«A meta é provavelmente o ponto sem dimensão. E esse é muito difícil. Acho que não o vou atingir e estou contente por a meta ser essa!»
Agostinho da Silva

quarta-feira, 30 de abril de 2014

ALHOS VEDROS QUATROCENTISTA


Cristãos e Judeus – o enterramento de Fernão do Casal
(inédito)

SINOPSE

     Desde épocas imemoriais, nas terras da Ibéria, coabitam judeus e cristãos. Para Celso Lafer, «os judeus se instalaram na Península desde os tempos salomônicos, passaram pelo domínio romano, suportaram as invasões bárbaras, sofreram os primeiros reinados visigóticos, sustentaram os árabes, integraram-se nos reinados cristãos da Reconquista...»

     Para Ângelo Adriano Faria de Assis (*) «O nascimento político do reino português (…) [no] século XII, sob a espada abençoada por visões divinas e comandada por Afonso Henriques (…), dá-se num momento em que os filhos de Abraão já se encontram (…) sedimentados em algumas localidades de grande povoamento e importância, como Santarém, Coimbra e Lisboa. (…) O relacionamento entre cristãos e judeus no mundo português encontrava particularidades que o diferenciava dos outros países da Europa cristã. De acordo com Anita Novinsky, as diferenças começam na própria origem: durante a Idade Média, Portugal foi "o país que antes de qualquer outro da Europa reconheceu os direitos dos judeus"; consequência desta política de "aceitação" social, é que "foi nessa parte ocidental da Península que a propaganda oficiosa antijudaica penetrou mais tarde"

     Também em Alhos Vedros, povoação na margem esquerda do Tejo, dada a vizinhança de Lisboa, havia judeus integrados na comunidade local.

     Citando de novo Ângelo Assis, «Apesar da forte influência do direito canónico, (…) "a religião não impediu nem prejudicou seriamente os contatos mútuos, as inter-relações grupais, sendo mesmo considerável o número de casamentos mistos". A situação, na prática cotidiana, mostrava-se em Portugal - como em nenhuma outra parte – favorável ao bom convívio entre os grupos. (…) O povo não levava muito a sério as proibições dos representantes da Igreja e os monarcas portugueses foram muitas vezes recriminados de Roma por favorecerem aos judeus"».

     No funeral do Fidalgo alhosvedrense Fernão do Casal, cooperaram cristãos e judeus, irmanados no mesmo sentimento de pesar.

     Desgraçadamente, «o aumento das perseguições na Europa e (…) os acontecimentos em Espanha, (…) mormente na segunda metade do século XV, mudariam este quadro e trariam um triste fim ao período em que os hebreus conviviam abertamente com os cristãos no reino fundado séculos antes por Afonso Henriques(*)
     
Qual mito da cripta, sub-repticiamente, foi sem-do gerado o monstro.


(*) Ângelo Adriano Faria de Assis Coordenador do Curso de História/Docente - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Nair Fortes Abu-Merhy (Além Paraíba - MG), in “O Medievo Português em tempos de livre crença: relações entre judeus e cristãos em Portugal antes do monopólio católico iniciado em 1497.”



Francisco José Noronha dos Santos

terça-feira, 29 de abril de 2014

Lúcia-lima


por Miguel Boieiro

A maltinha nova da minha geração tinha por costume intercalar cheirosas folhas de lúcia-lima entre as páginas dos livros para aumentar o prazer das leituras. As folhinhas secavam facilmente e reforçavam o seu característico perfume. Juntava-se assim o útil ao agradável.

Na verdade, a Aloysia citriodora, também popularmente conhecida como bela-luisa é uma das plantas mais aromáticas que conheço e, não fora só por isso, deveria ter sempre lugar permanente nas hortas e quintais dos cidadãos mais atilados. Com ela prepara-se uma infusão deliciosamente aperitiva que não precisa de açúcar e serve, às mil maravilhas, acompanhada por umas fogaças à moda de Alcochete (passe o chauvinismo), para confecionar um requintado lanche, particularmente quando recebemos visitas, mas não só.

