA
A ilha para Natália Correia é Mãe-Ilha, para Cristóvão de Aguiar, Marilha, para Daniel de Sá, Ilha-Mãe, para Vasco Pereira da Costa, Ilha Menina, para mim nem mãe, nem madrasta, nem Marília nem menina, mas Ilha-Filha, que nunca enteada. Para amar sem tocar, ver engrandecer nas dores da adolescência que são sempre partos difíceis. Toda a vida fui ilhéu e tendo perdido sotaques não malbaratei as ilhas-filhas. Trago-as comigo a reboque, colar multifacetado de vivências dos mundos e culturas distantes. Primeiro em Portugal, essa ilhota perdida da Europa durante o Estado Novo, seguidamente em mais um capítulo naufragado da História Trágico-marítima nas ilhas de Timor e de Bali, seguido da então (pen) ínsula de Macau (fechada da China pelas Portas do Cerco), da imensa ilha-continente denominada Austrália, e nessa ilhoa esquecida de Bragança no nordeste transmontano, antes de arribar a esta Atlântida Açores.
Com o tempo constatei o quase total desconhecimento do arquipélago para além do micaelense sotaque “de uma falsa sonoridade afrancesada” tão difícil de entender na ponta mais ocidental do antigo Império Português. Cumes de montanhas submersas que assomam, a intervalos, aqui no meio do Grande Mar Oceano onde se mantêm gentes orgulhosas e ciosas das suas tradições e costumes, em torno duma família nuclear dizimada pelo chamado progresso. Os políticos ocupados na sua sobrevivência sempre se olvidaram da presença mágica destas ilhas de reduzidas proporções e populações. Graças a esse deprimente meio de comunicação unilateral chamado telenovela, gente houve que aprendeu mal algo sobre este mundo à parte, quiçá ainda por descobrir. Como se fosse uma espécie de triângulo das Bermudas, onde tudo o que é relevante desaparece dos telejornais. Já era assim durante o Estado Novo e pouco mudou quanto à visibilidade real destas ínsulas, apenas evocadas pelas catástrofes naturais e pelo anticiclone do bom ou mau tempo.
Grandes vultos nasceram nos Açores, como Gaspar Frutuoso (1522-1591 historiador); o conde de Ávila, marquês e duque de Bolama; Manuel de Arriaga (1840-1917), Antero de Quental (1842 -1891 filósofo e poeta); Teófilo Braga (1843 -1924 escritor e presidente da República); Roberto Ivens (1850-1898); Tomás Borba (1867-1950, mestre de quase todos os melhores compositores portugueses do século XX); Francisco de Lacerda (1869-1934, musicólogo, compositor e maestro); Canto da Maya (1890 -1981 escultor); Domingos Rebelo (1891-1975 pintor); Vitorino Nemésio (1901-1978 escritor) e António Dacosta (1914 -1990 pintor) para mencionar apenas alguns.
Acolho como premissa o conceito de açorianidade formulado por José Martins Garcia que, «por envolver domínios muito mais vastos que o da simples literatura», admite a existência de uma literatura açoriana «enquanto superstrutura emanada dum habitat, duma vivência e duma mundividência» . O polémico debate académico em torno da expressão «literatura açoriana» criou entre os autores que se reuniam nos anos 80, amizades, inimizades, afinidades intelectuais e intertextualidades.
Em “Constantes da insularidade numa definição de literatura açoriana”, J. Almeida Pavão (1988) afirma “...sobre a existência de uma Literatura Açoriana...assume-se tal Literatura com o estatuto de uma autonomia, consentânea com uma essencialidade que a diferencia da Literatura Portuguesa Continental. No polo positivo de um extremo, enquadrar-se-ia a posição de Borges Garcia e no outro extremo situar-se-ia o polo, naturalmente contestatário, formado por Gaspar Simões e Cristóvão Aguiar. Isto, sem falarmos de outros tantos depoimentos, tais sejam os de Pedro da Silveira, Ruy Galvão de Carvalho, Eduíno de Jesus, Carlos Faria, Ruy Guilherme de Morais, João de Melo e outros mais, quase todos estes compendiados e mais ou menos discutidos na obra A Questão da Literatura Açoriana, de Onésimo Teotónio de Almeida, que passou a tornar-se órgão indispensável de consulta para quem de novo se proponha abordar o problema. Literatura Açoriana sê-lo-ia, na sua vertente política, sem qualquer contradita, se porventura os Açores se tornassem num território ou numa nação independente. E, aí, haveria que inscrevê-la dentro de novas premissas.”
Onésimo de Almeida escreveu dois livros e coordenou outro sobre o tema: A “Questão da Literatura Açoriana” (1983), “Da Literatura Açoriana – Subsídios para Um Balanço” (1986) e “Açores, Açorianos, Açorianidade” (1989). Nesses anos, falava-se em artesanato, folclore e cultura açoriana mas nada era mais embaraçoso do que falar em literatura açoriana. O problema colocou-se por razões políticas. Em 1975, Vitorino Nemésio deixara-se utilizar pela Frente de Libertação dos Açores (FLA), movimento independentista hoje extinto, como candidato a Presidente da futura República. Contra a vontade da maioria, os separatistas insistiram em usar a literatura como um dos sinais da identidade nacional.
Citando J. Almeida Pavão (1988) “...de Onésimo de Almeida, diríamos que o seu critério, assente na idiossincrasia do homem das Ilhas, nelas nado e criado, nos levanta uma dificuldade: a de englobarmos no mesmo conteúdo da Literatura Açoriana os autores estranhos que porventura as habitaram, já na idade adulta, como o Almeida Firmino de Narcose ou as visitaram, descortinando as suas peculiaridades pelo impacto de estruturas temperamentais forjadas em ambientes diversos, como é o já citado caso de Raul Brandão de “As llhas Desconhecidas”. Entendemos, pois, que deverão ser abrangidos num rótulo comum de insularidade e açorianidade três extratos diversos de idiossincrasias:
— Um de formação endógena, constituído pelos que nasceram e viveram nas Ilhas, independentemente do facto de se terem ou não terem ausentado;
— O dos insularizados ou «ilhanizados», adotando a designação feliz utilizada por Álamo Oliveira, a propósito do já referido poeta Almeida Firmino;
— E ainda o dos estranhos, como o também já mencionado Raul Brandão e este autor.”
Muito antes do Onésimo, Eduíno Borges Garcia escreveu uma série de artigos sobre literatura açoriana, publicados no semanário “A Ilha” e depois reunidos em opúsculo, no qual, e ao contrário de outros teóricos, não utilizava a expressão como sendo separada do contexto nacional. Apenas aconselhava os escritores açorianos a incluírem nos seus escritos a vida concreta do povo. Queria que a literatura escrita nos açores tendesse para o neorrealismo, que refletisse a sociedade real. Hoje, é questão aceite e arrumada para a maioria enquanto se não define teoricamente a terminologia. No último Encontro Açoriano da Lusofonia, Abril 2009, o escritor Cristóvão de Aguiar rejeitou o rótulo de literatura açoriana, por considerar que faz parte da produção literária lusófona. «O título (literatura açoriana) é equívoco, porque pode parecer que é uma literatura separada da literatura portuguesa», afirmou à agência Lusa o escritor.
Machado Pires sugeriu em tempos “literatura de significação açoriana”, discursando sobre esse fenómeno descontínuo porque não há uma evolução, uma linha histórica progressivamente afirmada havendo “Autores açorianos que estando fora dos Açores, deles se ocupam sistematicamente de modo direto e indireto” (p. 57). “Por isso, preferimos usar a expressão de literatura de significação açoriana quando queremos acentuar a existência de uma literatura ligada à peculiaridade açoriana por acharmos demasiado genérica, ambígua e incaracterizante a designação de ‘açoriana’.” (p. 59 – “Para um conceito de literatura açoriana” in Raul Brandão e Vitorino Nemésio. Ensaios. Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, col. “Temas Portugueses”, 1987). Outros preferem o termo “matriz açoriana”. Há vários tipos de autores, os açorianos residentes no seio do arquipélago, os emigrados, os descendentes, e os estrangeiros que escrevem sobre os Açores (em português ou não). Falta destrinçar quais são os que se podem incluir nessa designação açórica.
«É, pelo menos, um ramo único no contexto da literatura portuguesa» acrescenta Eduardo Bettencourt Pinto, um angolano, «escritor açoriano» por escolha própria. Pedro da Silveira (Flores 1922-2003) autor de A Ilha e o Mundo (1953) foi perentório:
«Já deixei notado que o separatismo (entendido como corrente que preconizava a independência total dos Açores) não produziu nenhuma doutrina normativa da literatura, isto é, sobre o que deveria ser a literatura açoriana.» (Silveira, 1977: 11). O que custava era aceitar que os escritores açorianos estivessem a desenvolver uma escrita que se diferenciava da de outros autores de Língua portuguesa. É que, nessa escrita, eram visíveis as especificidades que identificavam o açoriano como ser moldado por elementos atmosféricos e sociológicos diferentes, adaptado a vivências e comportamentos que, ao longo dos séculos, foi assimilando, pois viver numa ilha implica(va) uma outra noção de mundividência. A esta realidade continuam atentos os escritores das ilhas e é inegável a importância do seu contributo para o conhecimento da sociologia da literatura açoriana. A literatura açoriana não precisa de que se aduzam argumentos a favor da sua existência. Precisa de sair do gueto que lhe tem sido a sina (“Açores”, Grande Dicionário de Literatura Portuguesa e Teoria Literária, coordenado por João José Cochofel Iniciativas Editoriais 1977)».
Lentamente, os escritores foram encontrando o seu espaço, não havendo míngua de qualidade nem quantidade, mas, na maior parte dos casos sem projeção além das ilhas, com exceções contemporâneas como as de João de Melo, Cristóvão de Aguiar, Daniel de Sá e Dias de Melo, para citar apenas alguns. Nos Colóquios da Lusofonia, na sua versão insular desde 2006 dos Encontros Açorianos, o ponto de partida foi o debate sobre a identidade açoriana, a escrita, as lendas e tradições, numa perspetiva da LUSOFONIA com todas as diversidades culturais que, com a nossa podem coabitar. Deste intercâmbio de experiências entre residentes, expatriados e todos aqueles que dedicam a sua pesquisa e investigação à literatura, à linguística, à história dos Açores ou outro ramo de conhecimento científico, podemos aspirar a tornar mais conhecida a identidade lusófona açoriana. Aspira-se a contribuir para o levantamento de fatores exógenos e endógenos que permeiam essa açorianidade lusófona e criativamente questionar a influência que os fatores da insularidade e do isolamento tiveram na preservação do caráter açoriano. A meritória ação de várias entidades nas últimas décadas tem proporcionado um estreitamento entre açorianos, expatriados e descendentes duma forma fechada e limitada, quase conversas em família. Os Colóquios pretendem ir mais além, e levar os Açores ao mundo, em especial aos que não têm vínculos familiares nem conhecimento desta realidade. Independentemente da Açorianidade, mas por via dela, pretende-se que mais lusofalantes e lusófilos fiquem a conhecer a realidade insular e as suas peculiaridades.

