Mostrar mensagens com a etiqueta Espiritualidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Espiritualidades. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de março de 2020

Apontamentos sobre a Índia Antiga


Baghavad-Gita ou "A Canção de Deus"
(Imagem do Google)

Luís Santos

A Índia conheceu várias civilizações e nela encontramos várias cosmogonias.

A Civilização do vale do Indo, a primeira grande civilização que surge na Índia, há 6 mil anos atrás, situou-se na zona do NW da Índia e Paquistão. Atingiu o seu apogeu 2.500 anos antes de Cristo. Utilizavam uma escrita de muito difícil tradução que limita o seu conhecimento. São contemporâneos do Antigo Egipto e dos Sumérios.

Em 1500 a.C., desenvolve-se a civilização Ariana no Vale do Ganges. Esta civilização floresce enquanto a do Vale do Indo desvanece. Não se sabe se constitui um prolongamento da primeira. Os povos de raiz indo-europeia descendem desta civilização. Vários autores desenvolvem o tema das culturas indo-europeias, como são os casos de Georges Dumézil, Émile Benveniste e Max Müller.

A Filosofia Clássica Indiana, em última instância, procura responder a duas questões: a natureza última da realidade e respetivas consequências no nosso destino pessoal. Para a sua compreensão é importante perceber-se que a cisão entre fé e razão ocorrida no Ocidente, não se encontra na Filosofia no Oriente.

Os Hinos Védicos, são os textos sagrados mais antigos da Índia. A palavra "veda" significa conhecimento, saber, passível de audição (que pode ser escutado). Em síntese, textos sagrados a serem escutados para serem apreendidos. As Upanishad, é o nome dos textos que, posteriormente, refletem sobre a cultura védica, mas que, simultaneamente, assinalam uma rutura com o período anterior. Estes textos dão-nos uma explicação sobre a origem das coisas, mas também sobre o que podemos realizar no interior de nós próprios. Atingem o seu momento pleno no século VI a.C.. Upanishad etimologicamente significa “estar sentado junto de” (do Mestre que explica os Vedas).

O Budismo, quando aparece pode considerar-se uma interpretação radical das doze Upanishad. Buda viveu no século VI ou V a.C. As primeiras cinco são prévias ao seu nascimento e as últimas sete são posteriores.

ALGUNS CONCEITOS IMPORTANTES DO HINDUÍSMO

Sâncrito, Língua Sagrada da Índia, uma sociedade divida em castas distintas, Brãhmana, ksatriya, Vaisya.

Hinduísmo é o desenvolvimento até aos nossos dias de um sistema magnífico de crenças e tradições que advém da interpretação dos textos sagrados da Índia.

Brâman, é a suprema divindade, o Absoluto, é incognoscível pelo homem. Princípio incondicional de criação de toda a realidade. A própria realidade. Um princípio supremo que está para lá dos próprios deuses.

Trimúrti, é a tripla parte manifesta da divindade suprema. Como um ser limitado, o ser humano somente percebe três aspectos de Brâman. A trimurti é composta pelos três principais deuses do hinduismo: Brama, Vixnu e Xiva, que simbolizam respectivamente a criação, a conservação e a destruição.

Atman, o sujeito interior de tudo o que um indivíduo faz. Um unificador interior de todos os nossos comportamentos. Agente interno que coincide com o próprio Absoluto e que se tiver “despojado” lhe pode aceder.

Chama-se de Brahmanismo às práticas rituais religiosas mais antigas feitas na Índia por sacerdotes brahmanes. Há que cumprir os ritos para atingir a dimensãos dos deuses.

Dharma, aquilo de que depende a ordem do mundo. A prática correta dos rituais é fundamental para manter a ordem no mundo, tal como é a sua forma original.

Entre as 4 grandes idades do mundo, atravessamos o período de maior decadência, o período em que, metaforicamente, a “vaca sagrada” está assente apenas numa pata.

Samsara, roda da vida que gira sem parar. Enquanto a existência estiver condicionada, o ciclo de renascimento/morte perdurará. Os seguidores do hinduísmo acreditam em vários deuses e na reencarnação, pois que os seres humanos morrem e nascem várias vezes. Cinco fatores que fazem o ser entrar no ciclo do samsara: ignorância, orgulho do eu, aversão à dor, perturbação/aflição e medo da morte/apego à vida.

Karma, designa a cada momento a ação condicionada pelas ações do passado e com consequências posteriores. É condicionado e condicionante. A sabedoria permite cessar a ignorância, ou seja, a produção kármica. Toda a experiência de dualidade, “eu sou um, tu és outro” produz o ciclo kármico.

Mumuksha, o desejo que fornece a possibilidade de libertação.

O Yoga é o contínuo exercício que permite pôr fim ao karma. A necessidade de cessação dos movimentos mentais. A procura de um êxtase, de uma consciência unificada. O Yoga deve levar-nos ao ponto zero da manifestação, a um processo de involução. Ser senhor dos próprios pensamentos, de pensar só quando é necessário.

