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sexta-feira, 8 de março de 2019

Conto 2


José Pais de Carvalho

Lembrava-se! Como poderia recordar a manhã pronunciada no desconhecido senão pelo esquecimento.

Lembrava-se de percorrer em silêncio as ruas de uma cidade a sul, imerso na recordação do mercado, do pavimento irregular da calçada, da azáfama das pessoas e das mercadorias. Lembrava-se! viajara ao encontro do ancião e encontrara-o no pátio da casa quando uma mulher de velha idade e de feições indígenas lhe abrira a porta.

É verdade que sempre se afligia quando estava diante daquela figura enigmática, e supunha que não seria diferente daquela vez. Na sombra da latada esbatida sob o sol, reverberavam imagens perdidas da antiguidade, que o impressionaram ao ver a fisionomia da anciã alterada. Com respiração parca mas levemente acelerada, duvidava do espectro e aprazava-se por rever o anfitrião que o convidava a sentar, com um rasgado e efusivo sorriso de boas-vindas, não atribuindo outra importância ao puzzle criado pelas sombras e afectado pela imaginação. Conversaram acerca de trivialidades, da longa viagem. Depois o diálogo contemplou outros temas, cuja razão o viajante não podia divisar. Falaram sobre o que o homem de idade indeterminada designou por domínio da consciência. Houve, adrede, um silêncio: O grande feito é atingir a liberdade total antes de ser uma consciência desencarnada dirigindo-se para o incognoscível. Ficava a impressão de que o velho homem escolhera as palavras antes de retomar a conversa, para produzir uma tensão, e pousando-lhe a mão sobre o ombro, convidou-o a dar um passeio.

No caminho, o ancião observava, como se fosse a última, os rostos dos transeuntes e detinha-se defronte das lojas, dos candeeiros públicos, das casas. Numa alameda, atentava a cada pormenor: o reboco dos muros e das paredes, os líquenes, os tons verde-escuros, os de cor de bolor e as pedras descarnadas pelo tempo. A dado instante, dirigiu-se-lhe: … nesta cidade tudo é possível acontecer! e sorriu. Como jovem aprendiz, reconhecia aquele olhar, aquele sorriso. Inúmeras vezes deparara-se com circunstâncias análogas. Apoderava-se dele uma estranha sensação: incorria no íntimo a certeza de acontecer algo imprevisível, e sentia-se desconfortável. Numa rua pararam perpendiculares a um antigo casarão. O de mais idade não deixava de olhar tudo ao redor: contemplava a araucária, os plátanos, os cedros, e deteve-se na velha nespereira com as poucas folhas que restavam, tombadas sobre si próprias como lágrimas. O jovem para quem bastava um olhar, um sorriso ou uma palavra do decano para o estado emocional mudar radicalmente, permitiu que uma lágrima lhe escorregasse pelo rosto, e sentindo de antemão uma melancolia que o comoveu, pressentiu que a imagem acerca da velha nespereira seria apenas sua. Primeiro supôs sentir-se triste, mas de imediato compreendeu uma sensação mais profunda e distante, tão cavada quanto a solidão.

Chegados a uma praça, já sentados num banco público, o mais velho dava continuidade à frase deixada atrás: … por baixo da cidade está uma outra de onde desapareceram os que nos sonhos acordaram numa posição para além dos limites do conhecido. Escutar tal estória sobressaltava-o, e sentindo um empurrão, sem que pudesse formular alguma pergunta, entrava na igreja, e lembrava-se! já tinha estado ali em outra ocasião.

Ajoelharam-se ambos lado a lado num banco de madeira corrido, fronteiro ao claustro. O ancião balbuciou-lhe quaisquer palavras ininteligíveis, despertando-lhe uma recordação já perdida. Uma mulher de feições indígenas fitou-o, fazendo-lhe sinal, e ele, não pelo fulgor da juventude, deslumbrou-se: um misto de admiração e fascínio aprisionava-o, tão magnânimos eram os olhos negros. No momento ficou perplexo: a mulher que lhe abrira a porta estava ali, mas não parecia a mesma. O vestido preto deixava antever a sua silhueta e a tez era límpida e cuidada. Aparentava ser nova. E ele atemorizou-se.   Quis compartilhar a surpresa, descrevendo um movimento com o corpo, mas o ancião desaparecera, concomitante à perda da acuidade visual.

Algo acontecera. Quando recuperou a visão estava numa igreja, numa outra igreja, quiçá num outro tempo. A decoração afigurava-se do século dezoito: o altar-mor, o deambulatório em torno dele, as pinturas do teto da nave, a talha dourada, obturando o óculo da fachada com um relevo, sugeriam-no. Decorria uma missa, e o silêncio era total.

De temperamento susceptível, por experiências anteriores perante o desconhecido, ele sabia que facilmente oscilaria entre a confiança e o temor, e que poderia perder a razão. A luz da igreja era ambarina e ele demorou a ambientar-se. Espantou-se com as sombras, pois eram negras e profundas como nunca tinha visto, e reparou o tom de pele das criaturas ajoelhadas, singularmente pequenas. Apreensivo, tornara-se ele próprio testemunha da imaterialidade do tempo. Os entes ao redor não eram da época que atribuiu à igreja. Como poderia aquela gente rezar, mover os lábios e ele não ouvir o mínimo barulho? Estranho, olhou para a direita e confrontou-se com a dita mulher. Ã! gaguejou trépido. O som exauria-se em si mesmo, parecia-lhe inaudível, incumprido.  O corpo teve um espasmo e os indivíduos em torno olharam-no, censurando-o. A mulher murmurou-lhe que ouvisse com todo o ser; e ele assim fez sem saber como fez. A missa estava a acabar e o movimento da multidão, sentiu-o ensurdecedor ou quem sabe se intensificado. Porventura idealizava, concluiu. A percepção aguçada deu-lhe outra indicação. Percebeu que estava a sonhar. Havia uma agudeza mais consciente do que o torpor mental sentido. Independentemente de onde estivesse ou do mundo em que estivesse, o que vivenciava era real e abarcava-o na totalidade. A mulher olhava-o doce e intrigante, aparentava agora uns trinta anos: o mundo que apreendemos e a sua substancialidade dependem da tua total atenção para que exista. A posição em que se começa a sonhar espelha-se na posição em que permanece o corpo de sonho. Deste modo deve-se sonhar que se acorda deitado exatamente na mesma posição em que se adormece, para sonhar adormecer de novo. A voz dela era cristalina, sedutora num sentido restrito, magnetizante. Tudo o que se vê, o ambiente ao redor é a projeção da minha intenção, um sonho! Estás a viver no meu sonho. Não basta somente sonhar o objecto, é necessário visualizá-lo e trazê-lo para o sonho, materializá-lo, para se tornar real. Foi a partir deste recurso que te trouxe para o meu sonho. Foi desta maneira que numa época longínqua à do tempo deste sonho, os antigos habitantes desapareceram da cidade, deixando somente os vestígios da sua cultura. Foi muito antes de eu existir e de existir o local onde estamos. Quando nasci, eles já eram antigos e repara como sou antiga!  exclamou com malicia.

De seguida pegou-lhe na mão e levou-o até à porta da igreja, o que o acalmou. Ao saírem, deparam-se com uma praça velha. No tempo eminente escutou-a. A praça para que estás a olhar não existe na realidade, só a poderás tornar real mediante a tua intenção. A vista dele turvou-se; focando-a, encontrava-se agora sozinho na cidade em cujo cenário se desenrolava o sonho. Na praça viu o decano sentado no banco onde estiveram antes, segurando o chapéu, enquanto um vento soprava ao redor. Um pensamento determinava-lhe que tinha de deslocar os olhos para alterar a percepção. No mesmo banco, um outro homem dormitava. Embora o choque do que não podia avaliar o propulsionasse, fracionava-o luminescente, e vislumbrou a sua paridade: sentado no banco ao lado do homem que segurava o chapéu, viu-se de pé no pórtico da igreja, e assombrou-se, caindo em si.