2. À DESCOBERTA DOS AUTORES

2.1. AS PRIMEIRAS LETRAS TRADUZIDAS
Era imperioso alguém que lesse os autores de origem literária açoriana, lhes insuflasse nova vida e os trouxesse à mais que merecida ribalta. Coube-me o privilégio de aprender idiossincrasias insulares ao traduzir autores como Daniel de Sá e Victor Rui Dores. Deparei com noções etimologicamente ancestrais contrastando com o uso que se lhes apõe na maioria dos dicionários. No Dicionário do Morais vêm todos os termos “chamados” açorianos. A língua recuada até às origens e adulterada pelo emigrês que trouxe corruptelas aportuguesadas e anglicismos. Trata-se de desvendar o arquipélago como alegoria recuando à infância dos autores, sem perder de vista que as ilhas reais já se desfraldaram ao enguiço do presente e não podem ser só perpetuadas nas suas memórias. Nesta geografia idílica não busquei a essência do ser açoriano. Existirá, decerto, em miríade de variações, cada uma vincadamente segregada da outra. Também não cuidei de saber se o homem se adaptou às ilhas ou se estas condicionam a presença humana, para assim evidenciar a sua especificidade ou açorianidade. Antes quis apreender as suas Mundividências e Mundivivências, e as infrangíveis relações umbilicais que as caracterizavam face aos antepassados e locais de origem. Deduzi características relevantes para a açorianidade:
1. O clima inculca um caráter de torpor e de morosidade;
2. Os habitantes quedam quase tão distantes de Portugal como há séculos;
3. O recorte dos estratos sociais: é vincadamente feudal apesar do humanismo que a revolução de 1974 alegadamente introduziu nas relações sociais e familiares;
4. A adjacência das gentes à terra persiste fora das pequenas metrópoles que comandam a vida em cada ilha, num centralismo autofágico e macrocéfalo.
Um dos grandes escritores açorianos injustamente esquecido, José Martins Garcia nasceu na Criação Velha, Pico, a 17 de Fevereiro de 1941, tendo feito os seus estudos iniciais no Pico e parte dos liceais na Horta. Em Lisboa licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras. Teve uma breve passagem pelo Liceu da Horta, antes da mobilização para a guerra na Guiné-Bissau (1966 -1968). Entre 1969 e 1971 foi leitor de Português em Paris. Foi professor na Faculdade de Letras de Lisboa, de 1971 a 1977, como assistente. Partiu para a América, onde lecionou na Brown University, entre 1979 e 1984, ingressando, de seguida na Universidade dos Açores, onde permaneceu até à sua morte, em 4 de Novembro de 2002. Aqui introduziu a cadeira de Literatura e Cultura Açorianas e doutorou-se com uma tese sobre Fernando Pessoa e atingiu a cátedra. Ocupou o cargo de Vice-reitor e dirigiu a revista Arquipélago, do Departamento de Línguas e Literaturas Modernas.
A sua obra apresenta uma diversidade de intervenções , que vão desde o ensaísmo, à poesia, passando pelo romance, pelo conto e pela crítica jornalística. No jornalismo português destacou-se, antes e depois do 25 de Abril, no República, Jornal Novo, A Luta, A Capital, o Diário de Notícias, O Diabo e a Vida Mundial. David Mourão-Ferreira, um dos maiores críticos literários do século vinte português, disse (1987) sobre José Martins Garcia:
“Se não vivêssemos, vicentinamente, num País em que a “barca do purgatório” anda sempre mais carregada que as outras duas /…/ o nome de José Martins Garcia deveria ser hoje unanimemente saudado como o do escritor mais completo e mais complexo que no último decénio entre nós se revelou; /…/ com igual mestria tanto abrange os registos da mitificação narrativa como os da exegese crítica, tanto os da desmistificação satírica como os da transfiguração telúrica, e que sem dúvida não encontra paralelo, pela convergência e concentração de todos estes vetores, na produção de qualquer outro seu coetâneo.”
Luiz António de Assis Brasil analisou a obra de Daniel de Sá especialmente a narrativa de ficção (Ilha grande fechada. Lisboa: Salamandra, 1992; Crónica do despovoamento das Ilhas. Lisboa: Salamandra, 1995), a qual revela facetas bem características da denominada identidade insular, em especial da ilha de origem
“Coloca-se a evasão como um destino ao qual o açoriano se entrega com a fatalidade do cumprimento de um dever. O resultado é a errância, a transitoriedade e o permanente desejo da volta. Quando acontece, essa volta nunca é satisfatória: o emigrado jamais poderá deixar de ser americano, e mesmo que construa uma casa sumptuosa em sua freguesia original, contribua para a igreja e participe das festas coletivas, todos lhe conhecem a história. Intentando uma análise mais ampla, percebemos quanto os componentes tradicionais da literatura açoriana estão presentes nessa obra: a sensação de estar-se numa prisão, o desejo de evadir-se, a saudade a roer os calcanhares, a estreiteza do ambiente insular, a desconfiança das terras estrangeiras.”

