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domingo, 3 de novembro de 2013




Uma das várias navegações que gosto de praticar, é percorrer os trilhos á beira-rio exercício que, no entanto, se torna cada vez mais difícil concretizar. O movimento das marés foi corroendo a consistência das muralhas que mãos humanas construíram, a falta de manutenção permitiu o desfecho, a sua derrocada total. Sem a barreira de pedra que lhe cortava o fôlego e o fazia estancar, continua o rio, por mais uns metros, o seu deambular insaciado até se imobilizar no abraço à terra, sua eterna e insubmissa namorada. E ela acolhe-o enfeitada por salgadeiras, cardos (que picam mas também dão flor) e outras plantas que ali fizeram a sua casa e colonizam as zonas húmidas. Namoram ao som do regurgitar dos bivalves quando as marés baixam e dos gritos e chamamentos das aves do mar que folclorizam o ambiente. A elegância sumptuosa dos flamingos desliza sobre o cinzento lodoso e o seu colorido conta-nos que há outros mundos neste mundo que sentimos mais nosso apenas por nos ser mais próximo. Os trilhos arrastados pelo correr da maré tornam mais difícil a incursão, mas a recompensa continua a ser imensa e gratificante. O brilho do sol, o vento no cabelo, o cheiro da maresia, os barcos típicos sobre as águas que, com arte, bolinam os esteiros, domesticados pelo saber dos últimos intérpretes da faina, ou por navegantes ocasionais que no ócio exercitam e cumprem, o fado ou desígnio da alma lusa marinheira. 

                                                                                                                                              M. J. Croca



Foto: Edgar Cantante