Jivanmukta, aquele que se liberta da vida, que transcende os próprios deuses.

SOBRE O HINDUÍSMO

As escrituras sagradas hindus dividem-se em dois grupos:
- Os Sruti, (textos de revelação), onde são considerados Hinos Védicos, as Brãhmana-Upanisad e Ãranyaka. Todos estes textos do período védico pertencem à forma oral e só no período clássico passaram para a forma escrita. A recitação dos hinos sagrados sempre foi mantida, até hoje, ininterruptamente desde há milhares de anos.

- Os Smrti (textos da tradição), constituídos pelos textos épicos Mahãbãrata e Rãmãyana, pelas crónicas Purãnas e códigos de lei e ética.

Entre os textos sagrados indianos, as Upanishad têm particular relevância na transição da cultura védica para o hinduísmo. As Upanishad são o principal ponto de referência de Adi Sankara (788-820), o autor que mais marcou o desenvolvimento da filosofia clássica indiana e do hinduísmo. Tal como de Vivekãnanda (1863-1902), um dos grandes pensadores sobre a escola de Sankara. Foi um estudioso das filosofias ocidentais na Universidade de Calcutá e, igualmente, dos textos sagrados da Índia.

O princípio filosófico primordial é a equivalência entre ãtman e brahman. Atman, é um corpo vivo que respira = self = sentimento de si. Brahman é a própria realidade, o que existe em si e por si. É esta a síntese suprema de Sankara: a mesma identidade entre Atman e Brahman. Ou seja, aquilo que existe no interior de cada um é a própria realidade. Ser, Consciência, Felicidade Suprema (beatitude, bem estar), os principais objetivos.

Num texto das Upanishad - Taittirtya Upanisad – diz-se que nós não temos só um corpo, mas sim 5 corpos:
1-annamaya kosa (1ª camada) – o corpo que resulta da comida (o corpo físico)
2-prãnamaya kosa (2ª camada, cobre o primeiro corpo) – corpo de que resulta a respiração (o corpo que sente, o corpo subtil), do qual não se pode descrever a essência
3-manomaya kosa (3ª camada) – corpo que resulta da fusão dos outros dois corpos
4-vijñamaya kosa (4ª camada) –  corpo que tem a capacidade de compreender
5-ãnandamaya kosa (5ª camada) – a consciência, a camada que nos dá a felicidade.

Como trazer o corpo de felicidade suprema (ãnandanaya kosa) para o primeiro estado em vez de ser o último? Para Sankara isso consegue-se através da meditação, do Yoga. Para si, o texto de referência é sempre as “Upanishad”. Em última instância, aquilo que Sankara pretende demonstrar é que a realidade última está em nós. A experiência do Si é a mesma experiência da realidade. Nós somos Tudo e Todos.

As principais escolas da filosofia clássica indiana são as seguintes: Sãmkhya, Yoga, Vedãnta, Mimamsã, Vaisesika, Nyãya, Buda Dharma e Jainismo. As duas últimas são tradições heterodoxas que não se revêm nos textos sagrados do hinduísmo, embora tal como nele, também as Upanishad constituem uma das suas principais fontes de conhecimentos.

BHAGAVAD-GITA, ou “A CANÇÃO DE DEUS”

Bhagavad-Gita é um capítulo do “Mahabharata”, o grande épico indiano que é um dos textos sagrados do hinduísmo.

O grande protagonista do livro que fala na primeira pessoa, Krishna, o avatar de Vishnu, ou seja, a própria divindade, dialoga com Arjuna, seu discípulo guerreiro, em pleno campo de batalha. Arjuna representa o papel de uma alma confusa sobre o seu dever, e recebe iluminação diretamente do Senhor Krishna que o instrói na arte da auto-realização.

 Há quem o considere o maior das “Upanishad”. É o texto inspirador de Ghandi. Influenciou muitos escritores ocidentais como foi o caso Aldous Huxley. “Irmânia”, livro de Ângelo Ribeiro, autor português do século passado, também revela a sua influência. Einstein dizia que “quando lia o Bhagavad-Gita e pensava nas leis do universo, tudo o resto se tornava vulgar”.

Esta obra releva, sobretudo, o amor devocional, o amor divino, acima de quaisquer conhecimentos ou ação, daqueles que agem com os sentidos equilibrados, ou dos que agem não agindo, relembrando a boa maneira do taoísmo.

A essência de Krishna é o universo inteiro. Tudo é sagrado. Tudo é uno. O uno e o múltiplo são inseparáveis. Deus é a totalidade, transcende o bem e o mal, ou seja, pode ser bom, mas também pode ser mau!