Este pequeno arbusto caducifólio da família botânica das verbenáceas veio da América do Sul, tendo sido introduzido na Europa no século XVII. Adaptou-se rapidamente ao nosso clima e consegue resistir às geadas desde que elas não sejam muito agrestes. As suas folhas, que caem no inverno, como já se anteviu, são lanceoladas, quase sésseis (pecíolo curto) e algo rugosas com coloração verde amarelada. As flores são brancas e muito pequenas, agrupando-se em espigas. Os frutos formam minúsculas drupas mas, jamais as vemos no continente europeu. Consequentemente, a reprodução processa-se mediante estacas já devidamente enraizadas que se separam da planta mãe.

A lúcia-lima é estimulante do apetite, digestiva, antiespasmódica, antifúngica, febrífuga, emenagoga, relaxante do sistema nervoso, sedante, hipotensora e carminativa.

Com tantas propriedades, não admira que seja uma das plantas medicinais mais estimadas.

Possui um óleo essencial algo complexo onde foram detetadas mais de cem substâncias. Destas destacam-se o citral, o limoneno, o eucaliptol, o pineno e o cariofileno. Contém também taninos, flavonóides, melatonina e mucilagens.

É indicada para situações de ansiedade, transtornos digestivos (dispepsias, digestões pesadas, flatulências superiores), menstruações dolorosas, cólicas renais e biliares. Por possuir melatonina que é um relaxante natural, por vezes mais eficaz que os tranquilizantes químicos e sem os efeitos secundários desses fármacos, torna-se excelente para combater as insónias.

O “chá” é muito simples de fazer: basta ferver, durante três minutos, 30 g de folhas secas num litro de água e tomar bem quente após as refeições ou ao deitar. Devido ao seu sabor muito aromático e adocicado, convém parar após cinco dias e retomar a tisana uma semana mais parte, porque, com a continuação, ela torna-se um pouco enjoativa.

No Perú, um dos países de origem desta verbenácea, fabricam, a partir das respetivas folhas, uma bebida gasosa muito agradável, cuja comercialização local chega a suplantar a da coca-cola.

Naturalmente que a lúcia-lima é também plantada como apreciado arbusto ornamental e odorífero nos jardins de todo o mundo de climas tropicais e temperados. Ela prefere uma boa exposição solar e solos húmidos bem drenados e levemente argilosos. Uma das características mais interessantes no que respeita ao seu cultivo é o facto de medrar satisfatoriamente no meio de outros vegetais (planta fitófila).

Tal como a erva-príncipe, também a lúcia-lima pode ser usada na gastronomia, conferindo aromas cítricos aos molhos, marinadas, saladas de frutas, gelatinas, etc.

Por fim, há que referir o seu emprego em produtos de cosmética e perfumaria. Segundo “La Beauté par les Plantes” da conhecida editora Gründ, o odor fresco da “verveine  citronnelle” perfuma os sabonetes, as loções capilares, as brilhantinas e os “batons” para os lábios das “madames”.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (77-II)

Foca-bebé, Autor António Tapadinhas, 1998
Tinta da china sobre Papel Canson, 400g, 56x44cm
Este trabalho, de 1998, resultou do apelo de uma câmara Municipal, aos artistas do Concelho, para colaborarem numa daquelas campanhas contra o massacre, especialmente repugnante, das focas-bebé.
Eu fui atingido pelo problema num daqueles telejornais especialmente realizados por Cronenberg para a hora de jantar, em que se mostrava homens a matar aquelas coisinhas fofas com um bastão de basebol! Sem comentários. Adiante...
Quando tinha o trabalho quase concluído a minha filhota Elsa passou no estúdio para ver o que eu estava a fazer. Adorou, claro (é filha), e então eu disse-lhe que faltava pôr o sangue que inundava aquela água... Olhou para mim incrédula! Quando compreendeu que eu estava a falar a sério tirou-me o desenho, que ficou sujo, não de sangue, mas de duas lágrimas que lhe correram pela face...

O vídeo trouxe-me à memória este trabalho.

