Dispersos XIII - 2011
Um desfile, ou torrente, de palavras-sons tantas vezes sem nexo, chegam, correm, tornam a partir e somem-se.
Decerto terão, hão-de ter, alguma razão para vir, ainda que eu não saiba, ou não consiga, ouvir.
Ergue-se depois o olhar e sai de dentro.
Cá fora tudo é mais claro e nítido.
Espraia-se, o olhar, em redor e encontra o outro que também é nós.
Interage com o ouvir que cata e capta um ciciar queixoso e mamífero até que, em expansão incontrolável, se alarga ao espaço vegetal e ao que voga, por o sabermos que não por o identificarmos, no espaço aeriforme carregado de odores que completam o conjunto.
E aí já a balada, apesar dos gritos, apesar da dor, ganhou a dimensão da sinfonia.
Os instrumentos que isoladamente constroem o som total, falam do hoje, do agora e do futuro que, irmãos meus, todos estamos a construir mesmo que o não saibamos, mesmo que o não queiramos.
Porque Entre-existimos.
Sim, isso é claro!
Som da vida.
Uma vontade de paz, justiça social e económica, desejo de devir fraterno, solidário, serviço, servir.
Irrompem então as palavras - mesmo quando a boca se queda em silêncio – acesas no olhar, no sentido directo do abraço e dos intérpretes que, como nós, todos, sabem o significado do verbo, do pão e das espigas.
E assim, quando torna ao dentro, vem o olhar mais iluminado e tudo é mais claro e luminoso.
A alma brilha, refulge, e o possível fica maior, o querer fica mais forte e o som que fica em fundo e envolve é o do amor.
m. j.
26.Abril.11
Uma Revista que se pretende livre, tendo até a liberdade de o não ser. Livre na divisa, imprevisível na senha. Este "Estudo Geral", também virado à participação local, lembra a fundação do "Estudo Geral" em Portugal, lá longe no ido século XIII, por D. Dinis, "o plantador das naus a haver", como lhe chama Fernando Pessoa em "Mensagem". Coordenação de Edição: Luís Santos.
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domingo, 1 de maio de 2011
sábado, 23 de abril de 2011
ÁRVORES CIDADÃS
DISPERSOS XI / 2011
Há árvores que viram nascer e acompanharam sucessivas gerações e gerações de conterrâneos nossos de qualquer parte.
Foram, são, tão presentes nas nossas vidas (embora por vezes pareçamos não reparar nelas), integram a arquitectura dos espaços que ajudam a organizar e humanizar, que quase lhes poderíamos dar um nome.
Para aquela, Maria, Cristina, Celeste ou Isabel, para aqueloutra Luís, Paulo, Pedro ou Manel. São seres, árvores, que adoptámos como nossos tornando-os membros da família global a que pertencemos.
São as árvores cidadãs e deveriam contar mais, merecer de todos maior atenção e respeito.
Até pela generosidade que as caracteriza e com que nos brindam.
mj
08.março.2011
Há árvores que viram nascer e acompanharam sucessivas gerações e gerações de conterrâneos nossos de qualquer parte.
Foram, são, tão presentes nas nossas vidas (embora por vezes pareçamos não reparar nelas), integram a arquitectura dos espaços que ajudam a organizar e humanizar, que quase lhes poderíamos dar um nome.
Para aquela, Maria, Cristina, Celeste ou Isabel, para aqueloutra Luís, Paulo, Pedro ou Manel. São seres, árvores, que adoptámos como nossos tornando-os membros da família global a que pertencemos.
São as árvores cidadãs e deveriam contar mais, merecer de todos maior atenção e respeito.
Até pela generosidade que as caracteriza e com que nos brindam.
mj
08.março.2011

A música das árvores, foto de lucas rosa (ver aqui)
quarta-feira, 13 de abril de 2011
TERRITÓRIOS DE SOLIDÃO
É o mundo a fechar-se
no centro de um mim
emparedando a alma
no medo de se ser assaltado.
Marcar por traços a passagem dos dias
sem curiosidade de espreitar por cima do muro.
É uma luz que se apaga ao começo da noite,
distância
que não confronta nem sequer se contesta.
