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domingo, 2 de junho de 2019

Maria das Dores Nascimento - Novo Livro



Novo livro de Maria das Dores Nascimento, "O Homem que tinha Medo de que ninguém fosse ao seu Funeral". O lançamento será na 48ª Feira do Livro de Alhos Vedros que se realizará entre 27 a 30 de junho, junto ao Coreto.


quarta-feira, 20 de março de 2019

Música de Palavras




Pássaros Noturnos, Fotografia de Lucas Rosa



1º andamento – da Meditação
Erguido que foi o cruzeiro ao alto
depois que se relembrou o caminho
que vai até à Páscoa e do temporal
da ventania, do escurecer do céu
afinal do retorno indo-europeu
de cruz às costas no Teu sacrifício
e do sofrimento pela ressurreição
almas penadas adiadas na angústia
dos dias que se encolhem e demoram
a revelar mais do que a própria luz
do sol que nos aquece e nos anima
e nos vira para cima, que é todo o lado
nos tempos em que recordamos o Veda
do entorno do sangue pelo dom da graça
dos deuses que nos visitam e ignoram
bebem dos nossos cansaços e só dão
os braços imensos ás preces, aos rogos
aos caídos entre vivos e mortos fomos
e pusemos Cristo e Buda no cataclismo
da Índia, do Tibete ao Japão, em união.


 2º andamento – dos Mantras
Silêncio.
Aquele jesuíta António de Andrade
passou para lá da verdade, das neves
perpétuas são as horas das pedras frias
das prisões de meditações sem fim
a ideia do vazio de que a mente mente
no fim do dia da tecnologia das velas
à bolina triangular a sina do paraíso
onde afinal, não há bem nem mal
a separação foi uma invenção da queda
de anjos trôpegos de golfadas universais
a expansão contínua infinita das almas
sofrimento que é alegria, na natureza
do dia claro que se segue ao nevoeiro
o quinto império e o espírito santo
en-canto nosso, almejado momento
nirvana e iluminação fraterna do tempo
na misericórdia da guerra e nos desejos
da paz, em que tudo é Um, tudo é assim
sem dualidades no grito dos corpos.


 3º andamento – do Êxtase
O dia nasceu em paz na tona das águas
o mar que nem bulia feito um espelho
um calmo chão por onde se pode andar
uma oração feita meditação e o ioga
das pernas esticadas, das costas direitas
o fluxo dos fluidos orgânicos nos círculos
dos olhos parados etérea comtemplação
quase nada quase tudo vida parada
calmas vão as mentes e pacíficas são
as ações de não agir que evitam malefícios
proclamação da eliminação do sofrimento.
E então, em que ficamos trindade nossa,
penamos para não penar? Deixamos o mar?
O balanceado enjoo, a fome, o escorbuto
deixamos a canela, as belas sedas, os véus
as curvas das pernas e os seios, a cama
sutra do diamante de meditações tântricas
de divinas mulheres do amor e do amar,
qual a suprema razão de um ser de dor
pelo que deste a vida para nos salvar!?

quarta-feira, 13 de março de 2019

Uma Missa de Espanto


estudo, 8º dia da quaresma, Luís Carlos dos Santos (continuação)





1º andamento – um canto gregoriano, uma missa de espanto

Num terceiro domingo, dobram os sinos
replicam os salmos ao longe na igreja
interiorizam-se os cânticos e as teclas
do órgão que vai devagar de olhos semi-fechados
quase que nem se canta, murmuram as almas
repetem as gentes, reclinam-se os peitos
e as mãos postadas no caminho da cruz
os joelhos nas lajes frias do chão, outra vez
fazem-se mais uma vez as infinitas contas
do rosário, da oração, contemplativo silêncio

Não se foge do sofrimento, antes se lamenta
do Deus, da condenação e do arrasto do corpo
ir com ele, de subir com ele, de o ver luzir
monte da esperança, vozes dos anjos que cantam
tocam as trompetas no envolvimento do Espírito
messiânicas expectativas de servos humildes
do que É de dar a vida em sacrífício, salvívico
caminho da perseguição e da morte, todavia
da gloriosa consciência que a ressurreição anuncia
da gloriosa poesia que em voz suave nos acalma.