REAL... IRREAL... SURREAL... (77)

domingo, 27 de abril de 2014



14 / 2014
 
 
ABRIL, agora
 
Sentado na sua cadeira junto à janela do Lar de 3ª Idade onde agora habita, olha.
Olha e pensa.
A cal e a telha compõem a arquitectura do edifício.
O céu, carregado de nuvens negras, emoldura esta parte visível de mundo.
É Abril.
É Abril, e chove.
A chuva cai e escorre pelos beirais.
O olhar vê os pequenos rios que dos vãos das telhas se precipitam mas não é nisso que a alma se detém.
A alma sente que a água que dos céus cai vem irrigar o chão, encharcar a terra em que os pés se enterram como charruas arando o futuro.
Novas sementeiras se preparam e consumam.
São indispensáveis para que se possa colher no futuro.
Não, ao contrário de outros, não se sentia deprimido ou triste com a chuva que caía.
Enfim, diferentes maneiras de olhar reflectindo formas várias de sentir.

 
Foto de João Ramos

sábado, 26 de abril de 2014

Petúnia Libertas Quæ Sera Tamen, por Cristiana Penna de Amaral






Petúnia Libertas Quæ Sera Tamen
Kity Amaral

22x22cm 2004

Técnica mista sobre papel

Tiradentes/M.G. - Brasil

(coleção particular)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

HERÓIS DE ABRIL


Dos meus diversos trabalhos alusivos ao 25 de Abril
este ano partilho convosco este poema declamado
que poderão ver e ouvir neste link:

http://www.euclidescavaco.com/Poemas_Ilustrados/Herois_de_Abril/index.htm


Euclides Cavaco
Director da Rádio Voz da Amizade
cavaco@sympatico.ca

Venha tomar comigo um cálice de poesia
entre por aqui na minha sala de visitas
www.euclidescavaco.com

quinta-feira, 24 de abril de 2014

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA
 
3ª Série - (17)
 
PINTURA
 
Luís da Silva Delgado
 



No princípio eram os grandes silêncios.
Os amplos espaços abertos, as florestas cerradas,
e a imensa aventura das coisas todas por inventar e construir.




 
LUIS DA SILVA DELGADO 
Nasceu em Amêndoa- Mação em Novembro de 1955                                                        Em 1987/88-Frequentou a 1ª Fase do Curso de Pintura no ARCO, durante três semestres.
EXPOSIÇÕES
 
1989 - Concorrente seleccionado ao Prémio “ O Vinho e a Vinha” das Caves    
               Aliança na S.N.B.A. – Sociedade Nacional de Belas Artes;
   1999 - Participa no EXPORÁDICO, iniciativa da T.A.L. – Alhos Vedros;
   2001 - Participa no EXPORÁDICO, iniciativa da T.A.L. – Alhos Vedros;
   2003 - Concorrente seleccionado ao Prémio de Pintura Joaquim Afonso  
               Madeira - Alhos Vedros;
   2004 - Participa na colectiva - 1º Salão de Pintura integrada nas Conferências
              de Primavera - Alhos Vedros;
   2004 - Exposição individual na Biblioteca Bento de Jesus Caraça – Moita;
   2005 - Participa no EXPORÁDICO, iniciativa da T.A.L., que lhe atribui o
               prémio “ Incentivo ás Artes”;
   2005 - Concorrente seleccionado ao Prémio de Pintura Joaquim Afonso
               Madeira, onde lhe foi atribuído o Prémio Revelação - Alhos Vedros;
   2005 - Exposição individual no Posto de Turismo – Moita;
   2007 - Exposição individual ”Mulheres”, no Fórum José Manuel Figueiredo
            – Baixa da Banheira;
   2007 - Concorrente seleccionado ao Prémio Joaquim Afonso Madeira;
   2010 - Exposição individual ”Casas da minha Terra”, na Galeria Municipal do
               Barreiro;
   2013 - Exposição individual na Biblioteca de Alhos Vedros;
   2013 – Exposição ”Encontros de Primavera”, no moinho de maré em Alhos
               Vedros;
   2013 – Exposição individual no Centro Cultural Elvino Pereira (Mação)
   2013Exposição individual na Casa da Cultura de Mora
 
Está representado em várias colecções particulares e institucionais.                       Actualmente é operário fabril, numa empresa de produtos químicos.

terça-feira, 22 de abril de 2014


ATUALIZAR

Procuro a minha atualização:

ergo muros
disperso cães de guarda
guardo a fera recusada
ensaio passos de danças
modernizo a linguagem
corto no fundo da carne
               o excesso: a exceção
                                         regra
                             a atualização
                  consagrada na hora
                          do desperdício.