Sentiu que tinha perdido algo significativo. Talvez alguém de quem gostasse muito, mas não conseguia recordar-se. Uma ideia como essa afigurou-se-lhe absurda. A memória atraiçoava-o de novo e sentiu um misto de saudade e medo, indecifrável.  O ancião sossegou-o, pedindo-lhe para contar o que se lembrava do sonho. Lembrava-se de terem entrado na igreja e pensou: poderiam ele e o ancião, acordar no mesmo instante, na mesma posição de sonho? O homem de maior idade não foi directo na resposta, disse-lhe que o acompanhara na ocasião em que se sentiu puxado por ele até ao interior da mesma. Não é possível saber como ocorre, talvez pelo desejo. Apenas acontece assim. Foi o modo como os antigos partiram em grupos. Talvez fosse decisão deles morrer em outro mundo, ou não encontraram o caminho de regresso. O fenómeno sucede conquanto paremos o diálogo interno e mudemos o foco para o que nos induz a percepções incomuns. Restava o silêncio, e lembrava-se! quem era a mulher do sonho? Por sua vez, o ancião apaziguava-lhe o temor:  era o tempo de se recordar da mulher, pois iria encontrá-la uma última vez. Era antiga como ela lhe dissera. Desafiara a morte com êxito, tornando-se prisioneira da veleidade que destruiu os antigos.  Dera-lhe um presente, o qual se recordaria em breve: Podemos viajar pelo desconhecido, mas temos de nos ancorar dentro dos limites do conhecido para regressarmos. Se te deslocares para outro mundo, esta cidade desaparecerá, mas irás permanecer aqui. É este o mistério que ainda não compreendeste.  Romper as barreiras da percepção é entrevir a eternidade. Mais cedo ou mais tarde aperceber-te-ás que cada um de nós é todas as coisas, que é isto e aquilo. Um mundo só é perceptível por força do alinhamento da totalidade dos nossos feixes de luz com os correspondentes exteriores e não apenas com partes deles. Disto depende a nossa estabilidade. Só assim um mundo se torna real, permitindo-nos então escolher onde morrermos e também como fazê-lo em consciência total. O teu trabalho será ainda tornar compreensível tudo o que está além do território onde a consciência quotidiana assenta a sua identificação, em que nenhuma dúvida possa interferir nos teus actos. Com o passar dos dias, compreenderás melhor. Darás uma coerência a tudo o que viveste e não consegues por enquanto recordar.

De repente tudo ficava claro, mas nem uma palavra conseguia articular, não tinha energia suficiente para o colocar por palavras. Compreendia que tais acontecimentos não poderiam ser recordados pela memória. Então o ancião lia-lhe o pensamento: Agora começas-te a compreender. O mundo dos homens é tão-somente uma visão a partir da posição do alinhamento dos feixes de luz consoante a energia que reunam; não conseguires expressá-lo, deve-se ao facto de não teres ainda acumulado a energia que te permita ordenar o conhecimento. E mudava de assunto: Aproxima-se o momento de eu partir, esta será a última vez que nos encontramos nesta cidade juntos. Talvez  retorne um dia, mas nunca mais voltarei aqui tal como me vês hoje.

Sentiu-se uma brisa, do outro lado da praça o velho homem acenava-lhe, despedindo-se e surpreendeu-se: lembrava-se! o conhecimento era silencioso, uma força que não podia ser descrita, no entanto estava ali para que qualquer um a pudesse utilizar. Ainda olhou de novo para o outro lado da praça, e viu o ancião virar-se para trás, sorrindo-lhe.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Dores Nascimento e Leonel Coelho - Conto


O ANÚNCIO

Os donos do café “Flor da Aldeia” e alguns fregueses da casa, sabendo das necessidades do tio Zé , vulgarmente tratado por Piça Daço, trataram de o incitar a responder ao anúncio, e eles próprios formulavam frases para a resposta, com esta ou aquela variação da conversa habitual em situações análogas: sou homem honesto, trabalhador, tenho terras e gado, e estou na posse integral das minha faculdades físicas mas  sinto-me muito só desde que a infelicidade da viuvez me bateu à porta…

E assim, num dia que não ficou marcado em calendário, chegou na carreira uma bela mulher com um mala de viagem na mão, que se dirigiu ao referido café, ali a dois passos da paragem. Tempo frio, o Inverno era ali, naquele rigoroso interior.

Com passos pouco decididos entrou e logo foi identificada pelos olhos espertalhões da Etelvina que acotevelou o marido e lhe disse entredentes: Lá vem a tal de Joana.

-É a menina Joana? Muito prazer, eu sou o dono deste estabelecimento e esta é a minha mulher, Etelvina. – Muito gosto. -Ponha-se à vontade. Este é o senhor Zé, vulgo  Piça Daço. Um aperto de mão, algumas palmas por parte da atenta assistência e assim se cumpria a primeira parte deste episódio que quase se escondeu como o sol à noite. Joana faz um gesto para pegar na mala, mas Zé antecipou-se e lá foram os dois a caminho de casa.

-A minha casa é aquela ali, disse o Zé para não estar calado. Aquele gato preto no telhado, é meu. É um bom caçador de ratos. Â medida que a aldeia se despovoa, ratos e ratazanas são cada vez mais. Está frio. Ontem fui  tirar água do poço, para me lavar e estava gelada. Já era altura de amaciar o tempo.  E nada mais foi dito.

E neste monólogo foram engolidos pelas paredes da casa, e nada mais se sabe para além do que ficou escrito numa mensagem deixada por Joana sobre a mesa da cozinha, no dia em que partiu na mesma carreira que a trouxera, um mês exatamente decorrido desde a chegada.

O tio Zé Piça Daço, já com a vista a faltar-lhe, e fracos conhecimentos escolares, agarrou no papel e levou-o aos seus amigos do café para que lho lessem, mas baixinho, e assim se soube logo ali, e mais tarde por toda a aldeia, o conteúdo da mensagem.

-Vamos para ali, ti Zé. Posso começar?

-Lê, homem, lê.

 Serve esta carta como despedida e justificação.

A minha sincera vontade era ter regressado no dia em que cá cheguei. Não o fiz, primeiro por acanhamento e segundo porque não havia carreira. Como não o fiz nesse dia, resolvi dar uma oportunidade à situação, ou seja a si e a mim e não digo nós porque nós nunca existiu.

Quando olhei para si, vi a figura do meu pai que desgraçou a minha mãe com maus tratos. Não a mim, que saí de casa quase criança para uma vida de esquinas na noite a fazer favores sexuais a homens de toda a espécie. Aconselhada por gente que conheci e me tinha estima, estudei qualquer coisa e trabalhei num lar de idosos. Mas a solidão moía-me e os anos passavam e nada de arranjar companhia, daí o anúncio. Imaginava-me numa aldeia, com um homem a quem estimaria e por quem seria estimada, com umas galinhas e uma horta para tratar, via-me a estender a roupa da cama na frescura do amanhecer, coisas simples.

Ao entrar na sua casa senti revolta. Tudo desarrumado. Ratoeiras por toda a casa com ratos mortos, loiça apinhada por lavar, ceroulas misturadas com toalhas de mesa, cheiro a podre no frigorífico e cama sem lençõis. Nada sem solução até aqui. Nada que uma boa limpeza não resolvesse.