2º andamento - o vira da natureza

As nuvens vêm carregadas de um temporal
de onde sopram os ventos e arrefecem as noites
os ramos das árvores são feitos de assobios
e as águas despenham-se pelos penhascos
pintando de terra molhada a face da terra

Logo mais rasga-se o sol e rompem-se as flores
cheias de cores  os campos de tremoço e papoila
o verde acastanhado da planície que se estende
por meio de um vale entre rios e risos da festa
do estalar das rolhas das garrafas do vinho

As andorinhas chegam cansadas, ofegantes
correm as danças nos caminhos dos cruzados
pagãos de braços dados na folia dos corpos nús
rituais sagraddos na fecundação da terra
um bem que é mal,  e um mal que é bem,

meu bem.


 3º andamento – o corridinho das águas

Apressados e unidos apressam-se os pingos
grossas vêm as chuvas, prenúncio de abril
chuvas mil aos molhos escorre a salmoura
das lágrimas das fontes e dos montes
que se alagam e se desfecham aflitos
desenfreados correm os rios de caminhos
dos oceanos plenos de glaciares degelos

Os atropelos dos passos das concertinas
e das serpentinas reais dos arraiais furores
dos tambores, pandeireitas, castanholas
e das espanholas dos festivos sorrisos
o ribombar dos foguetes e o som de ferrinhos
dos tamancos das moças que cantam no chão
e eles de braço dado num rodopio sem fim

O oceano, o mar azul que se estende nos pés
do calor no pico do meio dia, todo o dia
ondas de alfarrobas, amendoeiras em flor
e os meus amores que nem as cores todas
das oliveiras milenares, toda a areia da praia
onde se amolecem as mentes descansam
os corpos, das passas e dos medronhos.


(in, Luís Carlos dos Santos (2018) Dar Voz ao Silêncio. Música de Palavras. V. N. de Gaia: Euedito, pp.18-21)

quarta-feira, 6 de março de 2019

Uma música silenciosa


Fim do Entrudo. O repouso das almas (mais que um réquiem) – hino às estrelas.


1º andamento: pé ante pé
Vamos dar voz ao silêncio
pensar numa música silenciosa
pouco ruidosa, um calmante natural
sem esforço de pensar, tocar devagar
afagando as cordas, soprando nas teclas
sem elevar a voz, soletrar

um passo leve, um rodopio suave
de uma dança parada, quase nada
quase mel que escorre de dois
corpos juntos, ou nem isso
um meigo sorriso, um instigante segredo
um recado de uma brisa que nem vento

por dentro, uma suave respiração
que mal se ouve o coração do mundo
sossego, enlevo, alargo a consciência
o laboratório da amizade, é que nem marcha
nem fúnebre, tão pouco rufo do tambor
um canto de escovas na bateria, se tanto

Fecho os olhos, relacho a pena, arrumo o fado
passo, não dou o passo, e fico com o universo
de braço dado.


2º andamento: passo curto
Tudo é, tudo exulta de si, vibram os corpos
dançam os átomos, o som que não se detém
as paredes que não vedam, o entre-penetra
da água, o sabor do sumo da fruta, da flor
da imagem que dá no olho, da transformação
do mundo mudo, mecânica do universo

do trabalho que dá saciar o corpo, da posse
da terra, do matar o vício, das linhas no chão
de construir os muros que nos protegem
do medo que dá, da raiva de se ter, a dor
do que se trás às costas e se passa aos outros,
o que não cessa, nem cura

a curva da perna, a venda das pernas, a tesão
o parto, a violência e a doença do corpo
da alma renascida, do que fica torto e tropeça
do que devaneia e se enleia na espuma dos dias
eis o que se vê, defuntos adiados, malcriados,
invejosos, débeis, frágeis, ilusórias fantasias

Ou o calor que nos esquenta, essa luz branca
o que nos faz brilhar, a que nem chega o ouro,
o Sol.


3º andamento: alegre, quase parado
O terno olhar das pétalas de uma flor
e o meu amor, uma cristiana solicitude
um lamento, um queixume, um ai, o ser
redondo e pontiagudo de um seio, de um índio
de uma clareira na floresta, de uma festa
mirabolante fora do bulício da cidade

a luz de uma fogueira e o braseiro que dá
do fogo, do crepitar da lenha, do calor
que nos anima a noite fria, a poesia
que se empresta à música que continua
suave, afinada, muito pouco ritmada
que nem a tango chega, um entre-tango só

mas as pétalas da flor lá estão e insistem
de vermelhas que são, coladinhos corações
de boas visões, de um doce passeio por letras
doces e calmas como as águas do riacho
que escorrem em seiva e lhes dão cor
porque amor que é amor, é mesmo amar

a forma da água, o símbolo da vida, vi
um outro dia duas lindas criaturas, deusas
crianças nuas.