Desligo as luzes
e me (a)guardo.


(Pedro Du Bois, inédito)
 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

REAL... IRREAL... SURREAL... (76)

Dia da Liberdade, Autor António Tapadinhas,2002
Acrílico sobre papel Canson, 400g, 32x41cm
(clique sobre a imagem para aumentar)

O Mestre perguntou:
- Para que serve a Liberdade?
Respondeu a Criança:
- Para dar Amor.

domingo, 20 de abril de 2014

NA ÁRVORE DOS SONHOS, carta a uma amiga


Um grande amigo meu está a a organizar uma conferência sobre "A Educação Baseada na Consciência" e que se refere às virtudes da Meditação Transcendental. Um outro grande amigo, budista, também vai dinamizando sessões de aprendizagem desse outro tipo de meditação. Um outro é católico assumido e vai mais pela via da oração. E eu, agora que te falo nisto, acabo de reparar que sou amigo de gente realmente importante, como é o teu caso.

Eis o que é mais interessa: aceitar incondicionalmente o Outro, respeitar a diferença, sem deixar de se ser aquilo que se é. Porque até pode ser que no fim sejamos todos uma e a mesma coisa.


Luís Santos

sábado, 19 de abril de 2014

Vidas Lusófonas


O rigor histórico não está condenado à prosa de notário, é possível conviver com as figuras do passado. Saber o que foi, pode ajudar-nos a talhar o que será. 


singra por
até Pernambuco de 1817 para aclamar

que fomenta uma república independente
e sem escravos.
Sismo, depois abismo: Domingos preso
e fuzilado...
  
Em VIDAS LUSÓFONAS, onde já moram 167,
tudo está a acontecer, cada vida / cada conto.
Por isso já recebeu mais de 28,1 milhões de visitas.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Livros d'África




FRANCISCO NÓBREGA

Nasceu em Moçâmedes (Namibe), em 1935, fruto de terceira geração de naturais de Angola dos colonos madeirenses que povoaram as terras da Huíla desde finais do século XIX. Muito cedo perdeu o pai e por esse motivo viveu a infância e parte da adolescência na Humpata, nas férteis terras altas da Huíla, sob os cuidados dos avós paternos que ali geriam uma fazenda agrícola e onde também criavam gado.

Ali aprendeu a respeitar os homens, os bichos e a natureza, sob a orientação sábia do avô, “figura inesquecível. De estatura física invulgar, adaptado à vida ao ar livre, com os seus 120 quilos, de aspecto maciço, sem ser muito alto, inspirava respeito pela simples presença”, e da avó “que nasceu para ser mãe, iluminada pelas supremas qualidades de quem existe para transmitir amor e compreensão a quem a rodeia”. E com uma liberdade sadia e solta ali também aprendeu a amar os infinitos horizontes e os grandes espaços da terra angolana.

Muito jovem (14 anos) iniciou a vida profissional, e nada melhor lhe conviria para manter esse espírito de aventura e sede de descoberta do que a profissão que escolheu e que lhe assenta como uma luva: a topografia.

Da sua vasta experiência e vivência, familiar e profissional, nasceu um livro em 2001: “A NOSSA ÁFRICA – MANTA DE RETALHOS”, numa Edição de Autor.

Nele são descritos os valores da amizade e do companheirismo, tão necessários no meio dos sertões inóspitos, os episódios de caça, uma necessidade crucial para quem passa longas temporadas no mato, as dificuldades de cruzar desertos e de atravessar rios com os meios de que dispunha e dependendo apenas de si. Também se aborda a História e os caminhos que daí surgiriam para o futuro de Angola. E sempre, recorrente e presente em todo o livro, o elogio e o agradecimento à mulher, companheira e mãe dos seus filhos, que sempre o acompanhou para todo o lado.

Mas não ficou reconhecido o seu trabalho apenas em Angola, que foi forçado a abandonar em 1975, mais um entre os milhares que o foram: percorreu a Namíbia, trabalhou na Venezuela e na Arábia Saudita (sempre os infinitos horizontes) terminando a sua labuta profissional em Portugal, onde vive.