2.2. DANIEL DE SÁ
Daniel de Sá, em “O Pastor das Casa Mortas” dá-se ao luxo de exportar, por mimética, para a Beira Alta, o seu herói em busca de um amor perdido no léxico e na sintaxe dos velhos montes escalavrados. Calcorreia paixões sofridas por entre o pastoreio, numa verdadeira apologia da solidão física e mental. Este retrato é o de Manuel Cordovão, lusitano de um amor só. O autor diz ser um livro dedicado “Às mulheres e aos homens que ainda acendem o lume nas últimas aldeias de Portugal.” A narrativa traduz metaforicamente a ode ao açoriano apartado de si e do mundo, num amor impossível que nunca se concretiza nem quando a barca de Caronte ronda.
A transposição do personagem deixa-nos na dúvida se a Teresa do “Pastor” não será irmã gémea da sua congénere que guarnece a digressão por “Santa Maria: a ilha-mãe”. Em ambas as obras “as palavras [são] tratadas suavemente, amenizando as arestas da fonética, como se com elas não pudesse nunca ofender-se alguém.” Trata-se de uma visita não ao “despovoamento das ilhas” mas ao país real, montanhoso, interior e inacessível de Portugal. Aqui não se resgata o imaginário coletivo naquilo que tem de mais genuíno e identificador, antes pelo contrário, se dá a palavra a uma erudição improvável de um apascentador de cabras. Aqui não há a memória plural de Gaspar Frutuoso, mas a ficcionalização dum fenómeno que não se mimetiza só na digressão pela Beira Alta. As Casas Mortas são-nos apresentadas como o resultado inevitável e inelutável sem que a sátira ou o humor permeiem a couraça de convicções de Manuel Cordovão. Existe uma interdependência do autor, personagens e leitor, que nos levou a rever enésimas vezes, cada passagem do livro para lhe darmos em inglês o tom, o colorido, a sonoridade e a poesia das prosas. Não era ocasião única, pois rapidamente me apercebi de que era recorrente à totalidade da obra ficcionada. A escrita de Daniel de Sá é uma prosa rica, densa e tensa, enovelando em diálogos simples e curtos um enredo que prende da primeira à última página.
“Santa Maria ilha-mãe” é uma viagem ao passado, permeada de uma nostalgia quase lírica e da magia da infância de cores despretensiosas mas bem refulgentes. Fala-se do isolamento ao longo dos séculos, dos ataques de piratas, ameaça constante a inculcar mais vincadamente as crenças de origem religiosa - na ilha pouco assolada por terramotos ou explosões piroclásticas.
Essa mundividência, transporta-nos num interessante roteiro turístico. O título gerou controvérsia, na versão portuguesa e inglesa, como o próprio autor notaria: “Não se trata de "mãe" com valor de adjetivo, mas sim de dois substantivos, tanto mais que os liguei com hífen. É uma ilha que é mãe também...”
Diz-nos o autor “O Clube Asas do Atlântico era um dos meus quatro lugares míticos. Ainda hoje recordo exatamente o seu cheiro” e todos nós sentimos os cheiros, as cores, as melopeias que nos descreve. A escrita de Daniel de Sá vagueia por tempos infindos. Os personagens credíveis servem de conduto e transportam-nos ao local para partilharmos sentimentos com os interlocutores. Como tradutor, senti uma espécie de síndroma de Estocolmo, ficara cativo e apaixonado pelos captores. Teria de escrever um livro que me libertasse da poção mágica que ingerira na escrita doutrem, e daí nasceu o volume 1 da “ChrónicAçores: uma circum-navegação”. Este o efeito avassalador que os autores açorianos inculcam naqueles que aqui não nasceram. Magistralmente, a escritora canadiana Ann-Marie MacDonald afirmou, “A tradução, tal como a escrita, é uma arte e uma maestria, com um toque de alquimia. Quando o autor e o tradutor se reúnem, o resultado pode ser inspirador. As nuances traduzem a língua numa forma de arte.“

2.3. DIAS DE MELO
Dias de Melo escreveu
“A esperança num mundo melhor já não será para mim, nem para nenhum de nós e eu revolto-me com o que vejo à volta de mim”
Surpreendo-me com a minha própria ignorância. Até Maio de 2008 pouco ou nada sabia sobre este autor que convidei a estar presente no 3º Encontro da Lusofonia para representar a literatura açoriana que quis dar a conhecer aos que nem sequer sabiam da sua existência. Dias de Melo era um operário, agricultor, pescador, escultor que trabalhava, ceifava, pescava e esculpia cada palavra, pois era um baleeiro da ilha do Pico, homem do mar, pescador, marinheiro, mestre de lancha. Escreveu como se da janela da sua “Cabana do Pai Tomás” no Alto da Rocha na Calheta de Nesquim vigiasse os botes e as lanchas da Calheta, baleando contra os Vilas e os Ribeiras. Andei meses na descoberta da genialidade, da sinceridade da obra que já li. Foi uma paixão literária à primeira vista, pois a sua escrita flui e embrenha-se como o nevoeiro em que os baleeiros se debatiam ao longo de séculos na luta inglória e injusta para ganharem a vida. Se tivesse que resumir o autor a uma palavra usaria INJUSTIÇA. É da sua denúncia que trata ao abordar temas como a emigração, a vida no Pico natal, as realidades sociais e económicas, a repressão no Estado Novo, e em todas, para além dos inúmeros dramas humanos retratados na linguagem simples dos homens do povo, lá vem a injustiça.
Entendendo as suas obras e a sua luta fica-se com a sensação de pertencermos à mesma família, uma espécie de alter-ego daquilo que gostaríamos de ter sido. Dias de Melo ficará inexoravelmente conhecido como o escritor da baleação. Coube-lhe a sorte de ter recebido merecidas homenagens públicas nos últimos meses de vida e a editora VerAçor re-editou alguns dos seus melhores livros. Cumpre-nos não deixar que a sua memória se esvaneça e porfiar para que seja lido pelas novas gerações. Dias de Melo era um espetador atento da luta quotidiana e da condição humana e resolveu contá-la ao mundo. Disso vos trago testemunho na certeza de que só o honraremos se o continuarmos a ler e a traduzir.

