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segunda-feira, 17 de abril de 2023

UMA SALADA DAS NOSSAS

 Luís Santos

Salina da Fonte em Alhos Vedros

Aqui nesta região, distrito de setúbal, margem sul do Tejo, a exploração do sal é atividade que se perde em tempos atrás dos tempos, idade da pedra. Os processos de produção foram-se alterando, mas o sal foi (e ainda é) um elemento fundamental na alimentação e na preservação dos alimentos, mas não só. O seu uso mais que terapêutico está bem explícito numa das boas aventuranças cristãs: “sois o sal da terra”.

Por exemplo, nos vedros onde se cristalizaram marinhas, ou nos vestígios de antigas cetárias, relembram-se sinais da ocupação romana do lugar que nos trazem à memória Equabona, ou Aquabona, nome romano de Coina antiga, posteriormente moura, lugar de elogiadas medicinais, ou no lugar que costumamos designar por “Alius Vetus” (nem que o topónimo tenha sido inventado em tempo posterior), entre outros lugares do distrito, a produção de sal e a salga do “garum”, pasta de peixe que se produzia e circulava por todos os cantos do vasto império que circundava o “mare nostrum”, era coisa sagrada.

Sal que por aqui tinha elevada qualidade, branquíssimo, puríssimo, que valia o seu peso em ouro, facilitador de fortunas imensas que não para os marnotos. De resto, sal donde provém a palavra salário... um tipo de moeda corrente a um tempo com que se "pagavam os salários", mas também absolutamente precioso, para preservar peixe e carne, com que se enchia a barriguinha e dava força extra aos infindáveis exércitos e aos divinais bacanais dos democratas cidadãos de Atenas ... até que chegaram os frigoríficos.

Além da importância do sal e das boas águas de prata que brotavam das fontes, em nascentes que por debaixo da terra vão descendo desde a Arrábida e se estendem pelo vale do Tejo, existe uma famosa planta de folhas verdes, alimento de utilizações várias que vão desde os embalsamamentos e mumificações, até ao uso na cura de várias doenças. A salicórnia, de seu nome científico, mas também conhecida popularmente por espargos do mar, ou cristo marino, ou alhos verdes… Diz no portal “Horta dos Peixinhos”, uma das empresas que promove a sua cultura, um alimento extremamente versátil que cresce ao longo das salinas costeiras do mediterrâneo, podendo ser consumida crua ou cozinhada, numa grande diversidade de pratos, planta diurética e medicinal, rica em vitaminas e sais minerais que possui características imuno-estimulantes, antioxidantes, anti-inflamatórias, anti-tumorais e antidiabéticas, contribuindo para a prevenção de problemas de hipertensão artéria. E, certamente, um dos ingredientes da poção mágica dos gauleses, Astérix e Obélix, acrescentamos nós.

Eis o resumo perfeito para um texto que se quer curto: os alhos verdes, mais os seus sais e o sal, e as águas de prata, pretensa salada do rejuvenescimento, elixir da longa vida e da imortalidade, qual pedra filosofal. 

E, agora, que nos ajudem os fitoterapeutas.


quarta-feira, 26 de junho de 2019

Cuidando da nossa história



No espaço contíguo à parede lateral da Biblioteca de Alhos Vedros, cujo edifício se integra num conjunto arquitetónico com meritório valor, temos 3 extraordinários painéis de azulejos que decrevem alguns episódios da história da terra. Uma iniciativa de bom gosto que merece ser salientada.
Porém, ao deixarmos aquele espaço ao abandono, ainda teremos uma surpresa desagradável. Então não é que, num dia destes, alguém colou um autocolante num dos painéis, a pedir que votassem no seu partido... Um bom alerta para que as autoridades locais dêm mais atenção a este lugar, no sentido da sua preservação e melhoria, para que não se perca aquela interessante unidade patrimonial.

Luís Santos

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A IGREJA DA NOSSA SENHORA DA GRAÇA E A ORDEM DE CRISTO


Luís Santos

O atual templo de Nª Sª da Graça, em Palhais, Barreiro, resulta de sucessivas intervenções efetuadas desde que a pequena Ermida foi erigida pela população local, provavelmente, em meados de quatrocentos, ao tempo situada no, então, concelho de Alhos Vedros.
A Igreja, de traça quinhentista, constitui um dos raros monumentos da arquitetura manuelina e foi classificada como Monumento Nacional em 1922.

Nas traseiras da Igreja, podemos ver a cruz da Ordem de Cristo, a tal que também ia nos mastros das caravelas...
Nessa altura, entre secs. XV-XVI, ali se situava um estaleiro naval, onde se construíam os navios que iam às descobertas, antes dos últimos retoques em Lisboa, e da Mata da Machada vinha a madeira para a sua construção.
Era também ali, no Complexo Real do Vale de Zebro que era feito "o biscoito", um pão feito com trigo, água e sal, que constituía a base alimentar dos nautas nas viagens.


Assim se assinala que o pessoal destas bandas, os avós dos nossos avós, tiveram uma participação direta muito forte nos Descobrimentos, sem dúvida, um dos maiores, se não o maior, feito de Portugal nos seus quase novecentos anos de história.

