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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Lourenço Marques (2) - Do seu estabelecimento



Voltemos a Lourenço Marques e comecemos ... pelo começo!
Assim que D. João II tomou conhecimento da entrada de Lourenço Marques na baía que levou seu nome, escreveu logo a Dom João da Castro que estava como Vice Rei na Índia:


Dom Joam de Castro Amiguo. Eu elrrey vos emuio muito saudar. Per bernaldo nacere capitão da naao de garcia de saa que chegou aquy no mês de feuereiro pasado receby a carta que me escreuestes de moçambique e dou muytas graaças a noso senhor da boa viagem que le¬vastes, de que folguey de me dardes conta tão particularmente; ......
Do descobrimento daqueles rios que fez Louremço marques folguey de saber, e parece que será cousa muy ymportante e necesaria acabarse bem de saber, pelo que vos emcomemdo muyto que ordeneis loguo mamdar da ymdia pêra iso hum navio ou fusta, qual vos parecer maes comveniente: e pela emformaçam e pratica que jaa disto tem louremço marques me parece meu serviço emcarregardelo desta viagem, ao qual dareis regimemto muy particular de tudo o que faça e procure de saber. E parecemdouos bem leuar ele no dito navyo algüas mercadorias, como parece que será necesareo, será bem mamdardeslhas, com as quaes ele poderá milhor resgatar as da terra, e saber uerdadeiramemte as que haa nela. E do que se nisto fizer me avisares. E posto que uos diga que mamdeys a isto Louremço marques, não o encaregareys diso, senam parecendouos que he tam soficiente pera iso que podereyes de mamdar a iso outra pesoa...

Bartolameu froes a fes em allmeyrim a oyto de março de 1546.

- Rey

Pera dom Joam de Castro


(Ainda que foi Lourenço Marques o primeiro explorador da bahia d'esse nome e rios que n'ella esboçam é de ver que já fora conhecida dos nossos navegadores desde a epocha em que D. Manuel mandou Cyde Barbudo(1) e Pedro de Quaresma(2) examinar a costa desde o Cabo até Sofalla para obter noticias de Francisco de Albuquerque e Pedro de Mendonça quen'aquellas paragens tinham desapparecido : a armada sahiu de Lisboa em setembro de 1505, e o regimento dado a Cide Barbudo pôde ver-se nos Annaes marítimos e coloniaes, serie 4.a paginas 162 e seguintes.)

O que parece se ter passado a seguir foi um quase abandono dos portugueses com o comércio naquela baía, até à sua “retomada” em 1781.
Portugal, por ter descoberto o caminho para a Índia, reservava-se o exclusivo do comércio europeu desde o Cabo até Sofala. Para norte já havia árabes e indianos há muito tempo.

Quatro anos antes, 1777, um aventureiro inglês, Guilherme Bolts, homem culto, arguto e diplomata, tipo “homem das arábias”, depois de ter trabalhado para os ingleses na Índia, e de ter enriquecido por meios escusos – que tudo perdeu porque a companhia inlgesa lhe sequestrou os bens - aparece em Lisboa e daqui vai a Viena e Trieste, onde consegue que alguns comerciantes lhe confiem um navio e mercadorias, esperando o “belo e lucrativo retorno”. Como a sua fama era conhecida em Portugal, onde nada conseguiu, passou à ilha da Madeira onde também não lhe venderam vinhos, depois Rio de Janeiro e finalmente em Lourenço Marques, onde não encontrou qualquer autoridade que o prejudicasse. E ali fundou uma feitoria, em nome de sua magestade imperial a arquiduquesa Maria Theresia Walburga Amalia Christina von Österreich, arquiduquesa e soberana da Áustria, Hungria, Bohemia, Croácia, Mântua, Milão, Galícia e Lodomeria, Parma e Países Baixos Austríacos. Pelo casamento, tornou-se duquesa da Lorena, grã-duquesa da Toscana e imperatriz consorte do Sacro Império Romano-Germânico. (É considerada um dos "déspotas esclarecidos", mas não se pode negar que não tenha sido “um bom partido” e uma grande parideira: teve 16 filhos!)

