Novo livro de Maria das Dores Nascimento, "O Homem que tinha Medo de que ninguém fosse ao seu Funeral". O lançamento será na 48ª Feira do Livro de Alhos Vedros que se realizará entre 27 a 30 de junho, junto ao Coreto.
Uma Revista que se pretende livre, tendo até a liberdade de o não ser. Livre na divisa, imprevisível na senha. Este "Estudo Geral", também virado à participação local, lembra a fundação do "Estudo Geral" em Portugal, lá longe no ido século XIII, por D. Dinis, "o plantador das naus a haver", como lhe chama Fernando Pessoa em "Mensagem". Coordenação de Edição: Luís Santos.
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
domingo, 2 de junho de 2019
quarta-feira, 20 de março de 2019
Música de Palavras
1º andamento – da Meditação
Erguido que foi o cruzeiro ao alto
depois que se relembrou o caminho
que vai até à Páscoa e do temporal
da ventania, do escurecer do céu
afinal do retorno indo-europeu
de cruz às costas no Teu sacrifício
e do sofrimento pela ressurreição
almas penadas adiadas na angústia
dos dias que se encolhem e demoram
a revelar mais do que a própria luz
do sol que nos aquece e nos anima
e nos vira para cima, que é todo o lado
nos tempos em que recordamos o Veda
do entorno do sangue pelo dom da graça
dos deuses que nos visitam e ignoram
bebem dos nossos cansaços e só dão
os braços imensos ás preces, aos rogos
aos caídos entre vivos e mortos fomos
e pusemos Cristo e Buda no cataclismo
da Índia, do Tibete ao Japão, em união.
Silêncio.
Aquele jesuíta António de Andrade
passou para lá da verdade, das neves
perpétuas são as horas das pedras frias
das prisões de meditações sem fim
a ideia do vazio de que a mente mente
no fim do dia da tecnologia das velas
à bolina triangular a sina do paraíso
onde afinal, não há bem nem mal
a separação foi uma invenção da queda
de anjos trôpegos de golfadas universais
a expansão contínua infinita das almas
sofrimento que é alegria, na natureza
do dia claro que se segue ao nevoeiro
o quinto império e o espírito santo
en-canto nosso, almejado momento
nirvana e iluminação fraterna do tempo
na misericórdia da guerra e nos desejos
da paz, em que tudo é Um, tudo é assim
sem dualidades no grito dos corpos.
O dia nasceu em paz na tona das águas
o mar que nem bulia feito um espelho
um calmo chão por onde se pode andar
uma oração feita meditação e o ioga
das pernas esticadas, das costas direitas
o fluxo dos fluidos orgânicos nos círculos
dos olhos parados etérea comtemplação
quase nada quase tudo vida parada
calmas vão as mentes e pacíficas são
as ações de não agir que evitam malefícios
proclamação da eliminação do sofrimento.
E então, em que ficamos trindade nossa,
penamos para não penar? Deixamos o mar?
O balanceado enjoo, a fome, o escorbuto
deixamos a canela, as belas sedas, os véus
as curvas das pernas e os seios, a cama
sutra do diamante de meditações tântricas
de divinas mulheres do amor e do amar,
qual a suprema razão de um ser de dor
pelo que deste a vida para nos salvar!?
Etiquetas:
Dar Voz ao Silêncio,
Livros,
Luis Carlos dos Santos
quarta-feira, 13 de março de 2019
Uma Missa de Espanto
estudo, 8º dia da quaresma, Luís Carlos dos Santos (continuação)
1º andamento – um canto gregoriano, uma missa
de espanto
Num terceiro domingo, dobram os sinos
replicam os salmos ao longe na igreja
interiorizam-se os cânticos e as teclas
do órgão que vai devagar de olhos
semi-fechados
quase que nem se canta, murmuram as almas
repetem as gentes, reclinam-se os peitos
e as mãos postadas no caminho da cruz
os joelhos nas lajes frias do chão, outra vez
fazem-se mais uma vez as infinitas contas
do rosário, da oração, contemplativo silêncio
Não se foge do sofrimento, antes se lamenta
do Deus, da condenação e do arrasto do corpo
ir com ele, de subir com ele, de o ver luzir
monte da esperança, vozes dos anjos que cantam
tocam as trompetas no envolvimento do Espírito
messiânicas expectativas de servos humildes
do que É de dar a vida em sacrífício,
salvívico
caminho da perseguição e da morte, todavia
da gloriosa consciência que a ressurreição
anuncia
da gloriosa poesia que em voz suave nos acalma.