A Ordem de Cristo leva-nos até ao seu fundador, rei D. Dinis, que a criou para proteger os “Templários”, em Portugal, que no tempo foram fortemente perseguidos e alvo de imensa chacina, a partir de conluio entre papado romano e rei francês que, todavia, depois disso, amaldiçoados, não viveram muito mais tempo para contar…
Mas deixando essas contas para outros rosários, o que nós queremos apontar é das visões largas do Rei Dinis na criação da Ordem, ao mesmo tempo que fundava a Marinha Portuguesa e instituía a Língua Portuguesa no Reino, que, depois, tudo junto, lá foram pelo mar fora levando, também, sagrada mensagem divina em peregrina viagem de paz e esperança que chegou até ao Festival da Eurovisão.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015






NO PRELO

Depois de participação ativa, nos últimos dois anos, em 2 acontecimentos de relevo para a história local, a saber, as Comemorações dos 500 anos da atribuição de Carta de Foral pelo Rei D. Manuel I e os 600 anos da passagem de D. João I e do importante Conselho Régio de Alhos Vedros que costuma ser considerado como o momento crucial do início da Expansão Ultramarina Portuguesa, vai sair um livrinho que reflete sobre o período áureo da história de Alhos Vedros e Região. Deverá estar disponível a partir da próxima semana...


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

"The Blue Dog"


A Expansão azuL





“The Blue Dog” é uma belíssima escultura de William Seewtlove que se mostra na Quinta da Bacalhoa, em Azeitão, lugar do concelho de Setúbal, entre oliveiras milenares e terras de bons e famosos vinhos. Uma quinta que se encosta à grandiosa e mística Serra da Arrábida, de magníficas praias e idílicas paisagens, mais seus eternos poetas Sebastião da Gama ou Agostinho da Cruz.

A histórica Quinta da Bacalhoa, classificada como património nacional, pertenceu em tempos à casa Real Portuguesa, sendo seu primeiro titular o infante D. João, filho de D. João I, rei de Portugal, na primeira metade do século XV. Um século depois haveria de ser adquirida por Brás de Albuquerque, filho do vice-rei de Portugal e governador da Índia Afonso de Albuquerque.

Os Albuquerques, de resto,  já detinham muitas e grandes propriedades nesta região, pois sabe-se que Afonso de Albuquerque se constituiu herdeiro de vastas terras na região de Alhos Vedros, por via do seu avô paterno Gonçalo Lourenço de Gomide, um dos grandes senhores deste lugar, e que era "escrivão da puridade" (um mais ou menos 1º Ministro dos tempos atuais) do Rei e Mestre de Avis.

D. João I, tal como os Albuquerques, também surge ligado à história de Alhos Vedros e região. Aqui fez luto quando da morte da sua mulher Rainha Filipa de Lencastre, aqui se reuniu com os infantes, seus filhos, onde foi dada autorização que, para o bem e para o mal, se partisse à conquista de Ceuta, quiçá, a primeira etapa da Expansão Ultramarina Portuguesa. Segundo rezam as crónicas tudo terá decorrido ali no Cais Velho, em Alhos Vedros, num Palacete que se pensa ter pertencido a um seu filho bastardo D. Afonso, Conde de Barcelos, no ano de 1415. Quer dizer, fará este ano precisamente 600 anos que, por aqui, se deu início à Expansão da Língua Portuguesa havendo, por isso, grandes expectativas de que as Comemorações sejam condignas.

É caso, pois, para dizer que estamos em maré de Comemorações, porque também hoje, 23 de Janeiro de 2015, Dia Mundial da Liberdade, o Estudo Geral festeja o seu 5º aniversário. 


Luis Santos

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Valorizando a Nossa História...


Na próxima 2ª feira, 15 de Dezembro, fará 500 anos que o Rei D. Manuel I atribuiu Carta de Foral a Alhos Vedros, dia em que também chegará ao fim o Programa das Comemorações que foi decorrendo ao longo de todo o ano. Entre os vários Encontros que integraram as Comemorações, deixo aqui as conclusões da conferência que proferi. O texto integral será publicado depois, conjuntamente com as atas de todas as Conferências, pela Comissão Executiva das Comemorações do Foral.


Cruz de Cristo, símbolo que identificou, entre outros, as naus portuguesas durante os descobrimentos.


Conclusão

1. A História de Alhos Vedros estende-se até às origens do país e desenvolve-se com ele. Note-se que quando estamos a falar de Alhos Vedros no século XIII, estamos necessariamente a falar de uma região que se alarga aos concelhos atuais de Alcochete, Montijo, Moita e Barreiro, pois que todos eles integravam o velho concelho do Ribatejo, do qual Alhos Vedros constituía com Santa Maria de Sabonha (atual S. Francisco) as duas sedes principais desse concelho.

Para que se possa avançar mais no conhecimento das origens de Alhos Vedros e região, caberá aos nossos arqueólogos um papel fundamental, já que a escassez de documentos escritos, muito provavelmente, não permitirá aos historiadores recuar muito mais para trás no tempo do que aquilo que já se conseguiu. Existe um hiato enorme entre o tempo que nos é dado pela história local sobre as origens de Alhos Vedros e o povoamento da região assinalado pelos estudos arqueológicos que remontam, pelo menos, ao Neolítico (30 mil anos atrás), o qual nos é absolutamente desconhecido.
Por agora, apenas se pode dizer que o documento escrito mais antigo que se conhece sobre Alhos Vedros data de meados do século XIII e o documento mais antigo sobre a Igreja Matriz data de 1298 e que, portanto, antes desse tempo não é possível comprovar a existência de Alhos Vedros.

2. No século XIV Alhos Vedros ganha autonomia face ao velho Concelho do Ribatejo e constitui um concelho próprio. Os limites desse concelho situam-se entre a Aldeia Galega, Palmela e Coina Antiga.