Krishna diz a Arjuna: “Tu e eu existimos desde sempre”; “os corpos perecem, mas a alma não”; “o Uno não tem início, nem fim – não nasceu, nem morrerá”; “o apego ao prazer, a aversão à dor, a valorização da dualidade são limitações humanas”; “Deus é tudo em todas as coisas” (igual ao que diz São Paulo,  nos “Coríntios”). Continua Krishna: “Só aquele a quem conceder uma particular graça é que me pode ver, mais ninguém” (…) Mas enquanto homem, Arjuna, não aguenta muito tempo a perceção e a visão de Deus, e só quer que a experiência acabe…

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Incursões dentro de uma cabeça cansada


por Francisco Gomes Amorim

Catolicismo, de católico, do grego Katholikós, geral, universal. Até aqui todos sabemos.
Ser católico não necessita obedecer à hierarquia de Roma, nem tão pouco ser cristão.
Basta sentir e viver a universalidade do ser humano, de respeitar e tratar TODOS como irmãos, deixando que cada um faça as suas orações e ou meditações como, quando e a quem entender.
Sempre respeitando a liberdade de qualquer Outro, e sempre o considerando irmão.
E assim católico, recorrendo ao valor etimológico da palavra poderá ser qualquer um desde cristão a animista, judeu ou muçulmano, quando põe os valores universais acima dos seus.
Mas, desde os tempos atrás dos tempos, há uma pergunta que não cala, nem responde, perturba muito, até os que se dizem ateus ou mais dissimulados os agnósticos que preferem não pensar e simplesmente dizerem que “nada sabem”:
Deus será um Ser? Que Ser? Só uma Força? De onde vem essa Força?
Deus será bom? Será um Deus da guerra que só protege os hebreus? Será como Alá que o Profeta decidiu interpretar e à sombra do Qual se mata o, para eles, não crente? Crente em que? Em quem?
Ou será a filosofia chinesa e hindu, o Tudo e o Nada, para que cada homem se liberte e se encontre dentro de si mesmo?
Deus é  a natureza, Tudo e Nada! Tudo e todos.
O que não é, quase de certeza, porque certezas neste campo não existem, é a imagem daquele velhinho, ar bondoso, barbas brancas, pendurado numa moldura, para onde se olha quando se lhe quer pedir algo!
Pedir? Rezar?
As perguntas avolumam-se. O que é rezar? Recitar palavras impressas e difundidas desde há milhares de anos por milhões de pessoas e que se repetem, muitas vezes por obrigação?
Pedir a Santo António que lhe encontre um par? É bonito ter fé, mas há preces que são autênticas vigarices, como por exemplo quando alguém quer “negociar” um favor divino e em muitos casos ainda lhe pedem para pagar por isso!
Rezar é falar para dentro de si mesmo, ou quando a Fé é muito grande, como uma velhota angolana que eu vi, há muitos anos, em Luanda, na Igreja da Nazaré, a discutir em voz alta com a imagem da Virgem, porque ela já ali tinha ido rezar uma porção de vezes, pedindo auxílio já não sei para que, mas a ajuda não acontecia. E a boa velhota discutia, em voz alta, com a Virgem como discutiria com qualquer outra pessoa. Maior fé é difícil, e não deixou de me impressionar. Gostaria de ter tamanha fé.
Em que?
Quando, em prece nos dirigimos ao “Senhor”, teremos consciência do que estamos a fazer, ou somente a pedir? Pedir que nos faça melhores pessoas para logo em seguida continuarmos a ser os mesmos, como é habitual fazer-se na passagem do ano quando se “juram promessas” de nos redimirmos?
Criar a ilusão de que não vamos mais nos interessar pelos dispensáveis “bens” terrestres, quando continuamos a querer um carro melhor ou mais um dinheirinho para compras de coisas que não nos fazem falta?
Ou para tentar imobilizar o nosso Ego, dedicar todo o nosso tempo disponível a “Não-Agir”, meditar e darmo-nos aos Outros?
Como pode alguém encontrar-se dentro de si mesmo, pelo Não-Agir? Para nos darmos aos outros temos que Agir! Daqui o Tudo e Nada, inseparáveis
Como pode alguém ausentar-se do mundo, para, com muito egoísmo, se dedicar à procura do Nirvana individual? Mais uma vez a sublimação do nosso Eu é derrotar o egoísmo.
Como pode ausentar-se e afastar-se daqueles que, cada dia mais, precisam de quem lhes dê a mão?
Não-agindo na matéria, derrotar o egoísmo e encontrar dentro de si a paz absoluta, só quando se entrega inteiramente aos que o rodeiam.
Jesus veio.  Para servir e não para trazer dar proveitos e privilégios a quem quer que seja.
Veio e, em oposição à antiga lei onde o ser “bom” era não fazer aos outros o que não gostaria que lhe fizessem, deixou a Nova Lei, a Boa Nova: FAZ, age, ajuda o teu irmão, começa pelos mais necessitados, sê caritativo, o que não significa dar esmola e virar costas, mas DAR-SE sem exigir nada em troca.
A cabeça fica meia tonta com tanto pensar em todas estas coisas que no fundo se resumem a uma só: cuida do teu irmão! E do meio ambiente. Sem este, são, tudo estará perdido.
Para os que invejam, cobiçam e lutam pelas “preciosidades” vãs e terrenas, os Ego-istas, deviam ouvir mais vezes Carmina Burana, uma série de poemas medievais (sec. XI - XII) musicados magistralmente por Carl Orff. Além de ouvirem a música tentar assimilar bem a sua letra, sobretudo o poema de abertura e final:
Oh! Fortuna!
És como a lua, mutável, sempre aumentas ou diminuis;
A detestável vida, ora oprime e ora cura para brincar com a mente;
Miséria, poder, ela os funde como gelo.
Sorte imensa e vazia, tu, roda volúvel és má,
Vã é a felicidade sempre dissolúvel, nebulosa e velada também a mim contagias;
Agora por brincadeira o dorso nu entrego à tua perversidade.
A sorte na saúde e virtude agora me é contrária.
Dá e tira mantendo-me sempre escravizado;
Nesta hora, sem demora tange a corda vibrante; porque a sorte abate o forte, chorai todos comigo!
Eu lastimo pelas feridas da fortuna, choro as feridas infligidas pela fortuna com olhos lacrimejantes,
Pois seu tributo de mim cobra agressivamente;
Na verdade, está escrito que a cabeça coberta de cabelos
A maior parte das vezes revela-se, quando a ocasião se apresenta calva.
No trono da fortuna eu sentara, elevado, coroado com as flores multicoloridas da prosperidade;
Apesar de ter florescido feliz e abençoado, agora do alto eu caio privado de glória.
A roda da fortuna gira; eu desço, diminuído; outro é levado ao alto;
Lá no topo senta-se o rei no ápice? Que ele tema a ruína!
A roda da fortuna, no codex dos Carmina Burana.
Mas se procuram a Verdade, a humildade e a caridade podem cantar com alegria o Aleluia de Handel:
O reino deste mundo já passou a ser de nosso Senhor, do Cristo.
Ele Reinará para sempre;
Rei dos Reis (Para sempre e sempre, aleluia, aleluia) 
E grande Senhor (Para sempre e sempre)
Aleluia, Aleluia