Bolts quiz a seguir negociar na Índia onde após uma série de “portas fechadas” conseguiu por fim fazer algum negócio, o que mereceu forte censura dos ministros e deputados da Junta da Fazenda da Índia. Dizia o ministro: “O dito Bolts tem arte, destreza, e astúcia, acompanhada de um grande conhecimento do comércio na Ásia, para poder persuadir e talvez determinar a Corte de Viena com estas ideias a formar uma Companhia em Trieste, ainda que ocorra o mesmo que à de Ostende”. Para ele “Bolts era um aventureiro e pirata por se intitular diretor geral de uma companhia que nem existe”!

Isso não o impediu de assonhorear do comércio com os régulos da região, correndo até com navios ingleses que ali aportaram.

Em 3 de Maio de 1777 assinou o primeiro tratado com o régulo Capela que designa por Rajá Mohaar Capelle, sempre assinando em nome de sua Magestade Imperial!
Dias depois assina novo tratado com o régulo Matola, a quem chama Rajá Chibanzan Matola, assinado também pelo Rajá Mafumo, que lhe vendeu toda a terra onde hoje se encontra a cidade de Maputo!

Portugal decidiu então correr dali com os “intrusos invasores” e a 31 de Março de 1781 ancorou, em frente do forte de S.José uma fragata, comandada pelo tenente-coronel Joaquim Vicente Godinho de Mira, que ali encontra três outros navios: um português, outro inglês e o terceiro, o Principe Fernandi da companhia de Trieste.
Godinho de Mira assim “que deu fundo” mandou logo apresar o navio “imperial” e com alguma tropa desceu em terra e sem encontrar resitência tomou conta da bateria de artilharia! No dia seguinte arvorou a bandeira portuguesa, notícia que logo se espalhou por toda a região, e os régulos acorreram para saber o que se passava, sendo o primeiro o régulo Mafumo, recebido a bordo com toda a dignidade.

No texto anterior transcrevemos o relato da visita do rei da Matola, o segundo a comparecer. No dia seguinte:


Em o dia 5 de abril, pelas nove horas da manhã, chegou a bordo da fragata uma pessoa do rei Capélla, mandado pelo dito, a fazer-nos saber que elle vinha já em marcha para ter o gosto de nos fallar, e que esperava nós fossemos encontrá-lo ao logar onde se fazia a agua, porque a bordo o dito rei não podia vir; o tenente coronel lhe procurou o motivo de não querer vir à fragata aonde já o rei Matolla tinha vindo, e entre elles era costume virem a bordo de todas as embarcações que ali chegavam; a pessoa do rei não respondeu nada, senão que o rei não vinha a bordo, a que respondeu o tenente coronel fizesse o que quizesse, comtanto que o dito rei ordenasse se nos viesse vender tudo que precisasse a fragata e que passasse ordem para se deixar fazer aguada, e tudo o mais que fosse preciso á fragata de Sua Magestade Fidelíssima; com esta resposta se foi a pessoa do rei, e o tenente coronel desembarcou para a terra aonde tinha a tropa da legião, e achando-se no mesmo sitio o capitão de mar e guerra, chegaram a este tempo pessoas do dito rei, dizendo que o rei era já perto d’aquelle sitio, e nos queria ali mesmo fallar e que vinha acompanhado da sua gente, que seriam três mil cafres antes mais do que menos; o tenente coronel respondeu que fossem dizer ao rei, que podia vir, que ali esperava, ainda que o logar era bem impróprio; retiraram-se as pessoas, e o tenente coronel fez desembarcar as peçinhas de amiudar, e alguma tropa de infanteria, e pondo tudo em or¬dem esperou o dito rei, que não tardou muito em chegar ao dito logar aonde se achava a tropa formada com os seus ofticiáes, o capitão de mar e guerra, e alguns, oíficiaes do corpo de marinha, que todos estes se avànçaram alguns passos a receber o rei e conduzi-lo a uma pequena barraca, aonde depois de muitos cumprimentos lhe foi dito pelo tenente coronel a pouca rasão que o rei tinha para deixar fazer estabelecimentos n’aquêlles logares, não o podendo, nem devendo consentir ali outra nação que não fossem portuguezes, a quem só era permittido o poder ali ir commerciar, e que por esta vez mandava Sua Magestade Fidelíssima fazer-lhe constar, que não era do seu real agrado aquelles estabelecimen¬tos, que lhe levaria muito a mal todas as vezes que elle consentisse n'aquellas terras alguma outra bandeira que não fosse a de Portugal; foi respondido pelo rei, que elle não queria a outros amigos senão os portu¬guezes, e que se estes tivessem continuado em levar saguates grandes, e roupas para a sua gente, que elles não teriam recebido outros, nem deixariam levar o seu marfim senão aos portuguezes, a quem elles tratam como irmãos; depois d'esta falla lhe assegurou o tenente coronel, que haviam vir áquelle sitio bastantes embarcações a levar-lhe os géneros precisos, e que elles olhassem a bandeira de Sua Magestade Fidelíssima com aquelle respeito, amor e veneração que deviam; que tivessem o maior cuidado, em que se lhe não fizesse nunca insulto, aliás seria obrigado a tornar áquelle logar aquella mesma fragata para os castigar. O rei protestou amisade e respeito á bandeira de Portugal; a esta resposta deu-se-lhe muito de comer, muito mais de beber, deu-se-lhe saguate com que foram satisfeitos, e se despediram, e ao sair da barraca se lhe deram nove tiros de peçinha; marchou a tropa para elle ver, de que gostou muito, e deram grandes gritos a sua gente; isto se passou tudo sendo presente todo o corpo de officiaes, e eu que por verdade o escrevi e me assignei,
==Antonio Joaquim Pinto Gollares, escrivão,