3. Podem-se estabelecer um conjunto de fortes relações do concelho de Alhos Vedros com a Expansão Ultramarina Portuguesa, quer a partir de importantes figuras históricas que por ele passaram ou habitaram, tal como a partir de alguns núcleos de relevante importância económica, como eram os fornos os biscoitos em Vale de Zebro, o estaleiro naval da Telha da Ribeira das Naus, ou os fornos de cerâmica da Mata da Machada, todos com relação intrínseca aos Descobrimentos Portugueses.

4. É verdadeiramente impressionante a lista de figuras de relevo da história de Portugal que se podem relacionar com Alhos Vedros:
- D. Dinis, rei de Portugal, e a indústria naval
- Gonçalo Lourenço de Gomide, “escrivão da puridade” (equivalente a um 1º ministro dos tempos atuais), avô de Afonso de Albuquerque governador e vice-rei da Índia
- D. João I, o Mestre de Avis, rei de Portugal
- A Ínclita Geração: D. Duarte, futuro rei de Portugal; Infante D. Henrique, Grão-Mestre da Ordem de Cristo e figura de proa da Expansão Ultramarina, etc. (filhos de D. João I)
- D. Afonso, Conde de Barcelos, filho bastardo de D. João I (que sabemos estava com o Rei em Alhos Vedros quando do luto da Rainha Filipa de Lencastre…), casado com D. Beatriz, a filha do Condestável do Reino D. Nuno Álvares Pereira que, por via disso, também talvez tenha por cá andado.
- Álvaro Velho, o provável cronista da Viagem de Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia por Vasco da Gama
- D. Manuel, Rei de Portugal, o outorgante da Carta de Foral que sabemos esteve por cá através de carta de Gil Vicente, o pai do Teatro em Portugal
- Afonso de Albuquerque, governador e vice-rei da Índia, neto de Gonçalo Lourenço de Gomide, um dos grandes senhores de Alhos Vedros.
- Luís de Camões e as suas referências a Alhos Vedros na sua farsa “El-Rei Seleuco”.

5. Pode, pois, concluir-se dizendo que muita coisa já se conhece sobre a história de Alhos Vedros e da região, mas que muito ainda estará por descobrir, muito também carecendo de confirmação científica.

Parece-nos inegável o relevante valor da nossa história e o potencial desenvolvimento social e económico que daí poderá advir. Neste sentido, precisamos de avançar o mais possível para a conservação do património que ainda resta, cuidar da preservação da memória, mais descobrir para mais acrescentar, afinal, tratar da história do futuro que é o que mais interessa.
Assim, aproveitamos a presença do Sr. Vice-Presidente da Câmara Daniel Figueiredo para lhe sugerir o quão seria importante conseguirmos recuperar O Palacete dos Condes de São Paio, um testemunho patrimonial de primeira água da nossa história local, lugar onde com elevada probabilidade ficou D. João I e onde, conjuntamente com seus filhos, a célebre “Ínclita Geração”, terão decidido partir à conquista de Ceuta, naquela que é considerada a primeira etapa da Expansão Ultramarina Portuguesa, uma das grandes realizações de Portugal no mundo.


Nov. 2014

Luís Carlos Santos

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

ALHOS VEDROS - 1 de Novembro de 1755


A 1 de Novembro de 2014 perfazem 259 anos do devastador terramoto
que assolou Lisboa! Também em Alhos Vedros o terrível abalo telúrico se fez sentir! 
Transcrevo um excerto do meu texto (ficcionado) intitulado “Triangulação”,
que publicarei futuramente.
…