Solidão,
é escutar o som do cabelo a crescer
até cobrir o corpo todo
e ter em cada mão um copo para se brindar ao que seja.
Solidão,
é um olhar que já não procura
num tempo sem emoção
e quando já sem chama e apagada
a lenha se torna carvão.
Solidão …
(podemos começar outra vez)
solidão é,
sob um céu rutilante de estrelas
sentir um adeus
de velas no mar.
mj
03 Abril, 2011
(escrito a propósito de um “trabalho de casa” da Comunidade de Leitores da Escola Aberta Agostinho da Silva, sobre o tema da solidão, aquando da leitura e discussão colectiva da obra “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Marquez.)
no centro de um mim
emparedando a alma
no medo de se ser assaltado.
Marcar por traços a passagem dos dias
sem curiosidade de espreitar por cima do muro.
É uma luz que se apaga ao começo da noite,
distância
que não confronta nem sequer se contesta.
Solidão,
é escutar o som do cabelo a crescer
até cobrir o corpo todo
e ter em cada mão um copo para se brindar ao que seja.
Solidão,
é um olhar que já não procura
num tempo sem emoção
e quando já sem chama e apagada
a lenha se torna carvão.
Solidão …
(podemos começar outra vez)
solidão é,
sob um céu rutilante de estrelas
sentir um adeus
de velas no mar.
mj
03 Abril, 2011
(escrito a propósito de um “trabalho de casa” da Comunidade de Leitores da Escola Aberta Agostinho da Silva, sobre o tema da solidão, aquando da leitura e discussão colectiva da obra “Cem Anos de Solidão” de Gabriel Garcia Marquez.)
domingo, 3 de abril de 2011
Dispersos - VIII / 2011
Transcendência,
Imanência,
Recepção,
Recepção,
Imanência,
Transcendência.
Que caminho tão longo
Mas termina já ali
A distância exacta que decorre
Donde vim, até aqui.
MJ
07.março.2011
Imanência,
Recepção,
Recepção,
Imanência,
Transcendência.
Que caminho tão longo
Mas termina já ali
A distância exacta que decorre
Donde vim, até aqui.
MJ
07.março.2011
Árvores de Luz, Foto de Lucas Rosa (in, A terra das mil árvores e outros tantos poemas)
quarta-feira, 9 de março de 2011
TEATRO DO MUNDO
Eu dou o que sinto,
tu emprestas o teu nome e
para o mundo
- que não sabe –
o nós, és tu.
Entre-existimos
sem perto nem longe.
Sem distância.
Directa-indirectamente
como terra e raiz, água e fruto, abelha e flor.
Pulsamos num nós
mesmo que não visível
na composição.
Pele que envolve a polpa,
Favo, colmeia, mel.
mj
tu emprestas o teu nome e
para o mundo
- que não sabe –
o nós, és tu.
Entre-existimos
sem perto nem longe.
Sem distância.
Directa-indirectamente
como terra e raiz, água e fruto, abelha e flor.
Pulsamos num nós
mesmo que não visível
na composição.
Pele que envolve a polpa,
Favo, colmeia, mel.
mj
domingo, 23 de janeiro de 2011
Raúla
Pintura de António Tapadinhas
Deambulando por aqui e por ali vão-se encontrando coisas.
Umas alegres e o riso solta-se, outras tristes e a alma guarda-se.
Na bissectriz de ambas labuta a mente.
Cresce, latejando.
Outro dia, conheci uma árvore.
Gostou de mim, penso, pois abriu a alma e disse-me em clima de confidência:
«Raúla é o meu nome»
«Muito prazer», disse eu.
E agradeci a confiança de me mostrar a sua dimensão conversável.