2.4. CRISTÓVÃO DE AGUIAR
Deixei propositadamente para agora fim outro autor favorito. Lamento apenas que este processo de aprendizagem seja lento se bem que recheado se surpresas inolvidáveis. Cristóvão de Aguiar é um escritor incómodo pois não só se libertou das grilhetas do espaço confinado das ilhas como conseguiu provar com a sua prolífica produção literária aquilo que mais se entreteve a negar: a existência de uma literatura açoriana. Exigente consigo e com os outros, com fama de inabalável, Cristóvão não se limita a ser controverso, domina a língua como poucos embora padeça da falta de confiança típica dos grandes escritores. Nunca se dá por satisfeito ao burilar no basalto da sua ilha adotiva do Pico as letras com que nos entretém. Como esteve do lado de lá dessa fronteira invisível que é o Grande Mar Oceano, sendo emigrado e transmigrado sem nunca deixar de ser residente, vê as ilhas pelos seus olhos, dos seus pais, irmão e família emigrada nos EUA. Também consegue olhar retrospetivamente para o Pico da Pedra onde nasceu, em São Miguel, e ver a pequenez das gentes e das ilhas, contentadas com uma qualquer emigração económica de fuga à fome e à canga feudal que persiste. Voltam, regressam sempre, na aparência vitoriosos, mas sem trazerem na bagagem nada de valor para além de dinheiro e outros bens materiais. Ao escrever sobre a ilha em que nasceu diz:
São Miguel já não é a mesma Ilha onde fui nado e criado e vivi até à arrogância dos vinte anos. Pude verificá-lo, há pouco, durante o 4.º Encontro Açoriano da Lusofonia, em que, para regozijo meu, não encontrei os costumeiros intelectuais de paco¬tilha, que sabem tudo quanto no Universo se passa, com retrato de pose na galeria dos imortais há muito mumificados… Nem é sequer a mesma Ilha que foi, até há poucos anos, muito nublada, já não digo por um nevoeiro absoluto, mas por alguns resquícios aparentados a certas pesporrências de má memó¬ria. … Temos, porém, de convir que, durante séculos, certas forças religiosas, conluiadas com todos os poderes..., foram o sustentáculo da ignorância abençoada pela trilogia Deus, Pátria e Rei de outros tempos, e Deus, Pátria e Família, do tempo de muitos de nós. Direi como Mestre Gil Vicente: E assim se fazem as cousas. Levou tempo, mas o inevitável aconte¬ceu. Acaba sempre. O medo e outras rançosas virtudes impostos ao espírito e nele lavrado em sulcos mais ou menos profundos (nem toda a terra consente a ignomínia), com relhas enferrujadas e passadistas, têm destes percalços - no ápice de um instante imprevisto esse terreno enfastiado de tanta ari¬dez femen¬tida e coerciva, súbito se de¬volve à sua límpida condição de húmus que favorece a estrutura do solo e do subsolo e do infra-subsolo: o consciente, o subconsciente e o inconsciente.
Cristóvão é um permanente passageiro em trânsito, título do seu mais benquisto livro, sempre na rota do inconformismo. Ele é a voz que se não cala e tem o direito a tal. Chama os bois pelo nome sem se deter nas finuras das convenções do parece bem ou mal. É crítico impiedoso dos destinos que alguns queriam que fosse eterno, o da subserviência e submissão aos senhores das ilhas, descendentes diretos dos opressores da gleba. Grandes narrativas que se assemelham a uma técnica de travelling em filmagem, com grandes planos, zooms, e paragens detalhadas nos rostos e nas mentes dos atores principais das suas crónicas e outros escritos. A câmara detém-se e escalpeliza a alma daqueles que ele filma com as suas palavras aceradas como vento mata-vacas que sopra do nordeste. Psicanalisando as gentes e a terra que o viram nascer adotou nova ilha mátria em 1996:
"A Ilha do Pico faz-me as vezes de mulher amada. Desvenda-se aos pou¬cos, em erótico vagar, para se lhe descobrir os recantos e sortilégios mais íntimos. E nunca se chega, nem se precisa, ao cerne do feitiço... Meio encoberta, meio des¬nu¬dada, sempre ataviada de cheiros exóti¬cos e eróticos, faz com que se abram as narinas de cio. Colhem os olhos as tonalidades indefi¬níveis de seus roxos e azuis, o cinza entorresmado de seus mistérios, seus verdes percorrendo toda a escala cromá¬tica, vertidos na paleta primigénia de que se ser¬viu o Cria¬dor para mati¬zar a tela da Natu¬reza. Sempre que caem sobre o mar do canal, cavado e furioso ou espelho de Narciso, a Ilha de São Jorge, nua e arro¬xeada, a garantir mais mundo, os olhos coalham-se de espanto em face do mis¬té¬rio de assistirem ao pri¬meiro dia da Criação... Não cabe no olhar a Montanha bíblica. Extravasa a humana retina. Bíblica. Acre¬dito ter sido em seu cimo, que roça o Céu, que Moisés rece¬beu as Dez Tábuas da Lei. E de um penedo fez jorrar a água que saciou a sede do seu Povo.