Em Alhos Vedros, a terra estremeceu e tremeram de medo os habitantes da pacata Vila ribeirinha. Por se tratar de Dia de Guarda, o movimento no porto não era o costumeiro. Amarradas à muralha, quatro embarcações empachadas, aguardavam a primeira maré do dia seguinte, para zarpar.
            Cercãs da muralha, uma carreta e uma carroça haviam acabado de descarregar os carretos. À carreta estava jungida uma junta de bois; à carroça, uma parelha de cavalos.
            À porta da hospedaria do Galego, forasteiros proseavam para matar o tempo, aguardando a carreira para Lisboa.
            Para assombro dos três rapazes, repentinamente, os animais principiaram a ficar inquietos. Ecoava ruído cavo e tenebroso, enquanto o solo encetou a oscilar com violência. Os animais tiveram de ser fortemente seguros pelos freios: os bovinos resfolegavam agitados, avançando e retrocedendo; os equinos empinavam-se nas patas traseiras, relinchando amedrontados.
            As casas vibravam, portas e janelas chiavam e pessoas corriam espavoridas, aterradas, buscando refúgio no centro do terreiro.
            - Mirai o esteiro! - bradou José.
            - Que tá sucedendo, mê Deus?! - indagou Braz, bradando também.
            - É um tremor de terra! - clamou Kéhindé. - Mas... mas enxergai! Que está sucedendo às águas?!
            As águas retrocederam, deixando as embarcações assentes no lodo. Afora a cala, o esteiro quedou seco por instantes. Das bandas do Norte, emergia desmesurada massa de água que, galgando marinhas, viveiros e sapais, arrasava tudo à sua passagem.
            - Abalemos lestos! - berrou Braz, aterrorizado. – Enxergai! A maré vai galgar!
            Os três rapazes encetaram a correr para a Rua do Cais, seguidos por muita da gente que se achava no terreiro. Os jovens ampararam os mais vagarosos. Para assombro de todos, num abrir e fechar d’olhos, as águas apossaram-se da rua, idas do terreiro e das bandas da caldeira do moinho de maré. Os fugitivos, unidos uns aos outros como podiam, acarretando as crianças nas espaldas, quedaram com água acima da cinta e foram arremessados de encontro aos valados que ladeavam a rua. Aos mais débeis e abatidos valeu o providencial amparo dos mais expeditos. Botes e bateiras vogavam em terra, impelidos pelo ímpeto da maré.
Ecoavam angustiosos brados, mendigando o auxílio miraculoso.
            - São Lourenço, velai pl’a gente!
            - Senhora dos Anjos, amparai a todos!
            - É o Dia do Juízo! - clamou uma voz.
- Santo Cristo, socorrei-nos e salvai-nos!
            A enchente sumiu como havia surgido.
Os brados de pavor não haviam cessado por um só momento. Engalfinhando-se nas árvores, Kéhindé, José e os companheiros alcançaram travar o efeito de sucção das águas. Encharcados, enlameados e espavoridos, permaneceram prostrados nos terrenos empapados.
As culturas haviam sumido.
            - Qu’é dos mes filhos, mê Deus?! - clamava uma mulher, destroçada, quase fora de si. - Hei precisão d’ir por eles! Ai! Deus meu!
            - Aquietai-vos! Sigamos todos juntos! Nã vos aparteis! Pode ocorrer outra enchente! – alvitrou o jovem africano.
            - O António tá com a razão! – assentiu Ti Julião. – Quedemos todos juntos... inté ò cais!
            A marcha revelou-se árdua, pois atascavam-se quase até à cintura e tinham de transpor obstáculos ocultos no lodo, que tudo conquistara.
            Alcançado o terreiro, não queriam crer naquilo que enxergavam. A carreta e a carroça estavam emborcadas de encontro à casa dos Mendonça Furtado e os bois jaziam mortos; dos cavalos, nem indícios; em cima da muralha, quase a tombar à água, achava-se uma barca de passagem; dispersos pelo largo, rodos e demais alfaias das marinhas, embarcações arrasadas, árvores arrancadas pelas raízes, montões de mato, sacas e barricas, cavernames desfeitos, quais ossadas descarnadas, o estaleiro derribado.
            Nas paredes das casas, podiam ver-se as marcas da investida de toda a sorte de detritos, amontoados no solo. As embarcações, até então fundeadas, ou estavam emborcadas e afundadas, ou haviam sumido.
            Alcandorados nos telhados, azoinados, expectantes e receosos, os sobreviventes tiritavam de frio e medo. Era assim na hospedaria, na casa de Dona Catarina e na do Senhor Conde, em cujas paredes as águas haviam alçado ao nível das sacadas. A hospedaria e a casa da família Mendonça Furtado haviam sido cabalmente devassadas: portas e janelas arrancadas e grande devastação de bens, efeito da violenta correnteza das águas.
            Embora ainda sob o efeito de tão abrupta e inusitada ocorrência, a quietude volvera aos espíritos das gentes. Por entre brados de alegria e louvor ao Altíssimo, iam-se ajuntando os entes queridos, que a calamidade atrozmente apartara.
            Em redor, afigurava “campo de contenda.”
            - Sigamos pra casa, Kéhindé.
            - Sim, José. Como se acharão por lá?
            - Também vou pl’os meus... – disse Braz.
            - Ide, rapazes. Ide com Deus! - exortou Ti Julião. – Por aqui, tudo se acha calmo. Ide… pl’os vossos. Quão ralados nã se acharão! Que Nosso Senhor acompanhe e guarde vossemecês!
            Por toda a parte se via gente aturdida: uns carpiam a perda de culturas, gado e demais haveres; outros, fitando atónitos, miravam embarcações assentadas em locais até então inconcebíveis.
            - As águas da maré alagaram a Matriz, que virou ilha! – anunciava Ti Joana, em alta voz, varada pela perplexidade. – Nunca sucedera o tal!
            - Há gente sumida?
- Por aqui não, Braz… – respondeu Ti Francisco que, amparado por vizinhos, se esforçava por virar uma bateira emborcada e prantada onde, anteriormente, havia sido o pomar.
            - Aqui, o Romão, acudiu das bandas da Praça e falou que a maré lambeu os pés ò pelourinho... – informou Soares, filho de Ti Francisco. – Pl’o qu’ele entendeu, também ninguém se acha sumido por lá.
            - Inda bem! - desabafou o rapaz, mais serenado, visto habitar com os pais na Rua do Tinoco. – António, José, vou embora sem mais detença.
- A gente tamém vai… – disse José, apreensivo. - Como se acharão os mes pais?
            Na Rua dos Pinheiros, homens, mulheres e crianças, numa azáfama jamais vista, acarretavam tudo de dentro das casas, que a lama acometera de feição implacável.
            Ao embocar na Rua da Cadeia, José divisou o pai que, alheado, mirava a casa: a chaminé tombara e descortinavam-se fissuras nas paredes.
Soluçando inconsolável, derreada, Ti Zefa sentara-se na soleira da porta, envolta no xale, tapando a cara com as mãos. As vizinhas acalentavam-na, suspirando também. 
            - Ai! Mê Deus! - bradou Rosa, filha de Ti Perpétua, as mãos postas, assim que avistou os dois rapazes, por entre as gentes que enchiam a rua. - Ti Zefa! Ti João! O José mais o António acodem acolá, além! Nosso Senhor seja louvado!
            Incrédula, a mulher alevantou os olhos, de onde as lágrimas haviam sumido e, recobrando as forças que cuidava perdidas, ergueu-se de um salto e correu para os rapazes, de braços abertos.
            - Ai! Filho da minh'alma! Graças ao Senhor, que te achas bem! António, chega aqui, mê filho! Graças ao Céu pl’os dous! - clamava Ti Josefa, enlaçada aos jovens, beijando-os com carinho.
            Ti João abeirou-se e envolveu os três num forte abraço, chorando com a mulher, mas… de alegria.
            - A gente perdeu os cavalos... - disse José.
            - Nã senhor! - proferiu o carreteiro, entrecortando palavras com soluços. - Os danados acudiram a casa. O Ventarola manca da pata dextra e o Garnizé tá maltratado na dentuça. Mas acham-se bem vivos, os ladinos!
- Por haverem voltado sem vosmecês é qu’a gente cuidou o pior… - soluçava Ti Josefa.
            - A carreta tá emborcada, à beira da casa de Dona Catarina… - informou o rapaz.
            - Mas… que sucedeu com as águas, rapazes? Nunca escutara o tal! - confessou Ti Lucas Moleiro, meditativo, afagando as barbas brancas. - E eu ando em este mundo de Deus há um ror de tempo! A terra tremer, vá que nã vá... Mas o rio galgar a terra! Nunca sucedera! Pl’a minha Fé, asseguro eu a todos vossemecês!
            - Ti Lucas, vossemecê nem sonha o que ocorreu no cais! - declarou José, o semblante mui sério. - Nã há palavras… O rio avultou das bandas do Norte e o terreiro virou mar. A maré de tudo se assenhorou.
            - Relatai à gente… o que vistes…    
- Mais tarde, relatam, Ti Januário. Vossemecê entenda. Por ora, têm é precisão de remanso – interveio Ti João, resoluto. – Vinde daí, rapazes. Vá lá, mulher. Sossega, qu’eles tão a salvo, com a graça do Senhor!
            Ti Zefa ao meio, cingindo cada um pela cintura, seguiu para casa.
Desfeito o ajuntamento que os rodeara, cada um seguiu à sua vida. Muito havia para fazer. A maioria das casas sofrera estragos que urgia reparar. Cinco moradias haviam desabado por completo. Os desalojados acoitaram-se em casa de familiares e vizinhos.
            O adro da Matriz porfiava atestado de povo, que aí acorrera suplicante. Todos se achavam ainda atemorizados, mal refeitos do que ocorrera.
Pela Vila correu a notícia que a Senhora dos Anjos sairia em procissão de ação de graças. E assim sucedeu, rente às dez horas. Pelas doze, muito povo apinhava o templo, para a Santa Missa. Eis que novo abalo se fez sentir. Quem testemunhou, passou a afiançar que só por intercessão da Senhora, Rainha dos Anjos, o templo não ruíra, sepultando todos quantos aí se encontravam.