Notas:
1.- Cide Barbuda foi capitão do mar. Quando D. Francisco de Albuqueque, em 1505, se perdeu na volta de Cananor a Portugal, D. Manuel I ordenou que saisse de Lisboa uma esquadra, cujo comando foi entregue a Cide Barbuda e Pero de Quaresma, com a finalidade de procurarem Albuquerque e Pero de Mendonça que com ele viajava. Barbuda navegou até ao Cabo e dali a Sofala, mas todas as pesquisas foram baldadas.


2.- Pero Quaresma foi um dos construtores da fortaleza de Sofala em 1506.




26/07/2012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Lourenço Marques: Do seu estabelecimento


A baía que começou por ser chamada de Baía da Lagoaaparece já nos mapas de Cantino de 1502, o que garante que terá sido visitada logo a seguir à viagem de Vasco da Gama. Alguns anos mais tarde um comerciante português, Lourenço Marques, em 1544, terá sido o primeiro europeu a estabelecer algum contato com os naturais daquela região.
Logo que D. João III tomou disto conhecimento mandou reconhecer os rios que ali desaguam e assentar na margem direita do Rio do Espírito Santo, uma feitoria e fortificação.
Assim começa a exploração do comércio daquela região, com o próprio Lourenço Marques e António Caldeira como os primeiros europeus ali assentes, e com estabelecimentos ainda nas ilhas da Inhaca e dos Elefantes. Todos eles foram de pequena duração. No entanto todos os anos ali aportavam naus, unicamente para o resgate de marfim, e a região ficava entregue a si própria, levantando a cobiça de ingleses e até de austríacos, que lá se fixaram.
Portugal entendeu que aquele território lhe pertencia e tratou de correr com os “intrusos”, e foi só em 1781 que se fundou uma feitoria que veio dar lugar à mais tarde cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo.
O contato dos portugueses com os nativos, durante todo este tempo, tinha sido relegado para eventuais “resgates”, tendo os régulos feito tratos com os ingleses, oferecendo-lhes terras e garantindo os necessários fornecimentos.
Com a chegada de Joaquim de Araujo, ouve que restabelecer esses contatos, indispensáveis para o comércio e convivência pacífica. Eram vários os régulos da região: Mafumo, Capela, Matola, a quem se dava o título de reis.