(in, Luís Carlos dos Santos (2018) Dar Voz ao Silêncio, Música de Palavras. V. N. de Gaia: Euedito, pp. 15-17)



quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Livros em Destaque



De Março a Maio de 2008, tiveram lugar os Encontros sobre as Ordens do Templo e de Cristo, no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha. Pinharanda Gomes, Margarida Alçada, Pedro Teixeira da Mota, António Telmo, Ana Paula Figueiredo, Ernesto Nazaré Alves Jana, Bernardo Motta, Nuno Villamariz Oliveira, José Manuel Capelo, António Andrade, José Medeiros, Álvaro Barbosa, Abdul Cadre e António Maria Balcão Vicente, são os autores das excelentes comunicações que se apresentam nesta obra.

Ver mais AQUI.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

"Happy Meal - manjar sentimental" Risoleta C. Pinto Pedro




Texto de apresentação do lançamento do livro de Risoleta C. Pinto Pedro "Happy Meal - manjar sentimental", de Luís Santos, na Escola Artística António Arroio, em 20/10/2015:



“Happy Meal” – manjar sentimental
Manual de sobrevivência para adultos às voltas com adolescentes

Agradecimentos

Antes de mais, agradecer o convite que me foi dirigido pela amiga Risoleta para apresentação do seu livro.
Ficámos particularmente satisfeitos pela apresentação do livro acontecer na Escola Artística António Arroio pela qual temos especial carinho, até porque Rui Madeira, o seu Diretor, é um amigo de longa data, com quem o destino se vai encarregando de nos marcar encontros amiúde pelo tempo, em lugares muito inesperados. Como sabemos, foi também aqui que a amiga Risoleta passou largos anos à volta com adolescentes, coisa que como se verá foi, e continua a ser, muito merecida sina de vida.
Agradecer a presença de todos.
Dividiremos a apresentação do livro em duas partes: A primeira onde faremos algumas referências à sua capa, título e estrutura; a segunda, onde abordaremos algumas das suas múltiplas interessantes questões.

1ª Parte – Capa, Título e Estrutura do Livro

- Sobre o título, “Happy Meal – manjar sentimental”, embora tenha demorado a chegar, como nos confessa Risoleta, não podia ser mais adequado. Creio que já todos ouvimos falar nesse procurado “hamburger” de famosíssima indústria alimentar. Ora, para um livro que se dá, desde logo, como um “manual de sobrevivência para adultos à volta com adolescentes”, uma das grandes apreensões que logo transparece é, justamente, o “fast food” (ou “comida de plástico” como é também de uso dizer-se), constituir o tipo de alimentação preferencial de muitos adolescentes, mais as nefastas consequências que daí advêm. Particularmente, quando se pensam os cuidados a ter com a alimentação como de decisiva importância para uma “mente sã, coração terno, corpo puro”, lembrando a divisa rosacruciana, de forma a que uma saudável longevidade nos assista.

É também por aí que vai a singela pintura de capa, de Bruno Ma, viva criatividade e aprumada estética, onde numa mesa posta e pronta se serve tempo e equilibrada geometria, que junta triângulos a uma plena lua e a um rio onde se espelha o céu, a expressa paisagem que assiste à autora e à necessária inspiração literária que determina a obra. Título e pintura revelam-se, assim, como pingos de luz que se inscrevem e resplendem no preto neutro do fundo da capa.

Deixando umas palavras pela Estrutura em que se ergue este, e digo já, magnífico livro, a imagem que nos ocorreu quando da sua leitura foi a de uma bela sinfonia, dividida em vários andamentos, talvez pela ligação que a autora tem mantido com a dança e seus libretos múltiplos. De facto, o livro constitui-se por narrativas várias, a um só tempo independentes e interligadas, dando possibilidade de uma leitura a várias vozes que são, tal e qual, a múltipla heteronímia da própria autora, desenvolvida e cimentada durante diferentes períodos e instâncias da vida, pois que é de uma narrativa de cariz autobiográfico que se trata.

Cada um dos 4 andamentos em que vemos dividido o “libreto da sinfonia”, um justo adjetivo para este nosso livro, trazem toda uma trama onde se vão desenvolvendo as grandes linhas de força da narração. Mas tenhamos em atenção que estes “andamentos sinfónicos” não se sucedem consecutivamente, antes se trocam e misturam entre si, dando origem a perfeitas alterações de ritmo nas voltas do texto.