Francisco José Noronha dos Santos

terça-feira, 24 de junho de 2014

GIL VICENTE E ALHOS VEDROS


Gil Vicente nasceu por volta do ano de 1465, mas não há concordância dos historiadores, nem quanto à data, nem no que se refere ao local do nascimento. Terá nascido no Minho, mais propriamente em Guimarães? Ou terá vindo ao mundo em Barcelos e tenha crescido numa localidade da Beira? Ou a sua terra natal possa ter sido Lisboa, na Estremadura?
Daquilo que não há dúvida, é que viveu nesta cidade.

Bom observador da realidade circundante, audacioso, detentor de um mordaz espírito crítico, nenhum estrato social escapou à sua perseverante denúncia de exageros, infidelidades e hipocrisias!

Conhecido na cidade, rapidamente a sua fama acudiu aos ouvidos régios, tendo sido introduzido na Corte como artista, e onde foi incumbido de superintender a organização das festividades da Casa Real.

Como era uso na época, a Corte transitava pelo País, assentando arraiais em diversas povoações: vilas e cidades, de Norte a Sul do Reino.
Gil Vicente tomava, invariavelmente, parte nessas viagens.
«São conhecidas as localidades seguintes, frequentadas pela Corte e quase sempre por Gil Vicente (...), durante o reinado de D. Manuel I de Portugal e do seu sucessor, o rei D. João III: Lisboa, Almeirim, Abrantes, Chamusca, Sintra, Torres Vedras, Évora, Alhos Vedros, Castro Verde, Lavradio, Benavente, Alcochete, Aldeia Galega, Tomar, Barreiro, Palmela, Alcácer- do-Sal, Alvito, Montemor-o-Novo e Coimbra. (...)»

Onde se alojaria a Corte em Alhos Vedros?

Achando-se Gil Vicente em Santarém, aquando do terramoto de 26 de janeiro de 1531, que abalou Lisboa e o Vale do Tejo, «censurou num discurso os sermões terríficos, nos quais os frades de Santarém explicavam ao povo a catástrofe como resultado da ira divina. Então, referiu o facto ao rei, numa carta na qual se pronunciava também contra a perseguição movida aos Judeus, tendo o rei D. João III abandonado, a partir de 1531, a política de assimilação e tolerância religiosa que havia caracterizado a época manuelina.»

Essa missiva de Gil Vicente recebeu-a o Monarca em Palmela, depois de ter passado por Alhos Vedros e aí ter pernoitado, antes de ter seguido para Coina.


Francisco José Noronha dos Santos


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Alhos Vedros, 500 anos de Foral




Para quando o Museu?

Muito pouco se tem feito pela divulgação do nosso património histórico, nós que temos no Concelho sinais seguros que remontam até próximo do início da formação do país, e por aí fora através dos tempos, insinuando achados que foram revelados pelos nossos arqueólogos de serviço, muito bem liderados pelo amigo António Gonzalez.