Com o fim da “ocupação inglesa/austríaca”, houve que refazer os contatos com essas autoridades. Curioso verificar como esses tratados eram celebrados. Transcreve-se, a seguir, o relato da visita do régulo da Matola à fragata portuguesa. (Outros se seguirão)

Em o dia 21 fiz expedir pessoas com aquelles saguates2 do costume, a dizer ao rei Capella, e ao rei Matolla, que lhe pretendia fallar,e que es­perava que determinassem o dia em que queriam vir a bordo da fragata de Sua Majestade Fidelíssima, para os mandar buscar no escaler; a pes­soa que foi ao rei Matolla recolheu no dia 3, dizendo que vinha o dito rei Matolla. Em o dia 4 muito cedo appareceu o rei Matolla na praia, que sendo visto da fragata, se lhe mandou escaler para o conduzir, o que fez trazendo em sua companhia três mulheres suas, e um grande numero de cafres que o acompanhavam; chegaram á fragata onde foi recebido e conduzido à camara do commandante com parte da sua comitiva, aonde depois de muitos cumprimentos, e demonstrações de amizade que queria tratar com os portuguezes, que bem conhecia terem sido os primeiros que conquistaram aquellas terras; mas que os mesmos portuguezes as tinham abandonado, não indo ali ha tantos tempos a commerciar, nem a le­varem-lhe aquelles géneros de que elle precisa e a sua gente, e que por este esquecimento em que os tínhamos posto, fazia com que tivessem trato com os imperiaes3; mas que tornando nós com trato antigo, e ami­zade, que elle inviolavelmente queria tratar com os portuguezes, pois elle era irmão de Sua Magestade, á saúde de quem bebia com toda a vene­ração e respeito; a esta saúde salvou a fragata com vinte e um tiros, o que o rei gostou, e a sua comitiva toda; depois tivemos varias conferen­cias, em que o dito rei deu bastantes provas de não ser muito selvagem, a tudo se lhe respondeu, e foi-lhe assegurado que d'aqui por diante ha­viam de vir muitas embarcações cheias de géneros e roupas de seu uso, e que elle tivesse o maior cuidado em que se respeitasse n/aquelles logares a bandeira portugueza, e que nenhuma consentisse arvorar n'aquelles territórios por serem pertencentes á coroa de Portugal; a tudo res­pondeu que sim, e que não queria senão aos portuguezes, porque todos eram irmãos, e eram os seus primeiros paes. Entraram a comer e a be­ber muito demasiadamente, e depois de serem bem satisfeitos, o não fi­caram com os pannos que se lhe deram de saguate por serem poucos, e muito grossos, e respondeu o rei, que aquelle saguate não era próprio para elle, nem parecia ser dadiva de uns homens tão grandes como os portuguezes; que elle esperava lhe fosse dado um presente, que podesse mostrar á sua gente toda, que aliás elle não poderia dizer que tinha vindo de uma fragata de guerra portugueza; a isto respondeu o tenente coronel que as fragatas de guerra não faziam saguates por obrigação, que tudo aquíllo que se lhe oferecia eram demonstrações de amizade e ob­séquio, e que não devia pretender dos portuguezes o mesmo que estava recebendo d'aquelles individuamente que vinham ali commerciar; que se contentasse com o que lhe era dado, e que devia receber tudo com muita satisfação e gosto; esteve o rei attento ouvindo tudo e respondeu, que elle queria que o tenente coronel fosse a sua casa visita-lo, para lhe dar um saguate como devia; escusou-se o tenente coronel, o rei aceitou os pannos, e repartiu-os pela sua gente, e depois d'isto ter feito, entrou a pedir copos, facas, garfos e tudo quanto viu, por ultimo deu-lhe o tenente co­ronel e o commandante da fragata algum fato, com que o rei satisfeito, se despediu, promettendo ordenar, para virem todos os viveres preci­sos para a fragata, e do mais que fosse preciso das suas terras estava prompto para mandar, e que esperava não fizessem violência á sua gente; o dito rei mandou três vaccas de presente, a fragata ao retirar-se o rei se lhe deram cinco tiros de bombarda, e se foi muito satisfeito; tudo isto se passou presentes os officiaes que se achavam a bordo, e por verdade o escrevi, e me assinei.
= António Joaquim Pinto Collares, escrivão.

1.- 2 de Abril de 1781
2.- Presentes, ofertas
3.- Austríacos

Francisco Gomes Amorim
17/07/2012