Assim, num 1º andamento, é-nos oferecido um registo autobiográfico de superior reflexão espiritualista que constitui a narrativa central da obra;
Como 2º andamento, temos uma compilação de peculiares “receitas alimentares” alquímicas, onde a mistura dos corpos com os alimentos não podem ser abandonados, sem mais, às imperiosas necessidades lucrativas de uma obesa indústria alimentar;
No 3º andamento, intitulado “As Lições do Tonecas II”, pressupostamente escritas por pena de adolescente, o seu sobrinho Rubem, descreve-se em discurso direto uma velha escola, caduca, onde se alerta para os tradicionais desencontros e as falhas de comunicação entre professores e alunos, agrilhoada que está a velhos modelos sem força para se libertar;
Por fim, um 4º andamento, de seu nome “A Casa do Vento Vazia”, onde se assinala um mergulho intenso nas memórias de infância da narradora, nas suas purezas e medos, mas onde se reconhece convictamente que o melhor do mundo são mesmo as crianças, como sustentam poetas e deuses, mas ainda assim com tanto mal em redor. E citando a autora, “a menina luz que eu fui sem saber, está sempre ao meu lado nas minhas aventuras dos sonhos, como um duplo…”

2ª Parte – A Trama do Livro

Avancemos para as grandes linhas estruturantes por onde se estende o livro, desde logo, sem que esqueçamos o seu subtítulo, “um manual de sobrevivência para adultos à volta com adolescentes”. Comecemos pelos personagens principais e por alguns dos traços que mais os caracterizam:
Renata (algumas vezes também nomeada por Suria), narradora e personagem central, a braços com o seu recente divórcio, mais as perturbações e inseguranças que se lhe possam associar, mas também a liberdade de quem fica com a própria vida, inteira, entre mãos. Mas eis que subitamente lhe entra em casa um sobrinho, que vem estudar para Lisboa e ocupar-lhe a casa e o tempo, mais os imensos necessários cuidados que a adolescência sempre trás consigo. O sobrinho e uns quantos amigos de quem se vai rodear.

Como se não bastasse, o divórcio trouxe a Renata a necessidade de mudar de casa e acaba por ir morar para um prédio onde vive um Professor, José Bento de seu nome, que tem tanto de simpático como de enigmático vizinho, conhecido na vizinhança por ser “comedor de rosas”…

Detenhamos, então, a nossa atenção nas 2 principais questões com que Renata se vai debater ao longo da estória. Por um lado, as preocupações que a dieta alimentar do sobrinho lhe trás: o vício dos “happy meals”, problema que ganha dimensão particular para quem é vegetariano como é o caso da narradora; e, por outro, quais os valores que se escondem por detrás de um vizinho, professor, que é “comedor de rosas” e, como se não bastasse, está de licença sabática a fazer uma tese de doutoramento sobre… “rosas”, com quem Renata vai, afinal, descobrir que tem muitas coisas em comum.

Pensemos no simbolismo espiritual das rosas, pois que reconhecemos em José Bento um personagem caracterizado por desenvolvida espiritualidade, em busca de explicações para os mistérios da vida. Como a própria Renata diz, “das rosas que nos trazem o amor e que entre reencarnações e ressurreições, nos livram da morte”. Numa tese de doutoramento, em cujos capítulos se enunciam estudos sobre “o grande arquiteto do universo, da rosa que floresce na cruz, ou do milagre das rosas”.

Para nós, antes de mais, entre as repetidas rosas e os mistérios que em si encerram, logo automaticamente nos chegam duas figuras centrais da História de Portugal, esse rei e poeta “plantador das naus a haver”, como Fernando Pessoa se refere a D. Dinis na sua Mensagem, pela importância que haveria de ter no devir da expansão ultramarina portuguesa, e na sua mulher, a santificada Rainha Isabel de Aragão, mais o seu “culto popular do Espírito Santo”, sobre o qual Agostinho da Silva tanto refletiu e enalteceu.
Mas diga-se que o espaço geográfico, cénico, em que se desenrola a misteriosa trama do livro, pois que é um livro essencialmente sobre vida e “misteriosofia”, utilizando o conceito de António Telmo, longe de se centrar exclusivamente em Portugal, faz pensar num amplo espaço/tempo que vem, pelo menos, desde o Antigo Egito (sem esquecer a diáspora judaica) e se estende até Tomar, cidade templária, onde, como é sabido, posteriormente se sediará a “Ordem de Cristo”, que depois partirá nas naus para o Oriente, para a Índia, para o Tibete, “dando novos mundos ao mundo” para relembrar o verso de Luís de Camões. Mas não descurando, que lá temos também o Tao e temos Buda, entre esse espírito português ecuménico, “católico”, quer dizer, universal, para não fugirmos de todo à etimologia da palavra, onde tempo e eternidade se pretendem coetâneos.