Já peca por tardia a inexistência de um núcleo museológico, onde possamos ver ao vivo, a enorme quantidade de testemunhos de que dispomos sobre a nossa história e que têm vindo à tona fruto, sobretudo, de um trabalho de carolice, com fracos apoios financeiros, dos nossos associativistas, políticos, historiadores, arqueólogos, antropólogos, escritores, poetas, entre outros.

Creio que o nosso Concelho deve ser o único no distrito que ainda não tem um espaço museológico condigno. Avançamos com uma sugestão: o espaço mais apropriado para a localização de um futuro núcleo museológico sobre história local será o palacete dos Condes de Sampaio, edifício contíguo ao moinho de maré do cais velho, em Alhos Vedros. Não haverá outro sítio no Concelho onde se respirará com mais força os ecos da nossa história. E até que seria uma ótima solução para evitar a contínua degradação desse nobre espaço antes que, mais uma vez, se faça tarde.

Luís Santos


Nota: Nas fotos a frontaria e as traseiras do Palacete dos Condes de Sampaio

terça-feira, 6 de maio de 2014

(Des)Encontros


Subtítulo: Alhos Vedros – Rosário
(ainda por publicar)

SINOPSE

     Alhos Vedros e o Rosário são vetustos povoados da borda-d’água, ambos acariciados pelas águas do Tejo que, desde tempos imemoriais, os apartou e os uniu.
     Características comuns das suas laboriosas gentes: a pesca, a salicultura, a construção naval, a agricultura e o respeitador acatamento dos conselhos dos anciãos.   
     O rio, fonte de trabalho e pão, revelou-se por vezes o cerne de encarniçados conflitos.
     Na década de Quarenta do século XX, Alhos Vedros assistiu à implantação da indústria corticeira, que modificou hábitos de trabalho e modos de vida, mas não tanto as mentalidades.
     A ação decorre nos anos de 1940 e 1941.
     A Europa central sofria o morticínio da Segunda Grande Guerra.
     Na cidade de Lisboa, pululavam os foragidos, que a barbárie compelira ao exílio.
     Em Portugal, o Natal de 1940 foi vivido sob o temor de uma possível invasão franquista, em aliança com os boches. Nas casas, as tiras coladas nas vidraças das janelas mais não eram que as ligaduras visíveis que cobriam as feridas interiores.
     Na Vila de Alhos Vedros e no Rosário, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 martirizou a natureza, corpos e almas.
     A um agreste inverno sobreveio uma ridente primavera, brotou um amor, desvendou-se um segredo jurado a um moribundo!
     Eis a síntese de uma narrativa ficcionada, alicerçada em factos e em pessoas reais, que a vida compeliu a (des)encontros!


Francisco José Noronha dos Santos

quarta-feira, 30 de abril de 2014

ALHOS VEDROS QUATROCENTISTA


Cristãos e Judeus – o enterramento de Fernão do Casal
(inédito)

SINOPSE

     Desde épocas imemoriais, nas terras da Ibéria, coabitam judeus e cristãos. Para Celso Lafer, «os judeus se instalaram na Península desde os tempos salomônicos, passaram pelo domínio romano, suportaram as invasões bárbaras, sofreram os primeiros reinados visigóticos, sustentaram os árabes, integraram-se nos reinados cristãos da Reconquista...»

     Para Ângelo Adriano Faria de Assis (*) «O nascimento político do reino português (…) [no] século XII, sob a espada abençoada por visões divinas e comandada por Afonso Henriques (…), dá-se num momento em que os filhos de Abraão já se encontram (…) sedimentados em algumas localidades de grande povoamento e importância, como Santarém, Coimbra e Lisboa. (…) O relacionamento entre cristãos e judeus no mundo português encontrava particularidades que o diferenciava dos outros países da Europa cristã. De acordo com Anita Novinsky, as diferenças começam na própria origem: durante a Idade Média, Portugal foi "o país que antes de qualquer outro da Europa reconheceu os direitos dos judeus"; consequência desta política de "aceitação" social, é que "foi nessa parte ocidental da Península que a propaganda oficiosa antijudaica penetrou mais tarde".»

     Também em Alhos Vedros, povoação na margem esquerda do Tejo, dada a vizinhança de Lisboa, havia judeus integrados na comunidade local.

     Citando de novo Ângelo Assis, «Apesar da forte influência do direito canónico, (…) "a religião não impediu nem prejudicou seriamente os contatos mútuos, as inter-relações grupais, sendo mesmo considerável o número de casamentos mistos". A situação, na prática cotidiana, mostrava-se em Portugal - como em nenhuma outra parte – favorável ao bom convívio entre os grupos. (…) O povo não levava muito a sério as proibições dos representantes da Igreja e os monarcas portugueses foram muitas vezes recriminados de Roma por favorecerem aos judeus"».

     No funeral do Fidalgo alhosvedrense Fernão do Casal, cooperaram cristãos e judeus, irmanados no mesmo sentimento de pesar.

     Desgraçadamente, «o aumento das perseguições na Europa e (…) os acontecimentos em Espanha, (…) mormente na segunda metade do século XV, mudariam este quadro e trariam um triste fim ao período em que os hebreus conviviam abertamente com os cristãos no reino fundado séculos antes por Afonso Henriques.» (*)
     
Qual mito da cripta, sub-repticiamente, foi sem-do gerado o monstro.


(*) Ângelo Adriano Faria de Assis Coordenador do Curso de História/Docente - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Nair Fortes Abu-Merhy (Além Paraíba - MG), in “O Medievo Português em tempos de livre crença: relações entre judeus e cristãos em Portugal antes do monopólio católico iniciado em 1497.”