12/10/2016
http://fgamorim.blogspot.pt/

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A Azeitona


por António Alfacinha


De bandeja na mão colocava a bica, bem cheia, e o queque em cima da mesa. Ao mesmo tempo espreitava o titulo do livro que ela lia, “ Tristeza não se procura “. Achava estranho, pois o ultimo que ela tinha lido era “ Melancolia, não és sábia “. Os seus olhos percorreram a figura da jovem. Cabelos pretos, ondulados, olhos verdes, demasiado verdes. Expressão triste. Não lhe sabendo o nome, resolveu dar-lhe um, Azeitona, porque não, era o que mais condizia, e só ele saberia. Imaginava-a em seus braços, e aí seria azeitoninha. 
A tristeza, talvez alguma paixão perdida, ou estado de alma passageiro.
Enquanto aguardava no balcão os pedidos dos clientes, olhava-a e apreciava aquelas pernas cruzadas, talvez como a sua vida.
Saía sempre sem o chamar para pagar, e lá estavam as moedas, um euro e meio, como era habitual.
Deixou de aparecer, estranhou-lhe a ausência, talvez umas férias ou uma pequena doença.
Sentia falta daquela Azeitona, que nunca falava. Lentamente o tempo ia passando e apagando a sua imagem.
Um dia, um comentário de uma cliente chamando a atenção para uma fotografia que vinha no jornal, como sendo de alguém conhecido, foi espreitar e reconheceu-a,era ela, a sua azeitoninha. Por cima da foto, um título que talvez não fosse de todo surpresa. Tinha resolvido “ partir “ de sua livre vontade. Angustiado olhou, olhou para a mesa onde ela costumava sentar-se e estava ocupada com uma jovem de acabara de entrar, que olhando para ele fez-lhe sinal que se aproximasse para ser atendida. Pediu-lhe então uma bica e um queque. Achou estranho a coincidência do pedido, e olhou para o título do livro que a jovem tinha colocado em cima da mesa, “ Azeitonas, somos muitas “.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Génios?














Definição de génio – ser diferente do comum dos mortais. Será assim ?
Quem exterioriza a obra é o autor da mesma ?