2º andamento - o vira da natureza
As nuvens vêm carregadas de um temporal
de onde sopram os ventos e arrefecem as noites
os ramos das árvores são feitos de assobios
e as águas despenham-se pelos penhascos
pintando de terra molhada a face da terra
Logo mais rasga-se o sol e rompem-se as flores
cheias de cores os campos de tremoço e papoila
o verde acastanhado da planície que se estende
por meio de um vale entre rios e risos da festa
do estalar das rolhas das garrafas do vinho
As andorinhas chegam cansadas, ofegantes
correm as danças nos caminhos dos cruzados
pagãos de braços dados na folia dos corpos nús
rituais sagraddos na fecundação da terra
um bem que é mal, e um mal que é bem,
meu bem.
Apressados e unidos apressam-se os pingos
grossas vêm as chuvas, prenúncio de abril
chuvas mil aos molhos escorre a salmoura
das lágrimas das fontes e dos montes
que se alagam e se desfecham aflitos
desenfreados correm os rios de caminhos
dos oceanos plenos de glaciares degelos
Os atropelos dos passos das concertinas
e das serpentinas reais dos arraiais furores
dos tambores, pandeireitas, castanholas
e das espanholas dos festivos sorrisos
o ribombar dos foguetes e o som de ferrinhos
dos tamancos das moças que cantam no chão
e eles de braço dado num rodopio sem fim
O oceano, o mar azul que se estende nos pés
do calor no pico do meio dia, todo o dia
ondas de alfarrobas, amendoeiras em flor
e os meus amores que nem as cores todas
das oliveiras milenares, toda a areia da praia
onde se amolecem as mentes descansam
os corpos, das passas e dos medronhos.
(in, Luís Carlos dos Santos (2018) Dar Voz ao Silêncio. Música de Palavras. V. N. de Gaia: Euedito, pp.18-21)
(in, Luís Carlos dos Santos (2018) Dar Voz ao Silêncio. Música de Palavras. V. N. de Gaia: Euedito, pp.18-21)
Etiquetas:
Dar Voz ao Silêncio,
Livros,
Luis Carlos dos Santos
quarta-feira, 6 de março de 2019
Uma música silenciosa
Fim do Entrudo. O repouso das almas (mais que um
réquiem) – hino às estrelas.
1º andamento: pé ante pé
Vamos dar voz ao silêncio
pensar numa música silenciosa
pouco ruidosa, um calmante natural
sem esforço de pensar, tocar devagar
afagando as cordas, soprando nas teclas
sem elevar a voz, soletrar
um passo leve, um rodopio suave
de uma dança parada, quase nada
quase mel que escorre de dois
corpos juntos, ou nem isso
um meigo sorriso, um instigante segredo
um recado de uma brisa que nem vento
por dentro, uma suave respiração
que mal se ouve o coração do mundo
sossego, enlevo, alargo a consciência
o laboratório da amizade, é que nem marcha
nem fúnebre, tão pouco rufo do tambor
um canto de escovas na bateria, se tanto
Fecho os olhos, relacho a pena, arrumo o fado
passo, não dou o passo, e fico com o universo
de braço dado.