Mas, indelével no seu pensamento, ficarão para sempre os valores aprendidos nos vastos horizontes angolanos, tão bem transmitidos nesta obra e que descreve assim: “A nobreza da humildade, a beleza da modéstia e o profundo reconhecimento da nossa pequenez, essa Felicidade que alguns homens conhecem, toca-nos o mais profundo da alma quando defrontados com a Grandeza dos verdadeiros ambientes naturais… e nunca mais de nós se apaga!


Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 17 de abril de 2014



D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA

3ª Série - (16)

AZULEJARIA

Luís Cruz Guerreiro






Chegada do Rei D. João I a Alhos Vedros
(308 cms. de largura, 112 cms. de altura)


No remoto ano de 1415, quando a peste assolava Lisboa, o rei D. João I refugiou-se em Alhos Vedros, pequena vila da outra margem, onde ainda esse mal não tinha chegado.

Os painéis do "Forcas Bar", em Alhos Vedros, retratam a chegada do rei, o julgamento e o enforcamento de um condenado no terreno onde hoje está situado o Forcas-Bar. Estes painéis foram feitos na AAG, no ano de 1992.

Sempre achei estranho a Igreja Matriz estar voltada de costas para a Vila, depois de recolher diversos depoimentos entre os quais o do Padre Carlos, cheguei à conclusão que esse facto se devia à Igreja estar virada para o rio, que foi assoreando até deixar de existir defronte da Igreja.

Esta reconstituição histórica baseia-se nesta probabilidade.  
                                                                                                                                          (Luís Cruz Guerreiro)

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Precisamos de uma reforma dos municípios?


 Manuel Henrique Figueira
Munícipe em Palmela

O mapa municipal nacional é anacrónico. Há que unir territórios e concentrar recursos para melhorar os serviços prestados.

Tivemos a «reforma administrativa do poder local… [para] melhorar a gestão do território e a prestação de serviço público aos cidadãos».
Podou o elo mais fraco, 1165 freguesias em 4256. A reforma enunciou belos princípios, fez documentos prévios e leis em catadupa, gastou recursos escassos e energias bastas em discussões estéreis a partir de velhas trincheiras: o essencial ficou, excepto nas pobres freguesias. Não era preciso mudar o mapa anacrónico das freguesias, alheio à realidade do país? Era, mas por vezes o que mudou piorou e o que melhorou é curto para o esforço e recursos gastos: são as reformas (centralizadas) do poder local. Em Palmela há um mau exemplo: a união de Marateca e Poceirão. Nos processos endógenos às pessoas e territórios, sem a «mão invisível» do poder central, pode haver bons exemplos: a racionalização das freguesias em Lisboa (de 53 para 24).

Num país que só fala de reformas, onde se está contra o statu quo, processos burocráticos e centralizados de decisão da vida das pessoas geram anticorpos contra a mudança, vista com indiferença, desdém ou forte oposição.

Precisamos de profunda reforma dos municípios? Os vesgos e os cativos de agendas além lá dos interesses das pessoas dizem que não. A mentalidade conservadora salazarenta da frase «está tudo bem assim e não podia ser de outra forma» resistiu a 40 anos de democracia e empapou muitas mentes, até de quem se diz nos antípodas do político de má memória para tantos de nós.

Olhe-se o anacrónico mapa municipal em tempo de Internet, de informática na administração, de rede viária que cruza concelhos em minutos e o país em horas: (http://pt.wikipedia.org/wiki/Palmela).

Teve origem nas reformas liberais (Dec. n.º 25, 26/11/1830: juntas de paróquia – em 1916 chamadas freguesias; Dec. n.º 26, 27/11/1830: municípios) mal atribuídas a Mouzinho da Silveira: antecederam-no e continuaram depois dele (1835, 1836, 1878, etc.). Passos Manuel extinguiu 498 concelhos medievais para «criar circunscrições… maiores», evitar a existência de «concelhos pobríssimos», «aumentar os meios financeiros» (Código Administrativo e Dec. de 6/11/1836). Em 1878, na Reforma Rodrigues Sampaio, havia 295 municípios, hoje há 308.