Cristóvão de Aguiar, já o disse, não é um autor fácil nem facilita, exige quase tanto dos seus leitores como de si mesmo, ele é o magma de que são feitas as gentes de bem destas ilhas. Tal como as palavras sentidas, gravadas fundo num granito que não existe nas ilhas mas que encontro na Relação de Bordo I do Cristóvão de Aguiar. Este autor que ora descubro como se o conhecesse há muito, como se tivéssemos sido irmãos ou compagnons de route à la Jack Kérouac na Route 66, iluminando o túnel das ideias por verter no alvo papel onde escrevo. Verdade seja que ando imerso na sua escrita tateando como um recém-nascido às escuras fora do ventre materno. Pressagio cordões umbilicais curiosos que nos unem. Se agora encontro neste amigo novo um escritor (ou terei encontrado um escritor que é um amigo novo?) que se crê maldito porque outros o fizeram assim, e porque é de si mesmo um ser acossado por tudo e por todos, mas sobretudo por si mesmo. Para ele, a escrita nunca será catarse pois ela é fruto de amores incompreendidos entre si e a sua ilha...
Como ele diz (Relação de Bordo II pp199-200)
Primeiro foi a ilha, nunca mais a encontramos como a havíamos deixado...trouxemos somente a imagem dela ou então foi outra Ilha que connosco carregámos...
Quando aprecio a obra dum autor não sei como fazê-lo, nem hermenêutica nem exegese me tocam pois são ramos do conhecimento para além da minha compreensão que estudos em Humanidades não tive nem meus pais me deixaram, e sou como sou e a meu pai o devo tal como Cristóvão o é devido ao seu pai. Continentes diferentes mas uma só realidade, ambos criamos os sulcos que hoje trilhamos percorrendo as savanas e as estepes do sofrimento pessoal, das amarguras e romances que nos interrompiam a escrita e nos dispersavam da missão sagrada. Ambos plantamos árvores, publicamos poesia e tivemos filhos em buscas incessantes pelo Santo Graal e desconfio que ambos sabemos hoje que não existe, a não ser na busca incessante com que criamos uma raison d’être nas nossas mentes conturbadas.
Cristóvão afirmava a propósito dos Colóquios da Lusofonia na Lagoa em Março/Abril de 2009:
“Lá encontrei, contra todas as minhas expectativas, uma plêiade de personalidades que fizeram olhar-me ao espelho da minha humildade, ao mesmo tempo que me infundiram confiança e à vontade, boa disposição e alegria, despreconceito e saúde intelectual... Soltei-me dentro da minha caverna; ao princípio, dei alguns saltos a medo, mas procurei conter-me e ir subindo devagar em direção à luz que me ofuscava. Ainda ando encandeado pela sua intensidade e pela rapidez com que tudo aconteceu, mas, pouco a pouco, espero desenvencilhar-me dos muitos cadilhos que ainda me amarram a um cais de onde nunca embarquei e nem sequer me lembro se em cima dele fui ficando permanecido. Há dias, foi a Maria do Rosário com a sua acutilante e profunda análise ao meu tão mal-amado Passageiro em Trânsito, que me calou bem fundo, e me deu um sentimento de desforço de que há muito andava carecido. Agora és tu. Já não sei o que dizer mais. As palavras fogem-se como coelhos bravos.
Nestas navegações literárias, uma pessoa não lê apenas mas percorre uma viagem tridimensional recheada pelos sentidos que fluem da escrita como lava “pahoe-hoe” (pron. pah hoi hoi) de aparência viscosa mas fluida, brilhante e entrançada como cordas prateadas. Outros autores subitamente parecem ser do tipo lava “A a” (ah ah), grossa e áspera, um magma de rochas solidificadas que são empurradas. Aqui nada é impelido embora por vezes se assemelhe na sua descrição e nos contornos emocionais à pedra-pomes que é o piroclasto dominante das rochas traquíticas. A observação de qualquer pedaço de basalto revela-nos, quase sempre, a existência de vesículas disseminadas na rocha e as vesículas de tal modo estanques, que a rocha pode flutuar na água por largos períodos. Resultam de gases separa¬dos do magma que, não tendo conse¬guido escapar para a atmosfera, ficaram aprisionados na rocha sob a forma de bolhas onde também ficam retidos ad eternum todos os leitores. A escrita lávica de Cristóvão fica retida a boiar no nosso imaginário. Foi ela que nos instigou a escrever esta lamentação com o frémito ciumento de todos os que não conseguem escrever da forma única e inimitável como só ele sabe e sente sobre os Açores. Essa a sua forma de amar e de recompensar a terra que o viu nascer...para que também ela desate as grilhetas que a encarceram no passado e ele se desobrigue finalmente dessa tarefa hercúlea de carregar a sua ilha como um fardo ou amor não-correspondido, que nisto de ilharias há muitas paixões não correspondidas. Ele é o mais lídimo representante da mundividência açoriana na escrita contemporânea e tarefa dos Colóquios da Lusofonia torná-lo mais benquisto e conhecido no mundo inteiro.