Mas porque carga de água,  havendo água quente e um esquentador vulcano praticamente novo na casa de banho, tomava você banho e se lavava na água do poço queixando-se da sua frieza? Porque razão tendo gavetas cheias de meias novas só calçava meias rotas? Porque razão tendo loiça nova nos armários só quer comer em loiça rachada, porque razão mantem uma pilha de medicamentos da sua falecida mulher que recusa deitar fora, Por que razão...

Enfim, talvez a solução para si seja de outra natureza. Eu por mim fiz o que pude e que a mim própria prometi. Organizei a sua vida por fora. Por dentro, não tenho para isso nem habilidade nem habilitação.  Lavei, desinfetei e arejei a casa. Livrei-me de toda a roupa rota, estragada, e debotada e cosi a que valia a pena aproveitar. Organizei as gavetas da cómoda por ceroulas, cuecas, meias de verão e de inverno, camisas, camisolas e pijamas. As calças e o fato estão em cruzetas no guarda fatos. Livrei-me da pratalhada partida e dos tachos, cafeteiras e púcaros rotos ou sem asas. A casa de banho está apetrechada de lexívia, papel higiénico, e espero que não perca  o hábito de lavar os dentes. Deixei duas pastas novas na prateleira e uma escova suplente. Continue a tomar o duche de água quente e lave bem os tornozelos, as orelhas, as partes e entre os dedos dos pés.

No frigorífico há sopa feita e um guisado que fiz com o coelho que comprei ontem à Etelvina do café, comprei mas não paguei, não se esqueça de o pagar. Deixei dois queijos, um pão e  também uns restos de comida para o gato.

Se mantiver alguma disciplina no que comigo aprendeu, talvez arranje uma companheira que o queira.

Não fui feliz aqui, mas encaro  o mês que aqui passei como uma missão. Você não é má pessoa mas também não foi boa pessoa e lamento não me ter deitado consigo. Se disso se tiver gabado, quando lerem esta carta, que estou certa será mais divulgada que o meu anúncio, logo saberão que mentiu. Se tiver falado verdade, será mais respeitado.

 A estas horas, já estarei longe daqui. Outro homem que respondeu ao anúncio há mais de quinze dias, veio buscar-me hoje, porque eu disse-lhe que tinha de cá ficar um mês. Adeus e felicidades. Já me esquecia, odiei a sua alcunha.

A que nunca foi sua

Joana



quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

ZÉ TANGANHO


por Leonel Coelho

(1º lugar na modalidade de conto nos JOGOS FLORAIS DE AURPICAS Alcácer do Sal 2017)

Zé Tanganho, desengonçado. Imprevisível. Ajudado por cães, dois. O preto e o branco. Vistos de longe, os cães de Zé Tanganho, eram absolutamente dois, mas observados, assim de forma mais atenta, embora dois animais, não eram dois cães. O preto era de facto um cão, já o de cor branca, era uma cadela, portanto, convém para que possamos dar jeito à história deste desengonçado Zé Tanganho, guardador de cabras, desde que, daquela maldita guerra colonial voltou com um braço a menos.

Era Zé Tanganho muito falador, muito amigo de ajudar, sempre atento aos sinais de dor, condoído com a miséria da maioria dos seus vizinhos. Filósofo também. O braço que por lá lhe ficou foi o direito, e ele, que era o campeão do jogo da malha na aldeia, viu-se e desejou-se para se adaptar a funcionar com a mão esquerda e nós, homens, sabemos que há coisas que não dão jeito nenhum fazer com a esquerda.

Estes e outros desabafos saíam da boca do Zé Tanganho, desengonçado pastor, filósofo, maneta e dono de um cão preto e de uma cadela branca. É certo que a guerra lhe levou um braço mas não a bondade, tampouco a alegria de viver.  O Zé, que era desengonçado e maneta, pastor,  filósofo e tanganho, guardava cabras. Poucas mas boas. E às vezes dois, três e até quatro chibitos de cada parição. Gabava-se o bom homem que os queijinhos que a sua Damásia fazia, depois de ver desmamados os filhotes das cabras e mais a venda dos cabritos lhes faziam um jeitão, ademais que a sua reforma não passava de uns miseráveis trocos que a seita governante lhe enviava mensalmente, que ele ou a Damásia iam levantar aos correios, cada vez menos públicos e menos correios, a quilómetros de distância e semelhantes a lojas chinesas, onde vendem bíblias e cautelas, neste mundo em tão mudança, dizia ele com a sua proverbial bonomia.
 
Basicamente, tudo ou quase tudo ali na aldeia envolvia  Zé Tanganho. No barbeiro, no minimercado, no clube, nas reuniões da junta de freguesia, Zé Tanganho ía a todas. Havia uma matança lá estava o maneta, e ninguém espetava faca no bácoro como ele.   Depois era aparar o sangue certinho e quente no alguidar de barro onde uma boa mão cheia de sal o envolvia com a ajuda de uma colher de pau que em regra, uma mão feminina manejava. Dizem que o animal parecia nem sentir.

Certa vez, o Luís, filho da vizinha Perpétua, andava com uma dor de dentes que não lhe dava descanso nem de noite nem de dia, e um dos malditos dentes abanava, mas nada de cair. Zé Tanganho muniu-se de um fio, atou uma das pontas ao dente do rapaz e a outra ao trinco da porta e quando o puto se estava a começar a perceber o esquema, já o dente lhe tinha saltado da boca, arrancado pelo brusco movimento da porta a fechar-se.

Outra vez foi o burro do João da horta fundeira, caiu num barroco e ninguém era capaz de o tirar daquela aflição. O maneta abalou para a sede do concelho, trouxe os bombeiros e era uma vez um burro que caiu num barroco. E era assim o bom homem, sempre pronto para ajudar e esperto como poucos.

De outra vez foi abordado por Joel, o calceteiro da freguesia :
-  Amigo Zé, tenho lá uma figueira maninha que é preciso enxertar, se me pudesse tratar disso, ficava-lhe bem agradecido.

Oh homem, mas estamos em Maio, essa enxertia só se faz lá para Agosto. Escolha lá a enxertia que eu depois passo lá para fazer o trabalho.

E era sempre assim. Chegados aqui será bom declarar que o que aqui me trouxe, o botar o preto no branco, a opinião que o Zé Tanganho propaga, sempre que a ocasião se proporciona em redor do racismo ou dos racismos a que ele, opiniosamente chama de xenofobias. Em volta deste tema tão complicado e tão minado de alçapões e areias movediças, o nosso homem,  dispôs-se a propor ao João Manuel, presidente da junta de freguesia, a realização de um colóquio ou debate. – Oh homem, vê lá onde te metes, olha que o assunto é cabeludo, vê lá. Mas o salão da junta está ao dispor. 

- Então só preciso que me cedas o altifalante, para avisar o povo, que mandes dispor as cadeiras e uma mesa e que faças o favor de estar presente, e agradeço-te desde já.

Foi uma noite memorável, como nenhuma outra. Aquela jornada de esclarecimentos em que o Zé Tanganho só foi protagonista na logística, foi serena, casa cheia, curiosidade e participação, muitíssima. Tive a sorte de estar na terra nessa ocasião, por assistir a uma lição de sabedorias vinda de onde menos se espera, que me encheu de orgulho por pertencer àquela gente, tantas vezes incompreendida e até humilhada. Ali ouvi, naquela memorável sessão, moderada discretamente pelo senhor José Tanganho, afirmações que ainda hoje, passados um bom par de anos, guardo como guia de alguns passos que já dei e que espero me ajudem noutros que ainda almejo dar, neste maravilhoso mundo em tão mudança.