Francisco José Noronha dos Santos

quarta-feira, 9 de abril de 2014

EL-REI DOM JOÃO III EM ALHOS VEDROS


por Francisco José dos Santos Noronha


«Memória do terramoto de 1531»

«Guardando a ordem dos anos, direi do seguinte, de trinta um, no principio do qual ouve neste reino de Portugal muito trabalho, por aver nele peste e terremotos, com tremer a terra e caírem casas e edeficios, onde morreo muita jente; e tal espanto e medo pôs que andávão as jentes espantadas e fora de si, que não ousávão a entrar, nem dormir em povoado, e saíão-se ao campo, onde dormião em choupanas e tendas que pera iso fazíão, e asaz foi isto mais em Lisboa e polo Tejo acima que em outra parte, e em especial em Vila Franca, Povos, Castanheira, Azambuja, até Santarém, e foi este terremoto a vinte de janeiro do ano de trinta um; e, como Noso Senhor é misericordioso, ouve por bem sosegar o tempo.»
Bernardo Rodrigues, Anais de Arzila, 1561


EL-REI DOM JOÃO III EM ALHOS VEDROS

«No início do ano de 1531, Lisboa conheceu uma crise sísmica que culminou no dia 26 de janeiro com um abalo de grande intensidade (provável magnitude 6.5 – 7.0), com origem na zona de falhas sísmicas do Vale Inferior do Tejo. Posteriormente, e ao longo de todo o ano, sucederam-se réplicas e sismos de menor intensidade. A destruição causada terá sido significativa, tanto na capital como nos arredores. Em Lisboa, cerca de 25% dos edifícios terão sofrido estragos significativos e, pelo menos 10% ter-se-ão desmoronado (cerca de 1500 habitações). A cidade contaria com cerca de 100 mil habitantes, dos quais entre 20 mil a 30 mil terão perdido a vida. Há referências a grande devastação em residências e oficinas, em particular na Rua Nova, a principal artéria comercial da cidade, e na rua dos Fornos, bem como edifícios nobres gravemente danificados (Paço da Ribeira, Paço dos Estaus, Convento de São Domingos, Sé, Convento do Carmo, Igreja de São João da Praça, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos).» (NUNES, Maria Paula, PROVIC, PUBLICAÇÃO MENSAL DA AUTORIDADE NACIONAL DE PROTECÇÃO CIVIL/N.º 47/FEVEREIRO 2012/ ISSN 1646 – 9542, p. 3)

Receoso pela sua segurança e pela dos seus, o Rei deu ordem para que desocupassem o Real Paço da Ribeira e se trasladassem para Enxobregas. Posteriormente, também por deliberação Régia, foram instalar-se no Paço Real de Santos. Dada a proximidade de Lisboa, o Monarca continuava a não se sentir resguardado da epidemia. Ordenou, então, que a Real Família embarcasse para o Barreiro e Lavradio.

Destas terras da borda-d’água, acompanhado de um séquito de Cavaleiros e homens d’armas, o Soberano encetou a caminhada para Sul e alojou-se no Paço Real de Almeirim. Certo dia de Janeiro, cavalgou até Benavente e aí se alojou. A 26 do dito mês, a terra tremeu enfurecida! «O Paço de Benavente, onde o Rei D. João III se encontrava, não terá resistido aos efeitos do terramoto, forçando o monarca a procurar refúgio, primeiro em Alhos Vedros e, mais tarde, em Azeitão.» (Idem)

Em Alhos Vedros, onde se terá alojado el-Rei?
Mas sabe-se que se achava na Vila, a 27 de Janeiro de 1531, data em que redigiu uma Carta Régia enviada ao Governador Cível, D. Fernando de Castro. (in “Catálogo dos manuscriptos da Bibliotheca Eborense”, p. 88)

terça-feira, 25 de março de 2014

O TERRAMOTO


Subtítulo: Lisboa – 26 de janeiro de 1531
(Ainda por publicar)

SINOPSE

     Reinava Sua Alteza, Dom João, o Terceiro.
     Um infausto inverno assolava Portugal: chuvas diluvianas arrasavam culturas, acarretando fome e miséria. A Peste ceifava vidas em Lisboa.
     A Família Real desocupou o Paço da Ribeira, instalando-se em Xabregas. Depois, transferiu-se para o Paço de Santos. Com o recrudescer da epidemia, a Real Família partiu de Santos para o Barreiro e Lavradio.
     Escoltado por Nobres e homens d’armas, el-Rei seguiu do Barreiro para o Paço Real de Almeirim.
     Vozearia na lezíria, em animada montaria.
     Estremecimentos periódicos abalavam Lisboa e o Vale do Tejo, sentidos em Vila Franca, Azambuja, Castanheira, Santarém…
     El-Rei rumara a Benavente.
     Violento abalo telúrico ocorreu a 26 de janeiro de 1531, atingindo duramente o Paço Benaventense. D. João III e D. António de Ataíde, sob a proteção de dez homens d’armas, iniciaram a jornada para Alcochete.
     A Peste grassava em Lisboa.
     Incriminavam-se os judeus pelas catástrofes que assolavam o Reino.
     Da Vila de Alcochete, o Rei e o séquito rumaram a Azeitão. Pelo caminho, afrontaram temerosa borrasca, que os forçou a uma alteração dos planos. Encaminharam-se para Alhos Vedros.
     No terreiro do cais alhosvedrense, em dia de mercado, disfarçados de serviçais, o Rei e o Nobre deambularam por entre a turba e as tendas, visitaram o estaleiro de mestre Gonçalo e aí merendaram.
     No dia seguinte, Josué, um serviçal da Casa dos Bragança, revelou a mestre Gonçalo a verdadeira identidade dos visitantes da véspera.
     Rei, Nobre e militares haviam abalado de Alhos Vedros, passado por Coina, seguido para Azeitão, onde pernoitaram, e dali haviam partido para Palmela.
     Em fevereiro de 1531, lavrava o pânico em Santarém. Diante da igreja de São João, um frade dominicano vociferava, acicatando a turba aturdida.
     Uma discreta criatura abanava a cabeça, incrédula, enquanto observava a multidão embravecida. Quem seria tal criatura?
     Imenso Clero rumou ao convento de São Francisco, em Santarém.
     No dia 25 de fevereiro de 1531, achando-se em Palmela, o Rei recebeu um mensageiro proveniente de Santarém, portador de uma missiva.
     Portugal, Terra de Santa Maria, implorava o amparo Divino, face à barbárie e à ignomínia!

