No Canto IX dos Lusíadas, Ilha dos Amores, «Camões dá este conselho pedagógico aos portugueses: os meus amigos, se querem alcançar o Céu na terra, tratem do seu navio, mantendo-o em ordem, com disciplina a bordo, porque um dia a Ilha dos Amores aparece».

Agostinho da Silva


terça-feira, 8 de junho de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
IX


-Bem, meus caros, parece-me que nenhum de vocês está a entender aonde eu quero chegar. Vamos lá a ver. O que eu estou a tentar explicar é que o homem, os seres humanos, para já permanecem agarrados às preocupações da sobrevivência e isso sucede apesar de todo o desenvolvimento que as nossas sociedades já conseguiram alcançar e que diga-se em abono da justiça, nem é tão pouco assim, é algo impressionante. Muito embora tenhamos ido à Lua, sejamos capazes de enviar sondas para o espaço exterior ao nosso sistema solar, apesar de tudo isso permanecemos o mesmo homenzinho de sempre que afinal passa a vida a ter que labutar para viver. Nesse aspecto não evoluímos muito em relação aos homens primitivos. Vejam só o que acontece todos os dias nas grandes cidades com o vai vem de milhões de indivíduos que todos os dias e deve dizer-se que são a maior parte dos dias do ano, milhões de pessoas que todos os dias abandonam as suas casas de manhã para só regressarem ao fim do dia, quantas e quantas vezes depois de dias esgotantes que mais não deixam que o espaço para a necessidade de dormir. Ora o que eu estou a afirmar é que esta é, pelo menos por enquanto, a realidade humana.
Mas isso que o amigo refere de um mundo sem trabalho, pois deixe que lhe diga que é precisamente esse que deve ser o destino do homem e mais, até me tento a defender que é para aí que as coisas apontam, pelo lado das tecnologias que cada vez mais nos permitem substituir a actividade humana na produção daquilo que é necessário e pelo lado de que, precisamente por via disso, cada vez mais vão sendo precisas menos pessoas para que se possam produzir as coisas.
-Bem, aí sou perfeitamente capaz de chegar a acordo consigo, mas não vejo como é que isso pode estar relacionado com a questão do super-homem.
-Ora essa, o destino do homem é esse mesmo, é poder viver sem ter que se preocupar em ganhar a vida. Esse é que é o grande destino da humanidade. O homem nasce sem o seu próprio consentimento, nasce, digamos assim, por convite e nesse sentido poderemos dizer que nascemos de graça. Então se nascemos de graça, faz algum sentido termos que depois ganhar a vida para vivermos? Parece-me um contra-senso. Pois bem, aquilo que eu digo é que o destino do homem é que o mesmo viva para se cumprir naquilo que se achar melhor, naquilo em que se possa sentir mais feliz, seja nos casos em que se queira dedicar às coisas do espírito, seja naqueles em que se queira dedicar às outras coisas. Ou até para viver sem se dedicar ao que quer que seja, viver só por viver, vadiando sem outro ensejo que não seja exactamente isso, vadiar apenas, sem mais nada.
-Nesse caso pergunto-lhe se acha que poderemos estar a falar de um futuro plausível.
-Acho, claro que acho, como não poderia achá-lo? Se sou eu que lho estou a dizer…
-E o que tem tudo isso a ver com o super-homem de que o senhor falou?
-Tem a ver que só ele conseguirá chegar a essa condição, só ele conseguirá materializar um mundo que esteja acima dos valores de querer ganhar a vida. Só mesmo um homem que esteja acima dessas pequenas paixões que perfazem as nossas vidas tal como as vivemos hoje em dia, só um homem assim é que poderá pensar em dedicar-se a viver unicamente para se cumprir enquanto ser infinito que é, de facto. Vejam bem, o homem comum jamais poderia e jamais conseguiria aspirar a isso. O homem comum é o homem da vidinha, o homem que vive enganado com a carreira e os entreténs do dia a dia, os soporíferos, como eu lhes chamo, para que se esqueça que é apenas uma pequenina peça numa engrenagem de que não é capaz, nem pode fugir. O homem comum é esse homenzinho que permanece escravo das necessidades de sobrevivência, aquele que acredita que o trabalho é uma virtude, que a vida ordenada e normalizada de um bom cidadão em sociedade seja uma virtude.
-E não acha mesmo que o seja?


-Não, não acho, se quer que lhe diga não acho que o seja, antes tenho para mim que… Como dizer? São obrigações. Eu diria que são obrigações vergonhosas para um ser que acima de tudo é um ser pensante e acrescento que o que não são para mim essas virtudes, muito menos o serão para o super-homem para quem, tais questões, jamais se colocarão na justa medida em que ele será aquele para quem o sentido da vida será que o homem se realize naquilo que o faz feliz, numa síntese, no que o faça viver em plenitude.
-Tudo muito bem, mas continuo sem perceber que, para tanto, haja a imperiosidade –é este o sentido das suas palavras- que para tanto haja a obrigatoriedade de aparecer o super-homem.
-Concordo contigo. Mas deixem-me aqui fazer um aparte para dizer que apesar de achar o ponto de vista que o senhor expressa um tanto ou quanto bizarro para os dias de hoje, seja como for, por aquilo que o senhor diz, fica-me a ideia que resume bem o que terá sido o pensamento do próprio Pessoa a este mesmo respeito. Quer dizer, pelo que li e, claro, tanto quanto me recordo, aquilo que seria, digamos assim, a ideia de Fernando Pessoa a respeito do super-homem não andaria longe daquilo que o senhor defendeu.
-Sim, mas não vejo qualquer admiração por isso ser assim. Afinal, ele é seguramente uma das minhas referências, não tenho qualquer dúvida quanto a isso.
-Mas veja, meu caro senhor. É justamente por me parecer que o Pessoa também pensava mais ou menos nos mesmos moldes em que você se expressou que eu, muito embora admita que ele é um nome maior, para não dizer dos nomes maiores, das letras em geral e da poesia em particular e isto mesmo a nível mundial, aliás, como todos já o defendemos aqui, mas eu, apesar de tudo isso, já não dou assim tanta relevância ao conteúdo do seu pensamento que já me merece as maiores reservas, para não aplicar um termo mais forte. Eu diria que se trata de Nietzsche em estado puro e, concretamente, continuo a pensar que os desenvolvimentos dessas ideias criaram, inclusivamente, quadros mentais e culturais em que se vieram a desenrolar as maiores tragédias do século vinte.
Era neste sentido em que te queria dizer há pouco que, embora admitindo que ele tenha construído um sistema filosófico, não era por isso que o fazia independentemente de saber se estaria ou não de acordo com as ideias que manifestou.
Seja como for, isto era um aparte.
Ora voltando agora ao que disseste, estou plenamente de acordo contigo. Até pelo facto de o pendor do discurso que o senhor está a fazer ser de todo recorrente em épocas de mudança, precisamente como aquela que o Pessoa viveu.
-O quê? Está a querer dizer que em épocas de crise surge sempre esta ideia do super-homem?
-Não, claro. Por ventura, ter-me-ei expressado mal. O que eu queria dizer é que já houve reacções semelhantes para com o homem comum em outras épocas.
-Desculpe-me, mas eu não estou a entender onde o senhor quer chegar.


(continua)

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