- Olha Zé, clamava o Porfírio, ainda há poucos anos, eu deixei de falar à minha cunhada Luísa, por ela ter consentido que a filha metesse um preto lá em casa, e agora, grande alegria sinto, quando o meu João está de cântaro e pucarinho com uma bela e trabalhadora preta. 

- E eu, dizia o Rafael da rua do saco, quando para aí vieram os ucranianos para a apanha da cereja e outros trabalhos, cheguei a corrê-los à pedra e houve quem lhe assolasse os cães.

- Sabem o que eu vos digo, continuava o Rafael, eles e outros de outras paragens, que para aqui vieram, foi um bem. Boa gente, trabalhadora.  Que tal como nós, ou a maioria de nós, e sorriu para o Zé Tanganho,  só têm uma boca e… dois braços.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Livros




Autor: Luis Carlos dos Santos
Estado: Público
Nº de páginas: 45
Tamanho: 170x235
Miolo: Preto e branco
Encadernação: Agrafado
Acabamento da capa: Brillo

Edições Bubok, 2010

Um livro onde o espírito dos pássaros, e de outros seres alados, se cruza com o espírito dos homens. No fundo, uma lição dada sobre liberdade e, nalguns casos, da melhor forma de estarmos à mesa. Um livro dedicado a Alhos Vedros, terra natal do autor, onde pululam e se misturam todos esses seres que lhe são intrínsecos como depressa se perceberá na leitura.


P.S.: Uma lembrança dos Diálogos Lusófonos. Também se pode ler LER AQUI


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Uma noite em Ilhéus


Aos amigos uma estória da Bahia

Rugendas- Custumes do Rio de Janeiro 
Desde que da nau capitânia cabralina gritou-se “ Terra à vista” que estas terras tropicais foram motivo de interesse e curiosidade por parte dos europeus. Franceses, holandeses, ingleses, espanhóis, além é claro dos seus descobridores oficiais, os portugueses, chegaram a estas paragens em busca de aventura e riquezas.
Seguindo o rastro de seus patrícios antecessores, o escritor Charles Expilly,  por motivos indefinidos, resolveu se estabelecer no Brasil e ao mesmo tempo fazer um trabalho de pesquisa sobre o país e sua gente. Mais que relatar o que viu, o francês deu sua opinião “civilizada” sobre os luso-brasileiros e seus bárbaros costumes. Mesmo não tendo êxito integral no seu projeto, fez uma bela descrição da natureza e dos episódios por que passou, ou ouviu contar, usando cores fortes e palavras bem colocadas, tornando viva a história.
Num dos seus relatos, contou-nos o que se passou com uma  jovem da Terra. Apesar de estar apaixonada por Agostinho, Brígida, de família  fidalga empobrecida, escolheu para casar  Manuel Rebentão, um tosco e velho traficante de negros escravos, porém um dos homens mais ricos de São Jorge de Ilhéus.
Após o casamento, o casal foi morar numa vasta e confortável propriedade junto à praia, entre São Jorge e Olivença.  Manuel fazia de tudo para impressionar a mulher e a sociedade local com suas extravagantes despesas. Dava festas exóticas, comprava produtos estrangeiros, encomendava roupas da moda, vindas de Paris, para a mulher.  Não se cansava de mostrar o quanto o seu poder financeiro podia materialmente adquirir e ofuscar a sua origem. 
Quando chegou a São Jorge de Ihéus um refinado o piano Érard, foi um alarde geral. Vaidoso, o comprador, Manuel Rebentão, programou uma grande festa para exibir o renomado instrumento. Iria tocá-lo, para deleite dos convivas, a sua jovem esposa. Dentre os convidados estava o jovem músico e vizinho de fazenda  Sr. Agostinho, antigo namorado de Brígida.
Os preparativos corriam céleres.  A  visível ansiedade de Brígida não passou desapercebida ao marido, que julgou ser pelo presente que chegava. Com os carregadores, seus escravos, foi buscar a valiosa peça a São Jorge.  Na volta, na estrada, Manuel Rebentão encontrou Gregório, escravo de sua mulher,  com um  ramo de flores nas mãos que o vizinho, Sr. Agostinho,  recomendou entregar a D. Brígida, com uma pauta musical, para que ela tocasse no dia da festa. Era a resposta ao recado que ela havia mandado entregar ao músico, disse o escravo. 
Espicaçado pelo ciúme, visivelmente alterado, arrancou as flores das mãos do negro e, dizendo-lhe que ele mesmo as entregaria, adiantou-se ao grupo e dirigiu-se à casa de uma velha, conhecida nas redondezas como  sendo advinha. Contou-lhe o que se passava e pediu-lhe que interpretasse o que aquele buquê  queria dizer. Luzia, que conhecia a linguagem das  flores, depois de olha-las e observá-las demoradamente  diz ao marido desconfiado:
As flores que Vosmecê me pede para desvendar falam de um amor fiel, verdadeiro, porém infeliz pela ausência, que se alimenta de raros momentos felizes. Pedem uma entrevista romântica.
Rebentão tremeu. Pagou  a velha com algumas moedas e, corroído  pelo ciúme, mentalmente  arquitetou uma  vingança. Voltou para a estrada. Novamente encontrou os escravos carregando o piano e finalmente juntos chegaram a casa. Fingindo indiferença, para não levantar suspeitas, entregou  o buque  e a música à mulher. Era a resposta ao convite para a festa, disse dissimulado à esposa.   Acreditando que o marido de nada desconfiava, tornou a enviar no dia seguinte um recado, desta vez pela fiel mucama, herança de família. Instruía o amante como deveriam fazer.  Após o jantar, quando os convivas fossem em bando à pescaria com fachos, como nas noites estreladas de verão costumava acontecer, ele deveria se retirar com alguma desculpa. Ela faria o mesmo . Então, a sós,  se encontrariam em segredo, enquanto os demais estivessem na brincadeira noturna.
No dia seguinte, sem perceber que estava sendo vigiada,  a escrava da Sinhá saiu sorrateiramente da casa, escondendo um papel no bolso do avental. No caminho, Manuel Rebentão interceptou-a com xingamentos e palavreado grosseiro.  Ameaçou-a de morte, ordenou-lhe que entregasse a carta que portava. E que nada revelasse à D. Brígida,  se não já sabia o que a esperava...
Finalmente a noite festiva, residência cheia, jantar magnífico. Todos elogiavam  a música  que a bela dona da casa tirava do afamado piano. O negreiro a todos solícito, porém,  não perdia a esposa de vista.  A brisa fresca, após o dia calorento, o brilho da lua,  em lençol de prata sobre o mar, o arrulhar constante das pequenas ondas a quebrar na praia, eram um convite a embarcarem nas canoas iluminadas com tochas para pescar. Seria uma noite agradável, divertida,  não fosse o triste episódio que a todos surpreendeu, menos ao dono da casa.
O Sr. Agostinho se despediu. E quando os convivas se preparavam para a pescaria noturna, uma gritaria histérica se ouviu. Era o cavalo do Sr. Agostinho,   em cavalgada desenfreada, arrastando o seu cavaleiro,  que entrava  no pátio da casa grande em cena apocalíptica. Olhos esbugalhados, ejetados, narinas chispando fogo, incendiadas, pinoteando, enlouquecido pela dor, numa cena dantesca, o pobre animal em desespero se lançou sobre a muralha que protegia a propriedade do mar. As tentativas dos escravos para segurar o animal foram em vão. Cavalo e cavaleiro se precipitaram no ar, caíram em baque surdo, pesado, sobre as pedras, junto ao mar. O choque foi geral, ninguém queria acreditar no que via.  Brígida estupefata desmaiou, segurou-a o marido. Momentos antes daquela terrível cena, sem que o jovem Agostinho percebesse,  seguindo as ordens do Sinhô Manuel, o escravo que lhe segurava o cavalo enquanto montava acendeu uma isca de madeira com o charuto que trazia na boca e meteu-a na narina do infeliz animal. O resto já se sabe. O salto foi fatal.
Quando Brígida  se recuperou, já haviam trazido  o corpo dilacerado de Agostinho.  Sem se importar com os outros, abraçou o corpo do amante em pranto convulsivo, enquanto ouvia do marido  a cruel  acusação;  aquilo tudo acontecera por culpa dela, quando resolvera traí-lo. Além da dor da perda, ele lhe impunha o terrível castigo, o remorso pela da morte de Agostinho.   Revoltada com tão selvagem vingança, isolou-se em seus aposentos e dias depois abandonou Rebentão. Voltou para a casa do pai, que conhecedor da estória amparou a filha. Brígida levou consigo a mucama e os seus dois escravos, João e Gregório. 
O tempo passou, porém o ódio e o desejo de vingança cresciam dia a dia no coração da jovem Brígida. Até que um dia, tomou a terrível decisão, eliminaria da face da terra o odioso marido.  Convocou os seus dois escravos e,  prometendo-lhes a alforria, encomendou o assassinato do negreiro. Queria que ele morresse sabendo que quem o mandara matar tinha sido ela, D. Brígida.
Quando João e Gregório chegaram à fazenda, Manuel Rebentão saía montado no seu alazão, enquanto a escravaria dormitava, após a refeição, junto às bananeiras. Curioso para saber o que os  trazia lá, o negreiro se aproximou dos escravos de Brígida.  Não percebeu as facas sob os camisolões de  algodão grosseiro dos escravos.  Fingindo trazer um recado, João  apresentou ao negreiro um papel dobrado que ele supôs ser uma carta. Ao estender o braço para pegá-lo,  Gregório, o outro escravo,  atingiu-o com uma facada certeira no peito. Letalmente ferido,  emitindo um gemido,  caiu por terra. Esfaquearam-no até a morte, dizendo-lhe a cada estocada que quem os mandara tinha sido D. Brigida, sua mulher.  Ao ver a vítima morta, fugiram enquanto os escravos do negreiro em gritaria tudo assistiam, no entanto, sem fazer nada...
A jovem viúva  recebeu a notícia numa calma satisfação, sentia-se vingada. Os escravos estavam livres da senhora, mas não da lei. Tornaram-se fugitivos. Apesar das suspeitas, a ela nada aconteceu. Afinal de que valia a a palavra de escravo contra a de uma sinhá, branca , fidalga e rica...
Já de volta à França, o escritor francês comentou com teatral espanto o episódio daquela noite em Ilhéus. Foi  um ato de selvageria, de desprezo pela lei de Deus e dos homens, de deturpação de costumes, só visto  em terras selvagens tropicais, colonizadas por gente bárbara e escravos, dizia.  Provavelmente, ao comentar a sanguinária estória de D. Brígida, o frustrado imigrante Frances se  esqueceu da história da sua pátria e de suas colônias...
Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 06/07/12
Fonte dos dados:
Mulheres e Costumes do Brasil ( Charles Expilly)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