Sempre que temos acesso a obras de seres considerados génios, quer na música, pintura, escrita ou outras formas de expressão sentimos um êxtase, uma alegria interior dificilmente descritível, e vivenciada muitas vezes de maneiras diferentes, dependendo também da sensibilidade de cada um.
“ ...aquele que acreditar em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai”, disse Jesus Cristo.
O ser humano pode ser comparado a um aparelho de telefonia. Emitirá a frequência para a qual estiver sintonizado. Frequências mais altas ou mais baixas. É apenas o instrumento que serve de passagem para permitir a manifestação. Jesus utilizou a palavra “ obras” e não milagres. “Acreditar em mim “, ter fé, acreditar sem interferência do mental que está sempre a questionar,querendo perceber, ver na forma visível.
Televisão, telemóveis, internet etc... hoje aceites como normalidade, há cem anos seriam considerados impossíveis, ficção, milagres e outros rótulos.
Voltando a Jesus, quem manifestava a obra ? Ele sabia perfeitamente que era apenas o instrumento para que a manifestação se tornasse visível. A altíssima frequência que passava através dele Jesus, era a energia Cristica.
Todo e quaisquer ser vivo possui a nível da sua estrutura celular gravado no seu DNA informação sobre a sua composição física, mental e espiritual. Esta ultima frase será considerada ficção, inverdade, por muitos, assim como o foram os exemplos anteriores há cem anos atrás. Então faz-se-à a pergunta:
-Como é que seres considerados génios manifestaram as sua obras no visível, o que é que fluiu, e onde se encontra essa fonte de criatividade ? É acessível a quaisquer um, ou só aos escolhidos ou predestinados?
A acessibilidade está mais naquele que nada quer, não deseja , no que se desapega, ou seja, naquele que não se identifica com a ilusão física ou mental. Não há nenhum ser humano que não possua em si a capacidade de ser instrumento para o mal, como para o Bem, a Criatividade pura. Somos todos diferentes uns dos outros na forma, na aparência, na ilusão, no temporal, logo todos génios, mas todos com as mesmas potencialidades interiores que emanam da Fonte Criadora.
Aproxima-se o dia em que o homem considerará como verdadeira evolução não a tecnológica, a intelectual mas sim a de Consciência. E aí sim, atingirá uma sintonia com a frequência vibratória que lhe permitirá o acesso ao campo de Criatividade que sempre lá esteve aguardando o regresso do filho pródigo a Casa, a gota de água que regressa ao Oceano de onde partiu um dia. É o terminus da frase de Jesus Cristo...porque eu vou para junto do Pai.

António Alfacinha

quinta-feira, 4 de junho de 2015

OS CAMINHOS DA AUTO-REALIZAÇÃO


POR
Abdul Cadre

Há quem entenda os caminhos da auto-realização como formas expeditas da conquista da felicidade. É um entendimento possível, desde que se tenha na devida conta que a felicidade não é um patamar a que se chega e pronto, sentamo-nos a descansar numa cadeira de baloiço, imaginando a vitória da permanência, mas permanente é apenas o desejo de ser feliz, não a felicidade. Aliás, de felicidade o que podemos falar é de instantes, coisa que de imediato se sabe quando um sapato desajustado nos rói o calcanhar. Todavia, há gente descalça que se sente feliz. Dizia Séneca que «um homem pode governar o mundo inteiro e continuar infeliz, se não sentir que é supremamente feliz. Alcançável e permanente poderá ser a serenidade e esta sim é um dos desideratos dos que fazem a via da auto-realização, que exige do buscador o uso inteligente da vontade e a educação ponderada (e não reprimida) da emoção.

No que concerne à emoção, cuidado com as fantasias new age e de marketing que pretendem impor um conceito um tanto abstruso de inteligência emocional, quando é evidente que as emoções não são nem inteligentes nem estúpidas. Pascal conhecia muito bem a profunda separação entre inteligência e emoção, duas forças (entre outras) formadoras do sentimento e alertava para o facto de os dois principais sustentáculos da verdade – razão e sentimentos – se enganarem mutuamente.

Tenhamos bem presente a etimologia da palavra emoção, que significa fora de si. Ora, quem está fora de si, dificilmente entende o que quer que seja, quando um dos significados de inteligência é precisamente entendimento.  Antigamente, quando se estudava metafísica, dizia-se que as potências da alma eram o entendimento, a memória e a vontade.

Dizem os psicólogos – por brincadeira, cremos nós – que a inteligência é aquilo que os testes de QI medem, tal como o tempo é aquilo que os relógios e os calendários dizem.

Nos meios espiritualistas, é mais comum falar-se de crescimento do que de auto-realização, eventualmente por receio de se confundir a descoberta e a realização do verdadeiro eu com o sucesso social, sendo que, todavia, este não seja por si só um impedimento daquele. O certo, porém, é que falar de crescimento serve apenas como metáfora, vale pela analogia com as etapas da adaptação mental ao desenvolvimento fisiológico, não sendo abusivo, nesta conformidade, falar-se de infantilidade e maturidade espiritual. Trata-se de uma simplificação, evidentemente, que não legitima descuidar-se esta grande diferença: o crescimento físico dá-se quer a gente queira quer não; espiritualmente, só se nasce e só se cresce pelo uso inteligente da vontade, ou, como diria Natália Correia: «a gente só nasce quando somos nós que temos as dores».
Eis a razão pela qual este crescer – que é inseparável da vontade –  merece bem o nome de auto-realização.