O mapa municipal nacional é anacrónico. Há que unir territórios e concentrar recursos para melhorar os serviços prestados. Exemplos do anacronismo: Barreiro tem 36 Km2 e 78 mil hab., Moita 55 km2 e 66 mil hab. quando só a cidade de Setúbal tem 102 mil. Que sentido o Montijo ter dois territórios (56 km2 e 291 km2)? Alcochete e Moita já pertenceram ao Montijo.

Mais exemplos: Marvão tem cerca de 100 habitantes e a freguesia 486, mas há município e freguesia nesse território; o distrito de Santarém tem 21 concelhos (Entroncamento 14 km2, Barquinha 49 km2), 170 freguesias, 6726 km2 e 452 mil hab. (67 hab./km2). No entanto, o de Viana do Castelo tem só 10 concelhos (o menor, Cerveira, 108 km2), 256 freguesias, 2218 km2 e 245 mil hab. (110 hab./km2). A qualidade dos serviços prestados aos munícipes no distrito é pior? Não! Mas a taxa média do IMI (0,328) é das mais baixas do país e Caminha, P. de Coura e P. de Lima devolvem de 2% a 5% de IRS. Acaso?

Ganhando-se escala baixam os custos, sobem os recursos, há melhor serviço às populações. Isso implica limpar a «tralha burocrático-político-administrativa» que atrapalha e sorve recursos… mas alimenta clientelas: freguesias, municípios (sobreposição inútil em tantas vilas), empresas municipais, associações de municípios, comunidades intermunicipais (muitos municípios integram duas), áreas metropolitanas, assembleias distritais, NUTS, etc. Perante a hipótese desta «limpeza», à maioria dos autarcas podemos aplicar a conhecida frase como metáfora: «quando ouço falar de cultura [reforma] puxo logo a pistola».

terça-feira, 15 de abril de 2014


Ideologias incendiárias com Lógicas claras mas fora da Razão

Ao Arroteamento da Paisagem natural segue-se o da Paisagem cultural


António Justo

A selva da consciência humana vai avançando e recuando à medida dos fogos que se ateiam aqui e acolá. Os séculos XIX e XX foram os séculos que mais se aproveitaram da pirotecnia ideológica (fascismo, socialismo e capitalismo) e tudo isto debaixo do céu iluminista duma razão pura e de uma ciência convencida. O início do séc. XXI sofre as consequências até ao desatino porque a camada dos que têm acesso ao saber é incomparavelmente maior; o problema vem porém dum saber adquirido à primeira vista. Um saber que não cria saber fundado mas destinado apenas a fazer opinião passível de ser cultivada nos vasos da varanda democrática. No absolutismo cultivava-se o dogma absoluto, em democracia cultiva-se a opinião relativista para se ter verdades para todos os partidos. Não ponho as mãos no fogo da ideologia porque me chega o adubo das suas cinzas!...


Valores abstractos não comprometem os Governantes

Torna-se interessante observar a cumplicidade e coerência entre economia, sistema de governo e de pensamento no suceder-se das várias épocas históricas. Se na Idade média com a sua suserania económica agrária (reguengos, coutos e coutadas) imperava o rei/suserano como representante de Deus na terra, hoje em democracia e em nome do povo, cada vez impera mais um estado corrupto sem referências éticas e menos ainda religiosas. O secularismo estatal quer falar apenas de valores abstratos, sem pai nem mãe, e assim confirmar o que o bispo Agostinho de Hipona constatava, no seu tempo: um Estado sem um fundamento moral claro não é mais que “uma grande quadrilha assaltante de ladrões”. Por isso o Estado, embora de direito, não quer saber do bem e do mal. Deste modo os poderosos grupos, ideológicos, políticos, económico e dos Média, tornam-se nos formadores duma opinião pública à medida dos seus interesses particulares. Quer-se uma sociedade também sem religião nem modelos; o maior modelo humano da História, Jesus de Nazaré, tornar-se-ia numa provocação.