PLANETA
DOS
PALHAÇOS

Manuel de Sousa
 Luanda - Angola
Capítulo 1 – A Guerra

Era um Planeta quase normal, que orbitava à volta de uma Estrela um pouco maior e mais avermelhada que o Sol, onde os tons das côres eram um tanto mais vivos e luminosos do que os da Terra.
Não fossem seus habitantes terem aspecto de palhaços, nao só porque passavam o tempo pintados e mascarados, mas porque, suas feições eram apalhaçadas e grotescas, em grande parte dos casos, e tudo o resto era aparentemente normal.
As côres da pele tambem poderiam variar de aldeia para aldeia e ir de um lado ao outro do expectro, e as feições diferenciadas, tornavam-se parecidas e características de e em determinados locais.
Os habitantes poderiam apresentar narizes redondos ou arrebitados ou mesmo, com outras variadas formas meio disformes, havendo uns que pareciam autênticos turbérculos, alguns parecidos com batatas e outros, com cenouras ou ainda, com mandiocas.
Para quem ouvisse falar pela primeira vez do Planeta dos Palhaços, iria pensar tratar-se de um Planeta onde só existiam palhaçadas, graças e muito humor constantemente, e sobretudo, paz e harmonia. Mas, pelo contrário, o Planeta estava em guerra há mais de mil anos e tudo porque, metade do Planeta era habitada pelos chamados Palhaços Tristes e a outra metade, pelos Palhaços Alegres.
Uns não podiam com os outros, pelo simples fato de uns apresentarem um semblante sempre carregado e triste e os outros, alegre e descontraído, apesar de ambos os lados, apresentarem o mesmo tipo de atitude apalhaçada que sempre caracterizou os palhaços.
Portanto, não se misturavam e os Tristes viviam em suas Cidades e Lugarejos e os Alegres nas suas respectivas Localidades. Havia uma fronteira que delimitava ambas as metades do Planeta e quem fosse apanhado no lado oposto, era simplesmente aprisionado e jogado em um dos muitos Vulcões existentes no Planeta.
Por vezes haviam batalhas para tentar invadir uma e a outra parte, mas que, acabavam invariavelmente em um empate, pelo que nem uma nem a outra obtinha grandes vantagens.
Ao longo dos mil anos que já demorava a guerra, ninguém se lembra de alguma vez ter havido um casamento ou qualquer tipo de relacionamento ou amizade que fosse, entre a parte de lá e a parte de cá do Planeta, pelo que os Palhaços Tristes casavam entre si e os Palhaços Alegres com as respectivas consortes Alegres.
Mas tudo isto, estaria para breve, em mudança...