2.5. VASCO PEREIRA DA COSTA, AUTOR HOJE HOMENAGEADO
Quedemo-nos, doravante, na perspicaz apreciação que faz Cristóvão de Aguiar da obra de Vasco Pereira da Costa intitulada Nas Escadas do Império:
“Não é por acaso que Vasco Pereira da Costa, poeta de mérito, mas ainda no silêncio da gaveta, se apresenta no mundo das letras sobraçando uma coletânea de contos. Numa terra onde quase todos sacrificam às (as) musas e se tornou quase regra a estreia com um livrinho de poemas, a atitude (ou opção) do autor de Nas Escadas do Império não deixa de ser de certo modo corajosa como corajosos são os contos que este livro integra.
Não fora o receio de escorregar na casca do lugar-comum, e eu diria que esta mancheia de contos vivos, arrancados com mãos hábeis e um sentido linguístico apuradíssimo ao ventre úbere, mas ainda mal conhecido, da sua terra de origem, vem agitar as águas paradas, onde se situa o panorama nebuloso e um tanto equívoco da literatura de expressão açoriana. O conto que abre esta coletânea, Faia da Terra, é bem a prova do telurismo, no sentido torguiano do termo, de que o jovem escritor (Angra do Heroísmo, Junho de 1948) está imbuído, sem cair no pitoresco regionalista, tão do agrado de muitos escritores açorianos. Não resta a mínima dúvida de que o Gibicas, A Fuga e outras peças de antologia que aqui figuram vêm contribuir para o enriquecimento do conto português de especificidade e característica açoriana. Contudo, Vasco Pereira da Costa corre o risco (e ele mais do que ninguém disso está consciente) de vir a ser queimado nas labaredas inquisitoriais de certos meios ideológico-literários açorianos que têm tentado, oportunisticamente, mas sem raízes verdadeiras, edificar [...] uma literatura açoriana em oposição à Literatura Portuguesa. Nas Escadas do Império, quer queiram ou não os arautos da mediocracia, vem dizer-nos exatamente o contrário.”
Com efeito, não podia deixar de ser mais justo o juízo de valor supracitado.
Em primeiro lugar, estreia-se Vasco Pereira da Costa, em 1978, com uma coletânea de contos, Nas Escadas do Império, à qual se seguirão a novela Amanhece a Cidade (1979), publicada em Coimbra pela Centelha; a memória Venho cá mandado do Senhor Espírito Santo (1980), dada ao prelo em Lisboa; os poemas de Ilhíada (1981), editados em Angra do Heroísmo; Plantador de palavras Vendedor de lérias, antologia de novelas galardoada com o prémio Miguel Torga – cidade de Coimbra no ano de 1984; Memória Breve, datada de 1987 e surgida em Angra do Heroísmo; Risco de marear (Poemas), vindo a lume, em 1992, na cidade de Ponta Delgada; e, por fim, três obras poéticas, a saber Sobre Ripas Sobre Rimas, Terras e My Californian Friends, respetivamente publicadas em Coimbra, Porto e Gávea Brown, com data de 1994, 1997 e 1999.
Em segundo lugar, urge referir a originalidade de Vasco Pereira da Costa, evidente tanto na sua obra poética como na sua obra em prosa, que vem, segundo o Autor de Raiz Comovida, agitar as letras açorianas. Assim sendo, e numa perspetiva temática, cumpre realçar o telurismo genuíno patente em “Faia da Terra”, história do enamoramento de Teresa por um americano da Base, da sua subsequente partida para o Novo Mundo, já com o nome de Mrs. Teresa Piel, e da secagem da faia, dois meses após a descolagem do avião da Pan America. Nesta novela inaugural perpassam vivamente, como que fotografadas ao vivo, as rotineiras fainas insulares que, pela via da repetição, regem o quotidiano do ilhéu: “Era sexta-feira e a mãe amassava o crescente com a farinha de milho. No forno estalavam a rapa, o eucalipto e o loiro: [...] Lavou depois as folhas de botar pão e veio sentar-se ao pé dos meus socos de milho – bois de veras, espetados com palhitos queimados arremedando os galhos – no estrado do meio-da-casa. Arrumou as galochas no sobrado [...]” (1978: 11).
Por vezes, é a loucura insular que faz a sua aparição em cena, na figura do poeta Vicente, “um Côrte-Real impotente, tacanho e degenerescente” (1978: 71), o qual, volvido esse tempo em “que escrevia coisas tão lindas, de tanto sentimento”, tem o despautério de acumular guarda-chuvas na falsa e de publicar no jornal da Ilha desairosos alinhavos poéticos: “Prometeu / Prometeu / Não cumpriu / A promessa / Homessa!//” (“A Fuga”, 1978: 74).
Ainda a respeito do Autor de Memória Breve, cumpre salientar o seu apurado sentido linguístico, responsável pelo discurso das personagens (direto, indireto e indireto livre) que, caricaturalmente individualizado, se torna emblema de um falso cosmopolitismo insulano, ao qual não é alheio o inevitável açorianismo:
“Os americanos [...] Abancam mesmo rés-minés ao lado dos ingleses. Cinco. [...]
Cham-pa-gne! Cham-pa-gne!
Everybody drinks!
Ei, seinhore!
Today, pay day!
Ouviste? Olha que o mar não está de lapas! [...] Nove taças na bandeja; [...]
Os ingleses que no thank you; os americanos que yes, que sim senhor; os ingleses, dedos a abanar, que nada de caltraçadas, just Porto Wine; os americanos, pegadinhos, que O.K. para cima, que O.K. para baixo, [...] Nosso Senhor os aparte em bem. Se assim não fora, tínhamos para aí camponia.” (“Belmiro & Delmiro”, 1978: 42-43).
Em terceiro lugar, e ainda na ótica de Cristóvão de Aguiar, a coragem de Vasco Pereira da Costa, que a sátira, nas suas diversas vertentes, revela à saciedade. Assim sendo, atente-se quer na crítica ao salazarismo, regime repressor, totalitário e punitivo dos que ousam transgredir as regras impostas - “Como vim aqui [à ilha] parar? É simples: por ser anarquista e não peitear o Manholas de Santa Comba” (“O Manel d’Arriaga”, 1978: 31) -, quer na crítica à mentalidade medíocre, cuja pequenez constrangedora se espraia, em espaço íntimo e público, pela vida de outrem tão sigilosamente resguardada quanto violada de supetão - “[...] cada qual dava a sua sentença, todos em grande pensão, e não havia alcatra de couves que, à hora da ceia, não fosse temperada com palpites de desenlace.” (“Primavera”, 1978: 59) / “Todas três varadas pela língua maledicente de uma cidade [...] Tocava-lhes a vez de serem as atrizes da comédia, a elas, que sempre foram espetadoras criticas nas melhores coxias.” (“A Fuga”, 1978: 75) -, quer na crítica ao jornalismo barato e ao provincianismo dos articulistas, cujo discurso, pouco inovador, se vai ritualizando - “Começou então o embaraço. No jornal de amanhã, por entre os aniversários da gente fina [...] as partidas e as chegadas, os partos e as notícias do País e do Estrangeiro, os casamentos e os pedidos de, os horários de barcos e de aviões, as orações ao Menino Jesus de Praga e ao divino Espírito Santo [...]” (“A Fuga”, 1978: 82-83) -, quer, por fim, na crítica a uma certa ‘cultura de superioridade’ que ‘Mestre’ Gibicas se apresta a denegar: “[...] estávamos de língua entre os dentes para sibilar o th. O professor fazia empenho pois [...] era uma vergonha virem por aí abaixo os americanos e nós sem sabermos agradecer. [...] Até que foi a tua [Gibicas] vez. [...] Agarraste na caixinha vermelha, azul e branca, com as estrelinhas desse people para o nosso povo e, sem esperar o afago da farda grandalhona, gritaste-lhes alto, como ninguém ainda o fizera: - SANABOBICHAS!” (“Gibicas”, 1978: 137-138-141). Em asterisco de rodapé, explica o Autor o neologismo: “Son of a bitch”.
Em quarto lugar, a variedade genológica em que se move o Escritor homenageado, desde o conto e a novela, até à memória e à “crónica” breve, passando pela Poesia. E, a este propósito, não resistimos à tentação de transcrever o poema “Dinis, the Portuguese teacher” -