2º andamento: passo curto
Tudo é, tudo exulta de si, vibram os corpos
dançam os átomos, o som que não se detém
as paredes que não vedam, o entre-penetra
da água, o sabor do sumo da fruta, da flor
da imagem que dá no olho, da transformação
do mundo mudo, mecânica do universo
do trabalho que dá saciar o corpo, da posse
da terra, do matar o vício, das linhas no chão
de construir os muros que nos protegem
do medo que dá, da raiva de se ter, a dor
do que se trás às costas e se passa aos
outros,
o que não cessa, nem cura
a curva da perna, a venda das pernas, a tesão
o parto, a violência e a doença do corpo
da alma renascida, do que fica torto e tropeça
do que devaneia e se enleia na espuma dos dias
eis o que se vê, defuntos adiados, malcriados,
invejosos, débeis, frágeis, ilusórias
fantasias
Ou o calor que nos esquenta, essa luz branca
o que nos faz brilhar, a que nem chega o ouro,
o Sol.
3º andamento:
alegre, quase parado
O terno olhar das pétalas de uma flor
e o meu amor, uma cristiana solicitude
um lamento, um queixume, um ai, o ser
redondo e pontiagudo de um seio, de um índio
de uma clareira na floresta, de uma festa
mirabolante fora do bulício da cidade
a luz de uma fogueira e o braseiro que dá
do fogo, do crepitar da lenha, do calor
que nos anima a noite fria, a poesia
que se empresta à música que continua
suave, afinada, muito pouco ritmada
que nem a tango chega, um entre-tango só
mas as pétalas da flor lá estão e insistem
de vermelhas que são, coladinhos corações
de boas visões, de um doce passeio por letras
doces e calmas como as águas do riacho
que escorrem em seiva e lhes dão cor
porque amor que é amor, é mesmo amar
a forma da água, o símbolo da vida, vi
um outro dia duas lindas criaturas, deusas
crianças nuas.
(in, Luís Carlos dos Santos (2018) Dar Voz ao Silêncio, Música de Palavras. V. N. de Gaia: Euedito, pp. 15-17)
Etiquetas:
Dar Voz ao Silêncio,
Livros,
Luís Carlos dos Santos
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
Livros em Destaque
De Março a Maio de 2008, tiveram lugar os Encontros sobre as Ordens do Templo e de Cristo, no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha. Pinharanda Gomes, Margarida Alçada, Pedro Teixeira da Mota, António Telmo, Ana Paula Figueiredo, Ernesto Nazaré Alves Jana, Bernardo Motta, Nuno Villamariz Oliveira, José Manuel Capelo, António Andrade, José Medeiros, Álvaro Barbosa, Abdul Cadre e António Maria Balcão Vicente, são os autores das excelentes comunicações que se apresentam nesta obra.
Ver mais AQUI.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
"Happy Meal - manjar sentimental" Risoleta C. Pinto Pedro
Texto de apresentação do lançamento do livro de Risoleta C. Pinto Pedro "Happy Meal - manjar sentimental", de Luís Santos, na Escola Artística António Arroio, em 20/10/2015:
“Happy Meal” – manjar sentimental
Manual de sobrevivência para adultos
às voltas com adolescentes
Agradecimentos
Antes de mais,
agradecer o convite que me foi dirigido pela amiga Risoleta para apresentação
do seu livro.
Ficámos
particularmente satisfeitos pela apresentação do livro acontecer na Escola
Artística António Arroio pela qual temos especial carinho, até porque Rui
Madeira, o seu Diretor, é um amigo de longa data, com quem o destino se vai
encarregando de nos marcar encontros amiúde pelo tempo, em lugares muito
inesperados. Como sabemos, foi também aqui que a amiga Risoleta passou largos
anos à volta com adolescentes, coisa que como se verá foi, e continua a ser,
muito merecida sina de vida.
Agradecer a presença
de todos.
Dividiremos a
apresentação do livro em duas partes: A primeira onde faremos algumas
referências à sua capa, título e estrutura; a segunda, onde abordaremos algumas
das suas múltiplas interessantes questões.