Capitulo 2 – O Encontro

Andavam ambos procurando cogumelos para a janta, quando de tanto procurar e procurar, se perderam no meio de uma floresta frondosa e que era tida como sendo cheia de acontecimentos de mistério.
A floresta em questão, era localizada num sítio muito remoto, no sopé de uma região montanhosa fronteiriça onde poucos se atreviam a ir, à exceção de um determinado Palhaço Alegre, tido muito aventureiro e destemido, e de uma determinada Palhaça Triste, também considerada corajosa e tida a aventuras.
Um ramo partido, num lado e um barulho de susto feminino, no outro, despertaram os sentidos a ambos e logo levantaram as cabeças para ver o que os provocara. Deram os dois a olhar um para o outro.
Não sabiam bem o que dizer um para o outro, sobretudo, quando viram serem um e outro, de lados inimigos. Apanhados pela surpresa, a princípio mantiveram o silêncio e um certo ar de espanto.
Olharam ambos em redor, para ver se havia mais alguém, mas nada viram para além deles e das árvores que os rodeavam e dos picos das montanhas lá mais para cima, para os lados do horizonte celeste.
Talvez porque se desse conta de já estar meia perdida e de talvez até, de já estar por distração, no território dos Palhaços Alegres, lá encheu os pulmões de ar e com um ar triste, disse, - Ó Palhaço Alegre, quem és tu e o que fazes no meu lado da fronteira?
Em resposta e ainda meio surpreendido, o Palhaço Alegre respondeu, - Quem está no território alheio és tu!
Ficaram nesta teimosia um bom par de horas e chegaram até a jogar um ao outro, os cogumelos que haviam apanhado para os cestos que ambos traziam a tiracolo.
Já sem nada nos respectivos cestos e com cogumelos espalhados por todo o lado em redor, lá tiveram o consenso de parar o ato agressivo e de voltar a dialogar.
A Palhaça foi a primeira a tomar a iniciativa, dizendo, - Ouve bem! Quem és e o que fazes aqui tão longe da tua Aldeia?
Ele respondeu, - Sou o Príncipe Supremo da Côrte dos Palhaços Alegres e vim aqui para apanhar os meus cogumelos favoritos e tu, quem és afinal?
Ela retorquiu, - Eu sou a Princesa Herdeira da Côrte dos Palhaços Tristes e um dia serei a Rainha de todo o Reino dos Palhaços Tristes e também vim aqui apanhar os cogumelos mais raros e gostosos do Planeta, mas contudo, ainda não respondeste o que te fez passar para o meu lado da fronteira?
Não querendo continuar a teimar de que lado da fronteira estava, ele prosseguiu dizendo, - Minha linda Palhaça Triste, se achas que estou no teu lado da fronteira, pois e apesar de não ver marca nenhuma em lado nenhum que o diga, vou já embora, para não termos que continuar esta teimosia sem graça alguma.
Ele interferiu de imediato, - Palhaço Alegre, o melhor será apanhares os meus e os teus cogumelos, ao invés de perderes tempo com palavras, devolvendo após isso os meus, para que eu também vá embora, pois, já me estou a sentir meio perdida e tão logo será noite para voltar para casa. Se não volto antes do anoitecer, decerto que meu Pai, o Rei dos Palhaços Tristes vai mandar os seus principais exércitos à minha procura e se te apanharem perto de mim, não sei o que te poderão fazer!
De forma estranha, ele viu-se a apanhar os cogumelos de ambos e a colocá-los em primeiro lugar no cesto dela, para depois apanhar os que restavam para o seu cesto. Findo isso, viu que ela havia se sentado num tronco seco ali perto, observando e esperando até ele apanhar o último.
Findo isso, ele dirigiu-se a ela.
- Então, Cara Princesa, ainda aqui estás? Pensei que mal te devolvesse o cesto, que te punhas a caminho dos teus, para evitar que eles venham à tua procura e acabem nos achando aos dois.
Ela olhou para os olhos dele e disse:
- Estava somente a brincar contigo, pois, já passei outras noites nas florestas e em outros lugares recônditos, completamente sozinha e já todos estão habituados que eu regresse sempre sã e salva a casa, pelo que não te deves preocupar com isso. Além disso, já nem eu nem tu teremos tempo para sair daqui antes do anoitecer e tão pouco para chegar a casa a horas, pelo que, o melhor será procurares um abrigo para ambos, onde possamos estar protegidos contra os animais selvagens e as intempéries.
Ele ficou calado por uns momentos, em tom de quem buscava resposta, para dizer:
- Mas isso não me parece sensato de forma alguma. E se vêem em nossa busca de parte a parte e nos apanham juntos, o que irão fazer connosco?
- Para já, não sabem bem onde procurar na floresta e ainda mais à noite. O mais óbvio, será que nos procurem só a partir do amanhecer. Enquanto isso, podemos muito bem passar a noite protegidos e juntos, numa das muitas grutas que por aqui existem, sem termos que nos expor cada um à sua sorte e aos inúmeros perigos que por aqui há à noite -, disse ela.
Assim, ele procurou um abrigo e quase de imediato encontrou uma gruta, que parecia ser cômoda para os dois passarem a noite em paz. Buscou alguns gravetos e folhas secas e fez duas fogueiras, uma perto da entrada, onde já tinha colocado algumas espinheiras, para evitar os animais selvagens, e uma outra fogueira, junto ao local onde iriam repousar.
Pousaram os respectivos cestos num dos cantos e o melhor que puderam, deitaram-se um junto do outro, e sem saberem bem porquê, talvez pelo frio que fazia na gruta, acabaram por se agarrar um ao outro. Os narizes desproporcionados de um e do outro, não tornava o repouso lá muito confortavel e acabaram por passar a noite meio acordados, quase até ao amanhecer.
Mal acabaram de colocar os cestos a tiracolo e de se lavarem ali perto num pequeno regato, começaram a ouvir sons de cães e de gente vinda de ambos os lados da floresta.
Ele foi dizendo:
- Parece que está vindo gente à minha procura do lado de lá da minha fronteira, pelo que o melhor é nós nos separarmos aqui e irmos cada um na sua direção, pois, também há gente vindo do teu lado e que muito naturalmente, vêm à tua procura.
Ela respondeu de forma surpreendente, - Nunca te esquecerei. E só vou fazer o que me pedes, para que tu não sejas feito prisioneiro, se apanhado junto a mim. Hei-de fazer tudo para te ver novamente, mesmo estando os nossos lados em guerra.
Ele olhou para ela, mais estupefacto que nunca e quase a gaguejar, mas com semelhante coragem, disse:
- Não sei bem o que aconteceu entre nós, mas algo de muito mágico e forte, talvez vindo da floresta, nos modificou durante a noite, e, agora só te tenho a ti na cabeça, pelo que, também farei tudo para te voltar a ver.
Ainda antes de partir na direção oposta, ela virou a cabeça para trás e disse:
- Daqui a um mês, regressarei aqui para te encontrar, pelo que espero que cá estejas então!
Ele concordou:
- Assim será da minha parte!
Cada um correu o mais que pode, de encontro às vozes que vinham de ambas as partes da fronteira, para evitar que um ou o outro pudessem ser vistos de parte a parte.
A guerra continuou e os planos de invasão e de novas batalhas iam-se revezando e renovando. Muitos continuaram a serem feitos prisioneiros, pelo que nada previa que haveria um fim para tal conflito entre Palhaços Tristes e Alegres.