A determinada altura da estória, José Bento, o tal da tese de doutoramento, corria o mês de Dezembro, chama a atenção de Renata para um barco que tinha chegado a Lisboa carregado de rosas. Ao que esta logo pergunta: “Rosas em Dezembro?”…
Embora não se refiram grandes pormenores sobre a estrutura do barco, nem dos lugares por onde navega, necessariamente que o vemos construído com pinho de Leiria e com passagem obrigatória pela “Ilha dos Amores”. Mas Renata acaba por não ver estranheza naquele facto e logo a sua superior prosa nos esclarece: “…No estado em que estávamos achávamos tudo natural. Apesar de tudo deslumbrados. Mas era um deslumbramento natural perante a naturalidade das rosas. Porque, nesse momento, era para nós uma evidência que os milagres nos rodeiam e apenas esperam que reparemos neles.”

Evidenciados, e semi-resolvidos, que ficam alguns dos mistérios de José Bento, porque o mistério, como se conclui nesta obra, veio para ficar, iremos agora à responsabilidade que a narradora sente nos cuidados a ter com a alimentação de Rubem e o problema dos “happy meals”.

Num momento de descrença amorosa, Renata decide fazer com Rubem uma peregrinação a Santiago de Compostela. Vai cuidar demoradamente dos pormenores necessários a delicada viagem, mas nas vésperas da partida, para seu grande tormento, obrigações profissionais acabam por lhe trocar as voltas e impedi-la de fazer a viagem. Rubem, porém, não desiste e mais o seu amigo Tiago avança rumo à Galiza. E eis, então, que no regresso o milagre se dá: o apóstolo, Santiago, o amor, não lhe vai permitir continuar a alimentar veleidades. E se o corpo, o coração e a mente, se querem puros, ternos e sãos, não há-de ser com “happy meals” que se vai lá chegar.

Terminando, gostaríamos de deixar bem claro, sem favor algum, que estamos perante um livro extraordinário, onde “o verbo fala o verbo”, o que só por si dispensa mais elogios. Este o seu maior prémio, a luz que a palavra sagrada lhe dá, mas que pela sua humilde grandiosidade, certamente, que outros bons e duradouros prémios virão. Adivinha-se.

Pelo nosso lado, não podemos deixar de manifestar a nossa gratidão à autora, pela preciosa amizade, pelo convite com que fomos distinguidos, mesmo não nos julgando à altura da apresentação dos requisitos de tão digna obra. Mas talvez que um poema de Agostinho da Silva, com que os deixamos, lhe possam trazer mais justiça. Diz assim:

“Se eu chegar a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo 
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

não só homens mas também
os animais e as plantas 
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurrecta da morte".



Luís Santos

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A Empresa do Futuro


um pensamento humanista, uma sociedade (mais) justa, uma porta de saída que se deseja tranquila para o que virá a seguir



A EMPRESA DO FUTURO

 Nome: “COM URGÊNCIA, MAS SEM PRESSAS”

 Estatutos
1. Tendências vegetarianas (pela progressiva eliminação do sacrifício animal).
2. Tendência à não dependência de álcool ou drogas (no sentido de uma valorização da saúde).
3. Valor Supremo - o Amor.
4. Pela paz, pelo respeito mútuo e pela liberdade.
5. Por um desenvolvimento espiritual e material que respeite o “planeta verde”: Uma nova dimensão da vida. O céu na terra, se não existirem impossibilidades estruturais.

 Do Pessoal
 . Evitar subordinados (...)

 Do Horário
1. De início não mais de trinta horas semanais, podendo alguém trabalhar mais se disso tiver vontade.
2. Sessenta dias de férias por ano (com possibilidades crescentes e sem cortes nos feriados...).

(...)

9/10/95
Luís Carlos dos Santos

P.S.: Texto com algumas alterações estéticas, mas não de substância, face ao original.