Na Europa, no tempo das invasões bárbaras a vida era dominada pelo medo real da morte, das pestes e dos assaltos bárbaros. A vida era violenta e o ambiente rude, o que se repercute também na mentalidade desse tempo. A violência, o medo e a necessidade de defesa levou os habitantes a construir castelos nos cimos dos montes e os fiéis a construir igrejas com janelas estreitas para impedirem os assaltos. Neste ambiente fomenta-se uma consciência do direito, impregnada na necessidade de justiça, que se formula numa espiritualidade de direito e se expressa então no Jesus severo e justiceiro adaptado à época.

O fogo do amor abranda todos os fogos sejam eles materiais ou espirituais, porque queima os medos pela raiz.

A necessidade de desenvolvimento e a fome levou ao arroteamento de grandes florestas na Europa. Por todo o lado, a natureza recuou, à medida que a população aumentava. Dá-se uma progressão na cultura e um recuo na natura. No seculo XV a população de Portugal era entre um e dois milhões de habitantes, a França tinha entre 10 e 14 milhões e a Espanha andava pelos cinco milhões.

Ao fogo do dogma religioso sucede-se o fogo do dogma racionalista/secular com o dogma da opinião embutida no relativismo. No processo da evolução os fogos do inferno deram lugar aos fogos das ideologias. Ao arroteamento das paisagens geográficas da Europa segue-se o arroteamento da sua paisagem cultural, com o desbaste do que ela tem mais sagrado. Na luta pelo próprio biótopo vital ou ideológico cada um procura escavar a própria trincheira para daí fazer fogo com uma argumentação lógica mas não racional. A lógica ideológica pega nuns tantos factos históricos tirados da cor local histórica e do contexto, organizando um fio condutor lógico ad hoc e convincente para quem não conhece o resto dos factos. 


O Medo como Instrumento de Governo e de Domínio

A religião procurava relegar a vingança dos fogos do dia-a-dia para o fogo do inferno, adiando o medo para o fim-do mundo. O secularismo hodierno procura relegar a vingança das injustiças do dia-a-dia para um futuro de progresso, adiando o medo de eleição em eleição ou para um futuro melhor. Pirómanos de um lado e de outro: cada qual amarrando o futuro à sua ideologia.

Incendiários por todo o lado, teístas colocando o fogo nos campos dos ateístas e incendiários progressistas colocando o fogo no campo dos conservadores e da religião: todo o mundo a dar continuidade à cultura da guerra e ninguém interessado em integrar.

Na luta contra o medo tudo luta com o medo de morrer sozinho, tudo procura tornar-se proprietário da razão; esta e á a mecha de fogo mortal mais eficaz mas que, num outro ideário, se poderia transformar na mecha da paz.

Numa sociedade cada vez mais distante da vida moral e da lei da causa e do efeito sofre-se de um reducionismo monocausal, procurando explicar as próprias dores da mente com qualquer coisa que lhe engane a fome.

No carrossel das opiniões e das lógicas tudo anda atordoado. A expressão cristã não pode porém reduzir-se a uma herança assim como a sua crítica não pode ser reduzida a uma época ou sistema político. A interculturalidade não seria beneficiada se fundamentada nas culpas sejam elas a nível de medos ou de coerções, sejam elas mesmo, de caracter intelectual subtil.

Tanto a delinquência como a benignidade dum povo são retratadas nos seus costumes, na sua ética e nas suas leis.
Hoje é fácil falar-se com o rei na barriga; para isso basta falar de antanho, falar dos outros, a partir do trono duma própria opinião tendente a justificar a própria insatisfação/frustração.

O filósofo Epicteto dizia “Não há falta de provérbios, os livros estão cheios deles, o que falta são pessoas que os apliquem”! Eu acrescentaria: Não chega um provérbio ou uma citação para conhecer uma pessoa, é preciso ler o livro inteiro e mesmo assim continuarei a não poder perceber os mistérios que a pessoa alberga e que o livro não consegue revelar!

A ideologia do pensar politicamente correcto que nos domina tornou-nos indiferentes.
Entre o texto e o contexto prospera a opinião de um texto descontextuado. O sentido do texto só está no contexto! Por isso há que perguntar o que está por trás de uma opinião e que interesses serve, antes de nos deixarmos levar por lógicas que se revelam contra a razão! Hoje na barafunda das lógicas argumentativas tudo serve para atacar as raízes da nossa civilização.

António da Cunha Duarte Justo