Não se ficou por aqui. Sentindo-se tranquila – e sem ninguém por perto que pudesse interromper ou violar o clima de confidência – foi por ali fora dizendo:
«Eu já fui muitos(as). Iluminava-me ao clarear de cada dia e recolhia-me com cada poente em que não conseguia verbalizar a doçura que me invadia. E tinha sempre os olhos postos no dia que ia nascer. Amanhã. Nos intervalos, enquanto o dia se consumia, falava com meus irmãos disfarçando a voz no voltear da brisa. Havia a proximidade do mar e o bafo da maresia impelia-nos a dançar. E nós dançávamos, mesmo que para isso tivéssemos de inventar um vento que nos animasse. Do alto da minha copa, em momentos de reflexão acarinhando a alma, avistava o mar. No meio do mar, um pouco lá ao fundo, brilhava uma ilha. Terra, no meio do mar. Linda! Ponto de apoio partida-chegada-partida p’ra mais além, abarcar o longe, torná-lo mais perto. Um dia – há sempre “um dia...” soando a desgraça – agitou-se o mar. Criaram-se ondas agitadas, enormes, e, num movimento incontrolável (para mim), cobriram a ilha, submergindo-a.
Terá desaparecido? questionei-me. Não! Mudou apenas de estado e passou a pulsar, inteira, dentro do mar.
E o mar, que o sabe e a sabe, ficou maior. Mais relativo também.
Também comigo aconteceu. A desgraça...
Chegaram um dia as máquinas e, sem dizerem nada, começaram a derrubar os meus irmãos. Caíram ao meu lado aos milhares (1), e eu, por cada um que caía, ia morrendo um pouco também até pensar que não havia mais nada em mim que pudesse morrer. Julguei-me morta também.
Enquanto assim me recolhia e abstraía, fui-me tornando fraca. A fraqueza invadiu as minhas defesas e fiquei mais vulnerável do que nunca. Da minha fraqueza se aproveitaram. Invadiram-me e violaram-me e eu, ferida, abri-me para que melhor e mais fundo me atingissem. As feridas cobriam já o meu tronco, ramos, folhas, e eu não reagia. Morria lentamente sem saber, sabendo.
Um dia logo pela manhã, ia já longa a agonia, duas aves graciosas escolheram o delicado entrançado dos meus ramos mais altos para iniciar a construção do ninho que protegeria os seus ovos e garantiria a sucessão com novos filhotes.
Chegava-se a hora, o tempo urgia, para eles.
Insinuava-se o macho, em intermináveis paradas nupciais, exibindo a exuberância da sua plumagem, gorgolejava a fêmea rendendo-se, receptiva.
Sob o meu olhar desarmado, desenhava-se o repetido mas sempre novo e mágico ritual que garantiria a continuidade, a renovação e o futuro.
Senti um calorzinho pelo tronco acima e a seiva ganhou um novo fluxo.
Ainda que extremamente débil, senti que readquiria um sentido para a vida, que valia a pena passar além da dor e continuar a maravilhosa aventura que, apesar de tudo, constitui o viver.
Passados dias neste torpor doce, reagindo e recuperando, senti impor-se dentro de mim uma decisão inabalável. Olhando a toda à volta, proclamei na minha voz de árvore: Não morro!
Reactivei defesas, estanquei feridas e alindei-me o mais que pude. Agora estou aqui, renovando-me a cada estação e dando frutos mesmo sem que me peçam. Inda agora aqui cheguei...
E assim, aquilo que pretendia fosse um simples passeio contemplativo e retemperador, acabou por se saldar numa maravilhosa lição sobre a atitude perante a vida, até mesmo nos revezes com que ela por vezes nos surpreende.
Foi um prémio à atitude de, num momento mágico e feliz, ter havido a capacidade de sair de dentro do casulo fechado em que tantas vezes se blinda o ser individual que a cada um assiste e, abrindo-se, aceder à possibilidade de escutar as vozes que vogam soltas na brisa.
(1) – Referia-se ao abate do saudoso Pinhal do Castanho
MJ
sábado, 15 de janeiro de 2011
DE TRÁS DO TEMPO. ISTMOS
Fios de azeite ateados desbravam interiores obscuros de casas pobres de povo vestido de escuro.
A labareda da lareira reforça o esforço de claridade perante o breu.
Como istmos,
os favos e a colmeia.
Madrugada, aurora, manhã, tarde, crepúsculo, noite.
Noite?
De novo a madrugada.
Uma nova e plena madrugada.
MJ
15.01.11
A labareda da lareira reforça o esforço de claridade perante o breu.
Como istmos,
os favos e a colmeia.
Madrugada, aurora, manhã, tarde, crepúsculo, noite.
Noite?
De novo a madrugada.
Uma nova e plena madrugada.
MJ
15.01.11
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