1ª Parte – Capa, Título e Estrutura do Livro
- Sobre o título, “Happy Meal – manjar sentimental”, embora tenha demorado a
chegar, como nos confessa Risoleta, não podia ser mais adequado. Creio que já
todos ouvimos falar nesse procurado “hamburger” de famosíssima indústria
alimentar. Ora, para um livro que se dá, desde logo, como um “manual de
sobrevivência para adultos à volta com adolescentes”, uma das grandes
apreensões que logo transparece é, justamente, o “fast food” (ou “comida de
plástico” como é também de uso dizer-se), constituir o tipo de alimentação
preferencial de muitos adolescentes, mais as nefastas consequências que daí
advêm. Particularmente, quando se pensam os cuidados a ter com a alimentação como
de decisiva importância para uma “mente sã, coração terno, corpo puro”, lembrando
a divisa rosacruciana, de forma a que uma saudável longevidade nos assista.
É também por aí que
vai a singela pintura de capa, de
Bruno Ma, viva criatividade e aprumada estética, onde numa mesa posta e pronta
se serve tempo e equilibrada geometria, que junta triângulos a uma plena lua e
a um rio onde se espelha o céu, a expressa paisagem que assiste à autora e à
necessária inspiração literária que determina a obra. Título e pintura
revelam-se, assim, como pingos de luz que se inscrevem e resplendem no preto
neutro do fundo da capa.
Deixando umas palavras
pela Estrutura em que se ergue este,
e digo já, magnífico livro, a imagem que nos ocorreu quando da sua leitura foi
a de uma bela sinfonia, dividida em vários andamentos, talvez pela ligação que
a autora tem mantido com a dança e seus libretos múltiplos. De facto, o livro
constitui-se por narrativas várias, a um só tempo independentes e interligadas,
dando possibilidade de uma leitura a várias vozes que são, tal e qual, a
múltipla heteronímia da própria autora, desenvolvida e cimentada durante
diferentes períodos e instâncias da vida, pois que é de uma narrativa de cariz
autobiográfico que se trata.
Cada um dos 4
andamentos em que vemos dividido o “libreto da sinfonia”, um justo adjetivo
para este nosso livro, trazem toda uma trama onde se vão desenvolvendo as grandes
linhas de força da narração. Mas tenhamos em atenção que estes “andamentos
sinfónicos” não se sucedem consecutivamente, antes se trocam e misturam entre
si, dando origem a perfeitas alterações de ritmo nas voltas do texto.
Assim, num 1º
andamento, é-nos oferecido um registo autobiográfico de superior reflexão
espiritualista que constitui a narrativa central da obra;
Como 2º andamento, temos
uma compilação de peculiares “receitas alimentares” alquímicas, onde a mistura
dos corpos com os alimentos não podem ser abandonados, sem mais, às imperiosas
necessidades lucrativas de uma obesa indústria alimentar;
No 3º andamento, intitulado
“As Lições do Tonecas II”, pressupostamente escritas por pena de adolescente, o
seu sobrinho Rubem, descreve-se em discurso direto uma velha escola, caduca,
onde se alerta para os tradicionais desencontros e as falhas de comunicação
entre professores e alunos, agrilhoada que está a velhos modelos sem força para
se libertar;
Por fim, um 4º
andamento, de seu nome “A Casa do Vento Vazia”, onde se assinala um mergulho intenso
nas memórias de infância da narradora, nas suas purezas e medos, mas onde se
reconhece convictamente que o melhor do mundo são mesmo as crianças, como
sustentam poetas e deuses, mas ainda assim com tanto mal em redor. E citando a
autora, “a menina luz que eu fui sem saber, está sempre ao meu lado nas minhas
aventuras dos sonhos, como um duplo…”
2ª Parte – A Trama do Livro
Avancemos para as
grandes linhas estruturantes por onde se estende o livro, desde logo, sem que
esqueçamos o seu subtítulo, “um manual
de sobrevivência para adultos à volta com adolescentes”. Comecemos pelos
personagens principais e por alguns dos traços que mais os caracterizam:
Renata (algumas vezes
também nomeada por Suria), narradora e personagem central, a braços com o seu
recente divórcio, mais as perturbações e inseguranças que se lhe possam
associar, mas também a liberdade de quem fica com a própria vida, inteira,
entre mãos. Mas eis que subitamente lhe entra em casa um sobrinho, que vem
estudar para Lisboa e ocupar-lhe a casa e o tempo, mais os imensos necessários cuidados
que a adolescência sempre trás consigo. O sobrinho e uns quantos amigos de quem
se vai rodear.