Capitulo 3 – O Reencontro e a Paz

Um mês depois e depois da continuação da guerra que já durava mil anos, o Príncipe Supremo dos Palhaços Alegres encontrou-se, como prometido, com a Princesa Herdeira dos Palhaços Tristes, no local da floresta combinado.
Contudo, não tendo tomado as precauções e pelas suspeitas que haviam levantado na última vez, em que tinham vindo as partes de cada um deles à procura de ambos, lá estavam pela segunda vez frente a frente, movidos por uma ânsia como ambos nunca tinham antes sentido. No mês que estiveram cada um para seu lado, um fogo ardente e quase insuportável havia crescido no peito de um e do outro, e só este novo encontro veio conseguir acalmar.
Sem palavras, só mexendo os olhos no sentido dos dele, ela esticou as duas mãos fechadas na direção dele e abrindo-as, deixou ver duas pérolas do tamanho de ovos de pomba, sendo uma de prata com um sinal de menos a preto e outro de ouro, com um sinal de mais a vermelho, correspondentes, o primeiro, ao sexo feminino e o segundo, ao sexo masculino.
Ele ficou simplesmente abismado a olhar para ambas as palmas das mãos dela, sabendo que aquelas eram as sementes plantadas no primeiro encontro de ambos, e não se contendo, agarrou as mãos dela com as dele, fazendo-o de forma a envolver aconchegadoramente ambas as pérolas. Um brilho imenso saiu dos dois pares de mãos entrelaçadas, ocultando-as numa intensa bola de luz multicolorida, com raios saindo em todas as direções, para se espalharem pela floresta, num autêntico espectáculo de luz. A luz das mãos foi aumentando até envolver os dois numa única esfera enorme de luz, que irradiava luz para todos os lados. Vieram de todos os cantos da floresta, pássaros e outros animais silvestres e selvagens, acordados e espantados com o estranho fenômeno, atraídos pela intensa radiância ali produzida, que a tudo iluminava como se tivesse de repente virado dia.
No Mundo dos Palhaços, os bebês depois de concebidos pelo contacto, nasciam de pequenas esferas, que mais não eram que ovos de Palhaço, e era na mistura e na simbiose das mãos do casal paterno e da luz que eles produziam neste ato, que se desenvolviam as crianças Palhaços.
Ainda eles estavam envolvidos pela radiante e faiscante luz, quando de um lado e do outro da floresta, apareceram hordas de Palhaços Tristes e de Palhaços Alegres, fortemente armados de todo o tipo de armas, prontos para a batalha, quando se depararam com um dos mais intensos espetáculos de luz e côr já antes visto por um ou o outro lado.
Frente a frente e prontos para um choque violento, ambos os exércitos pararam por momentos face a tal deslumbrante e mágico espectáculo.
Instantes mais tarde, a luz começou a perder intensidade, até que quando foi diminuindo a sua intensidade, se viram no seio do sítio de onde provinha, o Príncipe Supremo dos Palhaços Alegres, a Princesa dos Palhaços Tristes e duas crianças já meio crescidas, embora ainda recém nascidas, provindas das duas pérolas que a Princesa havia apresentado ao Príncipe. Pela primeira vez em mil anos, haviam nascidos duas crianças Palhaço de uma relação entre um Palhaço Alegre e uma Palhaça Triste e, ainda por cima, de Principes Herdeiros a ambos os Tronos do Planeta dos Palhaços.
Nem o Rei dos Palhaços Alegres, Pai do Príncipe Supremo, nem o Rei dos Palhaços Tristes, Pai da Princesa Herdeira, à frente de cada um dos exércitos oponentes, sabia agora o que fazer perante tal situação tão desconcertante e complexa, quando até ali haviam estado em guerra permanente.
O que fazer? Prender a ambos e condená-los à morte nos Vulcões ou simplesmente ir avante com uma grande batalha para ver quem ganhava a contenda e ficaria com o poder de prender quem quer que fosse aqui na questão.
Perante tal situação nunca antes vivida e face a tal enlace, só havia agora a via da conversa. Assim, ambas as partes decidiram montar uma tenda gigantesca a meias, metade situada no lado de cà e a outra, no lado de lá da fronteira. No centro, numa das partes laterais, ficaram sentados lado a lado, o Príncipe e a Princesa e os seus dois recém nascidos Filha e Filho, que já andavam e mexiam tão bem como uma criança Terrestre de 5 anos.
As conversas começaram, com ambos os Reis a tomar a palavra. O Rei dos Palhaços Tristes foi o primeiro a pronunciar-se, - Sua Alteza o Rei dos Palhaços Alegres, como sabe a nossa guerra tem mil anos de idade e não foi feita para parar, mas com este acontecimento não previsto, o que poderá propor Sua Alteza perante ambas as Côrtes?
O Rei dos Alegres, diz por sua vez:
- Sua Alteza Rei Palhaço Triste, perante tal acontecimento, só temos duas opções! Jogá-los aos Vulcões aos dois ou então, jogar as crianças de ambos e deixá-los a eles vivos e a sofrer do castigo de tal ato e fruto proibidos, perpretado perante nossos dois Povos.
O Rei dos Tristes, por sua vez disse:
- Sua Alteza dos Palhaços Alegres, sou obrigado a estar plenamente de acordo com as duas opções, pois, entre nós não poderá haver mais sensata solução para esta questão. Entre nós há guerra a mil anos e não será por esta bizarra ocorrência, apesar de ter sido perpretada pelos Principes Supremos, herdeiros de ambas as Côrtes, que vamos simplesmente perdoar-lhes e deixar as coisas assim, pois, a guerra tem de continuar entre nós, saibamos qual foi o motivo que a motivou ou iniciou ou não!
Nisto, ouviu-se uma voz vinda do alto da tenda e como se esta fosse transparente e trespassável, surge do nada um imponente Anjo todo vestido de branco sedoso, que mais parecia constituída por faixas sobrepostas de luz pura e luminescente, que a pairar no alto, disse, - Escutai-me bem ó Reis Palhaços! Mil anos de guerra já bastam. Chegou a hora do entendimento e da paz, e esses, ei-los aqui ao vosso lado simbolizados, são o Príncipe dos Palhaços Alegres e a Princesa dos Palhaços Tristes, que acabaram de à vossa frente, de selar um verdadeiro tratado de amor e de harmonia entre os vossos dois Povos. De ora em diante, eles como Principes Herdeiros de ambos os Reinos, casarão e serão o supremo símbolo da união dos Povos do Planeta dos Palhaços, e seus filhos chamar-se-ão em lembranca disso, Amor, ele, e Harmonia, ela...
A partir deste momento, todos aqueles que tiveram no lado da guerra, irão servir como Palhaços num Planeta chamado Terra e lá, a título de redenção pelos seus atos, irão servir para fazer rir, ou no papel de Bobos das Côrtes Terrestres, ou como simples Palhaços nos Circos e noutras atividades circenses, para animar crianças humanas e por aí afora.
Os Nobres e os mais Altos Dignatários, esses irão criar Escolas para ensinar a arte da Palhaçada aos Terrestres, para que aqueles se distraiam e aprendam a rir, a humorizar e a brincar, sobretudo, naqueles momento em que isso for necessário, e naqueles maiores períodos mais sombrios, de crise ou de tristeza e onde haja necessidade de manter a fé, a boa disposição e a moral, acima de tudo.
Dito isto, todos aqueles mentores, fazedores e partidários da guerra, foram levados pelo Anjo para a Terra e por lá andam até os dias de hoje como Palhaços, enquanto no Planeta dos Palhaços, reina agora a união, a paz plena, o amor e a harmonia...

MANUEL DE SOUSA
Luanda – Angola

Dedicado a todas as Crianças, aos Adultos de todas as Nações e à Consciência Sublime acima de tudo, sobretudo daquela que vela pela permanente Conservação da Vida Animal e Vegetal em todo o Planeta.

Estória de Natal, escrita a 27 de Dezembro de 2011, em Luanda, Angola.

domingo, 8 de agosto de 2010

Última Lição de Geometria

Nasci em Igarapava, uma cidade muito pequena na fronteira de São Paulo com o estado de Minas Gerais, pertinho de Uberaba. Muito de Igarapava me lembra Minas, e muito de Minas me lembra Igarapava, reminiscências fronteiriças inacabadas, eu creio, de um paulista que não sabe se / que é mineiro, ou de um mineiro que, por muito pouco, ficou sendo paulista “por enquanto”. Muitas vezes voltei para Igarapava, onde está a casa de meu avô, no sentido concreto e platônico do termo, o velho Nadinho Terra, ou Nardim Terra, com um sonoro –im no final que às vezes eu imito em tom alegre.
Em meus escritos aprendi a achar graça de quando a cidade aparece do nada e mevisita, me lembrando ser eu o eterno visitante dela. As pessoas de lá se cuidam e se conhecem desde tempos imemoriais e costumam perguntar a qual família pertencem nas ocasiões de primeiros encontros, atavismos não sei de onde... Há poucos dias, por razões de trabalho, me deparei com uma pessoa de Igarapava, nascida de Igarapava, que eu não conhecia, em um contexto inesperado, em uma localidade completamente outra: quando me dei conta, estava eu a lhe perguntar de que família era, como vovô até hoje faz por lá.


joão ricardo terra
poeta brasileiro

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Última Lição de Geometria

Dizem que fogo apaga fogo. Mas neste caso, entretanto, poderia haver visões paralelas, perpendiculares entre si, mesmo formando outros ângulos. Como também em relação ao jeito displicente de os carros pararem na rua, em relação ao rio partindo ao meio a cidade centenária, à xeretice infinita das pessoas daquele lugar. Um rumor qualquer, elas ficavam especulando, assuntando, enumerando acontecimentos.