Mas bastará a vontade?
Parece-nos bem que não, pois há factores externos e internos susceptíveis de prejudicar a vontade e corromper as condições da auto-realização, como são as crenças, os hábitos arreigados, os preconceitos, as ideias assimiladas inconscientemente, isto é, a inércia e a rendição por comodismo aos modelos imperantes.

Ora, a auto-realização exige que se questione tudo, que se questionem permanentemente as ideias feitas, os hábitos adquiridos, os comportamentos esperados, porque não o fazer impede sabermos quem verdadeiramente somos, impede-nos de chegar à plenitude de seres concretos e únicos; não nos podemos limitar a ser viventes clonados, produtos de modelos, de conveniências, de ideias que nos inculcaram e que, por falta de discernimento, não percebemos que não são nossas, andam apenas por aí. São coisas externas que nos adormecem, impedem o nosso crescimento, não nos deixam respirar. Esperar que o exterior nos estenda uma passadeira para caminharmos seguros para o cerne de nós mesmos, mais do que uma ilusão, é uma estultícia. Quem espera receber do exterior comodamente e sem esforço aquilo que julga precisar e parece fazer-lhe jeito, viverá no medo permanente de que o exterior lhe tire a qualquer momento quanto lhe tenha proporcionado.

O que nos vem de fora é do domínio do efémero, enquanto a auto-realização – que é o transcender desse domínio – pertence ao permanente, que se alimenta do desejo de eternidade.
Em termos espirituais (que não mundanos), auto-realizarmo-nos é assumir – por vontade própria, por um exercício de vontade – a opção de caminhar (ou de não caminhar); não é adoptar modelos, porque os modelos vêm do exterior e a auto-realização só é possível com o que vem de dentro. É por isso que se trata de auto-realização e não de alo-realização; não é coisa que alguém possa fazer por nós. Quem se mova por hábitos, por rotinas, por modelos, por comportamentos extrictamente reactivos não pode ser, não pode chegar a ser quem verdadeiramente é: realiza apenas o que o exterior lhe impõe e reage tal como se espera que reaja e, desta forma, nem ele nem os outros saberão quem ele é, mas apenas como é. E não adianta arranjar hábitos novos por imitação daquilo que está em moda, nem adoptar ideias do arsenal volúvel do politicamente correcto, só porque os mais as usam, só porque os mais as aplaudem. Sendo postiços, nada disso é seu, são modelos velhos e gastos, coisas exteriores que, em certas condições, podem até ser cómodas e parecer úteis, mas aquilo que é útil – não há como fugir – utiliza-nos e o que é cómodo adormece-nos.

Livremo-nos de preconceitos e tenhamos a mente aberta, mas como dizem os ingleses, não tão aberta que os miolos nos caiam no chão, porque o que vale mesmo é procurarmos a nossa autenticidade, pormo-nos disponíveis para a descoberta da nossa plenitude. A todo o momento há que estar atento, há que ter consciência plena do que acontece à nossa volta e da nossa consequente resposta, observando tudo isso como se estivéssemos aos ombros do nosso próprio eu, com a objectividade de um cientista no seu laboratório.

Sem louvores nem condenações. Simplesmente observando muito atentamente. Só desta forma saberemos o que é interior e o que o não é. Só uma apropriada distância proporciona apreciar a harmonia de uma pintura.
As nossas crenças mais arreigadas não são verdadeiramente as nossas crenças, elas já existiam antes de nascermos para a presente vida, provêm da nossa circunstância e são modelos a que se torna cómodo aderir. Os modelos são gaiolas cujas grades são os dogmas que nos aprisionam, não nos deixando ser quem somos. Romper com os modelos, romper com os dogmas é uma condição imprescindível para se caminhar no sentido da auto-realização. Inclusive, em relação a esta, impõe-se romper com os modelos que propalam o caminho fácil e pronto do vem por aqui. Todo o caminho se faz caminhando, na dependência da inteligência dos pés, de ouvidos atentos ao que nos vem de dentro, não ao que nos vem de fora. Ulisses tapou os ouvidos com cera, para não ouvir as sereias. Não é avisado, por mais que o pareça, seguir as marcas deixadas por caminhantes que ninguém sabe porque caminhavam nem para onde caminhavam.

Seguir uma religião ou uma ideologia – não nos iludamos – é seguir um modelo, o que leva, invariavelmente, a que se engane aquilo que está dentro com uma miragem salvífica vinda de fora, mas que todavia julgamos nossa, interior. Os grandes místicos do passado sofreram na carne a incompreensão dos seus, daqueles que professavam a “mesma” crença; a perseguição, invariavelmente cruel e feroz, dos vigilantes dos modelos impostos. Por não corresponderem ao modelo, muitos foram condenados como heréticos.