Como se não bastasse,
o divórcio trouxe a Renata a necessidade de mudar de casa e acaba por ir morar
para um prédio onde vive um Professor, José Bento de seu nome, que tem tanto de
simpático como de enigmático vizinho, conhecido na vizinhança por ser “comedor
de rosas”…
Detenhamos, então, a
nossa atenção nas 2 principais questões com que Renata se vai debater ao longo
da estória. Por um lado, as preocupações que a dieta alimentar do sobrinho lhe
trás: o vício dos “happy meals”, problema que ganha dimensão particular para
quem é vegetariano como é o caso da narradora; e, por outro, quais os valores
que se escondem por detrás de um vizinho, professor, que é “comedor de rosas”
e, como se não bastasse, está de licença sabática a fazer uma tese de
doutoramento sobre… “rosas”, com quem Renata vai, afinal, descobrir que tem
muitas coisas em comum.
Pensemos no simbolismo
espiritual das rosas, pois que
reconhecemos em José Bento um personagem caracterizado por desenvolvida
espiritualidade, em busca de explicações para os mistérios da vida. Como a
própria Renata diz, “das rosas que
nos trazem o amor e que entre reencarnações e ressurreições, nos livram da
morte”. Numa tese de doutoramento, em cujos capítulos se enunciam estudos sobre
“o grande arquiteto do universo, da rosa que floresce na cruz, ou do milagre
das rosas”.
Para nós, antes de
mais, entre as repetidas rosas e os mistérios que em si encerram, logo
automaticamente nos chegam duas figuras centrais da História de Portugal, esse
rei e poeta “plantador das naus a haver”, como Fernando Pessoa se refere a D.
Dinis na sua Mensagem, pela
importância que haveria de ter no devir da expansão ultramarina portuguesa, e
na sua mulher, a santificada Rainha Isabel de Aragão, mais o seu “culto popular
do Espírito Santo”, sobre o qual Agostinho da Silva tanto refletiu e enalteceu.
Mas diga-se que o
espaço geográfico, cénico, em que se desenrola a misteriosa trama do livro,
pois que é um livro essencialmente sobre vida e “misteriosofia”, utilizando o
conceito de António Telmo, longe de se centrar exclusivamente em Portugal, faz
pensar num amplo espaço/tempo que vem, pelo menos, desde o Antigo Egito (sem
esquecer a diáspora judaica) e se estende até Tomar, cidade templária, onde,
como é sabido, posteriormente se sediará a “Ordem de Cristo”, que depois
partirá nas naus para o Oriente, para a Índia, para o Tibete, “dando novos
mundos ao mundo” para relembrar o verso de Luís de Camões. Mas não descurando, que
lá temos também o Tao e temos Buda, entre esse espírito português ecuménico,
“católico”, quer dizer, universal, para não fugirmos de todo à etimologia da
palavra, onde tempo e eternidade se pretendem coetâneos.