Com a estação seca, a palha dos canaviais cuidadosamente deitados se alastrava. Os tratores se postavam desligados à mercê da plantação, circundando-a, e a cor da palha era quase a mesma que a do vestido dela. Pintada com as cores de que eu mais gostava? Decerto que sim, ela se gabava muito, apesar de, para os outros, aquelas serem apenas cores de uma escala cromática abandonada, fora de moda.

No começo ela dizia que o rio é que era o seu lugar preferido, com suas mãos entre as minhas. Que, em se queimando tudo, concentricamente, haveria um ponto nesse quase braço de mar onde o fogo podia crescer em roda, à vontade, para a comprovação daquilo em que todos nós confiávamos. Depois, misteriosamente, ela passou a dizer que gostava mais do canavial. Ficava horas me contando, me dizendo, me olhando. Seus olhos? Mágicos, sim. Já não havia mais nada que ela fizesse de dia com que eu não sonhasse à noite. Era apenas cana deitada em ângulo aguardando a ceifa, nada além para alimentar novas notícias, mas ela ficava tão bonita naquele vestido clarinho, rodeando a plantação, olhando tanto, que aos poucos os outros percebiam e começavam desconfiar das incoerências ocultas de cada um. Só para olhar a cana ela ia, costumando prometer que ainda entrava no rio, depois, para tirar a contraprova. Eu acreditava, apesar de lhe pedir que não, por favor. Ela respondia:
– Eu gosto tanto de você assim, preocupado.

O estranho é que nunca mais ninguém ficou sabendo a explicação correta dos fatos, talvez o rio fosse um desses mundos em que a lógica fica comprometida. Naqueles mesmos dias, eu a vi entrar na água, viva, e sair tão mudada, escandalizando-nos com sua peculiar naturalidade em convocar e destruir um mito. Se você passasse por aqui depois, iria encontrar uma cidade irritantemente a mesma, o miolo aquático dela, conturbado. Você veria as pessoas comentando: dizem que o escorpião alocado num círculo em chamas ferroa-se na cabeça, para morrer depressa. Dizem que dentro do arcoíris homem vira mulher, e vice-versa. Dizem que em dia de finados os mortos vêm procurar suas camas, em casa. Dizem que dois touros trançaram chifres na praça, certa vez, sem nunca ninguém ter descoberto de onde vieram, muito menos para onde foram. Dizem que o padre antigo andava armado. Dizem que fogo abafa fogo: em pouco tempo você aprenderia tudo.

Íamos à noite ver o rio, enquanto rindo ela me repetia essas histórias descomedidas. Até então, nunca ninguém havia invadido tão gravemente o território das águas. Houvesse o tempo da evitação, mas não. Ela dizia tanta coisa bonita antes, que eu costuma levar em conta. Por exemplo? Sobre o incontestável efeito que sua contraprova teria sobre os carros e cabeças abertos, defronte às casas, sem nada a dizer muito diferente de uma teoria equivocada. Ela dizia um dia ainda se deitar naquele leito d’água e comprovar o que pensava. E se nada acontecesse? Pensativa, quieta como as palhas que se avolumavam à espera de uma divina centelha, ela debochava:
– Eu gosto tanto de você assim, cético.

Antes ela sorria de vestido claro e cabelo preto contra o canavial fundo, dando aviso freqüente, sem ninguém capaz de a compreender, naqueles mesmos dias quentes em que qualquer um morria de vontade de atear fogo à palha, ver o fogo avançando, depois mergulhar depressa no legítimo alívio das águas. Houvesse mais um tempo mínimo, e eu sei que ela ainda estava por aqui.

Numa tarde, então, foi que ela saiu de casa sem dar explicação alguma. Os veículos trancavam-se em ângulo contra as calçadas, todos se entreolhando matematicamente, evitando entender. Houvesse mais tempo, interrompia-se uma dessas antigas histórias prestes a nascer. Dizem que ela caminhou, e andou, e andou por entre a cana, voltando-a à vertical. Dizem que ela ateou fogo ao canavial, religou os tratores e, na esperança de ver o fogo contra o fogo, na descabida esperança de um dia ver isso acontecer, ela veio me encontrar na beira do rio, onde eu já a esperava, como de costume, e me desesperava com a luz diferente de seus olhos e dos canaviais acesos.

Voltando: uma tarde ela se pintou toda e saiu de casa. Até então, nunca havia invadido tão gravemente o território das águas. Dizem que o escorpião alocado num círculo em chamas, em se queimando tudo, concentricamente... Uma vez ela me disse ter medo, mas eu nem acreditei. Por isso, talvez, àquela hora ela gritasse. E gritava, numa ação que se concluiu em quatro mãos separadas: as dela escapando às minhas. De todos os ângulos aparecia gente para ver. Não houve eu que a abafasse.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Quem sou eu?


Fernanda Leite Bião


Outro dia me perguntaram: — Quem sou eu?
Busquei, em meio à minha razão e reflexão, precisar. Uma imagem invadiu a minha mente. Deixei-a entrar.
Era uma estrela cadente luminosa. Cores variadas percorriam seu corpo celeste e traduziam a beleza do seu ser. Acompanhei-a. Busquei seguir seus passos. Ou seria o seu rastro?
Percebi que ela transitava entre mundos e percorria o universo. Parecia sem rumo preciso, de curso incerto.
Senti-me um pouco apreensiva em seguir um ser sem direção exata. Entretanto, uma coragem frente ao desconhecido e às possibilidades de conhecer se espargiram em minha alma. Fui tomada de uma força poderosa que me movimentou.
Por onde passávamos, via um baile de corpos celestes. Tantos movimentos, tanta diversidade.
Estranho, parecia já conhecer algo semelhante àquilo.
Enquanto viajava, busquei contemplar todos os detalhes à minha volta.
À medida que me permitia sentir, vivenciar, o medo se esvaía.
Comecei a reparar que o medo tem energia vital em nossas experiências passadas. Elas modelam experiências e respondem aos comportamentos presentes.
Em face do perigo, nós tendemos a nos conservar exatamente no lugar que conhecemos. Acontece isso comigo. Será que acontece com outras pessoas? Acontece com vocês?
Bem, a viagem foi uma viagem! Engraçado como a mente da gente se perde na imensidão do cosmo. Parece, de fato, uma estrela sem rumo, vagando por aí.
Quando me assustei, estava de volta a mim.
Fiquei curiosa para saber onde a estrela foi parar. Ao mesmo tempo, voltava a quem sou eu.
Eu sou...
Peraí!
A estrela caiu. Lembrei agora. Lugar estranho aquele...
Mas, voltando à nossa pergunta inicial: vou olhar ali no espelho. Espera um pouco, tá?
Olhei-me. Observei cada detalhe.
Sabe o que descobri? Acho que minha mente baila demais.
Vi as cores da estrela em mim. Será que ela caiu aqui em casa?
Não sei. O que vocês acham?
Quem sou eu? Acho que sou a estrela cadente.