É preciso que aprendamos por nós mesmos o valor da aprendizagem e tenhamos a noção de que a vida é a grande mestra e que a escola que ela nos proporciona é toda a nossa circunstância, onde naturalmente se inscreve a crença que nos inculcaram, a nossa ideologia, e também a reacção esperada aos estímulos. Saibamos do quanto tudo isso se harmoniza (ou não) com o que nos vem de dentro, cuidando de não nos iludirmos. Observemos cuidadosamente sem teorizar, sem juízos morais, até porque os juízos morais estão necessariamente aferidos pelos hábitos e pelos modelos. Se a nossa circunstância tem abundância de limões, façamos limonadas.

Todo o cuidado é pouco para evitar que os modelos exteriores se instalem, seja por insuficiência na atenção, seja porque caímos no erro de substituir uma ilusão por outra. Ao identificarmo-nos com um dado modelo, podemos desculpar-nos com o exercício do livre-arbítrio, mas na verdade é invariavelmente o seu encurtamento; é coartarmos a nossa liberdade de nos perguntarmos quem verdadeiramente somos, porque por aí apenas podemos aquilatar do quanto nos adaptámos em prejuízo do nosso crescimento.

O que se impõe é observar para descobrir e compreender, o que dispensa qualquer filtro do bem ou do mal, de nos pensarmos bons ou nos pensarmos ruins. O bom observador não faz pré-juízos, não se auto-limita pelo preconceito de assim não encontra, nem em si nem nos outros, defeitos, vícios, coisas ruins; encontra características. As suas, de que não goste, não as reprima, transmute-as pelo cultivo dos seus opostos; nos outros, se idênticas encontra, saiba que não são deles, mas suas, neles reflectidas. Não é segredo para ninguém que todos somos espelhos uns dos outros. Não nos envenenemos catando defeitos. No fundo, sabemos bem que aquilo que o vulgo chama defeito é apenas um défice, uma deficiência de qualidade.    
Falarmos de auto-realização, implica trazermos à colação aquilo que se designa em Psicologia como o sentido do eu. Todavia, o sentido do eu não é o eu, mas sim o seu reflexo e, neste entendimento, a auto-realização consistirá em ultrapassar o simples reflexo, isto é, a “normalidade” e atingir a “anormalidade” que é fazermos coincidir o reflectido com o reflector, que o mesmo é dizer coincidirmos com as características mais íntimas e profundas da própria alma.

Quando falamos de observar  para descobrir, que não se entenda este apelo como a valorização da objectividade em absoluto. Esta é sem dúvida um requisito inilidível de que observa, mas exige a consciência de que por mais objectivos que nos pareçam os sinais do mundo, só subjectivamente os entendemos e a maioria nem sequer entenderemos, por nos falhar a atenção e o discernimento. Realce-se que o que é preciso é não nos submetermos aos hábitos e às crenças, que é sobre eles que se constroem os modelos de aconchego e as rotinas.

O eu que não ultrapassou a condição de ser apenas reflexo de um reflexo faz parte do espectáculo do mundo e não pode ir além de medir os factos e as circunstâncias pelos critérios do agrado e do desagrado, tudo lhe sendo pontual e limitado. Na sua pequena visão dual, a principal característica é a discriminação e enaltece no seu agir o princípio do prazer, que invariavelmente será frustrado pelas contingências sociais, que o obrigarão a submeter-se ao princípio da realidade.

O eu reflectido está no mundo e é do mundo; o eu reflector, estando igualmente no mundo, não lhe pertence nem lhe é submissível, espera sim que o seu reflexo cresça no sentido do aperfeiçoamento do mundo, o que implica cultivar o Bem, o Belo e o Justo, única forma de actualizarmos as nossas potencialidades e gerirmos qualquer défice nas nossas características.