A determinada altura
da estória, José Bento, o tal da tese de doutoramento, corria o mês de Dezembro,
chama a atenção de Renata para um barco que tinha chegado a Lisboa carregado de
rosas. Ao que esta logo pergunta: “Rosas em Dezembro?”…
Embora não se refiram
grandes pormenores sobre a estrutura do barco, nem dos lugares por onde navega,
necessariamente que o vemos construído com pinho de Leiria e com passagem
obrigatória pela “Ilha dos Amores”. Mas Renata acaba por não ver estranheza
naquele facto e logo a sua superior prosa nos esclarece: “…No estado em que
estávamos achávamos tudo natural. Apesar de tudo deslumbrados. Mas era um
deslumbramento natural perante a naturalidade das rosas. Porque, nesse momento,
era para nós uma evidência que os milagres nos rodeiam e apenas esperam que
reparemos neles.”
Evidenciados, e semi-resolvidos,
que ficam alguns dos mistérios de José Bento, porque o mistério, como se
conclui nesta obra, veio para ficar, iremos agora à responsabilidade que a
narradora sente nos cuidados a ter com a alimentação de Rubem e o problema dos
“happy meals”.
Num momento de
descrença amorosa, Renata decide fazer com Rubem uma peregrinação a Santiago de
Compostela. Vai cuidar demoradamente dos pormenores necessários a delicada
viagem, mas nas vésperas da partida, para seu grande tormento, obrigações profissionais
acabam por lhe trocar as voltas e impedi-la de fazer a viagem. Rubem, porém,
não desiste e mais o seu amigo Tiago avança rumo à Galiza. E eis, então, que no
regresso o milagre se dá: o apóstolo, Santiago, o amor, não lhe vai permitir
continuar a alimentar veleidades. E se o corpo, o coração e a mente, se querem puros,
ternos e sãos, não há-de ser com “happy meals” que se vai lá chegar.
Terminando,
gostaríamos de deixar bem claro, sem favor algum, que estamos perante um livro
extraordinário, onde “o verbo fala o verbo”, o que só por si dispensa mais elogios.
Este o seu maior prémio, a luz que a palavra sagrada lhe dá, mas que pela sua
humilde grandiosidade, certamente, que outros bons e duradouros prémios virão.
Adivinha-se.
Pelo nosso lado, não
podemos deixar de manifestar a nossa gratidão à autora, pela preciosa amizade, pelo
convite com que fomos distinguidos, mesmo não nos julgando à altura da
apresentação dos requisitos de tão digna obra. Mas talvez que um poema de
Agostinho da Silva, com que os deixamos, lhe possam trazer mais justiça. Diz
assim:
mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo
não só homens mas também
os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas
terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurrecta da morte".
Luís Santos
Etiquetas:
"Happy Meal",
Livros,
Luís santos,
Risoleta Pinto Pedro
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
A Empresa do Futuro
um pensamento humanista, uma sociedade (mais) justa, uma porta de saída que se deseja tranquila para o que virá a seguir
A EMPRESA DO
FUTURO
Nome: “COM URGÊNCIA, MAS SEM
PRESSAS”
Estatutos
1. Tendências vegetarianas (pela progressiva eliminação do sacrifício animal).
2. Tendência à não dependência de álcool ou drogas (no sentido de uma valorização da saúde).
3. Valor Supremo - o Amor.
4. Pela paz, pelo respeito mútuo e pela liberdade.
5. Por um desenvolvimento espiritual e material que
respeite o “planeta verde”: Uma nova dimensão da vida. O céu na terra, se não existirem impossibilidades estruturais.
Do Pessoal
. Evitar
subordinados (...)
Do Horário
1. De
início não mais de trinta horas semanais, podendo
alguém trabalhar mais se disso tiver vontade.
2. Sessenta dias de férias por ano (com possibilidades crescentes e sem cortes nos feriados...).
(...)
9/10/95
Luís Carlos dos Santos
P.S.: Texto com algumas alterações estéticas, mas não de substância, face ao original.
Etiquetas:
A Empresa do Futuro,
Do Convento,
Livros,
Luís Carlos dos Santos
Subscrever:
Mensagens (Atom)