Na língua ausente a saudade maior
na palavra saudade a língua viva
Não a saudadinha de folclore
pitoresca e digestiva
constitucional e estatutária
de meter dó em dó menor
no caldo verde no rubro chouriço
Mas a saudade necessária:
Apenas quatro sílabas de compromisso (My Californian Friends, 1999: 17) -

- bem como o poema “Rose era o nome de Rosa”:

A mãe disse não mais
não mais eu não mais tu filha
não mais nomes na pedra do cais
não mais o cortinado da ilha

não mais Rosa sejas Rose agora
não mais névoas roxos ais
não mais a sorte caipora
não mais a ilha não mais

Porém Rose o não mais não quis
e quis ver a ilha do não mais
o cortinado roxo infeliz
os nomes na pedra dos cais

Pegou em si e foi-se embora.
Não mais Rose.
Rosa outra vez agora. (My Californian Friends, 1999: 25).

Não estaremos nós perante a açorianidade?

chrys chrystello, fev.º 2010

Bibliografia principal
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(') http://lusofonia.com.sapo.pt/acores/acorianidade_pavao_1988.htm#_ftn11#_ftn11

('')No ensaio e crítica: “Linguagem e Criação” (1973), “Cultura, Política e Informação” (1976), “Vitorino Nemésio. A Obra e o Homem” (1978), “David Mourão-Ferreira. A Obra e o Homem” (1980), “Temas Nemesianos” (1981), “Fernando Pessoa – “Coração Despedaçado” (1985), “Para uma Literatura Açoriana” (1987), “David Mourão-Ferreira – Narrador” (1987), “Vitorino Nemésio – à luz do Verbo” (1988), “Exercício da Crítica” (1995). No teatro: “Tragédia Exata” (1975) e “Domiciano” (1987). No conto: “Katafaraum é uma Nação” (1974), “Alecrim, Alecrim aos Molhos” (1974) “Querubins e Revolucionários” (1977), “Receitas para Fritar a Humanidade” (1978), “Morrer Devagar” (1979), “Contos Infernais” (1987), “Katafaraum Ressurreto” (1992). No romance: “Lugar de Massacre” (1ªedição: 1975), “A Fome” (1ªedição: 1978), “O Medo” (1982), “A Imitação da Morte” (1982), “Contrabando Original” (1987) e “Memória da Terra” (1990). Na poesia: “Feldegato Cantabile” (1973), “Invocação a um Poeta e Outros Poemas” (1984), “Temporal” (1986), “No Crescer dos Dias” (1996).