quarta-feira, 29 de abril de 2015




Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
5 de Maio, 18:30
Dando continuidade a um encontro e diálogo com vários séculos – onde a cultura portuguesa foi pioneira - e particularmente vivo na actualidade, José Tolentino de Mendonça e Paulo Borges estarão juntos neste evento onde um cristão comentará um texto budista e um budista um texto cristão, em torno do tema do despojamento espiritual radical.
José Tolentino de Mendonça falará sobre o texto do mestre Lin-Tsi (séc. IX), fundador da escola Rinzai do budismo Ch’an: "Adeptos, quereis ver as coisas em conformidade com o Dharma? Guardai-vos apenas de vos deixardes extraviar pelas pessoas. Tudo o que encontrardes, no exterior e (mesmo) no interior de vós mesmos, matai-o. Se encontrais um Buda, matai o Buda! (...) É esse o meio de vos libertardes e de escapardes à escravatura das coisas; é essa a evasão, essa a independência!"
Paulo Borges falará sobre o sermão 52 de Mestre Eckhart (sécs. XIII-XIV), teólogo, filósofo e pregador dominicano, que tem pontos culminantes nas súplicas: “Por isso rogamos a Deus ser livres de Deus e receber a verdade e dela fruir eternamente aí onde os anjos mais elevados, a mosca e a alma são iguais, aí onde eu estava e queria o que era e era o que queria”; “Por isso rogo a Deus que me livre de Deus; pois o meu ser essencial está acima de Deus, na medida em que concebemos Deus como origem das criaturas”.
O moderador será o Professor Carlos João Correia e o encontro terá lugar no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no dia 5 de Maio, às 18h 30m. A entrada é livre.
José Tolentino de Mendonça é sacerdote católico, teólogo e poeta. É vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e responsável pelo Centro de Estudos de Religiões e Culturas Cardeal Höffner da Universidade Católica Portuguesa. Tem vasta obra, onde recentemente se destacam A Papoila e o Monge (haikus, 2013) e A Mística do Instante. O tempo e a promessa (2014).
Paulo Borges é professor de Filosofia da Religião e Pensamento Oriental no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cofundador e ex-presidente da União Budista Portuguesa (2002-2014), codirector da revista Todo o Mundo ENTRE Ninguém e presidente do Círculo do Entre-Ser, associação filosófica e ética inspirada no mestre budista Thich Nhat Hanh. Entre a vasta obra destacam-se, neste contexto, Descobrir Buda. Estudos e ensaios sobre a via do Despertar (2010) e O Coração da Vida. Visão, meditação, transformação integral (2015).

Organização: Grupo de Investigação de Filosofia Prática do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, com o apoio do Círculo do Entre-Ser, da União Budista Portuguesa e do Centro de Estudos de Religiões e Culturas Cardeal Höffner da Universidade Católica Portuguesa.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Os caminhos do espírito


Pseudo-Dionísio (O Aeropagita)

Nome porque é designado o autor de "Teologia Mística" (Medievalia, 10, 1996, Edição Fundação Eugénio de Almeida), texto que se calcula tenha sido escrito entre os séculos V-VI. É um discurso sobre a causa inicial de tudo, mas que desde logo nos diz que não há forma de a conhecer, dadas as limitações humanas para uma compreensão absoluta do que nos rodeia, muito embora o nosso desejo de tudo saber. Assim, como as palavras perdem o rigor Pseudo-Dionísio passa a utilizar uma linguagem metafórica e refere-se à divindade mais como treva, do que como luminosidade.

Pseudo-Dionísio é influenciado por Plotino: a experiência mística está para além do sensível e do inteligível (para lá do ver, do sentir, do falar...). Tem de se abandonar o conhecimento que é dado pelos sentidos. Ter a experiência da treva, do silêncio. No fundo, abandonar todas as formulações mentais - toda a Teologia, toda a Filosofia.

Embora situando-se na tradição cristã, em Pseudo-Dionísio chegamos a um conhecimento "não-dual" que tem paralelo nalgumas tradições orientais como, por exemplo, o Taoísmo ou o Budismo.

Com ele o que se busca é a união com a fonte primordial através de um transcender, um abandono de todas as operações sensíveis e inteligíveis, que possibilite uma relação direta com a "Fonte", onde não há espaço para que se represente seja o que for.

Na Teologia Mística para se ser assumido por "Deus" tem de se ficar "vazio", num estado de disponibilidade total. Só é possível conhecer se se suspender a busca do conhecimento. Trata-se de uma forma de conhecimento por assimilação e não através da teologia.

O místico tenta libertar-se de todas as construções do mundo para poder aceder à realidade tal como ela é. Para Pseudo-Dionísio há qualquer coisa que está antes do homem, que está para além dele... A "Causa" é totalmente transcendente, é qualquer coisa a que se pode aceder, mas que não se pode explicar. É uma experiência radicalmente individual e que, simultaneamente, transcende o próprio individual, pois que há uma anulação do próprio indivíduo... A "Causa" está livre de toda a construção humana.

Carlos Rodrigues

Referência Bibliográfica: 
BORGES, Paulo, Seminário de Filosofia da Religião, Fac. de Letras da Universidade de Lisboa, 2011/2012, 2º sem.

sábado, 5 de maio de 2012

Das palavras e do Verbo


Abrem-se as bocas jorrando palavras que nada seriam se não houvesse recetores. Estes escutam-nas e constroem imagens, significados, numa simbiose, criando jogos em múltiplas dimensões de consciências. Letras, palavras, frases, saltitam em degraus, provocando reações e interpretações que mais parecem um caleidoscópio virtual em terras de ninguém. Se caiem em páginas virgens inundam-nas preenchendo-as de sentidos. Surge então uma ponte entre as mesmas e quem as lê, ávidas de consumirem e preencherem uma qualquer necessidade.

Nasceste simples, um dia tornar-te-ás Verbo, profetiza o profeta, a síntese será gradual, atemporal. Ainda que tombem todas as árvores deste mundo, um dia a palavra cessará, o Verbo irradiará da Presença, integrando tudo e todos no Conhecimento que jorrará da Fonte que está em nós. Não será um tempo de sonhos mas o findar dos mesmos.

A.A.