Francisco José Noronha dos Santos


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

TRIANGULAÇÃO


Daomé – São Salvador da Baía – Alhos Vedros
(Texto ainda por publicar)

SINOPSE

    
“El-Rei morreu! Viva El-Rei!”
     A D. João V sucedeu D. José I.
     Sebastião José de Carvalho e Melo, um estrangeirado, ascendeu ao Poder.
     Na missionação do Brasil, destacava-se o jesuíta italiano Gabriel Malagrida.
     Da “costa dos escravos” para o Brasil, o tráfico negreiro estava no auge.
     Nos areais de Chega Nego, cercão da cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos, decorria o leilão de “cabeças de alcatrão”, que haviam aportado no tumbeiro Esperança - uma galera comandada pelo capitão Da Silva.
     O padre Malagrida acorreu ao “mercado”, a fim de atiçar consciências. Mas foram em vão as suas súplicas.
     No estrado surdiu um jovem, porte altivo, que a todos abalou pelo seu denodo. O jesuíta comprou-o, para espanto e escárnio dos circunstantes.
     No Colégio de São Salvador, no Terreiro de Jesus, o jovem negro encetou a aprendizagem da cultura do homem branco, alcançando esmerada educação. De forma natural, granjeou a estima de todos. Kéhindé, de seu nome na Língua Yorubá, recebeu o nome cristão de António.
     Entre Kéhindé e o sacerdote estreitaram-se laços, que a vida pôs à prova.
     Catequizado e alforriado, António Kéhindé deixou a Capital da colónia e acompanhou o clérigo para São Luís, no Maranhão, onde prosseguiu a sua formação.
     Em janeiro de 1754, por solicitação da Rainha-mãe, o padre Gabriel Malagrida rumou a Portugal. Consigo viajou António Kéhindé.
     Impedido de contactar a Rainha, por deliberação expressa de Sebastião José de Carvalho e Melo, Secretário Régio, o missionário teve de se exilar em Setúbal.  
     No mercado do Sapal, na Vila do Sado, António Kéhindé travou conhecimento com José e o pai, carreteiros alhosvedrenses. Desde logo nasceu entre eles uma genuína amizade.
     Nas longas ausências do padre Malagrida na Capital do Reino, a fim de acudir aos chamados do Superior do Colégio Jesuíta de Lisboa, Kéhindé passou a viver em Alhos Vedros, em casa de José e dos pais - Ti João Zebedeu e Ti Josefa - auxiliando-os na labuta quotidiana.
     Malgrado a prática da escravatura na Vila ribeirinha, uma vez conhecida a sua condição de homem livre, António Kéhindé integrou-se, gradualmente, na comunidade local.
     Culto, bem-falante e com boa aparência, “trajando que nem os senhores” aos domingos e festas de guarda, Kéhindé despertava o interesse das moças casadoiras.
     Profundas transformações ocorreram no vetusto povoado, e um invulgar enlace sucedeu, quebrando tabus ancestrais.
     Também em Alhos Vedros se viveu o terramoto de 1 de novembro de 1755.
     Obstando as teses racionalistas do Secretário Régio, o padre Malagrida, imbuído de acalorado misticismo, asseverou terem sido castigo divino as causas do abalo telúrico, inculpando o Povo e a Família Real, pela decadência dos valores morais da sociedade.
     Arqui-inimigo da Companhia de Jesus, Sebastião José de Carvalho e Melo tinha de a aniquilar, assim como ao intrépido e incómodo missionário.
     O atentado contra D. José I, perpetrado na noite de 3 para 4 de setembro de 1758, despoletou uma catadupa de acontecimentos. Incriminados os Távora, as execuções ocorreram em Belém.
     O padre Malagrida, apelidado de herético e, depois, culpado do crime de lesa-majestade, foi entregue ao Tribunal do Santo-Ofício.
     Kéhindé teve descendência em Alhos Vedros.
     As invasões napoleónicas impeliram a Família Real à fuga para o Brasil, deixando o Reino a saque. Terminadas as invasões, o Reino seguia absolutista, cerceado da liberdade de pensamento e de expressão.
     A Junta Governativa semeou ódios.
     O General Gomes Freire de Andrade foi eliminado, o mesmo sucedendo a vários de seus correligionários.
     Venceram os ideais do Liberalismo, a que se seguiu a Vila-Francada.
     Tempos conturbados se viveram em Alhos Vedros, na família de António Kéhindé.


Francisco José Noronha dos Santos